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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Fatal Attraction
The Golden Gate Bridge is an iconic structure; a symbol of San Francisco, the West, freedom -- and something more, something spiritual, something words cannot describe.
The director and crew spent an entire year focusing on the Bridge. Running cameras for almost every daylight minute, they documented nearly two dozen suicides and a great many unrealized attempts. In addition, the director captured nearly 100 hours of incredibly frank, deeply personal, often heart-wrenching interviews with the families and friends of the departed, as well as with several of the attempters themselves.
THE BRIDGE is a visual and visceral journey into one of life's gravest taboos, offering glimpses into the darkest, and possibly most impenetrable corners of the human mind.
Available on DVD June 12, 2007
http://www.kochlorberfilms.com/product.asp?ID=KLF-3122
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
O ano 2012 é de Xangô
Balaio de Ideias: Que orixá rege o ano?
postado por Cleidiana Ramos @ 2:04 PM4 de janeiro de 2012
Mãe Stella faz preciosa reflexão sobre o Jogo de Búzios. Foto: Margarida Neide /Ag. A TARDE/ 08.11.2011
Maria Stella de Azevedo Santos
Este é um artigo que possui objetivo esclarecedor. Tentarei tornar compreensível um assunto que surge todo princípio de ano. A imprensa faz reportagens e as pessoas indagam uma das outras ou perguntam a si mesmas sobre o orixá que influenciará o novo ano que surge. Fazem isso na tentativa de adivinhar o que é preciso ser DIVINADO.
Adivinhar é fazer conjecturas sobre um tema usando a intuição, o que todo ser humano pode fazer. Divinar, todavia, é entrar em comunicação com o sagrado, através de rituais guiados por sacerdotes. É claro que todo ser vivo, por possuir uma parcela divina, é capaz de se conectar com os deuses. Mas a utilização de oráculos, os quais fornecem informações mais precisas sobre o destino da comunidade, requer uma preparação especial e um estilo de vida que propicia à intuição, inerente a todos, apresentar-se de maneira muita mais clara. A intuição se transforma aqui em revelação: quando os véus que encobrem os mistérios são retirados pelos deuses, a fim de que nossa jornada aconteça de uma maneira orientada e, assim, possamos cumprir a tarefa que nos foi legada com o mínimo de percalços possível, o que torna a vida bem mais leve.
Os leitores acostumados com os artigos que escrevo poderão estranhar a formalidade deste texto. É que “há tempo para tudo”: para contar anedotas, falar poesias, refletir sobre a vida… Esse tema pede seriedade! Faço isso porque creio ser a imprensa o meio ideal para esclarecer assuntos, que só não são melhor comentados por falta de oportunidade e conhecimento. Tendo agora essa oportunidade que me é dada pelo jornal A TARDE não quero desperdiçá-la. Mesmo tendo eu a consciência de que nada se modifica de um dia para o outro, aproveitarei o momento para tentar fazer com que a população melhor compreenda as respostas do oráculo trazido pelos africanos para o Brasil, esperando que as sementes aqui jogadas possam um dia florescer e dar bons frutos.
A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano, e sim qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam estas divindades e estão vinculadas à comunidade em que o Jogo de Búzios foi utilizado. Se isso não for bem esclarecido e, consequentemente, bem compreendido, parece que todos os sacerdotes erram em suas respostas, uma vez que uma Iyalorixá diz que o orixá do ano é Iyemanjá, enquanto outra diz que é Oxum, ou um Babalorixá diz que é Oxossi. Mesmo correndo o risco de o texto ficar enfadonho, insistirei em alguns pontos, a fim de elucidá-los melhor. No nosso Terreiro, o Ilê Axé Opo Afonjá, o regente do ano 2012 é Xangô. A referida divindade, que se revelou no Jogo feito por mim, não está comandando o mundo inteiro, nem mesmo o Brasil ou a Bahia. Ela é o guia das pessoas que, de uma maneira ou outra (mais profunda – como é o caso dos iniciados; ou mais superficial – os devotos que freqüentam a “Casa”), estão vinculadas a mim enquanto Iyalorixá, ou ao Terreiro em questão.
O leitor, diante dessa explicação, poderá ficar confuso e sentir necessidade de perguntar: “E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o Candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?”. A resposta é: Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita. Um católico, ou um protestante, será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda… Outra pergunta ainda poderá surgir: “E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão a toa?”. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta.
Que Xangô – divindade da eloqüência, da estratégia, do fogo que produz o movimento necessário a todo tipo de prosperidade – possa receber, de meus filhos espirituais, cultos suficientes para que fortalecido possa torná-los cada vez mais fortes para enfrentar as intempéries que todo ano traz consigo. Obrigado Ano Velho pelas experiências passadas para Ano Novo.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
T.S. Eliot (1888-1965)
4 de janeiro de 1965: Morre T. S. Eliot, expoente da poesia moderna e da crítica poética
04/01/2012 - 00:00 | Enviado por: Lucyanne Mano
"A poesia não é uma forma de desabafar a emoção, mas de escapar dela. Não é a expressão da personalidade, mas uma forma de fugir a ela. Mas apenas aqueles que têm personalidade e emoção sabem o significado de querer escapar dessas coisas". T. S. Eliot

Prêmio Nobel da Literatura de 1948, T.S. Eliot, 76 anos, morreu depois de uma longa existência voltada à arte que o escolheu, antes mesmo que ele a elegesse, Eliot indicou, com a sua obra, os rumos modernos da poesia e da crítica poética, tornando-se com o tempo a personificação do poeta.
GERONTION's
Eis-me aqui, um velho em tempo de seca,
Um jovem lê para mim, enquanto espero a chuva.
Jamais estive entre as ígneas colunas
Nem combati sob as centelhas de chuva
Nem de cutelo em punho, no salgado imerso até os joelhos,
Ferroado de moscardos, combati.
Minha casa é uma casa derruída,
E no peitoril da janela acocora-se o judeu, o dono,
Desovado em algum barzinho de Antuérpia, coberto
De pústulas em Bruxelas, remendado e descascado em Londres.
O bode tosse à noite nas altas pradarias;
Rochas, líquen, pão-dos-pássaros, ferro, bosta.
A mulher cuida da cozinha, faz chá,
Espirra ao cair da noite, cutucando as calhas rabugentas.
E eu, um velho,
Uma cabeça oca entre os vazios do espaço.
Tomaram-se os signos por prodígios: "Queremos um signo!"
A Palavra dentro da palavra, incapaz de dizer uma palavra,
Envolta nas gazes da escuridão. Na adolescência do ano
Veio Cristo, o tigre.
Em maio corrupto, cornisolo e castanha, noz das
faias-da-judéia,
A serem comidas, bebidas, partilhadas
Entre sussurros; pelo Senhor Silvero
Com suas mãos obsequiosas e que, em Limoges,
No quarto ao lado caminhou a noite inteira;
Por Hakagawa, a vergar-se reverente entre os Ticianos;
Por Madame de Tornquist, a remover os castiçais
No quarto escuro, por Fraülein von Kulp,
A mão sobre a porta, que no vestíbulo se voltou.
Navetas ociosas
Tecem o vento. Não tenho fantasmas,
Um velho numa casa onde sibila a ventania
Ao pé desse cômoro esculpido pelas brisas.
Após tanto saber, que perdão? Suponha agora
Que a história engendra muitos e ardilosos labirintos,
estratégicos
Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições,
Aliciando-nos com vaidades. Suponha agora
Que ela somente algo nos dá enquanto estamos distraídos
E, ao fazê-lo, com tal balbúrdia e controvérsia o oferta
Que a oferenda esfaima o esfomeado. E dá tarde demais
Aquilo em que já não confias, se é que nisto ainda confiavas,
Uma recordação apenas, uma paixão revisitada. E dá cedo
demais
A frágeis mãos. O que pensado foi pode ser dispensado
Até que a rejeição faça medrar o medo. Suponha
Que nem medo nem audácia aqui nos salvem. Nosso heroísmo
Apadrinha vícios postiços. Nossos cínicos delitos
Impõem-nos altas virtudes. Estas lágrimas germinam
De uma árvore em que a ira frutifica.
O tigre salta no ano novo. E nos devora. Enfim suponha
Que a nenhuma conclusão chegamos, pois que deixei
Enrijecer meu corpo numa casa de aluguel. Enfim suponha
Que não dei à toa esse espetáculo
E nem o fiz por nenhuma instigação
De demônios ancestrais. Quanto a isto,
É com franqueza o que te vou dizer.
Eu, que perto de teu coração estive, daí fui apartado,
Perdendo a beleza no terror, o terror na inquisição.
Perdi minha paixão: por que deveria preservá-la
Se tudo o que se guarda acaba adulterado?
Perdi visão, olfato, gosto, tato e audição:
Como agora utilizá-los para de ti me aproximar?
Essas e milhares de outras ponderações
Distendem-lhe os lucros do enregelado delírio,
Excitam-lhe a franja das mucosas, quando os sentidos esfriam;
Com picantes temperos, multiplicam-lhe espetáculos
Numa profusão de espelhos. Que irá fazer a aranha?
Interromper o seu bordado? O gorgulho
Tardará? De Bailhache, Fresca, Madame Cammel, arrastados
Para além da órbita da trêmula Ursa
Num vórtice de espedaçados átomos. A gaivota contra o vento
Nos tempestuosos estreitos da Belle Isle,
Ou em círculos vagando sobre o Horn,
Brancas plumas sobre a neve, o Golfo clama,
E um velho arremessado por alísios
A um canto sonolento.
Inquilinos da morada,
Pensamentos de um cérebro seco numa estação dessecada.
(tradução: Ivan Junqueira)
Prêmio Nobel da Literatura de 1948, T.S. Eliot, 76 anos, morreu depois de uma longa existência voltada à arte que o escolheu, antes mesmo que ele a elegesse, Eliot indicou, com a sua obra, os rumos modernos da poesia e da crítica poética, tornando-se com o tempo a personificação do poeta.
GERONTION's
Thou hast nor youth nor age, But, as it were,
an after dinner's sleep, Dreaming on both.(William Shakespeare, Measure for Measure,
"Não és jovem nem velho, / mas como, se após o jantar
adormecesses,/ Sonhando que ambos fosses.")
an after dinner's sleep, Dreaming on both.(William Shakespeare, Measure for Measure,
"Não és jovem nem velho, / mas como, se após o jantar
adormecesses,/ Sonhando que ambos fosses.")
Eis-me aqui, um velho em tempo de seca,
Um jovem lê para mim, enquanto espero a chuva.
Jamais estive entre as ígneas colunas
Nem combati sob as centelhas de chuva
Nem de cutelo em punho, no salgado imerso até os joelhos,
Ferroado de moscardos, combati.
Minha casa é uma casa derruída,
E no peitoril da janela acocora-se o judeu, o dono,
Desovado em algum barzinho de Antuérpia, coberto
De pústulas em Bruxelas, remendado e descascado em Londres.
O bode tosse à noite nas altas pradarias;
Rochas, líquen, pão-dos-pássaros, ferro, bosta.
A mulher cuida da cozinha, faz chá,
Espirra ao cair da noite, cutucando as calhas rabugentas.
E eu, um velho,
Uma cabeça oca entre os vazios do espaço.
Tomaram-se os signos por prodígios: "Queremos um signo!"
A Palavra dentro da palavra, incapaz de dizer uma palavra,
Envolta nas gazes da escuridão. Na adolescência do ano
Veio Cristo, o tigre.
Em maio corrupto, cornisolo e castanha, noz das
faias-da-judéia,
A serem comidas, bebidas, partilhadas
Entre sussurros; pelo Senhor Silvero
Com suas mãos obsequiosas e que, em Limoges,
No quarto ao lado caminhou a noite inteira;
Por Hakagawa, a vergar-se reverente entre os Ticianos;
Por Madame de Tornquist, a remover os castiçais
No quarto escuro, por Fraülein von Kulp,
A mão sobre a porta, que no vestíbulo se voltou.
Navetas ociosas
Tecem o vento. Não tenho fantasmas,
Um velho numa casa onde sibila a ventania
Ao pé desse cômoro esculpido pelas brisas.
Após tanto saber, que perdão? Suponha agora
Que a história engendra muitos e ardilosos labirintos,
estratégicos
Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições,
Aliciando-nos com vaidades. Suponha agora
Que ela somente algo nos dá enquanto estamos distraídos
E, ao fazê-lo, com tal balbúrdia e controvérsia o oferta
Que a oferenda esfaima o esfomeado. E dá tarde demais
Aquilo em que já não confias, se é que nisto ainda confiavas,
Uma recordação apenas, uma paixão revisitada. E dá cedo
demais
A frágeis mãos. O que pensado foi pode ser dispensado
Até que a rejeição faça medrar o medo. Suponha
Que nem medo nem audácia aqui nos salvem. Nosso heroísmo
Apadrinha vícios postiços. Nossos cínicos delitos
Impõem-nos altas virtudes. Estas lágrimas germinam
De uma árvore em que a ira frutifica.
O tigre salta no ano novo. E nos devora. Enfim suponha
Que a nenhuma conclusão chegamos, pois que deixei
Enrijecer meu corpo numa casa de aluguel. Enfim suponha
Que não dei à toa esse espetáculo
E nem o fiz por nenhuma instigação
De demônios ancestrais. Quanto a isto,
É com franqueza o que te vou dizer.
Eu, que perto de teu coração estive, daí fui apartado,
Perdendo a beleza no terror, o terror na inquisição.
Perdi minha paixão: por que deveria preservá-la
Se tudo o que se guarda acaba adulterado?
Perdi visão, olfato, gosto, tato e audição:
Como agora utilizá-los para de ti me aproximar?
Essas e milhares de outras ponderações
Distendem-lhe os lucros do enregelado delírio,
Excitam-lhe a franja das mucosas, quando os sentidos esfriam;
Com picantes temperos, multiplicam-lhe espetáculos
Numa profusão de espelhos. Que irá fazer a aranha?
Interromper o seu bordado? O gorgulho
Tardará? De Bailhache, Fresca, Madame Cammel, arrastados
Para além da órbita da trêmula Ursa
Num vórtice de espedaçados átomos. A gaivota contra o vento
Nos tempestuosos estreitos da Belle Isle,
Ou em círculos vagando sobre o Horn,
Brancas plumas sobre a neve, o Golfo clama,
E um velho arremessado por alísios
A um canto sonolento.
Inquilinos da morada,
Pensamentos de um cérebro seco numa estação dessecada.
(tradução: Ivan Junqueira)
Retrato em Branco e Preto (Chico Buarque)
Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração
"O riso amargo da agonia"
1988 - O fim do sofrimento de Henfil
04/01/2008 - 06:00 | Enviado por: Lucyanne Mano
"Eu ficaria aliviado se Henfil partisse hoje."
A afirmação do ator Carlos Moreno foi feita durante um show realizado no teatro paulista Projeto Leste destinado a arrecadar fundos para que Henfil continuasse pagando seu tratamento contra a Aids.
Poucos instantes depois, o sofrimento de Henrique de Souza Filho, chegaria ao fim. Internado há 47 dias no Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, morreu de insuficiência respiratória decorrente da síndrome da imunodeficiência adquirida que ele contraiu em uma transfusão de sangue.
A afirmação do ator Carlos Moreno foi feita durante um show realizado no teatro paulista Projeto Leste destinado a arrecadar fundos para que Henfil continuasse pagando seu tratamento contra a Aids.
Poucos instantes depois, o sofrimento de Henrique de Souza Filho, chegaria ao fim. Internado há 47 dias no Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, morreu de insuficiência respiratória decorrente da síndrome da imunodeficiência adquirida que ele contraiu em uma transfusão de sangue.
Nascido Henrique de Souza Filho em 1944 no norte de Minas Gerais, conheceu a realidade tipicamente sertaneja da região, experiência que enriqueceria a obra do cartunista que se tornaria 18 anos depois: Henfil.
Mineiro visionário
Assim o definiu o amigo, psiquiatra e escritor Hélio Pellegrino. Fez do humor criativo o porta-voz da sua revolta com as injustiças do mundo. Seus desenhos de caráter político, às vezes agressivamente irônicos, outras vezes quase líricos, revelavam seu engajamento na vida pública do país. Oportuno em suas criações, mesmo durante o período mais terrível da repressão, ele sempre achava um jeito de desmascarar, denunciar, ridicularizar, sempre com a arma do riso, aqueles que oprimiam a nação.
Assim o definiu o amigo, psiquiatra e escritor Hélio Pellegrino. Fez do humor criativo o porta-voz da sua revolta com as injustiças do mundo. Seus desenhos de caráter político, às vezes agressivamente irônicos, outras vezes quase líricos, revelavam seu engajamento na vida pública do país. Oportuno em suas criações, mesmo durante o período mais terrível da repressão, ele sempre achava um jeito de desmascarar, denunciar, ridicularizar, sempre com a arma do riso, aqueles que oprimiam a nação.
Os fradinhos, a Graúna, o cangaceiro Zeferino, o bode Francisco Orellana, o Caboco Mamador, seus personagens de algum modo davam alento aos que eram obrigados a calar sua justa indignação, dizendo aquilo o que eles não podiam dizer.
E nem mesmo a permanente ameaça da morte, primeiro o convívio com a hemofilia, depois com a Aids, o impediram de ser impregnado pela fagulha do humor.
O humor foi a libertação de seu destino.
Manuscrito inédito de Clarice Lispector
Fora os papéis guardados no arquivo de sua família, os manuscritos de Clarice Lispector são muito raros em coleções privadas. Com a fama cada vez maior da escritora e o número crescente de admiradores no exterior existe inclusive uma grande procura por seus documentos de parte de universidades, e Instituições, e colecionadores estrangeiros.
A página manuscrita aqui reproduzida contém uma frase belíssima que não chegou à versão publicada de A Hora da Estrela e que menciona Macabéa, talvez uma de suas personagens mais famosas. São apenas três frases: “Macabéa não sabia como se defender da vida numa grande cidade. Ela que tinha um sonho possível: o de um dia possuir uma árvore. Que árvore, que nada: não havia nem grama sob os seus pés”.
No final de sua vida Clarice andava anotando coisas em pedacinhos de papel, cheques, guardanapos e até mesmo maços de cigarros. Uma de suas secretárias vivia guardando os pedaços no envelope, e nesta página manuscrita aparece uma menção em outra letra para identificar o fragmento – provavelmente na caligrafia de sua enfermeira/assistente Siléa Marchi: “(Macabéa quando vem para o Rio)”. Clarice sofrera muito com as sequelas do incêndio que quase lhe custara a mão com que escrevia. Nos últimos anos estava bastante fraca, e o ferimento na mão também explica a letra pouco legível.

Sua editora principal era sua grande amiga Olga Borelli, que ajudou Clarice a organizar suas últimas grandes obras-primas como Água Viva, A Hora da Estrela, assim como o póstumo Sopro de Vida. A recente biografia de Clarice por Benjamin Moser cita Olga Borelli comentando o método editorial da grande escritora:
“Respirar junto, é respirar junto ... Porque existe uma lógica na vida, nos acontecimentos, como existe num livro. Eles se sucedem, é tão fatal que seja assim. Porque se eu pegasse um fragmento e quisesse colocar mais adiante, eu não encontraria onde colocar. É como um quebra-cabeça. Eu pegava os fragmentos todos e ia juntando, guardava tudo num envelope. Era um pedaço de cheque, era um papel, um guardanapo […] Eu tenho algumas coisas em casa ainda, dela, e até com cheiro de batom dela. Ela limpava o lábio e depois punha na bolsa […] de repente, ela escrevia uma anotação. Depois de coletar todos estes fragmentos, comecei a perceber, comecei a numerar. Então, não é difícil estruturar Clarice, ou é infinitamente difícil, a não ser que você comungue com ela e já tenha o hábito da leitura.”
Esse manuscrito inédito de grande interesse para a obra de Clarice me foi comunicado por seu atual detentor.
Autor: Pedro Corrêa do Lago
http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-manuscritas/geral/manuscrito-inedito-de-clarice-lispector
No final de sua vida Clarice andava anotando coisas em pedacinhos de papel, cheques, guardanapos e até mesmo maços de cigarros. Uma de suas secretárias vivia guardando os pedaços no envelope, e nesta página manuscrita aparece uma menção em outra letra para identificar o fragmento – provavelmente na caligrafia de sua enfermeira/assistente Siléa Marchi: “(Macabéa quando vem para o Rio)”. Clarice sofrera muito com as sequelas do incêndio que quase lhe custara a mão com que escrevia. Nos últimos anos estava bastante fraca, e o ferimento na mão também explica a letra pouco legível.
Sua editora principal era sua grande amiga Olga Borelli, que ajudou Clarice a organizar suas últimas grandes obras-primas como Água Viva, A Hora da Estrela, assim como o póstumo Sopro de Vida. A recente biografia de Clarice por Benjamin Moser cita Olga Borelli comentando o método editorial da grande escritora:
“Respirar junto, é respirar junto ... Porque existe uma lógica na vida, nos acontecimentos, como existe num livro. Eles se sucedem, é tão fatal que seja assim. Porque se eu pegasse um fragmento e quisesse colocar mais adiante, eu não encontraria onde colocar. É como um quebra-cabeça. Eu pegava os fragmentos todos e ia juntando, guardava tudo num envelope. Era um pedaço de cheque, era um papel, um guardanapo […] Eu tenho algumas coisas em casa ainda, dela, e até com cheiro de batom dela. Ela limpava o lábio e depois punha na bolsa […] de repente, ela escrevia uma anotação. Depois de coletar todos estes fragmentos, comecei a perceber, comecei a numerar. Então, não é difícil estruturar Clarice, ou é infinitamente difícil, a não ser que você comungue com ela e já tenha o hábito da leitura.”
Esse manuscrito inédito de grande interesse para a obra de Clarice me foi comunicado por seu atual detentor.
Autor: Pedro Corrêa do Lago
http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-manuscritas/geral/manuscrito-inedito-de-clarice-lispector
Nova York-Rio
por Rogério Daflon
O urbanista carioca esmiuça todo esse envolvimento, que confere à Grande Maça um sabor de democracia. Rodrigo, que projetou o Mercado Popular da Rocinha e está à frente do Projeto Nova Luz em São Paulo, escreve sempre sob a perspectiva do atual momento do Rio de Janeiro. Veja no texto abaixo.
"Nos últimos cinco anos muito se foi falado e comentado sobre a principal intervenção urbana de Nova York, a High Line (fotos), um parque público suspenso em uma estrutura de ferro elevada para trens de carga construída na década de 1930 e abandonada a partir da década de 1960, que cruza parte do sudoeste da ilha de Manhattan, mais precisamente na região conhecida como Meat Pack District, antiga área portuária da ilha. Este trecho da cidade é formado por antigos galpões e prédios industriais, uma arquitetura que pouco se vê na ilha e que foi preservada por conta do abandono e do desinteresse da especulação imobiliaria pela area. Esta região talvez fosse o ultimo bastião de uma Nova York “suja”, tipo uma Lapa dos anos 80, com seus bares e boates somente para iniciados. Madonna costumava ir a uma boate sob a “antiga” High Line, local que também era palco de renomados DJs da cena internacional do dance and trance music.
Entretanto, chegou a vez do meat pack district ser renovado, ou como dizem os antigos usuários da área, cleaned up. Na verdade, desde a decada de 80 tenta-se, sem sucesso, demolir a estrutura elevada para abrir espaço a novos empreendimentos comerciais. Por conta disso, na decada de 90, moradores se organizam para lutar pela preservaçao da high line e, conscientes ou não, levantam uma importante questão: a complexidade está na diversidade ou a capacidade da sociedade em preservar sua história e ao mesmo tempo prover usos compatíveis com as demandas (implícitas) contemporâneas.
Neste contexto, a reconversão da High Line (www.thehighline.org) é um ícone urbano desta transformação: um parque que descortina as mais belas paisagens da região, uma intervenção que se propõe abrir os olhos e o coração das pessoas para a beleza, os detalhes e as particularidades da área. Desconcertante, pois atua como um atrator da renovação urbana e ao mesmo tempo um “vigilante” da paisagem do antigo meat pack district.
Os usos vão pouco a pouco mudando à medida que a área se valoriza, e galpões e armazéns já nao têm mais vez como depósitos. Mas são suas formas e espacialidades únicas que de fato atraem novas atividades e fomentam esta valorização. Os recentes prédios residenciais de Frank Ghery e Jean Nouvel surgem a partir deste contexto e com ele dialogam. Percebe-se claramente que Nova York mudou muito desde quando Jane Jacobs escreveu seu livro seminal The Death and Life of Great American Cities, retratando como, na decada de 50, o governo local intervinha de forma arbitrária demolindo construções, paisagens e bairros para abrir caminho as avenidas e a especulação imobiliaria. Em resumo: destruia a complexidade para construir a banalidade.
Por tudo descrito acima, creio que Nova York (e seu “novo” Meat Pack District) despontam como uma importante referência para as intervenções pensadas na área portuária do Rio de Janeiro, uma área muito especial por conta de sua história, arquitetura e espacialidade (única na cidade) e sociedade. As imagens do projeto urbano carioca divulgadas até o momento mostram um amontoado de torres de 40 a 50 andares – em substituição aos belos galpões - na franja da Baia de Guanabara, obstruindo (e destruindo) a bela paisagem desta região. Se esta imagens são de fato o que será construído, temo que esta intervenção na área portuária do Rio esteja, pelo menos, 50 anos defasada em relação a NY.
Como está tudo no papel, os cariocas ainda podem mudar seu futuro e, assim como fizeram Jane Jacobs e a associação de amigos da High Line, construir uma cidade tão interessante e plural quanto NY. E que venha 2012, e sem resquicios de 1950!"
http://oglobo.globo.com/blogs/rioreguaecompasso/
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