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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Viva o Índio



Índio Yanomami beijado por um beija-flor. “Foi um instante precioso. Tive muita ...sorte em estar com a máquina por perto. Neste dia eu e alguns repórteres da Alemanha conversávamos com os meninos da aldeia enquanto esperávamos o almoço. Perto de nós havia uma árvore cheia de beija-flores. Quando vi aquela cena simplesmente foquei e apertei o botão. Enquanto isso, os alemães saíram correndo para buscar a câmera e quando voltaram já era tarde demais.” Rosa Gauditano.

Rosa Gauditano
Há mais de dez anos fotografando índios, Rosa Gauditano conta que o interesse pelo assunto surgiu quando foi fazer a cobertura jornalística do Encontro de Altamira, no Pará. Desde então não parou mais de documentar o que chamamos genericamente de índios brasileiros, mas que na verdade são mais de duzentas etnias falando cerca de cento e setenta línguas diferentes.
Seu trabalho foge do folclórico ou do turístico, penetrando no dia-a-dia das tribos com uma intimidade facilmente mostrada nos olhares símpáticos e confiantes com que os modelos brindam suas lentes. As fotos de Rosa Gauditano transmitem um respeito e um orgulho que a realidade brasileira insiste em negar aos índios, seja através do paternalismo estatal ou da exploração econômica. O índio aqui retratado não é o ideal romântico dos autores nacionalistas nem o chamariz folclórico do turismo interno e externo. O que vemos são pessoas normais, com hábitos culturais diferentes, mas certamente tão humanos como nós. O rapaz kayapó leva seu macaquinho às costas com a mesma naturalidade que um menino urbano carregaria seu gameboy.
Como diz Rosa Gauditano: "As populações indígenas têm muito a ensinar sobre os segredos da vida e da natureza do Brasil. Para que isso efetivamente ocorra, será preciso apoiá-los em sua luta pela sobrevivência e manter o espírito aberto para aprender com eles." — com Silvy Bertoja Fernandes.
 
Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração.
 
 
 
 

Às entranhas - LUIZ FERNANDO VERISSIMO


 

A questão da liberação ou não do aborto é uma questão antiga como a tragédia grega. Em Antígona, escrita séculos antes de Cristo, Sófocles já tratou do que é, no fundo, o que se discute hoje, os limites da intervenção do estado na vida e nas crenças das pessoas. Antígona quer enterrar seu irmão, morto em guerra contra Tebas, e por isso condenado pelo rei de Tebas a permanecer insepulto. A peça é sobre o confronto de Antígona com o rei Creon, do sentimento com a lei, do indivíduo com o estado, do poder da compaixão e dos rituais familiares com o poder institucionalizado e prepotente. A lei de Tebas proíbe o sepultamento do irmão de Antígona, que se rebela e o enterra assim mesmo, com o sacrifício da própria vida. Em gerações ainda por vir o confronto de Antígona e Creon se repetirá. No caso do aborto, em países como o Brasil, em que a legislação a respeito ainda não foi modernizada, a intervenção do estado chega às entranhas da mulher. É a lei que decide o que a mulher deve fazer ou não fazer com o filho indesejado, ou que ameaça a sua vida. E esta é uma decisão que deveria acontecer o mais longe possível de qualquer consideração legal, no íntimo da mulher, que é dona do seu corpo e do seu destino. Nem é preciso lembrar que a legislação atrasada força mulheres a recorrer ao aborto clandestino, em condições precárias,com riscos que não existiriam no caso da legalização.

Discute-se quando começa a vida, o que equivale a fixar em que ponto o feto, de acordo com a lei, passa a ser protegido do estado. Mas do começo ao fim da gestação o feto faz parte do corpo da mulher. O ideal é o processo se completar sem interrupção, ninguém quer a banalização do aborto, mas até a criança ser “dada à luz” ela pertence à mulher, a quem cabe tomar decisões sobre sua vida tanto quanto sobre sua própria vida. O estado não tem nada a fazer neste arranjo particular, salvo assegurar as melhores condições possíveis para o parto ou para o aborto.



SEM SEPULTURA

A analogia com a peça de Sófocles também serve para o que se pretende com a investigação do que houve durante a repressão aos contestadores do regime militar. No caso a analogia é ainda mais apta, pois um dos objetivos da tal Comissão da Verdade é localizar os corpos dos insurgentes mortos, que permanecem não insepultos mas em covas desconhecidas, enterrados sem cerimônias ou identificação. Antígona quer que o estado devolva o corpo do seu irmão à família, para enterrá-lo. Ele não pertence mais ao estado, nem a quem o armou para atacar o estado. Não pertence mais à História. Agora é apenas um irmão morto sem uma sepultura digna.

 http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/04/as-entranhas-luiz-fernando-verissimo.html

Pequenas grandes efemérides - Ruy Castro

 

RIO DE JANEIRO - E dá-lhe de efemérides. Até agora, raro o dia de 2012 em que não me telefonam para perguntar sobre algo que está fazendo 30, 50 ou 100 anos -como se, a exemplo do falecido jornalista Bricio de Abreu, eu fosse uma testemunha ocular da história. Aliás, conheci Bricio, em 1967, na antiga Fiorentina, no Leme, e fiquei besta: não havia evento do século 20 que ele não tivesse presenciado -do recital do maxixe "Corta-Jaca" no Palácio do Catete, em 1914, aos beijos de Isadora Duncan em João do Rio, em 1915, e à primeira audição de "Dorinha, Meu Amor", em 1929. E olhe que, naquela noite, Bricio tinha pouco mais de 60 anos.

Mas há, sim, muito a comemorar em 2012. Só na literatura, são os 100 anos de Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Lucio Cardoso. Na música popular, os de Luiz Gonzaga, Mario Lago, J. Cascata (coautor de "Lábios que Beijei"). Os do Santos e os da criação do futebol no Flamengo (que, até então, só tinha o remo), da tragédia do "Titanic" e da difusão, por Chiquinha Gonzaga, da palavra forrobodó -arrasta-pé, farra, confusão-, que acabou reduzida a forró.

São os 50 anos da Copa do Mundo no Chile. De "Garota de Ipanema", "Moon River", "Et Maintenant" e das marchinhas "Oba!", do Bafo da Onça, e "Segura a Chupeta", do Bola Preta. De filmes como "Os Cafajestes", em que Norma Bengell corria nua na praia, "Lawrence da Arábia" e "O Homem que Matou o Facínora". Da morte de Marilyn Monroe e, queira você ou não, são também os 50 anos dos Rolling Stones.

E são os 30 anos da Guerra das Malvinas. Da última seleção brasileira (a de Zico, Sócrates, Falcão). Da morte de Elis Regina. Da criação do Dia Internacional do Beijo. Da gravação, por Neuzinha Brizola, de seu grande hit "Mintchura". Do-

É bom parar. Desde então, as efemérides foram ficando cada vez mais efêmeras.
 
http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/04/ruy-castro-pequenas-grandes-efemerides.html
 

a simplicidade de um casal feliz - Danuza Leão

colunistas-danuza-leao
Danuza Leão
(Foto: Nana Moraes)
 
Era um fim de tarde entre o Natal e o Ano Novo e caía uma chuva fininha que não dava trégua, como acontece no inverno de Paris. O Boulevard St. Germain estava todo iluminado e as vitrines eram uma verdadeira festa. Um casalzinho jovem parou diante de uma delas para olhar.
Era evidente que eles vinham de uma cidade pequena para passar o fim de ano em Paris. Todo mundo andava rápido para não se molhar, mas eles nem ligavam, tão embevecidos estavam com o que viam. Detalhe: a loja era de roupas e acessórios e na vitrine não havia o preço de nada.
Depois de conversarem muito tempo, baixinho, eles enfim entraram; entraram, veio a vendedora, a moça pediu para ver uma das echarpes e procurou um espelho para observar como ficava.
A vendedora foi junto e houve uma longa sessão em que foram mostradas as diversas formas de usar uma echarpe: fazendo duas voltas em torno do pescoço e deixando as pontas nas costas; dando um nó do lado e jogando uma ponta para a frente e a outra para trás; sobre a cabeça, cruzando na parte da frente do pescoço; enrolada na alça da bolsa; por dentro do casaco; e as mil outras que todas as mulheres já nascem sabendo – como ela. Mas eles deveriam estar de acordo, os dois, para que a compra fosse feita. Estava claro que eram casados fazia pouco tempo e se amavam.
Detalhe: em países ricos, como a França, a compra de uma echarpe é uma coisa banal e rápida – e aquela nem custava muito caro –, mas para o jovem casal, percebia-se, era uma transação importante. E uma mulher que ama não faz uma compra dessas sem saber a opinião do marido. A vendedora foi atender outro tipo de cliente, aquela que em um minuto decide se compra ou não; se sim, tira o cartão de crédito, paga e sai. Mas o casal tinha todo o tempo do mundo e trocava ideias sobre se devia ou não levar a echarpe. Afinal, estavam em Paris e provavelmente aquele seria o presente de viagem dele para ela.
A vendedora percebeu que devia deixá-los em paz e eles olharam a loja inteira – sempre com a echarpe na mão. Ela voltou para a frente do espelho – com ele ao lado –, fez mais algumas experiências de como poderia usá-la, os dois se olharam e tomaram a decisão: iam comprar.
Procuraram a vendedora e ele – ele – disse que haviam resolvido. A echarpe foi embrulhada em papel de seda e colocada numa sacola de papel grosso, e não na costumeira sacola vermelha de tecido com o logotipo da loja, para ser protegida da chuva. A conta foi paga com cartão, e na hora de ir embora a moça perguntou baixinho à vendedora se não poderia botar dentro da sacola de papel a sacola de algodão vermelho para levar de recordação – o que foi feito.
Eles saíram debaixo da chuva, que caía um pouco mais forte, de mãos dadas, mais felizes do que se tivessem comprado o mais valioso diamante da mais luxuosa joalheria da cidade, e quem acompanhou tudo teve um pequeno aperto no coração e uma inexplicável e rápida vontade de chorar. Gente simples, ingênua e feliz às vezes provoca mesmo essas reações bobas.

Danuza Leão é cronista, autora de vários livros, entre os quais Fazendo as Malas (Cia. das Letras) e É Tudo Tão Simples (Agir)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

LEROS E LEROS E BOLEROS - SÉRGIO SAMPAIO

Vou Vivendo - Jacob do Bandolim



Acenda a lamparina,
não, vou precisar de farol...
o caminho tem curvas
e eu ando sem mapa,
sem bússola,
sem régua,
sem compasso,
sem ganas,
sem saber onde vou...
RS 04/18/12

AWESOME!

Remembering how lucky we are to be here right now

So let’s stop for a second and pull back. Let’s pull way, way, way, way back.

Okay.
You used to be a sperm.
Now don’t get self conscious. We all used to be sperm. Check out the period at the end of this sentence. That tiny little dot is around 600 microns wide. When you were a sperm you were about 40 microns wide. And you were so cute back then too with your little tail wagging all over the place and your love of swimming. Boy could you swim. In fact if you hadn’t outswum your siblings, you might be a slightly different version of yourself right now. Maybe you’d have a higher-pitched laugh, hairier arms, or stand two inches shorter.
You had a great life as a sperm but always felt incomplete. The truth is you weren’t whole until you met an egg. And then you two began a nine month project to make a cool new version of you. It took a while but you grew arms and legs and eyeballs and lungs. You grew nerves and nails and eardrums and tongues.

For a sperm to meet an egg it means your mom met your dad. But it’s not just them. Think about how many people had to meet, fall in love, and make love for you to be here. Here’s the answer: A lot. Like a lot a lot.
Before they had you, none of your ancestors drowned in a pond, got strangled by a python, or skied into a tree. None of your ancestors choked on a peach pit, were trampled by buffalo, or got their tie stuck in an assembly line.
None of your ancestors was a virgin.
You are the most modern, brightest spark of years and years and years of survivors who all had to meet each other in order to eventually make you.

http://1000awesomethings.com/

A juventude eterna de Paul

Paul McCartney, aos 69 anos, se apresenta no Brasil pela quinta vez para estádios lotados. Sua música continua a fascinar os jovens. "Não há mais conflito de gerações", diz o britânico a ÉPOCA

LUÍS ANTÔNIO GIRON COM ISABELLA AYUB E RAFAEL PEREIRA      
          
QUANTA ENERGIA O músico Paul McCartney em 2010.  Em seu novo show, ele apresenta  30 músicas em três horas  e meia de espetáculo (Foto: MJ KIM)
 
 
 
Paul McCartney completará 70 anos em 18 de junho. Apesar da idade, o astro inglês continua a fazer turnês e a emocionar um público cada vez mais numeroso, e jovem. O músico, a banda e a equipe, ao todo 95 pessoas, chegam ao Brasil na semana que vem para o show On the run. Ele estará no Estádio do Arruda, no Recife, nos dias 21 e 22, e no Estádio da Ressacada, em Florianópolis, no dia 25. É a terceira vez que Paul vem ao país em dois anos. No Recife, os 90 mil ingressos se esgotaram. De acordo com o empresário Luiz Oscar Niemeyer, que traz Paul ao Brasil há duas décadas, se houvesse mais espetáculos, as entradas acabariam em poucas horas. Não é privilégio do Brasil. A paixão pelo ex-beatle se mostrará de novo em 4 de junho, no Palácio de Buckingham, no espetáculo pelo jubileu de Elizabeth II. “Percebo que os mais novinhos estão ali, diante do palco, cantando todas as músicas e se emocionando”, disse Paul em entrevista exclusiva a ÉPOCA (leia na edição que chega às bancas nesta sexta-feira). “Não há mais conflito de gerações.”
Há outros astros da geração de Paul que ainda atraem público. Nenhum se compara a ele. Seu companheiro de Beatles, o baterista Ringo Starr, tocou no Credicard Hall, em São Paulo, em novembro de 2011. O público era formado por saudosistas, com idade média de 40 anos. Os Rolling Stones são poderosos chamarizes – sobretudo para quem tem mais de 30 anos. Paul é capaz de arrastar famílias inteiras a suas apresentações; avós, pais e netos. “Os Rolling Stones atraem gente madura. Os jovens comparecem em peso às turnês do U2. Só o Paul atrai todas as faixas de idade”, diz o diretor de produção de On the run, Francisco Dourado – que montou palcos dos principais megaeventos que ocorreram no Brasil nos últimos anos.
 

 
 
Encher casas de show não é problema para Paul desde 1961, quando se destacou como baixista dos Beatles. O quarteto de Liverpool foi pioneiro em cantar em estádios para dezenas de milhares de pessoas desde a primeira turnê pelos Estados Unidos, em 1964. Com a dissolução dos Beatles em 1970, Paul continuou por dez anos a fazer shows e a gravar discos de sucesso à frente da banda Wings. Em 1990, após uma pausa de nove anos, apostou na carreira solo. Assumiu, então, a herança do cancioneiro dos Beatles. Seu show atual compreende 30 músicas e dura três horas e meia. Canta os clássicos do grupo de Liverpool, mas também lança canções – como “My Valentine”, do CD Kisses on the bottom (2011). “Na turnê passada, mais da metade dos 450 mil ingressos foi de meia-entrada”, diz Niemeyer. “Isso mostra que o público de Paul é, em sua maioria, jovem. O mesmo perfil se repete nesta excursão.”
Na entrevista exclusiva que concedeu a ÉPOCA, Paul se diz realizado por reunir famílias com sua música. Para ele, cantar em estádios no Brasil é a continuação real do sonho dos Beatles. E revela um desejo: "Quero me encontrar com músicos brasileiros para gravar bossa nova".

http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/04/juventude-eterna-de-paul-trecho.html

terça-feira, 17 de abril de 2012

“Gosto que as coisas atinjam o que idealizei” Maria Bethânia

7 de abril de 2012
Ronaldo Jacobina

Foto: Alexandre Brum


Fui encontrar Maria Bethânia, 65, na sede da gravadora Biscoito Fino, numa belíssima casa na bucólica Rua Sarapuí, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. Era meio-dia. Dali a dois dias, a artista, que está completando 47 anos de carreira, lançaria, ali mesmo, numa entrevista coletiva com jornalistas de todo o Brasil, o 50º álbum, batizado de Oásis de Bethânia. “Estou preparando meu colete à prova de balas”, gargalha, como, aliás, fará várias vezes durante toda a nossa entrevista, que se estendeu até o meio da tarde, sem que aparentasse qualquer sinal de cansaço. “Não se preocupe, menino, sou muito conversadeira”, diz. Aos poucos, fui me livrando do nervosismo de fã que sou, desde menino. Diante de mim, não está a grande estrela, mas uma menina que parece ter vivido sempre na sua amada Santo Amaro. Tirar seu bom humor, só quando as coisas que rodeiam seu trabalho não saem como ela quer. Aí é voluntariosa. Cuidadosa com as palavras, seu principal instrumento de trabalho e pelo qual tem verdadeira devoção, Bethânia fala da relação com a família; da juventude, época em que diz ter “pintado” muito; do amor pelo ofício; das modernidades dos tempos atuais e da falta de delicadeza do mundo. De uma leveza que a faz parecer flutuar na cadeira à minha frente, tal como quando está no palco, Bethânia ri das lembranças e diz que o sertão é o seu oásis. De bem com a vida, vai tocando em frente, espalhando poesia e encantando multidões. Definitivamente, Maria Bethânia é uma diva!
Você é muito criteriosa com seu trabalho. Com Oásis de Bethânia, lançado recentemente, você chegou à marca de 50 discos gravados. Você sofre muito com o processo de produção de um novo álbum?
Não sofro, não. É o momento que mais gosto. É quando eu sou a pessoa mais feliz. Quando estou criando alguma coisa, imaginando, querendo, pretendendo, essa hora é boa para mim, é quando eu gosto. Porque quando eu não tenho, assim, nada para me ocupar, por exemplo, quando termino um disco ou uma turnê, fico inventando alguma coisa. Trabalho acordada, dormindo, cozinhando, namorando, lendo (ri).
Tem aquela rigidez, tipo ficar escrava do projeto?
Não, porque é prazer para mim. Isso eu lhe digo, é prazer para mim.
Mas você é perfeccionista?
Sou. Insuportável. Eu gosto das coisas assim. Não é que eu seja perfeccionista, porque não gosto dessa coisa de chegar à perfeição, isso eu detesto, mas eu gosto que as coisas atinjam o que eu idealizei. Enquanto não consigo, não sossego.
Isso com sua vida pessoal também?
Não, não. Isso com o trabalho, porque o trabalho é a minha vida, eu sou assim. O que eu faço, sei aonde quero chegar na sonoridade, na interpretação, na maneira de articular a palavra, no que eu quero de peso, de suavidade. Tudo isso. Aí eu fico exigente. Enquanto não chega a isso, para mim, não está pronto.
O povo de Santo Amaro, assim como sua família, tem fama de festeiro. Você, durante anos, badalou muito. Depois ficou mais recolhida. Como é que você se relaciona com a festa hoje em dia?
Assim, eu sou santo-amarense, sou festeira, sou filha de minha mãe. A gente costuma brincar lá em casa que somos Viana Telles Velloso, Viana de minha mãe, Telles Velloso de meu pai. O lado Telles Velloso não é muito de festa; já o Viana, não adianta, porque tudo acaba em festa. Eu sempre falo que sou Viana. Em tudo eu sou Viana, é inacreditável. Eu sou muito o lado de minha mãe, de minha avó. Assim, aquela coisa bem caseira. Eu fiz uma casinha para mim em Cabuçu agora, copiei a casa de minha avó que eu tinha na memória. Simples. Para mim, tinha tudo de necessário, de bonito, de elegante. Lá na Bahia, eu frequentava muito todos os ambientes de arte. Eu participava do clube do cinema, junto com Caetano, ia para o Mercado Modelo. Eu conhecia a Bahia toda, andava a Bahia inteira, aquele Vale do Canela, a Reitoria, a Escola de Teatro, a Escola de Dança, pronto, aquilo era minha morada. Nossa morada. Gostava muito desse convívio com o mundo artístico. Quando vim para o Rio, aos 17 anos, fiz 18 aqui, fiquei maior, podia definir melhor minhas escolhas. Aí, meu amor, caí na gandaia. Aí no Rio de Janeiro não tinha lugar que sobrasse que eu não fosse. Cantava muito na noite, fiz todas as casas, boates do Rio e São Paulo. Então eu vivia muito tudo aquilo, os restaurantes… Eu nunca fui de festa, mas saía com os amigos para conversar, dar risada. Agora eu p-i-n-t-e-i, com 18, 20 anos. Aos 25, eu sapateei. Mesmo nessa época, eu já tinha fama de caseira. Tenho muitos amigos, nunca fui de frequentar a casa de ninguém, eles vêm à minha. Eu sou interiorana.
Você continua uma menina de Santo Amaro?
Continuo não, eu sou. Cada vez, tô pior. Morro de saudades, enlouqueço. Quando tenho uma folga, vou correndo para Santo Amaro. Morro de rir com o povo. Adoro ouvir as histórias, amo, é a coisa que mais me relaxa, que mais me faz bem. As brincadeiras lá de casa… No aniversário de Clara, que nasceu num domingo de Carnaval, ao meio-dia, ela disse que nos 80 anos queria fazer um grito de carnaval como daquela época. Então Caetano e eu fizemos para ela, e foi inesquecível aquele momento, 40 convidados. Para mim, aquilo é lindo, fico apreciando, não brinco muito, não, mas fico ali contemplando aquela alegria, e isso me faz um bem danado. Tão bonito!
E Salvador, você também tem uma casa lá. Como é sua relação?
Eu tenho uma casa lá e tenho uma grande relação com Salvador. Tenho uma grande adoração pelo mar. Eu tive uma outra casa, no Morro do Gato, que era um lugar muito grã-fino, que tinha uma vista para aquele mar lindo, mas eu não tinha muita intimidade com aquela Salvador ali. Pelo contrário, achava sem clima baiano, achava uma natureza… não sei, não sentia a Bahia. Quando fui para essa casa atual, o Solar Amarelo (Contorno), ali eu sinto estar em Salvador. Primeiro, aquela baía, não é mar aberto, é a Baía de Todos-os-santos, Ponta de Nossa Senhora, Ponta de Areia, Itaparica, Mar Grande, toda a encosta do Bonfim, Ponta de Humaitá, tudo aquilo ali que, para mim, é a Bahia. Quando era estudante na Bahia, em Salvador (nós de Santo Amaro chamamos Bahia, em vez de Salvador), era ali que eu vivia. Conceição da Praia, o Mercado Modelo ainda era cá, mas você vê, foi uma feliz coincidência, eu adoro, eu olho a cidade dali, da minha janela, gosto muito…
Você acompanha a cidade?
Acompanho até um pedaço, já acompanhei mais. Também chorei muito. Pergunto, me informo, conheço pessoas que têm decisões na prefeitura, no governo, mas são coisas que já estão definidas, que você, no meu caso, não tem muito o que fazer. O que posso fazer é cantar. A minha casa hoje, o Solar Amarelo, é uma ilha, está tudo vendido ao redor. Está tudo muito perdido, sem controle…
Quando está na Bahia, você sai muito?
Eu vou muito para Santo Amaro, Cabuçu, e passeio muito de barco, que adoro. Porque restaurantes, eu não gosto. Gosto de comida de casa, de estar com as pessoas. Eu tenho família muito grande, muitos sobrinhos, com seus namorados, suas namoradas. Aí vai ampliando, chegando gente, ficando simpático. Mabel mora perto, Clara mora perto, Jota (Velloso), todo mundo vai a pé. Tem o Largo 2 de Julho, que é a minha paixão. Os anos que vivi na Bahia, foi no Anjo Azul, que era naquele beco lá. O lugar era um sonho. De dia no mercado, de noite no Anjo Azul (risos).
Você faz ginástica, dieta, cuida do corpo?
Não. Eu como de tudo, não tenho frescura. Digo frescura porque nunca fui assim, tenho o corpo do jeito dos Velloso, desde menina. Gosto de comida boa. Como feijão todos os dias. Gosto da comida de todo dia, feijão, arroz, carne ou peixe, assim. A comida baiana tem uma coisa que é gostosa demais. Não como vatapá porque é bom demais, mas tem um gosto muito pronto, não dá para imaginar, e eu gosto de pensar, ficar imaginando coisas. E gosto de comer bem, sou chata. Sou filha de dona Canô, gostamos de comer (ri).
Você é do candomblé e é devota de Nossa Senhora. Como vê essa questão do sincretismo religioso?
Meu berço é católico. Depois de adulta, escolhi o candomblé. Eu acho muito bonito, muito nobre, tanto o catolicismo quanto a religião africana. Cada um do seu jeito, com seus rituais diferentes, suas cantigas bonitas, lá e cá, gosto de comungar, como gosto de comer um omolokum, você entende? Acho tudo bonito, sagrado, Bahia…
Como lida com o assédio de fãs? Isso a incomoda?
Eu não tenho muito assédio de fã, não. As pessoas que gostam de mim falam comigo com um certo cuidado, porque não sou muito de aparecer. As pessoas chegam a mim, reverenciam o meu trabalho. Tudo lindo, com respeito.
E você gosta disso?
Gosto. É o que quero. O artista tem que chegar levando o melhor que puder. Para abrir a cabeça, botar para pensar, para sentir, lembrar que tem sentimento, que tem dor, amor, prazer, que tem dificuldades… O artista deve fazer isso.
E aqui no Rio de Janeiro, você tem vida normal, vai a shopping, compra as próprias roupas?
Vou, vou. Eu tenho algumas facilidades, afinal são 47 anos de carreira. Algumas lojas são gentis, mandam roupas para eu escolher em casa, mas vou a shopping, sim. Não aqueles enormes, que não gosto. Vou aqui em São Conrado, onde eu moro. Sinto falta das lojas nas ruas.
Você tem acompanhado o que acontece, atualmente, com a música baiana?
Vejo, impossível não ver (gargalha), tem que ver. Vejo mais no Carnaval, quando fico procurando a hora que Ivete (Sangalo) vai aparecer na TV, para dar risada com as coisas que ela vai dizer, acho engraçado. Daniela faz sempre aquelas coisas diferentes, teatrais, está sempre inovando. Ela me convida, mas digo: não vou não, meu amor. Eu admiro isso. Acho interessante as brincadeiras do (Carlinhos) Brown, de ir no chão; da Timbalada; dos blocos negros, acho lindo. Aquilo é muito bonito!
E o pagode baiano, você conhece?
Pois é, nos carros, o volume é sempre muito alto. Vi que tem uma lei antibaixaria, achei interessante a ideia de que toda banda que fizer letra depreciando a mulher não pode ter patrocínio do governo. Acho isso bom, faz diferença, porque fica feio. Eu não ouço, só o que passa em alto volume.
Você diz que seu trabalho nunca lhe trouxe aborrecimentos, mas os periféricos, sim. O que são esses periféricos?
Não, não, no meu trabalho em si, não. Mas a periferia do meu trabalho, sim. Compromissos… Tudo na vida tem chateação, e é bom que tenha.
Entrevista, por exemplo?
Não, não, de jeito nenhum. Eu sou muito conversadeira. Maysa é que dizia que não gostava de dar entrevistas, eu não. Mas tem coisas que eu não gosto. Eu sou exigente, se o cenário está enviesado, só sossego quando fica bom. Isso vem de tudo o que rodeia todo tipo de serviço. A exposição, no meu caso, tem horas que é insuportável para mim. A coisa da vitrine, você estar em cena. Talvez por isso tenha tanto essa coisa reservada, porque preciso. Tem horas que me enche o saco. Eu estar dormindo e me lembrar que tem alguém me vendo, eu falando, eu cantando, na televisão. Me estremece toda, isso eu detesto.
Por isso você faz tão pouco televisão?
Eu não faço televisão. Eu faço algumas coisas fora da televisão que depois passam na televisão (risos).
E você costuma se ver depois no ar?
De jeito nenhum. Me cansa. A exposição na vida artística é difícil. Isso é uma coisa periférica que não gosto.
Você diz que não gosta de ler jornal, de ver televisão, mas você está sempre informada. Como é que você se informa?
TV aberta eu não suporto, vejo, às vezes, telejornal. TV por assinatura eu vejo. Mas não leio jornal. O Wally (Salomão) dizia que eu ficava em São Conrado com a parabólica ligada o tempo todo. Eu sou antenada e falo muito com pessoas que me interessam. Todos os dias.
São elas que a atualizam?
Eu tenho diálogo. Eu falo sobre teatro, sobre música, política, falo de tudo. Essa massificação de notícia, eu detesto. Me estressa também.
E a internet, você usa?
Pouquíssimo. Não tenho intimidade. Meu trabalho exige que eu diga sim ou não para uma coisa, então eu resolvo ali. Só.
Facebook, redes sociais, nem pensar.
Não, nem sei o que é isso. Não está me fazendo falta. Outro dia eu estava com minha mãe e uma amiga me ligou dizendo ter visto uma foto minha com mãe chegando a Cabuçu. Eu quase morri. Porque isso é uma invasão muito grande na intimidade das pessoas. Esse negócio de internet, o acesso é livre, todo mundo pode, todo mundo gosta, todo mundo quer. Não tem mais o privado, é tudo público. E não é. Uma vez, no meu camarim, no Canecão, eu estava fazendo Amor, festa e devoção, e Caetano chegou com muitos amigos no meu camarim, que é arrumado, eu levo muitas horas no meu camarim. Antes e depois do show. E o meu camarim tem uma linha (ri), segue-se um roteiro ali, muito bem guardado. Eu recebo as pessoas na porta. Entrar no meu camarim, onde eu trabalho, onde eu estudo meu show, minha interpretação, só alguns. Claro que entrando com um amigo meu, com meu irmão, naturalmente eu imagino que são pessoas que têm nível e limites. Então, lá entrou Caetano, com umas pessoas lindas. De repente vi pelo espelho uma dessas pessoas fotografando tudo no meu camarim. Eu virei para ele, tomei o telefone, joguei no chão e comecei a pisar. Não sabia o que sobraria daquele aparelho. Ele disse: eu só estava fotografando. Bia Lessa estava lá e disse assim: ‘Essa é a diferença entre o privado e o público, você entrou porque estava acompanhado’. As pessoas parecem que não têm mais limite. O outro não existe. Não aprendi assim e não quero aprender. Com isso eu sou rigorosa.
No ano passado, houve uma polêmica com o seu nome sobre a criação de um blog de poesia, que seria submetido às leis de incentivo para a captação de recursos. O que você sentiu com aqueles ataques a você?
Na época, nem entrei nesse debate, não quis falar. Dois queridíssimos amigos meus, o Vianna (Hermano) e o Andrucha (Waddington), duas pessoas que só fazem ao Brasil muitíssimo bem, me convidaram para ler poesia. Fiquei muito honrada. Eles enviaram o projeto para a lei e foi aquela situação. Desde que me entendo por gente, sou muito séria, faço meu trabalho, faço minha vida sossegada, não sou de turma, não me dou, minha praia é minha praia… Isso, há anos, vem causando muita reverência, muito respeito, muito reconhecimento… Fiquei triste porque usaram meu nome, me usaram para me bater, mas isso faz parte da vida. Eu sou como Chico (Buarque): “Não me quebro porque sou macia”.
Sua mãe diz que você liga tanto para ela que chega a enjoar…
(Gargalhada) Ai de mim que não ligue. Eu ligo todo dia. Às vezes ela está tomando café, se arrumando, aí Clara ou outra irmã atende, e eu digo: dê um beijo e diga que eu liguei. Um, dois, dias depois, ligo e consigo falar com ela, aí ela dispara: ‘andou sumida, hein?’ Eu digo: mãe, liguei todos os dias, e ela de pronto: ‘mas aqui ninguém dá seus recados, não’ (gargalhada). É um espetáculo!
E você obedece a sua mãe até hoje?
Lógico, é minha mãe.
E Caetano, vocês se veem muito?
Não, mais no verão, na casa de minha mãe. Ele tem ido mais assiduamente à Bahia, Moreno estava morando lá, não está mais. Ele tem ido mais lá ver minha mãe, os netos. Eu soube que ele declarou que está querendo ir morar na Bahia. Alguém me disse isso. Ele é louco por Salvador. E ele está muito mais assim, família, mais ligado à minha mãe.
E Gal (Costa), vocês se veem, se falam?
Não, não. Gal, eu perdi contato há muitos anos. A última vez que estive com ela foi naquela festa (show) em homenagem a Mãe Menininha, na Concha Acústica. Faz tempo. Ela falou comigo agora, quando minha mãe foi internada. A gente se fala assim, quando tem alguma coisa.
Você nunca deixou de ousar. Mesmo com o mercado retraído grava o que quer, aposta em canções inéditas…
Ah! Esse é simplesmente o luxo da minha vida. Se tem luxo nela, é esse: fazer o que quero, o me interessa, o que me comove, o que me atrai e ponto. Sem pensar na periferia, no que isso atrai. E tem uma casa que confia na minha intuição e que me permite gravar o que eu quero, que é a Biscoito Fino. Isso é um luxo.
Você abandonou uma multinacional, criou seu selo, o Quitanda. Foi uma forma de ter controle total de sua carreira?
Eu sou autora. Isso foi para fazer cada vez mais como eu quero.
Como vê novidades como o iTunes?
Não conheço nada disso. Isso é com a Biscoito Fino. Gosto de cantar.

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