Pesquisar este blog

domingo, 29 de abril de 2012

Para Uma Menina Com Uma Flor

Para uma Menina com uma Flor
Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino,
o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte
eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta,
e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.
E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena;
é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha
- a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

E Por Falar Em Saudade...

 

...onde anda você?
e por falar em paixão, em razão de viver,
você bem que podia me aparecer,
nesses mesmos lugares, na noite,
nos bares, aonde anda você?

“O único poeta que viveu como poeta”, disse Drummond. E como poeta morreu. Ou ainda: ele era um amor. E mais, ele era o amor. O amor nem sempre chega na hora certa nem nos dá o que esperamos. Aliás, quase sempre o amor nos surpreende. Mas é também ele, amor, que nos comove, que nos faz ser tanto, que nos exige e nos alegra, que nos excita e transforma. Que nos faz cada vez mais nós mesmos sendo cada vez mais outros. Então, Vinícius.

Teve mulheres, muitas, todos sabemos. E as amou de forma tal que enternece pela entrega absoluta. Que mal há em saber o amor temporário se o sabemos eterno na sua duração? Era sua forma de estar no mundo, este coração nos olhos, na mão, na bandeja. Esta sede do outro. Ele sabia-se para encontros. Porque era de tantos e a tantos se dava. Foram vários os parceiros como Tom Jobim, Carlinhos Lyra, Baden Powell, Toquinho, Chico Buarque, Pixinguinha, e diversas as pessoas com quem dividiu palco e disco: Maria Creuza, Quarteto em Si, Maria Bethania, Clara Nunes...Amar não lhe era pesado. Vinha fácil. Punha brilho no olho e beleza nas letras.

Vinícius correu o mundo e fez do mundo todo sua mesa de bar: lugar de risos, afetos, intimidade e samba. Encantador, sabia-se fazer amado, mas amor com amor pagava e era um encantado pela vida. E pela vida no outro. E pela vida no outro.

Não farei biografia, há lugares em demasia pra saber em que dia e hora nasceu ou morreu, que foi diplomata, crítico e sei lá mais quê antes, durante e depois de ser o poeta que era sempre. Não vou listar canções e poemas que me fazem ser sem pele e sentir em tal intensidade que morrer não é idéia que se descarte. Não direi da identidade que me deu com seu Para Uma Menina Com Uma Flor nem explicarei porque minha filosofia de vida é a letra de uma canção sua: “porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem chorou, pra quem amou, pra quem sofreu”. Não falarei do seu Orfeu, tão meu, que deu ritmo à peregrinação que é sempre amar: ir ao Inferno, encontrar quem amamos e deixá-lo lá. Não mencionarei seu lirismo, sua capacidade de fazer simples o sublime e sublime o corriqueiro e de dar a tudo os ares do atemporal e, ainda assim, rotineiras imagens.

Só o que quero é dizer que o amo. Amo-o pelo que explicitamente escreveu e pelo que não foi claro, pelo que produziu e pelo que me deixou a desejar, pelo que era e pelo que fazia ser. Havia, em seus olhos, beleza. Foi poeta, podia ter sido, talvez, mergulhador, sabia ser leve e profundo, ver - onde havia demasiada pressão - graciosidade e encanto, sabia mergulhar com coragem onde ninguém ia e, também, fazer dos espaços onde se vai todo dia sem perceber, lugares de encontro e deslumbre.

Há talvez, quem torça o nariz pro Vinícius. Eu respeito, mas não passo nem perto de entender. Porque não há nada no mundo que me pareça mais digno de letras que o amor. Nada mais real que amar. E ele era um amor. Era, talvez, o amor. Tá na hora de rever o menino bochechudo, nú e com flechas, estou a pensar que o amor é um senhor com um copo de uísque na mão.
 
 

White House Correspondents’ Dinner: The party Twitter loves to hate




Mila Kunis and Wolf Blitzer at the White House Correspondents' Dinner, April 30, 2011. (Alex Brandon/AP)

Generally speaking, there are two kinds of people in this world: those who get invited to the White House Correspondents' Association dinner--the annual gathering of celebrities, politicians and media in Washington--and those who do not.
Those who get invited to so-called "nerd prom" get drunk, get starstruck, and get on Twitter to post photos of George Clooney--without noticing New Jersey Gov. Chris Christie in the same frame.
The people who do not get drunk, get mad and get on Twitter to rip the people who do. Happens every year.
But the outsiders--perhaps mirroring the tone set by the traditional roasts delivered by President Obama and host Jimmy Kimmel at Saturday's 98th annual dinner--seemed a tad more vicious this time.
"It is the single most revolting annual gathering of pseudojournalistic &*&*suckery in all the land," Gawker's Hamilton Nolan wrote. "The White House Correspondents' Association Dinner is a shameful display of whoredom that makes the 'average American' vomit in disgust." Nolan was not invited.
"I ask one question every year," CBS News' Mark Knoller (who was invited) wrote. "Who are all these people? Didn't see any of them covering [the president] at Ft. Stewart yesterday."
"The White House Correspondents' Dinner underlines everything that's systemically wrong with American journalism," Milo Yiannopoulos, editor of Kernal magazine, wrote. "The purpose of a free press is to hold the powerful to account. You can't do that if you're sucking up, hoping for swanky dinner invitations."
"This has become such a happening, such an event, the nerds can't get in anymore," the Washington Post's "Reliable Source" columnist Amy Argetsinger observed.
It wasn't always that way: the White House Correspondents' Dinner used to be a chance for the "nerdy" reporters to dine with their political sources. It's now become D.C.'s schmooze-y answer to the Oscars, and inspires nearly as much hate.
"Is the fawning, sycophantic worship service to wealth, power and celebrity over?" Politico's Ben White pondered early Sunday. "Or is there more crap today?"



Jimmy Kimmel high-fives the president at WHCD 2012. (AP)



[ Highlights from the 2012 White House Correspondents' Dinner ]
"Celebrities and red carpets have ruined #NerdProm," the Stuff Journalists Like Twitter feed noted. "The real nerds are at home, tweeting about the #WHCD."
"With Lindsay Lohan and Kim Kardashian attending the White House Correspondents' Dinner," @JournalistsLike added, "I'm pretty sure we can stop calling it the #NerdProm." Lohan and Kardashian were invited by Fox News.
"The WHCD is indistinguishable in tone from the Oscars," Yiannopoulos wrote. "That should terrify the American people."
It scared Sallie Cunningham of Madison, Wisc., who tweeted: "WHCD confirmed my loss of faith in the media. Trust in media and politicians @ all-time low & plummeting."
Perhaps all the vitriol was justified.
"You know it's been a good party when George Clooney bearhugs you farewell at 3 a.m.," CNN's Piers Morgan wrote on Twitter. "Thanks @goldiehawn--you were a fabulous date!"
"Loved meeting @Diane_Keaton at #WHCA dinner last night," Wolf Blitzer--who brought actress Mila Kunis as his "nerd prom" date last year--tweeted. "She watches @CNNSitRoom."
"After the dinner I met for the first time NBC's Ann Curry and Al Roker," Fox News' Greta Van Susteren, who invited Lindsay Lohan to the event, wrote in between tweets about Kardashian and Lohan. "Both were extremely nice--just as they are on TV. I had been told that Ann Curry was nearby and went looking for her. I wanted to talk to her because she had been to the Nuba Mountains in Sudan about a month before I was there."
"Reese Witherspoon at my table, quite pregnant," Howard Kurtz, host of CNN's "Reliable Sources," reported. (Earlier, Kurtz boasted about a gift bag from one of the WHCD pre-parties: "Swag bag from People party already legendary: hundreds of dollars of lotions, candies, books and assorted goodies.")
"Omg!" partygoer @DCDebbie wrote. "Rachel @Maddow just made me a drink! #NerdProm."

http://news.yahoo.com/blogs/cutline/white-house-correspondents-dinner-party-twitter-loves-hate-182932546.html



Não se esqueça de mim - Nana Caymmi

Na cozinha, como se estivesse no mar

Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Trinta anos atrás, Lucius Gaudenzi começou a pegar onda neste mesmo mar que agora avista. Aos 12, ele já competia profissionalmente. Foram muitos treinos, tombos e campeonatos até que decidisse abandonar a carreira, aos 25. Trabalhou um tempo como auditor financeiro, mas, apesar do gosto que tinha pela matemática, sempre soube que aquela não era a sua paixão. Reencontrou-a nas lembranças das farras que aprontava na cozinha de casa e das idas ao restaurante do pai. Já tinha feito um curso de gastronomia na época em que serviu ao Exército, mas, para cozinhar profissionalmente, encasquetou de estudar na melhor escola. Foi pesquisar na internet os países onde havia filiais da francesa Le Cordon Bleu e acabou parando na Austrália, para não ter que deixar de vez o surfe. Ele acaba de concluir o curso e pretende voltar a morar no Brasil, depois de oito anos vivendo no exterior. “Minha ideia é aplicar as técnicas que aprendi na culinária brasileira”, conta, mais que saudoso dos sabores da terra, de “mainha” e do filho, de 7 anos. Até na cozinha, o espírito surfista não o abandona. “Você vê esse monte de chef brabo, furioso, mas se você pega onda de manhã e depois vai trabalhar, não tem como ficar estressado… Quando estou cozinhando, sempre coloco uma música gostosa para tocar e tento levar no mesmo ritmo, como se estivesse no mar”.
Em seu blog, Luicius compartilha viagens e receitas, como a do Spaguetti com camarões na manteiga ao molho de manjericão e alho. Anote:

Ingredientes
250 g de camarões
25 ml de azeite
25 g de manteiga
1 dente de alho picado
5 folhas picadas e 5 inteiras de manjericão fresco
100ml de vinho branco
1 pitada de sal e pimenta preta
Modo de preparo
Tempere os camarões com sal e pimenta, aqueça a panela e adicione o azeite, cozinhe os camarões 2 minutos de cada lado ou até ficarem dourados, ‘deglaze’ com vinho, reduza em 2/3, adicione o alho, o manjericão picado e a manteiga. Sirva com qualquer pasta cozida al dente

http://revistamuito.atarde.uol.com.br/

A majestosa Cidade Velha

Image Detail


Aninha Franco

Fiz uma visita ao Centro Histórico, meu bairro residencial diurno. Entrei em ruas que, até então, eram tabu, porque pertenciam ao tráfico, como a Três de Maio, e descortinei uma nova e, como sempre, majestosa Cidade Velha. Corri as ruas com engenheiros, arquitetos, empresários, com Herbert Frank e Edmond Lucas, assessores de Jaques Wagner, com Capinan, criador e construtor do Museu Afro-Brasileiro, e com Rita Assemany.
Edmond cozinha bem. Para avaliar um homem, ponha-o na cozinha, aprendi com as pós-feministas que não queimavam sutiãs nem discutiam o pagamento da conta. Herbert Frank não cozinha, mas é um gourmand, escreveu Flutuador, obra de baianidade absoluta, e coordenou A Grande Salvador (1978), monumento de papel sobre a cidade. Aos poucos, em sessões de vinhos e conversas enxadristas, conviemos que somos baianos e queremos o melhor para a Bahia, e começamos a pensar nela.
Avisita começou pela Rocinha, agora um matagal que frequentei nos tempos em que era um buraco do reggae, e de onde, um dia, precisei correr, com Márcia Ganem e Gil Maciel, porque quando um regueiro cantou que Selassie era um rei que gostava de reggae, eu gritei que, além de reggae, ele gostava de matar e torturar. A obra da Rocinha está prometida para já e urge que o PAC faça do espaço moradia digna para as famílias que de lá saíram para facilitar a construção. Li que apenas 7% dos 100% das obras do PAC caminharam.
Se há dinheiro, é tempo de aumentar a porcentagem, fazendo da nova rocinha habitação, espaço para o lazer das crianças e oficinas para a sobrevivência das famílias que para lá voltarão. Sobrevivência que pode estar no próprio Centro Histórico, bairro vertical e colonial, esperando que o negócio do turismo se aperfeiçoe, se requinte em bons serviços e programações adequadas, como uma indústria de turismo bem-sucedida exige. Da Rocinha, caminhamos por ruas de casas reformadas, ruas de casas a reformar, vazios idealizados que as próximas Trilhas contarão se assim os Orixás quiserem, e eles haverão de querer, porque amam este lugar que tão bem lhes recebeu.

http://revistamuito.atarde.uol.com.br/

sábado, 28 de abril de 2012

Vevé Calasans sobe ao céu


Armandinho Macêdo - É D'Oxum (Geronimo Santana-Vevé Calasans) Salvador-Bahia




Brigitte Bardot: O mito de uma mulher

 

em Cinema por em 01 de fev de 2012
 
 
 
Uma bela mulher que mudou toda uma geração a sua volta. Ela se tornou a francesa mais famosa do século XX. Beleza, comportamento, atitude, cinema, música, ambientalismo, modernidade. Tudo isso é Brigitte Bardot e muito mais. Como uma senhora de quase 78 anos ainda causa tanto furor e polêmica? Conheça agora a mulher Brigitte por detrás do mito de Bardot.

91.jpg
Não é nada fácil falar de Brigitte Bardot ou B.B. as iniciais imortalizadas na canção de Serge Gainsbourg. Ela uma é daquelas mulheres que só se desperta aos nossos olhos de muito em muito tempo; é como um cometa que só visita a terra de centenas em centenas de anos. Isso faz dela uma mulher especial mas, isso não basta. Ao longo dos anos, poucas pessoas entenderam B.B., mas muitas sabem o tamanho do fascínio e da magia que esta mulher exerceu sobre o mundo durante décadas, porque sentiram isso. Brigitte Bardot tem uma espécie de terceira dimensão que magnetiza as pessoas com muito deslumbramento na mais mínima ação.
brigitte-bardot056.jpg
Uma beleza estonteante, longos cabelos loiros que a assemelhavam à própria Vênus, boca carnuda, olhos penetrantes e um corpo esteticamente perfeito. Ela já seria linda se fosse apenas isso, mas B.B. nunca foi uma mulher oca. Tudo isso era muito preenchido de graça, de paixão, de encanto, de frescor. Um espírito cativante de mulher inquieta, transgressora, jovem, ardendo por viver. Brigitte Bardot nunca fez concessões a nada. Nem à família, aos filhos, ao casamento, aos maridos (quatro até hoje, fora os famosos romances), aos costumes e a sociedade francesa do seu tempo.
Para o cinema ela deu o melhor de si, nem que a maledicente imprensa da época falasse o contrário. Basta ver sua atuação maravilhosa em E Deus Criou a Mulher (1956), Amar é Minha Profissão (1958), A Verdade (1960) e O Desprezo (1963). Filmes que reúnem as melhores interpretações de Brigitte Bardot. B.B. galgou os degraus do sucesso até na música, gravando vários discos e inúmeros programas de televisão, ao lado de Sacha Distel, Yves Montand, Gilbert Bécaud e Serge Gainsbourg. Tornando-se uma precursora das atuais cantoras Pop. Aos homens, como ela mesma disse, deu toda sua beleza e juventude. A mulher, lançou um modelo de comportamento – nem correto, nem errado – apenas moderno.
52171333.jpg
O mundo amou Brigitte Bardot. Nunca uma mulher foi tão odiada, invejada, incensada, insultada, e amada. Seus filmes arrastavam multidões aos cinemas, seus namoros se tornavam escândalos, suas viagens a América Latina e aos Estados Unidos causavam um furor inimaginável, sua simples presença poderia mudar a história de toda uma cidade (como fez em Búzios, no Brasil, em 1964). Serge Gainsbourg compôs para ela uma das mais belas - e polêmicas - canções de amor de todos os tempos: “Je T’aime...Moi Non Plus”. Sua popularidade atingia níveis incomparáveis a qualquer outra estrela do cinema. Dizia-se que perto dela Marilyn Monroe era um homem. Nos Estados Unidos chegou-se a criar o termo Bardolatria, para definir o frenesi que a atriz francesa causava entre os jovens, No auge da popularidade, em 1970 o escultor Alain Aslan escolheu B.B. como inspiração para a Marianne – a mulher que é o símbolo e a personificação da própria República Francesa.
47881365.jpg
54870798.jpg
Tudo teve um alto preço, sua vida privada foi destruída, ela perdeu sua paz e isso lhe traria grandes traumas por toda a vida. B.B. era extremamente perseguida pelos paparazzi, sempre a caça de um ângulo da atriz. Ela chegou a sofrer traições se pessoas próximas a ela que vendiam diários e a sua localização para revistas de fofocas e fotógrafos. B.B. chegou a tentar o suicídio mais de uma vez, em momentos de profundo desespero e sofrimento. Após dezenas de filmes, em 1974 a beira dos 40 anos, o mundo assistiu incrédulo ao anúncio do seu aposento do cinema. Abandonar o cinema no auge foi a melhor escolha, do ponto de vista profissional e pessoal. Foi sua grande salvação como ela mesma disse “Num mundo que me era hostil”.
Sua luta, há mais de 30 anos em defesa dos pobres animais é admirável, uma luta incessante, que não teve fim até hoje. Brigitte Bardot esta cansada, amargurada, triste, solitária. A sociedade ainda a julga sem absolvição. Ela teme morrer sem conseguir ver terminada uma batalha de décadas: o fim do massacre dos bebês foca.
71909543.jpg
Envolvida em vários processos de racismo e preconceito na última década por declarações polêmicas que lhe renderam uma grande antipatia da parcela jovem da sociedade francesa, Brigitte acaba inserida numa questão tão atual quanto polêmica: a xenofobia e a imigração islâmica na França atual. Ela ainda permanece tão contraditória quanto no auge do sucesso. Mas, sempre autêntica, verdadeira, sincera e corajosa.
Posso crer que a maioria das pessoas nunca vai entender Brigitte Bardot, lamento, mas até posso compreender, porque realmente são poucos os que conseguem entender mulheres tão grandes como Brigitte Bardot é. Há uma certeza: B.B. é um mito na Terra e isso é incontestável.

27695076.jpg
49979418.jpg

http://lounge.obviousmag.org/vitor_dirami/2012/02/brigitte-bardot-o-mito-de-uma-mulher.html

Escrúpulos - MÔNICA WALDVOGEL

Image Detail

Num sábado de manhã, quando eu tinha uns catorze anos, meus pais me chamaram para acompanhá-los ao centro. À cidade, como se falava naquela época. Um convite que não fazia o menor sentido. A troco de quê tomar ônibus e metrô com meus pais para visitar meia dúzia de lojas sem o menor interesse? Nem pensar! Mas eles me obrigaram a ir.

Eu fui uma adolescente bem chatinha. Sendo a mais velha de cinco filhos, cabia a mim enfrentar a linha-dura lá de casa. Como não havia muito espaço para grandes transgressões, usava todas as oportunidades para deixar bem claro aos meus pais que eu não era como eles, não pensava como eles nem teria a vida deles. Uma típica rebelde de classe média.

Naqueles dias meu comportamento variava das pequenas hostilidades às grandes contestações verbais cuidadosamente anotadas num diário mal escondido para que, se encontrado, minha mãe pudesse ler e se magoar à vontade. Coisa que aconteceu, claro, e fez rolar muitas lágrimas.

Voltando àquele sábado. Eu estava num desses estados insuportáveis que, entre mil e uma razões, diziam respeito à sanha com que tentava domar meu cabelo farto, grosso e ondulado. Como então só se admitia o liso absoluto, eu acalentava um sonho: o secador de cabelos Arno que todas, todas as minhas amigas tinham.

Era um trambolhão de baixa potência. Fazia um barulho danado e vinha com um capuz de plástico munido de um tubo que se adaptava ao bocal do aparelho.Esquentava como o diabo. Levava umas três horas para o cabelo ficar seco sob a touca — se a orelha suportasse o calor — mas, com uma pilha de fotonovelas ao lado e a promessa do liso maravilhoso, quem se importava?

Meu pai não era um homem sensível para futilidades e feminilidades, tinha lá seus princípios pétreos. Ele equilibrava o orçamento familiar fazendo infindáveis horas extras com que pagava mensalidades de cinco bons colégios, material escolar de primeira, aulas de línguas e de música para as meninas. Vestido novo para festinha de aniversário e mesada para o cabeleireiro estavam fora de qualquer cogitação.

O fato é que até hoje não entendi a insistência de meus pais naquele passeio de sábado. Tenho certeza de que não havia uma surpresa programada porque perdi a conta de quantas vezes interroguei minha mãe. Ela sempre negou. O que sei mesmo é que fiquei num terrível emburramento, de cara feia, para deixar bem claro que nunca mais eles deveriam ter ideias ridículas.

Chegando ao centro, flanamos pra lá e pra cá procurando vitaminas para as crianças, um longplay de ópera, livros para os meninos. Eu estava morrendo de tédio. Perto da Praça da República, meus pais pararam para tomar um café. Enquanto aguardavam no balcão, saí andando pela calçada atraída pela vitrine de uma loja de eletrodomésticos e lá fiquei admirando o estojo cor-de-rosa em que se abrigava meu objeto de desejo.

“Por que você não compra o secador para ela?”, ouvi minha mãe atrás de mim.

“Vamos ver quanto custa”, respondeu meu pai.

Olhei incrédula para a imagem dos dois refletida no vidro. Poucos minutos mais tarde saíamos da loja
com um pacote desajeitado em direção ao ponto de ônibus.

Desemburrei, claro. Mas, em vez de eufórica e agradecida, estava constrangida. Consternada é uma palavra melhor. “Que foi?”, perguntou meu pai, “não ficou contente?” Devo ter encolhido os ombros procurando o que dizer. Decidi ser sincera.

“Por que ganhei esse presente afinal? Eu estava chata, aborrecida, desagradável, não merecia. Fiz de tudo para estragar o passeio e, no final, ganhei o secador que eu tanto queria!”

Meu pai sorriu. “Sabe o que quer dizer a palavra ‘escúpulo’?”. Era uma das manias que ele tinha que eu mais detestava: para toda palavra, uma origem histórica e um significado ancestral. Por que não ir diretamente ao ponto?

“Vem do latim. Quer dizer ‘pedrinha’. Escrúpulos são pedregulhos que a gente leva no sapato, no bolso, no coração e que atrapalham a caminhada e deixam a vida mais pesada. Jogue fora esses escrúpulos, não servem para nada. Se sua mãe achou que você deveria ganhar o secador, alguma razão ela tem.”

Entendi.

Cheguei em casa e joguei o último escrúpulo que eu tinha no lixo. Junto com meu diário.

E-mail para esta coluna:
cadernoela@oglobo.com.br

O Globo/Ela
28/04/2012

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

sábado abr 28, 2012

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (2011), de Beto Brant e Renato Ciasca

Serão poucos aqueles que, hoje, irão discordar da afirmação de que Beto Brant é o mais talentoso cineasta brasileiro surgido desde a chamada “retomada”. A começar por sua estreia em longas-metragens, com Os Matadores, realizado em 1997, Brant conseguiu produzir com uma regularidade quase sem par entre nossos realizadores, construindo uma filmografia forte e coerente, de alguma forma passando ao largo das facilidades dos vícios autorais ou das concessões ao grande público.
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios é seu sétimo filme, o quinto em parceria com o escritor Marçal Aquino e o segundo codirigido por Renato Ciasca (o primeiro sendo o delicado Cão Sem Dono). O trio assina o roteiro, adaptado do romance homônimo de Aquino, sua obra mais famosa.
Certeiramente, a versão cinematográfica vai ao cerne do livro, eliminando personagens secundários e substituindo o pano de fundo do garimpo pelo da exploração madeireira: Cauby (Gustavo Machado) é um fotógrafo que chega a uma cidade ribeirinha, no interior da Amazônia. Lá, envolve-se em uma paixão avassaladora com Lavínia (Camila Pitanga). Neste momento, Brant, habilmente, instaura o espectador na vida de seus dois personagens, relegando a segundo plano suas vidas pregressas. Ela é casada com Ernani (Zécarlos Machado), o pastor da cidade e, claramente, dita o ritmo simultaneamente incerto e imediato de seu caso com Cauby, que passa os dias aguardando-a em sua casa.
É, assim, tão mais vigoroso o longo e inesperado flashback que nos leva ao Rio de Janeiro, onde Lavínia cambaleia drogada e fora de si, pelas calçadas, até ser socorrida por Ernani; ele mesmo um homem recém-recuperado da morte abrupta de sua esposa, tendo encontrado, na religião, a força para prosseguir e mudar o rumo de sua vida. E é através de suas palavras que ele consegue tirar Lavínia da prostituição e, finalmente, encontrar uma parceira com quem possa viajar, oferecendo sua experiência e suas preces às comunidades carentes.
E é quando a narrativa volta à Amazônia que os tons premente e ameaçador da história passam a prevalecer e, só então, o espectador começa a ter dimensão da tragédia iminente (no romance já sabemos, de início, que a conclusão da história não será sem grandes custos aos personagens). E tal estranhamento se dá pelas oscilações da narrativa, sempre com sua força atrelada às inquietações emotivas e espirituais de Lavínia, estilhaçada entre dois homens apaixonados e propensos a tudo por sua companhia – e se o elenco está extraordinário, podemos destacar Camila Pitanga, no que consiste na melhor atuação de sua carreira.
Absorto nos personagens e no ambiente hostil que os cercam, Brant novamente lida com os liames entre as forças vitais cônscias dessas vidas e seus destinos inelutáveis; no entanto, aqui inserindo uma invulgar camada ascética a seus amores e motivações. Não obstante as várias cenas de sexo e, novamente, uma trama centrada no relacionamento entre um artista (Cauby, fotógrafo) e sua musa (Lavínia), a esses se sobrepõem, em uma instância, a moral de um homem cuja compaixão cristã parece trazer pouco além de tumulto e, antes, uma sufocante e extravagante paisagem, onde nela refletem-se os mistérios ameaçadores do porvir de seus habitantes: esse ambiente parece, crescentemente, ser a causa e a razão inescapáveis da fatalidade das vidas desses personagens. Cauby, Lavínia e Ernani encontram-se tão indefesos de suas próprias existências quanto a floresta, que é rápida e ilegalmente devastada.
O que antes era intimidade e introspecção (Cão Sem Dono, O Amor Segundo B. Schianberg), com a natureza fervorosa torna-se objeto de clamor público e desejos imperiosos. E assim, Brant realiza um fascinante (senão, e por isso, errático e dilatado) conto de seres traumatizados em situações extremas (amor, morte; ganância, generosidade) que, ao final delas, se encontrão renascidos e, de uma maneira ou de outra, com seus caminhos já percorridos.
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios é, arriscadamente, atordoante, belo e vivo, como poucos lançamentos do ano, brasileiros ou não.

Bruno Cursini
http://www.revistainterludio.com.br/?p=3018