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domingo, 1 de julho de 2012

A felicidade ainda existe

01/07/2012



Já te aconteceu de acordar um dia péssima, com a cabeça péssima, e achando que vai ser assim para o resto da vida? Pois aconteceu comigo outro dia.
Abri o jornal e não me interessei por nada, nem mesmo pela nova amizade Lula/Maluf; liguei a TV, depois abri a agenda, fui do A ao Z e todos os nomes pareciam de pessoas estranhas. Nem os dos dois ou três amigos com quem falo todos os dias reconheci. Não sabia se estava chovendo ou fazendo sol, tal a falta de interesse pelo mundo. Mas como é obrigatório ser alto-astral, resolvi fazer alguma coisa para mudar o clima do dia.
Sempre ouvi falar que ginástica ajuda a resolver qualquer problema, mas botar um tênis e ir fazer pilates, nem pensar. Mal tive forças para me levantar e tomar um copo de água, imagine para enfrentar algum esforço físico. Que tal ouvir uma música? Acho que a morte seria melhor.
Tomar um banho talvez melhorasse as coisas; uma boa chuveirada, com direito a lavar a cabeça -quem sabe esfriá-la- só pode fazer bem. Cumpri o ritual, vesti um jeans e uma camiseta, e percebi que não piorou, mas melhorar que é bom, nada.
Resolvi então dar uma volta na praia para respirar um pouco de ar fresco, mas não adiantou; voltei para casa e para a cama.
Por que acordei assim? Não havia nenhuma razão especial, nada de grave estava acontecendo em nenhum setor da minha vida. Estava assim por nada, ou talvez por tudo. Não tinha vontade de nada, e se soubesse que em cinco minutos o mundo ia se acabar, e dependesse de apenas um gesto meu para que isso não acontecesse, seria capaz de ficar parada, quieta -e o mundo que se acabasse.
Mas depois de pensar, pensar, descobri a raiz do problema. Vou tirar duas semanas de férias e viajar, e a felicidade é muito difícil de ser vivida; e a culpa? A partir daí, as coisas ficaram mais fáceis.
No dia seguinte, uma amiga me chamou para ir a um restaurante que disse ser ótimo, atrás do mercado de peixes, em Guaratiba, depois da Barra.
Só que eu tenho pavor a sair do meu bairro, sobretudo para ir às bandas da Barra, mas como a Rio+20 acabou, com a graça de Deus, embarquei na aventura. Um safari, praticamente.
Para quem não conhece bem o Rio: para chegar à Barra se passa por vários túneis, e com boa vontade, são uns 35/40 minutos num trânsito que não chega a competir com o de São Paulo, mas que é bem intenso. As coisas começaram a melhorar depois que comi uma moqueca de peixe dos deuses; quando pegamos o carro para voltar, comecei a ser feliz.
Detalhe 1: o dia estava lindo, com sol e céu azul. Detalhe 2: a volta da Barra é pela orla, e são praias e praias, algumas de mar batido, outras de água mansa, em tons de azul e verde de tirar o fôlego.
Em São Conrado, a garotada praticando surfe; no céu, outra garotada voando de asa-delta e ainda o cheiro da maresia. E ainda teve o Leblon, Ipanema, o Arpoador; aí pedi à minha amiga para seguir, e passamos por Copacabana, Botafogo, Flamengo. Fui ficando alegre, cada vez mais alegre, a alegria foi se transformando numa quase exaltação, e em cada sinal em que parávamos, olhava e sorria para quem estivesse no carro ao lado, mesmo que tivesse cara de assaltante. E tive a consciência de que estava feliz, que adorava a vida, que adorava viver.
E pensei numa coisa, numa coisa em que nunca se pensa quando se é -ou se está- profunda e intensamente feliz.
Como é injusto morrer.
Danuza Leão
Danuza Leão, jornalista e escritora, aborda temas ligados às relações entre pais e filhos, homens e mulheres, crianças, adolescentes, além de outros assuntos do dia-a-dia. Publicou seu primeiro livro em 1992. Escreve aos domingos na versão impressa do caderno "Cotidiano".

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/danuzaleao/1113439-a-felicidade-ainda-existe.shtml

"E por que eu me desfaria deles?".

01/07/2012-

Sonho de Ivan Lessa era estacionar no passado


RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA


Quando os CDs surgiram e tomaram a indústria fonográfica, em fins dos anos 80, todos os patetas do mundo nos desfizemos de nossas coleções de LPs. Era como se, de repente, aquele formato de disco que por 40 anos nos servira tão bem --e no qual nos habituáramos a ouvir a perfeição-- se tornasse portador de lepra.
Tínhamos de nos livrar deles e trocá-los pelos reluzentes CDs, embora, até então, só uma parcela mínima de títulos já estivesse no novo formato. E, de quebra, precisávamos aposentar também os toca-discos --subitamente arcaicos, mesmo que fossem um Thorens, um Colaro ou um MK II da Technics.
No Natal de 1992, quando fui visitar Ivan Lessa em Londres pela primeira vez, surpreendi-me quando ele tirou um LP de Billy Eckstine de uma estante vergada por milhares de LPs. "Mas você ainda tem esses discos?", perguntei. Ele me encarou como se eu lhe tivesse perguntado por que ainda não cortara um braço. Em resposta, tartamudeou algo parecido com "E por que eu me desfaria deles?".

Heloisa Seixas/Divulgação
Foto feita durante encontro dos amigos Ruy Castro (dir.) e Ivan Lessa no Rio
Foto feita durante encontro dos amigos Ruy Castro (dir.) e Ivan Lessa no Rio
Ivan estava certo. Conservou sua monumental coleção, iniciada em 1948 (ano de surgimento do LP), e, a partir de 1990, apenas enriqueceu-a com CDs que não tinham um antepassado em vinil. Nunca abandonou suas obras-primas de Eckstine, Dick Haymes, Tony Martin, Herb Jeffries, Al Hibbler, Billy Daniels, George Byron --cantores de graves profundos, seus favoritos-- e de outros que descobriu nos anos 50, quando ninguém ainda ouvira falar deles no Rio: Bobby Short, Mabel Mercer, Blossom Dearie, Hugh Shannon, Joe Mooney, Bobby Troup.
Sem prejuízo, claro, dos incontornáveis e eternos, como Sinatra, Crosby, Astaire, Tormé, Nat Cole, Billie, Sarah Vaughan, Peggy Lee, Doris Day e centenas de outros. Ivan podia falar de igual para igual com qualquer conhecedor de música americana --mas engana-se quem o imagina um desenraizado musical.
IMITAÇÕES
Sambas, marchinhas de Carnaval, valsas, sambas-canções --na verdade, toda a pré-bossa nova: era espantosa a quantidade de letras e melodias brasileiras que Ivan trazia na cabeça, e que exibia à menor solicitação. E, de tanto saber cantá-las, dominou também as vozes dos cantores. Sua imitação de Silvio Caldas era hilariante, assim como fazia à perfeição o cantor brasileiro que ele mais admirava --Lucio Alves.
E, certa vez, em Londres, sua imitação de Billy Eckstine assustou o próprio Mr. B., quando Ivan o entrevistou para a BBC. A diferença de timbres entre Silvio, Lucio e Eckstine não diz algo sobre o alcance da voz de Ivan?
Ter conservado sua coleção de discos era apenas normal para ele. Não se joga fora o passado --era o que sempre parecia dizer.
Guardava tudo na memória: o rosto das ex-namoradas, a embalagem de dezenas de marcas de cigarros, a formação da orquestra Sauter-Finegan em 1950, o time de aspirantes do Botafogo em 1954, a sequência de lojas comerciais --uma a uma, no sentido Leme-Posto 6-- da avenida Nossa Senhora de Copacabana, os nomes dos pianistas, porteiros e leões-de-chácara de todas as boates do Rio e as intimidades de figurões da literatura, do jornalismo e do teatro com quem convivera desde criança, amigos de sua mãe, a cronista Elsie Lessa (alguns desses amigos eram Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, Tônia Carrero).
E era uma longa memória, porque ele começou tudo muito cedo --aos 15 anos, em 1950, já tinha trabalhado como ator em dois filmes e fumava quatro maços de cigarros por dia.
Quando o conheci, no Rio, em 1972, Ivan acabara de voltar de Londres, para onde fora, pela primeira vez, em 1968 (e, por isso, não participou da aventura da revista "Diners", dirigida por seu amigo Paulo Francis, nem esteve, ao contrário do que se publicou, entre os fundadores do "Pasquim").
Ao olhar em torno, em seu apartamento de cobertura no Leme, e vendo as paredes abarrotadas de LPs, eu me perguntava como seria transportar aquilo tudo pelo oceano, do Rio a Londres, ida e volta, sem quebrar um disco.
Tempos depois, Ivan se mudou para outro apartamento, na rua Bolívar, sempre na praia, e lá se foram de novo as caixas e caixas de discos, desta vez nos caminhões da Gato Preto. Mas os amigos sabiam que, se um ataque marciano derretesse toda a coleção de Ivan, ele a teria inteira na cabeça --cada orquestração, cada letra, cada interpretação.
Em Londres, para onde voltou (para sempre) em 1978, Ivan foi morar em South Kensington, um bairro de predinhos baixos, cobertos de hera, e românticos pátios e jardins internos. James M. Barrie situou ali a casa de Wendy e seus irmãos em "Peter Pan" (1911), e Walt Disney explorou-o lindamente em seu desenho de 1953, botando todo mundo para voar sobre aqueles tetos.
Uma vizinhança bem de acordo com Ivan, que, a meu ver, sofria do complexo de Peter Pan, o garoto que não quis crescer. Contrariando sua natureza ("Nunca tive jeito para ser jovem", ele disse), Ivan queria ter estacionado em algum lugar do passado --e, com perdão pela psicologia de galinheiro, quem sabe sua impaciência e neurastenia, que às vezes se abatiam sobre afetos e desafetos, não fossem pela constatação daquela impossibilidade.
Nos últimos 20 anos, fomos a Londres várias vezes, e muito por causa de Ivan --numa dessas, em janeiro de 1993, com direito a uma esticada em Paris, Ivan e Elisabeth, eu e Heloisa. Atravessando uma rua perto do Louvre, ele me disse que, quando morresse, morreriam de vez com ele vários personagens importantes de Ipanema, já falecidos, dos quais ele ainda era dos poucos a se lembrar.
Quais? "Liliane Lacerda de Menezes, Zequinha Estelita, Josef Guerreiro, Rony 'Porrada', Carlos Thiré." Perguntei sobre eles. Ele me deu a ficha de cada um, e ali tive a ideia de, um dia, fazer um livro que seria uma "enciclopédia" de Ipanema e se chamaria "Ela é Carioca" (o livro saiu em 1999).
A lembrança de Ivan atravessando ruas e falando depressa, driblando carros, atropelando ideias, como se não pudesse perder tempo para se expressar, contrasta dolorosamente com as de apenas dez anos depois, em Londres, quando subíamos juntos a seu apartamento, no quarto andar do predinho sem elevador, e ele chegava lá em cima sem conseguir respirar.
Ou das últimas vezes em que foi nos encontrar na rua, para irmos às suas queridas lojas de discos --Dress Circle, Ray's Jazz Shop, Mole Jazz, Templar Records. Ivan acreditava que era preciso ir todos os dias às lojas, porque, quem sabe, um único exemplar de determinado disco só apareceria certo dia e, justo neste, outro colecionador iria lá e o compraria. Vindo de qualquer pessoa, essa obsessão seria neurótica. Em Ivan, fazia sentido.
Ivan detestava quando brasileiros o informavam da morte de um de seus velhos amigos no Rio. Ele não queria saber. Mas, nos últimos anos, a morte o cercou --ele perdeu Paulo Francis, José Lewgoy, sua mãe Elsie, o radialista Jader de Oliveira (seu colega de BBC e melhor amigo em Londres), Millôr Fernandes, muitos mais. O mundo estava ficando cada vez mais despovoado e, pelo que ele dizia nos e-mails, só faltava ele.
Finalmente partiu, em junho último, aos 77 anos, como se a carroça-fantasma estivesse atrasada para vir pegá-lo.

Na Flip
O colunista da Folha Ruy Castro fala sobre jornalismo literário na sexta (6), às 11h, na Casa Folha, em mesa mediada por André Barcinski.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1112857-sonho-de-ivan-lessa-era-estacionar-no-passado.shtml

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Dentro de um abraço


Onde é que você gostaria de estar agora, nesse exato momento?

Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estreia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.
Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.
E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?
Meu palpite: dentro de um abraço.
Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.
Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incer-ta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.
O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.
Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beira-mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?
Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.

Martha Medeiros

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Happy Birthday Fontana

 

Após a terceira dose - bar é poesia

Tim Tim!


A festa era certa




(luiz alfredo motta fontana)



No meio do brinde

o desconforto

a festa era certa

o copo correto

cristal límpido

a bebida

a de sempre

o que destoava

era a certeza da falta

Seria a tua?
 

Tente Outra Vez - Raul Seixas



 Viva Raul!!!!

A "diferente"

A "diferente" Clarice Lispector faz doer os nervos




Autógrafo em O Lustre, da biblioteca de Benjamin Moser
Sabe quem é o autor mais citado no twitter? Sim, é Clarice Lispector. Diz levantamento recente do YouPix que ela é citada 3,5 mil vezes por dia. "Ah, mas muitas frases não são delas", tem gente que reclama. Também não faltam gaiatos para escrever uma sandice qualquer e assinar Clarice Lispector como se isso fosse muito, mas muito engraçado. Pra mim, se 10% das frases forem verdadeiras já é o máximo. Gosto dessa faceta pop de Clarice que em vida esteve longe de ser campeã de vendas e precisou ralar em trabalhos para jornais e traduções para sobreviver. E ela ainda tinha a fama de “diferente”, desde os primórdios, como mostra essa matéria abaixo, de 17 de março de 1946, de Solena Benevides Viana, a mesma da entrevista do post anterior. Aqui, a jornalista escreve sobre o primeiro encontro com Clarice que estava no Rio para lançar seu segundo livro. E só pode ter sido nesse encontro que Clarice autografou O Lustre para Solena e esse exemplar faz parte da biblioteca brasileira de Benjamin Moser, autor da biografia Clarice,. Gentilmente, Benjamin, o enviou (foto acima).
Abaixo, a matéria publicada na coluna Miscelania do Suplemento literário do jornal carioca Amanhã.

Ao saber que Clarice Lispector estava no Rio, de passagem, resolvi aproveitar a oportunidade e agradecer-lhe uma antiga gentileza. Confesso, também, que me movia uma certa curiosidade de conhecer pessoalmente a escritora que, durante algum tempo serviu de assunto à grande parte das “rodinhas” literárias da cidade e, principalmente, às dos novos.
Não só o seu primeiro livro foi discutidíssimo, levantando a comentada questão sobre se a autora teria sofrido ou não influência de Joyce – contra o que há o argumento de que o seu livro já estava escrito quando travou conhecimento com a obra do grande autor inglês – como a própria Clarice Lispector passou a figurar na lista das pessoas “diferentes”.
Telefonei-lhe, pois, e marcamos um encontro que não teve, em absoluto, caráter de entrevista. Foi apenas uma palestra cordial sem a preocupação de colher informações, que versou sobre assuntos os mais variados. Uma miscelânia, enfim.
Para começar, Clarice pode ser “diferente” mas não no sentido que lhe querem dar. Fisicamente é uma moça esbelta, alta, loura, de olhos claros, de maneiras simples e naturais. Não se mostra demasiado expansiva, nem muito retraída. Como se vê, portanto, até agora – nada de “diferente”. Confessou-me, com toda a sinceridade, estar naquele dia em ótima disposição de espírito, não obstante o calor – que era tremendo!!! – o que nem sempre se verificava. Mas, qual é aquele que se pode gabar de conservar inalterável o seu humor!
Estudou direito, interessada sobretudo em direito penal; todavia, entre outras coisas, depois de tomar parte num júri simulado desinteressou-se da aludida disciplina e passou a cogitar de outros afazeres. Exerceu atividades jornalísticas durante quatro anos, tendo trabalhado inclusive em “A Noite”. Em 1944, embarcou para Nápoles, onde residiu dois anos no Consulado por falta de habitações e, hoje em dia, a sua maior aspiração é... uma casa!  
Na Itália, as perturbações da época interfiriram na sua vida. Passou cerca de um ano quase sem sair de Nápoles, limitando-se a fazer algumas viagens a Roma. Ultimamente conseguiu ir a Florença. Apesar dos naturais estragos causados pela guerra a maioria das obras de arte foi poupada. Várias galerias ainda estão fechadas, num trabalho de reforma e reorganização. Toda a Itália, aliás, se ergue aos poucos. E aos poucos renascerá o seu ânimo e a sua glória. 
Quanto ao movimento literário italiano, dentro do âmbito restrito que lhe foi dado observar, o último conflito mundial nada introduziu de especialmente novo. As antigas tradições continuam a predominar, e o trabalho prossegue com esforço e esperança. A escultura e a pintura, segundo observou Clarice Lispector, estão sob a força de um grande impulso, tendo na vanguarda nomes como o de Leonor, Fazzini, Savelli, Guzzi, De Chirico.
As condições de vida na Itália a seu ver, são precárias, mas caminha-se para uma lenta reorganização. Os sofrimentos suportados incutiram nas criaturas uma nova coragem, permitindo-lhes encarar com ânimo forte situações desesperadoras. Certa vez, por exemplo, encontrou um rapaz iugoslavo aparentemente alegre, lançando mão de seus conhecimentos linguísticos para sustentar-se, enquanto aguardava oportunidade de embarcar com destino ao Brasil. Pouco depois foi surpreendido com a informação de que perdera toda a família na Iugoslávia. E acidentes desta natureza repetem-se diariamente.
Os gêneros alimentícios e artigos de primeira necessidade são vendidos por alto preço. O café, por exemplo, está a 2000 liras o quilo. Um negociante que se lembrou de vender camisas por 150 liras cada uma, acabou forçado a recorrer à intervenção da polícia. Lá também as atividades do câmbio negro são intensas. 
Nesta altura da palestra, a escritora declarou-me – mais uma prova de que não é assim tão “diferente” – que pagou o seu tributo à decantada “saudade da pátria distante” e procurou mimitiga-la tomando... caldo de cana, bebida na qual antes, no nosso país, pouco pensava. 
Portanto, diante do que acima ficou exposto, muitas pessoas devem estar conjecturando até agora: “uma criatura, assim tão humana, que sente saudades como toda gente e age com tamanha simplicidade, será mesmo “diferente”?
Sim, Clarice Lispector é “diferente”. É “diferente” na aplicação das suas energias, no amor ao trabalho, na sua produção literária. Sente necessidades de escrever, e quando dá início a uma obra a ela se consagra inteiramente. Não vacila em admitir a importância que atribui ao seu trabalho, o esforço dispensado à sua elaboração. E, por isso mesmo, embora respeite a opinião do público, regogizando-se quando nele encontra ressonância, coloca acima de tudo o mundo interior do escritor, o impulso criador que o animou e a liberação absoluta do seu eu.
O seu estilo é único e escapa, muitas vezes, à percepção do leitor apressado. Não se pode ler um romance de Clarice Lispector como um simples passatempo, seguindo o enredo, salientando esta ou aquela imagem interessante. A sua intensidade exige do leitor o mesmo esforço de concentração com que foi escrito; faz doer os nervos. E assim Perto do Coração Selvagem surgiu inopinadamente na nossa literatura e nela permanece até hoje como um marco isolado.
Clarice Lispector acaba de publicar, pela editora Agir, O Lustre. Neste novo romance – fruto também de intenso labor – o ardor primitivo cedeu lugar à reflexão comedida, à psicologia sutil da análise dos sentimentos desordenados a uma poesia pessimista e vaga, que a cada passo se manifesta:
- Dez é como domingo. A gente pensa que domingo é o fim da semana passada, não é? mas já é o começo da outra. A gente pensa que dez é o fim de nove, não é? mas já é o príncipío de onze.
E ainda mais adiante, quando Virginia – a personagem principal – ao observar os bonecos de barro que modelara reflete:
“... mesmo bem acabados eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento. Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por eles mesmos, se isso fosse possível.
E as dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo”.
Na sua visão sombria, ou talvez fosse melhor dizer, na crueza da sua realidade, dentro da originalidade que o caracteriza, o livro assinala mais uma vitória para sua autora.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

"Do Not Disturb"




Durmo. Não me acorde. Meu sono abre a porta pra você.

De Joelhos



“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer ...
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver ...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

Love Sick - Bob Dylan -


"Love Sick"
I'm walkin' through streets that are dead
Walkin', walkin' with you in my head
My feet are so tired
My brain is so wired
And the clouds are weepin'.

Did I hear someone tell a lie?
Did I hear someone's distant cry?
I spoke like a child
You destroyed me with a smile
While I was sleepin'.

I'm sick of love that I'm in the thick of it
This kind of love, I'm so sick of it.

I see, I see lovers in the meadow
I see, I see silhouettes in the window
I'll watch them 'til they're gone
And they leave me hangin' on
To a shadow.

I'm sick of love, I hear the clock tick
This kind of love, ah, I'm love sick.

Sometimes the silence can be like thunder
Sometimes I wanna take to the road and plunder
Could you ever be true
I think of you
And I wonder.

I'm sick of love, I wish I'd never met you
I'm sick of love, I'm tryin' to forget you.

Just don't know what to do
I'd give anything to
Be with you.