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terça-feira, 17 de julho de 2012

No tempo d' O Cruzeiro


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O Cruzeiro: minha escola de Jornalismo
Maria Aparecida Torneros da Silva

Cheguei na redação da rua do Livramento em dezembro de 1971. Dr. Gomes Maranhão e Ubiratan de Lemos me deram as diretrizes. Estudante ainda, descobri que na revista O Cruzeiro encontrara minha grande escola de jornalismo. Convivi com Rachel de Queirós, que ia lá entregar seu artigo semanal, sentei ao lado de Davi Nasser que ...me passava astúcia, saía pra rua com os fotógrafos mais experientes, atrás do fato, farejando a notícia. No Japão, como correspondente, em 72, aprendi a me orgulhar da nacionalidade desta publicação. Escrevi a série "Um país made in Japan". Eu tinha apenas 22 anos.

O Cruzeiro era sinônimo de Brasil e onde estava um profissional da revista, lá estava o nosso país. Deixei publicadas 35 reportagens, em 4 anos. Isso muito me honra e dá muita saudade. Para escrever "Minha moto, meu amor", fui de moto do Rio a Teresópolis com mais cem motociclistas, em comitiva. Quando acompanhei as mulheres para-quedistas, fiz o curso com elas na Brigada Aero-Terrestre. Nosso trabalho era de ação.

Os mais velhos me contavam as proezas e aventuras. Quase todos já tinha contraído malária pelas viagens pela Amazônia. Isso tudo aconteceu num tempo em que a tecnologia não tinha os avanços de hoje.

Eu dependia, por exemplo, da tripulação de bordo da Varig para trazer de Tóquio, minhas laudas datilografadas semanalmente, ao velho aeroporto do Galeão, onde o office boy Ariston lá estava para levar correndo aos editores, garantindo a publicação da semana seguinte.

Não havia fax nem computador. Havia garra. Correria. Superação. Idealismo. História de um Brasil que era contada ao mundo através do ideal do grande Chatô. Grande exemplo para as novas gerações, que merece resgate histórico.

Aparecida Torneros
Da sua pagina no Facebook: Maria Aparecida Torneros DA Silva

"Kiss Cam"




Telão do ginásio onde as seleções olímpicas de basquete dos EUA e do Brasil se enfrentavam mostra o presidente Barack Obama beijando a primeira-dama Michell. A "Kiss Cam" (Câmera do Beijo) é uma brincadeira comum com os espectadores dos jogos.
Jonathan Ernst

Extrair - Arnaldo Antunes

jul 082012


ex
trair
do tempo improvável, do improvável,
de suas maquinações, ações,
do ato regular que se dissipa em método, todo
hábito que habito, repito,
da meta inalcançável que me fita, cripta
do incontável número dos dias vividos, idos,
da inumerável cota dos dias por vir, ir,
da engrenagem que não pára, dispara,
sacode o chão que piso, piso
de um ônibus em movimento, momento
em que me agarro ao cilindro de metal do alto
-
a vida
-
não a que resta ainda, indo,
mas a que transborda de cada ar expirado, inspirado,
até que arrebente, vente
 Arnaldo Antunes (2012)

sobre livros...


Convidado da semana: A trama do casamento


Por: Bruno Leite
Assumo, de peito aberto: fui ler A Trama do Casamento imbuído de toda tendenciosidade existente na biosfera. Prazer, eu sou a Madeleine Hanna! Então, permitam-me apresentar meu alter ego. Madeleine é uma estudante de letras que escolheu o curso por ser uma apaixonada por livros. Mais precisamente por literatura. Mas ao contrário do que ela - e do que eu também - pensava, tudo que ela leu foram críticos, livros teóricos e alguns romances que representam bem determinados períodos, não necessariamente grandes romances. Preciso dizer o grau de insatisfação estampado na testa dela? Mas um desses teóricos salvou a lavoura: Roland Barthes com Fragmentos de um Discurso Amoroso. Confesso que paralelo ao livro do Eugenides, eu lia Fragmentos e se eu pudesse resumir ele em uma palavra, seria em um palavrão bem sonoro e entusiasmado. Mas me limito a dizer que é muito bom. Faz todo o sentido do mundo. No livro. Na minha vida. Na sua vida. Quer uma dica? "esqueça" ele no criado mudo da sua mãe. E da sua avó.

Voltando a Srta. Hanna, ela tem um relacionamento conturbado com um personagem - no mínimo - apaixonante: Leonard Bankhead (suspira). Ele é um biólogo gigantão, barbudo, gentil, masca fumo, usa bandanas, sabe tocar músicas eslavas e o principal: ele é bipolar. Porque eu e Madeleine não nos apaixonamos perdidamente se não houver o elemento problema. Ela também se relaciona amigavelmente com Mitchell Grammaticus - um loirinho fofo, inteligente, bondoso, carinhoso, todo disponível. Em suma: o cara perfeito - pra ser melhor amigo, obviamente. Formado o triângulo amoroso, o que se desdobra são quebras de paradigmas, de sonhos, de posturas, de filosofias. Tudo vai caindo por terra, ou todos vão amadurecendo, dependendo do seu nível de otimismo.
Isolando a crítica literária dentro do livro - sobre como o divórcio e o feminismo afetaram a estrutura do romance; dai o título - e as incríveis semelhanças de Leonard com David Foster Wallace, na qual eu prefiro não opinar, o romance em si vale cada esforço para mudar de página. Porque é desses que falam a verdade, que capturam o que toda uma geração sente em comum - mesmo que seja a geração de 80. Dói, profundamente, porque é de verdade; as verdades ditas se sustentam no mundo real. Bem nessa hora você para de ler e olha pela janela do ônibus ou pra parede do seu quarto e fica imaginando um "putz" se desenhando na sua frente.

Uma coisa que ninguém disse, mas que eu achei muito latente, é o humor do Eugenides. Ele é muito bobo. Ele vem seguindo uma linearidade narrativa quando de repente - tá lá! A piada feita e você rindo alto. Um desses pontos altos é quando Madeleine senta nua num sofá imundo e levanta torcendo pra não pegar uma infecção urinária.

Falar mais seria estragar o prazer de deflorá-lo: devore o quanto antes e vá ser feliz.

Bruno Leite: Um taurino neurótico. Um beatlemaníaco que samba. Porque literatura é luz, raio,
estrela e luar.
 
 
 
 
 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Tudo Que Você Podia Ser - Lô Borges

Brasília




À procura de uma cidade

por NICOLAS BEHR
 


não tente
gostar de brasília
tão rápido assim

blocos de verdade
sobrevoam
superquadras
imaginárias

superquadras
à procura
de uma cidade

*

anunciaram a utopia

mas foi brasília
que apareceu

*

o que mais
te fascina
em brasília?

a cidade ou o poder?

o céu

*

da próxima vez
que eu for
a brasília
não vou trazer
uma flor
do cerrado
pra você
vou depositá-la
no túmulo
do candango
desconhecido

*

o que não falei
sobre brasília
o tempo dirá por mim

*

todos os erros
de brasília
são meus

tolerar
outras brasílias
e explodir apenas
a cidade
onde a palavra
mágica é tabu

abracadabraxília

quero a dor
dessa cidade
pra mim


*

os candangos
foram então obrigados a morar
fora da cidade fortificada

já os brasilienses migraram
para a capital logo depois
encontrando a cidade pronta

mesmo após brasília
continuaremos desejando
viver em sociedade?

*

os candangos
pegavam na vida
sem luvas

a vida é um fio desencapado caído na rua
em noite de chuva

*

o traço do arquiteto
é superfície
pele, poste, poeta e papel
são superfícies
o subsolo da catedral
é superfície
o bloco soterrado, superfície
a solidão
da superquadra é superfície
onde nascem as raízes
é superfície
o céu de brasília,
superfície
o lago paranoá
mesmo seco é superfície

brasília é minha pele
ao avesso
profunda superfície


*

não descer do bloco
paranão te cumprimentar
subir pelas escadas
pois você está no elevador
sair pela garagem
paranão te ver no térreo
não levar o cachorro
pra passear
porque seu vizinho
também levou
ficar no apartamento
paranão te encontrar
na padaria

*

cidade-fora-da-órbita
cidade-fora-da-cidade
cidade-fora-da-lei

muro invisível
espaço intransponível

*

já é brasília?

não

apenas
a sensação


http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-70/poesia-nicolas-behr/a-procura-de-uma-cidade

NUA - PABLO NERUDA



Cien sonetos de amor

 

Soneto XXVII

Desnuda eres tan simple como una de tus manos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tienes líneas de luna, caminos de manzana,
desnuda eres delgada como el trigo desnudo.
Desnuda eres azul como la noche en Cuba,
tienes enredaderas y estrellas en el pelo,
desnuda eres enorme y amarilla
como el verano en una iglesia de oro.
Desnuda eres pequeña como una de tus uñas,
curva, sutil, rosada hasta que nace el día
y te metes en el subterráneo del mundo
como en un largo túnel de trajes y trabajos:
tu claridad se apaga, se viste, se deshoja
y otra vez vuelve a ser una mano desnuda.


Photo: XXVII



NUA és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.

Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pêlo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.

Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva, sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo

como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha
e outra vez volta a ser uma mão nua.


PABLO NERUDA

NUA és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
... tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.

Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pêlo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.

Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva, sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo

como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha
e outra vez volta a ser uma mão nua.


PABLO NERUDA

Take Five With...

       

Take Five With Jussi Reijonen

Take Five With Jussi Reijonen
Published: July 16, 2012
 
Meet Jussi Reijonen:

 Born in Rovaniemi, a small town on the Arctic Circle in northern Finland, fretted/fretless guitarist and oudist Jussi Reijonen is truly the product of a world with few frontiers. Having grown up moving back and forth between Finnish Lapland, the Middle East, and East Africa, and currently living in Boston MA, USA, Jussi has spent his life soaking up the sounds, scents and shades of Nordic, Middle Eastern, African, and now American culture, which are all reflected in his music.
Along his path, Jussi has worked—as bandleader, sideman, composer or arranger—with numerous front row artists both in and outside his native Finland, and has performed extensively in Finland, Sweden, Latvia, Germany, France, Lebanon and the United States. After relocating to the US in 2008, he has had the honor of performing with the likes of renowned jazz drummer Jack DeJohnette, flamenco cantaor legend Pepe de Lucia, Spanish multi-Grammy Award-winning producer and flamenco guitarist Javier Limón, Palestinian oud/violin master Simon Shaheen, fretless guitar pioneer David Fiuczynski, Turkey's gypsy clarinet legend Hüsnü Şenlendirici, and Lebanese nay virtuoso and multi-instrumentalist Bassam Saba, to name a few.
Jussi is currently preparing to release his much-anticipated debut album, un with his quintet in September, 2012.
Instrument(s):
Fretless and fretted guitars, oud.
Teachers and/or influences?
Teachers: Ran Blake, Simon Shaheen, Mick Goodrick, David Tronzo, Jon Damian, David Fiuczynski, David Gilmore, Bret Willmott, Tim Miller, Peter Lerche, Raoul Björkenheim, Bassam Saba and Ziyad Sahhab, among others.
Influences: Sounds. Shades.
Your sound and approach to music:
I believe in two musical fundaments: honesty and presence. For me, for any art to communicate and connect, it has to have both, and neither can exist without the other.
My music is the result of a life lived in Northern Finland, the Middle East, Africa and now the USA; in my music, I attempt to combine traditions of American and Scandinavian jazz and the folk musics of the Middle East and Africa.
Your dream band:
Pretty much the quintet I play with now: myself, Utar Artun on piano, Bruno Räberg on acoustic bass, and Tareq Rantisi and Sergio Martinez on percussion. I hope to keep working with them for quite some time yet, expanding our sound.
Your favorite recording in your discography and why?
I have to say my upcoming album un, which will come out in September this year. It's been years and years in the making conceptually, so it's a major step for me to be able to finally release it. I think it is a true reflection of my life story and my personality as a musician at the moment. The recording session was wonderful as well—two days, tracking live with my band.
As a sideman, I'd vote for Gabriela Martina's EP, Empathie. Very fond memories of that session; she and her band are unbelievable.
The first Jazz album I bought was:
I think Bill Evans' You Must Believe in Spring.
What do you think is the most important thing you are contributing musically?
Tough one... honesty is what I strive for, so hopefully that will come across to listeners as well. Many of my tunes are quite long and based on moods and states of being, if you will, so I'm really trying to fight the hectic nature of modern life by trying to get people to stop, breathe, and meditate for awhile.
CDs you are listening to now:
Munir Bashir, Concert Budapest 1992;
Nik Bärtsch's Ronin, Holon (ECM);
Camaron de la Isla & Tomatito, Paris 1987;
David Fiuczynski, Planet MicroJam (RareNoise Records).
How would you describe the state of jazz today?
I think it's healthy. I really enjoy following the younger players and where they are taking music. No worries there!
What are some of the essential requirements to keep jazz alive and growing?
Openness, honesty and presence.
What is in the near future?
I'll be releasing my debut album as a leader, un, in September, 2012. The record will feature my original compositions in solo, duo, quartet, quintet and sextet configurations, and takes elements of Scandinavian and African-American jazz, Middle Eastern and African folk musics, and ties all that together with Indian-based rhythms. The band on the album is my quintet, meaning myself on fretless and fretted guitar and oud, Utar Artun on piano, Bruno Räberg on acoustic bass and Tareq Rantisi and Sergio Martinez on percussion.

Photo Credit
Courtesy of Jussi Reijonen

domingo, 15 de julho de 2012

O chinês solitário

| Manuel S. Fonseca

a gen­ti­leza nir­vâ­nica do rosto

 
Donde saiu o chi­nês? Filas deles balan­çam car­ris e cons­troem as gran­des linhas fér­reas que hão-de ligar Leste e Oeste. O chi­nês é uma mul­ti­dão no cinema ame­ri­cano, longa fila ape­ada que ante­cede o pri­meiro comboio.
E não é! O chi­nês no cinema foi o “homem ama­relo” de Grif­fith. David Wark Grif­fith, pai fun­da­dor do cinema, inven­tou o chi­nês no cinema, como já tinha inven­tado o homem negro, que pin­tou vici­oso e insur­gente em “The Birth of a Nation”.
Em 1919, no lírico “Bro­ken Blos­soms” que em por­tu­guês foi um “Lírio Que­brado”, o chi­nês era a corola opiá­cea a fechar os bra­ços para pro­te­ger de abu­sos vito­ri­a­nos a menina branca. A menina era Lilian Gish e Grif­fith desenhou-a a tra­ços pré-rafaelitas.
É numa China a sépia que começa “Bro­ken Blos­soms”, uma China idí­lica, de chás e fumos, China con­tem­pla­tiva e mís­tica. Desse fundo ron­ro­nante sai o yel­low man que se arroga a mis­são de levar a men­sa­gem de bon­dade budista aos bár­ba­ros anglo-saxónicos.
Anos mais tarde, ainda não vimos Lilian Gish, reencontramo-lo num bairro sór­dido de Lon­dres, enco­lhido de frio à porta da sua encan­tada loja dos tre­zen­tos. A nuvem de ópio que o cerca aju­dará, mas a ver­dade é que con­serva a mesma gen­ti­leza nir­vâ­nica nesse rosto que Grif­fith pin­tou mais ama­relo por ser o de Richard Barthel­mess, actor branco que era tudo menos chinês.
Pas­sa­ram 18 minu­tos de filme e da névoa azu­lada do rio surge Gish. O cinema mudo tam­bém tinha paci­ên­cia de chi­nês e hão-de pas­sar outros 18 até ver­mos que o homem ama­relo viu Lilian Gish, a menina que não é capaz de sor­rir. Ela tem uma boca de pena, uns olhos de medo. Sorri como quem chora e tem razão para isso: o pai é pugi­lista, bêbedo, mulhe­rengo e faz dela o saco de socos das suas frustrações.
Um dia, quase morta de pan­cada, foge. O corpo can­sado leva-a para a loja do chi­nês. Nesse pri­meiro ver­da­deiro encon­tro deles há um bai­lado de olha­res que se que­rem e se recu­sam. Mil pre­con­cei­tos na loja dos trezentos.


mil pre­con­cei­tos na loja dos trezentos
O chi­nês cobre-a de sedas azuis e ama­re­las, lírios para os cabe­los tris­tes de Gish. E a mão dela, sozi­nha, mais tole­rante do que a sua tão bela cabeça de teias vito­ri­a­nas, aca­ri­cia a face do homem ama­relo. “What makes you so good to me, Chinky?” é o que bem vemos Gish dizer ao seu sal­va­dor. E vemos os olhos de Barthel­mess, actor branco, a semicerrarem-se para serem mais chi­ne­ses e goza­rem a gló­ria de estar o Ori­ente a abrir, em Gish, uma peque­nina porta de Ocidente.
Mas nas ruas dessa depri­mida Lon­dres há punhos de ran­cor e vin­gança pron­tos a esmur­rar qual­quer pre­ten­são de final feliz. “Bro­ken Blos­soms”, filme da entrada do Ori­ente pelas por­tas do Oci­dente, ter­mina em fúria e fria morte: um chi­nês soli­tá­rio atra­vessa o nevo­eiro oci­den­tal com um inú­til cadá­ver ao colo. Tal­vez Grif­fith fosse um profeta.



Publi­cado no Expresso de 14 de Julho


 
http://www.escreveretriste.com/


 

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante?


 

“Não acredito muito em discos voadores, não. Sou meio cético para essas coisas sobrenaturais. Tenho um pouco de medo e de preguiça. Talvez por falta de desejo. Eu não desejo outra vida, ter um corpo astral, não desejo ir para outra dimensão. Desejo o aqui. Tenho horror de adivinhação do futuro. Sou cético. Mas sou místico também. Acho que tem muito mistério. Sinto a dimensão do mistério. Mas não acredito racionalmente em reencarnação. Acho tudo isso um saco. Este momento único é só este e não quer dizer nada. Isso também é difícil de aceitar. É mais difícil. Que é só isso e fim. Que não tem mais nada e não significa nada para ninguém. Não faz sentido em relação a outras coisas do Universo. Nada. É um acaso. Não está sendo filmado, não tem um diretor, não tem nada. É assim mesmo. É isso aqui. É um abismo total. Tem que ser místico até pra sentir isso. Tem que ser zen. Não tem explicação. Não faz sentido. Não é para fazer sentido.”

De Caetano Veloso em 1985, durante entrevista a Ademir Assunção
O título do post remete à música Um Índio, do próprio Caetano, interpretada abaixo por Zé Ramalho
 
http://armandoantenore.com.br/index.php/category/blog