Subversiva
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus
abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade
Civil
Infringe o Código de
Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da
Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham
mal
Embala no colo
Os que têm sede de
felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o
país.
( Ferreira Gullar )
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domingo, 22 de julho de 2012
A Cidade da Boemia
domingo, 22 de julho de 2012
Poesia em tempos de boemia literária
Um texto precioso
escrito por FLORISVALDO MATTOS
ASSUNTO:
Resumo de conferência pronunciada por Florisvaldo
Mattos, durante o seminário “Memórias Cruzadas da Cidade do Salvador”, promovido
pela Fundação Pedro Calmon, sendo moderador seu presidente, o historiador
Ubiratan Castro, em 18 de julho de 2012, no auditório da Biblioteca Pública do
Estado da Bahia, nos Barris, na parte circunscrita ao tema A Cidade da Boemia, tendo como foco “a
boemia literária e o entrelaçamento da vida intelectual, mundana e
universitária, que incubaram intensamente gerações de intelectuais
transformadores e movimentos de vanguarda, na Salvador dos anos
50”.
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Houve
um tempo nesta Cidade do Salvador em que, mais que uma forma de convívio entre
amigos, as tertúlias eram um refúgio de que se valia a boemia literária, para
fruir o intercâmbio cordial de ideias, que muitas vezes, desaguava em desafio,
em torneios de emulação, quando não de contenda rude, açulando a curiosidade de
uma audiência, que as acompanhava avidamente, de perto ou à distância. E nelas
muito de criação literária e artística se divulgava, para depois ganhar o mundo.
Essa distração intelectual com o tempo se esvaneceu, perdeu a antiga feição de
urbanidade, para quase completamente sumir das práticas culturais, passando a
compor um vasto anedotário. Em 1958, já não se falava mais dessa espécie de
concurso civilizado, mas ocorreu que, num bar da Rua da Ajuda, no curso de uma
tertúlia boêmia, que reunia poetas, literatos e jornalistas, dois sonetos
deixariam de ser remotos estados de ânimo e sutileza mental, para cumprir um
trajeto que pertence a todos os que viajam pelo terreno dos
símbolos.
A
partir dos anos 1940, quando profundas alterações ocorrem na ordem social e
econômica, com fortes reflexos na cultura, a Bahia, que era a terra do “já foi”,
toma outra configuração demográfica e urbana, impulsionada pela descoberta do
petróleo no Recôncavo e a conseqüente deflagração de um processo de
industrialização modernizador, livrando-a da dependência do comércio
agroexportador, que tinha seu vigor centrado no cacau; nova dinâmica advinda das
transformações no sistema de transporte rodoviário e aeroviário torna mais
rápida a relação entre o Sul rico e o Nordeste, aproximando centros de consumo e
fornecimento de bens e mercadorias; por fim, ocorrem mudanças no panorama
cultural, desde a gestão liberal de Anísio Teixeira na Secretaria da Educação e
Cultura, no Governo Mangabeira (1947-1951), acentuadas pela revolução que o
reitorado de Edgar Santos imprimirá na Universidade da Bahia, nos anos 1950,
criando novas escolas de arte e institutos especializados, além de reformular
unidades já existentes.
Tais
sucessos vão se refletir diretamente no desenvolvimento da Cidade do Salvador,
que, cansada e envergonhada do velho perfil provinciano, começa então a
sonhar-se cosmopolita. Num primeiro momento, as letras e as artes entram em
agitação, na ânsia de se libertar das amarras do conservadorismo imperante, com
a presença de jovens artistas plásticos (Mário Cravo Júnior, Carlos Bastos,
Carybé, Jenner Augusto), ficcionistas e poetas (Vasconcelos Maia, José Pedreira,
Wilson Rocha, Jair Gramacho), espraiando-se para outros campos (arquitetura,
mundanismo e até na política), com os ventos liberais que soprava a Constituição
de 1946. O entrelaçamento entre a vida intelectual mundana e universitária faz
surgir, com tinturas existencialistas, o primeiro pouso aconchegante da boemia
literária na cidade, o Bar Anjo Azul, na Rua do Cabeça, que se tornaria
doravante um emblema, um marco no gênero. Era a vibrante presença da Geração
Caderno da Bahia, empenhada em fazer vingar o ideário estético do modernismo,
cuja adoção plena o academicismo rotundo e insensível travara por dois
decênios.
É
nessa atmosfera de sonho e esperanças que desembarco em Salvador, em fevereiro
de 1952, numa noite de Segunda-Feira Gorda de Carnaval, vindo de Itabuna, para
estudar no paradigmático Colégio da Bahia e depois cursar universidade. E é a
partir da Faculdade de Direito, já publicando poesia na revista Ângulos, que venho integrar o grupo
nuclear de jovens, adiante dito Geração Mapa, que borbulhava entre o sucesso e o
escândalo com as apresentações de seus espetáculos de poesia dramatizada no
auditório do Colégio da Bahia, rotulados de Jogralescas, por volta de 1956/57.
Glauber Rocha à frente, e já se insinuando líder, por lá transitava uma
irrequieta malta de declamadores composta de poetas, artistas plásticos,
teatrólogos, cineastas, atores e futuros jornalistas (Fernando da Rocha Peres,
João Carlos Teixeira Gomes, Paulo Gil Soares, Calasans Neto, Sante Scaldaferri,
Ângelo Roberto, Fernando Rocha, Carlos Anísio Melhor, Fred Souza Castro, Antônio
Guerra Lima, Anecy Rocha, lembro alguns).
Associei-me
ao grupo e me engajei na saga de seus projetos editoriais e artísticos, numa
vasta gama de ações, envolvendo literatura, teatro, cinema, artes plásticas e
jornalismo. E logo começariam a surgir, em caudal, livros com o selo das Edições
Macunaíma; os projetos cinematográficos da Iemanjá Filmes; pinturas, esculturas
e gravuras em galerias de arte; peças levadas no espaço da jovem Escola de
Teatro; e, logo também, uma revista, a Mapa, e o inesquecível SDN, o suplemento
literário dominical editado pelo Diário de Notícias, de Assis Chateaubriand,
rematavam um vertiginoso leque de aspirações inovadoras. Aos nomes citados, vale
lembrar outros aderentes, como eu, Myriam Fraga, João Ubaldo Ribeiro, Sônia
Coutinho, David Salles, Valdeloir Rego.
Como
então os tempos de franca liberdade se casavam com a vida boêmia, febris
cogitações e intensos debates exigiam que a geografia da cordialidade se
estendesse por diversos pontos de encontro, que se tornariam habituais. Eram os
mais freqüentados: a Sorveteria Cubana, ainda hoje lá na parte alta do Elevador
Lacerda; o Restaurante Cacique, na Praça Castro Alves, mas ainda à época chamada
de Largo do Teatro; o Anjo Azul e o Restaurante Porto do Moreira, ambos na Rua
do Cabeça, o Bar Brasil, o Chez Bernard, novidade que se instalara no terraço do
Edifício Themis, na Praça da Sé; e, às vezes, o Colón, na Piedade. E, nos fins
de noite, com tudo fechado, Zé do Esquife, um tabuleiro de iguarias várias, que
se oferecia à boemia junto à estátua de Castro Alves.
A
noite era realmente criança e aconselhava outros pousos e outros desempenhos, a
começar pelas casas de mulherio, como o “Meia-três”, na Ladeira da Montanha, as
casas de “China”, “Maria da Vovó” e “Cymara”; gafieiras (Churrascaria Ide,
Metrô, Rumba Dancing, Belvedere); inaugurais boates (Carijó, XK Bar, Manhattan,
Pigalle e, para os mais abonados, o Cassino Tabaris). Fora disso e das cantinas
de faculdade, os encontros se davam nas sessões dominicais do Clube de Cinema da
Bahia, capitaneadas pelo advogado trabalhista Walter da Silveira, salas de
espera dos cinemas, portas de livraria e “hall” de faculdades. A cidade
tranqüila era assim intensivamente vivida, dia e noite, varando as
madrugadas.
Volto
ao começo, à história dos dois sonetos nascidos de uma longínqua tertúlia
literária, no lusco-fusco de um bar, em anos de boemia e jornalismo romântico.
Narro a excentricidade. Noite de primavera, dias depois do surgimento do “Jornal
da Bahia”, na Rua Virgílio Damásio, nº 3, uma transversal da Rua Chile, numa das
mesas de tampo de mármore do Bar Nogueira, então um dos mais concorridos da Rua
da Ajuda, vizinho ao famoso Café das Meninas, amigos estão sentados, dois deles
poetas e dois tarimbados jornalistas. Os poetas éramos eu, um mero iniciante, na
poesia como na imprensa, e Jair Gramacho, já um dos mais prestigiados membros da
Geração Caderno da Bahia, na qual disputava fama com poeta Wilson Rocha, ambos
ícones do modernismo na Bahia. Os dois jornalistas eram Ariovaldo Matos,
romancista e autor de “Corta Braço”, ficção pioneira inspirada numa invasão de
terras ocorrida no bairro da Liberdade, e o contista e cronista Flávio Costa,
este subsecretário de Redação, aquele experiente Chefe de Reportagem do novo
jornal.
Falava-se
de literatura, como sempre, quando de repente, coisa de boêmios, surge um
desafio, para saber-se qual dos dois poetas ali melhor escreveria um soneto. Não
sei de quem partiu a idéia, tampouco o grau do efeito etílico, que, indulgente,
o Ângelus da Igreja da Ajuda perto acalentava. Os dois poetas se entreolharam,
mediram o tamanho do repto, mas, feito o ajuste, bebericaram um pouco mais e se
foram. Dois dias após, tal como combinado, voltamos os quatro ao mesmo bar, cada
um dos poetas, empunhando a sua Excalibur verbal: eu, com o soneto intitulado "A
cabra", de cândida inspiração rural, composto no clássico formato petrarquiano,
com os catorze versos dispostos em dois quartetos e dois tercetos; ele, Jair
Gramacho, com suntuosa joia lavrada no modelo shakespereano, de três quartetos
integrados e um dístico, amplo de alusões panteístas e referências mitológicas;
ambos construídos em decassílabos de rimas entrelaçadas.
Cumprindo
o ritual e com a devida entonação, cada autor leu o seu soneto. Na postura de
juízes, depois de ouvi-los e cotejá-los, em silêncio, os dois jornalistas
concluíram sorridentes que os dois poemas mereciam publicação na edição
dominical do “Jornal da Bahia”. Dito e feito. Poucos dias depois, com verniz
gráfico de prestígio, os sonetos ocupavam as duas colunas do lado direito da
página literária, editada sob a batuta do historiador e cronista Luís Henrique
Dias Tavares, mas sem se referir ao embate que se travara no bar. Publicado,
cada soneto seria alvo de corporativista acolhida: o meu, com recitação e
elogios da presunçosa grei a que eu pertencia, enquanto o de Jair era bem mais
efusivamente louvado não apenas por nomes consagrados de sua
geração.
Em
1960, os dois poemas sairiam ainda na revista Ângulos (Nº 16), então prestigiosa
publicação do Centro Acadêmico Ruy Barbosa, da Faculdade de Direito, mas cada um
doravante com sorte diversa. “A cabra” iria compor o conjunto do meu primeiro
livro, Reverdor, saído em 1965 pelas
Edições Macunaíma, enquanto o primoroso soneto de Jair Gramacho, ao que sei,
permanece até hoje inédito em livro. São eles que agora abaixo reproduzo, vindo
em primeiro lugar o do meu saudoso e insigne êmulo.
SONETO
OITAVO DE ATALANTA EM CALIDÔNIA
JAIR GRAMACHO
Nesta
tarde o terreiro está vazio.
Distante
o laranjal se estende; a manga,
A
serra, o azul depois; tênue miçanga
De
açafrão tinge as fímbrias, o do estio
Único
resto. Esta tristeza é mais
Que a
da paisagem pobre e adormecente;
Talvez
por não ter rosas, não ter gente,
E a
solidão vagueie pelos currais.
Mas,
certo é que nesta hora, ressurrecto,
O
mito abandonado busca o luxo
Antigo
de existir; dispõe espectros
Que
em volta cirandeiam do repuxo...
Ah! Mais que basta para o instante magro
Galinhas ver – irmãs de Meleagro!
A CABRA
FLORISVALDO MATTOS
Talvez um lírio. Máquina
de alvura
sonora ao sopro neutro
dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és
já me tortura
guardar-te, olhos
pascendo-me vencidos.
Máquina e jarro. Luar
contraditório
sobre lajedo o casco
azul polindo,
dominas suave clima em
promontório;
cabra: o capim ao sonho
preferindo.
Sulca-me perdurando nos
ouvidos,
laborado em marfim – luz
e presença
de reinos pastoris antes
servidos –
teu pelo residência da
ternura
onde fulguras na manhã
suspensa:
flor animal, sonora
arquitetura.
Florisvaldo Mattos é
poeta e jornalista; membro da Academia de Letras da Bahia; autor de livros de
poesia e ensaios.
Read more: http://clippingsetaro.blogspot.com/2012/07/poesia-em-tempos-de-boemia-literaria.html#ixzz21OGmZLwi
A SORTE DE SER FEIO
Arte de Joaquín Torres
García
As pessoas me chamam de feio, na verdade é uma promoção. Antes me chamavam de ET, agora tomei a forma humana. E ainda perguntam como estou casado com uma mulher linda. Simples, mulheres lindas têm mau gosto e feios têm bom gosto.
Ser feio tem inúmeras vantagens e benefícios,
pode perguntar ao Woody Allen:
- O feio é inesquecível, você olha uma vez e o
choque é tão grande que guarda para sempre.
- Amor à primeira vista é para os bonitos. Para
os feios, é amor ao primeiro trauma.
- Mais fácil se apaixonar pelo feio. Você não
entende como ele nasceu assim, pede um prazo maior. O feio é um enigma, uma
charada. Mulher abandona o homem quando entende rápido.
- O feio não é preguiçoso no relacionamento,
não vai perder tempo ajeitando o cabelo e se olhando no espelho.
- O feio traz as melhores conversas. Ele
depende da lábia para garantir a distração da mulher.
- O feio não envelhece, só melhora com o tempo.
Diferente do bonito, que ficará um dia feio.
- Não, o feio não melhora com o tempo, você é
que se acostumou com ele. Um feio conhecido torna-se simpático. Um feio
desconhecido é apenas feio.
- Todo feio é engraçado, aprendeu a rir de si
mesmo. Não conheço feio mal-humorado.
- O feio é educado, pois sofreu muito com a
falta de educação dos outros,
- O feio não reclama, está sempre satisfeito.
Quem reclama é o bonito, insaciável com os elogios.
- O feio gosta muito de seu nome, foi obrigado
a suportar tudo o que é apelido,
- O feio é uma apoteose na cama, Sapucaí dos
lençóis. A excitação feminina cresce com o medo.
- A mulher nunca se entedia com o feio, leva
susto cada manhã.
- O feio é prático, já se acorda pronto, não
precisa se arrumar.
- O feio apresenta uma maior resistência
emocional, é capaz de ser um grande parceiro nas crises e usar a criatividade
nos piores momentos.
- Ninguém duvida da masculinidade do homem
feio. Já o homem bonito demais parece uma mulher.
Ouça meu
comentário da manhã de sexta (20/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por
Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola:
sábado, 21 de julho de 2012
comportamento sexual
Pesquisa: japoneses são os que fazem menos sexo
FREQUÊNCIA
- Os japoneses são o povo que faz menos sexo no planeta. Apenas 27% da população tem uma relação por semana. Os britânicos ocupam a penúltima posição, com 55%.
- Quem mais faz sexo no mundo são os colombianos: 89% têm pelo menos uma relação sexual por semana. Os indonésios e os russos vêm em segundo lugar, com 88%. Em seguida: China e Portugal (85%).
Média mundial: 71%
PRELIMINARES
Quantos minutos você gasta nas preliminares? Os gregos venceram, com 21,2 minutos. Os brasileiros ficaram com o vice-campeonato, com 20,8%. Quem gasta menos tempo e vai mais rapidamente ao "vamos ver" são os tailandeses (11,2 minutos) e os malaios (12,5 minutos).
TEMPO DE DURAÇÃO
Novo vice-campeonato para os brasileiros. Somos os segundos que têm as relações mais demoradas: 27,2 minutos. Só perdemos para Hong Kong (29,4 minutos). Os mais rapidinhos são os franceses (14,3 minutos) e os britânicos (14,5 minutos).
As mulheres que "mais chegam lá" estão na Hungria: 75% das entrevistadas disseram ter orgasmo com os parceiros. As gregas vem em seguida (71%). As chinesas (23%) e as sul-coreanas (25%) são as que menos chegam ao clímax.
USO DE CAMISINHA
Os chineses são os que usam mais camisinha: 77% deles afirmaram ter usado preservativo na última relação. Os brasileiros ficaram na sexta posição (67%). Os tchecos são os que menos se protegem: apenas 38% usaram camisinha na última vez.
- Entre todas as práticas sexuais, a mais popular no mundo é... a massagem! Especialmente para gregos e sul-africanos.
- Sexo oral é mais comum entre austríacos (80%) e brasileiros (77%).
- Suíços (77%) lideram o ranking das fantasias sexuais.
- Os tailandeses são os que mais aderem ao uso de materiais eróticos para aumentar a libido (68%).
- Masturbação: liderança para os suíços (96%). Na última posição ficaram os nigerianos: 30%. Um terço dos entrevistados faz pelo menos uma vez por semana: homens (43%) / mulheres (22%).
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BOM DIA!!!!
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Amigo é Casa - Zé Renato e Lenine
Dedicado ao MARCO LINO, amigo constante e atencioso desse meu Sussurro...
Ari e João levam um papo
João Ubaldo Ribeiro, entrevista a Ariovaldo Matos

Entrevista publicada na Revista ViverBahia, edição 46, publicada em Janeiro de 1979
A.M.
- O jornalismo empatou você em literatura?
J.U.
- Não, não. Ajudou muito, ajudou muito. Claro, se você não for uma pessoa de
estrutura excepcional tem a tendência a fazer mal uma das duas coisas. Porque
você ou se obceca com seu lado jornalístico ou com seu lado escritor e tende a
negligenciar um dos dois lados, principalmente se você tem um projeto qualquer,
importante, ligado a uns dos dois lados. Mas, é muito melhor você ser jornalista
e escritor do que você ser mestre-de-obra e escritor. Eu tenho certeza de que
meu treino em editorial, que é um negócio difícil, você tem que vestir a roupa
de terceiros para assumir um ar que não é seu, tem que se submeter a uma serie
de restrições de estilo, foi um treino muito útil. É um treino de redação de
primeira qualidade.
A.M.
- na medida que o jornalismo abre o mundo para o profissional... Conhecer
gentes, realidades...
J.U.
- Claro, claro, claro! Eu sou por natureza, embora não pareça, uma pessoa
voltada... Quero dizer, sou uma pessoa de poucos amigos, me dou com pouca gente,
reconheço isso. Quando eu voltei à redação, depois de muito tempo fora da
redação, voltei relutante, me foi muito útil. Inclusive, dá uma certa lição de
humanidade, de relatividade das coisas, cuja noção você perde na medida que se
afasta da vida de um jornal, qualquer jornal, onde você vive todo tipo de gente,
de situações, todo o tipo de deformação profissional, todo tipo de vaidades.
Dentro de uma redação você tem uma visão muito clara da humanidade e é bom, é
didático, eu acho, para um escritor.
aretê não é virtude
http://viverabahia.blogspot.com.br/2010/08/joao-ubaldo-ribeiro-entrevista.html
Últimos Sinos da Infância
As carruagens rodavam muito próximas, estranhas passavam...
Meu grande herói era Wild Bill Hicock. Sobretudo amava-o quando, de modo certeiro, ele utilizava seus dois revólveres sem os retiram dos coldres: despejando o sagrado chumbo da justiça e os bandidos caíam mortos. Interessavam-me aqueles corpos no chão. Neles imaginava caras diversas, segundo as exigências de minhas circunstâncias. Ultimamente, por exemplo, era Alípio, meu rival quem caía morto com maior assiduidade. E, de outra parte, havia muito dos traços de Dilma, a filha do Sr. Adriano, nas mocinhas que meu grande herói terminava beijando ou abraçando.
Meu pai no entanto, preferia ouvir óperas e operetas.
-- Guga – chamava – venha até aqui.
Punha-me ao seu lado, sentadinho, e ordenava:
-- Ouça, com atenção.
O disco 78 rodava no prato do gramofone Victor (eu espiava o cachorro imobilizado, um belo cachorro, irmão de rin-tin-tin) e após o último agudo ou o último grave, ele inquiria:
-- Que opereta é está?
-- “Madame Butterfly”.
-- E esta ária, como se chama?
-- Um bel di vidremo, pai.
-- Vedreno, Guga, um bel di vedreno. Não é vi, é vê. Vedreno. Repita.
-- Vedreno, pai, vedreno.
Ele ficava feliz porque seu filho menor mostrava-se dono de uma memória razoável. Demais, aquela era a sua ária preferida. Ao ouvi-la ele enternecia até as lágrimas, identificando-se momentaneamente com a tragédia da mocinha japonesa engravidada pelo garboso oficial da Marinha norte-americana. Por isso, ao preparar o gramofone, exigia silêncio na saleta onde se localizava sua ampla poltrona de couro marrom. Se a Tia,irmã de minha defunta mãe, donzela aos 39 anos, aparecia nas imediações, sempre a reclamar com as empregadas, ele advertia:
Agora vê se fecha essa tramela.
A tia invariavelmente replicava que o Brigadeiro reagiria se a soubesse tratada “como uma empregada”. O pai de novo investia, chamando-a de bruaca tagarela, definindo o Brigadeiro como “um merda posudo”. Por fim mandava que se calasse aos berros.
Durante as semanas que seguiam à aquele tipo de alteração, minha Tia vingava-se ao seu jeito: exibia sobre o peito murcho, a medalha que lhe ofertara o Brigadeiro, o irmão desaparecido depois de uma aposentadoria compulsória imposta pela Ditadura. Dele meu pai dizia que andava bêbado em qualquer cidadezinha do interior paulista, mas minha Tia sustentava, diante das empregadas e de mim, que um dia (-- Oh! – suspirava, Deus é grande, Deus é grande!) o Brigadeiro haveria de reaparecer, talvez como Ministro de Estado. Bastava, para isso, que se implantasse no Brasil o regime democrático. Na carta com que enviara a medalha para ela guardasse aquele tesouro, o Brigadeiro, de fato, sugerira essa possibilidade. Minha Tia, contudo, transformava-a em certeza, pura verdade. Quem vivesse, veria. Exibia a medalha sobre o peito murcho, meu pai dava sinal de arrependimento ante os gritos com que a fazia calar. Não obstante grosseiro nos gestos, tinha um bom coração. Certa vez, quando a vingança estava em curso, meu pai trouxe-lhe de presente uma echarpe vermelha. Entregou-a com recomendação expressa:
-- Ponha-a com jeito, pinte os beiços sem escândalo e pendure-se na janela, ao fim da tarde. Quem sabe, se assim, não lhe aparecerá um marido?
Minha Tia reagiu com um muxoxo. No entanto, alguns dias depois, seguiu o conselho, à risca, infelizmente sem alcançar conseqüência práticas. Morreu donzela, apesar dos apelos e das propostas mudas que lhe fazia o espanhol Sr. Pepe.
De tarde, por volta das cinco horas, quem a esperava era o vendedor de “massas” e ele, a bem verdade se diga, fazia esmero no lhe escolher os pães mais quentes, as melhores roscas e broas. Ganhava galhos de erva-cidreira em troca, e, de quando em quando, além das romãs eventuais, recebia velhos borzeguins que meu pai ia aposentando. Entendiam-se bem, a Tia e o vendedor de “massas”, seu Anísio. Surpreendi-os, uma tarde, conversando animadamente, ela rindo, ele com alguma emoção. De noite, mordido não sei porque curiosidade, perguntei à minha Tia:
-- A senhora vai casar com o masseiro?
Recebi, como resposta um delicado tapa na boca, como se houvesse dito um palavrão ou incorrido em pecado mortal. E vi, arrependido, que ela chorava sem exagero. Acariciei-a. Pedi-lhe desculpas pelo erro, de que tinha consciência, e ela beijou-me várias vezes, mostrando-se capaz de uma ternura que antes do episódio eu não suspeitava possível. Na manhã seguinte preparou, só para mim, alguns pés-de-moleque cobertos com côco ralado. Meu irmão protestou contra o privilégio, mas meu pai, que me gostava cercado daqueles carinhos, disse para que todos sorríssemos:
-- O melhor é para o xereta da Tia.
Aquele foi um dos meus dias mais felizes. Antes disso aí, meu pai perguntou-lhe por novas cartas do Brigadeiro. De noite o que havia semanas não acontecia, jogando “burro” e bebemos refrescos de tamarindo. Pouco antes de subirmos para dormir, meu pai convidou-a e a mim para ouvirmos Augusto Calheiro cantar “A pequenina cruz do teu rosário”.
2.
Às terças, quintas e sábados, eu comprava meio quilo de manteiga. O espanhol do armazém, o Sr. Pepe ria com os dentes amarelos a contar as cinco moedas de 1.000 reis que eu punha sobre o mármore do balcão. Era um mármore frio, com tênues riscos azulados.
-- E a Tia, como vai indo a sua Tia? – perguntava o Sr. Pepe com seu sotaque galego.
Eu sabia que ele a espiava, fazia-lhe propostas com olhares lascivos, sabia igualmente que minha Tia reparava nos seus dentes pocados, na camisa sempre suja, os tamancos com que ele batia nos paralelepípedos de nossa rua.
-- E a Tia, como vai indo ela? Leva-me um recado?
Nunca lhe dava resposta, ainda que insistisse, demorando-se no embrulhar a manteiga.
-- Está bem, está bem... Leva cigarros?
-- Não, hoje não.
Meu irmão fumava cigarros Selma, mas só nos primeiros dias de cada mês. Eram cigarros da moda, ponta de cortiça, um luxo. Usualmente ele consumia os Aromáticos, da fábrica A. Guimarães, cujos rolos espalhava pelos móveis da sala de jantar e de visita. Um fumo negro, pesado, forte – e um dia, ao experimentá-lo, para bancar o Homem diante de Dilma, suei frio e vomitei. Chorei, naquela noite, horas seguidas, em meu quarto, não mais em virtude das náuseas causadas pelo fumo, mas por ter cometido uma imprudência da maior gravidade: desprestigiaram-me diante de Dilma, ela rira do meu vômito. Decidi que de nada adiantaria enviar-lhe a carta que preparara, frase a frase, na qual eu a dizia tão bela quanto Frinéia. A carta, de antemão gorada, ficou guardada entre meus livros da escola; e minha Tia, dias depois ao descobrí-la, pode considerar que eu era, apesar de traquinas, um menino dotado de sentimentos elogiáveis, um tanto precoce talvez. Ela nada entendia de Frinéia, e quando me interrogou, eu fui suficiente cínico para responder sem titubeios:
-- É a deusa grega do saber.
Meu pai e meu irmão, por vias das dúvidas, foram consultados, ao jantar, e concordaram. Nada sabiam de Frinéia.
-- Essa Dilma – perguntou meu irmão – não é aquela garotinha da roça do Sr. Adriano?
Era, e eu bati a cabeça, afirmativamente.
Está ficando uma mocinha... – disse.
Compreendi o que ele queria insinuar. Contudo, não se falou mais no assunto. Até porque, naquela noite, havia programa radiofônico de Natércio Bastos, o cantor caolho que, segundo meu pai, “interpretava com muito sentimento, quase igual ao Orlando Silva”
3.
Era meu mundo e meu paraíso, aquela rua.
Tonho, filho do sapateiro Amadeu, incluía-se entre nossos ídolos. Sustentávamos que Romeu e Perácio, juntos, e Patesco, ainda de quebra, não valiam a classe, o arrojo e a resistência física descomunal do nosso Tonho. O velho Amadeu preparava-o cuidadosamente. Queria torná-lo um craque do futebol profissional. Tonho estava com meio caminho andado. Já pertencia ao quadro de aspirantes, dele os jornais começavam a falar. Não obstante sua fama, Tonho era amigo. Participava do nosso salão, no Beco da Agonia. Permitia, às escondidas do Pai, que ouvíssemos transmissões esportivas em seu rádio de galena. Foi ele quem nos ensinou a guardar jornais, revistas, cascos de cerveja, pedaços de chumbo, latinhas de “leite Moça”. Vendia tudo e distribuía, com nossa turma, o dinheiro apurado, retirando as parte. Foi ele, ainda, o magnífico Tonho, quem descobriu a existência de belchiores no Mercado Modelo, indicando o caminho para conseguirmos dinheiro com a venda de roupas velhas e sapatos usados. Então, sim, o dinheiro era grande, nosso mundo era maior, mais alegre. Assim rico, livre, eu almoçava depressa, convidava Nouca, o filho da lavadeira Fulô, e íamos para o “matinê do perfume” no Cinema Jandaia.
Foi numa tarde daquela, dia de cinema e de sonho, que vi, pela primeira vez, as carruagens estranhas, os sinos plangendo, carruagens negras e habitadas por vultos fantasmagóricos. E se iniciaram, então, os meus pesadelos. Já não me sonhava, como de hábito, ante o público de milhões de aficcionados, a traçar as jogadas que permitiam a Tonho desferir violentos chutes, pelotaços indefensáveis. Sequer me sonhava regendo uma grade orquestra ou trazendo até o Japão, seguro pelo gasganete, com auxílio do Brigadeiro, aquele maldito oficial norte-americano que engravidara a mocinha japonesa. Agora, com as carruagens próximas, os sinos tocando, havia sempre, nos meus sonhos aquele homem de pulmões podres. Era um homem magro, de olhos grandes e cheiros de terror, e tanto quanto me lembro ele fugia da carruagem, e havia neve, onde quer se fosse havia neve, e sobre a neve espalhava-se o sangue que lhe saía da boca, escorrendo pelos cantos. A carruagem fantasma de sinos bimbalhando, estava a perseguí-lo, mas ele resistia, queria viver, e fugia, na neve levantava-se e caía, sempre, e fugia – até que não pode mais.
Uma noite acordei gritando e meu pai ameaçou bater-me porque eu lhe falei da morte, mas logo apiedou-se de mim: eu chorava. Disse-me comovido:
-- Os meninos não morrem.
Continuei chorando e ele repetiu:
-- Guga, ouça, os meninos não morrem.
-- Só nos sonhos é que os meninos morrem – disse meu irmão, também despertado pelos meus gritos.
Minhas Tia, da porta, batia a cabeça. Dizia que sim, dizia que só nos sonhos é que os meninos os meninos morrem.
Convenci-me, aos poucos, de que estava livre, mas os outros não; os outros, os não meninos, morreriam na vida e nos sonho.
Dias depois, ainda próximas as carruagens, tive coragem para dizer à minha Tia:
-- Um dia virá a carruagem dos sinos e a senhora vai morrer, o Brigadeiro também vai morrer.
Ela olhou-me com raiva. Afirmou que não.
-- O Brigadeiro é forte – disse.
Contou:
-- Faz poucos anos, no alto Araguaia, ele teve tifo e impaludismo de uma só vez, as duas doenças juntas, e ficou bom, sozinho, sem médico e sem remédios. Bastou sua natureza.
Olhou-me fixamente e afirmou:
-- Ele é forte como um touro.
Eu me tranqüilizei e me veio à memória o que Neco, simples e verdadeiro, me havia dito à saída do cinema.
-- É tudo fita, é tudo mentira.
Eu repeti, cem vezes:
-- É tudo fita, é tudo mentira.
A repetição se não me impôs uma verdade, trouxe-me um sono sem sonhos ou pesadelos.
4.
O Brigadeiro, irmão de minha tia, eu o imaginava alto, espadaúdo, de grandes bigodes e olhar severo, como os do meu avô capitão-de-mar-e-guerra que morreu quando o navio sob seu comando explodiu no rio Amazonas.
Havia um retrato antigo do meu avô, em moldura ovalada, e meu pai o tinha com muito orgulho em seu gabinete.
-- Morreu – disse meu pai – quando eu ainda não completara os 16 anos. Desde então, fiquei sozinho e pobre. Trabalhei e estudei aqui mesmo, na Bahia, no começo eu vendia tamancos...
-- Como quem “Nada Quer”? – perguntei.
Meu pai riu. Ele gostava de minhas interrogações inesperadas. Achava-as próprias, oportunas, inteligentes, delas falava com meu irmão.
-- Não – explico – “Nada Quer” é um mascate, saí de porta em porta perguntando se lhe querem comprar algo. “Nada Quer”, pergunta, e daí vem o apelido. Eu, não. Tinha uma lojinha, de chinelos e tamancos, mas estudei...
Meu pai era o que, na época, se designava como “técnico em imposto de renda”. Sabia como preparar as declarações dos seus clientes. Deduzia daqui e dali, alterando fatores e depreciando o produto, o cliente pagava menos ao governo, meu pai ganhava mais. Uma produção sobremodo honrada. Fazia-se alegre, mas sabíamos, que a viuvez inesperada, a morte de meu avô, os filhos, tudo se reunira para matar seu grande sonho, como eu imaginava: a Marinha de alto mar, a grande aventura pelas terras estranhas, a continuar o Pai, mais longe que o Pai. Não me surpreenderia se um dia ele entrasse em casa com uma bela roupa de almirante e nos convidasse a todos para partir. Meses antes das carruagens, essas visões do impossível repetiam-se com freqüência, mas agora desaparecendo. Já não ocorriam senão uma vez ou outra.
Eu crescia.
5.
Olhávamos os dois, um dia, o retrato do avô, e eu disse para agradá-lo:
-- Quando crescer e for rico, vou até o rio Amazonas jogar flores para meu avô.
Meu pai olhou-me com gratidão e foi imenso o seu amor por mim. Secretamente, porém, eu tinha certeza de algo terrível. Eu sabia que, muitos anos antes, os sinos tangeram jacarés e cobras d’água ordenando-os a despedaçar o corpo do meu avô. Eu sabia que os sinos açularam as piranhas para alvejar-lhe os ossos. Por que, então, atirar flores num cemitério de águas?
Naquela época o único cemitério que eu conhecia era o da Quinta dos Lázaros. No último domingo de cada mês, levava flores para minha mãe, seus restos e sua memória. Enquanto orava sem muita convicção meu pai caminhava pensativo entre os túmulos, as campas. Estava habituado, não tinha medo. Meu irmão levava as rosas que ele próprio cultivava em nosso quintal. Fazia, com as roseiras, estranhas experiências, submetendo-as a cortes e enxertos, adubando-as com drogas misteriosas que trazia em latinhas cuidadosamente preservadas de minha curiosidade. Gostando de sua pertinácia e desejando estimulá-lo, meu pai perguntava-lhe à mesa:
-- E então, quando teremos as rosas azuis?
Meu irmão , entusiasmado, falava na possível transmissibilidade de caracteres adquiridos. Formou-se em agronomia, evidentemente. Produziu sete filhos, é feliz. Cuida, hoje de porcos e vacas do Estado, e continua contente, embora ainda não tenha obtido suas rosas azuis.
Eu recordo quando o invejei quando nossa casa foi enfeitada e vieram convidados para sua festa de formatura. Havia ponche e doces variados. Meu irmão brilhava. Ele tinha uma noiva, loura e esguia. Eu a odiava intensamente quando, com o apoio de minha Tia, ela me inspecionava as unhas e ouvidos.
-- Estão sujos, é feio... – dizia.
Meu pai, considerando aquilo muito útil, dava-lhe a tesourinha e ela cortava, rente, minhas unhas, quase a sangrar-me. Nos ouvidos, enfiava chumaços de algodão úmido, virava e revirava, limpando o conduto, sem muita delicadeza. Depois de tortura que me infligia, como a mostrar-se futura esposa modelo, dizia para todos:
-- Agora, sim, até parece um homenzinho.
O ódio, em todo caso, quase desaparecia quando ela me comprava algodão-doce e ria-se, compreensiva, porque eu me lambuzava a cara. Certa noite, porque apenas me houvesse cortado as unhas, esquecendo o algodão-doce, eu a vi, branca, os olhos fechados, as mãos caídas, na carruagem dos sinos, os pés sujos do sangue vomitado por aquele indivíduo magro. Era gente grande, podia morrer.
6.
Ela tinha uma irmã, mas ou menos da minha idade, e levava-a para os almoços de domingo. Era uma menina dentuça, de voz fanhosa, a melhor aluna de sua classe. Perseguia-me com sugestões imbecis, sobretudo queria que eu fosse auditório para o que ela sabia de francês:
-- Diga – insistia – diga pére, diga.
-- Pére – eu repetia, azucrinado.
-- Que é pére? – perguntava.
-- Não sei.
-- Pére quer dizer pai. Diga: pére quer dizer pai.
-- Pére quer dizer pai.
-- Ótimo, ótimo! Agora diga mére. Diga: mére.
-- Mére.
-- Mére quer dizer mãe. Diga.
-- Mére quer dizer mãe.
Um domingo, porque eu tinha outro programa (falávamos de oncle, de souer, de cousin, etc) resolvi escandalizá-la de modo muito contudente:
-- Bom – disse eu – agora vou cagar. Você quer cagar comigo?
Ela chorou, bateu os pés, apontou-me a todos como um malvado de boca suja, e meu pai, sem muito empenho, andou a procurar-me para nova e formal ameaça de ovo quente na língua. Eu estava escondido atrás do galinheiro, no fundo do quintal, e minha Tia, que não simpatizava com a dentuça, suspeitando-a de prováveis descarações comigo, fez que não me viu. De sorte que escapei pelo Beco da Agonia alcancei, lampeiro, a roça do Sr. Adriano – pai de Dilma, minha Frinéia – onde a turma brincava de índio.
Aquilo, sim, era uma maravilha. Pintávamos a cara com roxo-terra, enfeitávamos a cabeça com penas de galinha ou de conquém, e invadíamos o Éden. Quando alcançávamos o fundo da roça sob a proteção de compactos bananais Dilma tirava o vestido e exibia-se de calcinha, para autenticar a farsa. Não era necessário pintá-la com roxo-terra ou pôr-lhe penas de galinha e conquém. Porque ela era a rainha branca perdida numa selva estranha, de terríveis inimigos, e tudo consistia, na primeira etapa, em encontrá-la, prendê-la, amarrá-la numa árvore, até eu Tarzan (democraticamente sorteado com o auxílio da parlenda uni-poule-sur-um-mur) aparecesse para salvá-las dos canibais. Naquele brinquedo, tão agradável à nossa imaginação e aos nossos olhos, duas circunstâncias nos irritavam. É que Alípio, o mais velho e o mais experiente de nosso grupo, era sempre quem primeiro descobria Dilma. Abraçava-a fortemente e a trazia prisioneira até a árvore do sacrifício, apertando suas pernas já caneludas contra as alvas coxas de nossa heroína. E depois, na hora do uni-poule-sur-um-mur cantado por Dilma, era quase sempre Alípio quem surgia como Tarzan. Tudo muito estranho, coincidências demais. Eu, contudo, tirava minha forra quando nos apresentávamos a amarrá-la na árvore do sapotizeiro necessitado de seiva nova. Porque dispusesse de razoável quantidade de barbante – que guardava, precavidamente, após cada brincadeira – eu era um dos que amarravam, dos pés a cabeça. Cumpria gostosamente meu papel de carrasco-canibal, e arrepiava-me todo ao tocar, sem pressa nas dobras e nos botões róseos de seus seios rijos. Ela se arrepiava também e olhava para Alípio. Ele, de sua parte, me encarava com ódio, mas não podia fugir às regras do jogo. Seu papel era outro, seria o Tarzan salvador. Ele que se arranjasse... Aliás, creio ter sido o motivo porque, certa vez, num “salão” animado, eu no gol, encaixando bolas impossíveis, Alípio, covardemente, chutou com violência desnecessária o bucho encordoado e molhado, atingindo-me na fonte vital, que, naquele tempo, de modo pudico e impróprio, eu chamava de “pinta”. Alípio, felizmente não demorou muito em nossa rua. Os pais mudaram-se para península itapagipana e Dilma ficou sem dono, toda nossa, da turma inteira, e não se sentiu triste. Mas, o que é bom dura pouco, seu pai foi procurado por uns vizinhos ranzinzas, emprenhando-se pelos ouvidos. Assim, de raiva, nunca mais abriu a roça para a nossa turma, e Dilma, soubemos depois apanhou tanto a correias, que a mãe teve de providenciar folhas de bananas d’água para que ela pudesse convenientemente descansar as partes pudendas – e assim aliviada dormir sua inocência moral e seu fogoso despertar do sexo.
O incidente, pelo que me lembro, não terminou aí. Houve queixas variadas contra os “meninos pervertidos” e meu pai, um dos procurados pelo Sr. Adriano, não deu importância demasiada às denuncias. Minha Tia é que andou me espionando enquanto tomava banho. Queria verificar, pessoalmente, se eu era um dos meninos entregue a “maus costumes” enquanto nus.
Meses depois, não muitos, já esquecidos a carruagem e os sinos, meu pai me chamou no gabinete e perguntou:
-- Já tem pentelhos, você?
Tomei um susto e respondi:
-- Sim.
-- Pedra nos peitos, já tem?
-- Sim,pai.
-- Bom, aconselhe-se com seu irmão. Você ficará rapazote e merece que lhe dê uma mesada. A partir do próximo mês, dia 1, pode me lembrar. No mais procure seu irmão, fale com ele, como um amigo.
Eu exultei. Beijei-o com gratidão, pus no gramofone Um bel di vedremo e ele veio ouvi-la com lágrimas nos olhos. Naquele momento, tenho convicção disso, já não enternecia a tragédia da mocinha japonesa. Ele se reencontrava em mim.
Julho 1964.
*Diretamente das páginas do Facebook, onde seu filho, Jose Ricardo Malaquias Matos, mantém sua memória viva!!!!
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