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terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Pinguinho
Pinguinho, do livro "Cazuza", de Viriato Corrêa (23º ed. -1971)
No lugarejo em que nasci dava-se uma singularidade que eu não sei se ocorria em outra parte do mundo: o dia mais alegre era aquele em que morria alguma pessoa.
Explica-se. No povoado, quando alguém estava para morrer, mandava-se avisar à gente da redondeza. E, logo que o doente fechava os olhos, a sua casa se enchia. Vinham, não só os vizinhos ali de perto, como os de cinco, sete e mesmo de dez léguas distantes.
O trabalho paralisava. Os lavradores não iam às roças; os vaqueiros não iam ao campo; a escola não se abria e até as casas de negócios fechavam as portas.
E o lugarejo, dorminhoco e triste dos dias comuns da vida, agitava-se, vivamente, nos raros dias de morte.
A todo o instante chegavam bandos de homens e mulheres, ora em cavalos que alegravam os ares com relinchos, ora em carros de bois que vinham chiando pelos caminhos.
A povoação transformava-se num formigueiro ruidoso de crianças. No sertão, quando uma família sai de casa para ir à de um defunto, sai completa, os grandes, a filharada e até mesmo os cachorros.
Os grandes ficam na sala e no terreiro do morto, a prestar as homenagens do costume; a meninada, essa vem para fora, para a sombra das árvores, brincar em liberdade.
No meu tempo, quando morria alguém no povoado, para nós, os pequeninos, o dia inteiro era de traquinada, de algazarra e de alegria. Os taludos juntavam-se lá com os taludos; nós, pequeninos, brincávamos com os pequeninos.
Talvez fôssemos mais de trinta, mais de quarenta. Mas nenhum, nenhum tão afoito e tão disposto a brincar como o Pinguinho.
O Pinguinho devia ser o mais velho de todos nós, mas, tão franzino e tão frágil, que parecia o mais novo. Magro, pescoço comprido, ombros estreitos, ossinhos de fora.
Uma tossezinha seca. Mãos sempre geladas, testa sempre quente.
Mas, o que nele havia de belo, de vivo e de brilhante, eram os olhos, dois grandes olhos negros e febris, como que iluminados por um eterno desejo de viver.
Como não podia correr porque cansava e não podia gritar porque tossia, o Pinguinho animava a brincadeira. Se a cabra-cega ia aborrecendo, fazia-nos mudar para a boca-de-forno; se a boca-de-forno já não despertava entusiasmo, lembrava a gangorra, o rempo-reá, o anel, ou qualquer outro brinquedo.
Foi ele que, uma vez (na manhã da morte do Chico da Lúcia), se apresentou entre nós com quatro rodas de ferro, encontradas atrás da casa da máquina de descaroçar algodão.
Não sei onde se foi buscar um caixão de bacalhau, não sei onde se arranjaram martelo e pregos. Em pouco, estava armado um carro.
E o carro encheu-nos o grande dia. Dois garotinhos dentro, outros dois empurrando e a pequenada a revezar-se dirigida pelo Pinguinho que, por ser doentio e dono das rodas, não empurrava nunca e era empurrado sempre.
A morte parecia-nos um bem que Deus mandava às crianças da terra para que elas brincassem em liberdade.
Vivíamos a desejá-la através dos nossos sonhos como se deseja um brinquedo através dos vidros de uma vitrina.
Quando o enterro saía e a meninada de fora partia com os pais, as nossas almas ficavam mais tristes do que as casas em que o luto havia entrado. Para nós, que nada sabíamos da morte, nada mais tinha havido do que um maravilhoso dia de brinquedo, que terminava inesperadamente.
E as nossas cabecinhas inconscientes punham-se então a fazer cálculos, desejando outro dia como aquele. Quando haveria de novo tanta criança, tanta alegria e tanta liberdade? Quando morreria outra criatura?'
Quem mais acertava nos cálculos era a Chiquitita. Bastava dizer que um doente morreria em breve, para que o doente não durasse um mês.#
Vivíamos sonhando com os dias de luto que traziam grandes dias de folguedos.
O Maneco repetia constantemente com a boca cheia de língua:
— Se eu fosse Deus Nosso Senhor, três vezes por semana tinha que haver um defunto.
De uma feita, a Tetéia nos encheu de inveja. Garantiu-nos que em breve a brincadeira seria no seu quintal. Tinha em casa três pessoas para morrer: a tia velha, a avó e o padrasto de sua mãe.
Para nosso entendimento aquilo era uma fortuna. Nós que nada sabíamos da vida, só víamos na morte motivo de brinquedo.
Um dia, quando brincávamos a cabra-cega, o Pinguinho, ao amarrar a venda nos olhos da Rosa, sentiu uma dor no peito, uma sufocação e quis gritar. Mas, em vez de grito, o que lhe saiu da boca foi uma golfada de sangue.
Carregamo-lo nos braços para casa.
À noite, o pobrezinho ardia em febre. Não comeu mais, não saiu mais do fundo da rede. De quando em quando — golfadas de sangue. E emagrecendo, emagrecendo — ficou pele e osso.
Não lhe saíamos de perto. Quando podíamos enganar a vigilância de nossos pais, íamos para junto dele, consolar-lhe os sofrimentos.
Numa manhã, linda manhã em que as andorinhas brincavam no céu como garotinhos travessos, ele morreu.
O povoado encheu-se. Foi criança, criança, como eu nunca vi tanta na minha vida.
Não podia haver dia melhor para se brincar. Mas (surpresa para toda a gente!) nenhum de nós brincou. Nenhum de nós saiu, sequer, para o terreiro.
Ficamos todos em derredor do cadáver, sossegadinhos, tristes, silenciosos. Quando queríamos falar uns aos outros, era baixinho, aos cochichos, como se temêssemos perturbar a majestade da dor que nos afligia.
Tínhamos, pela primeira vez, compreendido a morte. Era a primeira vez que ela nos tocava de perto.
E, dali por diante, quando alguém morria no povoado, nunca mais enchemos de alaridos os terreiros e os quintais.
Nunca mais fizemos de um dia de luto um dia de festa.
Dali por diante, a morte ficou sendo para nós uma coisa séria, muito séria e muito triste.
Linda Flor (Ai YôYô) - Bebel & João Gilberto -
O passarinho que me despertou estava certo:
"já está chovendo no sertão baiano".
Alvíssaras!
Bom tempo - Chico Buarque e João Bosco
Bom Tempo
Chico Buarque
Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
O pescador me confirmou
Que o passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Do duro toda semana
Senão pergunte à Joana
Que não me deixa mentir
Mas, finalmente é domingo
Naturalmente, me vingo
Eu vou me espalhar por aí
No compasso do samba
Eu disfarço o cansaço
Joana debaixo do braço
Carregadinha de amor
Vou que vou
Pela estrada que dá numa praia dourada
Que dá num tal de fazer nada
Como a natureza mandou
Vou
Satisfeito, a alegria batendo no peito
O radinho contando direito
A vitória do meu tricolor
Vou que vou
Lá no alto
O sol quente me leva num salto
Pro lado contrário do asfalto
Pro lado contrário da dor
Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
Um pescador me confirmou
Que um passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Ando cansado da lida
Preocupada, corrida, surrada, batida
Dos dias meus
Mas uma vez na vida
Eu vou viver a vida
Que eu pedi a Deus
NOTA: estava dormindo e sonhando com essa música... levantei-me pra postar aqui...BOM DIA!
regina
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
O pescador me confirmou
Que o passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Do duro toda semana
Senão pergunte à Joana
Que não me deixa mentir
Mas, finalmente é domingo
Naturalmente, me vingo
Eu vou me espalhar por aí
No compasso do samba
Eu disfarço o cansaço
Joana debaixo do braço
Carregadinha de amor
Vou que vou
Pela estrada que dá numa praia dourada
Que dá num tal de fazer nada
Como a natureza mandou
Vou
Satisfeito, a alegria batendo no peito
O radinho contando direito
A vitória do meu tricolor
Vou que vou
Lá no alto
O sol quente me leva num salto
Pro lado contrário do asfalto
Pro lado contrário da dor
Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
Um pescador me confirmou
Que um passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Ando cansado da lida
Preocupada, corrida, surrada, batida
Dos dias meus
Mas uma vez na vida
Eu vou viver a vida
Que eu pedi a Deus
NOTA: estava dormindo e sonhando com essa música... levantei-me pra postar aqui...BOM DIA!
regina
domingo, 20 de janeiro de 2013
Poema com meio retrato mas sem Musas
São nove as Musas, eu sei,
de tanta gente bem podia
vir uma delas, não faço questão,
estender-me um poema embrulhado em celofane,
rebuçado de sílabas que eu chupasse devagar,
a deixar-me na boca um travo temperado de café.
Mas nem uma se digna
a vir, ao menos, deitar-me dentro da chávena
o sabor das palavras já pedidas.
Por isso, sigo as imagens.
Creio que por temas, não estou certa:
lago ou casa,
máscara mortuária,
epitáfios de água nas janelas fechadas.
Espelhos (outra imagem)
por onde saio para o mundo dos meus versos,
companhia de espectros ao fundo do quadro.
E muitas vezes me perco.
Envelhecer é Lixado
“Envelhecer” é um tema especialmente difícil, em qualquer arte. Philip Roth domina-o. Julien Freud dominava-o. Johnny Cash, certamente. No cinema, Bergman é um caso especial: todo o derradeiro arco da obra do demiurgo sueco passa pelas alegrias e frustrações da “terceira idade”. Envelhecer a dois é um tema ainda mais complexo. “Make Way for Tomorrow”, de Leo McCarey (um mestre das comédias) é um grande filme sobre o assunto, mas quem quer hoje ver um melodrama pungente de 1937 sobre um velho casal que é forçado a separar-se porque não tem dinheiro, e nenhum dos filhos está para o aturar? No cinema de aventuras, “Robin & Marian”, de Richard Lester, é um degrau notável – Robin Hood (Sean Connery), aos 60 anos, está exausto, mas isso não o impede de perseguir Lady Marian (Audrey Hepburn) até ao fim, apesar de esta só querer sopas e descanso no convento mais próximo. Em tempos recentes, “Another Year”, do britânico Mike Leigh, é um exemplo brilhante do equilíbrio entre comédia, drama, construção e naturalismo, pela história de um casal no ocaso da vida mas radiante de fúria, sensibilidade, alegria, caos. Mas Leigh tem um segredo – é a receita do olhar sábio e obsessivo sobre a realidade, do trabalho de meses na preparação com os actores, dos diálogos falsamente improvisados – e Julie Gravras não o conhece. Sendo filha de Costa-Gavras, o mestre grego dos thrillers de conspiração política (“Z”, “Estado de Sítio”, “Missing”, “O Enigma da Caixa de Música”), e apesar do ensaio grave, e ideológico, do filme de estreia (“La Faute à Fidel”), Julie parece inclinada a fazer carreira no melodrama. “Três Vezes 20 Anos” é isso mesmo, o retrato de um casal burguês chegado aos sessenta anos (William Hurt e Isabella Rossellini, ambos em forma), com três filhos, um círculo de amigos e uma vida de conforto, mas confrontado com o inevitável: “Que fazer agora?”. O filme sugere que a melhor fórmula para o envelhecimento é, simplesmente, prosseguir, e viver – ou seja, não existem fórmulas definitivas. Há um charme inegável, e um equilíbrio correcto entre sobriedade e humor. Mas falta uma chama que ilumine as personagens e os espectadores numa direcção diferente. E depois dos sessenta, imagino que essa chama é mais necessária do que nunca: digam o que disserem, envelhecer é lixado.
Publicado na revista “Sábado”
sábado, 19 de janeiro de 2013
Persona & Labirinto de Um Homem Indignado
Walmor Chagas (28 August 1931 – 18 January 2013)
Capítulo I
Persona
& Labirinto de Um Homem Indignado
Sou um ator de teatro eternamente à procura de um personagem cinematográfico
que nunca chegou. E, enquanto Godot não chega, se distrai e ganha a vida com
alguns maravilhosos personagens que o teatro ainda oferece.
(trecho de
Um Homem Indignado)
Um homem ensimesmado, que num meio-tom de olhar parece nos dizer que sabe
tudo, do mundo, de todos.
Walmor Chagas, mesmo sem o cinema, construirá uma
persona que é típica do ator
cinematográfico, de um cinema que tanto buscou, que não lhe foi fiel. Cercado
pelo esplendor da era cinematográfica do século 20, jovem em Porto Alegre, jovem
aspirante a ator em São Paulo, Walmor Chagas sabe-se ator de cinema, estrela de
cinema – isto sem contar que o cinema com que sonha simplesmente jamais existiu
no Brasil.
Desde que surgiu em São Paulo, em 1953, Walmor Chagas consegue forjar sua
persona:
um tipo
cara-intelectivo, capaz de transmitir através do olhar pensativo a sensação
e a idéia de poder. Pode conhecer todo o presente, o passado e o futuro dos
acontecimentos ao seu redor. Trata-se de um penseroso perturbador, capaz de desvendar
a alma do outro e os fatos.
De exprimir o indizível.
Homem belo, num tempo em que isso era ainda uma raridade social e étnica no
Brasil, sabe de imediato localizar e construir a identidade de seu carisma. Inteligente
e culto, encontraria no auge do Teatro Brasileiro de Comédia, o lendário TBC, a
transposição daquele almejado universo cinematográfico do século 20. As encenações
do TBC – e não os filmes da Vera Cruz – correspondiam exatamente ao anseio
de um Brasil cosmopolita, industrializado, sincronizado com a vanguarda cultural
do Ocidente.
Por definição, uma
estrela tem sua própria identidade: uma persona cinematográfica
perfeitamente identificável. Que está intrinsecamente presente durante e para
além de um filme particular em que atua. Por cinco décadas de carreira – para resumir
no mínimo – brilhante, Walmor Chagas pairou sua
filme-persona, estelar, acima
de todos – mesmo sem o cinema...
Walmor Chagas cria uma
persona tão racional quanto angustiada. E, justamente
porque este introspectivo e meditativo
homem-intelecto desvenda o destino – é
destino seu que se afaste do mundo. Compreende todas as fraquezas e subjuga-as
– o que faz com que despreze o
cul-de-sac humano até a náusea.
Persona
cerebral, talentosamente colocada a serviço de encontrar todas as matizes,
jamais obliterando os meio-tons, que possam expressar e revelar os personagens
Mete medo e exerce fascínio em cena, atraindo para si o repúdio invejoso ou o estado
de veneração hipnótica.
Contendo as emoções, entretanto, transmite a sensação do sofrimento de sua sensibilidade
aguda, da percepção do desastre do mundo, sem deixar-se nunca levar por
auto-indulgência. É no olhar, como nos deuses gregos das esculturas clássicas, que
Walmor Chagas revela-nos o turbilhão da alma, o labirinto.
Ele é contenção e êxtase, beleza irrepreensivelmente clássica. Por isso a
persona,
que escolheu como ator, o coloca num patamar de modernidade só comparável ao
da atriz que lhe foi cúmplice em tudo, em cena e na vida, Cacilda Becker. No Brasil,
como ator, é o símbolo máximo da matriz ocidental – não só do comediante, mas da
cultura que encarna. Daí sua indignação. E perenidade.
Walmor Chagas
Ensaio Aberto para
Um Homem Indignado
Djalma Limongi Batista
Contém o texto integral do espetáculo
Walmor Chagas, Um Homem Indignado
http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=25228608581732116#editor/target=post;postID=851927098327496447
O louco do porão
Há um século nascia em Zurique o compositor e visionário Anton Walter Smetak,
guru dos tropicalistas e mestre da música brasileira moderna.
Jotabê Medeiros
Cruzava as ruas de Salvador a bordo de uma velha motocicleta BMW preta que
ele chamava de "prostituta da Babilônia". Enrolava o próprio cigarro artesanal,
vestia roupas amassadas e tinha a fama de um amalucado Professor Pardal. Exilado
da barbárie nazista, o compositor, músico, filósofo, poeta, artista plástico,
cientista e dramaturgo suíço Walter Smetak (1913-1984) adotou a indeterminação
dos trópicos como regra para um experimentalismo sonoro cujo alcance é, ainda
hoje, imenso.
"Falar sobre música é uma besteira, mas executá-la é loucura", dizia o compositor. Este ano, celebra-se um século do seu nascimento em Zurique, em 12 de fevereiro de 1913 (morreria na Salvador que consagrou como moradia em 30 de maio de 1984), filho do músico Anton e da cigana Frederica Smetak. Sua influência se reflete na música brasileira por meio de gerações diferentes, de Tom Zé ao grupo Uakti, chegando até Lucas Santtana.
Trabalhando num porão da faculdade, o que lhe valeu curioso apelido, ele se tornou mestre e baliza dos tropicalistas. Caetano Veloso o menciona de forma elíptica em uma música de 1972, Épico. "Smetak, Smetak & Muzak & Smetak & Muzak & Smetak & Muzak & Razão". Legou dezenas de livros, centenas de composições, três peças teatrais. Nada do que produziu, em música, está disponível comercialmente. Seu primeiro disco, Smetak, foi gravado em 1974. O segundo, Interregno, em 1980. "Sou como a própria natureza, crio em abundância, presenteio os homens e as mulheres, e prefiro não cobrar nada", disse ele.
"Concluí que era preferível me envolver com a desordem e a liberalidade dos trópicos do que submeter-me às misérias europeias semeadas por Adolf Hitler", afirmou ele, sobre a decisão de estabelecer-se no Brasil.
Smetak não era um vanguardista temporão. Estava trabalhando em suas revoluções em momento histórico simultâneo ao de diversos outros expoentes da experimentação pelo mundo afora, como John Cage e Pierre Boulez. No final dos anos 1940, em Paris, Pierre Schaeffer tinha divulgado seus Études de Bruits (Estudos de Barulhos), uma sinfonia eletrônica que consistia em chiados, ruídos e apitos de seis locomotivas que ele tinha gravado na estação de Batignolles.
"A percepção audível do ser humano vai muito mais além do que a ínfima parte que pode ser computada, tanto para os graves como para os agudos", dizia Smetak. "A música deve representar o próprio silêncio, mas não aquele silêncio que existe como ausência do som. Como não é possível suprimir o silêncio, só a música pode substituí-lo", afirmava.
Um de seus mais afetuosos discípulos foi Gilberto Gil, que se lembra de chamá-lo de Tak, Tak. Quando ministro, Gil visitou uma exposição do artista e chegou a tocar um dos seus instrumentos. "Smetak me dava a sensação de um misto de cientista louco e Papai Noel de província; misto de chefe religioso severo e ameaçador, e velho manso conselheiro de farta cabeleira branca e porta sempre aberta aos curiosos do Antique e do Mistério", disse Gil.
"A obra de Smetak explora a curiosidade na arte, quando mostra tanto esboços de novos instrumentos quanto esculturas que apenas sugerem sons", disse em 2008 o músico Arto Lindsay, que foi curador de uma mostra sobre o artista no Museu de Arte Moderna de Salvador.
A ida de Walter Smetak a Salvador deu-se num momento de rara ousadia nas políticas de cultura brasileiras. Instados pelo reitor Edgard Santos, a universidade federal da capital baiana tornou-se, nos anos 1950, polo de vanguarda cultural, abraçando as contribuições do português Agostinho da Silva no Centro de Estudos Afro-Orientais; de Eros Martim Gonçalves na Escola de Teatro; de Hans Joachim Koellreuter, Smetak e Ernest Widmer no Seminário Livre de Música; e de Yanka Rudzka e Rolf Gelewsky, na Escola de Dança.
Além destes, o esforço de avant-garde se consolidaria com nomes como os da arquiteta italiana Lina Bo Bardi, o etnólogo francês Pierre Verger, o artista plástico argentino Carybé, entre outros. "Claro que, ao implantar um programa cultural de caráter tão vanguardista, Edgard Santos ganhou adversários e desafetos a granel. Além da esquerda mais populista, os próprios alunos das escolas ligadas às áreas científicas reclamavam da suposta predileção do reitor por escolas de arte", escreveu Carlos Calado em Tropicália, a História de uma Revolução Musical (Editora 34, 1997).
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-louco-do-porao,986022,0.htm
Várias gerações de músicos brasileiros
foram influenciadas por Smetak
"Falar sobre música é uma besteira, mas executá-la é loucura", dizia o compositor. Este ano, celebra-se um século do seu nascimento em Zurique, em 12 de fevereiro de 1913 (morreria na Salvador que consagrou como moradia em 30 de maio de 1984), filho do músico Anton e da cigana Frederica Smetak. Sua influência se reflete na música brasileira por meio de gerações diferentes, de Tom Zé ao grupo Uakti, chegando até Lucas Santtana.
Trabalhando num porão da faculdade, o que lhe valeu curioso apelido, ele se tornou mestre e baliza dos tropicalistas. Caetano Veloso o menciona de forma elíptica em uma música de 1972, Épico. "Smetak, Smetak & Muzak & Smetak & Muzak & Smetak & Muzak & Razão". Legou dezenas de livros, centenas de composições, três peças teatrais. Nada do que produziu, em música, está disponível comercialmente. Seu primeiro disco, Smetak, foi gravado em 1974. O segundo, Interregno, em 1980. "Sou como a própria natureza, crio em abundância, presenteio os homens e as mulheres, e prefiro não cobrar nada", disse ele.
"Concluí que era preferível me envolver com a desordem e a liberalidade dos trópicos do que submeter-me às misérias europeias semeadas por Adolf Hitler", afirmou ele, sobre a decisão de estabelecer-se no Brasil.
Smetak não era um vanguardista temporão. Estava trabalhando em suas revoluções em momento histórico simultâneo ao de diversos outros expoentes da experimentação pelo mundo afora, como John Cage e Pierre Boulez. No final dos anos 1940, em Paris, Pierre Schaeffer tinha divulgado seus Études de Bruits (Estudos de Barulhos), uma sinfonia eletrônica que consistia em chiados, ruídos e apitos de seis locomotivas que ele tinha gravado na estação de Batignolles.
"A percepção audível do ser humano vai muito mais além do que a ínfima parte que pode ser computada, tanto para os graves como para os agudos", dizia Smetak. "A música deve representar o próprio silêncio, mas não aquele silêncio que existe como ausência do som. Como não é possível suprimir o silêncio, só a música pode substituí-lo", afirmava.
Um de seus mais afetuosos discípulos foi Gilberto Gil, que se lembra de chamá-lo de Tak, Tak. Quando ministro, Gil visitou uma exposição do artista e chegou a tocar um dos seus instrumentos. "Smetak me dava a sensação de um misto de cientista louco e Papai Noel de província; misto de chefe religioso severo e ameaçador, e velho manso conselheiro de farta cabeleira branca e porta sempre aberta aos curiosos do Antique e do Mistério", disse Gil.
"A obra de Smetak explora a curiosidade na arte, quando mostra tanto esboços de novos instrumentos quanto esculturas que apenas sugerem sons", disse em 2008 o músico Arto Lindsay, que foi curador de uma mostra sobre o artista no Museu de Arte Moderna de Salvador.
A ida de Walter Smetak a Salvador deu-se num momento de rara ousadia nas políticas de cultura brasileiras. Instados pelo reitor Edgard Santos, a universidade federal da capital baiana tornou-se, nos anos 1950, polo de vanguarda cultural, abraçando as contribuições do português Agostinho da Silva no Centro de Estudos Afro-Orientais; de Eros Martim Gonçalves na Escola de Teatro; de Hans Joachim Koellreuter, Smetak e Ernest Widmer no Seminário Livre de Música; e de Yanka Rudzka e Rolf Gelewsky, na Escola de Dança.
Além destes, o esforço de avant-garde se consolidaria com nomes como os da arquiteta italiana Lina Bo Bardi, o etnólogo francês Pierre Verger, o artista plástico argentino Carybé, entre outros. "Claro que, ao implantar um programa cultural de caráter tão vanguardista, Edgard Santos ganhou adversários e desafetos a granel. Além da esquerda mais populista, os próprios alunos das escolas ligadas às áreas científicas reclamavam da suposta predileção do reitor por escolas de arte", escreveu Carlos Calado em Tropicália, a História de uma Revolução Musical (Editora 34, 1997).
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-louco-do-porao,986022,0.htm
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Para quem ainda não conhece Platão:
A Alegoria da Caverna é um texto contido na "República", livro VII, onde se narra o diálogo de Sócrates com Glauco e Adimato. É um dos textos mais lidos na história da filosofia. Nele, Platão utilizou linguagem metafórica para ilustrar o quanto estamos presos a preconceitos e superstições. Basicamente, é o relato da vida de homens que nascem e vivem dentro de uma caverna e ficam voltados para o fundo dela. Ali contemplam apenas uma réstia de luz que reflete sombras no fundo da parede. E esse é o seu mundo. Porém, certa dia, um dos habitantes resolve voltar-se para o lado de fora da caverna. Assim que olha, quase fica cego devido à intensidade da luz. Mas, aos poucos, vai vislumbrando um "outro mundo", completamente diferente daquele visto no fundo da caverna. Então, volta-se para dentro para narrar esse maravilhoso fato aos seus amigos, mas estes não acreditam nele e, revoltados com a "mentira", o matam.
Com essa alegoria, Platão pretende dividir o mundo em duas realidades distintas: a sensível, que se percebe pelos sentidos, e a inteligível (o mundo das ideias). A primeira realidade é imperfeita, falsa, enquanto a segunda mostra toda a verdade possível ao homem. Portanto, o ser humano deveria procurar o mundo da verdade para atingir o bem maior para sua vida. Entretanto, a grande maioria dos seres humanos ainda hoje continua olhando para o fundo da caverna, e julgando loucos todos aqueles que olham para fora.
A liberdade é perigosa. A vida livre é arriscada, insegura, incerta, é cheia de surpresas, cheia de perigos e de buscas, mudanças, sobressaltos. A liberdade é muito perigosa... Só quem ama o risco é que pode ser livre. Só quem é dono de si mesmo é que pode ser livre de verdade. Só quem é dono do próprio destino é que arrisca a vida para salvar a própria vida. A liberdade, portanto, não é para qualquer um: os acomodados e os covardes jamais serão livres. Escravos não conseguem ser livres. E a segurança da gaiola seduz.
http://edsonmarquesw.blogspot.com/
Com essa alegoria, Platão pretende dividir o mundo em duas realidades distintas: a sensível, que se percebe pelos sentidos, e a inteligível (o mundo das ideias). A primeira realidade é imperfeita, falsa, enquanto a segunda mostra toda a verdade possível ao homem. Portanto, o ser humano deveria procurar o mundo da verdade para atingir o bem maior para sua vida. Entretanto, a grande maioria dos seres humanos ainda hoje continua olhando para o fundo da caverna, e julgando loucos todos aqueles que olham para fora.
A liberdade é perigosa. A vida livre é arriscada, insegura, incerta, é cheia de surpresas, cheia de perigos e de buscas, mudanças, sobressaltos. A liberdade é muito perigosa... Só quem ama o risco é que pode ser livre. Só quem é dono de si mesmo é que pode ser livre de verdade. Só quem é dono do próprio destino é que arrisca a vida para salvar a própria vida. A liberdade, portanto, não é para qualquer um: os acomodados e os covardes jamais serão livres. Escravos não conseguem ser livres. E a segurança da gaiola seduz.
http://edsonmarquesw.blogspot.com/
Nas livrarias
Título: Quatro baianos porretas
Autor: Silvio Tendler
Número de páginas: 288
Formato: 13,5 x 19 cm
Coeditor: Garamond
Coleção: Ciências Sociais nº 60
Autor: Silvio Tendler
Número de páginas: 288
Formato: 13,5 x 19 cm
Coeditor: Garamond
Coleção: Ciências Sociais nº 60
Na abertura de cada roteiro, o livro, uma parceria Editora PUC-Rio e a Garamond, traz depoimentos de Tendler sobre a relação dele com os retratados. Castro Alves é “o mais seminal dos poetas românticos, que embalou, com imagens de amor, as mocinhas namoradeiras, inspirou candidatos a galãs e abasteceu de verve artistas libertários”. O guerrilheiro Carlos Marighella, “um homem de coragem numa geração de outros tantos homens de coragem”. Em relação ao também cineasta Glauber Rocha, Tendler diz que tinha fascínio por suas provocações e repulsa pela imprevisibilidade de suas atitudes. E o geógrafo Milton Santos era, para ele, “um brasileiro da estatura de Darcy Ribeiro e Josué de Castro”.
O cineasta Orlando Senna escreve a apresentação da obra. Na análise sobre esses trabalhos de Tendler, explica como as histórias desses quatro baianos se encontram: “a unidade que perpassa suas vidas e suas façanhas movidas pelo ideal libertário e pela ação civilizatória é a mola propulsora da quadrilogia iluminada e inquieta de Silvio Tendler sobre as possibilidades de mudar o mundo”.
http://www.editora.vrc.puc-rio.br/4baianosporretas.html
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