Pesquisar este blog

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Antes tarde do que nunca

 

Por Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
Maria Valéria, autora de "O Voo da Guará Vermelha", que teve mais de 20 mil exemplares vendidos aqui e edições em Portugal, Espanha e França: mais quatro romances já "prontos" na cabeça.

Aos 40 e tantos, Evandro Affonso Ferreira via a cada dia aparecer um calouro diferente procurando vaga em sua área numa agência de publicidade. Sofreu por aqueles dias um enfarte e, como promessa do pós-operatório, passou a se dedicar mais à leitura. Não só maduro demais, agora também com ponte de safena, perderia o emprego logo depois. Vender a biblioteca de 3 mil livros para conseguir dinheiro foi a ideia que lhe ocorreu. Alguém então lhe sugeriu aquilo que mudaria mais sua vida que a obstrução coronária: montar um sebo.
O dono gostava tanto de conversar sobre livros que o estabelecimento se tornou ponto de encontro de consagrados escritores. As reuniões, por animadas, se transferiram para um café de Pinheiros, em tardes de sábado que fizeram parte da história recente da literatura brasileira. Laços e desavenças datam desse período, assim como a publicação de novos autores entre São Paulo e Rio. Um desses estreantes acabaria por ser o próprio Ferreira, com "Grogotó", em 2000, aos 55. Debutante nas letras com a sorte de estar cercado de medalhões, teve um tipo de apadrinhamento graúdo que só novatos costumam despertar. Quem assinou a apresentação foi um experimentado crítico, o poeta e ensaísta José Paulo Paes (1926-2008).
"Na literatura, sou contemporâneo dessa meninada toda", diz, a dois anos de completar 70, sete livros publicados, escrevendo o oitavo. Sua maior ambição agora é vencer algum grande prêmio "para comprar a primeira quitinete". Como o talento para o comércio nunca foi igual àquele que o inclinava para literatura, vendeu sebo após sebo conforme ia falindo e nesse meio tempo teve de se mudar de casa por causa do divórcio. O cotidiano é espartano; de abundante, só o tempo dedicado à escrita.
A sequência de lançamentos mostra que não houve mais tempo a perder, a produção se dá num ritmo que nem sempre autores jovens conseguem manter. Os primeiros livros de Ferreira, de títulos onomatopeicos, surpreenderam pela invenção narrativa e vocabular. Surgia de fato uma voz com frescor: "Araã!" (2002), "Erefuê" (2004), "Zaratempô!" (2005) e "Catrâmbias!" (2006). Aquele que seria o sexto ele desistiu de publicar. Uma nova fase o levou a um intervalo um pouco maior de livros. Os dois recentes, menos heterodoxos, são emocionalmente mais densos, as perdas e a finitude em perspectiva, com títulos que, como diz, são "quase um miniconto": "Minha Mãe Se Matou sem Dizer Adeus" (2010) e "O Mendigo Que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam" (2012). Para concluir o próximo, "Nunca Houve Tanto Fim como Agora", escreve "toda hora, em qualquer lugar", quase sempre nos cafés de duas livrarias, para onde caminha pela manhã e à tarde. Os exercícios o fazem manter a agilidade, o prumo e a forma.
Para quem for reparar, os que iniciam sua trajetória na maturidade impressionam pela quantidade de ideias que põem no papel. Maria Valéria Rezende, de 71 e pouco mais de uma década de trajetória, tem hoje quatro romances "prontos" na cabeça, cada um com cerca de 70 páginas escritas. Já teve seu enfarte, durante uma Flip de que participou como convidada, em 2006, em meio a sucessos como "O Voo da Guará Vermelha", com mais de 20 mil exemplares vendidos por aqui, edições em Portugal, Espanha e França. O incidente a fez precavida. Quando surge uma ideia com a "voz narrativa" que lhe parece boa, passa noites sem dormir para colocar o que puder no papel: "Acabo o melhor que posso cada capítulo ou equivalente, para que sirvam para alguma coisa se eu bater as botas de repente". A vivacidade do pensamento nem sempre acompanha o ritmo das mãos com artrose. E a vista que já não funciona como antes a deixa cansada mais rapidamente. Ao fim de dois dias, está esgotada.
O mais surpreendente é que a necessidade de encontrar mais tempo não se deve tanto à idade, mas à rotina atribulada que preserva até hoje. Educadora popular, Maria Valéria não para de atender a chamados para consultoria e palestras país adentro. Como a modesta aposentadoria não é suficiente para fechar as contas, reforça o orçamento com um ritmo de traduções diárias do francês, contratadas por uma de suas editoras. Tentou já se inscrever em bolsas de criação literária, mas há cláusulas que ora dificultam por sua idade, região - paulista, vive em João Pessoa (PB) - ou quantidade de livros já publicados - tem já dez, incluindo para o público infantojuvenil. Como diz, ninguém está pensando no "autor maduro de baixa renda".
Paula Giolito/Folhapress / Paula Giolito/Folhapress
Ferreira, que estreou aos 55: "Na literatura, sou contemporâneo dessa meninada toda", diz, a dois anos de completar 70, sete livros publicados, escrevendo o oitavo

As palavras de Gal que serviram à juventude dos tempos da militância, "é preciso estar atento e forte", calham nessa hora. "Quem estreia depois dos 50 anos tem de mostrar serviço duplo. Digamos que tem que aparecer como bom autor 'apesar' de não ser tão jovem", avalia um dos mais experientes analistas do mercado editorial, Felipe Lindoso. A hora decerto não ajuda: a busca por autor jovem cresceu recentemente. O episódio mais lembrado nesse movimento é a publicação da primeira antologia só de brasileiros da prestigiosa revista britânica "Granta", escolhidos apenas entre os que têm menos de 40 anos. Não há quem discorde de que há hoje certa sobrevalorização do autor jovem. "Acho importantíssimo que o campo literário se renove. Mas sinto que, às vezes, a imprensa e a crítica descuidam do exame da carreira de alguns autores mais experientes", observa Lindoso.
Idades à parte, a grande dificuldade a afetar autores é publicar o primeiro livro, observa Maria José Silveira, que dirigiu, com Lindoso e Marcio de Souza, a editora Marco Zero, aberta em 1980. "Depois, é talento, trabalho e, talvez o principal, muita sorte." A experiência não é só do lado de quem edita. Maria José foi uma das que estrearam na ficção na maturidade. Tinha mais de 50. Até então, pensava que a editora seria um atalho para o caminho que desejava seguir, manter um pequeno negócio exigiria, porém, dedicação exclusiva. "Só comecei a escrever, realmente, quando a editora caiu em outras mãos. E quem se dedica a escrever com gosto, como é meu caso, necessariamente produz." Em uma década de trajetória, publicou seis romances - o sexto, que acaba de sair, é "Pauliceia de Mil Nomes" -, cerca de 17 livros infantojuvenis, duas peças de teatro encenadas, e crônicas escritas quinzenalmente para "O Popular", jornal de Goiânia.
A atual e relativa efervescência do mercado de ficção nacional contrasta com um período anterior de quase inércia. Como lembra Luciana Villas-Boas, que dirigiu o departamento editorial do grupo Record por 17 anos e hoje atua como agente literária baseada no Rio e em Nova York, nas décadas de inflação galopante a literatura nacional foi de certo modo esquecida pelos editores brasileiros: "Toda uma geração de autores nascida entre o pós-guerra e os anos 70 praticamente não encontrou canais editoriais para se expressar". O mesmo relata Lucia Riff, dona da maior agência literária em atuação no país há mais de duas décadas. Os que têm entre 50 e 70 hoje foram os que encontraram mais dificuldades para publicar, comenta: "Justamente a turma que tem hoje essa idade pegou uma fase do mercado em que tudo estava complicadíssimo. É claro que muita gente bacana conseguiu furar as dificuldades e fez sucesso, mas as dificuldades foram infinitamente maiores".
Desse tempo em que publicar era mais difícil se recorda Ivana Arruda Leite, de 61, autora de, entre outros, "Falo de Mulher". Escreve desde os 14 e não adiou a estreia porque quis. As editoras pouco se abriam; quando se abriam, não ajudavam muito a repercutir autores novos. A virada se dá quando, ali pelos 50, é incluída numa famosa antologia preparada por Nelson de Oliveira, que conheceu nos encontros que surgiram em torno do sebo de Ferreira. Entre uma maioria na casa dos 30, dizia, para brincar, que era "a mais velha da 'geração 90'". Com outro "habitué" dos cafés, o escritor e agitador cultural Marcelino Freire, teve ajuda para que sua obra alcançasse uma editora. Foi por aqueles dias que nasceu o blog Doidivana, que a tornaria popular na internet, território em que predominam jovens.
A idade não limita, antes amplia: tanto a adolescência quanto a madureza servem de temas. Dois exemplos. Em 2003, Ivana publicou "Confidencial - Anotações Secretas de Uma Adolescente". Em 2011, organizou uma antologia com autores que, como ela, estavam prestes a completar 60 anos, a "60 Tão".
A procura pelos jovens não é tanto no mercado brasileiro. Ocorre mais lá fora, concordam as agentes literárias ouvidas pelo Valor. "É claro que em qualquer lugar do mundo o autor jovem é bem-vindo porque significa que, uma vez tendo uma estreia literária bem-sucedida, supostamente dará a sua editora muitos outros títulos capazes de atrair os leitores", explica Luciana Villas-Boas. "Nos últimos anos, essa expectativa tem sido relativizada porque os laços entre autor e editora se enfraqueceram." Dos autores que atende, os mais bem-sucedidos lá fora estão coincidentemente na ponta oposta. Francisco Azevedo, de "O Arroz de Palma", e Edney Silvestre, de "Se Eu Fechar os Olhos Agora", estão ambos na faixa dos 60. "O que indica que, estando o editor diante de uma obra de evidente qualidade literária, a idade não chega a ser um impedimento."
Lucia Riff confirma: "Para venda no exterior, a idade do autor, infelizmente, tem sido levada em conta. Como se contrata pouco, os editores estrangeiros tendem a escolher, entre as boas opções, os autores mais jovens, até inéditos. Parece uma maluquice que se valorize tanto o autor de alto risco, mas é o que acontece". Em sua Agência Riff, tem autores de todas as idades, sem limite - um deles, Maria Valéria Rezende. "Confesso que tenho certa alergia a pensar em autores em termos de idade, de rótulo. Então é bom só porque é jovem? Ou é bom porque é da geração x ou y ou z?" Para equalizar diferenças a fim de abrir oportunidades em igual medida, a revista "Machado de Assis", editada pela Fundação Biblioteca Nacional como parte do esforço iniciado para divulgar a literatura brasileira no exterior, tem se preocupado com a diversidade de idade, de regiões e de gêneros, explica Lindoso, responsável pelo projeto.
Entre autores maduros em grande produção, há os que, tendo iniciado sua trajetória até relativamente jovens, parecem viver seu esplendor depois de certa idade. Zulmira Ribeiro Tavares, aos 83, tem quase ao mesmo tempo dois livros muito elogiados na praça, "Vesúvio", de poesia, "Região", de prosa. Não se deve no entanto pensar que há algum tipo de padrão. "O cuidado aqui é não transferir a exterioridade de uma categoria, a de juventude, para outras categorias, igualmente externas à literatura e à arte, como maturidade ou senilidade", pondera o crítico literário Alcir Pécora, professor da Unicamp, um dos que rejeitam antologias que usam idade como recorte. "Se é irrelevante a ideia de uma literatura de jovens, também o é a ideia de uma literatura de velhos ou de madurões. Acho que o talento ou, ao menos, o grande talento, é uma categoria radicalmente indeterminada: não tem a ver com idade, como não tem a ver com aparência física ou nacionalidade."



© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/2991778/antes-tarde-do-que-nunca#ixzz2JgQcs8RU

Duas ou três coisas sobre os anos 80

Caio Fernando Abreu

Foto de Juca Martins

Não sei de onde veio essa mania de dividir o tempo em décadas. Como ele se tornasse mais compreensível e suportável assim organizadinho, disposto em prateleiras. Penso então que a gente quase sempre dá nome às coisas para perder o medo delas. Não sei se conseguimos. Mas sei que se eu falar anos 40 ou 50 ou 60 ou 70, imediatamente você monta uma colagem-painel na cabeça, onde cabem de Humphrey Bogart a Martha Rocha, de Crush a Aída Curi, Patricia Hearst e Sid Vicious, Chevrolet Impala e flower-power. Arbitrária ou não, a divisão funciona. Pelo menos para dar uma certa ilusão de disciplina ao caos.

Mas se eu falar anos-80, você pensa o quê? Tenho pensado duas ou três coisas sobre isso. Com a autoridade talvez apenas de estar dentro deles, em pleno centro vertiginoso e assustador da exata metade deles (junho, 85), perdido entre os 10 milhões de habitantes desta cada vez mais dura Sampa. E se adjetivo “vertiginoso & assustador” já estou dizendo senão três, pelo menos duas coisas sobre este tempo. Sinto muito: conto só com o que sinto e os meus sentidos captam.

Anda tudo muito triste. Engolimos a negação das diretas, aceitamos a meia-sola Tancredo Neves, devoramos a orgia fúnebre via Rede Globo. Órfãos, caímos nos braços de José Sarney. Que não escolhemos, mas tudo bem, cara: trata-se da “Nova República” anunciada pelas centenas de pombos que Fafá de Belém soltou por aí. Uma mágica: Fafá solta a pomba e, plim-plim!, a Nova República cai do céu como um maná, solucionando as secas, enchentes, inflação, fome, desemprego e solidão. Só que não aconteceu nada. Não só em relação a isso, mas a muito mais, tenho me perguntado assim: a face dos anos-80 não estará sendo esse indisfarçável furo na cartola de onde deveria ter saído um coelho?

Não quero falar de Podres Poderes. Há coisas mais graves no ar. São Paulo atualmente é uma cidade tomada pela paranoia do Aids. Pelo menos na faixa de gente-como-a-gente: essa parcela mínima e privilegiada da população que não só come e mora (coisa rara), como ainda por cima ainda lê, vai ao cinema, essas coisas. Conheço pessoas que não se tocam mais. O que é que se faz quando aquilo que era possibilidade de prazer – o toque, o beijo, o mergulho no corpo alheio capaz de nos livrar da sensação de finitude e incomunicabilidade – começa a se tornar possibilidade de horror? Quando o amor vira risco de contaminação. Pouco importa se entre homens e mulheres, entre homens e homens ou mulheres e mulheres. Os médicos acham importante desvincular a ideia da Aids da homossexualidade, sabia? E pouco importa também não saber ao certo de onde veio o vírus maldito. As hipóteses não atenuam o fato: a coisa existe. E mata. Pior ainda: estimula a níveis dementes o preconceito contra a mais castigada das minorias. Há qualquer coisa de nazismo no ar. Qualquer coisa de fogueiras medievais para queimar os feiticeiros. Lenha é que não falta.

Então, para nos distrairmos, há o pós. Pós-punk, pós-new wave, pós-moderno, pós-tudo, pós-pós. E há o new: new catolicismo, new-jovem-guarda, new puritanismo. Ninguém falou ainda no pré. Pré-qualquer-coisa. Anos-80 como pré cara a cara com a nossa perdição de micróbios doentes na costa frágil de um planetinha insignificante? Anda, sim, tudo muito triste. Tudo foi questionado, experimentado, negado, superado: a moda caiu de moda. O vazio e a involução tornam-se dolorosamente nítidos se a gente colocar lado a lado, por exemplo e ao acaso, Beatles e Menudos. Embora eu até possa concordar que a abobrinha seja uma saudável saída para the horror... the horror... Os fins de semana paulistanos têm sido pródigos em abobrinhas para os mais variados gostos, de amantes profissionais a rapazes com problemas por usarem óculos. Mas a gente não é hiena, certo?


Mas a lesão mais feia, mais feia que a ferida na perna do mendigo da esquina aqui de casa, corroendo por trás dos modelinhos Company ou Fiorucci é essa medonha suspeita de que de tanto pestear a natureza, o homem finalmente conseguiu tornar-se, ele mesmo, a própria peste. Daí, eu também ando muito triste. E sem entender quase nada.

Revista Domingo, Jornal do Brasil, 2 de junho de 1985
Atenção: A coluna de Caio F. no Caderno 2 do Estadão começou em 1986. Essa crônica pro JB é de antes disso
 
 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Esse samba tá diferente


Ana Costa e Paulinho Moska dão um tom pop-rock ao programa

 
OAna Costa mostra a alegria do seu gingado no Samba na GamboaAna Costa mostra a alegria do seu gingado no Samba na Gamboa Samba na Gamboa desta semana traz uma dupla de cantores e compositores que passa longe da máxima “mais do mesmo”. Sambista de raiz, Ana Costa busca no pop-rock novos horizontes pro seu samba. Já o multifacetado Paulinho Moska vai do samba às experimentações do rock, sempre trazendo algo de novo para sua música. Nesse encontro, o anfitrião Diogo Nogueira faz do programa uma bem-sucedida mescla de gêneros musicais.
No repertório, Ana Costa mostra a sua versão de samba para Olhos Felizes, de Marina Lima, e Moska interpreta Falsa Baiana e Maneiras. A dupla apresenta ainda um lindo dueto na canção Alma Gêmea.


http://tvbrasil.ebc.com.br/sambanagamboa/episodio/esse-samba-ta-diferente#media-youtube-1
 

A idade, o travesseiro e o colchão

 

Na carona dessas reflexões sobre a idade, que são impossíveis de serem evitadas em alguma parte da vida, venho aqui solenemente dizer que estou ficando velha. A constatação? O travesseiro e o colchão.

Sempre achei o máximo aquelas pessoas que sentam no aeroporto e... dormem. Ou que se aconchegam em meio a mochilas, põe o pé na mala grande e roncam profundamente na rodoviária (tenho uma amiga assim). Eu, mesmo tendo um sono mais pesado de todo o mundo até me tornar mãe, nunca consegui dormir sentada. Nem em um confortável ônibus.
Por outro lado, acho um saco aquelas pessoas que precisam de quatrocentos tipos de “ses” para viajar. Oras, viajar protegido, indo de hotel 5 estrelas para dentro de taxis é no mínimo ridículo, na minha opinião (por favor, se vc é assim, não me leve a mal). Acho que viagem pressupõe sair da zona de conforto, do que é sempre ajustado e ir ao encontro do desconhecido testando as possibilidades de adaptação.

Mas chega um momento que a coisa complica. Não sei se é o corpo que fica de cara com tanta adaptação ou se, com o tempo, a gente deixa essa possibilidade de adaptação em segundo plano e quer dar atenção a outras coisas da viagem.
Admiro muito as pessoas, como outra amiga minha, que dormem no sofá, na mesa, no chão e tudo está sempre bem.

Quando vim para Sevilla, fiquei pensando seriamente em trazer meu travesseiro especial. Sim, eu já tenho um travesseiro especial. Porque descobri em todas as dores nas costas e idas ao médico que o jeito que eu durmo é fundamental para não ter dores. Sempre dormi amassada, nunca na mesma posição e embolada de algum jeito. Bem, depois de dores mil, aprendi que algumas posições estão proibidas para mim (de bruço é uma delas). Enfim, ouvi o conselho do namorado que disse que preciso ter qualidade de sono para produzir. Enrolei meu travesseiro, coloquei embaixo do braço e vim. Aluguei o apartamento já mobiliado que tinha um colchão muito bom, comprei mais um travesseiro para colocar no meio das pernas (o joelho agradece) e me ajeitei para ter noites altamente qualitativas de sono. Em 3 meses aqui, não tive um dia sequer de dores nas costas.

Final de semana passado fomos a Barcelona com orçamento reduzido, logo, nossa opção foi ficar em hostel. Sem problemas. E, em viagens assim eu me nego a carregar travesseiro. Aí é demais.

Pela primeira vez, notei na pele (e costas, músculos e articulações), a tal da falta de qualidade no sono. O hostel era bom, mas os travesseiros finos e o colchão de mola. O namorado construiu para ele um travesseiro mais alto colocando as jaquetas e moleton dentro da fronha. Ele vislumbrou que teria uma noite melhor com um travesseiro maior. Eu, com a minha mente jovem, pensei comigo: 3 noites não são nada. Vou ficar bem. Ledo engano... Tive uma média de 9 horas de sono por noite lá e acordei todos os dias des-truí-da. Dor de cabeça, dor no joelho, no dedão do pé (o que tem artrose) e nos ombros. E eu achando que era porque caminhamos muito durante todos os dia e tals... Humpf.

De volta a Sevilla, 6 horas de sono e estou me sentido como se alguém tivesse me passado com ferro à vapor. Nova.

Sim, estou velha, preciso do meu travesseiro especial e de uma boa noite de sono.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Show de Joyce Moreno em homenagem a Sidney Miller


Feito pra Acabar - Marcelo Jeneci



Feito Pra Acabar

Marcelo Jeneci

Quem me diz
Da estrada que não cabe onde termina
Da luz que cega quando te ilumina
Da pergunta que emudece o coração
Quantas são
As dores e alegrias de uma vida
Jogadas na explosão de tantas vidas
Vezes tudo que não cabe no querer
Vai saber
Se olhando bem no rosto do impossível
O véu, o vento o alvo invisível
Se desvenda o que nos une ainda assim
A gente é feito pra acabar
Ah Aah
A gente é feito pra dizer
Que sim
A gente é feito pra caber
No mar
E isso nunca vai ter fim
Uh Uhhh

Um grande projeto

 

Mensagem de náufrago

O Projeto 365 Canções cumpriu sua missão: ouviu e leu uma canção diferente a cada novo dia durante os 365 dias de 2010.
Agradeço aos companheiros de viagem que, com leituras e estímulos, ajudaram a atravessar as ondas sonoras das nossas neo(neon)sereias. Não foi fácil, mas conseguimos.
Quem sabe isso tudo não vira um livro impresso.
Não quero, nem consigo, ancorar e dar um ponto final nesta viagem cancional, neste trabalho tão quixotesco quanto prazeroso. Parto agora para outros mares: ouvir e ler a Canção Popular Brasileira na virada da década.
Sem exorcizar o passado, ao contrário, iluminando-o e sendo iluminado por ele, quero mapear a "geração 00" e o que se anuncia na "geração 10". Continuo antenado nas ondas do rádio, mas com políticas e rotinas diferentes: abandono a tarefa de comentar a primeira canção ouvida no dia e abro espaço para as sugestões dos leitores dos 5 cantos do Brasil; as publicações seguirão meu ritmo de possibilidades e não mais, necessariamente, diárias; e, deste modo, as canções não serão mais enumeradas, pois não há mais meta numérica a ser alcançada.
No mais, tudo continuará a ser feito pelo sabor do gesto de ouvir e ler canção.
Convido-os a conhecer o Lendo Canções.
Façamos!

31 dezembro 2010

365. Copo d'água

"A gente é feito pra acabar (...) pra caber no mar e isso nunca vai ter fim". Os versos da canção que dá nome ao disco Feito pra acabar (2010), de Marcelo Jeneci, traduzem um desejo que atravessa todas as canções: roçar a vida com os diferentes e diversos cíclicos extratos sonoros que ela oferece, sem pseudos experimentalismos que tentam negar o fim das coisas.
Com mirada aguda na canção popular AM e FM, Marcelo montou um disco que consagra o canto simples, brejeiro, mulato, mas por isso mesmo mestiço, malandro e antenado com os recursos modernos. Dito de outro modo, Jeneci não tenta, nem quer, "reinventar a roda". Seu gesto cancional é o de iluminar momentos e movimentos da canção: ilumina-los para que o ouvinte os recebam de forma direta e simples. Com melodias passíveis de ser assobiadas por qualquer um, Jeneci busca o sim do som. E seu prazer em fazer canção é contagiante.
Eis a sofisticação do trabalho de Marcelo Jeneci: restituir-nos (aos ouvintes de canção popular) o prazer de assobiar uma melodia. Algo que tornou-se raro por longo tempo. Aliado a isso, os sujeitos de suas canções agem muito próximos de nós: brincam com nossas experiências cotidianas. É assim, por exemplo, com o sujeito de "Copo d'água", de Marcelo Jeneci, Arnaldo Antunes, Pedro Baby e Chico Salem.
Em "Copo d'água", temos um sujeito às voltas com os desejos e os ciúmes das relações amorosas na era das "ferramentas de sociabilidade". Nas "novas" relações é cada vez mais comum cobrar (ou ser cobrado) o porque de manter-se com o status de "solteiro" no orkut; perguntar (ou ser perguntado) sobre aquela pessoa que manda recado via twitter; o porque de ter sido marcado na foto de alguém no facebook; ou por não saber o que dizer quando se "flagra" (ou se é flagrado com) pedidos de atenção no msn e o "eu eu eu (...) ãh ãh ãh" do instante denuncia.
A canção "Copo d'água" tematiza a insegurança em tempos de amores líquidos, mas recusa a fragilidade dos laços humanos (detectada e analisada por um sujeito que vive experimenta tal situação). Para o sujeito da canção, além de estar conectado ao(s) outro(s) é preciso ter vínculo. E ele aponta os vínculos já estabelecidos e importantes para configurar a relação cantada.
O sujeito da canção se argumenta elencando os objetos (elementos-de-si) que só o outro pode manipular: "o meu cabelo, jeito, cheiro, dedo, pele no seu orkut, e-mail, skype, net, messenger", diz.
Ele joga com as categorias quente (cheiro do corpo) e frio (tela do micro), mostrando ao outro onde está o desejo e em qual direção ambos devem investir a energia erótico-amorosa. Afinal, "quando um não quer os dois não fazem tempestade em copo d'água".
"Você é a pessoa que eu quero pra mim", diz o sujeito ao ritmo de uma melodia pop: liberto (sobreposto às dificuldades de amar o próximo) das neuras e certo da "sua roupa, bolsa, escova, lenço, maquiagem na minha cama, quarto, sala, até na minha tatuagem".
O sujeito sugere que no peito dos internautas também bate um coração: os perfis e as máscaras "sociais" espalhados em orkuts, twitters, facebooks tem algo de orgânico: espelham o desejo do indivíduo por trás de tudo. E o desejo dele é ela: feitos para acabar juntos.

***

Copo d'água(Marcelo Jeneci / Arnaldo Antunes / Pedro Baby / Chico Salem)

Eu, eu, eu
Eu não disse nada
Por que essa cara?
Você quer atenção

Ãh, ãh, ãh
Ãh, até parece
Que não me conhece
Como a palma da sua mão

O meu cabelo, jeito, cheiro, dedo, pele
No seu orkut, e-mail, skype, net, messenger

Quando um não quer os dois não fazem
Tempestade em copo d’água

Sem, sem, sem
Sem nenhuma mágoa
É só uma palavra…

Sim, sim, sim
Vamos ficar numa boa
Você é a pessoa
Que eu quero pra mim

A sua roupa, bolsa, escova, lenço, maquiagem
Na minha cama, quarto, sala, até na minha tatuagem

Quando um não quer os dois não fazem
Tempestade em copo d’água
 
 
 
 

MEU PRIMEIRO AMOR - BETHANIA E CAETANO -

 
 
Igual uma borboleta
Vagando triste por sobre a flor
Seu nome, sempre em meus lábios
Irei chamando por onde for

"Homens Nus"

30/01/2013 - 08h49

Museu de Viena vai aceitar visitantes sem roupa em exposição sobre nus

Uma visita fora do comum. http://folha.com/no1222731 Museu de Viena vai aceitar visitantes sem roupa em exposição sobre nus.
(Foto: REUTERS)
(Foto: REUTERS)
 
O Museu Leopold de Viena anunciou na última terça-feira (29) que prepara um dia especial para os que desejem visitar bem à vontade sua exposição "Homens Nus", sobre a história da representação do corpo masculino na arte.
No próximo dia 18 de fevereiro, a partir das 18h, o museu abrirá suas portas para quem deseje visitar a exposição sem roupa, após ter recebido várias solicitações a esse respeito por parte de associações nudistas.
A exposição "Homens Nus" foi motivo de polêmica e até autocensura em outubro por conta de um cartaz promocional com um nu frontal de três homens que divulgava a exposição.
A foto foi motivo de tantas ligações de protesto, tanto de mulheres como de homens, que o museu decidiu cobrir os genitais com uma chamativa faixa vermelha em muitas das cópias distribuídas pela cidade.
A exposição, aberta até o dia 4 de março, reúne mais de 300 quadros, fotos e esculturas.
Em 2005, o mesmo museu ofereceu a entrada gratuita às pessoas que visitassem nuas a exposição "A Verdade Nua: Klimt, Schiele, Kokoschka e outros escândalos".
Esse dia se tornou em um sucesso e centenas de pessoas visitaram a exposição com roupas de baixo ou completamente nuas.
 
Com agências de notícias