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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Maçã por Airton Paschoa




Eu poderia simplesmente aguentar firme o formigamento e tocar em frente como todo mundo
por Airton Paschoa
Adejo sostenuto
Ter imaginado, imaginado que podia,                               
podia ser.
E ter de rir de si e ter de rir de dó e ter                               
de rir de lá.

Ordem
Ó Vossa Iminência,
Vossa Iminência que nunca chega,
Vossa Iminência que não chega, chega.

Arabesco
Quando você não diz nada, toda olhos, fogos e artifício, e nada digo eu, todo utopia, tiros e queda, não é que não dizemos nada. Poderíamos falar cobras e lagartos, serpentes. Poderíamos falar sem parar, caravana, miragens. Ou poderíamos simplesmente dizer deserto. Mas não, não dizemos nada. E é o que dizemos de certo.

Formigamento
Praga ou não, dei com as maçãs formigando ao erguer os olhos. Acho que o sangue para de correr pelo local, ou corre demais, não sei. A única coisa que sei é que sempre que acontece fico meio atarantado, pensando em esconder o rosto, mesmo não fazendo ideia de como seguir escrevendo com as mãos ocupadas, ou olhar só para o chão, arriscando viver vexado, ou até mesmo aguentar firme o formigamento e tocar em frente como todo mundo, cada qual com seu papel, ou folha... penso um pouco corado.

A tristeza do rei
Baixar édito –
é o ofício.
Baixa o tédio
e baixa a treva.
A trova cala
e cala o bobo.
A cama é larga
e larga o corpo.
Mas a alegria –
a alegria tem que reinar,
tem que reinar a alegria
em todos os quadrantes,
e o rei se dependura
(qual um quadro).

Gatos e homens
(goeldiana)
Os gatos passeiam, de olhos acesos, entre móveis, vasos, vielas. Os homens sossegam, de olhos cerrados, entre persianas, penumbras, penhascos. Os gatos querem pular e pulam, como os sonhos, o muro. E as sombras, esgueirando-se meio-fio adentro, despertam a mais pálida suspeita.

Esperança
Não havia porto.
Corpos e mais corpos apenas.
Não que não houvesse braços.
E o abraço desesperado.
E a esperança de afundar.
Não havia esperança de mar.

Banho de sol
Certas manhãs, despontando impossíveis de azul e luz, parece quererem nos lembrar que não devíamos estar fazendo isso. É quando com certo pejo rápido engavetamos os afazeres e – não sabemos bem o que fazer. O amor permanece proibido durante o expediente. A poesia, de fim de semana, se confunde com suplemento. O subterrâneo, que retumbava outra vida... Outra vida! É quando com certo pejo rápido descemos tomar banho de sol.

Artrose
Mexeu-se um pouco. Que tinha que fazer algo, isso lembrava, e que era urgente isso, lembrava. O que era... Mexeu-se. Era alguma coisa que tinha que ver. Olhou ao redor, nenhum pico à vista, e teve vontade de sentir saudade do tempo em que escalava as estantes. Intrépido. É, intrépido. Mas não se mexeu. Nem pra apanhar a manta, que de quando em quando deslizava como deslizavam as nuvens, lembrava. Via a cortina em sua queda congelada e teve vontade de sentir saudade do tempo em que mergulhava no trabalho. Pescou a manta, com o gancho do cabide, cobriu a cabeça. O ar – não, não faltava. Inspirava e expirava, regular.

Circulatura do quadrado
Indo de um canto a outro e deste àqueloutro e destoutro ao penúltimo e do penúltimo ao último canto, perfaz-se um quadrado. Perfazendo-o vida afora, em que pese a distração com a poeira que levantamos, observa-se com justeza que o último confina palmo a palmo com o primeiro canto. Não deixamos de perfazê-lo por isso, notando embora requerer sempre mais e mais esforço, à medida que mais e mais nos faltam forças. – Mas há o pó, o pó! o tom subindo, subindo e descendo em sua infinita variedade, e a réstia de sol, volta e meia nos dizemos, erguendo a coluna.

Autoimobilismo
As notícias chegam de fora. Volta e meia viaja um conhecido, um parente, e regressam cheios de malas e saudade. Ah, a Europa! E não só ela. A Ásia! A China! O Império! Quantos jardins suspensos não suspeita o pobre tronco! resvalamos a pena velada nos olhos dos descobridores, nós que mal nos movemos do leito. Só ficamos menos embaraçados quando as pedem de dentro. Balançam a cabeça, não sei se positivamente ou por polidez, e esperam assentar a poeira. Uma hora os braços caem, levantando mais poeira. É quando se levantam também. Felizmente não preciso acompanhá-los.

Labirintite
Ler o diário sem abanar a cabeça, eis arte que só a idade ensina. E se volta e meia topamos notícia imperiosa, a tentar-nos o equilíbrio estoicamente conquistado, cerramos os olhos, como que em oração matinal, o tempo talvez de uma ave-maria, um pai-nosso, surdo de todo aos rompantes do vulgo, e logo logramos reabri-los com a beatitude dos grandes santos. Se porventura anos afora, sabe Deus, pressentimos falecer-nos o árduo dom de levitar, resta virar a página e com sorte deparar nosso necrológio. Ou até mesmo fechá-lo, última saída. Tudo, tudo, irmão, menos cair na tentação de abaná-la. Não por reavivar o fogo da danação, este eterno, senão por prevenir mais alta desgraça, o inflamar o labirinto.

Parábola
Não reclamo. Se é sina andar em círculo, ando. Se ninguém nunca viu a figura, paciência. A esperança... vocês sabem. Por isso não reclamo, ando. Ou me arrasto, vá lá. Às vezes levo uma vida, caracol? carrossel? via-láctea? tateando a geometria dos passos. Geometria? A aspiral pode ser só aspiração, bem sei. Daqui, da poça, divisá-la, não há, senão em parte, braço, sino, cello. E se for uma parábola, uma parábola! e ergo os olhos. Os sóis, dardejando, parece também se desfazerem em sal ou cal, e caio queimando.

Ancien régime

Acompanhar nosso passamento passo a passo tem sido meu passatempo. E o tempo passa. Os arranjos por entretê-lo, ao império do dia frágeis, figuram coroas. Para que servem então – ó questão que morreu descabelada! Servem à cabeça, sabe Deus, ou sobem a ela.

Mistério dos transportes
Rasgando o futuro e desaguando na praça monumental, os maiores pensam em rodovias; já avenidas cogitam os grandes da vida, de preferência homônimas e culminando no arco do triunfo; há quem sonhe, lírico! com alamedas a cuja sombra possa folgar do insolente sol; não falo dos épicos, que devem planejar estradas sumindo no horizonte curvado de aventuras; menos ainda dos dramáticos, que atentam só aos buracos e ponto; em tempos verdes e ardentes bucólicos ainda vislumbram trilhas a receber-nos de cachoeiras abertas. Mas o último capiau, este sabe, picando o fumo, que é o fim da picada.

Flor de asfalto
Ó flor de betume que não corta
               a corrente...
Trinca o cristal de crença, tão enorme                                                
               o normal.
Ó flor de bestunto que não enxerga o                               
enxurro, o cu do escuro, a bota/
Bota na cabeça. 

Casquinha crocante


ONU vê no consumo de insetos uma fonte de proteína barata; Monteiro Lobato já chamava a bunda da saúva de “caviar do Vale do Paraíba”

por JULIANA CUNHA
Quando o planeta for povoado apenas por Keith Richards e as baratas, o que Keith Richards vai comer? A ONU tem uma sugestão. Onde você enxerga um alien em miniatura, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a FAO, vê uma fonte de proteína barata e sustentável. Em um relatório divulgado no mês passado, a FAO defende que a criação de insetos em larga escala pode garantir a segurança alimentar da humanidade.
Em 2050 seremos 9 bilhões de pessoas. Para alimentar toda essa gente com bifinhos, as áreas de criação animal precisariam dobrar de tamanho, o que seria uma catástrofe ecológica por causa do desmatamento e dos gases gerados pelos bois – sim, sim, por causa dos puns.
Dois bilhões de pessoas – um terço da humanidade – já praticam a degustação de 1 900 espécies de invertebrados de exoesqueleto quitinoso, aquela parte da anatomia dos bichinhos que, exposta ao fogo ou ao óleo fervente, vira uma casquinha crocante como pipoca. Besouros, lagartas, abelhas, vespas, formigas, grilos e gafanhotos são os mais ingeridos, sobretudo na África (36 países) e na Ásia (29 países), onde o consumo de carne bovina é menor – um americano come em média 120 quilos por ano, contra apenas 8,5 de um etíope.
Insetos contêm quantidades de ferro superiores às do boi, e a produção de 1 quilo deles requer apenas 2 quilos de ração, enquanto cada quilo de carne de vaca demanda um investimento de 10 quilos de ração. A carne de boi tem cerca de 20% de proteína, contra 44% de algumas espécies de barata, que são ainda ricas em vitamina B e cálcio.
Além disso, o churrasquinho de inseto é mais seguro, diz o engenheiro agrônomo Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil: “Claro que todo alimento precisa ser higienizado, mas o inseto não tem vírus nem bactérias que possam prejudicar o homem. Carnes como a de porco são mais sujeitas a zoonoses.”
Ah, sim, tem o argumento do nojo. Nesse quesito, parece que os insetos saem perdendo. Mas mantenha a compostura: a ONU não pretende colocar besouros no seu prato. A sugestão é fazer um pozinho de insetos para tornar a coisa mais palatável. Sabe aquela moça que no meio de um almoço saca da bolsa um potinho de chia, de linhaça ou do que quer que esteja na moda naquele mês? Um dia desses ela pode sacar um frasquinho de grilos triturados e, sejamos sinceros, ninguém vai estranhar.
No Brasil ainda não chegamos ao ponto de comer vespa por macheza, mas Monteiro Lobato chamava suas içás torradas em banha de porco de “o caviar do Vale do Paraíba”. Crianças da cidade grande cresceram sem entender a referência a cada vez que o Chico Bento, das histórias de Mauricio de Sousa, se atiçava diante de um formigueiro em dia de chuva.
Içá é um nome carinhoso para as fêmeas da formiga saúva. Em algumas regiões do Brasil – a exemplo da região Norte e do interior de São Paulo –, come-se bunda de içá como se fosse amendoim. A tradição é indígena e foi repassada aos tropeiros.

á quarenta anos, Ocílio Ferraz, de 75 anos, coleta as saúvas para consumo próprio e para venda. Em sua cidade, Silveiras, interior de São Paulo, quase todo mundo é caçador de formiga. A garrafa pet abarrotada de saúvas custa 100 reais. O negócio não chega a sustentar ninguém porque é sazonal. “Só tem formiga entre junho e novembro. Para caçar tem que ter chovido forte um dia antes e tem que ser um dia bem abafado, aí elas pulam do formigueiro”, conta o caçador.
Por causa da idade, hoje ele coleta pouco, prefere preparar a caça alheia: “Tenho um restaurante e envio farofa de formiga via Sedex para todo canto, até para o Sul.” Oitenta gramas da farofadelivery custam 40 reais, mais o frete.
Ocílio é ainda fornecedor de gente chique. Em São Paulo, suas formigas não são sujeitas à banha de porco que tanto agradava Monteiro Lobato, mas salteadas no azeite orgânico de alecrim pelochef Renato Caleffi, 38, doLe Manjue Organique. Depois desse verniz de azeite, o pratinho com quinze bundas de formiga passa a valer 41 reais. Por ano, o restaurante serve cerca de 200 porções de içá. “Quem pede é gente que passou a infância no interior e curiosos”, conta Bruno Amaro Fattori, 34, um dos sócios.
A farra da içá não prejudica o equilíbrio da região: o que se caça são fêmeas reprodutivas que estão indo fundar novas colônias. Sem interferência humana, a maior parte dessas formigas morreria de outras formas, explica Eduardo Almeida, professor de biologia da Universidade de São Paulo especializado em entomologia. Já a criação industrial de insetos poderia gerar problemas.
“Na década de 50, alguém teve a ótima ideia de trazer abelhas africanas para produção de mel no Brasil. O objetivo era mantê-las em cativeiro, mas se espalharam tanto que em 1980 já tinham chegado à América do Norte”, diz Almeida.
No Brasil ainda não há regra para caça e produção de insetos para consumo humano. Cabe à Vigilância Sanitária do município a inspeção em estabelecimentos que servem esses animais. Pela lei, o produto não pode ser comercializado de um estado para o outro nem, muito menos, exportado, já que não é registrado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
O Ministério reconhece que vem discutindo a possibilidade de lançar uma legislação específica sobre insetos para possibilitar a tal “criação em escala industrial” sugerida pela ONU, mas o assunto é espinhoso e não há previsão de quando uma lei dessas seria aprovada.
Você ainda não parece convencido a fazer uso culinário daquela lagartinha que entrou em casa, mas Alan Bojanic está convicto de que o incentivo ao consumo de insetos é um trabalho de longo prazo. “Hoje a pessoa lê sobre a ideia e refuta. Daqui a um ano, lê e acha curioso. Acredito que em vinte anos os insetos estejam integrados à gastronomia de muitos países que ainda não têm essa cultura”, diz ele, e arrisca uma comparação: “Talvez o inseto seja o novo peixe cru. Muita gente torcia o nariz para o peixe cru, não é?” 

Felicidades, João Gilberto!!!


domingo, 9 de junho de 2013

'Little French songs' - Carla Bruni

Carla Bruni reassume sua faceta de cantora, após cinco anos como primeira-dama.

Fernando Eichenberg - Correspondente em Paris (Email · Facebook · Twitter)
Publicado:




Fã de Elis Regina, Carla Bruni diz que adoraria fazer duo com Chico e com Caetano e garante que, desta vez, traz sua voz para o Brasil, provavelmente em 2014.
Foto: Divulgação/Richard Dumas
Fã de Elis Regina, Carla Bruni diz que adoraria fazer duo com Chico e com Caetano e garante que, desta vez, traz sua voz para o Brasil, provavelmente em 2014. Divulgação/Richard Dumas
 
Há alguma influência da música brasileira em seu trabalho?
A bossa nova foi algo revolucionário para o mundo. Não existiam antes canções tão refinadas, tão sensíveis, com vozes tão delicadas e músicas tão criativas e complexas. Um amor à primeira vista foi Elis Regina. Nunca pude assistir a um show dela, mas via tudo sobre ela. Para mim era como uma voz ideal, um pouco como a italiana Ornella Vanoni. Obviamente, há vozes que admiro e que escutei ao infinito. Ouvi muito Nina Simone, Billie Hollyday, Dolly Parton, Emmylou Harris, Bessie Smith, Marianne Faithfull, Françoise Hardy, e Mina. Mas Ornella Vanoni e Elis Regina são modelos para mim. A maneira de cantar, a delicadeza, a precisão, a fineza musical e a sensualidade de suas vozes estão no máximo. O álbum “Elis & Tom” foi muito importante para mim bem antes que começasse a compor.
Você ainda o escuta?
Escutei novamente agora porque Georges Moustaki acaba de morrer, e ele havia feito uma adaptação de “Águas de março” muito bonita. É difícil adaptar canções em outra língua, sobretudo canções tão perfeitas como esta. Mesmo quando Moustaki canta em francês se escuta o “brasileiro” por trás. Mas a escrita do texto... (ela cantarola em francês). Que belo trabalho! E eu não conhecia a versão de Moustaki. Com a sua morte — infelizmente —, comprei todas as suas canções e escutei “Águas de março”. Sabe essas perguntas sobre os discos que você levaria para uma ilha deserta? Eu levaria “Elis & Tom”.
Você gostaria de fazer algum duo com músicos brasileiros?
Adoraria fazer duos e trabalhar com o Brasil. Já houve algum contato com Chico Buarque, espero que um dia aconteça. Caetano Veloso é outro com quem adoraria cantar. E há cantoras maravilhosas no Brasil. Você conhece alguma que combinaria comigo?
Se você for mesmo cantar no Brasil em 2014, como pretende, será no ano da Copa do Mundo.
É verdade. Uh la la la! Espero que vocês ganhem, senão será um trauma como foi para a Itália. Os italianos não suportam quando perdem.
Como será a turnê do show?
Começa em novembro, na França. Vai ser muito simples, com poucos músicos. Estou contente, porque já lancei quatro discos, tenho bastante material.
No início, no lançamento de seu primeiro álbum, “Quelqu’un m’a dit” (2002), você revelou não ter os meios psicológicos para enfrentar o palco. Hoje você se sente à vontade em cena?
Não digo que me sinta totalmente à vontade, porque não é algo tão simples, mas adoro isso. Tenho muito medo, mas adoro (risos).
O que você tem escutado agora?
Tenho escutado muito o israelense Asaf Vidan, é muito estranho, muito bonito. Escutei o último (David) Bowie, que é bonito. Também o disco de Lou Doillon, que adorei. Comprei no iTunes todas os Noturnos de Chopin tocados por Arthur Rubinstein. Comprei ontem, escutei, e... é maravilhoso! Uma quinzena de Noturnos de Chopin leva a uma melancolia profunda. Adoro.
Como foi para você saber, aos 28 anos, da existência de seu pai biológico, Maurizio Remmert, instalado há 35 anos no Brasil, e conhecê-lo?
Tive muita sorte com essa história. Poderia ter sido uma história sórdida, mas é algo maravilhoso. Acho que isso se deve à qualidade humana das pessoas envolvidas, não à minha. Meu pai é um homem que adoro e que apreciaria mesmo que não fosse meu pai biológico.
Você começou a tocar violão aos 9 anos, mas só se lançou na carreira bem mais tarde.
É verdade, foi muito tarde. Acho que estava um pouco inibida. Eu dizia a mim mesma que talvez fosse fazer isto um dia. Depois, meu pai morreu (Alberto Bruni Tedeschi), e talvez isso tenha liberado algo, não sei.
A canção “Mon Raymond”, declaração de amor a seu marido, Nicolas Sarkozy, saiu de forma espontânea?
Eu já tinha a ideia de compor uma canção mudando o seu nome, o que me fazia rir. Quando encontrei o nome, ela saiu de forma bem fluída. Eu me divirto mudando o nome, mas o profundo é o que digo na canção. É uma canção de amor, de uma mulher apaixonada.
O que mais a surpreendeu nestes anos vividos no Palácio do Eliseu?
É difícil sintetizar isso. Mas o que mais me surpreendeu foi o quanto era apaixonante, interessante, diferente, extraordinário. O que mais me apaixonou foi estar ao lado dele (Sarkozy), e de vê-lo trabalhar, lutar. Foi um belo momento de nossa vida. Brutal, mas belo. Estou feliz que a página tenha sido virada, mas foi uma grande honra.
O músico Julien Clerc, que participa de seu disco, disse que você subestimou a nocividade da política. Você concorda?
Eu não estimei nada. Fui sem nenhuma ideia preconcebida. Apenas observei trabalhar meu homem (Sarkozy). Isso me interessava. Em relação a mim mesma, aprendi, por exemplo, a ter sangue frio. Já tinha um pouco antes. Mas aprendi a olhar com perspectiva, a relativizar.
Foi difícil não poder prosseguir com a sua carreira musical neste período?
Foi um pouco frustrante, mas não difícil. Eu vivia um pouco numa bolha como artista. Quando meu marido foi presidente da França, tive que lidar com a vida dos outros, com suas dificuldades. Não foi difícil para mim não fazer turnês. Foi um pouco frustrante, mas para o ego. Frustrante mesmo é ter um emprego horrível, não poder oferecer nada aos filhos, não ter férias, ficar doente, ser só e abandonado quando velho, isso sim é difícil, todo o resto são pequenas dificuldades. Ninguém escapa das grandes dificuldades. Já não podemos escapar da morte, da nossa nem da dos outros, e isso já é bastante difícil.
Você tem medo de morrer?
Sim. Mas tenho sobretudo medo de que os outros morram. Tenho medo de sofrer. Você não?
E tem medo de envelhecer?
Menos. Menos do que quando era jovem (risos). Quando nos aproximamos da velhice, a ideia se torna bem mais simpática. De qualquer forma, não temos escolha, então o melhor é aceitar.
A atriz Charlotte Rampling...
Ela é bela, não?
... disse certa vez que quando se nasce bela, não há nada a fazer, é uma questão de genes, mas que a partir dos 50 anos é a pessoa que se faz bela.
Não tenho relação com a minha aparência física. Me foi útil. Quando faço fotos, sei que está relacionado ao meu físico. Mas isso não me interessa muito. Gosto da beleza, mas a dos outros, das mulheres, dos homens, das crianças, paisagens, pinturas... A minha é indiferente para mim. Faço o possível para não parecer feia, mas não penso muito nisso.
À parte sua polidez e seu respeito pelos outros, você teria um lado um desavergonhado, segundo disse o mesmo Julien Clerc.
Sou um pouco transgressora. Não provocadora, mas levemente transgressora. Suavemente. Gosto disso.
Você se manifestou a favor do casamento homossexual. Foi surpreendida pelas manifestações de rua contrárias à união gay na França, algumas delas com episódios violentos?
Não. A França é um país muito eruptivo, que reage muito. Conheço muitas famílias de pais do mesmo sexo, não vejo problema. Não tenho alma de militante. Nunca na vida participei de manifestações, nunca tinha votado antes de encontrar o meu marido — uma catatástrofe —, sou pouco cidadã. Mas sou muito aberta a todas as ideias e opiniões, à parte os extremismos, seja de direita ou esquerda, que me repugnam.
Você acredita que o mundo está se tornando mais sectário?
Acho isto triste, tedioso. Acho que o mundo de hoje está aterrorizado. E a economia não está florescente. Isto leva a um enclausuramento.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/carla-bruni-reassume-sua-faceta-de-cantora-apos-cinco-anos-como-primeira-dama-8632472#ixzz2VkxMb5WG

Chloe Isabella Sorensen - High School Graduation, Class of 2013

My granddaughter
Minha neta
CHLOE ISABELLA SORENSEN
CONGRATULATIONS!!!!!





















Mais pop que "50 Tons de Cinza"

livro apresenta Leminski complexo à geração do Facebook

Carlos Minuano
Do UOL, em São Paulo


Paulo Leminski, poeta, músico e jornalista (1944-1989)9 fotos

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O escritor Paulo Leminski posa para foto em bar de São Paulo, em 1984 Avani Stein/Folhapress
Feito raro num país que dá pouca bola à literatura, Paulo Leminski é pop. Morto em junho de 1989, aos 44 anos, os versos do escritor e jornalista paranaense circulam há décadas em agendas e cadernos de estudantes e, hoje, encontram terreno fértil também na internet, sobretudo em redes sociais como o Facebook. Um dos poemas mais populares na rede diz o seguinte: "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além".

E é para além do universo de citações fáceis - e muitas vezes descontextualizadas ou incorretas - que uma série de lançamentos e projetos futuros, incluindo livros, filmes, discos e site, pretende levar a obra do autor descrito por Caetano Veloso como "concretista beatnik", por Haroldo de Campos como "polilíngue paroquiano cósmico" ou simplesmente como "samurai malandro", por Leyla Perrone-Moisés.
 

50 TONS DE LARANJA

  • Reprodução
    Capa do recém-lançado "Toda Poesia", que reúne mais de 600 poemas de Paulo Leminski
Recém-publicado pela Companhia das Letras, "Toda Poesia" reúne os seus mais de 600 poemas, de diferentes fases e estilos, e procura decifrar o complexo universo de Leminski, que transitou com desenvoltura pelos territórios distintos, e eventualmente opostos, do erudito e do popular.

Prova de que o poeta é mesmo pop, o livro está há semanas no topo da lista dos mais vendidos nas livrarias brasileiras na categoria ficção e já desbancou até mesmo o best-seller pornô soft "50 Tons de Cinza".

No conjunto, a criação poética de Leminski apresentada em "Toda Poesia" mostra como ele circulava livremente por diferentes estilos. Do concretismo ao coloquialismo, em haicais ou poemas-piadas, o caboclo polaco-paranaense (descendente de negro e polonês), exibe uma linguagem, que resiste ao tempo.

Apesar de não trazer nenhum texto inédito, o lançamento republica material de livros raros, quase todos já fora de catálogos. A maior parte organizada em livros pelo próprio Leminski, segundo a poeta Alice Ruiz, viúva do autor, e responsável pela seleção dos poemas reunidos na nova publicação.

"O que ficou de fora foi porque ele assim quis, e respeito isso", diz. "O que ele não considerou pronto não será publicado", completa.

Múltiplo Leminski
Os holofotes que se voltam sobre Leminski nesse momento, além de recolocar em destaque um nome de relevo da poesia brasileira, também devem jogar luz sobre facetas do autor mais desconhecidas do grande público.

Por trás de tudo isso, o esforço da família, Alice e as filhas Estrela e Áurea, que há anos trabalham na organização e difusão da extensa produção de Leminski nas mais diferentes áreas. Parte desse trabalho resultou na exposição "Múltiplo Leminski". A mostra, que fica em cartaz até junho em Curitiba e depois segue para Goiânia, Recife e Foz do Iguaçu, além da obra poética, destaca os trabalhos do artista na música, no cinema, grafite e quadrinhos.

Áurea também está à frente da digitalização do acervo de Leminski. "Trabalho muito extenso", desabafa. "Já são quase três anos debruçada sobre esse material", conta. O motivo de tanta labuta é lançar em agosto deste ano o acervo digital do autor, a ser distribuído em bibliotecas e universidades.

Outra parte deve se tornar um site oficial gerido pela família. Embora familiarizada com a obra do pai, Áurea diz ter se surpreendido com a multiplicidade de suas criações. "Ele era profundamente interessado em todas as formas de conhecimento, sobretudo as ligadas às áreas humanas".
 

QUASE PARCEIROS

  • Mônica Vendramini/Folhapress
    Uma história pouco conhecida de Leminski é sobre sua 'quase' parceria na canção "Tô Tenso", dos irmãos Arrigo e Paulo Barnabé e Itamar Assumpção. Paulo Barnabé conta que depois que se tornaram amigos em um boteco de Curitiba, e de se encontraram depois em shows e lançamentos de livros, ligou para o poeta em Curitiba para pedir uma ajuda. "Estava escrevendo a música e passei a ele a letra, queria ela mais comprida", explica.

    Depois de uns dias Leminski mandou o complemento, que segundo Paulo Barnabé ficou muito bom. Mas o trecho acabou não sendo usado. "Infelizmente eu perdi o papel. Naquela época não tinha internet, ficou difícil falar com ele sobre isso novamente, acabei deixando pra lá", justifica.
A produção musical de Leminski também é robusta. Suas canções foram gravadas por nomes como Caetano Veloso, Paulinho Boca de Cantor, Jorge Mautner e Itamar Assumpção. Do extenso cancioneiro do poeta pop (também compositor, cantor e músico), quem está cuidando é a outra filha, a compositora e escritora, Estrela.
É ela quem está digitalizando o acervo de gravações em fita cassete. "Tarefa nada fácil", garante. "Algumas estão com bolor, outras grudadas". Ela está reunindo todas as composições do pai para um songbook, que será lançado em 2014.
Em paralelo, ainda está gravando um CD duplo. "Um disco será composto de parcerias do meu pai com diversas pessoas, Itamar Assumpção e Moraes Moreira, por exemplo, e o outro com composições só dele", explica. "Estou mergulhando na linguagem dele, acho que é mais fácil pra mim por ter crescido ouvindo essas músicas e por saber bem o gosto musical do meu pai", observa Estrela.

Mas a falta de distanciamento embolou um pouco o meio de campo, na hora da seleção das músicas. "Minha vontade era de gravar todas as inéditas, mas já sei que nesse projeto não vai caber tudo". Segundo ela, os discos terão algumas participações especiais, como de Zélia Duncan e Zeca Baleiro.

Alice e Paulo
A vida e a obra de Paulo Leminski e Alice Ruiz também vai virar filme. Ou melhor, dois filmes. Segundo o produtor João Pedro Albuquerque, são dois projetos, paralelos e complementares, chamados provisoriamente de "Alice e Paulo". "Representarão toda a pulsação criativa destes poetas", adianta. Ambos em fase de captação serão lançados em 2014, de acordo com o produtor.

O longa, dirigido por Gustavo Tissot, vai retratar a vida e o amor do casal. "Uma incrível jornada de dois jovens que se conheceram e se apaixonaram em Curitiba, em 1968, e fizeram história em uma geração de contestação cultural", diz.

Em paralelo, ele conta que está sendo produzido um documentário sobre a vida e a obra dos dois poetas, dirigido por Oscar Rodrigues Alvez. "Trará diversas entrevistas e imagens reais da vida e construção da obra deles".

Para Estrela, o objetivo central de tantos projetos é preencher uma lacuna. "As pessoas hoje conhecem muitas coisas pela web, mas perdem o todo do autor, como o meu pai é múltiplo, sinto que há um buraco de informações".

quinta-feira, 6 de junho de 2013

MAYSA


VIVA ELA!!!!!


Hoje Maysa Matarazzo faria 77 anos. Buscamos alguns links que trazem um vasto acervo sobre a cantora. Clique nos links abaixo e confira:

1* Blog dedicado a Maysa: http://maysamonjardimoficial.blogspot.com.br/

2* http://youtu.be/ZZEQ0DQeLnw

3* http://migre.me/eTPwX

4* http://youtu.be/6rcO6N4ui_A

5 * http://youtu.be/IWH0djazLGg




Estupro fictício

Ódio de todos os tipos é destilado em curtidas no FacebookPor trás da máscara do humor, multiplicam-se páginas no Facebook que propagam ofensas contra mulheres, de cunho racial e pedófilo. Retirada de conteúdo demanda mobilização

Publicação: 06/06/2013 

Aline Valek provocou reações na rede social com texto sobre estupro fictício (Marcos Felipe/Divulgação)
Aline Valek provocou reações na rede social com texto sobre estupro fictício
"Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. (...) Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu.” O texto é fictício, mas como bem lembrou a autora dessas palavras, a redatora e escritora Aline Valek (alinevalek.com.br), de 26 anos, ela não foi, mas certamente outras mulheres foram. Em cinco anos, o registro de estupros aumentou 168% no Brasil, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Diante desse número alarmante, que representa barbaridades comparadas às últimas ocorridas na Índia, qualquer conteúdo que reforce e propague a cultura do estupro tem sido combatido. Por trás da máscara do anonimato, diversas pessoas tëm cultuado o discurso do ódio misógino (aquele que tem aversão às mulheres) na internet. Em pesquisa feita pelo Informátic@ no Facebook, rede social mais popular do mundo, não foi difícil encontrar páginas com este tipo de conteúdo .

Valek lembra que há sempre quem diga que é só uma piada, quando aparece alguém para acusar de misoginia uma fan page de humor no Face. Mas ela lembra que essas brincadeiras não surgem do nada, aparecem no contexto de uma sociedade extremamente machista e violenta contra as mulheres. Para ela, as páginas misóginas ensinam que mulher não é exatamente um ser humano, e que por isso tudo bem em agredi-la ou violentá-la. “É uma noção de desumanização das mulheres que vai sendo construída tijolinho por tijolinho. Cada ‘piada’ dessas legitima a ação do cara que matou a ex, do que abusou da mulher que estava bêbada porque ela era incapaz de consentir, ou daquele que forçou sexo com uma garota porque ela estava de saia curta e só podia estar pedindo por isso”, destaca. 

'Em alguns casos, é feita pressão contra páginas que tem viés machista, seja por meio de ameaça de corte de patrocínio, seja por meio de diálogo para o conteúdo do site se tornar menos problemático'', Cynthia Semíramis, doutoranda em direito na Universidade Federal de Minas Gerais e blogueira feminista (Tulio Vianna/Divulgação)
"Em alguns casos, é feita pressão contra páginas que tem viés machista, seja por meio de ameaça de corte de patrocínio, seja por meio de diálogo para o conteúdo do site se tornar menos problemático'', Cynthia Semíramis, doutoranda em direito na Universidade Federal de Minas Gerais e blogueira feminista
ENDOSSO DO CONTEÚDO
Cynthia Semíramis, de 37 anos, doutoranda em direito na Universidade Federal de Minas Gerais e blogueira feminista (http://cynthiasemiramis.org), faz parte do movimento que combate o sexismo. Segundo ela, há uma grande preocupação em não propagar discursos de ódio, não só contra mulheres, mas também contra homossexuais e transexuais e aqueles que incentivem a exploração sexual ou abuso e estupro de crianças. “Em alguns casos, é feita pressão contra páginas que têm viés machista, seja por meio de ameaça de corte de patrocínio, seja por meio de diálogo para o conteúdo do site se tornar menos problemático”, explica. Além disso, as blogueiras produzem conteúdo antidiscriminação. 

Muitas páginas com conteúdos questionáveis se descrevem como páginas de humor negro. Para ela, não se pode confundir humor com perpetuação de preconceitos e de relações de poder. “Esse tipo de humor reforça a relação de poder que condena grupos à inferioridade”, explica. A liberdade de expressão até então defendida por Zuckerberg como argumento principal para permitir que esses conteúdos fiquem on-line é bastante limitada. Afinal, a empresa bloqueia fotos de mães amamentando e da Marcha das Vadias porque os seios estão expostos, mas permitiu a livre circulação de um vídeo de uma mulher sendo decapitada. A blogueira lembra que os avaliadores identificam as imagens como erotismo por não compreenderem seu contexto. A própria Semíramis teve a conta bloqueada durante vários dias porque o Facebook “entendeu” que ela não era ela mesma. Foi preciso enviar um e-mail com cópia da identidade para a empresa comprovar sua situação. 

“O Facebook, ao manter a mensagem, acaba por endossá-la também”, afirma a doutoranda, explicando que é responsabilidade da empresa impedir a circulação da cultura ao ódio. Semíramis espera que o Face entenda que suas ações podem tanto estimular quanto cercear o preconceito. “Se querem cercear, precisam ser mais ativos e treinar bem sua equipe para avaliar o conteúdo que é denunciado. O problema é que muitas vezes olham somente as fotos, mas não reconhecem os escritos que acompanham as imagens como conteúdo misógino ou homofóbico”, explica. Segundo ela, as mudanças no site surgiram por pressão de grupos feministas, nem que seja por meio de boicote aos anunciantes do Facebook. “É uma luta que já tem alguns anos, mas só agora vem colhendo frutos”, diz.

ENGAJAMENTO VIRTUAL

Ao lado de Rita Candeu, aposentada de 60 anos, a fotógrafa Patty Kirsche (pattykirsche.blogspot.com.br) mantém o blog Cultura do estupro (culturadoestupro.blogspot.com.br), que denuncia conteúdos que afrontam os direitos humanos na rede. Ela explica que é preciso um movimento intenso de denúncias para conseguir remover uma página, por mais explícita que ela seja. “Conseguimos algum sucesso, mas não sem antes denunciar milhares de vezes no Facebook, aos órgãos oficiais como Ministério Público e Polícia Federal”, explica Candeu. E mesmo assim várias vezes as páginas voltam. 

Kirsche afirma que a rede social contradiz suas próprias diretrizes oficiais. “Mulheres em posição de controle, expondo o corpo em protesto ou num trabalho artístico são consideradas ofensivas. Entretanto, corpo feminino como objeto sexual para o entretenimento masculino é entendido como ‘adequado’”, argumenta. Ela lembra que no site da Safernet, organização que promove os direitos humanos na internet, não consta a opção “misognia” ou “machismo” para classificar o material denunciado. “Isso é um reflexo da naturalização da discriminação por gênero. A prática deve ser criminalizada a fim de forçar mudanças efetivas nas visões da sociedade”, afirma. 

Candeu concorda com a parceira e diz que a política é a mais controversa que se possa imaginar. Ela denunciou uma postagem que incitava a pedofilia e recebeu uma resposta do Facebook sugerindo pedir ao dono da montagem para retirar o conteúdo ou bloquear o perfil. Enquanto isso, obras de arte como o Davi de Michelangelo e a imagem da tatuagem do colo de uma mulher que venceu o câncer de mama são removidas do site.