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terça-feira, 2 de julho de 2013

não deu



DADO
Não deu. Não sei exatamente por quê, mas não deu. Não sei se foi impossibilidade minha, impossibilidade exclusivamente pessoal, medo de me atirar e pronto. Não sei se foi impossibilidade de jogar, rolaram tantas coisas! impossibilidade histórica e ponto. Não sei se foi metafísica – a Impossibilidade. Não havia cartada decisiva. A manga estava vazia. (Como vazia está a praça, a página.) O fato é que não deu. E podia ter dado.

Tudo doi - Gal Costa -


ESSA TAL FELICIDADE

em geral por  em 27 de jul de 2012 

Qual o objetivo da vida humana? Alguém sabe? A resposta pode variar bastante, segundo a crença de quem tentar responder, mas isso só significa que ninguém, mas "ninguém mesmo", sabe ao certo a resposta. No entanto, a mais improvável, porém a mais aceita, por ser a mais consoladora de todas, é de que nós estamos neste mundo para ser felizes! Uma falácia, obviamente, diante dos muitos que já partiram tão ou mais infelizes do que aqui chegaram, e dos que ainda sofrem nesse "mundo de meu Deus".

Dúvida no ar.jpg

A teoria de que "o Universo conspira para realizar a felicidade do ser humano" é uma falácia. Apesar de extremamente "otimista", não passa de uma falácia. A Filosofia tem sua parcela de culpa nessa história – ela inculcou no homem (desde os antigos gregos) a ideia falaciosa de que ele "existe para ser feliz" (a mãe de todas as falácias). A Religião (coitadinha!), percebendo a dificuldade (leia-se: "impossibilidade") do homem ser feliz aqui na Terra, inventou extra-mundos, nos quais a tal "Felicidade" estaria de braços abertos (lembra o Cristo Redentor, não é?), esperando por seu ilustres convidados, onde haveria moradas para todos ("os escolhidos", é claro). Vemos, hoje em dia, a Ciência (olhem, vejam só quem!!!), que luta, há séculos, com a Filosofia e a Religião, pelo monopólio da "Verdade", prometendo viagens para outros planetas, outras galáxias, e sabe Deus lá para onde mais, lugares inóspitos, nos quais, incontestavelmente, a "Dona Felicidade" deve morar.

O que vem a ser isso – a Felicidade? (tão kantiano isso, não?). Alguma coisa que, como num jogo de "esconde-acha" criado por Deus, uns têm a sorte de encontrá-la, enquanto outros, a maioria (e põe maioria nisso!!!), jamais sequer passam por perto (sabem aquele negócio do "tá frio, muito muito frio, congelado", sabem?)?; seria mesmo uma mercadoria existencial que só o dinheiro pode comprar, mas que o comprador não pode levar consigo, só pode ir usando, usando, até morrer?; seria uma espécie de prêmio de consolação pelos esforços envidados numa existência que,  não importa quão virtuosa tenha sido, se extingue com uma bala perdida, na ponta de uma faca de um marginal, por uma doença fatal ou pela velhice inexorável? Alguém tem resposta? Ei, alguém aí tem uma só resposta qualquer?

Diz um ditado que "vida boa é a dos outros". Então, vamos perguntar aos outros: "Ei, meu amigo, diga lá, sua vida é mesmo boa? Você é feliz?". Só os grandes mentirosos responderão "SIM!" a estas perguntas (ah, só, não! tem ainda os "iludidos de carteirinha" e os "otimistas graças a Deus"). Sabem aquela coisa do dia-a-dia? Você pergunta: "E aí, Fulano, comé que tá?". Aí ele responde, sem nem pestanejar: "Tudo bem!". Podem crer que quem responde assim não faz nem ideia do que sejam essas duas palavrinhas que acabou de pronunciar: "tudo" e "bem" (como eu sei que muitos de vocês respondem assim, sigam meu conselho e, ao invés de "Tudo bem!", vão respondendo aí "Tá dando pra levar!"; vocês vão ver que não muda nada, mas faz toda a diferença, se é que dá pra me entender, pô!). O fato é que "Felicidade", felicidade mesmo, é que nem a "morte" – quem alcançou não veio dizer como é que é.

Agora, falando sério. O que a humanidade aprendeu até aqui que lhe possa ser útil para alcançar a tão sonhada "Felicidade"? Nós somos melhores que os homens das cavernas? Ou nossa barbárie tem apenas requintes de pós-modernidade? A Filosofia de Sócrates, Platão e, principalmente, Aristóteles (que impregnou boa parte do pensamento e do conhecimento ocidental todos esses séculos) nos ofereceu alguma via eficaz para a conquista da "filosófica e virtuosa felicidade" tematizada por eles? ou todo o nosso conhecimento e raciocínio lógico herdados só nos fornecem maneiras "inteligentíssimas" de nos desculparmos por nossa incompetência em melhorar a qualidade do ser humano e as condições de vida sobre este planeta?

As religiões, individualmente ou em seu conjunto, nos forneceram até agora alguma coisa efetiva, real e concreta, que possa dar testemunho de que o homem e a vida sobre a Terra são de fato "o projeto magnânimo de felicidade" de um Deus (ou deuses) perfeito, bom e justo? Ou só encontrou maneiras de empregar padres pedófilos, profetas de um fim-de-mundo que nunca chega, místicos prestidigitadores e pastores corretores de moradias celestiais, das quais não se tem sequer a planta?

A Ciência, além de clonar ovelhas, fertilizar casais estéreis, proporcionar a escolha do sexo dos filhos, produzir bombas de extermínio em massa, etc e etc, foi até o atual momento da humanidade capaz de destrinchar o "genoma da felicidade", para o bem dos homens em geral? Ou apenas vive "afirmando isto" e "desmentindo aquilo", para depois de alguns anos "desmentir isto" e "afirmar aquilo"? A despeito dessas verdades aqui elencadas, a busca pela "ultra-utópica felicidade" não tem fim. O "otimismo" se renova a cada dia, a cada nova infinitesimal possibilidade de alcançar o até aqui inalcançável.

Vivemos um momento em que livros rotulados de "auto-ajuda", que são uma mistura de Prozac, droga psicodélica e "injeção de ânimo", para os que não sabem como seguir a jornada "em busca da felicidade", se misturam nas prateleiras das livrarias, mundo afora, aos "bons livros", que não foram escritos para ajudar ninguém, mas são como boas sementes que, caindo em solo fértil, se tornam árvores frutíferas da melhor qualidade; mas quem há de comer seus frutos, se o primeiro e principal deles – a maçã do "Paraíso Perdido" (tão miltoniano isso, não?) causou todo esse estrago no mundo? (Eu, hein!!!).

"Enquanto a Dona Felicidade não vem", vivemos a era do espetáculo, da busca frenética pelos famosos "15 minutos de fama", do showbizz, do mundo da "espiadinha" e da baixaria dos BBBs, Casas dos Artistas e Fazendas. Vivemos o apogeu da nossa mediocridade e ignorância. Felicidade que seja "Felicidade" mesmo, isto é, felicidade que se preza, não ia nem dar as caras por aqui, não é mesmo?


/cronicas-artigos/essa-tal-felicidade-4474027.html

BEM E MAL: OS PRECONCEITOS DA MORALINA CRISTÃ


em geral por  em 24 de jan de 2012 
O filósofo Friedrich W. Nietzsche, em sua obra, "Para além do bem e do mal", apresenta-nos um contraponto à moral vigente em sua época (não tão distante da que temos até hoje, em pleno século XXI). A partir daí, surge uma análise sobre o bem e o mal que possa chegar a conclusões filosoficamente mais lógicas e humanamente mais prováveis.
Figura e Sombra.jpg
Uma das ideias mais combatidas na obra de Friedrich Nietzsche é, sem dúvida, a noção do “dever” – tanto no sentido kantiano, quanto como dogma cristão (se é que há alguma diferença entre ambos!). O “imperativo categórico” elaborado por Immanuel Kant (1724 – 1804), filósofo também alemão, do século XVIII, para Nietzsche, não passa de disfarce ou reelaboração dos mandamentos cristãos, de forma sucinta: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo; não matarás; não levantarás falso testemunho, etc, etc. A elaboração kantiana da “ação livre por dever” soa aos ouvidos do homem-dinamite como absoluta insensatez e absurdo. Para um filósofo que se mostrou contrário à metafísica deveria ser vergonhoso “cair nas malhas do velho Deus cristão”, assim pensava o destruidor de todos os valores.
Nietzsche denuncia que todas as tentativas dos filósofos nos últimos séculos de fundar uma ética foram simples remendos e arremedos de platonismo e cristianismo. As concepções de “bem” e de “mal” de dada cultura são sub-produtos de uma avaliação – mas de que perspectiva partem essas avaliações? A resposta nietzschiana é que, partindo do pressuposto de que a moral vigente é peso e medida para a valoração, bem e mal aí não passam de “pré-conceitos”, tendo como perspectiva algum ser metafísico, extra-mundano - um juiz da História que não pertencesse a ela. Mas Nietzsche insiste em sua obra "Para além do bem e do mal" (1886) que, para a natureza (no que diz respeito ao ser humano), há espiritualidade, necessidade e utilidade tanto num princípio quanto noutro. O que significa dizer que tomar um, a saber: o bem, como próprio das coisas naturais, e sentenciar que o outro, o mal, seria antinatural, ou pior, de "outra natureza" é, no sentido da "verdadeira" moral (aquela não maculada pelas justificações extra-mundanas),um ato preconceituoso, e, no sentido filosófico, falta de senso lógico.

“A moral tirou a inocência do mundo e a metafísica se constitui em verdade” – é o que diz Mauro Araújo de Sousa, em seu prefácio a “Para além do bem e do mal”, e segue citando o próprio Nietzsche: “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esquecem que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”.
O platonismo condenou o mundo sensível à pura aparência, à inutilidade, à vulgaridade; inventou o mundo das idéias, um “mundo ideal” - quer dizer, “real” - para Nietzsche, no entanto, tudo isso não passa de divagação metafísica, devaneios platônicos, desatino. O cristianismo soube apoderar-se de “tão elevada filosofia” e montar, a partir dela, seu próprio sistema ético-filosófico – sobre isso entendem muito bem Agostinho e Tomás de Aquino, filósofos cristãos (como se fosse possível ser cristão e filósofo ao mesmo tempo, diria Nietzsche). O mundo natural, a vida sobre a Terra, desde então só serviu de escárnio e pilhéria para tais filósofos, santos e deuses de toda a espécie. Qualquer extra-mundo é melhor que aqui, eis a “grande avaliação universal”.
Quando Nietzsche expôs seu pensamento em “Para além do bem e do mal – Prelúdio de uma filosofia do futuro”, ele já havia escrito dois outros livros fundamentais para seu projeto de apresentar ao mundo a necessidade de uma transvaloração dos valores. Em “A Gaia Ciência” (1882), ele nos sai com: “A piedade é o sentimento mais agradável para aqueles que são pouco orgulhosos e que não têm possibilidades de fazer grandes conquistas: a presa fácil – qualquer ser sofredor é presa fácil - é coisa que os encanta”; e em “Assim falou Zaratustra” (1884), sentencia: “Bem e mal, prazer e dor, eu e tu – tudo parecia-me colorida fumaça diante de olhos criadores. Queria o Criador desviar o olhar de si mesmo – e, então, criou o mundo”. Faltava ainda “O Anticristo”(1888), talvez para dar o desfecho final contra o demasiado tempo da moral cristã, mas esse só seria publicado postumamente. Na introdução a “Para além do bem e do mal”, Mauro Araújo de Sousa esclarece: “(...) o filósofo elabora uma crítica cultural utilizando o seu perspectivismo para abordagem, em vários aspectos, da formação do espírito no Ocidente, sempre tendo em vista reverter o quadro valorativo estabelecido pelo platonismo e sua metafísica. Também, o que é destaque na obra, é a questão dos “filósofos do futuro”, estabelecedores de novas condições culturais. Denomina esses filósofos como aqueles que são capazes de tentativas, de experimentos consigo mesmos e que, por não serem dogmáticos e nem se prenderem a nada, conseguem a liberdade do espírito. Esses filósofos do futuro seriam eles próprios os seus criadores, estando, por isso, além do bem e do mal, esse vício dualístico da “moralina cristã”.”
Enfim, tomando o filósofo do martelo como arauto da "verdadeira moral", isenta de preconceitos metafísicos, religiosos e pseudo-sacros, chegamos à conclusão de que estar para além do bem e do mal é criar novos valores não sobre os escombros dos antigos, mas sobre novos alicerces "demasiadamente humanos", e abandonar o temor e o preconceito de sermos "bons" ou "maus", pois ambos são parte da nossa própria natureza. Soltemos, pois, as amarras, porque a liberdade é galardão maior que todos os tesouros extra-mundanos da decadente moralina cristã.

Artigo da autoria de Jaya Hari Das.
"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo.".
Saiba como fazer parte da obvious.

http://lounge.obviousmag.org/alfarrabios/2012/01/bem-e-mal-os-preconceitos-da-moralina-crista.html

domingo, 30 de junho de 2013

LA DOLCE VITA: O SUICÍDIO DA CONSCIÊNCIA






Nei Duclós

São misteriosos os caminhos percorridos por uma obra de arte em nossa vida. Somos o que somos porque nos impregnamos dos grandes autores, ou apenas nos identificamos com eles? Fomos formatados pelo que nos mostraram ou temos nossa contribuição autônoma, herdada ou elaborada, de princípios, certezas, hábitos, percepções que definem nosso perfil? Faço essas perguntas depois de rever La Dolce Vita (1960), de Federico Fellini, que encaro com um romance literário via narrativa cinematográfica e que versa sobre o suicídio da consciência, em que um protagonista, interpretado por Marcello Mastroiani, vive o vazio de uma rotina de jornalista de fofocas que desiste da carreira de escritor e acaba publicitário.

O desfecho do filme é revelador. A turma dos madrugadores aporta numa praia onde está sendo recolhido um monstro marinho, uma arraia morta há três dias, que mantém um olhar onívoro, que devora todos ao redor. Marcello rodeia o bicho e não consegue escapar daquele olhar, que é a sua consciência morta ainda encarando o que fez da sua vocação. Ele se afasta do grupo e enxerga ao longe a garota que conheceu no dia em que tentou escrever seu romance. Retrato da inocência e da pureza, a menina veste luto sobre a branca areia e tenta lhe dizer alguma coisa, mas Marcello está impermeável, já fez sua escolha. Então ele se retira e a moça é filmada em seu esplendor de vida nova e nos olha como denúncia e conivência.

Ficamos firmes em nossa vocação porque não quisemos ser aquele pobre profissional romano que circula por vários ambientes humanos com seu tédio e sua falta de escrúpulos? Sabíamos do perigo antes de ver este filme primoroso? Acredito que Fellini e tantos outros nos criaram e nos decidimos pela arte, embora tenhamos também cedido diante dos perigos da sobrevivência. A obra de arte é sempre um parâmetro e a ela retornamos para entendermos melhor o que se passa conosco. Eu tinha esquecido quase tudo do filme, foi como ver pela primeira vez, mas senti que faço parte dele. Lembrava apenas algumas cenas, como o célebre banho de Anita Ekberg na Fontana de Trevi, ou o impacto da notícia da morte da família no assédio dos paparazzi sofrido pela viúva que ainda não sabia da morte do marido e filhos.

Vejo o filme como um romance (que contou, no script de Fellini, com seus colaboradores habituais, como Ennio Flaiano eTullio Pinelli) com capítulos bem definidos numa cidade entregue ao fetichismo religioso e da indústria do espetáculo (o que às vezes se confunde, como na cena da igreja em que Marcello ouve o amigo Steiner, interpretado por Alain Cunny, tentar jazz no órgão). A visita da estrela clone de Marilyn Monroe com sua estupidez assessorada, seus arroubos megalomaníacos, sua manipulação dos homens, é uma crônica cruel de costumes da Sétima Arte comercial e do jornalismo de entretenimento. Fellini é radical e não deixa pedra sobre pedra. A surra do tarzã Lex Baker na mulher que passou a noite fora com Marcello, que também apanha, é o final desse capítulo primoroso e inesquecível, que praticamente diz tudo sobre o vazio das vidas cooptadas para a exposição milionária de egos.

Um capítulo que me chamou a atenção pela coincidência com outro filme de Fellini, Oito e Meio, de 1963, foi a do casal de crianças que viram Nossa Senhora. Está tudo lá: as estruturas enormes de ferro num descampado com suas luzes feéricas, a loucura coletiva em torno de uma miragem, o rodopiar perdido do protagonista que participa da cena com sua indiferença criminosa. Há a destruição pela chuva e pelo vento e a apoteoso da multidão que corre como louca num cenário de ruínas.

A relação de Marcello com a namorada louca, suicida e ciumenta Emma, interpretada por Yvonne Furneaux, é um drama de excessos que mergulha num intimismo de brutalidades, onde se diz tudo e as pessoas saem machucadas e incapazes de se separar. É um capítulo que se desenrola ao longo do filme e se contrapõe, por se circunscrever ao círculo do casal, ao ruidoso desfilar de personagens bizarros, todos tirados de uma elite absurda, perdida, decadente e mortal. A porção do filme rodada num castelo onde se caçam fantasmas na festa patética, mostra o que foi feito de um poder tradicional e aristocrático que se esvaiu diante da imposição da economia invasiva americana do pós guerra.

Steiner, o amigo de Marcello, é seu modelo de dedicação à família, de concentração e sobriedade, avesso à roda viva em que está metido. Mas é uma ilusão. O próprio Steiner avisa que não é feliz e que preferia se desperdiçar numa vida sem compromissos do que se reduzir a uma cela doméstica. O assassinato dos filhos seguido de suicídio é a prova de que aquela casa tão cheia de talentos o tempo todo, de festa entre intelectuais e artistas, era tão vazia quanto a reunião de nobres falidos ou estrelas do jornalismo e do cinema.

A salvação de Marcello não estava nos outros, mas em si. Ele não teve coragem de encarar essa verdade e entregou-se para o pior dos mundos, a mentira da publicidade, onde se transforma num bruto manipulador de pessoas, um execrável personagem da noite romana. Teve sua chance quando tentou entregar-se ao seu verdadeiro ofício, o talento que no fim abandonou. Preferiu que sua consciência se suicidasse por preguiça e covardia. Eis a lição profunda do Mestre Federico Fellini, insubstituível na sua obra que colocou o cinema no mais alto nível da arte humana.

Ninguém se compara a ele hoje. O remédio é revisitá-lo para redescobrir o que precisamos. Revendo grandes filmes como este, podemos nos conhecer melhor e encarar a vida com menos dor e mais vontade de acertar.



http://outubro.blogspot.com/





sábado, 29 de junho de 2013

Na Estrada


Totó, acho que não estamos mais no Kansas.






Então, tem dias que choro. São raros e eu mesma me estranho e às vezes vou ao espelho espiar como quem se debruça na janela para ver a aurora boreal. É raro, insólito e, dentro de certos padrões estéticos, é belo. Porque eu acho bonito o sentir. Uma vez eu disse por aqui que queria um coração partido. Pois quando dizemos do que nos dói dizemos de nós e isso nos faz mais humanos*. Porque ser humano é faltar. Então, em prece: um coração. Se estiver partido, recebo. Quero um coração pra batucar esperanças vãs no meu peito. Quero um coração pra sentir inúteis saudades. Quero um coração pra bater em desalentada espera. Um coração com rimas, pobres ou ricas, mas poeta. Um coração pra sentir um grande amor. E pra ver o tal amor acabar. Um coração que se pergunte: pra onde vai o meu amor, quando o amor acaba?

Procuro, sabe. Porque tem dias que é bem difícil seguir. Porque tem dias que eu me pergunto por quê? e não gosto; mas ainda mais difícil é perguntar por que não? Porque não ser gentil? Porque não ser delicado? Porque não generosidades e risos e solicitude? Porque não podemos ser um tantinho menos e deixar o outro ser mais, se sermos menos não nos faz menores e sim maiores? Porque não agradar, ajudar, acolher? Então, como uma vez já escrevi aqui, procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Minhas pequenas pedras amarelas. Uma a uma, reconstruo a estrada que servirá aos sapatinhos vermelhos que trago no pensar. Eu choro, mas não só: enterneço-me, alegro-me, angustio-me, vibro, encanto-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Eu já tive medo do escrever. Palavras tem um poder que não acaba nelas mesmas, mas ressoam nos vazios entre as linhas, nos furos das letras, no intervalo entre parágrafos. Nos olhos alheios. Hoje, aceito: palavras se amontoam em uma pira onde queimam os futuros. Eu ardo. Mas há músicas e incenso em um ritual que se repete de eu ser eu há muito tempo.

O bom, o belo, o justo. Minhas pedras amarelas, uma a uma eu as coleciono, organizo, zelo. Um Caravaggio, belo. Uma ária de Tosca, belo. Um aboio no fim da tarde, belo. Crianças brincando, riso solto, alguém ajudando o idoso a atravessar a rua: o bom. Ter um afeto especial por tratar diferente os diferentes. Coisinhas que empilho em dourado. Tijolos amarelos, meu Oz particular. Tenho gostos. Estes mimos que põem fogo no olhar. E sou grata. Por cada pequena alegria. Porque me cuidam. Porque há tantos momentos que não são aquele. Porque há muitos dias que não são esse. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso que escuto pela janela, tão límpido, sem sexo, idade, sem rosto. Apenas um som que me atravessa. Me atravessa sem que eu julgue origem, classe, sexo. É bom. É belo. Sou grata. Porque agorinha mesmo há algum pai fazendo cafuné para que o filho durma. Porque há casais fazendo sexo. Há crianças usando estilingues em pássaros imaginários, há gente jogando dama nas praças, há aniversários, partos, amigos em bares, aulas, um arco-íris onde antes era chuva. Sou grata porque em algum lugar há dança. Sou grata porque há tanto e tanto que eu quase não sou, tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Outro tijolo. E amarelo. Porque o humano pode ser em ternuras, eu sei, eu sussurro antes de dormir. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. E é assim, esse dia, cada dia, um dia qualquer. Trago meus sapatinhos vermelhos. E construo estradas com tijolos amarelos. Pé ante pé: o bom, o belo, o justo. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Foi como chuva. Ávida, eu ouvi. E as lágrimas foram, por um momento, não de desalento, mas de reconhecimento. Ainda está aqui, ainda está em mim. Humanidade. Mais uma pedra. Amarela, por favor.


*não é doer que nos faz humanos, creio, mas o que nos dói fala de nós, do nosso jeito, do nosso estilo, e poder enunciar o que nos faz únicos, isso é, pra mim, a nossa humanidade.


http://borboletasnosolhos.blogspot.pt/2011/08/na-estrada.html


Just Friends - Bobby Darin


Sad realization....

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A EMBRIAGUEZ DO PERFUME DAS PALAVRAS DE MANOEL DE BARROS

em artes e ideias por  em 27 de jun de 2013
O escritor sul-mato-grossense Manoel de Barros, ultrapassa a esfera pragmática do escrever, desmembrando a ''ciência exata'' do saber, transformando a mesma em algo divino, que exalta o abstrato como algo concreto, que eleva o cotidiano e a sutileza das coisas para um outro nível. Manoel de Barros entende que a rã, a borboleta, a árvore, a terra, o pássaro, são artefatos divinos, ao passo que merecem importância como parte fundamental da existência do ser humano.

Manoel-de-Barros (2 boa).jpg
Manoel de Barros, poeta brasileiro contemporâneo, tem um parentesco fortíssimo com a simplicidade, ele é rigoroso - ainda que simplista - com a profundidade das palavras, escolhe com minúcia suas perspectivas metalinguísticas. Indo além das suas significâncias, a poesia de Manoel de Barros rompe com a dureza semântica, e, por vezes, fala da vida como tempos de infância vitalícia. A fala de Manoel de Barros nos transporta, como se pertencêssemos quase nada aos significados legítimos-oficias das coisas-palavras. Manoel de Barros é pouco rigoroso com a estrutura prosaica da escrita, muito fiel a puerilidade, pureza e sentido íntimo das coisas, como se a oralidade das frases fosse sim seu verdadeiro significado. Manoel de Barros assume que, até hoje, só teve infância, e é realmente fiel a esse discurso, escrevendo sobre as “inutilezas'' e delírios de uma vida irreverente.
Se tratando do desmembramento das palavras, sem soar pretensioso, analiso a escrita do Manoel de Barros, podendo entender que ele tem a intenção de desassociar os significados legítimos das palavras, e transporta-las para um universo lúdico, onde tudo é reconstruído através da simplicidade e de seu caráter poético. A poética manoelina consiste nas inverdades, na liberdade plena dos significados, na ''supra-linguagem'', na inovação estrutural da escrita, ora por reinventar seus significados, ora por transportar o leitor para um lugar - por falta de prática e exercício - pouco revisitado.
Falar do Manoel de Barros sem instigar o potencial da minha e da sua imaginação, seria uma afronta, é como recorrer ao dicionário única e exclusivamente para fazer o conhecimento findar, e não usando o ''hipervisor'' das palavras-inventadas. A grandeza dele se dá ao fato de reconhecer o intercâmbio entre todos os sentidos que uma palavra comporta. Manoel seria um artesão linguístico, ele molda frases como quem fabrica, com suas próprias mãos sujas, um vaso de cerâmica.
O que mais me encanta no Manoel (com toda licença para a intimidade do gesto) é que ele representa a construção genuína da arte literária, onde se recusa a realidade a olho nu, e a transforma em algo penoso (sim, moldar palavras é um trabalho de carpinteiro, quase que um processo criativo braçal) que excluí o mundo tal como vemos, e exalta o mundo que deixamos passar despercebido, o mundo de dentro para fora.
''O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio''
No fragmento acima, Manoel de Barros sintetiza o que tento, de maneira pouco imparcial, concluir. É a exaltação da grandeza do gesto, dos gostos, das cores, das texturas. É a importância que se dá a coisa em si, e a relação que se tem com a coisa, não o significado oficial, dito e desdito todos os dias. É a infantilização dos sentidos, visto que uma criança, embebida por sua pureza, reconhece a grandeza do que se vê, e não do que se sabe por convenção.
Termino dizendo que Manoel de Barros é o porta-voz das crianças, sem me ater ao padrão da idade, ele é porta-voz de todo ser humano que abdica, ainda que apenas um pouco, da seriedade mundana, e reconhece que a linguagem infantil é o saber mais consistente e genuíno de todos. O poeta do pantanal, é o poeta que grita a verdade escondida dentro de todos nós, que deixamos tímida, entre-escondida, dentro dos nossos olhos e devaneios sinceros. Deixemos nosso eu manoelino sair para passear mais vezes, sem dúvida a vida seria um tanto mais agradável.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

The Best Is Yet To Come - Frank Sinatra -


     The Best Is Yet To Come 


Songwriters: CAHN, SAMMY / VAN HEUSEN, JIMMY
Out of the tree of life, I just picked me a plum
You came along and everything started to hum
Still it's a real good bet, the best is yet to come

The best is yet to come, and wont that be fine
You think youve seen the sun, but you aint seen it shine

Wait till the warm-up is underway
Wait till out lips have met
Wait till you see that sunshine day
You aint seen nothin yet

The best is yet to come, and wont that be fine
The best is yet to come, come the day that your mine

Come the day that your mine
Im gonna teach you to fly
Weve only tasted the wine
Were gonna drain that cup dry

Wait till your charms are right, for the arms to surround
You think youve flown before, but you aint left the ground

Wait till you're locked in my embrace
Wait till I hold you near
Wait till you see that sunshine place
There aint nothin like it here

The best is yet to come, and wont that be fine
The best is yet to come, come the day that your mine

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Amor de passeata

POR xicosa

A onda de manifestações também deixa seus amores, seus quase amores, suas paqueras à espera de uma certa primavera, suas promessas de felicidade dispersadas à base da balas de borracha.
Amor de passeata pode durar apenas um beijo, amor de troco, amor tipo 20 centavos, amor de passeata é amor volúvel que pode durar apenas uma palavra de ordem, abaixo alguma coisa e pronto.
Amor de manifestante é amor de causa… Depois daquela noite cada um vai cuidar de salvar a própria pele em outra barricada.
Amor de passeata é o amor que conjuga o verbo ocupar no sentido mais amplo: eu te ocupo, tu me ocupas e nós ocupamos juntos o espaço sideral dos nossos sonhos, meu amor de  Barbarella.
Amor de passeata é do tipo toda forma de amar vale a pena, tipo assim o melhor cartaz contra o Feliciano: “meu cu é laico”.
A falta de uma causa bem definida também pode ser um bom motivo amoroso. A história como pano de fundo, mesmo em um triângulo que ocupa mais a banheira do que as ruas, a causa com bouquet de vinho francês, por que não? Viva Paris 68 no retrovisor dos passos da rapaziada de hoje.  Afinal de contas o amor por si já é uma puta bandeira e acaba empurrando para as ruas naturalmente -estou falando, evidentemente, do  filme que ilustra esse post, “Os Sonhadores”, do gênio Bernardo Bertolucci.
Amor de passeata também pode lembrar, caro Marechal, aquele maluco do “bloco do eu sozinho”, cá do Rio de Janeiro, cada um com o seu motivo de protesto em busca de um cordão de isolamento.
Amor de passeata é indecifrável como foi inicialmente a onda dos manifestos. Amor de passeata é rachado, porque meu partido é um coração partido, como disse o poeta do Baixo.
Pode ser anarco-punk o amor no meio do tumulto, faça você mesmo, não espere o movimento tomar corpo.
Duro é proteger a amada, a amante, no meio daquela nuvem de efeito moral e covardia fardada.
A passeata também é uma boa hora para dar um sacode naquele amor acomodado, aquele amor oficial que repete as práticas demodês, aquele amor ressentido, resquícios autoritários, aquele amor que gostava de política ainda no Collorgate.
Manifeste-se, Lola, contra esses tempos de homem frouxo, o homem de Ossanha, aquele do samba do Vinícius e do Baden, o cara do diz que vai-não-vou, eterno chove-não-molha.
Duro é amar de verdade, pois o amor, assim como o mar dos protestos, não tem uma pauta definida. Decifra-me ou me apavoro, ameixas, ame-as ou deixe-as, já avisou o cartaz do samurai-polaco.
Em compensação, quando vinga, o amor de passeata é por muito tempo… E o fim, um dia, quem sabe, será com as lágrimas sinceras do luto, vai lembrar que vocês se conheceram chorando gás lacrimogêneo.

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/