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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

No candomblé, é a gente que se supera


“No candomblé, é a gente que se supera, não tem que superar o outro” – Entrevista com Mãe Stella de Oxóssi


Publicado em 31/08/2007




Numa manhã de quarta-feira, entre uma consulta e outra, Mãe Stella de Oxóssi nos recebeu na casa de Xangô e falou sobre o sacerdócio, a história do candomblé baiano e do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. A conversa não pôde ser longa, porque, como sempre, uma fila de pessoas aguardava por seus conselhos. Ao seu lado, o inseparável pastor alemão. Iniciada na religião dos orixás há mais de 60 anos, Maria Stella Azevedo dos Santos é mesmo uma mulher singular. Assim como fizeram suas predecessoras no Afonjá, Mãe Stella mantém a tradição religiosa herdada da África com uma seriedade que faz desse terreiro um referencial para todo o candomblé. Uma tarefa que, garante ela, a absorve integralmente. A autora de livros, enfermeira e funcionária pública aposentada tem que dividir o seu tempo entre as atividades religiosas, as consultas e as solicitações de entrevistas, palestras e conferências em vários países. Com voz branda e uma fluência verbal invejável, ela revela a clareza e inteligência que a tornaram uma líder religiosa respeitada em todo o mundo. Mas, para as crianças do Afonjá, ela é apenas a “Tia Stella”.


por Agnes Mariano


AM – Nas comunidades religiosas nagôs, as mulheres têm um papel muito importante, diferente do que acontece em outras sociedades e outras organizações religiosas. Gostaria que a senhora falasse por que isso acontece. É uma tradição que veio da África? Em que a mulher é diferente do homem? Porque elas têm esse papel?

MÃE STELLA – Veja bem, eu vou falar do Brasil e da Bahia, de algumas casas onde o valor, a liderança feminina é maior. Isso se deve às pioneiras do candomblé no Brasil, três mulheres que depois da libertação tiveram condições de abrir uma casa para culto aos orixás. Elas é que formaram a primeira casa que se tem conhecimento da nação iorubá no Brasil, que seria a Casa Branca. Então, essa casa foi crescendo, fazendo muitos filhos e ficaram essas três senhoras como responsáveis. Daí vem o valor feminino, porque essa casa tinha a característica de não iniciar homens. Se não iniciava homens e todos eram do gênero feminino, é lógico que não podia ter homem na direção. Então, a casa foi crescendo e sempre quando a coisa cresce, às vezes acontece um racha, não é? Foi o que houve na ocasião de Maria Júlia, a senhora que fundou o Gantois. Quando fundaram o Gantois, a característica também era a de não ter homem como líder, como pai-de-santo da casa. Mas no Gantois não se impediu que os homens tivessem cargos que sobressaíssem. Homens podem ter cargo, só não podem sentar como pai-de-santo. Depois do Gantois, aconteceu com Mãe Aninha, que fundou essa casa (o Ilê Axé Opô Afonjá) e que também seguiu essa mesma norma, que homem não seria líder da casa de Xangô, que é aqui o São Gonçalo. Aqui também se iniciam homens, mas homens iniciados aqui ou no Gantois já sabem que não podem ser pais-de-santo na casa de origem. Mas como essas duas casas iniciam homens e sabe-se que todo mundo, depois de determinado tempo, quando está completamente pronto para o orixá, poderá assumir uma liderança, alguns desses homens fundaram as suas casas, tanto do Gantois quanto do São Gonçalo. Não é proibido ser pai-de-santo, mas dentro dessas casas, na liderança, somente mulheres. Como existem casas grandes… A casa de Dona Olga (o Alaketu) também, porque a primeira liderança lá foi feminina. É uma casa antiquíssima, mais antiga do que essa nossa. E as mulheres dessas casas foram lideranças fortes, que deixaram o nome na história, que produziram, trabalharam em prol da crença dos orixás, que viajavam, que faziam movimentos para a libertação do candomblé. Tiveram muita resistência. Então, sabe-se que, a princípio, essas casas só podem ter responsáveis do gênero feminino. E, diga-se de passagem, a liderança feminina no candomblé é uma coisa muito forte, porque a mãe é mulher. Por mais rude ou enérgica que ela seja, sempre tem aquela nuance feminina para determinados detalhes. E para falar a verdade, eu acho muito bonito uma mulher como mãe-de-santo. Não que o homem também não tenha o seu charme, mas acho que eu já me acostumei com isso, ver uma mãe-de-santo na liderança. O homem tem o valor dele, existem pais-de-santo competentes, verdadeiros. Podemos dizer que o candomblé, na atualidade, não é uma crença, uma religião só de negros, nem só de mulheres. Os orixás são simbolizados pelas forças naturais, que são os fenômenos da natureza, e são coisas que não têm sexo. O vento tem sexo? Qual é o sexo do vento? Apesar de simbolizar o orixá chamado Iansã, o espiritual não tem sexo, não tem raça, nada disso.

AM – A senhora foi iniciada muito cedo, com 13 anos. A senhora imaginava que ocuparia um cargo como esse, tão importante? E como a senhora experimentou isso na sua vida?

MS – As pessoas que entram para a crença dos orixás com fé, com consciência do que estão fazendo, elas têm o gosto, a vontade de servir o orixá, de fazer tudo em prol. Eu creio que raríssimas pessoas entram para o candomblé já com a pretensão de ser mãe-de-santo. Quem tem juízo não pensa assim. Porque aí não é uma coisa espiritual, passa a ser uma coisa de superação. No candomblé, é a gente que se supera, não tem que superar o outro, tem que superar a si próprio. Não tem que tentar superar o outro com essa questão de valores materiais, não tem nada disso. E eu nunca tive essa pretensão. A minha alegria era servir ao orixá e à minha mãe-de-santo, fazer as coisas dentro dos parâmetros certos. Mas, por isso ou aquilo, o orixá, por intermédio do Oluô, me escolheu como líder daqui. A substituição aqui é feita através do jogo de búzios. Como na Casa Branca, que também é através do jogo de búzios. Do Gantois, eu não posso dizer muito, porque sabe-se que é uma substituição familiar. Cada casa tem um uso.

AM – E sobre a casa, o terreiro, como a senhora define? Porque antropólogos, escritores, visitantes falam muitas coisas. É uma casa religiosa? Tem semelhanças com uma escola, uma universidade, uma casa terapêutica, onde as pessoas buscam cura? Como a senhora define o terreiro? É uma família?

MS – A princípio, todo terreiro é uma família, porque é a família espiritual. Nosso chefe, nosso patrono aqui é Xangô. Então, tudo aqui é feito com as bênçãos, as determinações de Xangô. Ele não vem e fala, mas, através dos búzios, de certas práticas, nós podemos contar com ele. Então tudo o que aqui é feito é por orientação espiritual de Xangô. E, como na vida, a comunidade axé é uma escola. Aqui a gente aprende o lado espiritual – e o espiritual apenas por si só é importante -, mas não é a única coisa que existe na sociedade, por isso temos o lado social. Temos o espiritual e o social. Então esse espaço que nós ocupamos é como se fosse uma pequena cidade. Uma cidade que já vem do tempo de Mãe Aninha, quando ela caracterizou aqui como a África, botando uma casa para cada orixá. Enquanto lá, cada orixá tem a sua tribo, a sua cidade, ela deu um espaço para cada um, onde eles têm seus rituais, em dias diferentes, separados, cada um seguindo os seus preceitos. E também a resistência maior da raça negra foi na religião, na crença dos orixás. Se não fosse assim, a mulher da crença nos orixás não teria essa auto-estima. O pessoal de candomblé tem auto-estima, o pessoal de candomblé se gosta, gosta de si próprio e, até por osmose, gosta do irmão, porque os que entram aqui estão todos sobre orientação de Xangô ou de Oxalá. São todos irmãos e a coisa mais normal do mundo é que um irmão goste do outro, com raras exceções, mas é normal na vida.

AM- Fale mais sobre essa resistência através da religião.

MS – Isso vem do tempo de Mãe Aninha, a fundadora, que naquela época de repressão procurou apoio até com o presidente da República e se integrou na Igreja Católica. Naquele tempo, ser da Igreja Católica era ter status, porque quem mandava era o branco e essa era a religião do branco. Daí foram fundadas as irmandades, como a do Rosário dos Homens Pretos, a Irmandade da Barroquinha e outras mais, onde a mulher negra podia fazer os seus cultos. Era proibido adorar os orixás. Quem era espiritualizado precisava encontrar qualquer coisa espiritual para se apegar e foi por isso que surgiu o sincretismo, quando se faziam as coisas meio mascaradas. Se adorava o orixá de uma forma velada, como se estivesse cantando para os santos. E o negócio foi tão seguro que, atualmente, nós já estamos livres, mas temos tido muito trabalho para o povo de orixá se conscientizar da importância do orixá, da força e da energia. O orixá é uma coisa independente de qualquer outra crença, como qualquer outra crença é independente do candomblé. Então, o bom e o bonito é que cada um se fixe na sua crença, nos seus símbolos, na sua energia e não precise se segurar no outro para mostrar potencialidade.

AM- A senhora tinha falado que, além da parte espiritual, existe a parte social do terreiro.

MS – Pois é. Aqui, além de cuidar da parte do orixá – que são as festas que você conhece, independente dos rituais internos que só cabem a nós -, a gente tem a parte social. Fundamos uma escola, num convênio com a prefeitura, que tem 300 crianças. As professoras fazem um serviço muito bom e que a prefeitura reconheceu, tanto que ela já passou a ser escola referência. É uma escola da rede pública e atendemos à lei que diz que a liberdade de culto deve existir. Ali não se ensina candomblé nem iniciações, mas muita coisa relacionada com a cultura africana iorubá. Nós não somos africanos, somos brasileiros, afro-brasileiros. É fanatismo dizer que somos africanos. Somos afro-brasileiros, descendentes de africanos. Então, alguma coisa da cultura africana é passada no colégio, mas nós não aceitamos apenas alunos e pessoas ligadas aos orixás. É um espaço aberto. Temos professores e alunos de outras religiões. Eles não estão aprendendo religião, porque religião não se impõe. Escola para religião é bobagem. O professor e o diretor do colégio têm que enfatizar a cultura deles, mas não se força religião. Fizeram isso com os negros, com os índios, mas isso é contra a humanidade.

AM – E vocês têm também o museu, a biblioteca, oficinas…

MS – É, estou falando da escola só para você entender como funciona. A diretora Marivalva está ali há 20 e alguns anos, desde quando funcionava nesse mesmo lugar uma creche, num convênio com outro órgão. Como este órgão foi responsável pela construção, compramos o prédio, mesmo sendo aqui dentro do terreiro, para poder ser nosso. Como a escola foi uma experiência boa – está sendo boa e será melhor, com fé em Deus – resolvemos fazer o museu, em 1983. Vera Felicidade foi a pessoa responsável, uma filha-de-santo nossa. Eu estava recentemente aqui no axé e fiz uma viagem à África, onde vi aquelas coisas todas. Aqui também eu via tantas coisas bonitas jogadas aí pelos cantos. Até que, conversando com Vera, ela tomou para a si a responsabilidade e criou o Museu Ohun Lailai. Temos uma biblioteca também, onde a responsável é Luzia Leal, uma bibliotecária aposentada. Todos aqui são voluntários. Luzia instalou a biblioteca, deu nome e está tomando conta. Nós recebemos doações: eu tinha a minha biblioteca particular, que doei toda, e muitas pessoas também têm doado muitos livros e ainda queremos mais. Temos também um grupo de estudos. Os responsáveis são Cléo Martins e Roberval Marinho. Principalmente esses dois estão à frente, que são os nossos filhos-de-santo pensadores. Ana Rúbia é nossa auxiliar, porque ela faz tudo aqui. Temos também um projeto com o Comunidade Solidária e o Unicef. A responsável é Tereza, outra filha-de-santo, que está fazendo várias oficinas para dar ocupação a essas crianças. Estamos todos preocupados com isso. Também fazemos aqui em casa seminários entre nós mesmos, de vez em quando, para bater papo. É daí que surgem coisas como o Festival Alaiandê Xirê, uma criação de Cléo e Roberval. Este foi o terceiro ano do Alaindê e está dando certo, fazendo sucesso, está repercutindo lá fora. Nós juntamos o lúdico com o espiritual e deu certo, tem tido muita aceitação das pessoas.

AM- Aqui no Afonjá os homens só podem exercer os cargos de obá, ogã, alabê e axogum?

MS – É. Tem outros mais, mas esses são os principais.

AM- A senhora tem idéia de quantas são as pessoas ligadas à casa, os iniciados, os filhos-de-santo?

MS – Isso é impossível, porque aqui é uma passarela, né? Nós temos efetivamente os feitos de santo, os iniciados, um grupo muito grande. Mas eu não sei o número. Temos também os visitantes, os clientes, pessoas que necessitam e vêm até aqui. Um grupo transitório, eles vão e voltam.

AM- Diariamente vêm pessoas aqui?

MS – Quase que diariamente. O meu dia de atender era quarta-feira, mas é tanta gente que vem… Fico com pena de ver as pessoas chegarem e voltar chorando. Eu aí atendo e isso até impede a minha vida social. Eu quase não faço mais nada a não ser trabalhar aqui dentro. Virei uma escrava. Mas a compensação é que a gente tem a sensação do dever cumprido, vê que conseguiu ajudar algumas pessoas. A gente não se julga onipotente, mas damos graças ao orixá por conseguir ajudar. Quando nada, o bem-estar. Muita gente vem aqui para nada também, porque gosta do espaço. Vem, senta-se aí, passa a tarde sentado nesse espaço e vai tranqüilo. Não toma um banho, não faz nada, só vem pelo axé. Deve ser o astral que é bom, não é? (Risos). Pronto, iaiá.


(06 de janeiro de 2001)


http://soteropolitanosculturaafro.wordpress.com/2007/08/31/entrevista-mae-stella-de-oxossi/

O amor não acaba





Vem, vai, aparece, se esconde, 
Como ondas do mar, te inunda,
Te arrasta às profundezas dos mistérios
E te devolve à praia do descanso...
O amor fica, depois do adeus,
Já faz parte de ti, é tua vida...
Vai te manter respirando,
Sonhando, desejando e querendo mais....

RS 09/04/13

domingo, 1 de setembro de 2013

sábado, 31 de agosto de 2013

Al ritmo del ‘Cali style’

Un centenar de escuelas, 5.000 bailarines profesionales... la salsa es un asunto serio en este rincón de Colombia


El nuevo filme de Chus Gutiérrez se inspira en esta revolución



Alumnos de una academia de salsa. / KIKE CALVO (CORBI












La cintura mulata de Melisa Dorado ya está acostumbrada a la ovación: consiguió que un estadounidense se colocara de pie, para aplaudirla, después de verla bailar. Que un japonés le tomara fotos casi con la misma devoción que un fanático lo haría frente a su estrella de rock favorita. Y que una reconocida bailarina puertorriqueña le preguntara cómo logra ella, Melisa, mulata caleña, doblar esa cintura con tanta rapidez y destreza, como si en vez de bailar lo suyo fuera un pacto de rumba con el mismísimo diablo.

Ella sonríe mientras lo cuenta. O lo recuerda. Esos episodios ocurrieron hace ya bastantes años, a comienzos de los ochenta. Melisa fue una de las primeras bailarinas profesionales de esta Cali pachangera —como tantas veces cantó el maestro Jairo Varela, fundador del Grupo Niche—, cuando todavía las escuelas de salsa no crecían silvestres, como hoy, en cualquier barrio.

Hoy se cuentan en 120 las que están legalmente establecidas y a las que caleños y extranjeros (unos 8.000 cada año, según la Secretaría de Cultura), acuden para intentar cogerle el paso a esa frenética manera de bailar que identifica a una ciudad que se levanta, altanera y gozona, sobre las faldas de una gran cordillera. Ese particular estilo, que se caracteriza por la acelerada velocidad con que se agitan los pies, ya se respeta: se conoce en los campeonatos internacionales como Cali style.

A nadie sorprende entonces que esta fama gozona haya despertado en la directora Chus Gutiérrez el interés por llevar a la gran pantalla una historia de amor contada al compás del Cali style. Y que su película, que realiza con la productora colombiana 64AFilms y será protagonizada por la caleña Carolina Ramírez y el español Julián Villagrán, se inspire enDelirio, un espectáculo en el que participan 600 bailarines de las mejores escuelas de salsa.


Bailarines colombianos bailan salsa en Cali, en una plantación de caña de azúcar. / KIKE CALVO (CORBIS)


Melissa Dorado, la bailarina cuya cintura ya está acostumbrada a la ovación, espera que la película,Ciudad Delirio, recree “más que una historia, el milagro social que ocurre en nuestros barrios, donde miles de muchachos aguardan por una oportunidad para brillar en el baile y construir su proyecto de vida; hoy muchos pueden vivir dignamente del oficio”. Es lo que espera también la propia Chus Gutiérrez. “Esta es una comedia romántica llena de colorido que hurga en la esencia de la salsa caleña, la que se goza en los barrios y que aparta a los chicos de las calles, de la violencia y las drogas”. Lo sabe bien Luis Eduardo Hernández, fundador de la Academia Swing Latino, la más premiada dentro y fuera de Colombia. Todos aquí le llaman Mulato. Y este Mulato, tres décadas atrás, cuando todos creían que bailar salsa era asunto de mera diversión de fin de semana, fundó una humilde escuela de baile en El Diamante, un barrio por el que daba miedo caminar a cualquier hora del día por culpa de la violencia de las pandillas.

El hombre fue a por más y, poco tiempo más tarde, se inscribió por su cuenta en uno de los campeonatos de salsa mundiales de la época. Sin apoyo económico, aún Luis Eduardo se pregunta cómo hizo para llegar hasta Estados Unidos, con otros tres bailarines, cargando apenas en su mochila de soñador una camisa de lentejuelas y un viejo de par de zapatos que se vio obligado a lustrar él mismo, con una pintura de diferente color cada día de competencia, para que a nadie le quedara la impresión de que era un caleño pobre extraviado en el anhelo de ser un bailarín de los grandes.

Es el mismo sueño de cerca de 5.000 profesionales que hay en Cali. Agrupados en 295 grupos, 3.500 de ellos participaron en el reciente Mundial de Salsa que bajó el telón el pasado 11 de agosto. Jóvenes que desde los 6 años, a veces menos, empezaron a formarse en las academias.

Jóvenes como Carlos Alberto Muñoz que encontró en el baile una armadura contra el látigo de la violencia urbana. Cuando era chico, su familia se dedicaba a la venta de droga en el barrio El Rodeo, al oriente de Cali. Sus hermanos habían pisado la cárcel varias veces. Y a él, parecía, le estaba escrito el mismo destino. Pero Carlos quiso cambiarlo y entró a la Escuela de Swing Latino hace una década.

Ensayó durante años, como lo hace aún la inmensa mayoría de bailarines en formación: tres horas diarias en las noches, después del colegio, tres o cuatro días a la semana. Hasta la escuela llegaba Carlos en su bicicleta y se las arregablaba para conseguir el dinero necesario para el vestuario y los zapatos. Y esa realidad no ha cambiado mucho: para la gran mayoría de bailarines caleños los 45 dólares que requieren para el vestido y el calzado de sus presentaciones es una fortuna. Con ese dinero muchas bocas comerían en sus casas. En diciembre danzan, dichosos, durante toda una tarde a lo largo de una autopista. Esa cita callejera —el Salsódromo—, que convoca a más de cien mil caleños y turistas, se realiza desde hace seis años, y ofrece seis horas de baile desenfrenado.

Esa tradición, la del baile, comenzó a escribirse hace más de 70 años a ritmo de guaracha, aire musical cubano que fue conquistando bailaderos populares y prostíbulos, especialmente del centro. Corrían los años cuarenta cuando la Cali obrera y de inmigrantes del campo que llegaron huyendo de la violencia, comenzó a acoger con delirio la guaracha y, con ella, a los ritmos de La Sonora Matancera.

Lo cuenta el escritor y salsero de corazón, Medardo Arias. Él está seguro de que la pasión por la rumba se debe, en parte, a esas voces poderosas que pasaron por La Sonora como Celia Cruz, Daniel Santos y Bienvenido Granda. Ellos, sin saberlo, fueron despertando, al son de guarachas y boleros, a la Cali de entonces, aletargada con los valses y guabinas que sonaban en refinados salones.

En clave de música cubana, de trompetas matanceras y el corretear de tumbadoras, los caleños, pues, fueron dando los primeros pasos de lo que hoy conocemos como el fenómeno salsa. Cali fue haciéndose ciudad y construyendo sus barrios de baile en baile. Bailar, más que diversión, fue el camino —creen algunos que pagano— que hallaron los habitantes para salvarse del extravío, para expresarse, para sentirse incluídos.

Lo hicieron a su modo: alterando la velocidad de la música de los long play de 33 revoluciones que viajaban a Cali desde el cercano puerto de Buenaventura, a bordo del Ferrocarril del Pacífico. Nadie sabe a quién se le ocurrió que para darle gusto al cuerpo sobre la pista era mejor hacerlo girar a 45 revoluciones, muchísimo más veloz, pero ese estilo hoy es un sello cultural. “Los músicos puertorriqueños vieron cómo sus bogaloos, especie de guajiras lentas, se convertían en veloces y endemoniadas versiones. Cambiar las revoluciones de un disco fue el primer aporte de Cali a la salsa, y los bailadores fueron de eso testigos de excepción”, afirma el escritor Medardo Arias.

Desde entonces, ya no fue solo cuestión de ritmo y cadencia. También se bailaba la melodía. Sea cual sea el instrumento, piano, bajo, conga o hasta el mismísimo pregón del cantante ¡todo podía bailarse con gran velocidad de la cintura para abajo!

A esa consolidación ayudó el cine mexicano y un personaje, el pachuco bailarín, que se hizo célebre haciendo acrobacias al son del mambo de Pérez Prado y La Sonora Matancera. El bailador caleño de los años cincuenta y sesenta imitaba los pasos de mexicanos como Tintan, Resortes, La tongolele y María Antonieta Pons, cuyas piruetas se proyectaban en cines y teatros como el Rialto y el Sucre.

Para Miriam Collazos, bailadora de esos tiempos, de lo que se conoce como la vieja guardia, el caleño fue puliendo su estilo gracias a varios factores: “La agilidad que aprendimos de los negros; la picardía y coquetería de las mujeres indígenas y, de alguna manera, el respeto por las formas clásicas y elegantes de los blancos”.

De alguna manera, en Cali se espera que la película Ciudad Delirio sea una nueva oportunidad para contarle al mundo que, en vez de bailar, los caleños hicieron hace muchísimos años un pacto de buena rumba con el mismísimo diablo.


http://cultura.elpais.com/cultura/2013/08/29/actualidad/1377805715_405130.html

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Serenata


Outras Mulheres - Joyce


CASULO


Arte de Eduardo Nasi

A carreira hoje está acima do amor.

Fico delirando o que me tornou tão diferente das novas gerações.

Não que seja velho — sou antigo.

Na minha visão, a profissão está em segundo plano, por mais que ame escrever.

Eu amo o amor mais do que escrever; sou casamenteiro de raiz.

Os cabelos da mulher amada são o travesseiro ideal. O sachê do quarto. O afrodisíaco de minha gana.

Sair da casa dos pais cedo, aos 19 anos, determinou o meu comportamento.

O que mais procurava era independência, morar fora, criar um apartamento com a minha cara. Passei a trabalhar aos 15 anos e, desde lá, não parei.

Juntava o soldo do mês e sorteava o que iria comprar: liquidificador, cadeira, pratos. Meus móveis foram rifas do meu salário.

Não concebia uma vida com os pais, atrelado aos pais, refém dos pais.

A aventura era ter uma pobreza somente minha, uma pobreza pessoal, mas que pudesse dividi-la com os amigos.

Enfrentei quatro casamentos, morei em dez casas, eduquei dois filhos. Não posso ser chamado de acomodado.

Jamais retrocedi, jamais desisti. A estrada não tem volta após a curva dos dedos do adeus.

Se entro em falência, me empresto dinheiro. Atravesso um mês economizando, não existe a hipótese de regressar ao ventre.

Os pais estão simbolicamente mortos para me dar a chance de viver com soltura. Minhas neuroses são próprias do relacionamento, não da infância. A infância é tarde demais, longe demais.

Entendo que o ninho está mais no voo do que na árvore. Meu temperamento não combina com a época.

Os filhos dos amigos ficam com os pais depois dos 30 anos, depois dos 40 anos.

Nunca abandonarão o lar, aguardam a herança do imóvel com animada resignação. Não sofrem com pressa ou com ambição doméstica.

São despreocupados com as despesas, como se estivessem sempre de passagem em sua própria residência.

Guardam suas economias para gastar com viagens e boemia. Para os prazeres pontuais da semana.

O quartinho de adolescente é quartinho do adulto e será quartinho de velho. A reforma é a única mudança possível.

Não se interessam em morar com o namorado ou a namorada. São visitantes ilustres. Hóspedes circunstanciais.

Seguem com seus trabalhos em primeiro lugar, realizam cursos e pós até a exaustão, colecionam mais diplomas do que desastres.

O paradoxo é que desejam a liberdade, não se prender a ninguém, mas não soltam as abas dos vestidos da mãe.

Como amar alguém sem se divorciar dos pais antes?


http://carpinejar.blogspot.com/




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

Songbook - Edu Lobo (Álbum Completo) [Full Album] MPB


Edu Lobo - 70 anos


No dia de seu aniversário, compositor fará show no Teatro Municipal com repertório que atravessa sua carreira.

‘Os 60 anos bateram muito mais. Os 70 não. Me sinto no lucro. Não me sinto velho, não tenho cabeça de velho. E não carrego nenhuma frustração’, diz compositor.




O compositor Edu Lobo Fabio Seixo / Agência O Globo


Edu Lobo lembra que tinha 19 anos quando, na noite em que conheceu Vinicius de Moraes, o poeta perguntou se ele tinha um samba sem letra:

— Tinha, mostrei, e ele fez a letra na hora (a canção era “Só me fez bem”). No dia seguinte, quando acordei, pensei: “Caramba, sou parceiro do Vinicius”. Isso foi muito melhor do que um elogio, do que essas coisas de “vou ligar para um amigo meu que é de gravadora”. Ele fez muito mais... Não tenho a menor dúvida de que esse foi um chute inicial maravilhoso para minha vida.


A ideia do roteirista e diretor Hugo Sukman é contar a história de Edu na música seguindo sua cronologia, dos anos 1960 até o presente.Da parceria que tem força de marco inaugural até a produção mais recente de Edu (canções como “Coração cigano”, do CD “Tantas marés”, de 2010), cinco décadas de carreira são atravessadas no show que o compositor apresenta no Teatro Municipal hoje, às 21h, no dia em que completa 70 anos — o espetáculo chega ao Auditório Ibirapuera, em São Paulo, no próximo dia 13.

— É uma ideia muito simples — diz Sukman, que prepara uma biografia do compositor. — Mas que não é possível de ser realizada com qualquer um, talvez Edu Lobo seja o único que permite isso no Brasil. Porque sua obra é impressionantemente coesa. A carreira dele já se inicia com músicas que estão no nível das da maturidade. Ele fez “Pra dizer adeus” com 22 anos, “Canção do amanhecer” com 20.

Há fugas da cronologia, quase imperceptíveis, segundo Sukman:

— “Zanzibar” (1970), por exemplo, está antes de “Ponteio” (1967).

Nas participações dos convidados — Maria Bethânia, Chico Buarque, Mônica Salmaso e Bena Lobo — também foram permitidas algumas liberdades. Afinal, é como se cada um trouxesse, dentro da grande história de Edu, uma pequena lembrança daquele encontro.

— Todos têm relação com a minha vida. Com Bethânia gravei meu segundo disco de carreira (e o primeiro dividido com outro artista, “Edu & Bethânia”, de 1966). Tinha conhecido Bethânia pouco tempo antes e adorei o jeito dela cantar. Quem você compara com Bethânia? É impossível. Timbre, maneira de cantar... E a interpretação. Tem cantor de voz bonita, mas que não faz a letra chegar até você — avalia Edu. — Com Chico tenho uma parceria bem marcada, mas meio fora do comum, porque 90% ou mais da nossa produção foram para dois balés do Guaíra(“O Grande Circo Místico” e “Dança da meia-lua”) e dois musicais(“O corsário do rei” e “Cambaio”). Só que sempre trabalhamos de maneira que elas não fossem dependentes da cena. Já Mônica, que gravou muita coisa minha, é das maiores cantoras que conheço no mundo. Presta atenção nas letras que está cantando, tem controle vocal absoluto, voz muito bonita e faz o que tem que fazer em cena: canta. Se move pouco, é aquilo ali. E Bena é meu filho, é músico, é compositor, então queria que ele estivesse comigo no palco.

Em meio às canções do show se desenham os caminhos de Edu. Como o do compositor que nos primeiros anos se apoiava no violão e que, depois de ir para Los Angeles estudar música (em 1969), passou a compor no piano.

— Quando eu compunha no violão as músicas eram mais populares, porque eu as fazia com a minha voz — explica. — O piano abriu minha composição, porque você passa a procurar as notas no teclado. “Beatriz” jamais teria sido feita no violão, porque aqueles intervalos não são de quem está cantando. Mas foi importante o tempo da ignorância, da liberdade para inventar.

Edu usa o termo “mais populares” para suas composições iniciais, mas há enorme apelo em clássicos feitos ao piano, a despeito de sua complexidade.

— Quando ouvi “Beatriz” pela primeira vez, apenas com Cristóvão Bastos e Milton Nascimento, me passou: “Quanto tempo vai demorar para essa música ser ouvida?”. Porque era improvável que ela tocasse em rádio. E não tocou mesmo. Mas aos poucos ela foi ficando conhecida. Hoje posso cantá-la sem essa coisa que uns produtores diziam, de ser “música para baixo”. Um exemplo é “Pra dizer adeus” (apesar de ter sido feita na fase do violão, ela carrega uma tristeza que a levaria para o escaninho das “músicas para baixo”), que eu tinha que cantar escoltada por dois seguranças, “Arrastão” de um lado e “Upa, neguinho” do outro. Hoje todo mundo canta junto.

o aprendizado de cantar sem violão

No Municipal, a marca da passagem do tempo, da maturidade, aparece também na ausência do violão nas mãos de Edu (o compositor terá a companhia de sua banda e de uma orquestra de cordas). O artista que inicialmente não se sentia à vontade no palco hoje tem enorme prazer de fazer shows, a ponto de dispensar o apoio do instrumento:

— Na época do lançamento do “Tantas marés”, levei um tombo, machuquei a mão, não ia dar para tocar no show. O que vou fazer em cena? Gestos? Nunca tinha feito isso. Mas foi das melhores coisas que me aconteceu. Hoje não toco mais em show. Descobri que o violão me protegia e me ocupava. Sem ele, perdi a proteção e passei a apreciar mais a minha banda. E a cantar com empenho maior, o que me melhorou.

O show será gravado e lançado como CD e DVD. Mas por enquanto não há planos de um novo disco de estúdio:

— Só penso num disco quando tenho umas três ou quatro canções bem firmes. E não é o caso — diz Edu, com a mesma tranquilidade que demonstra ao falar da idade. — Os 60 anos bateram muito mais. Quis viajar com os filhos, estava chocadíssimo com a idade. Os 70, não. Eu me sinto no lucro. Não me sinto velho, não tenho cabeça de velho. E não carrego comigo nenhuma frustração.


em http://oglobo.globo.com/cultura/edu-lobo-vai-celebrar-seus-70-anos-com-gravacao-de-dvd-no-rio-9733456#ixzz2dNS9FNFO