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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

" Zumbi " - Jorge Ben Jor


O jornal dos sonhos




Todo homem tem o jornal pessoal dos seus sonhos.
Sou um incurável gutenberguiano e curto jornal de papel. Passei a maior parte da minha existência gastando sola de sapato e cadernos de anotações, duas coisas fundamentais para um homem de imprensa.
Os jornais de papel que existem na praça possuem certezas demais e não me satisfazem no momento –e aqui incluo minhas humaníssimas gotas lacrimejantes de nostalgia na parada, óbvio, o que seria de uma criatura se não se pusesse nostálgica até pelo ocorrido da última hora?.
O jornal dos sonhos carece de um certo lirismo bêbado e irresponsável, aquela onda “vai ser gauche na vida”, o lirismo anárquico, jamais um se dobre à direita, donde já se viu sinal tão troncho, meu jovem.
O jornal dos sonhos larga tinta e suja a tapioca branquinha da rotina.
O jornal dos sonhos tem que ter mulher na manchete diariamente. Mulher fez isso, mulher fez aquilo, mulher acordou, mulher dormiu, mulher e um verbo. Um jornal de verdade só precisa de mulher e um verbo.Talvez sangrentas exclamações uma vez por mês!!!
Jornalismo é sangue e amor!!!
Jane Fonda subindo aos ares como  Barbarella, por exemplo, é manchete em seis colunas.
Uma boa rótula de uma galega que acabo de ver aqui na Miguel Lemos é manchete.
Meu novo amor que precisa de um hotel com varanda é manchete!!!
Mas eis que me sinto vingado!
Eis que meu amado Paulo Mendes Campos me sai com o seu “Diário da Tarde”. Alvíssaras, meus camaradas, desbocarro-me em risadas tantas e celebro a notícia. Da janela de Copacabana, ai de mim, estouro duas caixas de fogos Caramuru, comemoração sem barulho constrange minha alminha vira-lata nada zen.
O “DT” até havia saído em forma de livro. Era dos 80. Mas agora saiu como PMC, o cronista do “o amor acaba”, queria, gostaria mesmo, imagino. Um tablóide dos sonhos, meu caro Flavio Pinheiro, meus renovados parabéns e longa vida, amigo.
O “Diário da Tarde’ é o meu jornal e pode ser folheado, como recomendava seu diretor de redação, “num lindo dia de chuva, à falta de uma boa pilha de revistas”.
Em tempos de mais de 30 0×0 no campeonato nacional -vai, Corinthians!-, o meu jornal berra em crônica esportiva: “O gol é necessário”. O gol é o pão do povo. Morte a quem inventou o ferrolho, a retranca, como os suíços na Copa de 50.
“Você gosta de angu à baiana?”, perguntou Garrincha ao nosso amado PMC. Assim eles se encontraram, botafogamente ao crepúsculo de General Severiano.
Notícias quentinhas que você só lê no “Diário da Tarde”. Garrincha prometeu o angu, mas driblou o cronista, tinha mais o que fazer: foi matar passarinho no arvoredo de Pau Grande.
O “Diário da Tarde” é assim, como vou contando aqui.
O “DT” é de fácil de entendimento e assim estão distribuídas as editorias do mesmo: Artigo indefinido, Coriscos, O Gol é necessário, Poeta do dia, Bar do Ponto, Piripau, Grafite e Suplemento Infantil. Ilustrações: Veridiana Scarpelli.
Vamos todos ler o “Diário da Tarde”, minha gente, conclamo. Lá tem até o Jayme Ovalle dizendo coisas: o importante não é gostar ou não do uísque, “o importante é saber se o uísque gosta da pessoa”.
No capítulo bebedeira, o jornal se esmera, folgado, folgazão.
PMC revela, por exemplo, que o pior bêbado é o que tem razão para beber. O bêbado de tese, o bêbado em dor-de-cotovelo, o bêbado que sabe de cor os embargos infringentes.
Leia também no seu “Diário da Tarde”: o milagre da vida está em Walt Whitman. Quem há de discordar? Eu mesmo não sou doido. Eu vejo W.W. em tudo, até na bunda da mulata que sobe agora faceira a escadaria de Cantagalo. Há vida, há Whitman.
O “Diário da Tarde” só tem um defeito: tem futebol, tem drama, tem a dor da gente, tem poesia, tem jazz, tem o coração das trevas… só não tem horóscopo. (Sim, senhor diretor de redação, também sou supersticioso, viver dá azar etc.)
E para terminar a nossa preleção, caros colegas, reparem que pérola atualíssima do nosso homem de imprensa Paulinho Mendes Campos, gênio-mor das Geraes e região:
“Hai-kai: Pobre/apanha/até da mãe”.
O “Diário da Tarde”(ed.IMS) está à venda nas boas casas do ramo, tem 96 páginas e custa 44,90 mangos.  Gastar é gosto.
Como você faria o jornal do sonho?

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2013/11/20/o-jornal-dos-sonhos/

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Homem à Delícia




Publicado em 8 de julho de 2012 por Borboletas nos Olhos


(aviso aos navegantes mais apressados:a receita mesmo está no último parágrafo, tá)



Pensando nesta receita, eu ia pegar a analogia e começar dizendo: para homem à delícia, não pode faltar a banana. E foi bem aí que eu entendi como é fácil ser cruel, sem saber, sem notar, até sem querer. Pela palavra. Porque acriticamente eu ia repetir um pressuposto naturalizado de que ser homem corresponde a ter um pênis. E eu fui, ao longo do tempo e das relações, aprendendo que não é uma relação direta, mas construída socialmente e que pode – e precisa – ser repensada. De forma que estou decidindo fazer um esforço intencional de escolher com cuidado não só os ingredientes da receita, mas as palavras para dizer. Porque, afinal, meu mundo ideal é o da gentileza. Ainda estou no processo, mas acho que não custa tentar dar um passinho de cada vez. Esqueçam, então, por agora, a banana.

Vamos aos ingredientes e procedimentos que realmente importam. Junte a fome com a vontade de comer. Aqueça. Esfrie. Roce. Amasse. Pegue e requebre. Torça, mas devagar. Prove. E, claro, não se deve esquecer: Homem à Delícia é o da hora. É uma receita sazonal.

Para mim, sempre cai bem um homem com olhar antigo, um sorriso meio de lado e mãos quentes. Quentinhas, as tais mãos devem ser usadas com frequência seja cozinhando, pescando, tocando, mexendo na terra, marcenaria ou só dedilhando meu corpo. Melhorando: um homem que se sinta à vontade em comer, andar, dançar, dormir, trepar. Opcionais: barba, cheirinho de cerveja e cigarro, dançar forró, gostar de Bergman e torcer Flamengo. No dizer dos cozinheiros, pra dar liga: sacar que sexo é divertido.Homem à delícia é aquele que tira meus pés do chão.



Assim:

É bom que ele seja inesquecível, tenha estilo único e me dê a sensação de estar sempre lá. A não ser quando não.Que antecipe meu passo, que me ponha tonta, que segure a minha mão. Um homem elegante, mas com um ar meio vagabundo. Que faça eu me sentir bonita como nunca e me revele uma alegre divorciada. Que sapateie na areia pra me fazer dormir*. Que me convide pra dançar um ritmo louco. Que, estando ao meu lado, me faça sentir como uma Cinderela em Paris vivendonúpcias reais. Um homem que me dê classe e que me faça graciosa. Um homem que seja insubstituível. Outro amor, sim, muitos. Outros. Mas nunca como ele. Nem melhor, nem pior. Diferente. Um homem é que ele me faça falta. Delícia mesmo é estar com ele em um rodopiante abraço, leve, terno, sensual.

Quer simplificar a receita? Vamos lá, Homem à Delícia demanda…

Que seja livre.



Que saiba gemer, pedir e chorar.



Que faça, do beijo, tempestade no corpo. (a incorporação não é permitida, mas o beijo está aqui)

Que…Dureza, né? São cenas demais, referências demais, esperanças demais, futuros demais. Mais simples é pegar uns filés de peixe e tentar um peixe à delícia versão biscate-borboleta. Quer saber como? Separe uns filés de um peixe que não seja muito seco… pode ser pargo, guaiúba, ariacó. Tempere com sal e pimenta do reino. Pode colocar um pouco de canela ou páprica doce. Eu coloco sempre. Deixe pegar gosto e vá fritar as bananas. Sim, aqui no peixe não tem problema. Corte em fatias não muito finas e frite na manteiga. Reserve. Empane os peixes com farinha de trigo e frite-os em óleo quente. Reserve também. Corte cebola em quadradinhos miúdos. Ou rale, se preferir. Misture com requeijão. Em um refratário, vai montando: peixe, um pouco do requeijão com cebola, a banana e cobrindo tudo uma fatia de queijo prato ou mussarela. Leve ao forno até o queijo derreter.

Gosto do cheiro. Do sabor. Da textura. Pode ser peixe. Pode ser homem. No meu caso, até agora, com banana. Mas cada um@ com a fruta que lhe apetece.


http://biscatesocialclub.com.br/2012/07/homem-a-delicia/

NOTA: Mudei o video que representa "ser livre" por que o original não foi permitido. RS

 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

"VIVEMOS TEMPOS LÍQUIDOS. NADA É PARA DURAR” - ZYGMUNT BAUMAN

em recortes por  em 09 de nov de 2013 às 23:05

Estamos cada vez mais aparelhados com iPhones, tablets, notebooks, tudo para disfarçar o antigo medo da solidão. O contato via rede social tomou o lugar de boa parte das pessoas, cuja marca principal é a ausência de comprometimento. Este texto tem como base a ideia de líquido, característica presente nas relações humanas atuais, inspirado na obra "Amor Líquido" - sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zigmunt Bauman. As relações se misturam e condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis. Em um mundo cada vez mais dinâmico, fluido e veloz, seja real ou virtual.
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O sociólogo polonês Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Aos 87 anos seus livros publicados venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico.
Entre eles “Amor liquido” é talvez o livro mais popular de Bauman no Brasil. É neste livro que o autor expõe sua análise de maneira mais simples e próxima do cotidiano, analisando as relações amorosas e algumas particularidades da “modernidade liquida”. Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar, tampouco sólido. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água.
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Ele tenta nos mostrar nossa dificuldade de comunicação afetiva. Todos querem relacionar-se, mas chega na hora, não conseguem. Seja por medo ou insegurança.
Bauman cita como exemplo um vaso de cristal, na primeira queda, quebra. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas.
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É um mundo de incertezas. E cada um por si. Temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis. Acostumados com o mundo virtual, e com a facilidade de se “desconectar” as pessoas não conseguem manter um relacionamento de longo prazo.
É um amor criado pela sociedade atual (modernidade líquida) para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros.
Pessoas estão sendo tratadas como bens de consumo, caso haja defeito, descarta-se ou até mesmo troca-se por versões mais atualizadas.
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O romantismo do amor parece estar fora de moda. O amor de verdade foi banalizado, diminuído a vários tipos de experiências vividas pelas pessoas, na qual se referem a estas utilizando a palavra amor. Noites descompromissadas de sexo são chamadas “fazer amor”. Não existem mais responsabilidades de estar amando, a palavra amor é usada mesmo quando as pessoas nem sabem direito seu real significado.
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Ainda para tentar explicar a relações amorosas
em “Amor Líquido”, Zygmunt Bauman fala da “ Afinidade e Parentesco.” O parentesco seria o laço irredutível e inquebrável é aquilo que não nos dá escolha
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A afinidade é, ao contrário do parentesco, voluntária. A afinidade é escolhida. Porém, e isso é importante, o objetivo da afinidade é ser como o parentesco.
Entretanto, vivendo em uma sociedade de total “descartabilidade” até as afinidades estão se tornando raras.
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Bauman fala também sobre o amor próprio. Afirma que as pessoas precisam se sentir amadas, ouvidas, amparadas ou que sintam sua falta. Segundo ele ser digno de amor é algo que só o outro pode nos classificar, o que fazemos é aceitar essa classificação.
Mas com tantas incertezas, relações sem forma, líquidas, na qual o amor nos é negado como teremos amor próprio?
Os amores e as relações humanas de hoje são todos muito instáveis. E assim não temos certeza do que esperar. Relacionar-se é caminhar na neblina, sem a certeza de nada. É uma descrição poética da situação.
"Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis [...] um é segurança e o outro é liberdade, você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. [...] Cada vez que você tem mais segurança você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo". Bauman

domingo, 17 de novembro de 2013

ZIZI POSSI - PEDAÇO DE MIM





O eu e suas memórias

Edição 2002 de 17 a 23 de novembro de 2013
Ensaio

A melhor ficção é sobre si mesmo, a autobiografia, nesta época em que biografia entrou em pauta como o paradoxo entre a livre expressão e a invasão da privacidade
Nei Duclós
Especial para o Jornal Opção
Autobiografia é invasão da própria privacidade. Não consentida, porque o personagem alvo — alguém que já fomos — quer permanecer oculto e é devassado pelo seu mais cruel inimigo, a consciência do já vivido, a longevidade que inflete sobre a inocência e sua perversidade. Mal que pertence à vida, não se trata de patrimônio pessoal, embora a viagem íntima a esse outro eu (considerado o legítimo, o verdadeiro) seja o veículo para que esse mal se revele. O objetivo, entre os grandes autores, não é lavar a estátua, mas extirpá-la e colocar no pedestal, provisório porque humano, alguém desconhecido dos leitores da obra do autor e até mesmo dele. Autobiografia é para pessoas que precisam escrever sobre si para redescobrir-se. Ou pelo menos para entender suas origens e os eventos que o transformaram numa criatura de rosto diverso.

Esse outro eu é uma criatura misteriosa, que contraria a imagem cristalizada do autor/personagem. É para pegar de volta sua humanidade, perdida na notoriedade e na interferência excessiva do mundo e do tempo, que o escritor se volta para o sujeito que existe em si e reclama um pouco de verdade. É essa viagem íntima que retoma o caminho que é a fonte da própria literatura, pois foi a partir da escassez humana da pessoa em formação que a arte encontrou insumos, subsídios e sentidos que a tornaram grande. Jean Paul Sartre e seu menino farsante de “As Palavras” talvez seja o melhor exemplo, mas há outro, igualmente encantador, como o outro eu de Erico Verissimo em “Solo de Clarineta”, que adverte: “Não esperem que estas memórias formem um documento histórico. Elas não têm a intenção de fazer nenhum perfil de minha época ou dos meus contemporâneos. É antes um livro sincero, que dedico especialmente àqueles que me têm lido durante todos esses anos”.

Autobiografia corre o rico de ser um texto de não ficção, e, portanto, sem sabor e tão suspeito quanto um inventado. Mas as obras importantes desse gênero apontam exatamente o contrário: a graça existe porque trata-se de uma biografia não autorizada, uma literatura colada ao real mas dele distante ao mesmo tempo, já que não temos como resgatar o passado a não ser por seus vestígios, como nos ensinam algumas escolas historiográficas. O autor devassa quem foi ou é por meio da criação literária, uma aventura que nos empolga, como “A História da Minha Vida”, de Charles Chaplin. Esse livro mostra como o ex-garoto miserável de Londres um belo dia ao viajar de trem viu pela janela multidões que acenavam para o comboio. Sem atinar do que se tratava, ele ficou sabendo pela primeira vez que era idolatrado por sua arte. Para onde foi, ao longo do tempo, aquele ser que começou de uma mãe demente e acabou isolado na Suíça com sua jovem esposa e ninhada de muitos filhos? É o que ele conta na sua saga admirável, tão brilhante como qualquer outra de suas obras.

Uma autobiografia pode se prestar para um mergulho nos horrores do eu, como acontece na tetralogia de Hermilo Borba Filho, que de tão crua e terrível é apresentado pelo autor como seu único texto de ficção em que o narrador fala na primeira pessoa. Ele precisava dizer isso, pois entregou tudo. Hermilo devassa não apenas sua persona, mas a de tantos outros que conviveram com ele, como a do cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, que, além de obras nacionais como “Simão, o Caolho”, fez filmes considerados na Inglaterra. Qual é, portanto, o desafio de um trabalho desses: autor referência, celebração do ego? Humanizar o personagem que se desprendeu da vida pessoal para jogar-se num abismo de percepções coletivas normalmente distorcidas, é um esforço de nobres resultados.



Ao contrário da hagiografia autorreferente, de autoria tanto do biografado quando de seu biógrafo contratado, a autobiografia a que me refiro é uma viagem ao contrário da celebração de si mesmo. É antes uma radiografia cruel que funciona na medida da sinceridade do autor, como escritores de verdade tem grandeza porque não mentem, suas obras autobiográficas costumam ser momentos únicos da literatura. Seleciono algumas delas, a partir das memórias que guardei de suas leituras. Trata-se do meu gênero predileto. Arrisquei algo semelhante no meu romance “Universo Baldio”, que são dois momentos — uma vivencia na juventude e uma viagem à infância pelo veterano esvaziado de sentido. Longe de fazer comparações, serve para ilustrar minha preferência pelo gênero nesta época em que biografia entrou em pauta como o paradoxo entre a livre expressão e a invasão da privacidade.

Mais do que o divã, é a aventura do viver e sua crueza que devassam o perfil do autor que garante a sobrevivência da verdade por meio de uma arma rara, o talento. Seu principal personagem o desafia. Há a tentação de vê-lo vestido de perenidade, mas isso não sustenta um livro de quem passou a vida reportando a vida humana. No fundo é o fim do perene adiamento, pois toda obra literária é autobiográfica não assumida. O que foi feito de maneira fragmentada ao longo da obra agora está inteiro diante do autor.

Esse eu íntimo imola-se diante da transgressão consentida. O autor que depois da notoriedade procura preservar sua privacidade acaba entregando todas num texto inesquecível. Achamos que estamos próximos demais de nós mesmos. Ao escrever a autobiografia, o autor aborda o que mais desconhece, aquele núcleo de vida que o tempo acaba confundindo. O resultado fica sendo um descascar constante de camadas que encobrem uma personalidade mutante. A ideia é chegar no miolo, na matrioska primordial do jogo de louças. Mas se descobre que é tão minúscula que ela escapa pela reticência. O tema continua sendo um enigma, que a trajetória esclarecedora só tende a tornar mais intenso e complexo. Ao sairmos de um livro autobiográfico de um grande autor, nos perguntamos porque existem tantos equívocos sobre ele se o próprio está ali, aberto num leque supremo de amostragem definitiva. É que se trata de literatura, não de ciência. Como todos os outros personagens, o autor mostra seu avesso e preserva a imagem. Sartre é um farsante de nascença e um filósofo fundamental. Erico Verissimo é um homem franco, sincero e simples, mas quem o segura no corpo e na mente de Ana Terra?

São conjeturas alimentadas pela memória de leituras antigas. Esses livros me acompanham por toda a vida. São meus favoritos, dentro do espectro amplo da memorialística, que é mais diversa do que enfoque escolhido aqui. Talvez tudo não passe de um truque: revelar-se integralmente humano, com a escassez inerente à espécie, faz parte da lenda. Serve para entender a força com que tantos personagens ganham vida. Já que o autor é capaz de criar com tanta desenvoltura alguém que tem tudo para ser ele próprio, reinventando uma vida no rastro do vivido, tornando letra o que foi carne e fúria, então é possível tornar habitável todo um mundo imaginário, já que somos apenas memória. O presente se esfuma e ficamos com o passado de herança, a cada segundo.
Nei Duclós é escritor e jornalista.


Leia um trecho de “Solo de Clarineta”, de Erico Verissimo
“O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica e displicente em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, em uma linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes — alheias ou nossas, antigas ou recentes —, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado — e às vezes, inexplicavelmente, do futuro —; enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite anterior, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o outro diz e pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas… uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa frequência entramos em conflito.”
 
“Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do outro é o meu calendário implacável. ‘Os cabelos te fogem, homem’, murmuro-lhe às vezes, ‘Tuas carnes se tornam flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto’. ‘E como imaginas que estás?’, replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a ideia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso será verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.”

“No Homem do Espelho reconheço os olhos escuros e melancólicos de minha mãe. Essa cabeçorra, quase desproporcional ao resto do corpo, herdei-a de meu pai. Quanto à pele morena, talvez me tenha vindo de algum remoto antepassado índio ou mouro. As sobrancelhas negras e espessas — que passaram a vida no vão esforço de dar a essa cara um ar façanhudo, decerto com o propósito de atenuar a mansuetude quase humilde dos olhos — foram suavizadas pela prata com que o tempo as retocou.”

“Eu gostaria de simplificar o problema de meu temperamento apresentando-me como a manifestação de uma dicotomia, segundo a qual tendências que herdei de minha mãe — sobriedade, senso de responsabilidade, devoção ao trabalho, à ordem e à normalidade — podem ser comparadas com os muros de uma cidadela sitiada e repetidamente atacada por insidiosos e alegres bandos de guerrilheiros constituídos por certos componentes do caráter de meu pai: sensualidade, autoindulgência, inclinação para o ócio e para uma espécie de hedonismo irresponsável.”
 
Leia um trecho de “As Palavras”,  de Jean Paul Sartre

“Eu ainda não sabia ler, mas já era bastante esnobe para exigir os meus livros. Meu avô foi ao patife de seu editor e conseguiu de presente ‘Les Contes’, do poeta Maurice Bouchor, narrativas extraídas do folclore e adaptadas ao gosto da infância por um homem que conservava, dizia ele, olhos de criança. Eu quis começar na mesma hora as cerimônias de apropriação. Peguei os dois volumezinhos, cheirei-os, apalpei-os, abri-os negligentemente na ‘página certa’, fazendo-os estalar. Debalde: eu não tinha a sensação de possuí-los. Tentei sem maior êxito tratá-los como bonecas, acalentá-los, beijá-los, surrá-los. Quase em lágrimas, acabei por depô-los sobre os joelhos de minha mãe. Ela levantou os olhos de seu trabalho: ‘O que queres que eu te leia, querido? As Fadas?’ Perguntei incrédulo: ‘As Fadas estão aí dentro?’”

As vantagens da solidão





domingo, 17 de novembro de 2013
MARTHA MEDEIROS -

Zero Hora 17/11/2013

Sozinha para sempre, nem pensar. Mas há que se valorizar as vantagens de se passar um tempo desacompanhada. A solidão não será um bicho de sete cabeças se você tiver bom humor e souber se divertir com o momento de entressafra.

Por exemplo, sozinha você não mente, não finge, não se faz de sonsa. Ninguém é mais autêntico do que um solitário. Não precisa fazer de conta que está gostando da conversa, não precisa inventar desculpas para ir embora, não precisa dizer que está tudo bem quando está tudo bem nada.

Sozinha você não comete gafes. Não esquece o nome da tia do seu marido, não confunde o sobrepeso da prima dele com gravidez, não pergunta pela mãe do melhor amigo dele. Não te contaram? Está presa por assalto a mão armada.

Sozinha você não dá vexame por ter bebido demais, você não ameaça tirar a roupa no final da festa, não se insinua para o namorado da filha dos outros. Sozinha você provavelmente ficou em casa no sábado e não termina a noite sendo o trending topic do twitter.

E não bate-boca, não faz fofoca, não fala alto demais, não provoca ninguém. Sozinha você é perfeita.

Já que um jantarzinho a dois está fora de cogitação, não julgará a maneira como seu amado maneja os talheres, o jeito que ele dança, quanto deixa de gorjeta, a miséria do seu vocabulário, aquela insistência dele em cortar o cabelo numa espelunca do centro. Quantas vezes a gente se arrepende por ter aberto a boca demais? Por ter se intrometido onde não devia? Sozinha, você é uma lady.

Sem relação estável com ninguém, você não cobra fidelidade, não reclama da bagunça, não faz perguntas repetitivas e indiscretas. E ao viajar só, longe das manias de um acompanhante, você não faz a louca diante de uma roubada, não inventa desculpas para fugir de uma indiada, não ameaça fazer as malas e voltar sozinha – já está sozinha mesmo.

Você praticamente fica sem o que contar para o padre no confessionário. Você não peca.

Acabou-se a fama de chegar sempre atrasada. Ou de ser pontual demais. Ou de furar encontros. Você não chega nem sai, você está fora do circuito.

Sozinha você economiza batom, lingerie, depilação, cabeleireiro, academia. Em compensação, gasta demais em croissants, biscoito recheado, bombons de licor. Quem é que vai se importar se você engordar dois ou três quilos?

Sozinha você é a maluca que dança no meio da sala, a demente que fala com as plantas, a artista que canta alto no chuveiro, a crente que faz pedidos para a primeira estrela que surge no céu. Você pede o quê, mesmo? Que essa solidão abençoada não seja vitalícia: que dure no máximo até o fim de novembro. Deus a livre de não ter em quem dar um beijo no Réveillon.

http://beneviani.blogspot.com/2013/11/martha-medeiros-as-vantagens-da-solidao.html?spref=tw

domingo, 10 de novembro de 2013

A time for us - Nino Rota


O pezinho que flutua na hora do gozo


10/11/13 - 


Ou Amor é cinema.

Reparo no pezinho dela suspenso no ar e projetado na parede do quarto. Mesmo com os sussurros, a imagem do pezinho na parede é cena de filme mudo. Em preto & branco. Aquele pezinho esquerdo suspenso mexe como quem flutua embriagadamente para o gozo.
Comoção, epifania, arrebatamento, poesia barata, esteticismo de quinta, podolatria platônica do pé que deveras possui na cama… Chame como quiser o que senti e aqui trago do instante.
O certo é que o pezinho flutua e me diz mais dela naquele momento do que as próprias palavras, onomatopeias dodecafônicas e gemidos bêbados.
É quase sempre bonita a dança dos pés na hora do acasalamento. Parece que os pés ganham vida própria e particularizam por lá um outro gozo ou um gozo a mais.
Quando as almas não se entendem, acrescento enxeridamente aos versos do Bandeira, são os pés que comunicam tal desfecho.
Aquele pezinho único refletido na parede, porém, valeu por dez anos de cinemateca.
Não trato de fetiche ou desejo daqueles que vivem a nadar no mosaico dos bares e recintos em busca de belos pés, categoria na qual fui, outrora, um militante contumaz.
Tampouco me refiro a uma perversão sexual ou o gesto de um devoto que se ajoelha para beijar os pés de uma dama.
Poderia até citar o grande livro do poeta idem Glauco Mattoso: “Manual do Podólatra Amador”. Também não é o caso. Poderia falar como o pé é protagonista no cinema de Tarantino (foto). Não convém no assunto.
É apenas um pezinho -somente o esquerdo consegue aparecer na parede no momento- que flutua e busca no espaço inventar um chão para nosso gozo.

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/