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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Andei por andar, andei, e todo caminho deu no mar...




Julio Maria



Dorival Caymmi faz 100 anos de vida na próxima quarta-feira, dia 30 de abril. Faz, assim mesmo,
no presente. Sua obra está viva sobretudo na geração que ditaria os rumos da música brasileira
a partir de meados dos anos 1960. O material das próximas páginas mergulha no mundo particular
e ao mesmo tempo universal de uma das cabeças mais fundamentais à cultura do País.

Zuza Homem de Mello cede ao Estado a íntegra inédita de uma entrevista feita em 1988, reveladora de faces
pouco conhecidas do baiano. Dorival Caymmi, sabe-se por Zuza, era não só um amante do jazz, mas um conhecedor com profundidade.
Milton Nascimento e Joyce Moreno escrevem sobre o efeito Dorival em suas carreiras e os filhos Danilo e Dori comentam, na internet, as músicas preferidas do pai. O portal do Estadão traz ainda um vídeo com trechos de um show feito pela neta de Dorival, Alice Caymmi, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, e a discografia comentada do compositor.Nana Caymmi fala do pai em uma entrevista de memórias difíceis, quando sobretudo a mãe Stella quis impedi-la de seguir na carreira artística. Nana tem lembranças carinhosas de um pai que preferia o silêncio à música barulhenta, mas não esconde suas mágoas: “Ele foi omisso”, diz, sobre sua impotência em apoiá-la diante das resistências de Stella.






“Caymmi está querendo saber se você não quer perguntar nada para ele”, indagou Stella ao telefone depois de me fornecer informações de bastidores para o livro ‘A Era dos Festivais’. A pergunta revelava uma ponta de ciúmes e sugeriu um desejo, numa pretensiosa suposição minha. A de que talvez ele quisesse retroceder àquela adorável tarde de outubro em 1988, quando descreveu com impressionante riqueza como vivia na Bahia, como viveu no Rio e em São Paulo, além de dar detalhes sobre suas canções. Dotado de prodigiosa memória, discorrera ainda sobre suas preferências em literatura e pintura e deixou-me de queixo caído quando abordou detalhes próprios de um connaisseur de jazz.

Caymmi gostava de se levantar com o Sol. Cercado de uma coleção de bengalas em seu ensolarado apartamento de Copacabana, o mestre vivia com Stella sempre por perto e, um pouco depois, mas também ao redor, seus filhos e netos. Seu charme envolvia quem quer que fosse; Caymmi deixava você embevecido. O artista mais amoroso do Brasil era irresistível. Com sua voz musical, dicção impecável e um violão ao seu alcance, Caymmi falou com delicadeza e a habitual tranquilidade, narrando como se estivesse lendo sua própria biografia.

Infância. “Quem viveu na Bahia de 1914, quando nasci, até 1938, morando em Salvador com a família – pai, mãe e irmãos –, tem boas recordações de amizades de lá, no meu caso, com influência musical de dois lados. De um lado, a familiar. Mamãe gostava de música e só cantava, e papai, que era funcionário do Estado, gostava de piano, um pouco de bandolim, um pouco de violão, coisas domésticas. Papai era então uma figura marcante. Um tio, Cicí, irmão de mamãe, tocava violão melhor que papai e teve muita influência porque conhecia vários tons de violão. Depois tem uma influência muito grande que seria constante, um menino chamado José Rodrigues de Oliveira, o Zezinho, meu vizinho e amigo. Crescemos juntos na ladeira do Carmo, éramos ligados às coisas de que gostávamos, cinema, revistas, colecionar quadrinhos de filmes e música. Na música descobri o cavaquinho e peguei o violão de papai para tocar escondido.”

Todos os santos. “Então, Zezinho e meu tio Cicí são influências fortes na minha vida na Bahia. Depois, a grande influência: o rádio instalado. Comecei a ouvir pelo rádio Francisco Alves, Vicente Celestino, Orlando Silva e Silvio Caldas, que sempre considerei o grande mestre da música brasileira, o grande inventor de bossas no samba com aquelas malemolências todas. Silvio Caldas foi um verdadeiro deus que, por sorte, conheci ainda na Bahia. Também tem influência de um e de outro o repertório romântico, a gente tem de passar por isso por causa da namoradinha de colégio ou da garotinha da rua. A gente cantava as canções de Joubert de Carvalho, Ari Kerner Veiga de Castro, aquelas toadas de Marcelo Tupinambá, umas coisas do repertório pianístico que a gente alcançou nas salas amigas das famílias.

Depois, as casas de disco que a gente começou a descobrir e que eram onde estava a mina, o ouro. A gente sempre ia na casa Milano, eu e o Zezinho, para ouvir disco e aprender novidades. Aí começou o negócio de estudante e o rádio. Na hora que folgava, a gente ia dar uma espiada no rádio para ver como era a voz.”





Bahia. “Nós tivemos um conjuntinho que seguia a moda do Bando da Lua, o Três e Meio. A gente fazia uma programação para ser aprovada e levada ao rádio nos domingos à tarde. Aí comecei a fazer umas parodiazinhas, a compor para o conjunto na brincadeira, à maneira do Bando da Lua de meu amigo Aloisio de Oliveira. Ainda na Bahia, uma outra influência, um colega estudante me disse: ‘Caymmi, por que você não faz uma visita à dona Amanda Costa Pinto, ela educa a voz’. Era a época da influência da música lírica, do Caruso, Gigli, Tito Schippa, no cinema falado já entravam Ian Kepura, Martha Egger. Fomos a Brotas, à casa de dona Amanda e ela me adotou ali como aos outros. Acabou fazendo um coro, classificou a minha voz com uma tendência de baixo cantante. Eu procurava colocar bem a voz, foi um aprendizado de um ano e nossa glória seria cantar as novenas da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia que finalizavam com três missas. Isso é minha vida na Bahia.”


Rio de Janeiro. “Depois, o Rio. Vim atrás de meus ídolos, consequentemente fui à cata de conhecê-los. Vim atirado por uma vontade secreta que não sei identificar agora. Tinha feito na Bahia um concurso para escrivão em 1936, esperei até 38 para ser nomeado, mas havia ainda sequelas da Revolução de 30, de 32 e um apadrinhamento que é comum nessas ocasiões. Consegui o segundo lugar no concurso e fiquei esperando um emprego, mas fiquei decepcionado.

Falei com papai que tinha vontade de ir para o Rio. ‘Não, o Rio é lugar de perdição’, aquela conversa. Nessa ocasião um amigo, também estudante, que fazia brincadeira no rádio com o nome suposto de Baby Soares – chamava-se Oscar Duarte – disse um dia: ‘Caymmi, você não sabe como a vida lá fora é boa, você precisa sair da Bahia rapaz, eu entrei num navio, me fiz músico de bordo, conheço a Europa, a América. Aqui você não vai fazer nada’. A partir dessa conversa com Baby Soares, que papai assistiu muito atento, eu fiquei com aquela coisa na cabeça. Convenci papai, que tomou 500 mil réis emprestados de um colega da repartição, comprou minha passagem para o Rio e uma mala, e lá vim eu.”


​Estudante de Direito.



Chegada ao rádio. “Em 24 de junho daquele ano, estava estreando como artista na Rádio Tupi. Fiquei admirado porque, reconhecendo que sou um sujeito totalmente preguiçoso, fui para o rádio em tão pouco tempo. Foi o seguinte: fui pedir emprego na revista O Cruzeiro e tive uma grande sorte. Conheci um rapaz muito jovem, que veio a ser um dos meus ídolos, Millôr Fernandes, que tenho gravado no coração. E ele disse: ‘Me disseram que você pinta desenha e tal, mas aqui não tem lugar para isso. Você toca violão, não canta? Eu tenho um amigo no rádio, quer ver?’ Ligou para o Theófilo de Barros Filho, que dirigia a Tupi, e me mandou ir lá na quarta. Cheguei à Rua Santo Cristo no Bairro Saúde, ele me ouviu e disse: ‘Não cante mais para ninguém. Você vai começar aqui dia 24 de junho, festa de São João’. E assim comecei, já ganhando 30 mil réis de cachê. Para quem estava sem dinheiro, já dava para deixar seguro.”


​Repertório.


Meu grande amor. “Em 1939 conheci Stella, cantando num programa de calouros da Rádio Nacional, uma finalíssima que ela ganhou cantando Noel Rosa, Último Desejo. E eu fiquei encantado. Morei no Grajaú quatro anos ao casarmos, eu e Stella. Nasceram lá Nana e Dori. O médico pediatra dos meus meninos, o teatrólogo e ator José Silveira Sampaio, disse que tínhamos de ir para a praia, tomar banho de mar. Então nos mudamos para o Leblon. Danilo nasceu em 1948 na Delfim Moreira com General Artigas. Moramos na Bartolomeu Mitre, depois na Dias Ferreira e depois viemos para Copacabana por causa do colégio, em 1953. Mudamos para o edifício Nôa Nôa.”


Alma de criança. “Eu gosto muito de história infantil como base para compor. Gosto de Ciranda, cirandinha, dessas coisas do povo como meu espelho para compor. Tanto que eu disse ‘Vento que dá na vela / vela que leva o barco / barco que leva a gente / gente que leva o peixe / peixe que dá dinheiro Curimã.... vela, leva, leva vela.’ Isso tudo a gente faz quando está meio distraído, passam palavras, sons musicais com sons de palavras. Às vezes não são coisas minhas, são descobertas de como se fala de maneira simples. Coisas que a gente ouve, do povo, da família. Eu gosto muito da memória, por isso me dedico a especular o ontem, a sequência imediata.


Boêmio. “Eu frequentava bem a noite. Era de comer aquele churrasco na Princesa Isabel, sair para um boteco, tomar a penúltima na praia para ver o sol nascer. A noite de Copacabana nos anos 50 tinha um encanto muito especial. Você encontrava um de smoking sobrando de uma festa, vinha outro meio puxado, aquela garota metida naquele tremendo soirée, havia um encanto muito bonito, aquela mistura do amanhecer na praia com aquela noite esticada, aqueles sábados gloriosos, juntando o cozido das sextas-feiras no Vogue onde o Barão deixava entrar em roupa esporte (Barão Max von Stuckart, nobre austríaco e proprietário da boate). Tinha um toque chique na noite carioca dos anos 50, a mulher perfumada, a joia, a elegância do gesto, do prato, o charme e a música sempre aliada a isto, com aquela doçura do samba-canção. Isso a par dos cafajestes. Eu também fui dessa corriola. De forma que tudo isso eram os encantos da noite nos anos 50 em Copacabana.”


João Valentão. “O samba-canção seria um rótulo de um dos dois ritmos de João Valentão dos anos 40, baseado num amigo meu, pescador rústico de Itapoã na Bahia. Voltei ao passado e encontrei aquele amigo, o nome dele devia ser Carapeba, nome de peixe. Eu achava ele íntegro como pessoa, um senhor que tinha idade para ser meu avô, uns sessenta e tantos anos, um pescador de quem você nunca via como era da testa para cima, sempre de chapéu. Eu era amigo do filho dele mas tinha admiração por ele. Aí pensei de modo romântico no João Valentão como uma figura de teatro. Eu apontava João Valentão é brigão.......pra dar bofetão... faz coisa que até Deus duvida mas tem seu momento na vida. Aí eu mudei o ritmo da apresentação. Some o palco e aparece uma coisa de areia. É quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo.... Aí entra um ritmo que seria o samba-canção, como sucedeu logo depois com Marina, apesar desta parecer uma coisa mais rural porque Marina é uma menina de subúrbio. Nesses dois eu fui usando o tema mais jogado. O Dora dá um aspecto teatral, aquelas homenagens, o frevo, clarins, aquela mulata cheia de vida. Assim, Dora, João Valentão e Marina me levaram, quando eu já vinha parando na noite em cassinos depois de fecharem o jogo, para uma nova fase nos anos 50. A diversão tinha mudado de aspecto, proliferaram as casas pequenas. Nós tínhamos um público itinerante pela noite, saindo de uma boate para outra. O que era certo é que todos terminávamos no Vogue. Aí, por influência do samba-canção da moda e pelo tema vago e amoroso, eu fiz Nem eu, Nunca mais, Não tem solução com meu amigo Carlinhos Guinle, uma pessoa encantadora, musical, que tocava um pouco de piano. Discutia-se muito a respeito de música, ele tinha uma porção de discos e fizemos outras. Sábado em Copacabana, apesar de eu ter feito toda, Tão Só e outras.”


“Bossa Nova. “No samba-canção tinha também Antonio Carlos Jobim, que andava pela noite adentro; aquele pistonista da orquestra da Tupi, Pernambuco, que fez As tuas mãos. Tinha Dolores Duran. Essa época romântica e boêmia foi se ligando com a Bossa Nova numa fórmula que também partiu da música que era tocada no Drink com Miltinho e um sincopado muito especial. Em consequência, Billy Blanco foi enfeitando o samba com uma jogadinha.”


Jazz. “Os ataques de Jimmie Lunceford, as entradas dos metais e das palhetas, eu tive discos em 78 rotações de gravações extraordinárias. My mamma don't told me.... pe-re-ri-ro-ro-ri.....(Caymmi entoa quase toda a primeira parte de Blues in the night gravada pela orquestra de Jimmie Lunceford em 1941). Foi uma cachaça de coisas boas. Sy Oliver é um grande arranjador. Ele fazia o negócio com uma sensibilidade, escrevendo para aqueles instrumentos, jogando os trombones e pistons, aquele jogo de metais em que se destacava um Ziggy Elman na orquestra de Tommy Dorsey (embora tivesse ganhado fama com Benny Goodman, Ziggy também foi destaque na orquestra de Tommy Dorsey. Sy Oliver foi arranjador de Lunceford e de Dorsey). Eu e Haroldo Barbosa encontrávamos as pessoas que gostavam dessas coisas como a gente, íamos atrás dos filmes, amigos de São Paulo e até fora do jazz, sem falar daqueles primeiros, sem falar de Scott Joplin do ragtime nem do Jelly Roll Morton.”


Formação. “Não sou erudito, longe de mim tal pretensão. Na literatura, fico naquela fórmula de quem aprende no ginásio da minha época através da Antologia de Fausto Barreto e Carlos Laet. Já li aqueles portugueses clássicos, Almeida Garret, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Camões que a gente não pode deixar, até chegar à literatura da minha época, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos e, vindo pela poesia, fico embevecido com Manoel Bandeira, o Drummond, João Cabral de Mello Neto, esses homens que eu conheci. A poesia em prosa de Rubem Braga, que é meu coração, Millôr Fernandes com seu humor sábio, e esses contistas dos anos 60 para cá, uma geração nova. Sabendo que a gente já passou por Machado de Assis, pela poesia de Olavo Bilac, enfim, tudo baseado no conhecimento da curiosidade pela literatura de minha época de colégio. Meus ídolos são fáceis de identificar, são os que todo mundo gosta. E Jorge Amado é meu irmão.”


Artes plásticas. “Na pintura, de saída, são os impressionistas, sendo que quando a gente começa a ver os impressionistas, descobre que os grandes nomes de desenho eram grandes conhecedores do Clássico, da Renascença. Eu fico com uma multidão de impressionistas e vou até Michelangelo, Da Vinci. Depois de todo esse mistério, me ficaram umas paixões especiais. São três ou quatro ídolos. Picasso, Van Gogh, Modigliani e o grande mestre, com todo o meu respeito, Paul Cézanne. A gente fala em Gauguin mas o Cézanne para mim tem aquele conhecimento de raiz, do que faz um negócio poderoso. Esses são meus ídolos, minhas paixões que eu mantenho.”


Jazz. “Os ataques de Jimmie Lunceford, as entradas dos metais e das palhetas, eu tive discos em 78 rotações de gravações extraordinárias. My mamma don't told me.... pe-re-ri-ro-ro-ri.....(Caymmi entoa quase toda a primeira parte de Blues in the night gravada pela orquestra de Jimmie Lunceford em 1941). Foi uma cachaça de coisas boas. Sy Oliver é um grande arranjador. Ele fazia o negócio com uma sensibilidade, escrevendo para aqueles instrumentos, jogando os trombones e pistons, aquele jogo de metais em que se destacava um Ziggy Elman na orquestra de Tommy Dorsey (embora tivesse ganhado fama com Benny Goodman, Ziggy também foi destaque na orquestra de Tommy Dorsey. Sy Oliver foi arranjador de Lunceford e de Dorsey). Eu e Haroldo Barbosa encontrávamos as pessoas que gostavam dessas coisas como a gente, íamos atrás dos filmes, amigos de São Paulo e até fora do jazz, sem falar daqueles primeiros, sem falar de Scott Joplin do ragtime nem do Jelly Roll Morton.”


Portinari, Guignard. “Agora, na pintura brasileira, a gente fica no que acontece. Portinari, Da Costa, pessoas que a gente conheceu, Ivan Serpa. Não faço uma avaliação da vanguarda, não tenho preconceito, quanto mais se inventa, mais se descobre, mais se agita. Da época do Tropicalismo temos Oiticica, a Ligia Clark e os bichos dela, aí você vê que tem uma coisa se agigantando, tem o trabalho em gravuras e litografias de Fayga Ostrower. No Rio de Janeiro eu tinha um pouco de contato, mas o forte mesmo seria Augusto Rodrigues, umas visitas a Portinari, Guignard, que eu conheci em Minas. Mas a verdade é que em São Paulo é que eu tive um alicerce muito bom, frequentando permanentemente galerias e museus, acompanhando o nascimento do museu do Chateaubriand na Rua Sete de Abril, até o Masp dos Bardi e pessoas como Ciccilo Matarazzo. Então, Clovis Graciano e Rebolo Gonsales são amizades que tive sempre no coração. Sobretudo Clovis Graciano, que nunca me deixou ficar em hotel. Ele até me descobriu num hotel chamado São Sebastião, eu estava lá escondido, ele bateu na porta e disse: ‘Está escondido aí, né? Vá pra casa na Rua Tupi, perto do Pacaembu’. E toda vez que punha os pés em São Paulo, me hospedava com Clovis, Aparecida e os dois meninos, o Zé Roberto e o Paulo Sergio, que vi crescer. Tenho grande respeito à memória de meu querido Clovis, homem de princípios, de grande equilíbrio, grande artista plástico. Tenho esse prêmio de São Paulo, a amizade com Clovis Graciano. É o meu conhecimento de leve das artes plásticas.”


Pintor. “Eu pinto muito pouco. Em 1988 nada, nem um rabisco. Estou desarmado, pois não tenho um ponto meu. A época em que mais pintei foi quando fiz muitos retratos, o meu, um de Stella, que é o segundo em que me aventurei em óleo. Nos anos 40, vários amigos meus da área de música acharam uma loucura eu me meter em pintura e deixar a música. Até o Jorge Amado disse ‘não deixem ele pintar não, o negócio dele é música’. Eu sei que estou me aventurando em pintura, mas é mais uma paixão para eu manipular esse negócio da cor.”


Música e pintura. “Aí é que está, eu fiz música e algumas frases bonitas surgiram justamente quando estava pintando e desenhando, muito soltinho, abstraído comigo mesmo. A maior parte de João Valentão fiz desenhando. Fiz Maracangalha toda pintando um autorretrato, sempre envolvido com cavalete, tinta, muito papel, eu estava dentro da minha vida brincando com as tintas e, de repente, fazia uma música. Acho que esse mecanismo me ajudou a fazer música. A gente encontra umas coisinhas que todo compositor gosta, uma palavrinha misteriosa, uns achadozinhos, que coisa boa. Quer ver um exemplo? Ainda lá, naquela música: ‘Adalgisa mandou dizer / que a Bahia está viva ainda lá.’ O ainda lá me pareceu muito bonito.”


Um homem triste? “Eu não sou de guardar tristezas. Só vou para a cama quando estou totalmente lavado por dentro. Só depois me deito, mesmo quando estou de digestão feita, leio um bocadinho antes de dormir e limpo a cabeça de todos os problemas do dia. Vou direto até de manhã e me acordo com a luz do dia. Quem me acorda sempre é o sol. Por uma greta que haja. Tomo água em jejum desde 16 anos. E acho uma terapia fabulosa, me dá uma energia, uma tranquilidade. Tenho uma moringa de barro que é a verdadeira. Primeiro, uns três ou quatro goles. Depois, aquele copázio. E depois é que vou pensar.

Por dentro sou um homem que me sinto feliz porque consigo não levar à sério apreensões, a preocupação. Quando descobri que a partir dos 50 anos a vida é repetida, deixei de me preocupar. Nem consigo mesmo com a situação do mundo em volta. E me distraio muito com leitura, gosto de desenho e de pintura, fico de perder a hora da comida. Aí a Stella me aperta.”

Depois daquela pergunta de Stella no inicio, Caymmi veio ao telefone. Após breve e emocionada saudação, agradeci seu conselho. Disse-lhe que desde outubro de 1988, ao despertar, minha primeira ação é beber um copo de água em jejum que faz me sentir bem o dia todo. E a cada manhã, diariamente, sinto a presença do sábio Dorival Caymmi.

http://infograficos.estadao.com.br/public/especiais/100-anos-de-caymmi/zuza.html


terça-feira, 29 de abril de 2014

Folclore. Folclore?



É sempre bonito ver quando alguém consegue cantar um tema assim chamado folclórico incorporando-o ao seu repertório sem rupturas. É sinal de que seus  pés estão bem fincados no chão, o que em música popular é fundamental. Mesmo a composição mais elaborada precisa manter este fio terra desimpedido, ou correrá o risco de se tornar mera teorização vazia, discussão intelectualizada – ou seja, vai deixando de ser arte, ou pelo menos arte popular.
Além disso, adoro comparar gravações. Gosto de ver como cada artista consegue trazer um tema escolhido para o seu universo musical, adaptando e adaptando-se, e muitas vezes revelando elementos fundamentais de seu trabalho que permanecem diluidos em outras músicas. Eventualmente, duas gravações da mesma música se distanciam enormemente, o que, sendo uma canção de domínio público, ao mesmo tempo é muito natural e pode ser espantoso.
Déa Trancoso é uma cantora mineira que mergulha fundo nas tradições populares. Gravou o seu primeiro CD, Tum Tum Tum em 2007 a partir do repertório musical do Vale do Jequitinhonha.
Wado é curitibano radicado em Alagoas, o que já dá uma boa medida de seu cosmopolitismo, e também de sua capacidade de misturar infuências. Gravou A Farsa do Samba Nublado, com a banda Realismo Fantástico, em 2004.
Mas há algo que considero talvez ainda mais interessante que isto: é quando o artista cria algo que tem ao mesmo tempo as características estéticas do seu trabalho, uma elaboração formal que dialogue com seus contemporâneos (ou com mestres), e uma identificação tal com a arte popular que pode mesmo vir a se confundir com o repertório folclórico. Volpi, nas artes plásticas, conseguiu isso, a meu ver. No campo da música brasileira, ninguém o fez melhor que Dorival.
Em tempo: Azymuth, trio de instrumentistas brasileiros radicados nos EUA, em atividade desde 1970 (!)
O cantor e compositor carioca Edu Krieger conta que um dia estava passando em frente a uma escola municipal, quando ouviu música no pátio, e se achegou ao portão para ouvir. Qual não foi sua surpresa ao reconhecer que uma ciranda sua estava sendo ensinada na aula de música. Ele ainda estava  gravando seu primeiro álbum, mas a canção já fora gravada por mais de uma cantora, como Rita de Cássia e Maria Rita. Edu esperou a aula acabar, pediu licença para falar com a professora e perguntou de onde ela conhecia a música. A professora então “informou” a ele que a canção era folclórica! Neste momento, Edu decidiu incluir a música no seu primeiro disco, antes que ela deixasse de ser dele e virasse folclórica…
P.S. Deixo para o final o esclarecimento, bem no espírito deste texto: a canção Grande Poder não é de domínio público, tem autor. E este é Mestre Verdelinho, um dos maiores coqueiros e repentistas de Alagoas, perito no pandeiro e no ganzá. Mestre Verdelinho faleceu dia 18 de março de 2010. A ele, um dos muitos que realizaram a fusão perfeita da arte popular, dedico este post.
http://tuliovillaca.wordpress.com/2010/06/08/folclore-folclore/

A utopia Itapuã

Nas aulas-show que já comentei e recomendei aqui intituladas O Fim da Canção, naRádio Batuta do Instituto Moreira Salles, José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski dissecam no capítulo Visões do Paraiso uma canção em particular:
Saudade de Itapuã (Coqueiro de Itapuã) – Dorival Caymmi

A análise de Wisnik e Nestrovski vai desde como Itapuã era um local afastado da cidade nos anos 40, assim como Salvador era uma cidade apartada culturalmente do Brasil, até detalhes da relação melodia/letra como a repetição de palavras estendida para o agudo usada como uma forma de evocação: o ouvinte é situado na praia de Itapuã enquanto escuta os primeiros versos, para só depois ser avisado de que se trata de uma lembrança: saudade de Itapuã, me deixa.
Mas o que mais me interessa, e que no fundo era o mote da análise, é esta construção do mito de um lugar, e a representação deste lugar, mesmo existente, como uma utopia de lugar, seja no passado ou no futuro, como um Brasil de alguma maneira possível, ainda que na lembrança de um paraíso perdido, mas que persiste na memória e nos guia ainda hoje.
Espera aí, será que não estou exagerando? Será que é possível extrair toda esta torrente de significações desta canção tão simples, como aliás todas do Dorival?
Itapuã – Caetano Veloso (ao vivo)

Wisnik cantou esta música, sem comentá-la, na sequência da enumeração de várias outras que exploram e desenvolvem a idealização de Itapuã como um lugar que, de real, torna-se lendário, e não somente de Itapuã. Maracangalha (a 57 km de Salvador), também de Dorival, assim como a Pasárgada (cidade da antiga Pérsia) do poema de Bandeira, existem ou existiram objetivamente, mas o que importa isso? Importa a simbolização do Paraíso Perdido.
Pois desde a carta de Caminha – que aportou na Bahia – que o Brasil é visto com uma espécie de paraíso reconquistado. Há suficiente literatura sobre isso, da citação famosa de Maiakovski: Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz, até a lenda irlandesa (!) da ilha encantada de Hi-Brasil, ou a também famosa frase de Stefan Zweig, na verdade o título de um de seus livros: Brasil, país do futuro.
Em Caymmi, Itapuã é presente, embora distante no espaço - ele pede ao vento que traga notícias de lá toda manhã. Já em Caetano, é recordação da infância, ou da inocência – distante no tempo. A canção é dividida em duas. A primeira parte, que retorna no fecho, em andamento mais lento, evoca recordações; a segunda e principal, mais movida, invoca a própria Itapuã e a faz presente:
Itapuã,
Quando tu me faltas, tuas palmas altas
mandam um vento a mim assim Caymmi
Ou seja, a canção pela qual Caetano faz a invocação de Itapuã é a própria canção de Caymmi, transfigurada. É Caymmi quem traz notícia de Itapuã para Caetano, toda vez que este precisa. Não à toa, é usado o mesmíssimo recurso de estender para o agudo a palavra do lugar recordado, logo no primeiro verso: Itapuã, logo depois, ainda mais agudo, Abaeté.
E na repetição de um verso inicial encerando a canção, fica claro que o que inicialmente soava como uma história de amor entre homem e mulher, na verdade tinha outro objeto:Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem. Ela é Itapuã, que, mesmo distante, faz-se presente: Nada estanca Itapuã, ainda sou feliz. A utopia de lugar serve de guia para a vida, para a busca desta utopia talvez.
E uma última pista parece reconfirmar esta leitura: na primeira gravação desta canção, no álbum Circuladô, Caetano chamou o filho Moreno para dividir os vocais, cantando inclusive os dois primeiros versos/chave. Caetano passa o bastão do país do futuro, levando seu filho não até Itapuã, mas até Caymmi, reconhecendo que Caymmi, cantando Itapuã, cantou a ilha, ou  melhor, a praia encantada de Hi-Brasil, onde parece que há um homem feliz.
http://tuliovillaca.wordpress.com/2011/02/15/a-utopia-itapua/

A ida sem volta de João Gilberto

por Luiz Nassif

Durante alguns meses, fui amigo de João Gilberto no Facebook. Durante este período, a revista Veja publicou uma falsa entrevista dele, em que teria dito, entre outras coisas, que iria fugir para a Argentina. Segundo a própria revista, tratava-se de uma compilação de declarações (algumas particulares e vazadas) arrancadas de João ao longo de um período. Se apenas a transformação de frases esparsas – e provavelmente algumas inventadas como esta declaração absurda acima – em entrevista já é uma prática antiética bem de acordo com o que a revista se tornou, nem falo do anúncio da revista, replicado por alguns jornais, de que o perfil no Facebook era falso. Não era. Este artigo de Luiz Nassif não trata de música, que é o mote deste blog, e sim da pessoa João Gilberto. Mas em se tratando de uma pessoa que se tornou sinônimo e encarnação de música, sua leitura é fundamental.
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João Gilberto provavelmente não mais voltará. Escondeu-se em alguma dobra do tempo, em algum mundo auto-referenciado, de onde aguarda o momento da partida definitiva.
Nos últimos anos eram nítidos os sinais dessa ida sem volta. A síndrome do pânico, ou o nome clínico que se dê às suas vulnerabilidades, o impediram de concretizar a última turnê, a despedida triunfal. Foram dois canos nas duas últimas excursões planejadas. Espocaram críticas, dos que viam nas suas estranhezas apenas um caráter excêntrico.
Era muito mais que isso: uma questão médica para a qual não havia diagnósticos na época.
Aqui no carnaval, caminho pelos jardins ouvindo Marilu interpretar “Porque é”, de Roberto Martins e Mário Rossi. É de 1942, quando a música carioca descobria a riqueza interminável do sincopado. Marilu escande cada sílaba em cada nota, usando o contratempo inserido na composição – os mesmos recursos dos conjuntos vocais, dos extraordinários Anjos do Inferno, da dupla Joel e Gaúcho.
Foi ali que os músicos mais sofisticados foram buscar a base, o molho e, depois, fizeram a síntese. Primeiro Garoto desenvolvendo a batida inicial da bossa nova. Depois, João Gilberto, assimilando a batida de Garoto e incluindo nela o Brasil.
Nem vou discorrer sobre a sua importância.
O que me importa é o homem João Gilberto.
Tempos atrás, surgiu o boato de que João Gilberto tinha um perfil no Facebook. Em pouco tempo o perfil lotou e os seguidores ganharam durante meses preciosidades da música brasileira e internacional em vídeos do Youtube.
O perfil ganhou visibilidade em dois momentos. Primeiro, no episódio em que a Vejinha do Rio publicou uma suposta entrevista com ele. Segundo, no caso da dona do apartamento de João Gilberto pretendendo despejá-lo.
Defendi-o dos ataques que sofreu, quando negou que tivesse concedido a entrevista à Veja. Surpreendi-me quando recebi uma mensagem reservada do tal perfil, agradecendo minha defesa e insistindo que jamais havia recebido o repórter ou qualquer jornalista da revista.
Depois, no episódio do despejo, escrevi uma crônica sugerindo o “tombamento” de João Gilberto.
Ele passou a se comunicar permanentemente comigo, da maneira mais discreta possível: clicando no CURTIR quando colocava algum vídeo que o interessava. Ou pedindo socorro.
Até então, meu único contato indireto com ele foi uma crônica que escrevi na Folha, quando completou 70 anos. Seu produtor me ligou pedindo para usar a crônica na divulgação de seus shows. Provavelmente, ele nem soube dessas tratativas. No episódio Veja, vários jornais sugeriram que o perfil do FB era fake.
Fiquei com um pé atrás, para não ser pego num trote. Conversamos muitas vezes, até que apliquei o teste definitivo. No período anterior ao do lançamento do Chega de Saudade, em 1957, foi feito um conjunto de gravações caseiras de João Gilberto,. Saraus entremeados de conversas, dicas musicais, avaliações de músicos. Consegui baixar da Internet durante o meio dia que ficou disponível, colocada pelo dono da casa depois que João Gilberto decidiu não autorizar seu lançamento em CD.
Em uma das conversas, o anfitrião pergunta a João Gilberto quem seria o maior violinista brasileiro. O próprio anfitrião se incumbe de desqualificar nada menos do que Baden Powell, em início de carreira. Baden tinha cometido a audácia de acompanhar a grande Ângela Maria, pecado indesculpável para a juventude esnobe e internacionalista da zona sul do Rio.
João Gilberto não entra na discussão sobre Baden, mas indica o melhor: Jacob, violonista que conheceu em São Paulo. O anfitrião pede para que ele toque algo de Jacob e João Gilberto diz que não consegue. A harmonia era muito sofisticada para seu nível de conhecimento do instrumento.
Só havia essa menção. Joguei a informação aqui no Blog, pretendendo identificar o tal do Jacob. Um mineiro de Diamantina garantiu tratar-se de um boêmio local, que morou em São Paulo, onde conheceu Garoto, e de quem João Gilberto teria se aproximado no período em que morou com a irmã – e que, segundo o livro do Rui Castro, teria descoberto a batida. Era um “causo” mineiro apenas.
Matei a charada em um sarau na casa de Walter Appel, em São Paulo, com o pessoal da bossa nova paulista, os antigos instrumentistas dos barzinhos de jazz dos anos 60 e 70. Foi o Luiz Roberto ou o Theo de Barros que me disse que o Jacob era o Edgard Gianullo, amigo dos tempos do Bar do Alemão, músico excepcional.
Conheci Edgard levado pelo Nelsinho Risada, caixa e cavaquinho do bar, que havia participado com ele de um conjunto vocal dos anos 50.
Depois, o Serginho Leite me contou que, em Nova York, quando foi visitar a loja da Tender (o grande fabricante de violão), na parede havia quadros com os melhores guitarristas que passaram por lá. E Edgard estava lá com seu sorriso escancarado, que ilustrou vários comerciais dos anos 80.
O único ponto em comum com a hipótese Diamantina era o fato de Edgard ter convivido com Garoto e bebido na sua influência. Aliás, outro dia o Paulo Vanzolini me contou que Garoto chegou a montar um bar na Major Sertório, frequentado pela boemia musical da cidade.
Uma noite, perguntei de chofre a João Gilberto quem era o Jacob, ao qual ele se referiu na gravação. A resposta foi imediata: era um rapaz de São Paulo, por volta de 18 anos. Justamente a idade de Edgard na época.
(aqui a confirmação da identidade de Edgard/Jacó, inclusive por Edgard Poças, testemunha da época, nos comentários)
Tempos depois, Danilo Caymmi também confirmou que era João no perfil.
Durante meses desenvolvemos uma conversa de poucas palavras. João escrevia colocando um ponto entre cada palavra. Assim: q.u.e.r.i.a..f.a.l.a.r..c.o.m..v.o.c.e. Ou clicava no CURTIR, quando eu fazia algum comentário em seus posts.
O que se revelou, naquela conversas reservadas, é o que qualquer pessoa de bom senso intuiria sobre suas extravagancias: uma pessoa extremamente vulnerável, sem nenhum sentido prático, indefesa ante um mundo em que havia pessoas, objetos, rotinas, contratos. Era incapaz de resolver os problemas mais comezinhos. Como trocar as cordas do violão, como me disse uma vez Raphael Rabello.
No episódio do despejo, escrevi uma coluna sugerindo o “tombamento” de João Gilberto. De noite, mandou mensagem agradecendo, indignado com a petulância da dona do apartamento, de pretender…. vistoriar seu próprio apartamento. Perguntou o que eu poderia fazer por ele. Respondi que apenas o que sabia fazer: podíamos marcar uma entrevista no Rio, filmada ou não, onde se mostraria seu lado humano e, com toda sutileza, as razões que o faziam ter tal comportamento, longe do estrelismo, perto dos problemas emocionais graves.
Topou, de início. Depois, recuou. Foi se aconselhar com Roberto Carvalho, ex-Rita Lee, que se tornara seu conselheiro mais próximo. E Roberto desaconselhou qualquer contato com a imprensa. Então, tá!
Duas vezes foi alvo de ataques virulentos de trolls. Cada ataque o deixava prostrado. No primeiro, desapareceu por vários dias. No segundo, veio pedir minha ajuda. Confessou estar apavorado e perguntou que providências poderia tomar.
Informei-me com uma procuradora conhecida, que me passou o telefone e e-mail de um local que poderia acolher a denúncia. Dias depois, pediu para esquecer. Descobriu que o ataque viera do filho de um amigo, solidário com Bebel em uma das brigas entre pai e filha.
Depois, espalhou-se que o autor do perfil, na verdade, seria seu filho Marcelo Gilberto. Não era, de fato. Se foi, pode ter sido por um período. Não naquele em que o perfil sabia o detalhe correto de uma conversa ocorrido em 1957.
Tempos depois, tentou-se a derradeira excursão. Mais uma vez João Gilberto falhou, como havia falhado algum tempo antes com duas empresarias cariocas – que depois o processariam.
Foi o último vestígio de sua presença vaga entre nós.
Para mim, ficou a lembrança de um dos últimos vídeos que postou no Facebook, a declaração apaixonada a seus dois grandes e únicos amores: a música e o Brasil. O “Canta Brasil” é uma declaração definitiva de amor.


http://tuliovillaca.wordpress.com/2013/02/14/a-ida-sem-volta-de-joao-gilberto-por-luiz-nassif/

sábado, 26 de abril de 2014

SEM SOSSEGO



Nei Duclós


Moras no mar, único jeito
de equilibrar teu incêndio
vento na saia e nos cabelos
brasas borrifadas pelo sal


Queimei a boca no poema
achei que era fácil escrever
jogas pesado, erro e acerto
vens sem me dar socorro


Não corro, fogo de outono
reservo o fôlego no instante
em que somas tempo louco


Corpo de fora, pele vermelha
desperdício de amor errante
coração no final do sossego




RETORNO - Imagem desta edição: Mônica Vitti.


http://outubro.blogspot.com.br/2014/04/sem-sossego_26.html

Bom dia, Cinderela


Dilma Rousseff, por Tàssies.

Fernando Gabeira* - O Estado de S.Paulo


As pesquisas eleitorais recentes mostram Dilma Rousseff em queda. Quando se está caindo, a gente normalmente diz opa!. Não creio, porém, que Dilma vá dizer opa! e recuperar o equilíbrio. Além dos problemas de seu governo, ela é mal aconselhada por Lula nos dois temas que polarizam a cena política: Petrobrás e Copa do Mundo.

São cada vez mais claras as evidências de que se perdeu muito dinheiro em Pasadena. Lula, no entanto, não acredita nas evidências, mas nas versões. Se o seu conselho é partir para a ofensiva quando se perdem quase US$ 2 bilhões, a agressividade será redobrada quando a perda for de US$ 4 bilhões e, se for de US$ 6 bilhões, o mais sábio será chegar caindo de porrada nos adversários antes que comecem a reclamar.

Partir para a ofensiva na Copa do Mundo? Não é melhor deixar isso para os atacantes Neymar e Fred? Desde o ano passado ficou claro que muitas pessoas não compartilham o otimismo do governo nem consideram acertada a decisão de hospedar a Copa.

O governo acha que sufoca as evidências. O próximo passo desse voluntarismo é controlar as evidências. O papel do IBGE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por exemplo, começa a ser deformado pelo aparelhamento político. Pesquisas que contrariam os números de desemprego são suspensas. E o Ipea foi trabalhar estatísticas para Nicolás Maduro, que acredita ver Hugo Chávez transmutado em passarinho e, com essa tendência ao realismo mágico, deve detestar os números.

Controlar as evidências, determinar as sentenças pela escolha de ministros simpáticos à causa, tudo isso é a expressão de uma vontade autoritária que vê a oposição como vê os números desfavoráveis: algo que deva ser banido do mundo real. A visão de que o País seria melhor sem uma oposição, formada por inimigos da Petrobrás e por gente que torce contra a Copa, empobrece e envenena o debate político.

Desde o mensalão até agora o PT decidiu brigar com os fatos, e isso pode ter tido influência na queda de Dilma nas pesquisas. O partido foi incapaz, embora figuras como Olívio Dutra o tenham feito, de reconhecer seus erros. Está sendo incapaz de admitir os prejuízos que sua política de alianças impôs à Petrobrás ou mesmo que a Copa do Mundo foi pensada num contexto de crescimento e destinava-se a mostrar nossa exuberância econômica e capacidade de organização a todo o planeta. Gilberto Carvalho revelou sua perplexidade: achava que a conquista da Copa seria saudada por todos, mas as pessoas atacaram o governo por causa dela.

Bom dia, Cinderela. O mundo mudou. Dilma e o PT não perceberam, no seu sono, que as condições são outras. Brigar com os fatos num contexto de crescimento econômico deu a Lula a sensação de onipotência, uma crença do tipo "deixa conosco que a gente resolve na conversa". Hoje, em vez de contestar fatos, o PT estigmatiza a oposição como força do atraso. Ele se comporta como se a exclusão dos adversários da cena política e cultural fosse uma bênção para o Brasil. A concepção de aniquilar o outro não é vivida com culpa por certa esquerda, porque ela se move num script histórico que prevê o aniquilamento de uma classe pela outra. O que acabará com os adversários é a inexorável lei da história, eles apenas dão um empurrão.

Sabemos que a verdade é mais nuançada. O governo mantém excelentes relações com o empresariado que financia por meio do BNDES e com os fornecedores de estatais como a Petrobrás. Não se trata de luta de classes, mas de quem está se dando bem com a situação contra quem está ou protestando ou pedindo investigações rigorosas contra a roubalheira, na Petrobrás ou na Copa.

A aliança do governo é aberta a todos os que possam ser controlados, pois o controle é um objetivo permanente. Tudo o que escapa, evidências, vozes dissonantes, estatísticas indesejáveis, tudo é condenado à lata de lixo da História. Felizmente, a História não se faz com líderes que preferem partir para cima a dialogar diante de evidências negativas, tanto na Petrobrás como na Copa ou no mensalão. Nem com partidos incapazes de rever sua tática diante de situações econômicas modificadas.

Dilma, com a queda continuada nas pesquisas, sai da área de conforto e cai no mundo em que os candidatos dependem muito de si próprios e não contam com vitória antecipada pelo peso da máquina. Será a hora de pôr de novo em xeque a onipotente tática de eleger um poste. Nem o poste nem seu inventor hoje conseguem iluminar sequer um pedaço de rua. Estão mergulhados no escuro e comandarão um exército de blogueiros amestrados para nublar as redes sociais. Com a máquina do Estado, o prestígio de Lula, muita grana em propaganda e na própria campanha eleitoral, o governo tem um poderoso aparato para enfrentar a realidade. Mas essa abundância de recursos não basta. Num momento como este no País, será preciso horizonte, olhar um pouco adiante das eleições e estabelecer um debate baseado no respeito às evidências.

Esse é um dos caminhos possíveis para recuperar o interesse pela política. No momento, a resposta ao cinismo é a indiferença com forte tendência ao voto em branco ou nulo. Embora a oposição também seja parte do jogo, a multidão que dá as costas para a escolha de um presidente é uma obra do PT que subiu ao poder, em 2002, prometendo ampliar o interesse nacional pela política, mas conseguiu, na verdade, reduzi-lo dramaticamente. Para quem se importa só com a vitória eleitoral, essa questão da legitimidade não conta. Mas é o tipo de cegueira que nos mantém no atraso político e na ilusão de que adversários são inimigos. O PT comanda um estranho caso de governo cujo discurso nega o próprio slogan: Brasil, um país de todos. De todos os que concordam com a sua política.

Até nas relações exteriores o viés partidário sufocou o nacional, atrelando o País aos vizinhos, alguns com sonhos bolivarianos, e afastando-o dos grandes centros tecnológicos. Contestar esse caminho quase exclusivo é defender interesses americanos; denunciar corrupção na empresa é ser contra a Petrobrás; assim como questionar a Copa é torcer contra o Brasil.

Bom dia, Cinderela, acorde. Em 2014 você pode se afogar nos próprios mitos.

*Fernando Gabeira é jornalista.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bom-dia-cinderela,1158322,0.htm

terça-feira, 22 de abril de 2014

Carybé's photo.

Carybé





'Foram dois namorados felizes entre a multidão, e até chegaram a suspeitar que o amor podia ser um sentimento mais repousado e profundo que a felicidade arrebatada, mas momentânea, das suas noites secretas.'

Cem Anos de Solidão
Gabriel Garcia Marques

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Hay Amores - Shakira -



La cantautora colombiana Shakira se despidió de su amigo y compatriota el escritor Gabriel García Márquez, fallecido hoy a los 87 años en Ciudad de México, y elogió su vida como "un regalo único e irrepetible, y como el más original de los relatos".

La artista lamentó la muerte del Nobel de Literatura de 1982 en su página de internet, en Twitter y en Instagram, donde además colgó una foto en la que aparece abrazada muy sonriente al genio de las letras.

"Querido Gabo, alguna vez dijiste que la vida no es la que uno vivió sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla", parafraseó la cantante barranquillera.

Y prosiguió: "Tu vida querido Gabo la recordaremos como un regalo único e irrepetible, y como el más original de los relatos. ¡Es difícil despedirse de ti, puesto que nos has dado tanto! Te quedarás para siempre conmigo y con todos los que te quisimos y admiramos".

Shakira, quien interpretó la canción "Hay amores" en la banda sonora de la película basada en la novela "El amor en los tiempos del cólera", mantuvo una cercana relación con el escritor, con el que además compartía procedencia en la región Caribe colombiana.


domingo, 20 de abril de 2014

GABRIEL GARCIA MARQUEZ: WHAT I'VE LEARNED


People often ask me: Who have you never been able to interview for the What I’ve Learned column that you’d most like to spend time with?
That man died yesterday. Gabriel Garcia Marquez.
Well, he didn’t really die. Nobody who writes great literature ever dies.
I wish I could re-create the sensation that surged through me when I first opened One Hundred Years of Solitude at the age of 22. It was like looking at stars for the first time from an untouched spot in the middle of The Amazon or The Sahara. You realize in moments like those that the world offers a much deeper and more vivid experience than you could’ve possibly imagined. You’re in God’s mind.
I will never be able to know the combustion of that book and the age of 22 again. That pulsing of cosmic electricity and excitement only visits once. But I did figure out a way to do that What I’ve Learned. I journeyed through sites on the Internet to compile some wisdom originating in Gabo’s books and interviews.
It turned a day that would have been tinged with sadness into hours of soft smiles as each nugget was uncovered. And as the maestro himself advised: “Never stop smiling not even when you're sad, someone might fall in love with your smile.”
So here it is. An interview that couldn’t be more truthful even though it never happened. What I’ve Learned, from Gabriel Garcia Marquez:
No matter what, nobody can take away the dances you’ve already had.
Just as real events are forgotten, some that never were can be in our memories as if they happened.
Sex is the consolation you have when you can't have love.
Fiction was invented the day Jonah arrived home and told his wife that he was three days late because he had been swallowed by a whale.
Then the writing became so fluid that I sometimes felt as if I were writing for the sheer pleasure of telling a story, which may be the human condition that most resembles levitation.
Wisdom comes to us when it can no longer do any good.
The problem in public life is learning to overcome terror; the problem in married life is learning to overcome boredom.
No medicine cures what happiness cannot.
The day shit is worth money, poor people will be born without an asshole.
A person does not belong to a place until there is someone dead under the ground.
The only thing worse than bad health is a bad name.
I don't believe in God, but I'm afraid of Him.
It is not true that people stop pursuing dreams because they grow old, they grow old because they stop pursuing dreams.
Age isn't how old you are but how old you feel.
Inspiration gives no warnings.
Always remember that the most important thing in a good marriage is not happiness, but stability.
The heart's memory eliminates the bad and magnifies the good.
It is like a firstborn son: you spend your life working for him, sacrificing everything for him, and at the moment of truth he does just as he pleases.
Justice limps along, but gets there all the same.
A lie is more comfortable than doubt, more useful than love, more lasting than truth.
Crazy people are not crazy if one accepts their reasoning.
One does not love one’s children just because they are one’s children but because of the friendship formed while raising them.
Shame has a poor memory.
The world must be all fucked up when men travel first class and literature goes as freight.
He who awaits much can expect little.
A falcon who chases a warlike crane can only hope for a life of pain.
One minute of reconciliation is worth more than a whole life of friendship.
Nobody deserves your tears, but whoever deserves them will not make you cry.
I don’t think you can write a book that’s worth anything without extraordinary discipline.
A true friend is the one who holds your hand and touches your heart.
All human beings have three lives: public, private, and secret.
If men gave birth, they'd be less inconsiderate.
How strange women are.
Don't let yourself die without knowing the wonder of fucking with love.
Jealousy knows more than truth does.
I have learned that a man has the right and obligation to look down at another man, only when that man needs help to get up from the ground.
In the end, it is impossible not to become what others believe you are. 
Ceasing to believe caused a permanent scar in the place where one's faith had been, making it impossible to forget. 
One ages more and with more intensity in pictures than in reality. 
With The Thousand and One Nights, I learned and never forgot that we should read only those books that force us to reread them. 
I can't think of any film that improved on a good novel, but I can think of many good films that came from very bad novels.
Literature was the best plaything that had ever been invented to make fun of people.
An early-rising man is a good spouse but a bad husband. 
Everything that goes into my mouth seems to make me fat, everything that comes out of my mouth embarrasses me.
Fame is very agreeable, but the bad thing is that it goes on 24 hours a day.
Fiction has helped my journalism because it has given it literary value. Journalism has helped my fiction because it has kept me in a close relationship with reality.
To all, I would say how mistaken they are when they think that they stop falling in love when they grow old, without knowing that they grow old when they stop falling in love...
There is always something left to love.
Courage did not come from the need to survive, or from a brute indifference inherited from someone else, but from a driving need for love which no obstacle in this world or the next world will break.
The secret of a good old age is simply an honorable pact with solitude.
Nobody teaches life anything. 
The only regret I will have in dying is if it is not for love. 
Be calm. God awaits you at the door.
http://www.esquire.com/blogs/culture/what-ive-learned-gabriel-garcia-marquez?src=spr_TWITTER&spr_id=1456_53821037