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domingo, 26 de abril de 2015

Antônio Henrique do Amaral (São Paulo, 24 de agosto de 1935 - São Paulo, 24 de abril de 2015)




"Em entrevistas e depoimentos, Antonio Henrique antecipa-se à crítica. É tomado de uma urgência de compreensão especialmente quando sua obra passa por mudanças evidentes. Quer entender os saltos que acontecem na pintura e os sobressaltos da vida, compreender para si mesmo e se fazer compreendido. A reflexão não se restringe a ruminar o contingente, visa esclarecer a condição existencial do seu fazer artístico. Para tanto, analisa, divide, corta, para depois se mostrar refeito perante o outro...

...Sua história começa em São Paulo. "Na minha casa era tudo verbal, conta ele. Palavras, palavras, muitas palavras e livros, muitos livros, discussões, conversas e um clima de inquietação política e idéias em geral, mas nada que me induzisse particularmente à arte. O desenho era coisa íntima, um mundo só meu ".

(Trecho de "Verso e Reverso da Figura ", Maria Alice Milliet, no livro
Antonio Henrique Amaral - Obra em Processo, 1997 )

“bananas”








O espírito da obra é um pouco isso mesmo. Como escreveu o filosofo e brilhante pensador Vilém Flusser, em um ensaio escrito em 1974 depois de uma visita ao meu estúdio em Nova York, é uma reflexão visual sobre o sadomasoquismo da realidade brasileira, da relação sadomasoquista entre autoridade e povo.


Antonio Henrique Amaral
Jardel Dias Cavalcanti

ENTREVISTAS 

Segunda-feira, 10/1/2011





Através do artista plástico paulistano Sergio Niculitcheffconseguimos marcar uma entrevista com Antonio Henrique Amaral. Participaram do encontro, além de mim, o artista Marcos Ribeiro,Décia Foster (que no momento pesquisava a arte política de Amaral) e o próprio Niculitcheff. A entrevista foi gravada e transcrita por mim. O que se publica aqui é apenas uma parte da agradável e longa conversa que se deu no atelier do artista, no Butantã, em São Paulo, em outubro de 2009 e, em seguida, por e-mail, em novembro de 2010. A entrevista é inédita.

Antonio Henrique Amaral relembra e explica algumas de suas obras políticas, feitas no período militar, como, por exemplo, seus trabalhos sobre o assassinato de Vladimir Herzog. Debate também questões sobre a arte contemporânea, avalia artistas e carreiras artísticas, como a de Hélio Oiticica, pensa ainda o governo Lula e reflete sobre os processos que envolvem a criação em arte. ― JDC

Décia: Durante o período em que o sr. fez obras de caráter político, com o objetivo de criticar e debochar da ditadura, houve algum momento em que se sentiu ameaçado ou afrontado?

Na verdade, não. Mas houve dois episódios, um no qual uma obra minha foi retirada da Bienal da Bahia, foi censurada, e depois em 1971, quando fui convidado para expor em Washington, na Galeria da União Panamericana, no prédio da OEA. O adido militar brasileiro que estava no dia da inauguração, General Montanha, me perguntou o que eu queria dizer com aquelas bananas, pois só tinha bananas na exposição. Aí eu tive que enrolar, dizendo que era apenas uma pesquisa formal; tergiversei, pois não podia dizer que eu fiz isso porque eu achava que o Brasil estava se transformando numaBanana Republic... Mas, enfim, senti que ele não ficou muito à vontade com a exposição.

Jardel: Isso ainda no período militar?

Sim, isso no período militar, 1971. Aí eu fui para Londres e inaugurei uma exposição onde aluguei macacos, e na inauguração foi servido coquetel de banana, caipirinha de banana e havia macaquinhos vestidos de verde e amarelo, que ficavam pulando no ombro das pessoas. Foi um sucesso. Mas não houve ameaça pessoal. Porque os militares estavam mais preocupados com a música popular, que atinge mais público. Teatro também. Eles estavam invocados com o teatro e o cinema, essas manifestações de massa. Porque as artes plásticas, a gente sabe, é para um público muito pequeno e, de certa forma, inofensivo politicamente... E outra coisa: quando eu expus a série de bananas, os jornais e a crítica falaram muito; então eles deitavam e rolavam em cima dos meus trabalhos, porque era uma maneira de, indiretamente, fazer uma crítica, uma sátira, uma zombaria do governo militar, dessa autoridade opressiva. E é difícil o cara se expor ao ridículo censurando uma exposição de bananas. Então, o recado passava.

Jardel: Quer dizer, então, que com as bananas o seu interesse era comentar a ditadura?

Sim, comentar a Banana Republic que os militares estavam construindo aqui no Brasil, e também aprender a pintar, sempre aprendendo a pintar, desenhar...

Jardel: A narrativa, da banana, estava pronta na cabeça do senhor primeiro sendo amarrada, até, em seguida, ela ser esquartejada?

Essa ideia da banana me surgiu depois das bocas e das xilogravuras dos Generais de 1964, 65... Eu pintava as bocas antes. Os Generaisjá tinham uma abordagem sarcástica com as línguas, com os generais montados em burros ao contrário, tudo isso com as xilogravuras. Agora, quando eu vi a montagem da peça do Zé Celso Martinez, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, aí foi uma revelação para mim, aquele espírito oswaldiano de deboche, de ironia, sarcasmo, de O Rei da Vela, que era um texto muito crítico da nossa realidade, do provincianismo de nossas elites, do atraso cultural de nosso povo em relação ao resto do mundo ocidental, da cópia descarada das modas francesa, americana, europeia. Então eu pensei: por que não as bananas? E a primeira exposição causou muito impacto, pois só tinha banana. "Como? Só banana?" Eu queria deixar bem explícito o que eu estava fazendo, deixar bem claro o comentário, entende? Então era só banana mesmo.

Jardel: Essa série da banana que está amarrada, depois destruída, isso parece o calvário de um preso político que é preso, amarrado, pendurado e depois torturado.

O espírito da obra é um pouco isso mesmo. Como escreveu o filosofo e brilhante pensador Vilém Flusser, em um ensaio escrito em 1974 depois de uma visita ao meu estúdio em Nova York, é uma reflexão visual sobre o sadomasoquismo da realidade brasileira, da relação sadomasoquista entre autoridade e povo. Porque os militares achavam que a gente era idiota, que todos nós éramos idiotas e que eles é que tinham a verdade e sabiam o que fazer, e os civis, os trabalhadores, estudantes e os artistas eram todos inúteis e babacas, pessoas que deveriam ser silenciadas, amordaçadas, controladas e, se necessário, torturadas para não atrapalhar a marcha da ditadura... Aí, quando cheguei aos EUA, comecei a série dos Campos de Batalha. Foi uma forma de eu superar a fase das bananas, encerrar essa etapa de meu trabalho das bananas. A banana começava verde, inteira, depois sendo amarrada, cortada em pedaços e depois entraram os garfos e as facas. E eu pensei: eu não quero me encaixotar num tema.

O problema do artista é que muitas vezes tem sucesso numa determinada fase do seu trabalho e fica escravo daquela fase e não consegue sair. Di Cavalcanti pintou mulatas até o fim da vida. Eu falei: não vou entrar nessa, ficar encaixotado num período. Estou há trinta anos fazendo outras coisas. Inclusive, eu acho os outros caminhos muito mais ricos, porque é uma aventura muito mais perigosa. Você começa um trabalho como este aí e não sabe para onde vai [Antonio Henrique aponta para suas novas telas abstratas, ainda por terminar, no fundo do atelier.]

Sergio Niculitcheff: A coisa interessante do artista é isso, é o risco, cada novo trabalho é um novo risco, não é uma coisa pronta, cada trabalho é uma coisa nova.

Você só o vê quando termina. Picasso dizia que, se ele tivesse o quadro pronto na cabeça, ele nem pintava. Para que pintar se ele já está pronto na minha cabeça? Ele só vai ficar pronto depois de executado. Agora, a série das bananas foi construída, friamente calculada, eu desenhava as cordas, as bananas com cordas, eu as colocava na minha frente, amarrava com barbante e depois desenhava, fotografava, pintava...

Marcos Ribeiro: Sua obra foi marcada pelo surrealismotambém?

Eu acho que às vezes há uma conotação surrealista no sentido de que havia fantasia, não era inteiramente realista como estava na moda em Nova York, fotorrealismo. Não tenho muita preocupação de coerência estética ou teórica, nem temática, nem formal. A liberdade de ser e de não ser, de mudar, de se contradizer, de se aceitar com todas as incoerências do ser humano é um bem que o artista tem que preservar; seu espaço poder mudar a qualquer momento, de acordo com a solicitação interior. Mudar porque seu movimento interior exige que você mude. Baudelaire dizia que a obra de arte é determinada por dois fatores: um mais circunstancial, a Época, a Moda, a Moral, a Paixão. E outro mais eterno, pela Busca Interior do homem para achar respostas para as questões fundamentais do ser humano: quem somos, de onde viemos, para onde vamos e o que fazemos aqui e por quê... O que significa tudo isto, a vida, o Universo... Não é, Sérgio?

Sergio Niculitheff: Por uma necessidade interior, não é?

Por uma necessidade interior, espiritual. Porque é uma necessidade sua... Eu recusei muitos convites para exposições quando terminei a fase das bananas. Recusei, porque não pintava mais as bananas... A busca era outra... Chega uma hora em que a razão de ser de alguma coisa se encerra, outras coisas, outras buscas se impõem. Quando uma coisa morre, outra coisa nasce.

Jardel: Uma coisa que eu queria saber é se havia por parte do sr. um engajamento, leituras marxistas, partidarismo etc.

Não, nenhum. Nunca fui marxista, socialista ou esquerdista... Era, sim, contra a Ditadura Militar Brasileira. O Mário Pedrosa uma vez me perguntou por que eu não era comunista. Ele e o Ferreira Gullarna época eram comunistas. Eu não era comunista; para mim, ser membro do Partido Comunista é como ser encerrado dentro de uma casa, e eu prefiro andar na rua. Eu quero ver a paisagem, eu quero ver o que está acontecendo na rua. Não quero ficar dentro de um quadro partidário e pautar minha vida de acordo com princípios partidários, teóricos, fixos, rígidos e divididos de socialismo, capitalismo, elite, povo, esquerda, direita. A coisa é muito mais complicada, mais complexa. Eu não me enquadro nisso, falei para o Mário Pedrosa. Ele dizia: "Mas você devia ser comunista". Nos anos 70 era bacana ser comunista. O Niemeyer, até hoje, o Jorge Amado, Picasso, era bacana você ser comunista. E mais ainda se você fosse elite cultural, social...

Jardel: Havia também uma patrulha que exigia que as pessoas se filiassem.

É, tinha isso. Agora, veja bem, o Gullar, por exemplo, é um homem que eu admiro porque teve a coragem de romper com tudo isso. Rompeu com o socialismo, o comunismo, chegou um momento em que ele disse: "isso não é exatamente o que eu acredito hoje em dia". Então, ele renovou, ele mudou. Durante uma época você é comunista, depois de uma reflexão você percebe que aquilo não funciona. Ele teve a coragem de mudar.

Todos nós erramos, mesmo diante desses fatos recentes. Mas quem não tem acesso à informação erra mais porque sabe menos. Se você não tem informação, não tem o mínimo de cultura, de experiência administrativa, você vai errar mais e vai ser usado por políticos espertalhões que sabem como se maneja o poder. Foi o que aconteceu com o Lula e o PT, no episódio do Mensalão... Socialmente, o fato de ter desenvolvido o Bolsa Família e propiciar mais alimento e mais consumo pra uma considerável parcela da população brasileira é positivo, foi um passo adiante: Lula de certa maneira veio harmonizar o Sul com o Norte, os ricos banqueiros com o povão necessitado, sem criar atritos sociais muito fortes... Quase não houve greves nem conflitos nos últimos anos, com exceção dos cidadãos comendo e consumindo mais... Isso é o lado positivo, muito positivo para o desenvolvimento econômico do país... se será um fator de evolução de nossa qualidade de vida, temos que esperar para ver...

Décia: E com todos esses acontecimentos o sr. não tem vontade de voltar a trabalhar com temas políticos?

Não tenho saco (risos). Outra vez, fazer comentários políticos?! Eu fazia nas ilustrações que são bastante mordazes [Antonio Henrique ilustrava a coluna dominical de Ferreira Gullar, no jornal Folha de São Paulo.] Uma das últimas que fiz, por exemplo, é o Lula no meio de notas de dólares, de cruzeiros e reais. Eu penso, mas a arte... a política... é um aspecto da vida, mas não é tudo, nós temos outras preocupações que transcendem a realidade política.

Sergio Niculitcheff: Inclusive, eu queria comentar uma coisa sobre a série das bananas, que é importante por causa da ditadura, mas independente disso tudo é uma excelente pintura, o valor não é somente por causa do tema.

Eu aprendi a pintar através das bananas. Quando eu conheci aTarsila [do Amaral], em 1970, ela já estava velhinha, numa cadeira de rodas, foi na rua Augusta, numa galeria, e ela me disse: "interessante sua forma de aprender a pintar usando a banana". É pintura, claro... Interessante o que você falou. É sempre pintura, é sempre um exercício de pintura.

Jardel: Vamos voltar aos anos 70. Por exemplo, o caso Herzog. Como foi a notícia da morte dele e esses seus quadros sobre ele?

A notícia da morte dele... eu me lembro até hoje, foi manchete em todos os jornais... O Herzog era um cara que frequentava as galerias de arte, ia às inaugurações de exposições, ele e a mulher dele, a Clarice. Era um cara de trinta e poucos anos, jovem, diretor de jornalismo da TV Cultura. E de repente ele vai depor, todo mundo sabia que ele ia depor, e no dia seguinte aparece a notícia da morte dele. Foi um choque, saiu no Estadão em página inteira, no Jornal da Tarde. Sob esse impacto eu resolvi pintar quatro quadros que eram A Morte no Sábado ― Tributo à morte de Vladimir Herzog. O fato de os militares matarem uma pessoa dessa qualidade humana, cultural, foi um choque, e o cinismo brutal de tentar afirmar que tinha sido suicídio...! Um horror!

Jardel: Houve censura aos quadros nessa época ou não?

Não foram imediatamente expostos. Quando completou um ano da morte dele eu os doei para o Sindicato dos Jornalistas. Depois começaram a serem expostos em exposições.

Jardel: Mas o povo não tinha acesso...

Não tinha. O povo sempre teve pouco acesso à cultura, o povo sempre teve muito acesso ao futebol, às noticias sobre futebol, com o apoio de toda a elite política que se protege à sombra do noticiário futebolístico... O fato de a gente fazer coisas que não são imediatas, que não são claras, exige que as pessoas pensem, se informem, sintam, abram a cabeça. É o papel civilizador da arte. Música popular é de consumo imediato, o cara não precisa pensar, a letra entra, sai. Claro que tem compositores como Chico Buarque,Caetano Veloso, Gil, Vinicius, Tom Jobim e tantos outros que fazem musica para a pessoa ficar mais alerta. Mas, em geral, o povo brasileiro gosta mesmo é de música que entra por um ouvido e sai pelo outro...! "Eguinha Pocotó" e coisas do gênero...!

Décia: A fase das bananas foi mais zombando, mas o caso Herzog foi um grande impacto que o fez expressar seu sentimento de revolta?

Exatamente. Porque houve outras mortes. Mas foi emblemática a morte de Herzog. Também o caso do filho da Zuzu Angel, o caso doPaiva, que foi jogado do avião... Como o Herzog era um jornalista da TV Cultura, tinha uma projeção maior do que o Paiva, que era um ativista. No fundo essa obra vale para todos os mortos, vítimas da violência da ditadura militar.

Marcos Ribeiro: O Ferreira Gullar tem uma visão particular sobre a arte contemporânea. Você concorda com ele ou gosta de alguns modelos de arte que se pratica hoje?

O Gullar é radicalmente contra uma série de coisas... Ele acha isso e aquilo um desastre. Eu sou mais tolerante. Mesmo que eu não entenda (risos). Mesmo que eu não compartilhe. Muita gente curte, portanto, deve-se aceitar muita coisa nova que vem com as novas gerações...

Jardel: E o que acha dessa coisa nos anos 60 e 70, por exemplo, dos objetos, fim do suporte, aquela coisa toda?

Isso mexia com a gente, porque nos anos 60 havia a performance, a arte conceitual. Eu cheguei a Nova York e isso estava muito na moda, a body art, Beuys, a influência de Marcel Duchamp. Eu fui a uma performance, do Vito Acconci, era uma dentro de um loft, alguns convidados em volta e ele se açoitando, entendeu? (risos). Tinha gente sangrando ali no meio. Tinha aquele alemão que se mutilou. Isso era a body art, performance. Ele acreditava; é um artista muito considerado na Europa.

Eu acho que a arte é coisa de vida, vital. Tem que se trabalhar para o ser humano de alguma maneira... Ninguém quer destruir nada. Eles fazem isso achando que estão construindo... Minha maneira de construir, a maneira do Niculitcheff, é outra. É o trabalho do pintor, do desenho... Se é antiga ou não... A gente nunca sabe o que é melhor... Para mim são achados inteligentes. Agora, se o achado inteligente é arte, e se é boa arte, só o tempo vai dizer. O que vai sobrar disso? Só vamos saber com o tempo. Pesquisar novas formas de se expressar é sempre positivo.

Sergio Niculitcheff: É uma coisa que só o tempo vai peneirar mesmo. Na minha época havia vários artistas que foram fazer outra coisa da vida.

Décia: Depois, o que fica?

O Gullar é o único que tem coragem, com razão ou sem razão, de se opor a isso. De refletir e expor sua posição contrária a determinadas instalações bizarras... Por isso é admirado por uns e odiado por outros.

Todos: Odiado pela maioria...

A maioria acha que ele é reacionário. Ele está tendo coragem de expressar a opinião dele. Ele está sendo honesto com o que acredita. Eu admiro isso nele. Mas as opiniões dele são as dele...

Marcos Ribeiro: Ele está questionando a gratuidade contemporânea...

A gente não sabe o que é modismo, o que é mercado, e o que permanece, o que tem mais consistência... só o tempo vai peneirar. Certas linguagens atuais me são completamente indiferentes, não me dizem nada, não me sensibilizam... Talvez seja uma deficiência de minha capacidade de percepção ou a coisa realmente não estar bem proposta... Vai saber... um dia o tempo nos dirá. Talvez estejamos sendo superados pelas novas tendências hegemônicas, quem sabe a gente vai envelhecendo e perdendo a sintonia com as novas linguagens, pode ser... Sempre acontece isso nas gerações que se sucedem umas às outras. Sou e assumo que sou um artista que fez sua obra no século passado, no século XX. Como estamos no século XXI, vai saber...!

Sergio Niculitcheff: A gente tem um gosto, ele tem o seu... Mas independente da questão de gosto, acho legal que as pessoas estejam fazendo arte.

Com certeza, as pessoas têm é que se expressar. Essa "falta de respeito" às formas tradicionais é fundamental. Se a gente fosse fazer apenas o que é tradicionalmente aceito não haveria transformação e as linguagens se repetiriam... seria uma chatice!

Sergio Niculitcheff: Como a gente vê a coisa agora... já esfriou. Mas, na época...

Na época, fazer uma banana de dois metros amarrada e cortada por uma faca e espetada por um garfo, sangrando... O que é isso? Foi uma novidade, no seu contexto, hoje estamos em novo contexto...

A época hoje é complicada, pois estamos passando por uma rapidez tão grande em termos de transformações tecnológicas, e a arte procurando se entender com esta nova realidade... A tentativa de fazer vídeo-arte, arte cinética... Não, cinética, não, isso é passado, a arte eletrônica, com circuitos eletrônicos, computer art, internet...

Todo mundo decreta o fim da pintura e de repente aparece a pintura chinesa, a pintura italiana, a pintura alemã, os novos expressionistas alemães nos anos 80 e 90... A pintura estava morta nos anos 70, diziam que, com a arte conceitual e a performance, estava morta.

Houve uma performance nos EUA que a inauguração era o artista falando, aí o comprador... o que fazia? Comprava a conversa do cara (risos). A galeria vendia uma hora de conversa com o artista por 10 ou 20 mil dólares. O sujeito comprava e guardava a fita da conversa com aquele artista conhecido que saiu no New York Times.

Sergio Niculitcheff: Tem essa coisa de aceitar as várias linguagens, mas a questão do gosto deve ser colocada também. Tem coisas que eu reconheço que é arte, mas de que não gosto. Agora, a Bienal eu acho uma bomba. Vou ver apenas o que me interessa mais.

Eu não consigo me comunicar com muita coisa. Por exemplo, não tenho o menor interesse nos parangolés do Hélio Oiticica (risos). Não me dizem nada...

Então, como você falou, tem que saber qual é o seu gosto. No fundo, isso te remete a um autoconhecimento. Você deve saber, diante da multiplicidade da vida contemporânea, onde você se encaixa, "qual é a sua", qual é o seu caminho, onde você está, quem você é, dentro dessa balburdia da vida contemporânea, dos diversos caminhos que se abrem profissionalmente, socialmente, emocionalmente. A gente tem que ser honesto com o que a gente é. Não pensar só com a cabeça, sentir... Sentir com a emoção. A coisa te toca? Emociona? Ou é apenas um discurso teórico cheio de palavras eruditas que "explicam" o objeto em questão?

Sergio Niculitcheff: Porque o trabalho do Oiticica deve servir para algumas pessoas. Tem seus nichos, seus espaços.

Interessante no Hélio é sua atitude de subversão dos meios. Mas sabe essa coisa de "Seja Marginal, Seja Herói", esse culto ao traficante de drogas, Cara de Cavalo, já teve seu tempo, não pega bem hoje. Talvez esse romantismo seja muito datado, anos 60, 70 ... Já era, não durou muito. Não me diz nada essa abordagem de cultuar o traficante, o marginal, tem apenas interesse histórico e os objetos interessam a colecionadores que desejam ter obras do período, mas... Há atitudes mais dignas e criativas no mundo da subversão da forma, da linguagem.

Jardel: É uma coragem falar assim sobre o Oiticica, que é quase mistificado no Brasil. Falar: "Eu gosto disso do Oiticica ou eu não gosto daquilo".

Sou apenas um pintor, desenhista e gravador. O universo do Hélio, embora eu tenha consciência de que ele é importante para muita gente que admira suas coisas e o tem como um grande ídolo, não me toca muito, não. Procuro ser honesto comigo mesmo e com minha sensibilidade. As teorias estéticas estão para mim assim como a ornitologia está para os pássaros, como dizia o pintor americano Barnett Newman.

Jardel: Quando fala isso, as pessoas se incomodam, pois é o santo deles.

Mas acontece que não sou muito religioso e, como sabemos, muitos santos e todos os ídolos têm pés de barro ou são apenas santos do pau oco...

Marcos Ribeiro: Em arte temos que investigar...

A gente tem que refletir sobre essas coisas. A gente reflete sempre. No fundo, o sentimento da gente tem que ser de perplexidade permanente. O meu, por exemplo, é: perplexidade com o mundo à minha volta e perplexidade comigo mesmo, porque me surpreendo a cada dia com meus pensamentos, sentimentos e comportamentos, pois não me acostumo comigo mesmo e nem com os outros, porque as coisas mudam muito rapidamente, o tempo passa muito rápido, as coisas se transformam numa velocidade muito grande. Isso torna a vida muito interessante. Complicada, mas interessante.

É muito arriscado você dizer que isso é bom ou ruim em arte, eu acho. Certas obras e artistas não fazem a minha cabeça, eu prefiro outra confusão, outra desordem; para mim, a desordem do ser humano é mais bem expressa em obras menos intelectuais, menos cerebrais, mais confusas, mais surreais e contraditórias. Nossa cabeça e nossas emoções são muito mais loucas do que as cuidadosas construções dos geométricos e concretos e neoconcretos... A contradição, a confusão e a incoerência são muito mais as marcas do ser humano do que a ordem e a geometria, ou melhor, um mix de loucura e de geometria caracteriza a contradição humana.

Porque essa coisa muito ordenada, muito asséptica, é interessante, elegante, decorativa... Mas, enfim, você não pode ter um julgamento de valor. Deve estar aberto para absorver aquilo que te interessa e repudiar o que não faz sua cabeça. Sem julgamentos, com emoção, mas sem prepotência ou certezas, pois no mundo das artes, e das emoções humanas, nada é certo nem definitivo, muito pelo contrário, tudo é precário e temporário... Tudo é muito incerto e passageiro...

Sergio Niculitcheff: Na História da Arte mesmo tem artistas famosos que não me interessam. Eu reconheço seus valores, mas não gosto. Por exemplo, o Vlaminck. Eu não consigo engolir.

Renoir, Degas são meio chatos... Eu reconheço que são pintores importantes na história da arte, mas...

Marcos Ribeiro: E Picasso, você gosta?

Sim... Picasso é unanimidade, não? Picasso é o pai de muita gente.

Jardel: Picasso rompia sempre...

Ele foi um artista em incessante movimento. Ele tinha coragem de romper e sempre ser honesto com ele até o fim da vida.

Sergio Niculitcheff: Os últimos trabalhos dele dão de dez em muitos trabalhos contemporâneos.

Ele tinha uma liberdade, uma energia, uma vida interior, seja de ordem emotiva, sexual, intelectual, desde a fase do Cubismo, que era mais espiritual, intelectual, até esta parte mais sensual, das gravuras, das suítes Vollard. Ele se põe ali dentro como um velhovoyeur, a dirty old man... Ele era profundamente honesto e íntegro. Alguém vem dizer que ele era um palhaço, um ganhador de dinheiro, isso ele era também. Nós somos feitos de muitas almas... ninguém é completamente íntegro e coerente. Ser coerente é aceitar a sua incoerência e a alheia e não exigir de si nem do próximo uma coerência falsa...!

Sergio Niculitecheff: O interessante é que ele se colocava no seu trabalho, colocava tudo isso no trabalho dele.

E ele tinha essa coragem de mudar, não se classificar, se autodefinir... Ora era figurativo, ora era cubista ou ceramista, ou gravador, mas sempre com muita energia e sinceridade. Agora, você veja, nós estamos falando dentro de nosso contexto, de nossa situação de São Paulo. Você vê: coloca uma obra de Picasso na periferia de uma cidadezinha do interior... eles não vão decodificar a linguagem picassiana... Não conhecem. Já o bom grafite é outra coisa. Aquilo abre as portas para muita gente começar a pintar, aprender, e ir para outra. O que faria o Basquiat aos 50 anos?? Porque ele morreu aos vinte e poucos. O Leonilson conseguiu fazer uma obra extremamente pessoal, o que não é pouca coisa...! Você ser pessoal e original é uma vitória, é muito difícil... Fazer um trabalho original, pessoal, é uma grande e difícil conquista.

Sergio Niculitcheff: O que é mais difícil... porque o resto você consegue administrar tecnicamente. Mas "se colocar no trabalho" é a parte mais difícil.

O artista tem que se colocar mesmo, e essa é a marca da originalidade. Na maneira de você trabalhar não apenas tematicamente, mas no gesto, na forma, na textura, nos materiais, nos meios escolhidos, sejam eles quais forem... Isso dá o caráter pessoal, sua assinatura. Se isso vai contribuir ou não para a arte universal, a gente não sabe, e não tem a mínima importância saber. Se vai morrer com a gente ou se vai permanecer, não é nosso assunto...

Jardel: O que vale mesmo é a aventura.

A aventura, enquanto você está vivo, fazendo aquilo e sendo honesto com o trabalho que está fazendo. Você tem que fazer seu trabalho como se fosse para sempre com toda integridade... estar sempre "inteiro na jogada".

Sergio Niculitcheff: Mas existem estes artistas que fazem as coisas só para venderem mesmo, tipo Romero Brito. Porque tem mercado e o mercado faz aquela pressão... E o cara "supre" aquele consumidor que só quer isso.

Romero Brito é um caso de sucesso eminentemente comercial. Ele desenvolveu uma fórmula pessoal de fazer suas coisas, bebeu em várias fontes, fez, deu certo comercialmente, trabalhos manuais bem feitinhos, objetos de decoração que têm inegável sucesso comercial, junto a um público bem específico... Se é isso que ele quer, tudo bem.

Sergio Niculitcheff: Ele atingiu os objetivos dele.

O Brasil é e sempre foi um país atrasado em relação ao resto do mundo ocidental. E nos anos 40, em plena guerra, Picasso já tinha pintado a Guernica, o cubismo, Les Demoiselles d'Avignon, oExpressionismo Abstrato da Escola de Nova York estava a todo vapor, Pollock, Motherwell, Rothko trabalhavam, e o pessoal daqui fazendo estripulias bem comportadas na Semana de Arte Moderna de 22, e casinhas, paisagens, marinhas agradáveis, retratos...

Há uma distância cultural imensa, porque o maravilhoso e vertiginoso século XX já tinha começado na Europa, Estados Unidos,México... Você tem que partir sempre de sua experiência pessoal, de seu ambiente imediato, mas saber o que está acontecendo no resto do mundo é fundamental... Isso sempre enriquece sua experiência pessoal, não para substituí-la, mas para enriquecer sua experiência de viver e trabalhar...

Para ir além
Site de Antonio Henrique Amaral 

http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=41&titulo=Antonio_Henrique_Amaral

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eduardo Galeano (3 September 1940 – 13 April 2015) RIP

Muere el escritor uruguayo Eduardo Galeano a los 74 años

http://cultura.elpais.com/cultura/2015/04/13/actualidad/1428928171_482353.html



Eduardo Galeano

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“Dia a dia nega-se às crianças o direito de ser criança. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem, desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.”

Eduardo Galeano

O diagnóstico e a terapêutica

Helena Murphy
O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um
reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos,
despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos
febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes. O
amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por
descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode
impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de
alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e
ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção
capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis
beberagens com garantia e tudo.
(do Livro dos Abraços, Eduardo Galeano)
Karina

Eduardo Galeano

1420876_forest_in_the_twilight_1
De nuestros miedos
nacen nuestros corajes
y en nuestras dudas
viven nuestras certezas.
Los sueños anuncian
otra realidad posible
y los delirios otra razón.
En los extravios
nos esperan hallazgos,
porque es preciso perderse
para volver a encontrarse.

(Eduardo Galeano)


Karina

Dia da Mulher

A todas as leitoras do blog desejamos que continuem suavizando o mundo com doçura e tolerância.
Abaixo trechos do escritor Eduardo Galeano, que no livro “Mulheres” traz seu olhar sobre a alma feminina.

Janela sobre uma mulher/1
 Di Cavalcanti Mulheres Facetadas
Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.
 /
Janela sobre uma mulher/2
picasso[1]
A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Uma água suja chove dentro de mim.
 /
Janela sobre uma mulher/3
 chagall
Ninguém conseguirá matar aquele tempo, ninguém vai conseguir jamais: nem nós. Digo: enquanto você existir, onde quer que esteja, ou enquanto eu existir.
Diz o almanaque que aquele tempo, aquele pequeno tempo, já não existe; mas nesta noite meu corpo nu está transpirando você.

Karina

Para inventar o mundo cada dia


1159605
Conversamos, comemos, fumamos, caminhamos, trabalhamos juntos, maneiras de fazer o amor sem entrar-se, e os corpos vão se chamando enquanto viaja o dia rumo à noite.
Escutamos a passagem do último trem. Badaladas no sino da igreja.. É meia-noite.
Nosso trenzinho próprio desliza e voa, anda que te anda pelos ares e pelos mundos, e depois vem a manhã e o aroma anuncia o café saboroso, fumegante, recém-feito. De sua cara sai uma luz limpa e seu corpo cheira a molhadezas.
Começa o dia.
Contamos as horas que nos separam da noite que vem. Então, faremos o amor, o tristecídio.

(Eduardo Galeano in Mulheres)

Karina

O Mundo

O mundo
 
Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.
Eduardo Galeano



Karina

A Cultura do Terror

“O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano, é fonte de inesgotável aprendizado. Abaixo, segue mais um trecho muito interessante para reflexão do leitor.
A cultura do terror
A extorsão, o insulto, a ameaça
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa,
a proibição de fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
— Os direitos humanos deveriam começar em casa — comenta comigo, no Chile, Andrés Domínguez.
Telma

Celebração da amizade

Em post anterior, já fizemos referência e deferência ao grande escritor uruguaio Eduardo Galeano. Abaixo, trazemos uma espetacular crônica sua, extraída da maravilhosa obra “O Livro dos Abraços”. Apreciem.
Celebração da amizade
Juan Gelman me contou que uma senhora brigou a guarda-chuvadas, numa avenida de Paris, contra uma brigada inteira de funcionários municipais. Os funcionários estavam caçando pombos quando ela emergiu de um incrível Ford bigode, um carro de museu, daqueles que funcionavam à manivela; e brandindo seu guarda-chuva, lançou-se ao ataque. Agitando os braços abriu caminho, e seu guarda-chuva justiceiro arrebentou as redes onde os pombos tinham sido aprisionados. Então, enquanto os pombos fugiam em alvoroço branco, a senhora avançou a guarda-chuvadas contra os funcionários.
Os funcionários só atinaram em se proteger, como puderam, com os braços, e balbuciavam protestos que ela não ouvia: mais respeito, minha senhora, faça-me o favor, estamos trabalhando, são ordens superiores, senhora, por que não vai bater no prefeito?, Senhora, que bicho picou a senhora?, esta mulher endoidou…
Quando a indignada senhora cansou o braço, e apoiou-se numa parede para tomar fôlego, os funcionários exigiram uma explicação. Depois de um longo silêncio, ela disse:
— Meu filho morreu.
Os funcionários disseram que lamentavam muito, mas que eles não tinham culpa. Também disseram que naquela manhã tinham muito o que fazer, a senhora compreende…
— Meu filho morreu — repetiu ela.
E os funcionários: sim, claro, mas que eles estavam ganhando a vida, que existem milhões de pombos soltos por Paris, que os pombos são a ruína desta cidade…
— Cretinos — fulminou a senhora.
E longe dos funcionários, longe de tudo, disse:
— Meu filho morreu e se transformou em pombo.
Os funcionários calaram e ficaram pensando um tempão. Finalmente, apontando os pombos que andavam pelos céus e telhados e calçadas, propuseram:
— Senhora: por que não leva seu filho embora e deixa a gente trabalhar?
Ela ajeitou o chapéu preto:
— Ah!, não! De jeito nenhum!
Olhou através dos funcionários, como se fossem de vidro, e disse muito serena:
— Eu não sei qual dos pombos é meu filho. E se soubesse, também não ia levá-lo embora. Que direito tenho eu de separá-lo de seus amigos?
Telma

Excertos de Eduardo Galeano

Eduardo Hugues Galeano, jornalista e escritor,  nasceu em 1940, em Montevidéu  e é  mundialmente reconhecido por suas obras jornalísticas e literárias .
Dentre seus mais consagrados livros estão: De pernas pro ar, Dias e noites de amor e de guerra, Futebol ao sol e à sombra, O livro dos abraços, Memória do fogo, Mulheres, As palavras andantes, Vagamundo e As veias abertas da América Latina.
A seguir, colacionamos dois excertos que demonstram cabalmente a grandiosidade e versatilidade do referido escritor uruguaio, que domina o mundo das palavras e discorre à vontade sobre o tema que for.
Janela Sobre Uma Mulher (em As Palavras Andantes)
“Essa mulher é uma casa secreta. Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça. Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia.
Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.”

A dignidade da arte (em O Livro dos Abraços)
“Eu escrevo para os que não podem me ler. Os de baixo, os que esperam há séculos na fila da história, não sabem ler ou não tem com o quê.
Quando chega o desânimo, me faz bem recordar uma lição de dignidade da arte que recebi há anos, num teatro de Assis, na Itália. Helena e eu tínhamos ido ver um espetáculo de pantomima, e não havia ninguém. Ela e eu éramos os únicos espectadores. Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria. E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite como se estivessem vivendo a glória de uma estréia com lotação esgotada. Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.
Nossos aplausos ressoaram na solidão da sala. Nós aplaudimos até esfolar as mãos.”
Telma

https://literaturaemcontagotas.wordpress.com/tag/eduardo-galeano/




Suas palavras e pensamentos direcionam minha vida….


Aqui um pequeno exemplo:










A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
Eduardo Galeano
Não morrerá, nunca!!!!

terça-feira, 31 de março de 2015

"Canções Paulistas Ao Vivo" - DVD: Trovadores Urbanos -





Identificado com o estilo de São Paulo, o quarteto vocal TROVADORES URBANOS homenageia os famosos - e, às vezes, nem tanto - compositores das Canções Paulistas. Com pesquisa de repertório coordenada pelo prestigiado historiador e produtor cultural Zuza Homem de Mello, o trabalho mapeia os mais de 100 anos da música paulista. O critério (de escolha das canções) foi o de local de nascimento de pelo menos um dos autores de cada canção, tendo como referência qualquer das cidades do estado de São Paulo. A conhecidíssima "El dia que me quieras", por exemplo, tem como um dos autores (em parceria com Carlos Gardel) o paulista Alfredo Le Pera, nascido na capital paulista em 8 de junho de 1900. O repertório (do qual uma parte significativa é apresentada no DVD e no CD) enfoca em torno de 40 compositores, divididos em quatro blocos: os do passado, os do presente, os sertanejos e os paulistas do Rio. São canções como Rapaziada do Brás (de Alberto Marino e Vicente Giordano), "Maricota sai da Chuva" (Marcelo Tupynambá), "Triste Berrante" (Adauto Santos), "Tristeza do Jeca" (Angelino de Oliveira), "Simplesmente" (Paulinho Nogueira),"Duas Contas",(Garoto), "Lampião de Gás" (Zica Bergami), "Volta por Cima" (Paulo Vanzolini), "Trem das Onze" (Adoniran Barbosa) e muitas outras. Nos dois shows gravados em janeiro de 2007 no Teatro do SESC Vila Mariana, incluídos no DVD e no CD participam os consagrados compositores paulistas Toquinho e Guilherme Arantes e, nos "extras" do DVD, o imprescindível compositor Paulo Vanzolini, um dos cronistas mais inventivos da vida cotidiana paulistana e Zica Bergami, compositora da antológica "Lampião de Gás". A composição originária do grupo Trovadores Urbanos, criado em São Paulo pela cantora Maida Novaes em 1990, é mantida até hoje com Juca Novaes, Eduardo Santhana, Valéria Caram e Maida. Participações especiais de Toquinho, Guilherme Arantes, Paulo Vanzolini, Dona Zica e Zuza Homem de Mello. Patrocínio é da Petrobrás.




Ficha técnica:

Direção de produção: J.C.Costa Netto Produtor Audiovisual: Dabliú Discos Trovadores Urbanos: Maída Novaes, Valéria Caram, Juca Novaes, Eduardo Santhana Pesquisa histórica (repertório) e apresentação (show): Zuza Homem de Mello Direção musical e violão: Ítalo Perón Direção artística (show): Tito Teijido Direção de imagens: Lucas Fazzio Direção de áudio: Alexandre Fontanetti Coordenação do projeto: Tatiana Librelato Produção de imagens: Geral Filmes Produção de áudio: Space Blues Studios Assistente de direção (imagens): André Albuquerque Diretor de fotografia: Gabriel Kalim Mucci Produtor executivo (imagens) Chico Pedreira Percussão: Adriano Busko Flauta e bandolim: Pratinha Participações especiais: Guilherme Arantes e Toquinho

sábado, 28 de março de 2015

Charles Aznavour chante Je m'voyais déjà - 2004


Charles Aznavour: “Soy política y poéticamente incorrecto”





A bordo de una camisa de floripondios multicolores y de unas zapatillas desgastadas, el cantante de los 100 millones de discos vendidos exhibe un rictus y una verborrea improbables para alguien de 90 años. La bohème, Il faut savoir, Que c’est triste Venise… puro motor de besos y lágrimas, de alegrías y penas, Charles Aznavour(París, 1924) sigue contradiciendo el orden natural de las cosas. Y en la brecha.

Pregunta. Señor Aznavour… ¿se le puede tocar?

Respuesta. ¿Cómo dice usted? ¿Por qué?

P. Tocarle, con los dedos, para ver si es real.

R. Soy real, soy real [mira el dedo del periodista tocando su rodilla].

P. ¿Cómo se ve el mundo desde ahí, desde el escenario, casi 80 años después?

R. Ochenta y tres. No se ve nada. No se ve al público. O sea, el público es una persona. Yo no canto para 100 o 1.000 personas, canto para una. Así, cada espectador piensa que canto sólo para él. Esa es la verdad absoluta. Esa, y que sigo buscando temas.

P. Sin embargo, en Je m’voyais déjà (Ya me veía) usted canta: “No fue culpa mía, fue la culpa del público, que no entendió nada”.

R. Sí. Esa fue la primera canción con la que tuve un gran éxito. Hace ya… más de 60 años, y está todavía muy viva.

P. La historia de un cantante que cree que ya ha llegado a lo más alto y…


Vida y discos

Charles Aznavour, de nombre real Shahnour Varinag Aznavourian, nació en París el 22 de mayo de 1924, de padres armenios.

Se calcula que ha vendido más de 100 millones de discos en 70 años de carrera.

Su nuevo trabajo de estudio, en francés, se titula Encores.

R. …No, que cree que va a llegar a lo más alto. Aunque puede que ese cantante sea malo. Pero está convencido de que triunfará. Esa es la sensación que deben de tener la mayoría de los artistas que debutan.

P. ¿Por qué la compuso?

R. Porque me gusta escribir lo que los demás no escriben. Esa es mi enfermedad.

P. Así que a sus 90 años sigue buscando.

R. Sí, pero yo siempre encuentro. En 1970 compuse Comme ils disent, una canción sobre la homosexualidad. La siguiente que se compuso sobre los homosexuales tardó 30 años. Me gustan los retos. Pero a veces me cuesta horrores, como cuando escribí J’ai connu, una canción sobre el genocidio judío.

P. En un mundo tan estupendo, tan empaquetadito y tan políticamente correcto…

R. ¡Yo no lo soy! Soy política y poéticamente incorrecto.

P. ¿Le han dado muchos palos por eso?

R. No, no, fui muy criticado en mis comienzos, dijeron de todo sobre mí, cosas horribles. Nunca respondí. Seguí. Sólo podía seguir. Yo no soy Julio Iglesias, ¿me entiende, verdad? Físicamente no soy como él. Así que tuve que buscar otra cosa, otro lugar para mí.

P. ¿Y cuál fue ese lugar?

R. Las cosas que la gente piensa y no sabe expresar. Ese es mi sitio. El público no es tonto. Y el que lo crea comete un error monumental. Lo que hay que darle es verdad. Hay que ser uno mismo. Yo lo soy. O me aceptas o no. No puedo cambiar para gustar al público o a las modas.

P. Oiga, con 51 años uno puede sentir pereza ya por tantas cosas…

R. Es usted un chiquillo.

P. Es decir, ¿cómo se las arregla usted con 90 para no sentirla y seguir en la brecha?

R. No soy perezoso, nunca lo fui. Podría haberlo sido si, cuando empecé en esto, hubieran dicho que era buenísimo. Como dijeron que todo era malo en mí —el físico, la voz, la escritura…— tuve que probar a aquellos imbéciles que yo valía.

P. Claro, y acabaría cantando con Edith Piaf, con Sinatra, con Liza Minnelli…

R. Canté con los más grandes. Sinatra, Dean Martin, Peggy Lee, Plácido Domingo, Julio Iglesias…

P. ¿Aprendió de todos ellos o a veces hubo jaleos?

R. De todos. Yo aprendí, sobre todo, de Charles Trenet, Maurice Chevalier, Edith Piaf y Carlos Gardel. Se aprende de todo el mundo. De un escritor, de un cantante, de un periodista...

P. Mmm, no creo.

R. Pues sí. Veo todas las noches las noticias en televisión y estoy muy informado. Los temas nuevos los encuentro en las noticias. Y leo mucho, siempre lo hice. Dejé el colegio cuando tenía diez años y medio. Así que me fabriqué una cultura personal. Nadie me la enseñó, no tuve maestros.

P. Digamos que hizo la escuela de la vida.

R. Mi única escuela ha sido la vida. Soy un niño de la calle, sí.

P.Cuando uno viene de la escuela de la calle, ¿desconfía de muchas cosas y de mucha gente?

R. Yo no desconfío de nada. Soy muy tonto para eso. Confío en la humanidad. Y he sido estafado, robado, vendido… pero no importa. Nunca hice daño a nadie.

P. Ya es casi inaudito oír hablar así.

R. Soy optimista, mi padre lo era y aprendí de él. Cuando no teníamos nada, decía: “Dios nos lo dará”.

P. ¿Dios es importante para usted?

R. Muy importante, aunque no sé si soy creyente. Dudo. Pero ¿qué pierdo yo no siendo ateo? Nada. En ese aspecto soy un egoísta, claro. Si no existe, pues nada pasará. Y si existe, me recibirá bien porque le he honrado en mis canciones.

P. Algunas interpretaciones que de Dios se han hecho han infligido un daño enorme a la humanidad, ¿no cree?

R. Sí, pero él no tiene la culpa. La culpa es de los hombres.

P. Usted ama profundamente su profesión, ¿verdad?

R. Mi mujer me dice que la escena es mi amante. Y yo le contesto: “Sí, pero la escena no me cuesta dinero” [risas]. Y no es que no me cueste: es que me da dinero.

P. ¿Dónde encuentra el talento, la inspiración?

R. No tengo inspiración.

P. No le creo.

R. Que sí, sólo tengo ideas. El trabajo se convierte en talento, no al revés. Tampoco tengo imaginación. Nunca escribiría una canción sobre ovnis, por ejemplo.

P. ¿De quién será el mañana?

R. De los artistas. De los pintores, escultores, arquitectos. Desde luego, no de los músicos ni de los que hacemos canciones.




http://cultura.elpais.com/cultura/2015/03/25/actualidad/1427312480_163131.html


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A gestão do samba


A gestão de marcas do samba

Marcelo Chiavone Pontes, professor da ESPM, mostra que as empresas brasileiras contam com um modelo de gestão muito próximo para seguir: o das escolas de samba nos desfiles de Carnaval e sua antiestrutura estruturada.
"Louco não é o povo que pára por quase uma semana para brincar, dançar e pular.
Louco, provavelmente, é o povo que nem pensa em parar.” Mario Sergio Cortella

A gestão do samba

O Carnaval é, sem dúvida, uma das maiores manifestações da cultura brasileira. Sua grandiosidade transformou-o não apenas em um dos mais importantes eventos do País, mas também em responsável por parte significativa da “marca Brasil” no mundo. O “País do Carnaval” é, na verdade, o país de vários carnavais, pois os festejos de Momo são comemorados de maneiras diferentes pelo território nacional –o Carnaval de rua de Olinda e Recife não é exatamente igual aos desfiles de trios elétricos de Salvador e se parece muito pouco com os desfiles das escolas de samba de São Paulo e Rio de Janeiro, que, claramente, são os maiores ícones dessa festa. Descobri que a montagem de um desfile de Carnaval, na verdade, é consequência de um trabalho contínuo, que, entre vários fatores fundamentais, exige: • Planejamento. • Estratégia. • Trabalho em equipe. • Organização. • Criatividade. • Disciplina
Que não se engane quem olha de longe: só com esses elementos as escolas de samba alcançam o resultado esperado –com a qualidade esperada. Então, o Carnaval tem a ver com gestão de empresas ou não? Pode guardar lições para os gestores?
Evolução
logo escola superior de propaganda e marketing
As festas e os ritos de integração social, com pessoas mascaradas e fantasiadas, fazem parte da história humana desde a Grécia antiga, em que brincadeiras aparentemente desordeiras serviam para reafirmar a ordem dos grupos da sociedade. No Egito acontecia a famosa festa de Ísis, deusa invocada para superar as tragédias da vida. Na Roma dos imperadores existiam as saturnais, festas em que se cultuava o deus Saturno e eram marcadas pelos exageros e inversões das regras sociais. São dessa época os primeiros relatos de festas populares associando pessoas mascaradas, fantasias e desfiles em forma de procissão.
A festa carnavalesca como é conhecida atualmente surgiu em Paris, durante a Revolução Francesa, com grandes bailes e exibição de alegorias luxuosas, além do desfile de grupos pelas ruas disputando a atenção das pessoas. Era indiretamente ligada à tradição católica medieval –acontecia sete domingos antes da Páscoa, quando os católicos dão adeus à carne (“carne vale”, em latim) para reencontrá-la quando celebram a ressurreição de Cristo–, mas a burguesia impôs uma nova maneira de festejo, percebendo o alto potencial de lucro e prazer que a ocasião proporcionava.
logo escola de samba imperatriz leopoldinense
Logo da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense
O Carnaval chegou ao Brasil por meio dos colonizadores portugueses, que trouxeram o entrudo, uma festa em que baldes de água, cinzas e líquidos imundos eram atirados sobre quem passasse por perto. Essa diversão foi praticada até a chegada da família real, quando os costumes carnavalescos começaram a ficar mais sofisticados com a realização de festas semelhantes aos bailes franceses e com passeios da elite social pelas ruas da cidade exibindo fantasias de luxo.
Essa nova forma de brincar o Carnaval foi contagiante e, assim, nasceram os primeiros grupos que desfilavam pelas ruas do Rio de Janeiro, dando origem às atuais escolas de samba.
As escolas de samba
Elas surgiram no Rio de Janeiro –a primeira delas foi a Deixa Falar, fundada em 1928. O termo “escola” é fundamental para entendermos a cultura existente nessas agremiações. Seus integrantes se reuniam nos bairros e se intitulavam “escola” porque consideravam que ali o aprendizado era compartilhado. A cultura das comunidades desses bairros está necessariamente presente nas escolas de samba e, mesmo com o passar dos anos, crenças e valores ainda são identificados e têm grande importância –as tradições são mantidas, respeitadas e mostradas durante os desfiles.
logo escola de samba beija flor
Logomarca da Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis
Podemos dizer que a escola de samba é uma grande fábrica, cujos produtos finais são as emoções. Por trás de um desfile existe toda uma estrutura complexa, semelhante a uma linha de produção, cujo objetivo final é entregar um show de emoção, encantamento e alegria para seus diferentes “clientes”. Para isso, é feito um trabalho durante o ano inteiro, gerando empregos, criando processos, desenvolvendo a criatividade, gerenciando verbas e tempo, e administrando uma enorme quantidade de pessoas, com culturas, formações, objetivos e responsabilidades bastante diferentes.
Entre vários aspectos em que uma escola de samba pode ser comparada com uma empresa –e oferecer-lhe lições–, vale destacar alguns que parecem especiais:
a) Satisfação do cliente.
Como qualquer empresa, uma escola de samba também tem diferentes públicos, claramente identificados: seu produto principal, a emoção, deve ser entregue não apenas para o folião que pagou caro para desfilar nas escolas do grupo especial de São Paulo ou Rio –o preço médio de uma fantasia é cerca de um salário mínimo–, mas também para as pessoas que pagaram ingresso no sambódromo, com a expectativa de ver o maior espetáculo teatral da Terra. E, não menos importante, há o público que fica em casa, assistindo pela televisão, gerando audiência e, como consequência, garantindo a verba de transmissão para o próximo ano.
logo escola de samba mangueira
Logomarca da Escola de Samba Mangueira
A satisfação desses clientes parece estar sendo muito benfeita: apenas como exemplo, em 2012, todas as escolas desfilaram praticamente com sua capacidade máxima de foliões, o que significa que todas as fantasias foram vendidas, para turistas do exterior, inclusive. Os sambódromos de São Paulo e Rio estavam lotados, e a transmissão pela TV foi vista, só no Brasil, por mais de 4 milhões de pessoas. Porém o mais interessante é ver que a maioria das pessoas que desfilam, ou seja, um dos “clientes” da escola, sai da avenida satisfeita, recomendando a experiência para os amigos e familiares e, em geral, voltando no ano seguinte. Isso é exemplo claro de manutenção de cliente e de comunicação boca a boca em sua essência.
b) Generosidade.
Um desfile de escola de samba não é formado apenas pelos destaques, celebridades e carros alegóricos cada vez mais deslumbrantes. É sempre bom lembrar que, para que um carro alegórico se movimente na avenida, existem várias pessoas trabalhando dentro dele –pessoas que não veem o desfile nem são vistas pela audiência, cuja função é controlar o movimento e os efeitos visuais, e também ajudar alguns passistas no desenvolvimento das coreografias preparadas para aquele carro. Outro exemplo: poucos sabem que uma das funções existentes durante o desfile é o “apoio de destaque”, ou seja, pessoas que vão para a avenida vestindo apenas calça e camiseta, com o objetivo de dar suporte para que os destaques da escola brilhem. É lugar-comum falar da importância do trabalho em equipe em qualquer organização, e é difícil imaginar um trabalho em equipe com bons resultados sem um mínimo de generosidade entre seus membros.
c) Gestão dos detalhes.
logo escola de samba mocidade independente
Logomarca da Escola de Samba Mocidade Independente
Uma escola de samba do grupo especial desfila com cerca de 4 mil integrantes, ou seja, tem o porte de uma grande empresa. No entanto, existe aqui uma característica única: a escola de samba se prepara o ano inteiro e tem apenas pouco mais de uma hora para apresentar seu trabalho. Para colocar na avenida desfiles maravilhosos, são necessários meses de trabalho para escolher o enredo, definir o samba, ensaiar a bateria, criar fantasias, adereços e carros alegóricos, coreografar passistas etc. Qualquer erro cometido pode ser fatal na hora da apuração, e não existe uma segunda oportunidade. Para aumentar ainda mais o desafio, devemos lembrar que um desfile é o único espetáculo artístico do mundo em que não existe ensaio geral. A disputa entre as escolas é cada vez mais concorrida. Nos últimos anos, tanto no Rio como em São Paulo, a escola campeã tinha uma diferença de pontos em relação à segunda colocada inferior a um ponto. Exatamente por isso é fundamental que tudo seja planejado. Quem observar uma fantasia de perto verá a quantidade enorme de pequenos detalhes que ali estão presentes. Sozinhas, essas particularidades provavelmente passariam despercebidas; no conjunto, porém, são o que faz uma escola ter um desempenho melhor ou pior –não porque esses detalhes fiquem visíveis, mas porque eles deixam claro para toda a escola a importância de se preocupar cuidadosamente com cada ponto do desfile.
d) Senso de propriedade.
Uma das frases que se ouvem com alguma frequência nas empresas é que os funcionários devem “vestir a camisa da organização”. Na escola de samba isso é feito com naturalidade, pois existe um enorme senso de propriedade, e fica claro quando ouvimos algum integrante comentar: “Hoje tem ensaio na minha escola”. Walt Disney dizia que “você pode sonhar, projetar, criar e construir o lugar mais maravilhoso do mundo, mas são necessárias pessoas para tornar o sonho realidade”.
logo escola de samba portela
Logomarca da Escola de Samba Portela
Essa ideia é totalmente pertinente ao universo das escolas de samba: de nada adiantam carros alegóricos com milhares de efeitos especiais e fantasias luxuosas, porque o que efetivamente ganha o Carnaval são as pessoas. Prova disso está nos quesitos de julgamento: harmonia, conjunto, evolução, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, bateria etc. Em suma, todos quesitos que dependem fundamentalmente de pessoas. Daí a importância dos símbolos, histórias, ritos e rituais. Quando vemos integrantes da escola abrindo caminho para a velha guarda, numa atitude de agradecimento a quem ajudou a construir aquilo, quando notamos o respeito dedicado à ala das baianas, que abençoam a escola trazendo seu axé, ou quando assistimos às pessoas reverenciando a bandeira da escola, beijando-a e colocando-a na testa para absorver sua energia positiva, podemos ter a certeza de que ali há pessoas absolutamente comprometidas.
e) Trabalho em equipe.
Se o trabalho em equipe é o aspecto mais óbvio da comparação da gestão de uma escola de samba com a de uma corporação, ele merece uma reflexão mais cuidadosa, pois é o eixo fundamental que faz com que as escolas de samba consigam desenvolver seu trabalho. Em primeiro lugar, há que se fazer uma distinção: grupo não é equipe. Grupo é apenas um monte de pessoas trabalhando juntas. Equipe é muito mais que isso; é um monte de pessoas trabalhando juntas, de forma integrada, comprometida, com o mesmo objetivo.
Em uma escola de samba, todos querem desfilar bem e ganhar o Carnaval. É por isso que, na hora do desfile, ninguém precisa pedir para o outro caprichar e dar o melhor de si, porque isso é o mínimo que se espera. O engajamento com a escola é, por si só, suficiente para que as pessoas façam seu melhor.
Como fazer?
Como fazer para criar uma organização como uma escola de samba, que tenha sucesso em um ambiente complexo –e, por vezes, caótico– como o do Carnaval? Fazendo um paralelo entre a gestão de uma escola de samba e as ideias defendidas pelo consultor Didier Marlier [veja quadro em HSM Management nº 85, página 22], proponho que as organizações empresariais trabalhem com três agendas, como fazem as escolas de samba na prática e intuitivamente: logos, ethos e pathos.
logo escola de samba salgueiro
Logomarca da Escola de Samba Salgueiro
A agenda intelectual (logos) indica que os líderes devem proporcionar oportunidade para que as pessoas contribuam para o desenvolvimento das organizações. Uma escola de samba é um grande exemplo de criatividade, e essa criatividade só se consegue com a participação de todos, pois as boas ideias não são propriedade apenas dos ocupantes de níveis hierárquicos superiores. Exatamente por isso, as escolas não só aceitam, como também incentivam as novas ideias: novos materiais, novos andamentos de bateria, novas coreografias, novos efeitos e novos enredos só se conseguem com a participação ativa de todos.
A agenda comportamental (ethos) mostra que a credibilidade dos líderes é resultado de seu comportamento, que deve ser coerente com seu discurso. As pessoas costumam observar detalhadamente seus líderes antes de segui-los, para ver se eles têm um comportamento compatível com as intenções declaradas. Em palavras mais simples, o exemplo vem de cima. Nas escolas de samba isso também é visível. Cientes de que todos os integrantes da escola precisam cantar o samba, para que não se perca ponto no quesito harmonia, os diretores de uma escola são os primeiros a decorar a letra. Só assim é possível cobrar que, durante os ensaios e especialmente durante o desfile, a escola cante em uníssono.
A agenda emocional (pathos) explica que os líderes devem criar “marcadores emocionais” para começar a mover as pessoas. Isso geralmente é feito com o uso de símbolos, histórias, metáforas, gestos, ou seja, elementos que existem à vontade dentro de uma escola de samba. Daí a importância de iniciar os ensaios com todos cantando o samba de exaltação à escola. Também fica claro porque os símbolos das escolas e suas histórias são conhecidos por grande parte da comunidade, ou porque os líderes sempre iniciam os rituais de, por exemplo, reverenciar o pavilhão.
Antiestrutura estruturada
Essa forma de gestão, que todos os anos nos brinda com um espetáculo maravilhoso, não é obra do acaso. Ao contrário, é fruto do trabalho incansável de inúmeras pessoas que, trabalhando em equipe, conseguem criar um show que conquistou o mundo. Ampliando para o universo de todas as escolas de samba uma ideia desenvolvida pela antropóloga Maria Júlia Goldwasser, ao estudar a Estação Primeira de Mangueira, podemos dizer que as escolas de samba “se configuram como uma solução entre o princípio de estrutura, dada sua ordenação institucional, e o princípio da antiestrutura, dado seu caráter carnavalesco. Ou seja, é sua antiestrutura estruturada que representa sua contradição essencial”.
logo escola de samba unidos da tijuca
Logomarca da Escola de Samba Unidos da Tijuca
Podemos afirmar, portanto, que aquele aparente caos que se verifica nos ensaios e na concentração dos sambódromos na verdade não é um caos, e também não é uma ordem completa. Preferimos pensar naquilo como uma “reordem”, muito mais adequada a um ambiente que, como já mostramos, pode ser complexo, caótico e sempre muito criativo. Um último comentário: muitas pessoas questionam se o Carnaval é uma brincadeira. Minha resposta favorita é: “Sim, o Carnaval é uma enorme brincadeira. Porque não existe nada mais sério do que uma brincadeira”. Afinal, como nos ensina a velha sabedoria, “se você não está se divertindo, é porque não está fazendo direito”. Uma lição inestimável para as empresas.
Saiba mais sobre o negócio do samba
  • O Carnaval brasileiro movimenta cerca de R$ 5,5 bilhões por ano, segundo dados do Ministério do Turismo.
  • A festa consegue impactar 52 setores da economia, entre os quais hotelaria, alimentação, transporte, varejo, indústrias gráfica e editorial, bebidas, instrumentos musicais, indústrias de plástico, ferragens, isopor, tintas e têxtil, audiovisual (televisão, cinema, CD s e DVD s), entretenimento (bailes, espetáculos, shows).
  • O Carnaval também alavanca uma variada gama de atividades informais, que geram empregos para artesãos, marceneiros, eletricistas, aramistas, escultores, pintores, seguranças, modeladores, garçons, enfermeiros, motoristas, músicos, bailarinos, produtores, e até mesmo para profissionais com alta qualificação, como arquitetos, engenheiros, designers de moda, historiadores, entre outros.
  • Apenas a confecção de uma fantasia envolve o trabalho de sete diferentes profissionais: costureira, serralheiro, chapeleiro, aderecista, sapateiro, decorador e moldador de vacuum forming (profissional que faz moldes plásticos).
Essa cadeia produtiva começa nos fornecedores de materiais para a confecção de fantasias e carros alegóricos e termina com a transmissão da televisão para mais de cem países, fazendo com que o evento seja assistido por milhões de pessoas no mundo todo.
A receita, por João Luiz de Figueiredo e Marcelo Guedes
O custo de um desfile do grupo especial de escolas de samba do Rio de Janeiro, que dura cerca de 82 minutos uma vez por ano, gravita em torno dos R$ 10 milhões. O gestor conta com uma receita inicial de aproximadamente R$ 4 milhões, oriundos das cotas de transmissão para a televisão e também do poder público, e a outra parte tem vindo, nos últimos tempos, de um patrocínio associado ao enredo. Será esse um modelo sustentável? Tudo indica que não. Apesar de ter rendido carnavais vitoriosos para escolas como Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense e Vila Isabel, pode limitar a criatividade do carnavalesco e está longe de garantir o sucesso, uma vez que há casos de escolas patrocinadas rebaixadas à divisão de acesso do Carnaval carioca. O rebaixamento é algo muito grave em termos práticos, tanto porque a receita inicial da escola do grupo de acesso A despenca para aproximadamente R$ 450 mil como porque se perde um lugar adequado na produção do Carnaval –só as escolas do grupo especial dispõem de espaços na Cidade do Samba.
logo escola de samba vila isabel
Logomarca da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel
Uma nova solução
Já há casos em curso no Rio de Janeiro nos quais o patrocínio não se associa ao enredo, mas à escola, como acontece com os clubes de futebol. Dessa forma, pode-se construir um vínculo mais sólido entre as partes, transformando o patrocínio em uma grande parceria. Nesse cenário, a função do gestor da escola de samba passa a ser fazer de sua escola e do Carnaval carioca uma grande plataforma de comunicação para uma marca. E, de quebra, o gestor, não mais focado na “luta” anual por patrocinadores, pode atuar em outras frentes capazes de redefinir ainda mais um modelo de receita sustentável para a agremiação, desenvolvendo um portfólio de serviços a ser oferecido em qualquer época do ano, como apresentações da comissão de frente, da bateria, dos passistas, da velha guarda, além de oficinas e cursos destinados às pessoas que desejam estudar as diversas artes envolvidas na produção do Carnaval, como dança, música e artesanato.
Escolas como Unidos da Tijuca e Portela têm mostrado algumas iniciativas nesse sentido. Na exploração da marca e da história de cada escola também é possível incrementar as receitas por meio de uma série de produtos, semelhantes aos que encontramos nas lojas dos grandes clubes de futebol, que remetem aos grandes momentos vividos, aos personagens ilustres, aos carros alegóricos, aos trechos de sambas- -enredo memoráveis, por exemplo. Ao que parece, essa realidade não está muito distante de acontecer e pode servir de inspiração para inúmeros setores em uma época em que o desenho de um modelo de receita sustentável é tão desafiador.
Fontes: Marcelo Chiavone Pontes é doutor em administração pela Universidade de São Paulo, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e diretor da empresa de consultoria Brand Leader. Escreveu este artigo com exclusividade para HSM MANAGEMENT. João Luiz de Figueiredo é coordenador do Núcleo de Economia Criativa e chefe da área de gestão do entretenimento da ESPM-RJ e Marcelo Guedes é diretor dos cursos de graduação em administração e relações internacionais da ESPM-RJ. Artigo publicado na revista HSM Management.

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