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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Alto astral, altas transas, lindas canções








40 anos de Doces Bárbaros
Alto astral, altas transas, lindas canções

Há 40 anos, Gil, Caetano, Gal e Bethânia se uniam para a turnê coletiva dos Doces Bárbaros. O V&A.dom revisita os bastidores do encontro que virou um marco para a música brasileiraPor Camila HolandaPor Marcos Sampaio

Os Doces Bárbaros foram e são encontro. Os filhos de dona Canô, Caetano Veloso e Maria Bethânia, juntaram-se aos amigos Gal Costa e Gilberto Gil para, em meio à acidez da ditadura militar, viajarem o País fazendo música. Foi em 1976 que o quarteto encontrou uma forma de comemorar uma década de suas carreiras solo. Fizeram isto juntos. Subiram aos palcos de diversos lugares do Brasil para cantar músicas, como Fé cega, Faca amolada, Esotérico, O seu amor, Um índio e Pássaro proibido. O resultado está em LP duplo, gravado ao vivo e em documentário dirigido por Jom Tob Azulay, narrando e mostrando os fatos mais impactantes da turnê. Os músicos também foram homenageados pela Mangueira e desfilaram no Carnaval de 1994, com o samba-enredo Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu. O último reencontro oficial foi na praia de Copacabana (RJ) em 2002, que também rendeu um documentário, Outros (doces) Bárbaros, em 2004.





Percussionista que acompanhou o grupo na turnê de 1976, Djalma Corrêa conta que o projeto começou a ser gestado ainda em 1964, ano em que foi realizado o show Nós, por exemplo para ser o espetáculo de inauguração do Teatro Vila Velha, no Passeio Público de Salvador (BA). Foi um encontro de jovens músicos da MPB, como Caetano, Bethânia, Maria da Graça (antes de passar a assinar como Gal Costa), Gil, Tom Zé (ainda se identificando como Antônio José), Alcyvando Luz, Fernando Lona, Carlos Lyra e o próprio Djalma Correa (que interpretou música de sua autoria, chamada Bossa 2000 D.C., e acabou gravando todo o áudio do show, o único registro em áudio).

Sob a direção do cineasta e roteirista baiano Orlando Senna, o espetáculo se propunha lançar músicos no palco do novo espaço cultural da capital baiana. “Foi um sucesso. Mudou o cronograma da música popular na Bahia”, relembra Djalma. A parte com maior destaque e que se tornou icônica foi a interpretação de Gal e Bethânia de canção assinada por Veloso, chamada Sol Negro. O percussionista lembra que a música foi um marco na carreira de Gal, que, no ano seguinte, fez uma participação no LP Maria Bethânia (1965), o primeiro da carreira da cantora baiana, interpretando a composição.

“Nossos planos são muito bons”

Pouco mais de 10 anos depois daquele encontro, Gal, Gil, Bethânia e Caetano já haviam passado pela Tropicália (1967-1969) e consolidado suas carreiras no País, quando resolveram reunir-se novamente e viajar o Brasil como os Doces Bárbaros. “Foi um show que marcou o retorno desse grupo e começou sem qualquer pretensão”, rememora Djalma. A estreia do grupo aconteceu em 24 de junho de 1976, quando os quatro amigos subiram ao palco do Palácio das Convenções do Anhembi (SP), na companhia da banda formada por Djalma (percussão), Arnaldo Brandão (baixo), Mauro Senise (flauta e sax), Tomaz Improta (piano), Chiquinho Azevedo (bateria), Tuzé Abreu (flauta e sax), e Perinho Santana (guitarra).

O percussionista do grupo descreve que o resultado foi um espetáculo tomado pela aura de uma grande comoção, vinda da energia da plateia e dos próprios músicos. No repertório, que se consagrou na música brasileira, composições de Waly Salomão, Herivelto Martins, David Nasser, Milton Nascimento, Ronaldo Bastos e do quarteto de cantores. “Era muita pimenta”, define Djalma. O pano de fundo de toda a efervescência musical e cultural era a ditadura militar, que estava vivendo seu auge naqueles anos. E os Doces Bárbaros foram atingidos diretamente pela repressão em julho de 1976.

Hospedados no hotel Ivoram, para apresentação em Florianópolis (SC), policiais revistaram os quartos dos músicos durante a noite e encontraram maconha com Gil, Djalma e Chiquinho, que foram autuados e levados para delegacia. Durante meses, Gil cumpriu pena de internação hospitalar, que serviria para tratar uma suposta dependência química. “Gil saía do hospital e ia direto para os shows, depois tinha que voltar. Ficava uma viatura na porta”, lembra o percussionista. “Aí, todo mundo começou a assumir que também fumava maconha, era filho de prefeito, filho de governador”. Mesmo com esta repressão, a turnê continuou. Mais que um grupo de músicos, os Doces Bárbaros representam a reunião de amigos que começaram juntos suas trajetórias e ganharam caminhos distintos. Mas que nunca deixaram de convergir.

O que surgiu

Não existe plano para um novo encontro de Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gal Costa. No entanto, quem quiser conhecer mais de perto o resultado do encontro desses quatro gigantes segue uma lista de quatro produtos lançados pelos Doces Bárbaros:

DVD






Doces Bárbaros (1976)
O filme da turnê original capta o quarteto em seu auge performático. As roupas misturam influências religiosas com o ideário hippie. Entre cenas do show e bastidores, o filme de Jom Tob Azulay vai fundo na intimidade entre os artistas e registra o momento em que Gil foi preso por porte de maconha.





Doces Bárbaros (2004)
Neste segundo registro, o foco está nos ensaios para o reecontro do quarteto. As apresentações foram captadas nos shows do Parque Ibirapuera e na praia de Copacabana. Na parte musical o destaque fica para o encontro cheio de olhares e sorrisos de Gal e Bethânia em Esotérico. Nos bastidores, uma cena merece atenção: Ceatano discutindo com um jornalista durante uma coletiva de imprensa.

Disco






Doces Bárbaros (1976)
Lançado originalmente em LP e posteriormente em CD, o disco duplo traz 18 faixas captadas ao vivo, que vão do pop ao experimentalismo. Além de composições feitas especialmente para o trabalho, o quarteto trouxe Fé Cega, Faca amolada (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos) e Atiraste uma Pedra (Herivelto Martins/ David Nasser) para o repertório. Entre os destaques, estão Quando, homenagem de Gilberto Gil para Rita Lee, e Eu Te Amo, feita por Caetano para testar os agudos de Gal Costa.

Compacto
Doces Bárbaros (1976)






Com repertório e produção montados, o grupo discordou sobre como deveria ser registrada a turnê dos Doces Bárbaros. Enquanto Gal e Bathânia queriam um registro ao vivo, Gil e Caetano optaram pelo estúdio. Mesmo com as mulheres vencendo, o quarteto entrou em estúdio para registrar um compacto com apenas quatro faixas. O disco, hoje raro, trouxe Chuck Berry Fields Forever, São João, Xangô Menino, Esotérico e O Seu Amor.

Vídeo


Crédito: reprodução youtube
O quarteto







Maria Bethânia – Depois de estrear no teatro político e fazer história interpretando Carcará (João do Vale/ José Cândido), a filha de Dona Canô usou seu talento cênico em apresentações que mesclavam música com declamação de poesias. Até os Doces Bárbaros, ela já gozava de prestígio entre o público mais engajado e contabilizava alguns sucessos populares, como Coração Ateu, tema da novela Gabriela. Dois anos depois do encontro com o trio baiano, ela lançaria Álibi, seu primeiro disco a ultrapassar 1 milhão de cópias que daria início a uma série de trabalhos de apelo popular.

Gal Costa – A musa do desbunde cruzou os anos 1960 e 1970 pendendo entre o ideário hippie e clássicos da MPB. Desde a estreia com Domingo, álbum bossanovista dividido com Caetano Veloso, ela já havia passeado pelo rock, pela psicodelia e pela tradição baiana num tributo a Dorival Caymmi, lançado no mesmo ano do LP Doces Bárbaros. Após o encontro com os conterrâneos, Gal lançou o engajado e explosivo Caras & Bocas, antes de aceitar a pele de diva e se tornar uma das vozes mais populares do Brasil a partir dos anos 1980, apostando também na sensualidade e na beleza.

Caetano Veloso – Até 1976, Caetano já acumulava pelo menos dois álbuns clássicos em sua discografia. O primeiro, Tropicalia ou Panis et Circencis (1968) era um trabalho coletivo que lançou as bases do movimento estético e artístico que revolucionou a cultura brasileira. Já Transa (1972) é uma obra melancólica, fruto dos tempos de exílio em Londres. Teve ainda o hermético Araçá Azul (1973), que pouca gente ouviu, menos pessoas ainda entenderam e acabou batendo recorde de devoluções nas lojas. Acumulando trabalhos conceituais até então, foi só depois da reunião dos Doces Bárbaros que o irmão da Bethânia encontrou o sucesso popular em discos cheios de elementos da bossa, da discoteca, do Carnaval e do rock.

Gilberto Gil – Da estreia voltada para o samba baiano até o encontro com os Doces Bárbaros, Gilberto Gil teve sua fase tropicalista onde mostrou a influência que recebeu do rock absorvido durante o exílio em Londres. De Jimi Hendrix e Beatles para os ídolos nacionais, Gilberto Gil iniciou em 1975 a famosa quadrilogia "Re", com o antológico Refazenda. Após os Doces Bárbaros, viriam Refavela, Refestança e Realce. Os trabalhos de forte acento pop traziam influência das culturas afro e nordestina, além do reggae jamaicano. São dessa época canções que marcariam para sempre a obra do baiano, como Tenho Sede, Toda Menina Baiana e Super-homem, a canção. Já consagrado, os anos 1980 trariam ainda mais sucessos para Gil e uma conexão com a geração de roqueiros dos anos 1980.

Os Mais Doces Bárbaros


Com amor no coração
Preparamos a invasão
Cheios de felicidade
Entramos na cidade amada

Peixe Espada, peixe luz
Doce bárbaro Jesus
Sabe bem quem, né, otário?
Peixe no aquário nada

Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons

Com a espada de Ogum
E a benção de Olorum
Como num raio de Iansã
Rasgamos a manhã vermelha

Tudo ainda é tal e qual
E no entanto nada é igual
Nós cantamos de verdade
E é sempre outra cidade velha
Plateia: Comoção, alegria e engajamento político



Daquele 1976, um show realizado pelos Doces Bárbaros em Belo Horizonte (MG) ficou na lembrança do jornalista Eustáquio Trindade Neto. À época, ele trabalhava no semanário Jornal da Casa e foi ao espetáculo do quarteto no Palácio das Artes, maior teatro da cidade. Foram shows de sexta a domingo, com todos os 1,8 mil lugares ocupados. “O show aqui foi tranquilo. Não tenho certeza de se foi antes do que eles fizeram em Curitiba ou Floripa, que tiveram os camarins invadidos pela PF”, relata.





“O Gil não chegou a fazer nenhuma referência no palco (sobre a prisão), talvez porque já houvesse alguma orientação do empresário”, complementa. O jornalista conta que, durante coletiva de imprensa antes do show, os artistas relativizaram o assunto. “Já havia uma espécie de acordo para evitar esse tipo de pergunta. Muita gente perguntou, mas as respostas foram evasivas. Eu me lembro de uma coisa que a Bethânia falou: ‘o que a gente tá cantando aqui é o que a gente já cantou até hoje, então, não tô entendendo
porque vai ter problema’”.

Na plateia, além de fãs, estava Milton Nascimento e outros integrantes do Clube da Esquina, como o Fernando Brant, já que o show estava acontecendo na cidade deles. “Aqui, a música que mais mexeu com a plateia foi Fé cega, Faca Amolada, talvez por causa do Milton Nascimento (autor da canção) e porque havia vários dos integrantes do Clube da Esquina na plateia. E talvez porque também era a música mais ritmada. Depois, houve também uma versão que eles fizeram de Atiraste uma pedra, do Herivelto Martins, que foi emocionante”, rememora.

Por mais que os espetáculos de Belo Horizonte tenham ocorrido durante a ditadura e após a prisão de Gilberto Gil por porte de maconha, não houve censura de músicas. “O (show) que eles mostraram em São Paulo, que acho que foi o ponto de partida da turnê, foi o que se viu aqui. Agora, o que marcou mesmo foi a reação da plateia mineira, intensa e apaixonada”, define Eustáquio.



http://especiais.opovo.com.br/40anosdedocesbarbaros/


sábado, 12 de março de 2016

Resíduo







Resíduo



De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco

(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.




Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Salve a menina dos olhos de oyá!!!









Inesquecivel!!!






Sergyo Vitro


Meia horinha na vida de Maria Bethânia

Cantora cruzou o Sambódromo em 29 minutos, sob intensa ovação do público

“Estou muito emocionada, claro, foi comovente demais. A Mangueira é minha escola, e ser escolhida como homenageada é lindo demais. Fiquei contente por ver a escola feliz com o enredo”
Maria Bethânia
Cantora


Maria Bethânia chegou à concentração da Mangueira por volta das 4h de ontem. Às 4h30m já estava sobre o carro alegórico, o último do desfile, de motivos infantis. Ainda distante da entrada no Sambódromo, Bethânia brincava com as afilhadas gêmeas Júlia e Nina Basbaum, erguia os braços para o céu, mexia no cabelo, acenava para o público. Em frente ao centro de diagnósticos Rio Imagem — que parece ficar a 100km da avenida, devido aos anos- luz entre os dois universos —, ela já recebia aplausos e carinho do público que não a veria desfilar.

— Bethânia, uhu! — berrava um fã empolgado. — Sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu...

Ao longo de toda a concentração, a baiana, que completará 70 anos no dia 18 de junho, foi acompanhada pelos gritos dos fãs, muitos dos quais, inutilmente, brandiam um telefone celular, na tentativa de fotografá- la no escuro e de longe. Ela sorria e acenava para todos.

Quando finalmente o carro se aproximou da entrada do desfile, fez- se ouvir o samba, que Bethânia e as meninas sabiam cantar de cor. Elas só não contavam com o grupo Swing & Simpatia, que se apresentava no Terreirão do Samba no mesmo horário, e cujo som abafava as caixas acústicas da concentração — sim, lá, ouve- se ainda pior do que no interior da passarela.

O carro com Bethânia, Júlia e Nina fez a curva ( duas vezes; na primeira, teve de recuar para corrigir o trajeto) rumo à Sapucaí às 5h18m, quando a Mangueira contabilizava 50 minutos de desfile, e a avenida já tinha sido devidamente incendiada. Em 29 minutos, ela ouviu e deixou de ouvir gritos de todos os lados; mexeu no cabelo com boa frequência, dançou com as mãos nas cadeiras, deu passinhos para frente e para trás, pediu cuidado às duas meninas ( que pulavam como pipocas a cada “saravá” do samba), emocionou- se e sorriu. A performance esperada da cantora foi a cereja do bolo para a apresentação surpreendente da Mangueira, que levou para a avenida o enredo “Maria Bethânia — A menina dos olhos de Oyá”.

— Estou muito emocionada, claro, foi comovente demais. A Mangueira é minha escola, e ser escolhida como homenageada é lindo demais. Fiquei contente por ver a escola feliz com o enredo, as pessoas realmente envolvidas, cantando e acenando. Nossa chegada à Apoteose também foi muito emocionante — disse a cantora ontem, horas após o desfile.

Bethânia lembrou quando desfilou na Mangueira em 1994:

— Quando participei do desfile dos Doces Bárbaros, quase morri, era muito alto. Me botaram num queijo sozinha, lá em cima, eu abri a escola. Desta vez, exigi que não fosse tão alto.

A cantora elogiou, ainda, o trabalho do carnavalesco Leandro Vieira. Segundo Bethânia, ele tem muito bom gosto. Ela disse ainda ter ficado feliz com o Estandarte de Ouro de melhor escola conquistado pela Mangueira:
— É um cansaço danado! Mas, se for para volta para o Desfile das Campeãs, eu volto, claro.

10 fev 2016

O Globo


Ao homenagear Bethânia a Mangueira trouxe pra avenida a essência da cultura brasileira, aquela que aos poucos desaparece na pós-modernidade: o sincretismo, a poesia, a cultura do interior, uma crença nas forças da natureza, santos e orixás, rios e mares, a tradição da mestiçagem.
Foi um desfile belíssimo e não apenas para quem é fã da cantora ou da escola de samba. Principalmente para quem é fã desse Brasil aí, que teima em não desaparecer, que resiste ao fundamentalismo e à pasteurização da cultura. Um pouquinho do século XX que ainda vive em nós.
Obrigada, Bethânia.
Parabéns, Mangueira.
Máira Nunes no facebook












A menina dos olhos de Oyá exuzilhou o racismo religioso na avenida
Por Cidinha da Silva

A menina dos olhos de Oyá foi reverenciada na passarela do samba. O enredo da Mangueira popularizou para o grande público o codinome dado à cantora Maria Bethânia por sua Iyalorixá, Menininha do Gantois, imortalizada na canção de Caymmi de 1972, Oração à Mãe Menininha.


Quem não se lembra do dueto de Gal e Bethânia louvando a venerável matriarca: A estrela mais linda, hein / Tá no Gantois / E o sol mais brilhante, hein? / Tá no Gantois / Olorum quem mandou essa filha de Oxum / tomar conta da gente e de tudo cuidar / Ai, minha mãe / Minha mãe Menininha? / Ai, minha mãe / Menininha do Gantois.

Ou da menos conhecida, mas igualmente bela, Réquiem pra Mãe Menininha do Gantois, composta e interpretada por Gilberto Gil, em 1986, quando da partida da Iyalorixá para o Orum. Uma homenagem pujante e clássica, um réquiem para aquela mulher fundamental na expressão da religiosidade brasileira em seus fundamentos africanos. Foi / Minha mãe se foi / Minha mãe se foi / Sem deixar de ser – ora, iêiê, ô / Sem deixar de ser a rainha do trono dourado de Oxum / Sem deixar de ser mãe de cada um / Mãe / Do Orum, do céu / Do orum, do céu / Me ajuda a viver nesse ilê aiê.

Músicas de um tempo, as décadas de 1970 e 1980, em que as religiões de matrizes africanas podiam ser livremente cultuadas, pelo menos no cancioneiro popular e no carnaval. Pois, a perseguição policial aos terreiros se manteve desde os primórdios do período escravista, quando, para realizar as cerimônias, os rituais religiosos africanos precisavam se travestir da liturgia católica. Foram décadas de acossamento visível na invasão e destruição de terreiros, espancamento de freqüentadores e sacerdotes, seqüestro de patrimônio, ainda hoje em mãos da polícia, ocorrido nas primeiras décadas do século XX, também de persecução menos percebida às casas de asé, no período da ditadura civil-militar.

Hoje, com a hegemonia das igrejas caça-níqueis e sua sanha militarizada contra os terreiros de candomblé, materializada no apedrejamento de praticantes, invasão e destruição material dos espaços de culto - veja-se o exemplo do incêndio criminoso no Ilê Asé Oyá Bagan, em Brasília, em 2015, entre dezenas de outros. Disseminam-se também as agressões morais às autoridades religiosas do candomblé, casas de umbanda, centros de cura regidos por princípios de religiões africanas e afro-ameríndias; homicídio de sacerdotes, dolosos ou não; agressões físicas de Norte a Sul do país.

O enredo A menina dos olhos de Oyá embasa a luta contra o racismo religioso. Espraia o ideário do 21 de janeiro, data do falecimento da Iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos, a Mãe Gilda, de Salvador, em decorrência de agressões sofridas por uma igreja evangélica, em outubro de 1999.

Na ocasião, o jornal Folha Universal estampou na capa uma foto de Mãe Gilda, em trajes cerimoniais para ilustrar uma matéria cujo título era: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. A casa da Iyalorixá foi invadida. O marido foi agredido verbal e fisicamente por membros dessa igreja evangélica e sua casa de asé foi depredada. Mãe Gilda não suportou os ataques e enfartou. Faleceu três meses depois, no dia 21 de janeiro de 2000, tornado então Dia nacional de combate à intolerância religiosa.

O desfile de carnaval campeão da Mangueira é um suspiro de liberdade para todas as pessoas que professam um mundo de respeito às crenças de cada ser humano. E no caso brasileiro, à valorização coletiva das culturas africanas, estruturantes deste país.

Mas quem é Oyá, Iansã, representada por sua filha, a cantora Maria Bethânia na Sapucaí? Para conhecê-la, bem como a sua presença nos rituais artísticos da filha dileta, recomendo a leitura da dissertação do antropólogo Marlon Marcos (UFBA), OYÁ-BETHÂNIA: os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela. De certo, uma das dezenas de materiais consultados pelo carnavalesco e compositores da verde e rosa para o desenvolvimento do enredo.

Marlon Marcos a define assim: “Dos orixás cultuados no Brasil, um dos mais populares é Oyá, mais conhecida como Iansã. Esta deusa africana começou a ser cultuada primeiramente entre os iorubás. E a sua adoração passou a atingir toda a extensão das diversas etnias do mundo iorubano, fincando-se destacadamente em cidades como Oyo, Kossô, Irá, Ifé, Ketu, regiões que hoje compreendem uma parte da Nigéria e do atual Benin. Oyá é o orixá dos grandes movimentos e das várias formas. Formas estas que representam seu domínio sobre vários elementos da natureza, a sua essência é a liberdade inclinada à constante transformação.”

Bethânia, emocionada ao final do desfile das campeãs, em resposta inteligente a mais uma pergunta tola, rogou para que Iansã nunca nos esqueça, pois sem ela não se anda! É que Iansã é movimento. A mais pura e contraditória expressão do movimento. É a senhora dos ventos, das tempestades, dos raios e trovões. Da mudança. Da transformação. Da impermanência. Por isso, sem ela não se anda.

A cantora, desejosa de homenagear a mãe, D. Canô, fez uma tatuagem de rosa vermelha no braço que empunha o microfone, para que todos vissem. Revelou que a tatuagem é temporária, porque por interdição religiosa não pode tatuar o corpo.

Outra demonstração de fidelidade a preceitos religiosos dada pela Estrela emergiu de uma interpretação do pessoal do dendê. Segundo eles, Bethânia desfilou no chão no dia de comemoração da vitória porque, caso viesse em carro alegórico, ficaria numa posição acima da cabeça de sua Iyalorixá, Mãe Carmem, que a assistia de um camarote. Isso não seria aceitável. Na versão da cantora, apresentada a jornalistas, houve um problema com o carro e ela não teria conseguido chegar a ele.

Cada um escolhe a versão que mais lhe sirva ou encante. Cá comigo, penso que Bethânia está certa em se preservar. A turma do dendê também, ao revelar o que pode fortalecer o costume. Tudo é enredo. Tudo é mistério em transformação.

Eparrey, Oyá! Eparrey!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Prazeres da "melhor idade"

Por Ruy Castro

Melhor idade é a puta que te pariu – a melhor idade é de 18 aos 40 anos…
A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" – algo entre os 60 anos e a proximidade da morte.
Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.
Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.
Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.
Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo(que têm os dedos ligados por uma membrana) da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada!
Estou voltando da farmácia!". E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.
Primeiro, a aposentadoria é pouca, quase uma esmola, e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução.
Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te veja e por caridade pare o veículo e espere pacientemente você subir antes de arrancar com rapidez como costumam fazer.
No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo: – "Sou deficiente".
O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou: – "Que deficiência você tem?"
– "Sou broxa!"
Ele deu uma gargalhada e eu entrei.
Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo…
Eu disse bem baixinho para uma delas:
– "Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não", foi só para viajar de graça.
Bem… fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol.
Subi na pedra e pensei em cumprir o ritual que costuma ser feito pelos mais jovens no local. Logicamente velho tem mais dificuldade. Querem saber?
Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: "Dá a mão aqui, senhor!!!"
Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.
Sentar na pedra e olhar a paisagem era tudo o que eu queria naquele momento.
É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.
Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê.
Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz:
– "O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair."
Resmungo entre dentes: … "só se cair em cima da sua mãe"… mas, dou um risinho e digo que esta tudo bem.
Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e nada do por do sol.
Vou pensando – enquanto desço e o sol não – "Volto de metrô é mais rápido…"
Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá esta um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico de consegue saber a idade de todo mundo.
Olha sério para mim, segura a roleta e diz:
– "O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem."
A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.
Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos…
Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega… Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam…
Desisti… lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava… Me senti o máximo.
Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem.
Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou.
É agora…
Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse:
– "O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado?"
Melhor Idade ??? – Melhor idade é a puta que te pariu !

Prazeres da "melhor idade" - RUY CASTRO


Folha de SP - 28/01/12
Ruy Castro é escritor e jornalista, trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio e de São Paulo. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

PROMESSA DE VÔO











Esta carta não traz nada novo
nem pensa em juntar
as conversas cortadas
na altura do estômago


Só quer ajudar a construir a ponte
A sacudir esta amizade sem sol
A que nos condenamos
A reviver todos os sons
A acender o espanto
Nesta noite sem fim
Neste túnel de roubos

Porque é preciso manter em pé
Esta promessa de voo





Nei Duclós


Do livro No Meio da Rua, 1979, L&PM

Impeachment é o mesmo que impedimento?

Blog do Aldo Bizzocchi
 A+  A- Tamanho da Fonte:



Por Aldo Bizzocchi

Nestes dias em que, diante do mar de lama que ameaça soterrar o governo brasileiro, setores da sociedade já começam a clamar pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, muitos cronistas têm empregado o termo vernáculo "impedimento" em substituição ao anglicismo impeachment, o que faz ressurgir a dúvida: impeachment e impedimento são a mesma coisa? Em outras palavras, é lícito traduzir o termo inglês pelo português? Mais ainda, é aconselhável fazer isso?

impeachment é a figura jurídica surgida no mundo anglo-saxônico que permite ao parlamento cassar o mandato do chefe do Executivo diante de acusações comprovadas de improbidade no exercício do cargo. O substantivo inglês impeachment, assim como o verboempeach, provêm do antigo francês empêcher, "impedir", e empêchement, "impedimento", por sua vez originários do baixo latim impedicare, derivado de pedica, "ferros que se prendem aos pés do prisioneiro para impedir seu movimento". Daí talvez a tendência de traduzir impeachment como "impedimento". No entanto, o próprio inglês distingue impeach, "fazer acusações contra, acusar de improbidade no exercício de mandato", de impede, "impedir, obstruir, impossibilitar". E a Constituição brasileira prevê o impedimento, temporário ou permanente, de um mandatário como justificativa para que seu suplente ocupe o cargo. Ou seja, uma doença ou viagem ao Exterior são motivos de impedimento do presidente, quando então o vice assume o posto. Esses impedimentos por razões corriqueiras nada têm a ver com o impeachment, que só se aplica em caso de acusação grave, que desautorize moralmente o presidente de permanecer no cargo. Nesse sentido, seria melhor traduzir impeachment por "cassação" do que por "impedimento".

Logo, a tradução de impeachment por "impedimento" é inadequada, embora favorecida por uma certa semelhança sonora e parentesco etimológico. Evidentemente, o presidente cassado por impeachment fica definitivamente impedido de exercer seu mandato, mas, se oimpeachment é um caso particular de impedimento, a recíproca não é verdadeira: nem todo impedimento se dá por impeachment.

http://revistalingua.com.br/textos/blog-abizzocchi/impeachment-e-o-mesmo-que-impedimento-338123-1.asp

sábado, 5 de dezembro de 2015

Frank Sinatra 100th anniversary



- That's Life -




 - "My Way" -



El siglo de Frank Sinatra, aquel chico delgado de Hoboken



Frank Sinatra (1918-1998). DONALDSON COLLECTION


"Pesé casi seis kilos al nacer. No quería venir al mundo y mi abuela me puso bajo agua helada hasta que empecé a respirar. He bendecido ese día desde entonces".

El 12 de diciembre de 1915, en una casita de vecindad del barrio italiano de Hoboken (Nueva Jersey), la existencia de Francis Albert Sinatra estuvo a punto de no comenzar por las malas artes de un médico con el fórceps

La determinación de aquella abuela hizo que la próxima semana celebremos el centenario de la primera gran estrella de la música popular contemporánea. Más allá del mito, de La Voz, de los ojos azules, de su legendaria voracidad con las mujeres, de sus discos y películas está la historia de aquel chaval delgadito de Hoboken que llegó a la cima del mundo.
DARÍO PRIETO
dprietoelmundo

ACTUALIZADO 05/12/201503:18

Por aquel entonces, Hoboken estaba dividido en cuatro sectores. Estaban los irlandeses, que dominaban el cotarro gracias a los políticos y a un sistema de reparto de, ejem, beneficencia (básicamente, comida y mantas) justo antes de las elecciones. Estaban los negros, que no molestaban a nadie ni salían de su barrio, y un poco más allá, las calles judías. Y luego estaban los italianos. El padre de Frank era siciliano y su madre genovesa, y ambos regentaron un bar, no con el nombre de Sinatra, sino como "Marty O' Brian", porque, en Hoboken, los italianos se situaban por debajo de los irlandeses. Estados Unidos estaba a punto de salvar al mundo al entrar en la Primera Guerra Mundial y convertirse en la superpotencia que es hoy.

Pero allí, en aquel pueblucho de Nueva Jersey la existencia pasaba despacio, tan cerca de los rascacielos de Nueva York que se veían al otro lado del Hudson y tan lejos de la gran ciudad. Porque en aquella época la vida no sólo era dura, sino que, como comprobó pronto el joven Sinatra, los estereotipos y la discriminación marcaban el ritmo de la sociedad. Frank se rebeló contra aquellos prejuicios étnicos y raciales y con una dicción perfecta del inglés desató el primer gran fenómeno fan de la música popular. El sueño americano era él, con sus orígenes proletarios, su talento vocal y su ambición para ascender paso a paso a la cima del mundo. Como cantaba en 'All or nothing at all', el lo quería "todo o nada en absoluto".

Pero ni todo el dinero ni las mujeres ni los aduladores borraron esa mueca de melancolía que siempre le acompañó. Como contaba Gay Talese en 'Frank Sinatra tiene un resfriado', piedra angular del llamado Nuevo Periodismo, "su infancia fue una infancia de soledad y de lucha por ganar la atención. Desde que lo ha conseguido, nunca más ha tenido la posibilidad de estar solo".

Hoboken celebra el próximo día 12 el centenario de la venida al mundo de su orgullo local. Y entre los recorridos por aquellos primeros escenarios de la vida de 'Ol' Blue Eyes', la recuperación de su figura se completa con la publicación de libros ('Sinatra: The Chairman', biografía escrita por James Kaplan; 'Sinatra 100', un 'coffee table book' coordinado por Charles Pignone, confidente y productor de sus shows) y un ambicioso documental de la cadena HBO, dirigido por Alex Gibney y titulado 'All or nothing at all' (Universal) que ahora sale a la venta en España en formato de doble DVD.

Todo este material nos devuelve al Sinatra inseguro y atormentado por su soledad e insatisfacción permanentes que ya dibujó Talese en aquel reportaje de 1966 para 'Esquire'. El hombre que encumbró la música como industria del entretenimiento, depurando la herencia del jazz y de las 'big bands' para crear una nueva forma de cantar, melódica, romántica y sensual. La voz de los Estados Unidos de Roosevelt, durante la Segunda Guerra Mundial, a pesar de que fue declarado "no apto" para luchar en el frente, lo cual aumentó la hostilidad de sus compatriotas masculinos, que ya bastante tenían con jugarse la piel frente a los nazis como para encima tener que soportar cómo sus mujeres, madres y novias se derretían con su libidinosa voz. El cantante que se reconvirtió en actor de Hollywood con películas como 'Levando anclas' (1945), 'De aquí a la eternidad' (1953, con la que consiguió un Oscar al mejor actor de reparto) y 'El hombre del brazo de oro' (1955). El ídolo que contempló con desconfianza la explosión delrock 'n' roll, primero, y con abierta hostilidad la llegada de los Beatles desde el Reino Unido, más tarde. El 'crooner' desgastado de tanto actuar en Las Vegas que en 1971 se despidió de los escenarios, para luego reaparecer y seguir actuando casi hasta el final de su vida, en 1998.

Pero la revisión del centenario recupera también aspectos que la historia ha ido dejando a un lado en el relato mitológico de Sinatra. En el documental de HBO, el crítico Terry Teachout apunta lo siguiente: "Nos resulta fácil olvidar que él también fue un niño y un chaval en una época en que la vida de todos era difícil, donde todos corrían peligro. La Gran Depresión fue una experiencia existencial para todos los que la vivieron. Y, sobre todo, te obligaba a darte cuenta de que la vida era difícil. No sólo te iba a resultar complicado buscarte un trabajo, sino también sobrevivir". Para alguien como Sinatra, "esto no era algo hipotético, sino real. Definió su forma de entender la profesionalidad, su necesidad de ser el mejor artista, el mejor profesional que pudiera haber. Porque si quería sobrevivir en los años 30 debía esforzarse al máximo y tener mucha suerte".

Y aunque hoy los estadounidenses de apellidos italianos hayan conseguido desprenderse de casi todos los prejuicios (bueno, ahí siguen 'Los Soprano', 'El Padrino' y el universo de la mafia, del cual el propio Sinatra no pudo tampoco librarse), entonces no era así, como recuerda Teachout: "Ser italoamericano era ser víctima de la intolerancia. Formaba parte de una minoría, un grupo considerado o bien cómico y ridículo, como el organillero con el mono, o bien peligroso e intimidante, como el mafioso con la metralleta. Sinatra, al crecer donde creció, comprendió que el tipo con la metralleta era real".

Pero Sinatra, que hizo campaña a favor del Partido Demócrata (aunque en sus últimos años se pasó de bando, se dice que por un despecho de los Kennedy, y apoyó a los republicanos) realizó a mediados de los 40 un cortometraje, 'The house I live in', a favor de la integración y contra el acoso a las comunidades minoritarias (ya se tratase de judíos, italoamericanos o descendientes de inmigrantes de otros países), que le valió un Oscar honorífico. También luchó contra la discriminación de los afroamericanos y su amistad con Sammy Davis Jr.-al que primero contrató para sus espectáculos por un sueldo igual que el de los 'entertainers' blancos de la época y al que después ficho para su 'Rat Pack' de Las Vegas, junto a Dean Martin- es vista como uno de los gestos más importantes en la normalización de las relaciones entre negros y blancos en EEUU.

Todo o nada en absoluto. Frankie siempre estuvo en esos dos extremos, y así lo inmortalizó sin piedad Talese: "Lo tiene todo, no puede dormir, da bonitos regalos, no es feliz, pero no cambiaría, ni por la felicidad, lo que es... Es una parte de nuestro pasado, sólo que nosotros hemos envejecido, él no... nosotros estamos angustiados por la vida doméstica, él no... nosotros tenemos escrúpulos, él no... Es culpa nuestra, no suya...".
SINATRA EN ESPAÑA: UN DESENCUENTRO CONTADO EN LIBROS En 1989, Sinatra, ya anciano, pasó por España y dio un concierto en el Santiago Bernabeu que fue un fracaso. Poca gente, poca voz, poca emoción. Mala suerte, no le gustamos mucho a Frankie, que nunca debió de entender la obsesión de Ava Gardner por este pedregal. Hay bibliografía amplia sobre el tema.
'BEBERSE LA VIDA' Y 'BIG TIME' Los dos libros de Marcos Ordóñez tienen a Sinatra como personaje secundario (los protagonistas son, respectivamente, su amante, Ava Gardner, y su amigo, Perico Vidal) pero, jo, qué secundario. Algunas de las anécdotas se repiten, pero son tan maravillosas que da un poco igual. Un ejemplo: Sinatra está en El Escorial, rodando 'Orgullo y pasión' en 1956. Después de un día de trabajo, llega al hotel, se sienta al piano del bar, pide el teléfono y pone una conferencia a Madrid. «'Hi, honey'», dice y le da un concierto al teléfono con voz quedísima. Gran asombro de los demás clientes. A los 40 minutos, cuando Sinatra aún está cantando, aparece en el bar Ava Gardner, vestida con un abrigo de pieles y, quizá, nada más. Se lleva a Frank del piano y suben a la habitación. Al día siguiente, los maquilladores se llevan un susto: el cantante aparece en el rodaje con la cara llena de arañazos.
'SINATRA, THE CHAIRMAN'. El complemento a las historias de Marcos Ordóñez está en la biografía que este año ha publicado en lengua inglesa James Kaplan. Por ejemplo: ¿qué ocurrió antes del 'show' del hotel de El Escorial? Que Sinatra había llegado a España con la intención de ignorar a Ava, su antigua amante durante el rodaje de 'Orgullo y pasión'. En una fiesta tonteó con Sofia Loren, compañera de reparto, pero la italiana no hablaba inglés y, además, prefería a Cary Grant, el otro protagonista. Con Sinatra había viajado Peggy Connelly, una 'novieta' bastante encantadora, una cantante del Sur de Estados Unidos, igual que 'la otra'. A los dos días de estar en España, Ava llamó a Frank. Discutieron, se gritaron, se afearon agravios el uno al otro. Connelly llegó y escuchó sólo el final de la conversación. -¿Hablabas con Ava? -Sí. -No sé si me gusta mucho que estés hablando con ella mientras estemos aquí. -Bueno. Entonces vete.
'SINATRA; NUNCA VOLVERÉ A ESE MALDITO PAÍS'. Si hasta ahora habíamos conocido a Sinatra en el comienzo de su fiesta española, un poco desmadrado pero aún encantado de la vida, ahora vemos al cantante ya casi fané y descangallado, al salir del cabaret. Qué pesadez de país. Francisco Reyero cuenta en su libro algunos de los más famosos disgustos que España le dio a Sinatra. En 1964, por ejemplo, rodando en Fuengirola, una chica cubana llamada Ondina Canibano se le acerca para fotografiarse con él. Pero, al posar, se le echa encima. Sinatra se huele la trampa, quieren inventarle una amante. ¡Sólo le faltaba eso! Se quita a la chica de encima de malas maneras y se dirige al fotógrafo para quitarle el carrete. Se monta una melé. Llega la Guardia Civil y decide que Sinatra es el culpable. 25.000 pesetas de multa y orden de expulsión inmediata. Luego llega alguien que negocia con la autoridad y consigue un aplazamiento de 48 horas para acabar la película. Da igual. Frankie no va a perdonarnos esto nunca. Y la verdad: tiene toda la razón. / LUIS ALEMANY


http://www.elmundo.es/cultura/2015/12/05/56622cea268e3e52478b4601.html

domingo, 22 de novembro de 2015

Foi-se o que era Doce





Foi-se o que era Doce


Ainda bem que olhei o Rio Doce muitas vezes antes de vê-lo em seu caixão de barro


Semana brava, com desastre ambiental no Brasil, atentado em Paris. Ao chegar em casa, com as botas enlameadas, vejo que algumas pessoas me criticam porque não fiz discurso sobre Mariana. Se fizesse, reclamariam por Paris, se fizesse por Paris, reclamariam por Bagdá. Pensei que deixaria as patrulhas no universo analógico. Mas elas sobrevivem no mundo digital. Detalhes.

Na década de 80, esta frase me impressionou em Minas: olhe bem as montanhas. Eu a vi em muitos carros. Na minha interpretação, a frase completa seria essa: olhe bem as montanhas, antes que desapareçam.

Minas Gerais minerais, dizia Drummond, que nasceu em Itabira, na cidade toda de ferro em que as ferraduras batem como sinos.

Nessa viagem por Minas, levava na mochila o livro de Drummond e nele o poema “Canto mineral”:

“Minas exploradas

no duplo, no múltiplo

sem sentido,

minas esgotadas,

a suor e ais”

Vi uma montanha pela metade, em Mariana. A face escura da pedra, seus restos circulando em longos trens de carga era a Minas nos ferindo com “suas pontiagudas lascas de minério, laminados de ironia”. Dessa vez não bastava olhar apenas as montanhas. Os rios estão sumindo, alguns exauridos pela seca, e o Doce afogado pela montanha liquefeita, a lama mineral.

Sei que a hora pede discursos, comunicados, “não vamos mais tolerar” etc. Mas o Rio Doce para mim não é apenas uma palavra de ordem. É uma memória azulada que queria compartilhar com os amigos que moram na cidade onde ele se forma: Rio Doce. É uma cidade de três mil habitantes que não conhece um assassinato há 50 anos. Calma, limpa, 100% saneada, ônibus escolares cruzando suas ruas desertas. Povo e polícia se entendem bem, a cidade se protegeu da violência. O lugar onde o Rio Doce se forma era uma atração turística. Coberto de lama.

A orla do Doce, ponto de lazer da cidade, foi devastada. A mais bonita fazenda da região, a Porto Alegre, coberta de lama. A morte violenta, que os habitantes não viam há meio século, apareceu na forma de nove cadáveres arrastados desde Mariana. Em Rio Doce, pensei também Paris, não para agradar as patrulhas, mas porque Paris para mim também não é apenas uma bandeira, é uma cidade onde passei alguns dos melhores momentos de minha vida. A conclusão a que cheguei na pousada da Cachoeira, quase toda ocupada por bombeiros que vieram de Ubá, é de que não existe uma defesa inexpugnável contra o mundo exterior.

Uma cidade tão limpa invadida pela lama, tão pacífica, recebendo nove corpos, uma cidade luz atacada pelas trevas do extremismo religioso de bandeiras negras. Num momento como esse, de terror, desastre ambiental, corrupção, cinismo, não há como negar o mundo que temos. E encará-lo de frente. Empurrar com a barriga significa mais força para o terrorismo do ISIS, mais desastre ambiental, mais impunidade.

“Ideologia, eu quero uma pra viver.” Esse verso de Cazuza passou muitas vezes pela minha cabeça. Conheci Cazuza em 1986 e o visitei depois em Petrópolis. Por tudo o que sei dele, o termo “ideologia” aqui não significa uma visão de mundo totalizante, que tudo explica, explica, às vezes antes de acontecer, às vezes sem sequer examinar os fatos.

“Ideologia” aqui, creio, significa um sentido na vida, ainda que precário e incompleto. Este sentido está em falta no país: somos um gigante desengonçado, que não discute nem sabe para onde vai. Vivemos uma crise econômica, política, ética e ambiental — um bicho de quatro cabeças. É feio, mas está aí. É absolutamente necessário combatê-lo de forma integrada.

Temos uma oposição que não aponta o caminho, mas não se dispõe a sair perguntando. Um governo cujo sonho de consumo é nos entupir de carros e eletrodomésticos e comprar refinarias enferrujadas, para chamar de “minha Ruivinha”. A única saída é conversar por baixo, discutir intensamente, embora isso seja contraditório com a rotina dura do trabalho.

Olhe bem as montanhas. Ainda bem que olhei o Doce muitas vezes antes de vê-lo em seu caixão de barro. A contemplação apenas me entristece. Preciso fazer mais, sem patrulhas nos calcanhares. Cada um sabe de seus limites, embora, de vez em quando, precise ultrapassá-los. As pessoas da minha geração talvez não vejam mais o Rio Doce. Visitei um dos seus formadores, o Piranga; águas normais, apenas um pouco castigadas pela seca. Na Serra do Caparaó subi pelas cabeceiras do rio José Pedro. Também está raso, mas joga água limpa no Doce, através do Manhuaçu.

Isso é uma esperança para as novas gerações. O Doce pode sair da UTI em alguns anos. Depende de nós, assim como enfrentar o monstro de muitas cabeças.

O país que conhecemos está desaparecendo. É preciso uma aliança com os que podem desfrutá-lo depois de nós, com base numa visão ainda que modesta de nosso futuro comum.

Um rumo, um sentido até que fariam bem nesse vale enlameado.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/foi-se-que-era-doce-18109349#ixzz3sF8syXYy 
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