Pesquisar este blog
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
JOÃO GILBERTO, O ESPLENDOR DA FALA

Nei Duclós
Ser contemporâneo de João Gilberto é pura armadilha. Corremos o risco de nos enredar nas palavras que inventaram para ele, que todos conhecem e não é prudente lembrar. Para escapar da arapuca, é preciso vê-lo na ultra-densidade da sua transcendência. Pois não há criador mais completo na sua obra, mais coerente na sua trajetória, mais louco na sua obsessão, mais profundo na sua originalidade, mais irritante na sua teimosia.
Ele é só isso, como o baião, e exatamente por isso torna-se maior do que o universo armado pela voz e o violão. Ao mesmo tempo, a esses dois instrumentos se reporta o tempo todo, pois eles representam, encarnam e projetam a verdade que deveria nos acompanhar sempre: a de que somos eternos, conscientes desde o início dos tempos e temos sempre a chance de voltar a esse brilho, que ao escutar, conhece.
João Gilberto se presta ao exagero: a única coisa que lhe faz sombra é o silêncio, chão que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste país assassinado. E se temos hoje uma língua, é porque João Gilberto resgatou-a, reinventando cada sílaba, pronunciando cada palavra, como um instaurador de milagres, e um fundador que não se contenta em apenas descobrir, mas cavar e levantar a estrutura completa de uma nação que hoje mora dentro de nós.
Por isso é insuportável, pois para existirmos precisamos nos calar diante dele. Não podemos nos dar o luxo de emitir qualquer ruído, vício que hoje nos corrompe e mata. João Gilberto exige o silêncio para que possamos notar não a música, nem suas vestimentas, como harmonia ou ritmo. Notar no sentido de reconhecer a nota, saber onde ela se encontra, o que ela faz, a quem se refere e porque existe por si só, vibrando por ser filha do infinito. Se notarmos, estaremos salvos porque aprenderemos a existir fora da brutalidade sonora que são as barras da jaula. Seremos livres, não porque veio o salvador, mas porque notamos o que nos falta. Assim, podemos chegar ao outro lado do rio da morte sem pagar tributo para o barqueiro sinistro.
É crime, portanto, achar que você pode fazer ruído quando João Gilberto está em ação, emitindo o caldo original de uma cultura, a expressão mais elevada desta meta-raça brasileira, como queria Gilberto Freyre, definida pela vivência, a geografia, a mistura, a diversidade. Não se põe João Gilberto ao entardecer para ver o tempo passar, mas para vislumbrar essa porta entre os mundos, como queria Juan Mattus, em que temos um pé na miséria e outro no mistério.
O que ele faz não precisa de nada, nem do estalar de dedos, nem dos conceitos sobre jazz ou samba. Não tilinte copos ou bata caixa de fósforos, nem pertença a qualquer religião sonora conhecida. Por se vergar ao alicerce, por se dedicar à coluna mestra, por se circunscrever ao quintal, João Gilberto atingiu a essência. Desse pequeno asteróide armou a flor da sua conversa.
Ao nos calar, descobrimos o anjo inventado pelo ouvido absoluto. Há um silencioso ruflar de asas por trás de cada fala dita pelo criador. Esse esplendor toma conta de um espaço concreto, como uma abóbada, como se a arquitetura se revoltasse contra as formas e decidisse viver apenas desse banquete mínimo, que vem de uma fonte infinita e parte para outra, idêntica, como pássaros tontos salvos pela busca do Eldorado.
Devemos sair desse recinto sem mexer a cadeira, para não despertar o escândalo. Devemos sumir de vista, para que só exista esse escutar contínuo. Que de repente se fecha como um casulo, se recolhe como um rochedo na gruta. É enfim o silêncio, mas modificado: agora, depois de ouvir João Gilberto, sabemos quem somos e podemos contemplar a quietude sem nos desesperar. Não precisamos de barulho para dizer a que viemos. Temos João Gilberto, que está entre nós, como um irmão poderoso, uma visita noturna, uma refeição vespertina. De manhã, dormimos o sono solto da boa aventurança, pois há um sino modificado em cada momento, que desfez o metal reiventando a pomba.
Somos o país articulado pelo esplendor da fala de João Gilberto, que dispensa palavras, por tê-las sempre ao redor como um coro de crianças.
http://outubro.blogspot.com.br/2006/02/dirio-da-fonte-joo-gilberto-o.html?m=1
domingo, 12 de novembro de 2017
TORQUATO NETO
Torquato NetoTorquato Pereira de Araújo Neto (Teresina PI, 1944 - Rio de Janeiro RJ, 1972). Cursou Jornalismo no Rio de Janeiro, por volta de 1966, mas não chegou a concluir a faculdade. Nos anos seguintes compôs letras musicadas por Gilberto Gil ("Geléia Geral", "Louvação"), Caetano Veloso ("Deus Vos Salve a Casa Santa", "Ai de Mim", "Copacabana", "Mamãe, Coragem") e Edu Lobo ("Lua Nova", "Pra Dizer Adeus"). Entre 1970 e 1972 atuou nos filmes Nosferatu no Brasil e A Múmia Volta a Atacar, de Ivan Cardoso, e Helô e Dirce, de Luiz Otávio Pimentel. No período também criou e redigiu a coluna Geléia Geral no jornal carioca Última Hora. Em 1973 ocorreu a publicação póstuma de seu livro de poesia Os Últimos Dias de Paupéria, organizado por Ana Maria S. de Coraújo Duarte e Waly Salomão. Três anos depois, foram incluídos alguns de seus poemas na antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda em 1976. Em 1997 foram publicados quatro de seus poemas na antologia bilíngüe Nothing the Sun Could Not Explain, organizada por Michael Palmer, Régis Bonvicino e Nelson Ascher. Torquato Neto foi um dos compositores mais inovadores da canção popular dos anos de 1970. Fonte: www.itaucultural.org.br
Veja também: http://www.torquatoneto.com.br/
CARTÃO-POSTAL POÉTICO – Texto: TORQUATO NETO
Foto: "Os Últimos dias de Paupéria".
Editora: CONFRARIA OS POETAS / UTOPIA DE MALANDRO – RIO -RJ
Ver também POESIA VISUAL de Torquato Neto
TEXTS IN PORTUGUESE & ENGLISH
TEXTOS EM PORTUGUÊS - TEXTOS EM ESPAÑOL
A RUA
toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
De
Teresa Cabañas
que poesia é essa?!
Poesia marginal: sujeitos instáveis,
estética desajustada.
Goiânia: Editora UFG, 2009
COGITO
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim..
“A exasperada reiteração anafórica no começo de cada estrofe ressoa como eco da curiosa afirmação de um eu (“sou como sou”) irremediavelmente fragmentado (“pedaço de mim”) que não passa de uma partícula gramatical, sem memória para cultuar nem presente para comemorar.A morna indiferença com a qual se assiste a tamanha desarticulação abate-se sobre o eu para negar a própria essência da distinção da natureza humana, ilustrada pela máxima racionalista do “penso, logo existo”. A ausência de dramaticidade, essa tranquila aceitação do fim, que descobre um eu lírico relutante a queixumes ou lamenações, não pro vocação estóoca, mas peã consciência do irremediável (“vidente”) (...)” Teresa Cabañas, op. cit. p. 50-51
VAZ, Toninho. A biografia de Torquato Neto. Curitiba, PR: Nossa Cultura, 2013. 408 p.
15,5x23 cm.
LETRAS DE TORQUATO NETO MAIS CELEBRADAS!!!
GELEIA GERAL
Música: Gilberto Gil
Letra/ lyrics: Torquato Neto
Ouça a música / Oiga la música / Listen to the music:
http://letras.mus.br/torquato-neto/387442/
Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
A alegria é a prova dos nove e a tristeza é teu porto seguro
Minha terra é onde o sol é mais limpo e Mangueira é onde o samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem, Pindorama, país do futuro
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
É a mesma dança na sala, no Canecão, na TV
E quem não dança não fala, assiste a tudo e se cala
Não vê no meio da sala as relíquias do Brasil:
Doce mulata malvada, um LP de Sinatra, maracujá, mês de abril
Santo barroco baiano, superpoder de paisano, formiplac e céu de anil
Três destaques da Portela, carne-seca na janela, alguém que chora por mim
Um carnaval de verdade, hospitaleira amizade, brutalidade jardim
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
Plurialva, contente e brejeira miss linda Brasil diz "bom dia"
E outra moça também, Carolina, da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos e a saúde que o olhar irradia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
Um poeta desfolha a bandeira e eu me sinto melhor colorido
Pego um jato, viajo, arrebento com o roteiro do sexto sentido
Voz do morro, pilão de concreto tropicália, bananas ao vento
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi
LET´S PLAY THAT
Música: Jards Macalé
Letra/ lyrics: Torquato Neto
Ouça a música / Oiga la música / Listen to the music:
http://www.youtube.com/watch?v=KNWJXKWcQrs&feature=kp
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let's play that
LOUVAÇÃO
Música: Gilberto Gil
Letra/ lyrics: Torquato Neto
See the / Oiga la música / See the vídeo & music
ELIS REGINA & JAIR RODRIGUES:
http://www.youtube.com/watch?v=zNxVN77KF38
Vou fazer a louvação
Louvação, louvação
Do que deve ser louvado
Ser louvado, ser louvado
Meu povo, preste atenção
Atenção, atenção
Repare se estou errado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado
Vou fazendo a louvação
Louvação, louvação
Do que deve ser louvado
Ser louvado, ser louvado
Quem 'tiver me escutando
Atenção, atenção
Que me escute com cuidado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
A vida pra não morrer
Vou fazendo a louvação
Louvação, louvação
Do que deve ser louvado
Ser louvado, ser louvado
De todos peço atenção
Atenção, atenção
Falo de peito lavado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar
Mas que cantará na certa
Quando enfim se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar
E assim fiz a louvação
Louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado
Ser louvado, ser louvado
Se me ouviram com atenção
Atenção, atenção
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece
Deixando o ruim de lado
==================================================================
TEXTS IN PORTUGUESE & ENGLISH
TORQUATO NETO
1944-1972
Torquato Neto was born in Teresina, Piaui, in 1944. In 1972 he committed suicide in Rio de Janeiro.
One ofthe founders of the Tropicalist movement with Caetano Veloso and Gilberto Gil, Neto wrote the lyrics for "Geléia Geral," one ofthe key songs of the movement. His activities also included directing and acting in underground films. He co-edited the vanguard poetry journal Navilouca (1972). In the early 1970s, he wrote a column for the newspaper
Ultima Hora in Rio de Janeiro. His only book of poetry, Os últimos dias de paupéria (São Paulo: Max Limonad, 1982)., was published posthumously, edited by Waly Salomão.
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim
(from Os últimos dias de paupéria, 1982)
Cogito
I am as I am
a pronoun
untransferable
from the man I began
at the measure of the impossible
I am as I am
now
without great secrets beneath
without new secret teeth
at this hour
I am as I am
present
unleashed, indecent
like a piece of myself
I am as I am
visionary
and I live peacefully
all the hours of the end
—Translated from the Portuguese by Dana Steven
--------------------------------------
Let´s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let´s play that
(musicada por Jards Macalé,
from Os últimos dias de paupéria, 1982)
Let´s Play That
when I was born
a crazy, very crazy angel
came to read my palm
it wasn´t a baroque angel
it was a crazy, crooked angel
with wings like a plane
and behold, this angel told me,
pressing my hand
with a clenched smile:
go on, pal, sing off key
in the happy people´s choir
go on, pal, sing of key
in the happy people´s choir
let´s play that
(set to music by Jards Macalé
translated from Portuguese by Dana Stevens)
Seleção de poemas publicados originalmente em:/ Poems from:
NOTHING THE SUN COULD NOT EXPLAIN: 20 CONTEMPORARY BRAZILIAN POETS, edited by Régis Bonvicino, Michael Palmer and Nelson Ascher. In> THE PIPE – ANTHOLOGY OF WORLD POETRY OF THE 20TH CENTURY. Vol. 3. Los Angels, USA: Green Integer, 2003.
Edição com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e do Consulado Geral do Brasil em San Francisco, California, USA,
Recomendamos a leitura:
TORQUATO NETO: um poliedro de faces infinitas. Edwar de Alencar Castelo Branco, Vinicius Alves Cardoso (Organizadores). Teresina, PI: EDUFPI, 2016. 218 p. ISBN 978-85-7463-959-8 Ensaios de diversos autores.
TEXTOS EN ESPAÑOL
TORQUATO NETO
Teresina, 1948-1972. Poeta, letrista, periodista y actor. Es llamado o Anjo Torto da Tropicália, su pieza Geléia Gerales considerada como el manifiesto tropicalista. Compuso canciones en colaboración con Gilberto Gil, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Edu Lobo y Roberto Menescal, entre otros. Trabajó en los periódicos Correio da Manhã, Jornal dos Sportsy Última Hora. Fue un agente cultural y defensor de los movimientos artísticos de vanguardia como Tropicália, Cinema Marginal y de la poesía concreta. Su libro de poesía Os últimos dias de Paupéria (1973) se publicó póstumamente.
A seguir, textos extraídos de la revista venezolana (en la web) LA COMUNA DE BELLO. N. 2, abril 2014
Go Back
Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder
Go Back
Usted me llama
Yo quiero ir para el cine
Usted reclama
Mi corazón no contenta
Usted me ama
Pero de repente
La madrugada cambió
Y ciertamente
Aquel tren ya pasó
Y si pasó, pasó
De aquí para mejor, fue
Sólo quiero saber lo que puede dar cierto
No tengo tiempo a perder
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
Cogito
yo soy como soy
pronombre
personal intransferible
del hombre que inicié
en la medida de lo imposible
yo soy como yo soy
ahora
sin grandes secretos de antes
sin nuevos secretos dientes
en esta hora
yo soy como yo soy
presente
liberado indecente
hecho un pedazo de mí
yo soy como yo soy
vidente
y vivo tranquilamente
todas las horas del fin.
Pra dizer adeus
Adeus
Vou pra não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sozinho
Tão sozinho amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho
Ah, pena eu não saber
Como te contar
Que o amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer
Vem
Eu só sei dizer
Vem
Nem que seja só
Para decir adiós
Adiós
Voy para no volver
Y donde quiera que yo vaya
Sé que voy solito
Tan solito amor
Ni es bueno pensar
Que yo no vuelvo más
De ese mi camino
Ah, pena no saber
Cómo contarte
Que el amor fue tanto
Y en el en tanto yo quería decir
Ven
Yo sólo sé decir
Ven
Ni que sea sólo
Para decir adiós
Três da Madrugada
Três da madrugada
Quase nada
Na cidade abandonada
Nessa rua que não tem mais fim
três da madrugada
tudo é nada
a cidade abandonada
e essa rua não tem mais
nada de mim...
nada
noite alta madrugada
na cidade que me guarda
e esta cidade me mata
de saudade
é sempre assim...
triste madrugada
tudo é nada
minha alegria cansada
e a mão fria mão gelada
toca bem leve em mim
saiba:
meu pobre coração não vale nada
pelas três da madrugada
toda palavra calada
nesta rua da cidade
que não tem mais fim
que não tem mais fim
Tres de la madrugada
Tres de la madrugada
Casi nada
En la ciudad abandonada
En esa calle que no tiene más fin
tres de la madrugada
todo es nada
la ciudad abandonada
y esa calle no tiene más
nada de mí…
nada
noche alta madrugada
en la ciudad que me guarda
y esta ciudad que me mata
de añoranza
es siempre así…
triste madrugada
todo es nada
mi alegría cansada
y la mano fría mano helada
toca bien leve en mí
sepa:
mi pobre corazón no vale nada
por las tres de la madrugada
toda palabra callada
en esta calle de la ciudad
que no tiene más fin
que no tiene más fin
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/piaui/torquato_neto.html
domingo, 6 de agosto de 2017
Tenho de ir....
January 7, 1951/ August 4, 2017
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Nota Oficial:
É com profundo pesar que a Assessoria Digital | Wallace Fernandes comunica o falecimento do Cantor e Compositor Luiz Melodia, ocorrido nessa Sexta-feira(04/08).
O velório acontecerá hoje (Sexta-feira 04/08) às 17:00 horas na quadra da escola de samba Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.
O sepultamento acontecerá amanhã (Sábado 05/08) às 10:00 horas no cemitério do Catumbi, no Rio de Janeiro.
A música brasileira, hoje acordou de luto!
Do Poeta
Nei Duclós
Transcrevo abaixo o texto que fiz sobre show e obra do grande artista há quase 40 anos. Ilustrada, da FSP, de 12 de maio de 1979.
LUIZ MELODIA: SURPRESAS DE UM INVENTOR TRANQUILO
É um privilégio para o Brasil a existência de um artista como Luiz Melodia. Porque, além de sintetizar todos os caminhos importantes da música popular moderna – como João Gilberto, rock, Tropicalismo, Jovem Guarda e blues elétrico – ele acrescenta novas informações, que,manipuladas por sua voz cortante e originalíssima, o colocam num lugar privilegiado entre os grandes criadores da MPB deste final de século. A consciência de Melodia da sua importância, depois de tanto vento contrário à sua presença num mercado cheio de preconceitos – tanto do show-biz quanto das obsessões ideológicas, transforma seu show no Teatro Pixinguinha (infelizmente só ate amanhã) num momento decisivo da música brasileira em 79.
A segurança de Melodia na estrutura do show se reflete na sua postura física, na escolha do repertório e no domínio total do recado que ele passa para o público. Em vez de fazer concessões inúteis – como exagerar no som “pop” que a maioria da plateia esperava num artista tão radicalmente novo ou de cantar seus sucessos – ele procurou contar a sua história. E não poderia começar melhor: só acompanhado pelo violão de Ricardo Augusto – seu companheiro de composições, como é o caso de “O morro não me engana” – ele cantou o antigo sucesso de Erasmo Carlos, “Caderninho”: “E em casa então/ você me abriria/ e se espantaria/ com meu rosto teolhando, dizendo, baixinho, benzinho eu não posso viver longe de você.”
A Jovem Guarda teve um impacto na emoção de Luiz Melodia. É, para bem dizer, a sua raiz musical. A partir dela Melô se sentiu livre para escolher seu próprio caminho. . E como o próprio Roberto Carlos confessa que sofreu influência marcante de João Gilberto, é óbvio que João é a estrela-guia da primeira parte do show, onde Me3lô junto com Ricardo e a excelente cantora Wilma Nascimento (parenta de Milton e que participou no coro do show Refavela, de Gilberto Gil), cria um clima raro de introspecção, inclusive transformando músicas exuberantes como “Mulato Tropical”, do seu amigo baiano Pepe Kid, num exercício tranquilo, quase confessional.
Melô, entretanto, não pretende “enterrar” a eletricidade da sua música numa proposta tão singela e significativa. Ele apenas mostra o seu coração, avisando que ele surgiu assim, compondo quieto no seu barraco do morro de São Carlos, no Rio, com o rádio e a cabeça ligdos diretamente no violão: “Eu sou magrinho, toco pinho, não sou tinta mas um dia posso pintar”. E aproveita para dizer, na entrelinha, que não admite ser manipulado, nem pela imagem que o público faz dele nem pelas exigências do mercado, que quis transformá-lo em mais um compositor de sucesso.
Por isso, quando entra em cena sua maravilhosa banda, a plateia já está completamente dominada pela força que ele impôs no show. Está atenta para a sua interpretação física, pela liberdade com que dispõe do palco,pela dança que desenvolve – agora, acompanhado por bateria, guitarra, flauta e baixo –com emoção e originalidade. Abrindo os olhos, espichando os lábios, passeando do agudo ao grave com facilidade, ele desperta a criatividade do público, que usa recursos incomuns para acompanhá-lo em suas músicas, em vez das palmas tradicionais como em “Presente Cotidiano”, “O morro não engana”, “Bata com a cabeça”, “Falando em Pobreza”.
Quem acusa Melodia de excessivamente hermético, principalmente nas letras, acusadas também de bobas e alienadas – não pode deixar de ver esse show par aentender melhor o que ele quer dizer, pois tudo fica excessivamente límpido. Melô sabe interpretar suas músicas, sabe passar o seu recado, de forma espontânea, sem esquemas, sem gestos ensaiados. É a sua essência que está no palco, a sua verdade.
E sua verdade é essa: “Na esquina onde o sol bate e se firma, estou lá, bem paralá do que para cá”. Ou: “Quem tem tem, quem não tem não se conforma”. Ou ainda: “Falando de tristeza sem ser pobre, falando de pobreza sem ser triste. Todo artista verdadeira costuma virar a linguagem tradicional de pernas para o ar. É a sua especialidade. Com imagens aparentemente intrincadas, (“Puro conteúdo é consideração”) ele apenas resolve o cotidiano urbano e veloz dos dias de hoje, nos trazendo as riquezas acumuladas depois de tantos anos de telefone, rádio, televisão, avião a jato, assaltos escolas de samba, amores divididos, emoções desvinculadas do passado romântico e linear do Brasil. Ele caminha “sem juízo na cidade”, com “frases elegantes sobre mim” e faz críticcas profundas: “”Teatro, boate, cinema, qualquer prazer não satisfaz. Mas tudo isso não representa nada/ tá na cara que o jovem tem seu automóvel .
A negritude brasileira de Melodia é também outro grande impacto do show. É uma negritude liberta, que chama sua raízes através da dança (que se torna um espetáculo à parte, principalmente quando grita: “Eu quero é mel”) e que se solta através de imagens desvinculadas da imagem de “negro sofrido”. Como ele mesmo diz: “Subi no morro, subi cansado, pobre de mim, pobre de nada”. Sem se punir, sem raivas inúteis, mas completamente à vontade nas linguagens que soube assimilar e recriar. Luiz Melodia é uma grande contribuição cultural para um Brasil moderno, um país que neste momento procura se reunir em torno do marco Zero para conhecer sua individualidade.
Por isso, é necessário que a temporada de Melodia se estenda, pelo menos até a próxima semana, pois precisamos despoluir a cabeça e reencontrar nossa criatividade.
NEI DUCLÓS
Legenda: Melô: intimismo e eletricidade.
Texto publicado em 12 de maio de 1979 na Ilustrada da Folha de S. Paulo. Há tempos não relia essa minha análise do show e da obra de Luiz Melodia. Gostei porque parece um texto escrito hoje de manhã de tão atual. Marcamos o tempo com nossos sentidos atentos, exercendo a liberdade jornalística numa época dura.


LUIZ MELODIA
SAUDADES!!!!
sexta-feira, 19 de maio de 2017
domingo, 30 de abril de 2017
BELCHIOR
"Deixemos de coisas, cuidemos da vida,
senão chega a morte ou coisa parecida,
e nos arrasta moço sem ter visto a vida
ou coisa parecida aparecida "
Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes
(1946-2017)
Belchior - Hora do Almoço
No centro da sala,
diante da mesa,
no fundo do prato,
comida e tristeza.
A gente se olha,
se toca e se cala
E se desentende
no instante em que fala.
Cada um guarda mais o seu segredo,
sua mão fechada
sua boca aberta
seu peito deserto,
sua mão parada,
lacrada,
selada,
molhada de medo.
Pai na cabeceira: É hora do almoço.
Minha mãe me chama: É hora do almoço.
Minha irmã mais nova, negra cabeleira...
Minha avó me chama: É hora do almoço.
... E eu inda sou bem moço
pra tanta tristeza.
Deixemos de coisas,
cuidemos da vida,
senão chega a morte
ou coisa parecida,
e nos arrasta moço
sem ter visto a vida
ou coisa parecida aparecida
http://pt.wikipedia.org/wiki/Belchior
quinta-feira, 20 de abril de 2017
domingo, 29 de janeiro de 2017
La La Land
Elio Gaspari em 'La La Land' cura qualquer mau humor
Por mais algumas semanas funcionarão pelo mundo afora salas de distribuição de bom humor. Seja qual for a aporrinhação que azara a vida do sujeito, ele poderá entrar num cinema e o filme "La La Land" o ajudará a ficar de bem com a vida. (O juiz Moro deveria fazer sessões terapêuticas para os seus hóspedes de Curitiba.)
"La La Land" tem romance, poesia e a mágica da máquina de moer gente de Hollywood. Tudo isso e mais dois grandes atores: Ryan Gosling (um músico à procura de um cantinho para seu talento) e Emma Stone (uma jovem atriz sem futuro). Isso e mais os olhos dela, capazes de cantar.
Passarão os anos para que se saiba o nome dos diretores de elenco que humilharam Ryan e Emma. (A cena do diretor que encerrou o teste para combinar um almoço aconteceu com ele, não com ela.)
Quase tudo ali é fantasia e verdade. Ela não trabalhava numa lanchonete, mas numa loja de petiscos para cachorros. A Emma da vida real é muito mais obstinada. Quando tinha 14 anos montou para os pais uma apresentação de PowerPoint intitulada "Projeto Hollywood". Meses depois, a mãe mudou-se com ela para Los Angeles. O resto é o sonho americano no cenário de Hollywood.
Desde 1951, quando o diretor Vittorio De Sica botou os favelados de Milão montados em vassouras e voando felizes sobre a praça do Duomo, essa mágica dá sorte aos filmes. Em 1982, Steven Spielberg botou o E.T. para voar na caçamba da bicicleta do garoto. Emma e Ryan voam dançando.
Por mais algumas semanas funcionarão pelo mundo afora salas de distribuição de bom humor. Seja qual for a aporrinhação que azara a vida do sujeito, ele poderá entrar num cinema e o filme "La La Land" o ajudará a ficar de bem com a vida. (O juiz Moro deveria fazer sessões terapêuticas para os seus hóspedes de Curitiba.)
"La La Land" tem romance, poesia e a mágica da máquina de moer gente de Hollywood. Tudo isso e mais dois grandes atores: Ryan Gosling (um músico à procura de um cantinho para seu talento) e Emma Stone (uma jovem atriz sem futuro). Isso e mais os olhos dela, capazes de cantar.
Passarão os anos para que se saiba o nome dos diretores de elenco que humilharam Ryan e Emma. (A cena do diretor que encerrou o teste para combinar um almoço aconteceu com ele, não com ela.)
Quase tudo ali é fantasia e verdade. Ela não trabalhava numa lanchonete, mas numa loja de petiscos para cachorros. A Emma da vida real é muito mais obstinada. Quando tinha 14 anos montou para os pais uma apresentação de PowerPoint intitulada "Projeto Hollywood". Meses depois, a mãe mudou-se com ela para Los Angeles. O resto é o sonho americano no cenário de Hollywood.
Desde 1951, quando o diretor Vittorio De Sica botou os favelados de Milão montados em vassouras e voando felizes sobre a praça do Duomo, essa mágica dá sorte aos filmes. Em 1982, Steven Spielberg botou o E.T. para voar na caçamba da bicicleta do garoto. Emma e Ryan voam dançando.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2017/01/1853945-la-la-land-cura-qualquer-mau-humor.shtml
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
O tempo traz a poda
A poda é necessária para a planta se fortalecer e equilibrar _ o luto ensina e amadurece.
Ensina que existe tempo para tudo, e que alguns ramos irão se soltar durante a vida, modificando o vigor da espécie;
Ensina que os mais fortes são aqueles que se adaptam_ justamente como dizia Darwin;
Ensina que alguns galhos são supérfluos, ainda que não haja compreensão no momento;
Ensina a modificarmos nossa tendência de produzir mais folhagem que frutos_ a buscarmos novas alternativas, ter coragem, humildade.
Enquanto tivermos sorte, permanecermos jovens, belos e bem nascidos o acaso nos protegerá, mas permaneceremos mais selvagens_ folhagem e vegetação.
E não descobriremos quem realmente somos.
O tempo traz a poda. E a cada tesourada descobrimos que algumas feridas nunca se curam e você terá que se ajustar a uma forma de vida completamente nova.
Mesmo que seu coração tenha sido quebrado em mil pedaços, uma hora você perceberá que é capaz de amar de novo e, se tiver sorte, amará melhor.
Já perdi amigos, me separei de pessoas insubstituíveis, sofri decepções absurdas, descobri que ninguém é perfeito. Fui feliz, me atirei de cabeça, confiei demais, me frustrei na mesma proporção, tive dúvidas, morri de arrependimento.
Fui podada pela vida, aparada em minhas arestas, corrigida em minhas estruturas. Descobri novos arranjos, me equilibrei com as perdas e decepções, formulei novos caminhos. Aprendi que continuamente sofremos um processo de renovação natural _ como as plantas. Faz parte da vida, do processo de nos tornarmos melhores com o tempo, extraindo os ramos ruins e mantendo os bons…
Aprendendo a perdoar, a pedir perdão; a entender que o tempo leva pessoas especiais e deixa algumas nem tão perfeitas assim; que o coração é capaz de amar de novo, mas antes deve permitir-se chorar e enterrar o amor antigo bem fundo para que ele não ressuscite de tempos em tempos; aprendendo a valorizar o presente, a entender que tudo é passageiro_os bons e maus momentos; aprendendo que algumas pessoas simplesmente não percebem o mundo como você, e que isso não as torna mais cruéis. Aprendendo a ter compaixão, a separar seus medos antigos dos atuais.
O tempo molda as pessoas de formas diferentes, e alguns endurecerão ainda mais com o passar dos anos. Nem todo mundo aprende, não importa quantos tombos leve. E você não pode basear sua vida por essas pessoas.
A vida é muito curta e o roteiro só depende de você. É assim que você se mantém vivo. Decidindo ser melhor a cada dia, se permitindo chorar, se autorizando ter raiva, se justificando por estar sem forças. Mas ainda assim acreditando que uma hora, de alguma maneira que seria impossível, você não se sentirá assim. Não vai doer tanto…

http://www.asomadetodosafetos.com/2012/08/o-tempo-traz-a-poda.html
domingo, 8 de janeiro de 2017
VIDA
Não podemos fugir de nossa história.
Daquilo que é colocado à nossa frente e precisamos atravessar...
__ Fabíola Simões
Daquilo que é colocado à nossa frente e precisamos atravessar...
__ Fabíola Simões
Assinar:
Postagens (Atom)


