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domingo, 7 de julho de 2019
João Gilberto - Despedida
Aos 88 anos, morre João Gilberto, ícone da Bossa Nova
Artista baiano redefiniu a música brasileira com batida revolucionária
O cantor e compositor João Gilberto, considerado um dos precursores da Bossa Nova, morreu neste sábado (6), aos 88 anos, no Rio de Janeiro.
Os últimos anos da carreira e vida do cantor foram marcados por sua reclusão, dívidas e conflitos familiares. Não recebia ninguém em casa, a não ser alguns familiares, tampouco concedia entrevistas ou se apresentava nos palcos. O cantor e compositor baiano completou 88 anos no último dia 9 de junho.
João Gilberto morreu na casa onde vivia, no Rio de Janeiro, e deixou o imenso legado da Bossa Nova, ritmo que colocou a música brasileira em um novo patamar em relação ao mundo. O gênero, surgido no final da década de 50 pelas vozes de João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, revolucionou o jeito de se fazer música no país, com uma mistura refinada de samba com jazz. Mais do que o resultado sonoro, a Bossa Novatornou-se um estilo, um movimento, remetendo ao Rio de Janeiro da metade do século passado e sua Garota de Ipanema, regravada mais de 200 vezes ao redor do mundo.
Caetano Veloso definiu em poucas palavras o que a música de João Gilberto significou para o Brasil e o mundo. Após recitar estrofes de canções de outros famosos intérpretes brasileiros, proclamou: “melhor que isso só o silêncio. Melhor que o silêncio, só João”.
Com sua interpretação de Chega de Saudade, composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, deu início a uma revolução que sacudiria a música brasileira e mundial. Sem aquele disco, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e muitos outros não existiriam. João Gilberto sempre foi um perfeccionista e um sofredor nato: “Minha imagem dele é a de um Quixote que luta por afinar um universo inevitavelmente desafinado”, afirmou Zuza Homem de Mello, crítico musical e amigo pessoal do cantor.
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, cantor e violonista baiano, concluiu em 1961 a trilogia de álbuns fundamentais que apresentaram a Bossa Nova ao mundo, foram eles “Chega de saudade” (1959), “O amor, o sorriso e a flor” (1960) e “João Gilberto” de 1961.
O artista não parou com suas criações e seguiu com shows e discos que se tornaram obras de arte, como é o caso de “Amoroso”, álbum gravado nos Estados Unidos entre 1976 e 1977 sob o selo Warner Music.
O disco foi relançado no Brasil em formato longo no ano passado, durante os festejos dos 60 anos da Bossa Nova. O álbum celebra o encontro harmonioso do artista brasileiro com o maestro alemão Claus Ogerman (1930 – 2016).
“Não se pode machucar o silêncio, que é sagrado.”
– João Gilberto
"Em João Gilberto, o violão é metade de um conjunto sonoro completado pela voz, formando um bloco, uma entidade unívoca de voz e violão, e não de voz com violão."
-Zuza Homem de Mello
“O gênio criador se revela a raros eleitos, a quem confia os mistérios da criação e concede a capacidade de mudar o rumo da história e dar à arte a regra. A genialidade é um dom, mas a grandeza capaz de sustentá-la é trabalho humano, esforço pessoal do artista devotado ao seu ofício e consciente da tarefa de elevar os outros à altura da sua arte.”
- Edinha Diniz
“João sempre tratou a música com ternura, como a deusa de sua vida. É o que basta para conferir aos seus espetáculos uma superioridade fora do comum, situando-os entre os mais envolventes e memoráveis que se podem assistir.”
- Zuza Homem de Mello
"Há tanta coisa bonita a ser consertada"
- João Gilberto, em 'revista Bravo (Mario Sergio Conti)', março 2010.
“Canto pra esse mundo todo, mas a Bahia é diferente. Eu fico até nervoso.”
- João Gilberto, no show em Salvador, set. 2008.
“É crime, portanto, achar que você pode fazer ruído quando João Gilberto está em ação, emitindo o caldo original de uma cultura, a expressão mais elevada desta meta-raça brasileira, como queria Gilberto Freyre, definida pela vivência, a geografia, a mistura, a diversidade. Não se põe João Gilberto ao entardecer para ver o tempo passar, mas para vislumbrar essa porta entre os mundos, como queria Juan Mattus, em que temos um pé na miséria e outro no mistério.”
- Nei Duclós
“Eu não sou poeta, não. Poeta é Drummond.”
- João Gilberto
“A criação original de João Gilberto para o samba, que se internacionalizou com o nome de bossa nova, e que é, até hoje, a contribuição brasileira mais importante à cultura mundial, corre na veia de boa parte da música popular que se faz no mundo. Esse trabalho de transformação do samba e sua consolidação, é obra de uma personalidade artística genial, dessas que surgem de tempos em tempos com uma missão civilizadora heróica. Não é à toa que é qualificado de Mito. Sua trajetória repete a do herói mítico, no combate à banalidade e procura da pureza.”
- Edinha Diniz
“João parece existir para se deleitar com a música, para tocar seu violão, em seu canto, sossegado.”
- Luciano Matos – BA
“O que ele faz não precisa de nada, nem do estalar de dedos, nem dos conceitos sobre jazz ou samba. Não tilinte copos ou bata caixa de fósforos, nem pertença a qualquer religião sonora conhecida. Por se vergar ao alicerce, por se dedicar à coluna mestra, por se circunscrever ao quintal, João Gilberto atingiu a essência. Desse pequeno asteróide armou a flor da sua conversa.”
- Nei Duclós
“Nenhuma figura da música popular brasileira esteve tão perto da perfeição.”
- Sergio Cabral (crítico)
“He could read a newspaper and sound good.”
- Miles Davis

https://www.revistaprosaversoearte.com/aos-88-anos-morre-joao-gilberto-icone-da-bossa-nova/?fbclid=IwAR1wD7M9QvtmMU5jKzk4baJ2kH8xv8tkf-tdEZ04Z9V1GkgSRprAA1jLibM
http://www.elfikurten.com.br/2011/05/joao-gilberto-o-papa-da-bossa-nova-mito.html
domingo, 30 de junho de 2019
"O Senadinho"
“Não fazemos amigos, reconhecemo-os.”
Vinicius de Moraes
Para Maria Olivia, Olívia Soares, o reconhecimento é mútuo, a vida deles se entrelaçam, se estreitam, se confundem, no “Senadinho”!!!
“Imagine esses senhores todos em casa sem ter o que fazer. Já tinham morrido. Isso aqui é a vida de muitos deles”, disse a jornalista Olívia Soares, 59 anos, a única senadora da “casa”.
“Eu gosto de memórias. Sem memórias nós não somos nada. O que mais tem aqui são memórias”, diz Olívia.]
bahia
Alexandre Lyrioalexadnre.lyrio@redebahia.com.br

Senadinho é uma ilha da saudade
Espaço do Shopping Barra reúne idosos há 15 anos para dividir memórias e aplacar a solidão
A maioria dos 50 mil clientes que passa diariamente pelo Shopping Barra vê naquele grupo nada além de um bando de velhinhos obsoletos. Uma minoria, mais atenta, enxerga no máximo um monte de aparelhos auriculares, bengalas, veias saltadas, artrose e rugas. Somente os que se aproximam, puxam uma cadeira, sentam e, calmamente, batem um papo, passam a conhecer a força, vitalidade e sabedoria daquela assembleia de ilustres e anônimos.
O Senadinho, como é conhecido, é hoje uma instituição baiana, uma câmara de amizades ecléticas e de gente com elegância até para tomar um cafezinho. Tendo o Barra como seu Congresso Nacional, no Senado se discute de filosofia à música, de literatura a futebol. No Senadinho, dá-se tapas na mesa por política e economia e analisa-se criticamente a história do Brasil, do antigo Egito ou dos Carnavais.
Antes de qualquer coisa, porém, ali divide-se as próprias memórias, lamenta-se a implacabilidade do tempo e, principalmente, joga-se duas coisas fora: conversa e solidão. Há 15 anos mais ou menos, uma mesa no Café Bourbon, no primeiro piso, é reservada a eles. São ilustres juízes de direito, médicos, advogados, políticos, mas também anônimos que só querem fazer uma amizade sincera na reta final da sua existência.
“Imagine esses senhores todos em casa sem ter o que fazer. Já tinham morrido. Isso aqui é a vida de muitos deles”, disse a jornalista Olívia Soares, 59 anos, a única senadora da “casa”. De fato, senadores como Manoel Canário, 85 anos, têm uma ligação familiar com o shopping. Comparece às sessões todos os dias, de domingo a domingo, afinal de contas o Senado em questão não tem recesso.
A relação de Canário com o shopping é anterior ao próprio Senadinho, já que frequenta o Barra desde o dia da inauguração, em 16 de novembro de 1987. “Bato ponto. Venho de domingo, dias santos e feriados. Vou fazer o que em casa?”, pergunta. Com um extenso passado no rádio, parceiro do falecido Luiz Luzi, Canário sempre fez muitos amigos, mas teve problemas de relacionamento com a família e hoje mora sozinho no Barbalho.
“Não tenho para onde ir e nem o que fazer lá fora. Gosto daqui. É um lugar agradável e seguro. Aqui conheço todo mundo e sou bem tratado”, explica o ex-radialista da Rádio Sociedade e da Rádio Tupy do Rio de Janeiro. Costuma ficar de 14h até o fechamento do shopping, às 22h. Fala-se que, nos feriados em que o Barra não abre, Canário chega a reunir uns poucos senadores e coloca banquetas do lado de fora para papear.
O mais importante é manter a mente ocupada e não ficar sozinho. Apesar das constantes discussões acaloradas, no Senadinho ninguém solta a mão de ninguém. Os Senadores frequentemente se visitam em hospitais. Quando, por acaso, ninguém pode ir, o corretor de imóveis Artur Gallo se dispõe a fazê-lo. Também faz questão de ir nos enterros.
Desaparecimentos
Aliás, no Senadinho encara-se a morte de frente! Na sexta-feira anterior a que tivemos o direito a uma cadeira em tão prestigioso congresso (como suplente temporário, claro), o médico José Lins havia falecido aos 92 anos. Psiquiatra dos mais notáveis, não resistiu às complicações causadas por uma queda. O desaparecimento de amigos é sempre uma grande dor. “Senti como se fosse alguém da minha família”, afirma Franklin Santana Oliveira, 77 anos.
O Senadinho é, portanto, uma ilha de saudade. Saudade dos amigos, do passado e da própria trajetória do grupo. Algumas perdas se tornaram marcantes. Como no caso de Eduardo Domingos, o Árabe, (seu pai foi o primeiro a abrir um restaurante árabe em Salvador). Um dos fundadores do Senadinho, Eduardo faleceu ano passado. “De dez pessoas que passam por aqui, oito comentam ou perguntam por ele. Era muito amigueiro”, conta Olívia.
Entre os exaltados in memorian estão também o radialista Pacheco Filho e o ex-vereador Luiz Leal. Mas, se existe uma morte insuperável naquele grupo, esta é do eterno presidente do Senadinho, Magno Burgos. Político de esquerda, tido como um homem sério e íntegro, foi preso na Ditadura Militar, tendo ficado na famosa Galeria F, onde foram encarcerados os presos políticos na Penitenciária Lemos de Brito.
“Magno era uma das reservas morais do Senadinho. Aqui não tinha quem não gostasse dele, mesmo os de outras correntes políticas”, diz o atual presidente, José Ramos, 81 anos. “Sentimos muito a falta dele. Muito mesmo!”. A ética de Magno era tão rígida que ele não gostava quando os colegas levavam lanches para consumir na mesa do Bourbon, onde basicamente sai cafés, sorvetes e bolos.
Achava que o correto era consumir no local. Depois que Magno morreu, um dos integrantes, Luís Pamponet, sugeriu que fosse deixada uma cadeira vaga, em pleno shopping center, em homenagem ao eterno presidente. Deu briga. “Teve gente que se aborreceu porque a cadeira era pública. Pamponet se aborreceu um tempo, mas voltou”, conta Olívia.
Vitalidade
No Senadinho você pode bater um papo com nomes como o juiz Demerval Belucci, que julgou o famoso caso de Marcelino Souto Maia, condenado a 16 anos de prisão por matar pai, mãe, irmão e avó no bairro da Graça, em 1970. Mas, muito reservado, melhor não tocar no assunto com ele. No Senadinho é possível conversar com o ex-deputado e ex-diretor do Procon, Archimedes Pedreira Franco, cheio de vitalidade e lucidez aos 83 anos.
“Todos nós desempenhamos atividades importantes nas nossas trajetórias. Por circunstâncias da vida não temos mais obrigações. Para muitos por aí, isso significa a morte. Para nós, não! Nós temos o Senadinho, ou seja, temos amigos. Aqui ficamos atualizados e com a mente funcionando. Isso aqui é uma festa!”, explica Archimedes, com o português corretíssimo de sempre. “Todos nós aqui somos muito importantes uns para os outros”.
Se você tiver sorte de ele estar presente, você pode trocar uma ideia também com Benedito Borges, 95 anos. Conhecido no Senadinho como “o verdadeiro campeão”. Isso porque, no primeiro título nacional do Bahia, em 1959, era ele quem presidia o clube no lugar de Osório Vilas Boas. Apesar de estar afastado na época, Osório acabou levando a fama de ter conquistado a Taça Brasil.
Seu Benedito sempre contou detalhes dos bastidores e das artimanhas que usou para fazer o Bahia derrotar o Santos de Pelé. Lembra bem da escalação, do goleiro Nadinho ao ponta esquerda Biriba. Com alguns lapsos, tem a ajuda das filhas e do neto, que o incentivam a puxar as estórias na memória. “Recordo de muito, mas não de tudo”, admite. “Quais foram os jogadores que o senhor contratou tirando dinheiro do próprio bolso?”, estimulou a filha. “Não me lembro mais, não. Só sei que foram muitos”, resumiu.
Sem problemas, Seu Benedito. Mais importante que tudo é ver tanta vitalidade e alegria em um nonagenário como o senhor. “Vamo levando, né meu filho?”, disse ele, que pode até não se lembrar de todos os pormenores do título brasileiro, mas jamais esquecerá os números dos antigos bondes que circulavam na antiga Salvador. “A diversão dele era disputar com Magno, o eterno presidente, quais os números dos bondes e seus bairros”, conta Olívia.
Pai solteiro
Nesse mundo do “vamo levando”, dos lapsos de memória e dos óculos para vistas cansadas, quase todos são aposentados. A maioria tem mais de 80 anos. Mas, entre eles existe uma jovem e doce figura que ainda está na casa dos 40. José Augusto Calheira, 43 anos, filho do advogado Gileno Calheira. Tem deficiência intelectual e passou a frequentar o Senadinho para acompanhar Gileno, um pai solteiro de 77 anos que cuida do filho sozinho.
“Ele não gosta de pessoas da idade dele. Tem mais empatia por crianças muito pequenas ou idosos”, explica Gileno. “Aqui a gente deixa de se sentir vazio. Aqui a gente se revitaliza, se sente vivo”, afirma o advogado, que também faz doces como o de ambrosia para servir aos colegas.
Revitalizar-se no Senadinho é algo que merece os maiores esforços, como faz o professor Eibert Moreira, que agora é transportado na cadeira de rodas e tem a companhia de uma cuidadora para não deixar de participar das reuniões. Mesmo sem poder caminhar e com problemas na voz, marcou presença quando estivemos por lá.
Por força maior, outros como o ex-desembargador do trabalho Jorge Moreira, o advogado Mario Brito, o ex-procurador geral do estado Antonio Guerra Lima, o médico Santos Pereira, o diretor legislativo da Câmara Municipal Carlos Cavalcanti, o Coronel Lemos, Haroldo, Alfredo, Norman e Homero Dourado não puderam comparecer.
Origem
A origem do Senadinho seria, na verdade, no antigo Shopping Iguatemi, hoje Shopping da Bahia. Como muitos dos idosos passaram a morar próximo do então novo Shopping Barra, o grupo ganhou nova sede e foi batizado como “Senadinho”. Os próprios “senadores” não chegam à uma conclusão sobre o que explica o nome. O fato é que a experiência de vida e as idades avançadas certamente tiveram um peso comparativo com os “cabeças brancas” do Senado Federal.
Hoje, o Senadinho ganhou certa fama e se multiplicou em outros cafés pelos shoppings e até em outros shoippings. Entre a maioria de intelectuais e cabeças prestigiosas, encontra-se ali figuras humildes como Manoel de Carvalho Cruz, 79 anos, que é vendedor de loteria. Apesar da atividade antiga, Manoel tem o sustento garantido pelos amigos do Senadinho.
“Vendo loteria desde antes do shopping existir. Vendia na rua Chile. O pessoal aqui me ajuda muito”, confirma Manoel. “Aqui é turma boa, sadia. Aqui é pra lembrar do passado”, diz Manoel. Só não se tem notícias de alguma cartela premiada vendida por Manoel e que tenha enriquecido alguém no Senadinho.
Madrinha
Uma coisa é consenso no Senadinho. Ele não mais existiria se não fosse os esforços da jornalista Olívia Soares. Ela convoca, organiza, ajuda, incentiva o encontro na ilha da saudade. “Eu gosto de memórias. Sem memórias nós não somos nada. O que mais tem aqui são memórias”, diz Olívia.]
“Eu vinha aqui a mando de Armando Oliveira (ex-radialista), que quando estava doente pedia para eu trazer notícias para o amigo Magno. Como Magno vivia aqui, eu vinha pra cá. Fui sentando com eles, ficando e acabei entrando para o senado”, conta Olívia. Hoje, Olívia é tida como a madrinha do Senadinho. Se alguém demora muito de ir a uma sessão, como tem acontecido com Jorge Medauar, é ela que liga para saber. “Liguei e não consigo falar com a família. Estamos um pouco preocupados”.
Com o tempo, o Senadinho foi encolhendo. Além das perdas, uma reforma no Café Bourbon, que pertence ao comerciante Antonio Robespierre Santos, mudou a configuração das mesas, que se tornaram fixas e com poucas cadeiras. Até surgiram fofocas de que o dono não queria tanta gente no local sem consumir na casa. “O pessoal passava aqui dizendo que Robespierre ia colocar pregos nos assentos das cadeiras”, conta Olívia.
Mas, com a reforma, uma mesa no estilo antigo foi mantida só para o Senadinho. “Nessa reforma não cabia mais esse tipo de mesa. E ele deixou só pra gente. Essa mesa foi comprada para nós”, diz Zelito Abreu, outro fundador do Senadinho junto com Magno. A relação com o shopping costuma ser amistosa. Com algumas exceções, como no caso do acarajé do Gregório, que antes das transformações na estrutura vendia o bolinho sobre a calçada, próximo à entrada principal.
Acarajé
O senhores do Senado tinham atendimento especial do baiano de acarajé. Não precisavam sequer ir ao tabuleiro. Gregório levava a iguaria já cortadinha direto para a mesa do Bourbon. Por conta da saída de Gregório, muitos se recusam a comprar acarajé na Perini. Na época da pendenga, os advogados, juízes e desembargadores ofereceram até ajuda jurídica ao vendedor. Não teve jeito.
“Aquilo que fizeram com Gregório foi algo muito complicado. Ele botou na Justiça e não adiantou. Na verdade ele já ficava aí por força de uma liminar, quando tentaram tirar ele antes. Agora, na reforma, disseram que ele ia retornar e nada. Uma pena. Um dos melhores acarajés da cidade”, afirma Franklin Oliveira, que, dez anos atrás, se casou com uma mulher que conheceu no Shopping Barra. “Shopping também é lugar para encontrar amores”.
O Senadinho não é uma instituição fechada, com um número exato de cadeiras. Agregados e suplentes estão sempre se chegando. Mas, não podem ser desagradável. “Se um agregado começa a ser mala demais, a gente suspende o mandato e o convida a se retirar”, avisa Manoel Canário. Por essas e muitas outras, é possível imaginar: se o Congresso Nacional Brasileiro fosse como o Senadinho, o país estaria nos trilhos. “O problema de lá é que as ideias e os interesses são divergentes. Aqui as ideias podem até ser divergentes, mas os interesses são convergentes”, explica Gileno Calheira.
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/senadinho-e-uma-ilha-da-saudade/?utm_source=correio24h_share_facebook&fbclid=IwAR0u4S0F0hP-SWQmPNfJmTYAUu_8Ngadpw4bY3kwQ-VfbRsmSOil2j8r-G4
quarta-feira, 19 de junho de 2019
sábado, 8 de junho de 2019
Othon Bastos - cidadão soteropolitano
Othon Bastos é homenageado com título de cidadão soteropolitano
Ator baiano com mais de 60 anos de carreira, Othon Bastos recebeu o título de Cidadão de Salvador, nesta sexta-feira, 7, no Plenário Cosme de Farias, na Câmara Municipal de Salvador.
A honorária concedida a Othon Bastos, que é natural da cidade de Tucano, situada na região do sertão baiano, foi proposta pelo vereador Marcos Mendes (Psol).
O intérprete do lendário Corisco, o cangaceiro do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha), o ator baiano Othon Bastos, natural de Tucano, agora é também cidadão soteropolitano. O reconhecimento foi consumado em sessão solene da Câmara Municipal de Salvador, na noite desta sexta-feira (7), por iniciativa do vereador Marcos Mendes (PSOL), no Plenário Cosme de Farias lotado de admiradores.
Ao entregar o Título de Cidadão de Salvador, Mendes justificou a honraria classificando Othon Bastos como um orgulho da dramaturgia brasileira, com mais de 60 anos de carreira. “Estamos diante de um dos artistas mais importantes da nossa terra, destaque no cinema, teatro e televisão, que levou adiante o nome da Bahia”, frisou o vereador. Ele relembrou a trajetória do ator, lembrou que integrou a primeira turma de alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e ajudou a fundar, na década de 1960, o Teatro Vila Velha.
Sertanejo
Chamado para ocupar a presidência da mesa durante o discurso de Marcos Mendes, Othon Bastos brincou: “Vamos desarrumar o arrumado”. E destacou a frase da música Corisco, “Mais forte são os poderes do povo”, observando: “Tenho certeza que todos aqui, pelos dias que estamos vivendo, concordam com isso”.
Foi com emoção que o ator agradeceu a cidadania de Salvador, que segundo ele esperou por 86 anos, e relembrou os laços que até hoje o ligam a Tucano: “É de Tucano que vem minha raiz. Quem está sendo condecorado aqui é um sertanejo, que veio para a capital com 5 anos de idade”.
Após constatar que tem mais passado do que futuro e que já não tem tempo para “lidar com pessoas medíocres e egos inflamados”, Othon Bastos concluiu, sendo aplaudido de pé: “Do alto de mim mesmo, como franco atirador, exterminei conceito, símbolo, dogma, ética, estética, métrica e estrutura. Não quero tapete vermelho, não quero desfile em carro aberto, eu não quero aplausos. Obrigado Senhor, por esse momento de lucidez. A vida é mais importante que a posteridade”.
Compuseram a mesa da sessão os atores Arildo Deda e Mário Gadelha; o jornalista e escritor Marcos Uzel; a cineasta, jornalista e escritora Ceci Alves; o cineasta Claudio Marques; o professor e escritor Raimundo Leão; o produtor Roberto Sant´Ana; o prefeito de Tucano, Sérgio Soares; a professora Dulce Aquino, da Escola de Dança da Ufba; e o professor e diretor teatral Cláudio Cajaíba. A vereadora Aladilce Souza (PCdoB) prestigiou a sessão. Othon Bastos foi conduzido ao plenário pela irmã Cátia Bastos, pelo ex-prefeito de Tucano, Gildásio Penedo, e pelo desembargador Baltazar Miranda.
Os oradores ressaltaram o papel inspirador de Othon Bastos para cineastas e atores e classificaram a sessão em sua homenagem, no atual momento que o país atravessa, de falta de incentivo às manifestações culturais, como um ato de resistência.
O Hino Nacional foi executado pelo cantor Carlos Barros, acompanhado pelo músico Rodolfo Lima. Apresentaram-se em homenagem a Othon Bastos ainda o Coral Ecumênico da Bahia, regido pelo maestro Ângelo Rafael, juntamente com o trio nordestino formado por Pedro Vieira, Carmelito Conceição e Ridson Reis. Os atores Genésio Neto e Marcos Lopes declamaram trechos de São Bernardo, de Graciliano Ramos. Alguns vídeos resumiram a carreira do ator, no cinema, no teatro e na televisão, incluindo o mais recente trabalho, a série “Carcereiros”, exibida atualmente pela Rede Globo, na qual interpreta o personagem Tibério.
O vereador Marcos Mendes fez questão de agradecer à jornalista Olívia Soares e ao diretor Legislativo da Câmara, Carlos Cavalcante Neto (Leleto), pela inspiração para homenagear Othon Bastos.
Fonte da notícia: Ascom
Um ator é acostumado com estreias, seja de filmes, novelas ou peças. Entretanto, nesta sexta-feira (7), Othon Bastos, 86 anos, viveu uma estreia diferente e emocionante. Após tantos anos vividos em Salvador, ele pode, finalmente, estrear como cidadão soteropolitano.
Nascido em Tucano, a 270 quilômetros da capital, Othon foi homenageado pela Câmara de Vereadores de Salvador, com o título de Cidadão Soteropolitano. O projeto foi apresentado pelo vereador Marcos Mendes (PSOL) e aprovado por unanimidade na casa.
De acordo com Othon, de seus 86 anos, pelo menos 15 foram vividos em Salvador. Aqui ele fez parte da primeira turma da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1959; foi um dos criadores da Sociedade de Teatro dos Novos, primeira companhia teatral profissional da cidade e ajudou a fundar o Teatro Vila Velha, no qual ele fez parte do elenco da primeira peça apresentada no local - Eles não Usam Black-Tie, em 1964.
"A emoção é muito grande. Não esperava. Primeiro foi um susto e depois uma grande alegria ser homenageado nesta terra que tanto amo. Quem tem raízes aqui não abandona nunca", disse o ator.
"A saudade sempre batia, tanto que sempre eu vinha aqui ver meus pais e minha avó, que moravam aqui no Porto dos Tainheiros, na Ribeira. O que eu gosto em Salvador é que tudo aqui é lindo. Voce aqui vira para um lado é bonito. Vira para o outro, é bonito também. É um excesso de beleza"
No cinema, o ator fez mais de 75 filmes, com destaque para sua atuação em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha, onde interpretou o lendário cangaceiro Corisco.
"Como a música diz, jamais me entregarei. E ninguém deve se entregar. Uma vez me disseram para ser tudo na vida, menos artista, e eu não ouvi. Eu só acho que, na apresentação, poderia ser incluída a última frase que Corisco diz no filme: 'o poder mais forte é o do povo'. Isso é algo que precisa ficar muito claro nos dias de hoje", disse o ator.
'Quem tem raízes na BA não vai perder nunca', diz o ator Othon Bastos
Nascido na cidade de Tucano, nordeste da Bahia, falou sobre carreira à Rádio Metrópole, antes de receber título de cidadão de Salvador.
Nota: A jornalista Maria Olivia Soares teve predominante influencia na decisão e elaboracao dessa oportuna e merecida homenagem ao ator e ser humano impar OTHON BASTOS.
Homenagem se presta em vida. Um sonho que eu tinha e Othon Bastos merece todo nosso carinho, respeito e gratidão por tudo que representa para a cultura da Bahia, do Brasil e do mundo. Obrigada a todos os amigos - e todas as pessoas que conheci nesta jornada. Abraçamos - de corpo, alma e coração, esse memorável acontecimento. É um orgulho o envolvimento lindo de vocês, a disponibilidade para ajudar e romper todas as dificuldades. Tenham certeza que proporcionamos uma alegria imensa a esse ator maior e de todos os tempos. Ele voltou pra casa carregado de amor, transbordando de felicidade. Valeu a luta, Marcos Mendes, foi muito bacana essa união de afetos. Missão cumprida com honra e louvor.
#OthonBastosCidadãoDeSalvador
Querida Olívia, meus parabéns e um forte abraço por essa magnífica homenagem à Othon Bastos, orquestrada por você com o maior esmero, você é retada, verdadeira e abençoada por todo esse amor que você entrega ao próximo, ao mundo!!!
Muito emocionada e orgulhosa de você!!!! Nossos pais (lembrei muito de nossa Janda) e irmão Davi celebram no céu e nós aqui na terra contigo, sempre!!!!
terça-feira, 19 de março de 2019
Prosa Verso Arte
Revista Prosa Verso e Arte
A arte é o espelho da pátria.
O país que não preserva os seus valores culturais jamais verá a imagem de sua própria alma.
https://www.revistaprosaversoearte.com/
Amizade
O que faz nascer uma amizade imorredoura? O que move uma paixão desmedidamente extraordinária dentro de nossos humanos corações? O que nos leva a gostarmos tão intensamente de uma pessoa, por vezes tão diversa de nós?
Montaigne, Chico Buarque e o Amor que não pede explicações
“O que tem de ser tem muita força, tem uma força enorme”
— João Guimarães Rosa, no livro “Grande Sertão: Veredas”.
– por Paulo Setúbal
O que faz nascer uma amizade imorredoura? O que move uma paixão desmedidamente extraordinária dentro de nossos humanos corações? O que nos leva a gostarmos tão intensamente de uma pessoa, por vezes tão diversa de nós? Ou a nos apaixonarmos perdidamente por alguém e mantermos com esse alguém um relacionamento que, no dizer do Poetinha, enquanto dura infinito é.
Amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, veem essa relação vivida com olhos de quem assiste a algo em que a lógica se volatiliza e se lhes escapa, algo improvável, indefinível, pleno de estranheza, difícil de ser decodificado, entendido, assimilado. Para desvendar esse mistério, buscando um satisfatório entendimento disso, Chico Buarque – compositor, cantor, dramaturgo e escritor – foi buscar a melhor definição nos ensaios de Michel de Montaigne, o célebre escritor, humanista e filósofo da França. Chico conta em um vídeo que Montaigne, por ser insistentemente questionado sobre o porquê de sua mais que imensa e eterna amizade por outro humanista e filósofo francês, Étienne de La Boétie, cuja morte precoce o levou a escrever o ensaio “Da amizade”, Montaigne disse apenas que gostava dele e ponto. Quinze anos mais tarde, revendo o que escrevera, o escritor acrescentou que gostava do grande amigo “porque era ele”. Outros quinze anos depois fez mais um acréscimo à frase, completando-a definitivamente: “porque era ele, porque era eu”. Chico entendeu como simples porem perfeita a definição dada por Montaigne.
Achando que ela também era perfeita para definir a paixão, o amor que sentimos por outro alguém, dela se valeu para compor uma música feita para a trilha sonora do filme brasileiro A máquina, do diretor João Falcão. A essência do que definiu Montaigne está no nome da música: “Porque era ela, porque era eu”. Maravilhoso, formidável Montaigne. Maravilhoso, formidável Chico Buarque.
Porque era ela, Porque era eu
Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos tontos os dois
Assim ao léo
Ríamos, choravamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu
– Chico Buarque (letra e música)
https://www.revistaprosaversoearte.com/montaigne-chico-buarque-e-o-amor-que-nao-pede-explicacoes/
https://www.revistaprosaversoearte.com/montaigne-chico-buarque-e-o-amor-que-nao-pede-explicacoes/
Motivo
"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta."
‘Eu canto porque o instante existe’ – Cecília Meireles
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
– Cecília Meireles, em “Viagem”. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
“…Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda…”
– Cecília Meireles, em “Romanceiro da Inconfidência”. 1953.
https://www.revistaprosaversoearte.com/eu-canto-porque-o-instante-existe-cecilia-meireles/?fbclid=IwAR10YorGMwXyNlCq7QjueSg4Kfl75492RgPYtkK9Qq-c57VUw8pI9rCv3aU
O Silêncio
“A areia do deserto é para o viajante cansado a mesma coisa que a conversa incessante para o amante do silêncio.”
– Provérbio persa
Afortunadamente, o silêncio exerce o efeito oposto em nosso cérebro. Enquanto o ruído causa tensão e estresse, o silêncio tem um efeito curador e relaxante.
https://www.revistaprosaversoearte.com/por-que-o-silencio-e-tao-importante-para-nosso-cerebro/?fbclid=IwAR0XPThuHOpm4Te6dN9YqmTlz328j6MdiJ4lH4Ily4sC6ArQlcxaYI4u_r8
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