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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Poesia de Viviane Mosé

Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele
soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
A vida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força
e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse:
tempo se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando.

Extraído do livro Pensamentos do chão – poemas em prosa e verso


Depois de Algum Tempo



“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa aprender que beijos não são contratos, e que presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo, você aprende que o sol queima, se ficar a ele exposto por muito tempo. E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que, não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando, e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer, mesmo a longa distância. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendermos que os amigos mudam. Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa – por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas que nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não deve se comparar com os outros, mas com o melhor que você pode ser. Descobre que leva muito tempo para se tornar a pessoa que você quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa aonde já chegou, mas onde está indo; mas que, se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.
Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados. Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que, algumas vezes, a pessoa que você espera que chute, quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a levantar-se. Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que se aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes, e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não lhe dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer, não significa que esse alguém não o ame com todas as forças, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém – algumas vezes, você tem que aprender a perdoar a si mesmo. Aprende que, com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você junte os seus cacos. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir mais longe depois de pensar que não pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!”
William Shakespeare

sex-positivity

Sex-positivity é a idéia de que a única medida relevante de um ato, prática ou desejo sexual em particular é a de como o consentimento, o prazer e o bem-estar dos participantes são levados em conta.
(…) Mesmo pessoas que tenham poucos sentimentos ruins sobre sua própria sexualidade ainda podem ter sentimentos ruins sobre as práticas e desejos sexuais de outras pessoas. É fácil dizer que você acha sexo bom. É muito mais difícil honrar, valorizar e celebrar a sexualidade de alguém quando você a acha desafiadora, confusa ou perturbadora. E, até onde eu sei, já vi bastante feministas (e não-feministas) me julgarem ou tentarem me envergonhar por minha sexualidade por conta de suas próprias questões com isso (…)
Então de muitas formas eu concordo (…) que o feminismo pode estar muito bem alinhado com positividade sexual. Mas ele desliza nos momentos em que as pessoas arrogantemente julgam outras e no uso da vergonha e da repulsa para tentar convencer pessoas, ambas formas infelizmente comuns em discussões com feministas, na minha experiência. Esses são mecanismos de erotofobia e acredito que essa é uma grande razão pela qual algumas pessoas igualam feminismo com negatividade sexual. Tenho dificuldade em imaginar como alguém poderia criar um conjunto realmente libertador de éticas sexuais se está empregando ferramentas que criam e reforçam a vergonha do sexo.
- Robert Jensen Doesn’t Understand Sex-Positivity

Marina de La Riva - Uma tigresa (homenagem a Caetano Veloso)

Cara metade

Barbara Gomes uniu instagram a colagens para lançar nova moda de fotografias
 
Texto por Juliana Menz Fotos Barbara Gomes
 
Bárbara Gomes


Inspirada no trabalho de artistas como David Hockney e John Hilliard, que utilizam sobreposições e colagens em suas fotos, a fotógrafa catarinense Barbara Gomes, 36 anos, começou a sobrepor recortes de revistas em fotos de amigos. “No início foi meio aleatório. Aos poucos, comecei a buscar imagens de rostos cada vez mais parecidos com o do fotografado”, conta. Mas ela só percebeu a popularidade da ideia quando começou a divulgar a brincadeira no Instagram – famoso aplicativo do iPhone – e viu crescer o número de “curtidas” em seus posts. Com suas metades selecionadas, figuras como o arquiteto Marcelo Rosenbaum, o letrista Carlos Rennó e o músico Edgard Scandurra foram fundidas, respectivamente, a um modelo da Armani, Caetano Veloso e Pelé. O cantor e compositor Seu Jorge gostou tanto do resultado de sua “união” com Jimi Hendrix (foto acima) que considera a imagem para uma possível capa de seu próximo disco. Barbara comemora o sucesso e não descarta a possibilidade de fazer uma exposição reunindo os retratos, desta vez devidamente impressos e emoldurados.

Vai lá: lab.bg7

Café, essa droga deliciosa

Cafeína; mais forte que cocaína


Cafeína é droga muito mais poderosa que cocaína. Em meu nada glorioso passado, fui, várias vezes, submetido a torturas e sevícias. Pancadas danificaram o funcionamento de meu intestino. Café para mim é veneno. É tomar e logo em seguida ser acometido por dores que parece vão dar nó nas tripas. Tentei largar mil vezes. Impossível. É cultural: nós brasileiros tomamos café desde pequenos.
Café vem da Etiópia. É legado e orgulho da cultura etíope. Os árabes adotaram café exatamente porque a bebida alcoólica era proibida pelo Alcorão. A pena ao alcoolismo era execução. Café era legal, vinho não. Mas era outro café. Muito diferente da variedade cultivada no Brasil atualmente. Os guerreiros enchiam a cara de café antes de enfrentarem a luta. Os sufis tomavam muito café antes de iniciarem os rodopios que os levavam ao êxtase.
Estive preso com um boliviano que se tornou amigo. Sua família mandava café de lá para ele. Vinha em saquinhos pressurizados de 5 ou 10 gramas. Tipo ki-suco. Com 5 colheres de sopa do melhor pó de café nacional, fazíamos uma garrafa térmica de um litro cheia. Com meia colher do café que vinha da Bolívia fazíamos a mesma quantia e até mais forte. Tinta preta mesmo. Quem aprecia café, sabe do que estou falando.
Chegou à Europa como umas das especiarias do oriente. Muitos salões para café foram abertos. Tomar café nos “cafés” era uma atividade social por excelência. Aos “cafés” acorriam escritores, políticos, poetas, trabalhadores comuns, tanto pobres quanto ricos. “Café” era um espaço democrático. Os distúrbios sociais e as revoluções eram idealizados e até desencadeados a partir dos “cafés”.
Na borra do café lia-se o futuro. Café também era considerado elixir do amor. Muitos aventureiros arriscaram o pescoço contrabandeando e esparramando suas sementes pelo mundo. Na Índia e no Brasil suas sementes entraram sorrateiramente e dominaram.
O álcool excita e a maconha relaxa. O café afasta o sono, traz vivacidade e descontração ao mesmo tempo. Talvez esteja ai a raiz de seu sucesso. Por falar nisso, aceita um café? Com dor ou sem dor, falar deu a maior vontade; vou à cozinha coar um agora...
**
Luiz Mendes
18/11/2011.



Silêncio puro, sem gelo, por favor!



Sabe o coração inquieto? Trago-o dentro do peito...

Eu lembro que cabia você inteirinho, e você é grande,

Cabia você e tudo que fomos armazenando lá...

Eu até sei lidar com a solidão, mas o vazio, me dá uma agonia!!!

RS 11/18/11

The Eagles to Launch 40th Anniversary Tour in 2012

By Andy Greene
November 17, 2011 4:00 PM ET



eagles
Timothy B. Schmit, Glenn Frey and Joe Walsh of the Eagles perform at Universal Studios Hollywood.
Lester Cohen/Getty Images For City Of Hope



According to Joe Walsh, the Eagles are going to celebrate their upcoming 40th anniversary with a retrospective tour next year. "Everybody's seen our show, so we have to put together something new," the guitarist tells Rolling Stone. "We've been archiving so much stuff from the band's early days, concert footage and interviews and stuff. Those will be the visuals to go along with the songs. We'll also revisit some old songs and some new stuff."

Walsh says the band plans to tour for four or five months in the second half of 2012 – which leaves him with plenty of time for other projects. He just finished work on a solo album that he hopes to release in February or March, and he wants to tour again with the James Gang. "I just played Cleveland solo and I saw Jimmy [Fox] and Dale [Peters]," he says. "We got together a few years ago just for six shows, just to see if we still had it. And we pretty much did. So, a James Gang tour is on my list. I've just been so darn busy with the Eagles. We played everywhere in the world last year."


The Joe Walsh lineup of the James Gang haven't cut an album since Thirds in 1971. "We should record at least four things playing the way that we used to," says Walsh. "I don't want to use Pro Tools and I want to overdub, because you can't do that live. But if we can do at least four things new and get them on the Internet, I think with that and a cross section of the old stuff, we'd have all we need to go out and try and kick some ass. I hope we get to do that in the first half of 2012. I really hope it works out."


Read more: http://www.rollingstone.com/music/news/the-eagles-to-launch-40th-anniversary-tour-in-2012-20111117#ixzz1e4p3MsHc

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Mariana Aydar se apresenta...





Chico Buarque - Entrevista RS

por Paulo Terron
"Eu teria de mudar a minha vida inteira.” Chico Buarque está com o olhar perdido em direção ao chão da sala de sua cobertura, no Alto Leblon, no Rio de Janeiro. Ele não se refere a música ou política, mas a um terceiro elemento sempre associado à sua imagem pública: o futebol. Aos 67 anos, ele sente dores nas costas; em uma consulta, recebeu a notícia de que não poderia mais jogar nas partidas de seu time, o Polytheama. “Mas consultei outro médico e ele me disse que exatamente porque faço esse exercício eu não precisaria parar”, diz.
As declarações deixam óbvia a importância do futebol na vida do artista, mas também puxam o ambiente para um universo além-arte. Nesta tarde de agosto, ele está disposto a falar sobre qualquer tema, sem limitação de tempo – uma oportunidade rara com um astro notoriamente avesso a ações promocionais. Atualmente, as chances
de se cruzar com Chico em eventos sociais estão entre a de ser atingido por um raio e a de não encontrar um ex-BBB em uma festa  open bar.
O apartamento é espaçoso, decorado discretamente. Em uma sala, um piano e um violão se encontram ao lado de um computador Macintosh. São instrumentos da alternância que ele mantém desde os anos 90, revezando o trabalho entre a literatura e a música. Agora, ele é o Chico Buarque compositor, que lançou Chico (o primeiro disco de estúdio desde 2006) e está imerso no processo da nova turnê (que deve começar em Belo Horizonte em novembro e passará pelas principais capitais).
Entre sorrisos e gargalhadas – ao perceber um assunto familiar, um meio sorriso surge; ao se empolgar com uma resposta, gargalha até perder o fôlego –, o músico revela à Rolling Stone Brasil um retrato preciso de como se encontra em 2011: calmo (mas não conformado), incisivo (e às vezes inseguro), mas jamais lacônico ou desinteressante. Após cinco décadas de atividade artística, Chico Buarque de Hollanda está pronto para mostrar seu lado humano sem hesitação ao caminhar pelo espaço reservado somente às lendas.
Você é conhecido por ser metódico no trabalho. E na vida cotidiana, também? Você se permite decisões espontâneas ou mantém o controle?
Eu não sabia que tinha fama de metódico. Na verdade, minha vida e meu trabalho se confundem, nem eu mesmo sei direito quando estou trabalhando ou não. Às vezes digo que estou muito atarefado, porque as pessoas pensam que um artista está sempre disponível para ir à festa. Como o artista em geral não tem horário, não dá expediente, costumam pensar que é vagabundo. Mas, assim como a criança se concentra num brinquedo, tem dias em que preciso me concentrar no trabalho, nem que seja compor um palíndromo ou inventar times de futebol.
Quando se propõe a fazer um disco, o processo de compor só começa quando você determina?
Não é nem um pouco regrado. O que acontece é que, hoje, compor se tornou um ato tão rarefeito que a cada vez que faço uma música me lembro exatamente – eu sei a história de cada composição, porque é um momento especial. É normal para qualquer compositor, qualquer criador, perder aquele entusiasmo juvenil com o [passar do] tempo, aquela exuberância criadora toda. Vai se tornando um criador mais seletivo.
A imagem romântica do artista tem mais a ver com inspiração: você está na padaria, baixa a inspiração e escreve a letra. As pessoas não pensam que fazer música é um esforço consciente.
É e não é. Tem algo de mágico, algo que corresponde a essa ideia romântica. Porque você não faz a música quando quer, você não escreve e tem uma boa ideia quando quer. Agora, você tem que estar disponível para as ideias surgirem. A centelha que desencadeia a música continua tendo um certo mistério. A partir daí, o trabalho é trabalho. Você tem uma técnica, tem uma experiência. Dificilmente você vai escrever na padaria, mas pode, por exemplo, fazer isso caminhando. Muitas das minhas caminhadas são de trabalho. Vou caminhando e pensando em como desenvolver melhor uma música. Mas criar... eu preciso de um instrumento para criar, eu preciso do violão. Agora, a letra: posso andar com uma maquininha dessas, um fone de ouvido, ouvindo aquela música e desenvolvendo numa caminhada ou até mesmo na padaria. Estou o tempo todo a serviço dessa música. Se estiver num restaurante conversando, posso ter uma ideia que vai me tirar daquela conversa e me levar de volta para a minha música. É um pouco as duas coisas.
Em seu período de dedicação à literatura, a música – não como ofício – continua presente? Por exemplo, ouvindo música dos outros?
Não, não. Eu não ouço música. Na verdade, ouço pouca música. Escrevendo ou não escrevendo, ouço pouca música. Recebo um disco de um autor ou de uma cantora que me interessam, coisas que me recomendam. E é assim: ponho o CD no carro, que é o lugar onde mais ouço, e escuto aquilo. Quando você está escrevendo, criando, parece que é um choque! As coisas que entram, batem e saem. Quando estou escrevendo um livro, não tenho o menor interesse por música, fico inteiramente fora. Períodos como este agora: aí, sim, estou aberto a tudo e ouço coisas que aparecem.
A partir dos anos 00, sempre que vai explicar um novo disco, você diz: “Eu andava meio parado com a música”. Você já se considerou inseguro em relação a isso? Parece que existe um esforço consciente seu.
Sim, porque sair da inércia é complicado, tanto para a música quanto para a literatura. Quando eu me disponho a entrar na fase musical, requer um esforço. Não é do nada que aparece, não é assim. Tem que buscar. Minha primeira sensação, quando pego o violão depois de um longo tempo, é a de que não sei mais como se faz uma música. Eu não tenho ideia de como se compõe. É como se fosse um instrumento alheio, como se não me dissesse respeito. É um momento de quase flerte com a música, de procurar me reaproximar. Então pego o violão e começo a tocar: “Que diabo é isso? Pra onde vou?” Ou então os acordes já vêm na sequência que vinham antes, começam a se repetir e tocar quase que mecanicamente. Até voltar a dominar aquilo leva um bom tempo. Quando vou escrever um livro, é a mesma coisa. É um exercício, que se tem que fazer até se sentir dentro da coisa.
A expectativa a respeito de suas músicas é sempre alta. Essa pressão chega até você?
Eu não posso me deixar levar por isso. E não adianta você querer matar um leão por dia, porque as pessoas sempre vão dizer que o leão antigo era melhor e mais forte do que o de hoje [risos]. Mas não é isso que vai me estimular. Existe uma pressão interna, sim, uma necessidade e um prazer grande em fazer uma música. Essa possibilidade de alternância é saudável, porque ninguém está esperando um disco novo meu daqui a um ano: nem eu, nem ninguém. Tem esse tempo todo agora, lento e de maturação. Escrever um livro provavelmente – e isso não precisa ser tão mecânico – vai tomar um longo tempo. Então, não acho que a gente deva se levar por esse tipo de pressão. Não tenho contrato com gravadora, não tenho obrigação nenhuma e já é suficiente a pressão que a gente exerce sobre si próprio.
Hoje se vendem menos discos. Faz diferença?
Não, para mim não faz. Tanto é que eu fiquei sabendo mais ou menos dessas novidades durante as conversas de lançamento do disco. Então me foi apresentado um projeto de lançar o disco pela internet e eu não conhecia nada disso. E aí eu fui conhecer a realidade do mercado. Eu andava longe disso havia cinco ou seis anos e não sabia que tinha mudado tanto assim. A previsão do lançamento de um disco é, em termos numéricos, muito inferior agora. Então, tentei compensar a gravadora, de certa forma, pelo investimento que ela fez, colaborando no projeto de lançamento deles. Internet e aquela coisa do site e tal. Mas isso não é assunto meu. Eu, na verdade, cheguei a uma altura da vida que não preciso mais do disco para sobreviver. Eu já tenho basicamente aquilo que eu preciso, não tenho grandes ambições. Já tenho certa estabilidade financeira e não preciso ficar muito preocupado com isso. Meus discos vendem direitinho, tenho direitos autorais aqui e lá fora. Os livros vendem mais do que os discos, inclusive [risos]. E os livros são vendidos lá fora. Não tenho essa preocupação.
Como estão os planos para a turnê?
Quem está vendo isso é o pessoal da produção, porque fazer um show hoje em dia... Para me sentir confortável no palco, vou querer chamar meus músicos, meus amigos com quem eu já me dou bem. As músicas são novas, os amigos não precisam ser novos, são os velhos mesmo. Para montar isso tudo é uma estrutura grande. Precisa de patrocínio. Vou precisar de um mês, talvez mais, para ensaiar. Para pagar isso, tem de fazer praticamente uma temporada de pelo menos um ano para viabilizar. O pessoal que mexe com isso está procurando uma maneira de viabilizar economicamente esse show. Isso passa por patrocínio e, evidentemente, um patrocínio de um show meu não pode contar com isenção fiscal, com Lei Rouanet, com nada disso. Senão, seria mais fácil [risos]. Mas mesmo no meu último show eu não tinha isso.
Por opção? Porque você prefere?
Hoje eu nem poderia porque acontece, por acaso, que a minha irmã é a ministra da Cultura. Mas o último show já era, se não me engano, o governo Lula. Gil era o ministro da Cultura e achei melhor não entrar com patrocínio via Lei Rouanet. Mas isso dificulta. Você sabe disso, né? Não é qualquer empresa que vai querer simplesmente associar o nome a um artista sem poder abater no seu imposto de renda e tal.
A Lei Rouanet é uma questão peculiar para artistas do seu tamanho. As pessoas parecem não entender direito como ela funciona.
Parece que não há muita boa vontade em deixar claro, para o grande público, o que é a Lei Rouanet. Sempre se passa essa ideia de que o governo está bancando um artista, de que o Ministério da Cultura está financiando um filme, uma peça, um show de artista famoso. O Ministério, pelo contrário, patrocina justamente quem não tem acesso à Lei Rouanet. Ela permite que o artista busque patrocínio na iniciativa privada, mediante isenção fiscal. Não cabe ao Ministério julgar se o artista precisa ou não de alguma ajuda pessoal, cabe a ele julgar o mérito do projeto apresentado. Há quem seja contra porque acredita que o Estado não deve dar incentivo algum às artes e à cultura. É um ponto de vista. Eu nem queria entrar muito nesse assunto. Estou entrando assim, de raspão, porque desde que minha irmã foi nomeada ministra eu me sinto impedido de opinar. Até fico fora do assunto de direito autoral para não parecer que eu tenho alguma coisa a ver com isso. Para mim é um incômodo ter uma irmã no Ministério da Cultura.
A Ana de Hollanda foi criticada por ter uma postura em relação aos direitos autorais que foi considerada um retrocesso em relação aos ministros anteriores. Você tem opinião sobre isso?
Não tenho e me mantive alheio a esse assunto. Exatamente porque desde o início tentou-se passar a impressão de que eu teria alguma ingerência na nomeação da minha irmã como ministra. Para mim, o mais confortável era que o Juca Ferreira continuasse sendo ministro. Até mesmo para que as pessoas xingassem o Juca Ferreira e não a minha irmã nos jornais [risos]. Quando entra esse assunto de direitos autorais, volta e meia sou procurado, recebo e-mails e tal. Digo: “Prefiro não me interessar por isso”. São tantos assuntos pelos quais a gente tem de se interessar, tantos jornais que a gente tem de ler, tantas notícias que a gente tem que ficar por dentro, que eu prefiro deixar esse de lado. E há colegas meus que estão brigando, discutindo isso com muito mais conhecimento de causa do que eu. Prefiro não opinar. Nem sei direito o que é o Creative Commons, o que isso deixa de ser. Eu sei que o selo foi tirado do [site do] Ministério. O que isso representa, eu não sei.
Quem participar de um jantar no qual estivessem você e a Ana ouvirá que tipo de conversa?
Ouvirá muita conversa jogada fora. Somos muitos irmãos, todos nos damos bem, mas quando nos encontramos ninguém se mete na vida do outro. Só pelas costas.
Você acha que esperam que você tenha opinião sobre política porque no passado você foi tão ligado a esse tema?
Acho que nem se espera mais tanto. Isso acontece durante as campanhas eleitorais quando fica impossível, para mim, não tomar partido. Porque eu acompanho a política do país desde garoto, desde os tempos do Juscelino [Kubitschek]. A primeira vez que votei foi pela volta do presidencialismo, João Goulart, e desde então me interesso por política e me manifesto. Agora, a vida política, o dia a dia, não me atrai nem um pouco e nem faço questão de ficar me manifestando. Durante uma campanha eleitoral, o artista é praticamente compelido a se manifestar. Porque senão vão dizer: “Cadê os artistas que estavam falando e agora não falam mais nada, estão em cima do muro?” Eu sei perfeitamente o que faço quando tomo partido durante uma campanha. Na última, apoiei a Dilma e sabia que isso ia atrair o ódio de quem votou no Serra. Se eu apoiasse o Serra, provavelmente ia atrair o ódio de quem votou na Dilma. Nesse momento, tudo fica exacerbado. Mas não vou ficar me pautando por isso, pelo medo de ser odiado por essa ou por aquela parcela da opinião pública. Isso passa com o tempo. Quer dizer, passa em termos. Porque há sempre uma cobrança. “Você apoiou, o que você acha disso e daquilo?” Eu apoiei e não me arrependo. É mais cômodo ser oposição, sem dúvida. Eu votei no Jango, na volta do Jango à presidência da República depois da tentativa de golpe de 1961, que não durou muito, pois em 1964 veio o golpe militar. O que eu apoiava no Jango é o que o governo Lula mais ou menos implantou no país. O que me envergonhava nos anos 60 era o que me envergonhava até há pouco. O Brasil era um país tão rico, eu vivia num país tão rico e tão desigual. Essa desigualdade, de certa forma, foi reduzida. Ou se tentou reduzir, investiu-se nisso, na redução da miséria por meio de programas sociais. E também me envergonhava viver num país internacionalmente insignificante, subserviente. Acredito que durante o governo Lula se criou uma política externa mais condizente com a importância do país. O país cresceu aos olhos do mundo devido a essa política externa.
Na última eleição, você declarou que votaria na Dilma, mas que não via muita diferença entre ela e o Serra. E mencionou agora que é mais cômodo ser oposição. Em algum momento se sentiu decepcionado pelo PT depois que o partido assumiu o poder?
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que eu não sou filiado ao PT. Nunca fui e não voto automaticamente com o PT. Um ano antes das eleições, antes das campanhas eleitorais, numa entrevista que fizeram na França, perguntaram sobre as eleições e o quadro ainda não estava muito claro. E eu disse: “Não vejo muita diferença, acho que um eventual governo do Serra não vai ser muito diferente do que o governo Lula tem feito em termos econômicos. Não vejo grande possibilidade de se mudar, até mesmo porque a política econômica do governo Lula seguiu mais ou menos as diretrizes do governo anterior, do Fernando Henrique. Não vejo grandes possibilidades de alteração, não vejo grandes diferenças entre os candidatos. Até porque o passado de Serra é o de um homem de esquerda – até à esquerda de Fernando Henrique”. Pois bem, começou a campanha e o Serra inicialmente até demonstrou certo endosso à figura e à política do Lula. Só que isso foi se desvirtuando e ele foi abraçando os valores mais reacionários que tem no país. O Serra se deixou levar por um tipo de discurso que não tem absolutamente nada a ver com o Serra que eu conheci. Nesse Serra eu não votaria nunca. Ali, claramente, optei mais uma vez por um candidato do PT, a Dilma. Eu estou querendo dizer que um ano antes eu não tinha conhecimento suficiente de quem era a Dilma. Se não me engano ela era candidata já – ou nomeada, indicada, sugerida, insinuada pelo Lula. Não havia uma clareza muito grande sobre o que iria acontecer. Quando a campanha chegou, eu me senti obrigado a tomar uma posição, e essa posição não poderia ser outra. Isso não tem nada a ver com alinhamento automático com o PT. Eu tenho um milhão de críticas ao PT. Pessoas que conheci quando era um pequeno partido hoje são pessoas com quem eu não quero me encontrar. As pessoas que rodeiam o Lula eu não quero encontrar. Essas pessoas eu não quero ver pela frente. Não vou a Brasília, não vou ao Palácio, não tenho atração alguma pelo poder. Ao mesmo tempo, é muito cômodo eu, que não tenho de governar, dizer isso tudo: “Ah, com esse fulano eu não falo”. Eu não preciso falar. O Lula tem que falar, ele tem que lidar com essa gente. A Dilma tem que lidar com uma porção de gente que eu não convidaria para entrar na minha casa [risos]. Eu não sou um político e não tenho a menor vocação para isso. Nunca seria. Tenho as minhas posições claras, mas também reconheço que é confortável estar em casa e [ficar falando] “Porra, olha o Lula tirando foto com não sei quem, a Dilma dando abraço em não sei quem”. Ninguém vai governar sem certos acordos, sem certas alianças. É impossível, pelo menos no sistema político que se tem aqui no Brasil. Ninguém faz. Nem a Marina Silva, que eu adoro.
Você nunca escondeu sua admiração pelo Lula. Caso viesse a disputar a presidência novamente, ele teria o seu apoio?
Com quem? Contra a Dilma? [Gargalhadas]
No lugar da Dilma.
Ele tem meu apoio, sim. Tenho a maior admiração pelo Lula. Nada do que eu falei aqui é contra o Lula. Não sei se não fui claro: não gosto das pessoas... Metade das pessoas que estão em volta do Lula são pessoas que eu não convidaria para tomar um cafezinho. Ao mesmo tempo, entendo que ele tenha de tomar um cafezinho com essas pessoas. Conheci muita gente do PT, da época de partido pequeno, que se perdeu pelo caminho. Todo mundo sabe que o poder corrompe. A corrupção está ali, você não vai eliminar a corrupção – nem aqui nem em nenhum lugar do mundo. Nem o Lula e muito menos a Dilma são a favor da corrupção. Existe uma consciência de que há corruptos – se não no primeiro, pelo menos no segundo, terceiro escalão. Há uma estrutura viciada, corrupta. E isso é o Brasil, isso é a política.
Politicamente, você sempre foi associado à esquerda. Esse conceito ainda se aplica à política brasileira? Ainda existe esquerda?
Eu acredito que sim. Acredito que quando se toma como prioridade – como prioridade, não como acessória – uma política que combata a desigualdade de renda, que procure tirar gente da miséria, como no governo Lula, isso não pode deixar de ser considerado uma política de esquerda.
Nos anos 90, muita música brasileira foi redescoberta lá fora. Os Mutantes, pela identifi cação com a psicodelia; o Tom Zé foi descoberto pelo David Byrne. Só que você não passou por isso.
Não passei. Mas outro dia fui jogar futebol em Lisboa e o Felipão [Luiz Felipe Scolari] era o técnico. Era um jogo dos amigos do Zidane contra os amigos do Figo. Ele me escalou de saída, e o baterista do Radiohead [Phil Selway] ficou lá no banco, emburrado, porque ele não saiu jogando e eu sim. No intervalo, falei pra ele: “Escuta, não fica aí de cara feia porque o nome da sua banda é roubado de uma música minha” [risos]. O David Byrne ouviu a “rádio cabeça” [a música “O Último Blues”, que contém o verso “na Rádio Cabeça” ], quando foi lançado o disco da Ópera do Malandro. Ele esteve aqui e cantou “A Volta do Malandro” no Canecão. Ele deve ter achado que era uma expressão que se usava muito no Brasil e fez a música lá dele [ “Radio Head”, de True Stories, 1986] que deu origem ao [nome do] Radiohead. Então me sinto representado pelo Radiohead, por intermédio do David Byrne. Afora isso, já tentei fazer carreira lá fora quando morei na Itália e não fui bem-sucedido. Não tenho essa ambição. Mal faço shows aqui no Brasil, tenho preguiça de fazer shows lá fora e não passa pela minha cabeça a ambição de ser conhecido lá. Se alguém resolver – além do Radiohead – me fazer uma homenagem, está liberado! Pode fazer à vontade [risos]. Não me chateia não ter sido descoberto até agora.
Você já disse que tirou músicas dos shows porque as acha datadas. O que data uma música sua?
Posso atribuir essa datação às músicas mais agudas do tempo da ditadura. Algumas músicas que foram criadas meio que como uma função extramusical. Ou seja, com a intenção de desafiar o regime, a censura etc. Vamos dizer: músicas sinceras. Essas vivem menos, talvez seja isso. Outras ficam datadas musicalmente, porque são canções, harmonias que não representam mais o que me interessa hoje como uma solução harmônica, construção melódica. Essas têm remédio porque eu posso refazer, rearranjar, re-harmonizar. Agora, a meia dúzia de canções – “Apesar de Você”, “Cálice”, “Deus lhe Pague” – essas, para mim, ficaram datadas. Elas correspondem ao momento político e não fazem grande sentido hoje.
Será que essas músicas não têm um significado mais abrangente para o público?
Pode ser, pode ser. Porque as pessoas têm uma lembrança afetiva da música. Elas gostam de determinadas músicas porque elas remetem a uma época feliz da sua vida. “Essa é a música que ouvi quando conheci a minha namorada.” Isso existe independentemente do que diz a letra. Quando eu digo que não tenho vontade de cantá-las porque elas são datadas, isso é pra mim! Eu não tenho vontade de cantar. Acredito que as pessoas que não tinham posições políticas claras na época possam ouvir “Apesar de Você” hoje e encontrar um valor afetivo muito grande, independentemente do que a letra diz. Isso até contraria um pouquinho o que você falou, porque as pessoas se deixam levar pela música e, às vezes, cantam a letra sem prestar atenção no que estão dizendo. Isso existe, basta lembrar as músicas que você cantava na infância. “Que engraçado, essa música quer dizer isso!” Você não entendia o que era e repetia. Ou as pessoas que cantam em inglês e muitas vezes não sabem o que diz aquilo. Elas gostam do som e aprendem a dizer aquelas palavras, não têm muita noção do que elas dizem. Ouvem músicas que fazem um enorme sucesso no mundo inteiro e que, na verdade, são compreendidas por uma parcela bem menor de pessoas.
Quem cumpre o papel de crítica social hoje?
Todo o rap que se faz aqui no Rio e em São Paulo é fortemente de crítica social. Eles fazem isso muito bem, com propriedade, falando dos problemas locais da comunidade. Falam muito de uma maneira que eu não saberia abordar. Nem me cabe, me sinto até excluído desse mundo. É direto, não há metáforas, não há censura. Vão direto ao ponto. Eu me sinto até um pouco intruso nesse meio. Para mim, o que acontece é que muitas vezes as pessoas falam: “Vem cá, porque você não fala [de problemas político-sociais nas letras]?” Eu me lembro quando estourou aquela história do Mensalão e, numa entrevista coletiva, perguntaram por que eu não falava daquilo. “Você quer que eu faça o quê? O ‘Sambão do Mensalão’?” Não vou fazer o “Sambão do Mensalão”, mesmo porque as pessoas se esquecem de que essas músicas todas que eu citei antes eram coisas que eu dizia e que, na época, os jornais não falavam. Não me interessa hoje repetir em música o que está todos os dias nos jornais. Nem me interessa muito dar entrevista falando mal do governo. Eu gostava de falar mal do governo quando os jornais não o faziam.
O amor está presente no novo disco. Mas teve uma frase, de “Querido Diário”, que foi muito comentada: “amar uma mulher sem orifício”. Teve muito debate, a crítica a usou contra você.
No “Querido Diário” está lá: um dia, segundo dia, terceiro dia, quarto dia. Evidentemente que há algo de nonsense no sujeito que resolve, num belo dia, ter uma religião e, andando na rua, imagina que vai sacrificar uma ovelha. Já entrou nesse campo [risos]. Aí ele resolve ter uma adoração por uma estátua, ou seja, amar uma mulher sem orifício. Eu li em algum lugar que “amar uma mulher sem orifício” seria amar uma mulher casta, uma mulher difícil. Aí, se não é burrice, já é vontade de encher um pouquinho o saco do compositor.
Até os anos 80 a pergunta clichê que se fazia aos artistas era: “E a crítica?” Agora, virou: “E os paparazzi?”. Você sente saudade de quando a crítica era o principal problema do artista?
Ah, sim. Eu não estou entendendo o [que você quis dizer com] “o problema com a crítica”. O problema com a crítica eu sempre tive...
É que hoje parece que há mais interesse sobre a vida pessoal do artista. Você percebe isso?
[Longo silêncio] Que a vida pessoal ficou muito mais exposta do que há 20, 30 anos, não tem a menor dúvida. Eu tenho de mudar algumas atitudes porque você está mais exposto do que antes, mas não me afeta tanto assim. Me afeta ao, por exemplo, ir à praia. Sempre, desde criança, gostei de ir à praia. Nasci em frente ao mar, nadava em Copacabana, pegava jacaré no Arpoador, mergulhava. Até três anos atrás eu ia à praia. Até o dia em que saio da praia e um sujeito se agarra em mim, começa a berrar, gritar no meu ouvido e a perguntar algumas coisas. Quando me dou conta: “Ih, tem um cara lá filmando. Isso aqui é um número cômico de um programa de televisão” [risos]. Eu agora faço parte de um programa de televisão e vou ter que lidar com isso. Não vou fazer uma cena, só fico pensando em quando é que vai acabar a história. Resultado: não posso ir à praia. Mas não é o fim do mundo. Deixo de ir à praia, deixo de ir ao restaurante da rua Dias Ferreira e pronto. Isso não me afeta grandemente. Falei sobre isso na internet: você está mais exposto, mas aí é você – pessoa – e sua obra também. Com a internet aumentou muito o número de críticos, se multiplicou um milhão de vezes. Como no caso dessa história do verso que você está apontando. Sei exatamente como ela foi criada: num blog de um cara da revista Veja, que tem uma enorme estima pela minha pessoa e gosta de lançar esse tipo de futrica. Ali vale tudo, já sugeriram até que se desapropriasse meu campo de futebol para a construção de casas populares. É um problema que vem de muitos anos, uma questão doentia de uma revista contra um artista. Parece que o cara que manda nessa revista tem ambições literárias. Então ele não gostou de os meus livros ganharem prêmios, porque ele quer ser escritor. Aí, decidi me vingar. Sabe o que eu fiz? Li o romance do cara, um tal de [Mario] Sabino. Não é parente do Fernando Sabino, acho. Fui até o fim, li tudo, tudo. E fiquei tranquilo, passou a raiva [risos]. Falei: “Bom, o melhor que esse cara tem a fazer é ser editor da revista Veja”.
Questão inevitável: é ou já foi difícil ser o Chico?
É difícil ser o Chico quando as pessoas pensam que você é o Chico. Quando você entra no teatro e acham que você é o Chico e que você tem de falar sobre a sua vida ou sobre a sua obra e tal. Porque você está distraído. Você não anda na rua e pensa: “Ah, sou o Chico Buarque”. Não passa pela cabeça do artista. A não ser que ele seja um louco e saia por aí, “Sou o Picasso, sou o Picasso”. Não faz parte das minhas preocupações isso de “o que vou dizer” e “o que vou fazer”. É difícil, às vezes, dar entrevista e ter de ficar se explicando. Fora isso, não tenho queixas, gosto de fazer o que faço. Não que seja fácil escrever livros e canções, mas é preciso sempre desconfiar das coisas fáceis.
Talvez para o artista não exista isso de ser artista o tempo todo, mas para as pessoas é um choque a diferença entre a expectativa e a realidade. Talvez tenha a decepção de...
[Interrompe] O tempo todo.
Os fãs te pedem conselhos na rua, esperando que você mude a vida deles?
Pode acontecer. Se eu ficar parado num lugar, pode acontecer. Por isso estou sempre andando... [risos] Evito que as pessoas venham pedir conselho ou opinião. Mas geralmente o que pedem mais é autógrafo. Agora, mais que autógrafo, são as fotos. Fora isso, eu não fico parado.
O que faz quando quer flanar, conversar com pessoas anonimamente? Para onde você “foge”?
Ando todo dia nas ruas do Rio e quase nunca sou parado, me cumprimentam de passagem. Mas gosto de conversar com o jornaleiro, com as moças do café, com os caras da farmácia. No estrangeiro, além de andar pelas cidades, converso com gente que não faz ideia do que sou ou faço, e isso é bom. Uma ou duas vezes por ano passo uns dias em Paris, e mesmo ser maltratado de vez em quando – ser barrado em restaurante, empurrado no metrô, ouvir desaforo do chofer de táxi – é uma experiência educativa para famosos em geral.
Há uma impressão de que você é mais fechado – não em um nível João Gilberto –, mas certamente mais discreto do que Gil e Caetano. É consciente ou você se força para manter a discrição?
Olha, eu não me forço para nada. Sou o que sou, e se tem uma coisa que me chateia é gente que faz tipo.
A sua turma nos anos 70 era famosa por freqüentar bares para conversar. E hoje você tem essa necessidade de se reunir pessoalmente e trocar ideias com pessoas “equivalentes” a você, intelectuais, artistas, pensadores?
Gosto muito de conversar com meus amigos, que não são necessariamente intelectuais, artistas ou pensadores. Falamos de futebol, cinema, literatura e de otras cositas más. Política também discutimos, numa boa, ninguém nunca brigou com ninguém por causa de política ou de futebol. Em suma, gosto mesmo é de papo-furado em mesa de botequim. Se o pensador quiser me mostrar seus pensamentos, prefiro que o faça por escrito.
Você disse que escuta música com Francisco, seu neto de 14 anos. Como é a relação? Você se envolve com a educação dos netos ou debate com suas filhas a maneira de criá-los?
Imagina se as minhas filhas permitiriam que eu me envolvesse na educação das crianças. Fora que as meninas menores talvez nem saibam que sou seu avô. Eu sou o “Voíco”, aquele cara que acha graça nelas. Já com o Francisco, aliás Chiquinho Brown, tenho algum diálogo musical. Outro dia vi um número dele no YouTube, um solo de guitarra numa banda cover do Iron Maiden. O Chiquinho é muito mais músico que eu, e estou falando sério. Estudou guitarra e violão, é exímio guitarrista, contrabaixista também, toca piano de ouvido, tem ouvido absoluto. Em breve vai se apresentar com sua nova banda, ainda sem nome, mas nem a mãe dele pode assistir. Parece que o show é num local proibido para maiores de dezoito anos. Da família só quem vai sou eu, como vocalista convidado. Devemos tocar “Jorge Maravilha”, aquela do “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.
Você mora sozinho. Como foi essa transição, após tantos anos casado e com filhos em casa?
Já nasci cercado de muita gente, família grande. Casei moço, tive três filhas, e logo elas foram enchendo a casa com um monte de amigas e namorados. Era uma grande animação. Por isso, quando fui morar sozinho, pensei que fosse estranhar. Mas também é bom, é como um silêncio depois de muita música.
No vídeo sobre a internet postado no site do seu disco, você fala que um cara diz: “Olha o que a bebida faz com a pessoa”. E aí você menciona que nem bebe mais. De onde veio essa decisão?
Parece mentira, né? [risos] Parei de tomar destilados há muito tempo. Mas já falei sobre isso. Falei até que tinha um bruxo que me deu umas ervas e enjoei de uísque. Minha bebida era o uísque – e nem vodca mais eu conseguia tomar. Fiquei tomando vinho, mas isso tem 20 anos.
Há uma associação forte da sua imagem nos anos 70, pré-politicamente correto, de entrevistas para a TV com um uísque na mão.
Com um copo e com um cigarro, um em cada mão.
Por isso você brincou: “Parece mentira”. Talvez venha daí essa desconfiança.
É, não havia essa preocupação. Realmente, eu não vou falar de mim, mas agora tem muito essa história. Por exemplo, a Amy Winehouse. Aparece na Veja: “A cantora drogada Amy Winehouse vai gravar um disco...” Virou uma coisa absurda. A foto do Vinicius [de Moraes] na Livraria da Travessa: adulteraram. Tiraram não lembro se foi o copo ou o cigarro, acho que foi o copo. E ficou aquela mão-boba, sem o copo. Fizeram um Photoshop para não dar mau exemplo. E a gente bebia e fumava em cena, fazia parte da mise-en-scène: Vinicius sentado com aquela garrafa. Era normal, a gente ficava meio altinho. Hoje, puta que pariu... [risos] Se tivesse paparazzi naquela época... Além de paparazzi de foto, agora também tem ouvido paparazzo. Você está sentado num restaurante e tem o cara ali ao lado, o paparazzo orelhudo. No dia seguinte está na rede: “Fulano falou isso e aquilo”. E os jogadores de futebol não podem tomar saquê porque vai a imprensa lá: “O jogador tomou 20 saquês”. Isso acho chato, essa fiscalização moralista da vida dos outros. Bom, vou deixar de ir à praia, mas outras coisas não vou deixar de fazer. O meu vinho vou tomar, o meu cigarro vou fumar. Também fumo – pouco, mas fumo – e não vou deixar de tomar o meu vinho e fumar porque tem um cara que vai dizer que você se embebeda e está destroçando os seus pulmões e tal, que você vai morrer e é benfeito.
Há um debate quanto ao surgimento de radicais, o que faz parte de se viver em uma democracia. Uma polêmica recente foi sobre o “Dia do Orgulho Hétero”. Como manter o debate saudável? Radicais surgem de todos os lados...Já surgiram. Na verdade, um projeto como esse que foi votado pela Câmara Municipal de São Paulo é a serviço e a reboque dessas manifestações que tem a toda hora: dos skinheads, que justificam bater em gays ou em supostos gays – um pai abraçando um filho toma porrada. Eles têm liberdade de se manifestar e vão se manifestar no Dia do Orgulho Hétero, que a Câmara fez o favor de criar. Não há o que fazer, numa democracia não se pode impedir nada. Nem que o norueguês junte os seus armamentos e saia matando. Não se pode proibir a veiculação de ideias, nem aquelas nas quais ele se baseou.
É um debate amplo. Vão continuar a questionar se a internet não deveria ser controlada.
Eu não acho [que deveria ser controlada], e até acho que quando vejo essas coisas na internet é interessante para se ter uma ideia do país em que você vive. Porque há muita mentira, muita hipocrisia com relação a racismo, em relação à tolerância de diferenças, aos homossexuais e tudo mais. Ninguém quer dizer que é racista. Há pesquisas nesse sentido. Isso foi feito em São Paulo já faz algum tempo e não me lembro dos números. Pessoas que se declaravam racistas: 1%. Pessoas que conheciam racistas: 99%! Tem alguma coisa errada aí [risos]. Então, você tem mais ou menos a temperatura do país em que vive, da sociedade em que vive, deixando, abrindo para esse tipo de manifestação. É crime explicitar o racismo, não pode chamar “o negro não sei quê”. Mas o cara que faz isso anonimamente na internet, de certa forma, está te dando uma ideia de como a questão é vista no Brasil. O problema do racismo é absurdo. E é mais absurdo ainda sendo o Brasil o que é: uma sociedade miscigenada. O racismo é uma espécie de autorracismo.
Em outro vídeo, você falou: “Desde pequeno eu tinha impressão de que um dia eu ficaria velho. E fiquei”. Sempre teve essa expectativa? [Risos] Eu desconfiava de que um dia ficaria velho... Porque tem pessoas que não desconfiam. Acham que nunca serão velhos, como acham que nunca foram pretos.
Mas não é um problema para você? No disco tem uma música sobre isso, “Barafunda”. Eu lido muito bem com isso, inclusive porque eu nem acredito que seja velho [gargalhadas]! Nem acredito que vá ficar velho um dia. Então eu dou risada. Outro dia, descobri que fiquei mais velho que o Vinicius de Moraes. Daí eu estava jogando futebol e tinha um garoto de 20 anos, que me deu um carrinho com campo molhado. Me acertou o tornozelo. Fiquei puto: “Moleque de merda!” E daí a pouco fiquei orgulhosíssimo: ninguém daria um carrinho desses no Vinicius. Ninguém [gargalha]! Nem no Tom [Jobim]. O Tom se foi com a minha idade, 67.
Neste mês completam-se 45 anos do II Festival da Música Popular Brasileira, que teve “A Banda” e “Disparada” como vencedoras. Hoje, sabe-se que a sua música ganhou na votação, mas você exigiu o empate. O que aconteceu? [Risos] Acho que metade foi generosidade e metade foi medo. Ganhar aquilo sozinho ia ser difícil, porque ali estava rachado... E, quando digo generosidade, não estou brincando. Eu realmente achava que “Disparada” era uma música superior a “A Banda”. Eu gostava muito, tanto que, há pouco tempo, fui a São Paulo para um prêmio literário, o Jair Rodrigues cantou essa música e quase chorei. Eu não sou muito de chorar. É muito bonita.
Essa competição dos festivais chegou a virar algo não saudável? No fim dos anos 60, foi muito noticiado o desentendimento que você teria com o Caetano, quando ele gravou “Carolina”. Isso foi basicamente em 1967, quando surgiu o Tropicalismo. Eu fui eleito pelos teóricos do Tropicalismo, pelos jornalistas, como o adversário a ser abatido. Então realmente foi muito pesado, porque eu estava quase sozinho nessa história. E aquilo contaminou um pouquinho, a gente meio que se afastou, mas não tanto por causa disso. Eu já morava no Rio, e o Gil e o Caetano, em São Paulo. Eles estavam andando em outro círculo. A gente se afastou até por questões geográficas e não houve muito tempo para se entender e conversar. Mas não foi nada pessoal, nenhum ataque pessoal do Caetano a mim e nem vice-versa. Do Gil também não.
Eles diziam que a sua música era conservadora. Na época, eu estava aprendendo a fazer música com o Tom Jobim, começando as minhas parcerias com ele. Estava preocupado com outras coisas. E fui eleito como alvo preferencial do Tropicalismo. Isso ficou rendendo muito tempo, esse Fla-Flu. Mas o fato de o Gil, o Caetano e o Milton estarem atuantes até hoje é, para mim, muito bom. Eu diria que, de certa forma, uma competitividade é saudável. Primeiro, eles são muito mais velhos do que eu, vão fazer 70 anos no ano que vem... [risos] Se eles estão compondo, gravando e cantando, não vou me acomodar. “Ah, também quero fazer!” Nesse sentido, é bom. Se o Caetano amanhã desistir de fazer música, vou ficar triste. E, ao mesmo tempo, vou dizer: “Ah, que preguiça, vou parar também”. Nesse sentido, pode existir um estímulo que vem da competição, do espírito competitivo. Se bem que o Caetano é mais competitivo do que eu. Outro dia ele viu uma foto minha, ficou com inveja da minha barriga e está criando uma maior do que a minha [risos].
Para encerrar: se eu perguntar quem é a pessoa musicalmente mais importante para você, qual é o primeiro nome que vem à cabeça? O Tom Jobim. Eu o situaria ao lado do João Gilberto, são os responsáveis pela minha formação. Tom foi um amigo, um parceiro com quem aprendi e de quem fui muito próximo. Vi ele compondo “Águas de Março”, ele tinha esse lado meio exibicionista. E o João foi a revelação, o ponto inicial.
http://rollingstone.com.br/edicao/edicao-61/entrevista-rs-chico-buarque