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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Porque é que os Homens não Compreendem as Mulheres



Tu estás convencida há vários anos de que eu não te compreendo. Esta é sempre a teoria das mulheres, que não são compreendidas, que não são queridas, que não são adoradas, as queixas montanhas grandes, queixas enormes, sempre a justificar uma infelicidade que lhes vem lá do fundo da criação do mundo, do útero, da terra, as mulheres reflectem o útero feminino da terra, um útero cheio de aflições, em conclusão, queixam-se de tudo então entre os quarenta e os cinquenta, esse útero funciona nas alturas, é um útero cósmico que já não é parte de uma mulher, pertence à mulher do mundo. Há muita verdade no que dizes, o homem desinteressa-se facilmente, depois do acto do amor, depois logo sacode as penas, arrebita, passa à frente, domina outro mundo, a mulher fica fechada, acanhada nesse encontro muito íntimo, nesse seu mais fundo dos fundos, na identidade uterina com a ideia da criação, da reprodução da génese, salta, salta, forma-se na mulher a visão do caos a que só ela pelo amor pode dar uma nova regra, pelo domínio da paixão, pela companhia, para isso tem de ser compreendida, ela julga que é compreendida, tem de justificar a sua infelicidade pela compreensão do amor, de um outro amor, a mulher busca no outro amor o amor definitivo, amor que nunca aparece, é o poder fantásmico de convicção, que rompe todas as barreiras, a mulher atira-se, não sabe onde nem como, é capaz dos maiores actos de heroísmo clandestino, aparece, vai, surge, abre-se, mostra o que é o amor, a sua entrega total.

Ruben A., in 'Silêncio para 4'

A Felicidade


A felicidade é um estado permanente que não parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo contínuo que não permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós próprios também mudamos e ninguém pode estar certo de amar amanhã aquilo que hoje ama. É por isso que todos os nossos projectos de felicidade nesta vida são quimeras.

Aproveitemos a alegria do espírito quando a possuímos; evitemos afastá-la por nossa culpa, mas não façamos projectos para a conservar, porque esses projectos são meras loucuras. Vi poucos homens felizes, talvez nenhum; mas vi muitas vezes corações contentes e de todos os objectos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. Creio que se trata de uma consequência natural do poder das sensações sobre os meus sentimentos. A felicidade não tem sinais exteriores; para a conhecer seria necessário ler no coração do homem feliz; mas a alegria lê-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe. Existirá algum prazer mais doce do que ver um povo entregar-se à alegria num dia festivo, e todos os corações desabrocharem aos raios expansivos do prazer que passa, rápida mas intensamente, através das nuvens da vida?

Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

Estou Cansado



Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Antonio Villeroy dá o recado



Cajuina - Caetano Veloso


Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

Candeia que alumia …

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Quando, Quando, Quando - Michael Buble and Nelly Furtado -

Drummond dá o recado...

"Tanto vestido assinado / Cobre e recobre de vez / sua preclara nudez." (Drummond)  - Ilustração: Mulher, de Vânia MedeirosA HILDA HILST



Abro a "Folha da Manhã".
Por entre espécies grã-finas,
emerge de musselinas
Hilda, estrela Aldebarã.

Tanto vestido assinado
cobre e recobre de vez
sua preclara nudez!
Me sinto mui perturbado.

Hilda girando em boates,
Hilda fazendo chacrinha,
Hilda dos outros, não minha...
(Coração que tanto bates!)

Mas chega o Natal e chama
à ordem Hilda: não vês
que nesses teus giroflês
esqueces quem tanto te ama?

Então Hilda, que é sabi(l)da,
usa sua arma secreta:
um beijo em Morse ao poeta.
Mas não me tapeias, Hilda.

Esclareçamos o assunto:
Nada de beijo postal.
No Distrito Federal,
o beijo é na boca — e junto.



Carlos Drummond de Andrade
Rio, 31.XII.52

(HTTP) Hypertext Transfer Protocol

Agatê Tepê

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Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em novembro de 2011

Para que serve o http? Endereço de site quase sempre, ou seja, 99,9% das vezes começa com http. Como se não bastasse, tem ainda o dois-pontos-barra-barra. E, não satisfeito, vem depois o protocolar www.

(Alô, turma da objetividade: sei que existe alguma razão excelente, fina e gozando de perfeito sentido. Mas você entendeu o argumento, espero).

Na Rádio Estadão ESPN, a norma é nem perder tempo com o www. Endereço de site ali é dito pulando essa parte. Ora, dizer “www” leva exatos 0,6 segundos. Numa pista de atletismo, isso é a diferença entre o ouro e o ostracismo. Na Rádio Estadão ESPN, 0,6 segundos não valem o trabalho de dizer “www”. Calcule quanto vale o lote completo, incluindo o http://.

Para que existem, então, esses sinais enigmáticos na internet? Serão eles iguais a certos cargos burocráticos, cuja razão de existir nega a própria existência? Como o antigo Ministério da Desburocratização — uma piada do Millôr que alguém levou a sério.

Ou seria o http://www o merchandising de uma marca sendo construída subliminarmente ao longo de anos?

De um jeito ou de outro, é o caso contrário ao do @. Até outro dia, essa cobrinha suspensa sobre o número 2 do teclado não servia para muita coisa. Até que em 1971, Ray Tomlinson criou o primeiro sistema de e-mail do mundo. E teve a ideia brilhante de usar aquele símbolo ocioso no teclado. A partir daquele momento, o @ ganhou novo sentido: passou a designar a empresa, computador ou servidor em que o destinatário estava. Seu gesto foi um ato de design. A ideia de Tomlinson foi tão perfeita, e é tão utilizada, que o @ agora faz parte da coleção permanente do MoMA. O primeiro caso de um sinal gráfico que se torna item permanente da coleção de um museu.

Mas qual será o futuro (ou mesmo o passado e o presente) dos nossos amigos http://www? Serão úteis como o nosso apêndice, cuja principal função conhecida é dar apendicite? Ou os graves geeks lançarão uma campanha vingativa, e até placa de carro vai ter que começar com http://www?

De todo modo, se alguma mãe nos rincões do Vale do São Francisco (por falta de Silício) der ao filho o nome de Agatê Tepê, já me dou por satisfeito.

Espicha, dezembro, espicha.

Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo, em dezembro de 2011

“Então fica resolvido assim: depois nós resolvemos”, concluiu Fernando Sabino num P.S. de carta para Otto Lara Resende. Dezembro é o P.S. do ano, e o que não foi dito até aqui, até o dia 31 também não será. O ano vai se resolvendo, e empurramos o fusquinha de nossa razão para a sombra de 2012. Deixa ele lá; faz calor em dezembro.

Antes de janeiro chegar, vamos ver o que passa no Facebook das ruas, adiando o que nos é dado adiar. Há muitas compras e chopes e chuva para cair. Há muitas escolhas de hotel e opções de passeio e protetor solar para estocar. A realidade pode atrasar. Não liga ainda o Excel, mas clica lá no Twitter: vê se tem piada do frasista, link bom de algum amigo, fofoca de algum famoso, tubarão comendo surfista em foto espetacular. Adia. Enrola. Deve ter alguma coisa no YouTube, procura um almoço que dure até as três e quarenta. Mesa para quantos? Então volta e tuíta alguma coisa. Não deu RT? Espera. Pergunta se alguém topa o Pirajá, diz que está em SDU chegando em CGH.

Espicha, dezembro, espicha.

Faz um parágrafo inteiro só com três palavras. Espicha, tempo, espreguiça. Só faltam quinze dias. Põe esse restinho de calendário para voltear: Rebouças via Praça Campo de Bagatelle, chegando na Anhanha Melo pelo corredor Norte/Sul ligado na Radial Leste. Trava, dezembro, estanca. Cuida que já é tarde. Tem piedade de nós.

Encontra um livro para ler. Estica na padaria, puxa conversa com o homem da banca, pergunta pela saída da revista O Tricô Moderno. Procura pela revista O Tricô Moderno, vai ver tem nos sebos da Pedroso de Morais. Compra um CD do Vinícius (baixar é muito rápido). Inventa. Perde o crachá da portaria, enguiça a catraca, esquece o celular.

Usa de todos os truques, recorre ao quanto encontrar de bobagem. Relembra frases antigas, conselhos de março ou abril. Se essa vida for uma novela, haverá eco e câmera lenta. E um segundo durará dois. Todo tempo perdido é útil em dezembro — mês de conversa fora.