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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Discurso de Deus a Eva



Millôr Fernandes


"... Eva, de repente, descobrindo uma bela cascata, resolveu tomar um banho de rio. A criação inteira veio então espiar aquela coisa linda que ninguém conhecia. E quando Eva saiu do banho, toda molhada, naquele mundo inaugural, naquela manhã primeval, estava realmente tão maravilhosa que os anjos, arcanjos e querubins, ao verem a primeira mulher nua sobre a Terra, não se contiveram, começaram a bater palmas e a gritar, entusiasmados: "O AUTOR! O AUTOR! O AUTOR!".

"P.S. - Este discurso do Todo-Poderoso está sendo divulgado pela primeira vez em todos os tempos, aqui neste livro. Nunca foi publicado antes, nem mesmo pelo seu órgão oficial, A BÍBLIA."


"Minha cara,

eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz. Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre. Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora. Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensara que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor! Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.

Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito. Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem e um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.

Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimol Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!"



Texto extraído do livro
"Esta é a verdadeira história do Paraíso", Livraria Francisco Alves Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. s/nº.
 


 

Na praia


 
Não suporto a areia como leito sexual, e ninguém ignora, por mais que os hidrólatras esperneiem, que a água, sobretudo a do mar, dificulta qualquer tipo de fricção erótica.
 
por ALAN PAULS
 
Só uma familiaridade muito precoce com os usos e costumes da praia pode, de fato, embaçar o brilho de uma obviedade que ainda hoje deveria nos deslumbrar: a praia é o único espaço público onde a nudez quase completa não é uma exceção nem uma infração provocadora, e sim um princípio de existência, uma forma de vida, a lei – tácita e unânime, mas não coercitiva – que rege a convivência humana. “Jamais conseguiremos dar a este costume a importância que tem para nossa época”, escreve Camus em 1937. “Pela primeira vez em 2 mil anos desnudou-se o corpo na praia. Há vinte séculos, os homens se obstinam em tornar decentes a insolência e a ingenuidade gregas, tentando minimizar a carne e complicar a roupa. Hoje, ignorando essa história, os jovens se precipitam sobre as praias do Mediterrâneo e evocam os gestos magníficos dos atletas de Delos.”
Pensada por um veranista contemporâneo, filho do século XX e da cultura de massas, é possível que a relação entre a praia e o corpo se deixe resumir nesse prodígio do laconismo têxtil que foi o biquíni, o traje de banho que Jacques Heim e Louis Réard inventaram em 1946, inspirando-se nas tarjas pretas com que a censura ocultava as zonas proibidas do corpo feminino nas imagens risquées da época, e que batizaram com o nome da praia do Pacífico Sul – atol de Bikini – onde poucos dias antes fora detonada a primeira bomba atômica do pós-guerra. Diana Vreeland não poderia definir melhor o impacto que tal invento teria sobre a discrição corporal: “A única coisa que a vestimenta não revelará de uma garota”, disse,“é o sobrenome de solteira de sua mãe.”
Mas o cruzamento entre a areia e a carne é longo e complexo. Quando associa o modo com que os banhistas modernos correm para mergulhar no mar à tradição desportiva grega, Camus cita apenas uma linha histórica, a que faz da praia o cenário privilegiado de uma disciplina e de uma temperança corporais ao mesmo tempo atléticas e guerreiras. Na praia se treinam e se moldam os músculos dos aspirantes a super-homens, dos que cobiçam o pódio das olimpíadas e dos que ardem por desembainhar suas espadas, mas a praia – esse umbral onde têm lugar todos os desembarques, do de Agamenon ao dos aliados na Normandia, passando pelo dos barcos que descarregam imigrantes no sul da Espanha ou pelos balseros cubanos nas costas da Flórida – é o lugar crítico onde as facções inimigas frequentemente se defrontam pela primeira vez, e, portanto, é em si mesmo teatro de violência e campo de batalha. A praia é sempre arena – no sentido mais romano e litigioso da palavra.
Mas há também outro antigo corpo de praia, o corpo sensual, mais voltado para o hedonismo pessoal do que para o duelo, e vem de Roma, da Roma de Justiniano, o primeiro imperador que regulamentou o espetáculo do mar e da areia e que proibiu edificações a menos de 30 metros da costa para proteger as vistas. Segundo o mito, a água da época era fria, e continuaria a ser se Vênus, num de seus arroubos, não tivesse cismado em ver Cupido nadar. Dizem que de sua tocha brotou uma faísca que caiu na baía e ardeu, e que a partir daí quem se banhasse naquelas águas se renderia imediatamente ao amor. O mapa hedônico do Império é fiel ao espírito da fábula. Baiae, antepassado ilustre dos clubes Med, foi durante oito séculos o resort de praia dos romanos excêntricos, e Antium foi a Palm Beach de Calígula, Nero e de outros bons vivants bipolares da Antiguidade.
Quando apregoavam as delícias do otium cum dignitate, Sêneca ou Plínio, o Jovem, já esboçavam, de algum modo, a estética existencial que Foucault reivindicaria no início dos anos 80, mas exaltavam principalmente o prazer de lagartear sem pressa junto ao mar, em vilas, banhos e termas onde o cuidado consigo mesmo era inseparável dos prazeres do corpo e da sociabilidade inteligente, complemento perfeito do hedonismo individual.
Mas esse casamento do corpo e da praia não duraria muito. No ano 476 cai o Império Romano: como 400 anos antes o Vesúvio sepultara o auge do turismo em Nápoles, a cultura judaico-cristã esmaga e desaloja o hedonismo romano e um severo programa repressivo se encarniça, ao mesmo tempo, contra o corpo (é o fim, entre outras coisas, do banho, instituição que de instrumento de prazer e limpeza se transforma em ameaça “porque abre o corpo às influências pestilentas”, a tal ponto que no século vi a higiene já não será uma questão corporal, mas de vestuário) e contra o mar e a praia (que deixam de ser fonte de vitalidade para pôr-se a serviço de forças abismais e devastadoras).
Irregular e confusa, a linha litorânea passa a ser sinônimo de monstruosidade (é o limite que o homem não deve ultrapassar), e o oceano, demonizado pelas mitologias do Dilúvio, torna-se instrumento de caos e destruição. (Um perspicaz casal de “praiógrafos” argumenta sobre um ponto que muitos já devem estar questionando: o de que entre a praia da guerra e a do prazer talvez haja mais afinidades ou empréstimos do que estamos dispostos a reconhecer. Lena Lencek e Gideon Bosker dizem que o desembarque aliado na Normandia – 6 de junho de 1944 – só foi possível graças à tradição turística da praia. Como não havia levantamentos diretos do terreno – só tomadas aéreas oblíquas, mapas velhos, cartas marítimas desatualizadas –, os aliados avaliaram a topografia do desembarque por meio de velhos cartões-postais e das fotografias que celebravam mais de um século de despreocupação hedonista ou de aspirações saudáveis, quando os viajantes acorriam em massa às águas do Canal para combater o tédio ou as penúrias físicas. Com a necessária discrição, a BBC cuidou de solicitar e coletar esse arquivo de estampas frívolas que, lidas pelos olhos apropriados, proporcionaram a informação topográfica que permitiria a invasão.)

xclusiva ou multitudinária, exótica ou tradicional, familiar ou romântica, a praia contemporânea, contudo, ainda conserva muitos dos traços invejáveis que a Antiguidade lhe atribuía, e que frequentemente são os mesmos – só que investidos de um sinal positivo – que o paranoico obscurantismo medieval denunciou durante séculos: liberdade, tolerância, sociabilidade igualitária.
Apesar dos cinco anos cujos verões passo em Cabo Polonio, no Uruguai, apesar da rapidez com que todas as particularidades que no início me desconcertavam ou me irritavam (a falta de água potável e de luz, a obrigação de dedicar horas e esforço físico às operações mais básicas de subsistência, a impossibilidade de reconhecer limites entre casas e terrenos, a informalidade absoluta como lei social, o ensimesmamento insular, a falta de alternativas, a dependência de máquinas e infraestruturas técnicas precárias ou ultrapassadas etc.) e que acabaram por resultar-me não só familiares como imprescindíveis, tanto que já não consigo imaginar um lugar de veraneio que não as inclua, nunca deixa de me surpreender o quanto esse cabo paupérrimo, misto de paraíso hippie, ensaio de comunismo primitivo e vila miserável, funciona como uma sociedade dentro da sociedade, um enclave autônomo, imune a qualquer intervenção exterior, entregue à inércia de uma lógica própria mas inapreensível, sobre a qual seus habitantes mais antigos, postos na obrigação de descrevê-la, a duras penas balbuciam coisas vagas ou simplesmente se calam e sorriem enquanto dão de ombros, e da qual nem mesmo seus visitantes mais precavidos conseguem se esquivar.
Só que essa espécie de liberdade responsável que em Cabo Polonio é amparada por grandes extensões desertas, pela população escassa, pela pobreza da infraestrutura e, sobretudo, pela ausência de um horizonte de crescimento ou de mudança, torna-se realmente milagrosa quando a vemos imperar em praias densas, superpovoadas, onde as vantagens da civilização, juntamente com o conforto que proporcionam, expõem a situação praia a uma quantidade insuspeita de variáveis. Tudo podia fugir do controle e, no entanto... No final do século VXIII, Diderot, em pé em frente à costa holandesa, perguntava-se como era possível que alguém aceitasse viver à vista de semelhante massa de água, sabendo que a qualquer momento o mar poderia sair de seu leito e precipitar-se sobre a terra. Menino, eu me perguntava a mesma coisa quando, de férias em Mar del Plata, em janeiro, atravessava o calçadão da Playa Grande e via a extensão da praia literalmente incrustada de milhares de pequenas cabeças humanas, de tal maneira que ninguém que não tivesse estado ali num dia nublado, com a praia vazia, poderia afirmar com algum fundo de razão que em alguma parte havia algo parecido com areia. Só que o temor que Diderot alimentava em relação ao mar, à possibilidade de que libertasse de repente todas as suas forças reprimidas e as descarregasse sem piedade contra os que o contemplavam extasiados, eu, incrédulo diante desse desfraldar de nudez, temia em relação às pessoas.
Como era possível que essa massa de corpos mal cobertos, lustrosos de cremes, suor ou de água, desmesuradamente escaldados pelo sol (falo da praia dos anos 60, da praia despreocupada ou suicida anterior ao buraco na camada de ozônio), e uma proximidade quase promíscua, intolerável em qualquer outro contexto, não desandasse fatalmente num estouro sexual multitudinário, numa orgia massiva e selvagem, numa explosão de violência letal?

unca subscrevi às mitologias eróticas da praia. Convencido desde muito cedo, não sei se por um déficit pulsional congênito, por alguma experiência nefasta que mantenho fechada à chave ou simplesmente porque é a mais pura e incontroversa verdade, de que o desejo sexual não tem nada a ver com a natureza, nem com a minha, qualquer que seja, nem com a do mundo, e, por outro lado, absolutamente tudo a ver com a cultura, sempre me chamou a atenção aquantidade de aventuras e relatos sexuais com que as pessoas, principalmente os solteiros e os casais jovens, voltavam ao passar suas férias à beira-mar. Todo vitalismo me aflige, é verdade, mas nestes casos sempre havia algo mais: a relação não contingente, mas necessária, e mesmo constitutiva, entre o sexo e as dunas, a cópula e a água salgada, o frenesi e o ambiente marinho. Como se a praia não se limitasse a cumprir, no libreto sexual, um papel de estímulo cenográfico, o mesmo que cumpririam, provavelmente com a mesma eficiência, a selva (no caso de temperamentos mais sensíveis à umidade), os pássaros, a música zumbidora dos insetos, o verde, as estruturas frondosas, e preferisse arrogar-se uma função muito mais decisiva, a de protagonizá-lo, inspirá-lo ou mesmo de roteirizá-lo.
Cada vez que escuto Sea, Sex and Sun, o grito de guerra que Serge Gainsbourg profere no álbum L’Homme à la Tête de Chou, o que ouço é um pequeno milagre de eufonia monossilábica, e talvez, mesmo, o prelúdio de erotismo viperino que refulge nessa sucessão de sibilantes, mas jamais os ingredientes do imbatível coquetel sensual que os outros saboreiam e festejam de antemão. E sempre que topo com o célebre fotograma de A Um Passo da Eternidade – provavelmente o logotipo mais popular que Hollywood já desenhou para promover as benesses do erotismo de costa – e o sargento Warden e Karen Holmes voltam a se beijar deitados numa praia do Havaí enquanto as ondas quebram sobre seus corpos orvalhando-os de espuma, nunca deixo de pensar na desconsideração da areia molhada, dura como uma tábua, provavelmente minada de bivalves invejosos, tão proteica e múltipla que cinco segundos mais tarde, quando o diretor Fred Zinnemann decidir cortar a tomada, já terá se transformado numa legião de cristaizinhos insuportáveis e fará das suas nas virilhas de Burt Lancaster e Deborah Kerr; penso em como diabos pode-se conceber um filme que passa do gênero bélico (uniformes militares, destacamentos, o ataque japonês a Pearl Harbor) ao drama romântico (trajes de banho, clinch íntimo dos amantes, adultério); penso na contribuição do mar, capaz de atrapalhar com sua onda mais tímida o mais entusiasta acasalamento humano; penso no efeito irritante do sal nos olhos; penso no momento em que os atores, depois de repetirem dez vezes a cena, irão descobrir o que o sol fazia com eles enquanto brincavam de eclipsar a Segunda Guerra Mundial com alguns minutos de paixão clandestina.
Esfregar-se com outro corpo na areia, agarrar-se atrás da cortina do vestiário de uma barraca, acabar nus no refluxo das águas: as proezas mais clássicas do erotismo de praia são para mim, além de inverossímeis, exemplos perfeitos de tudo o que não pode ser o prazer: desconforto, aspereza, hostilidade, interferência.

u iria mais longe e diria que a praia nunca é erógena quando se mistura com o corpo (talvez porque, devido à composição molecular da areia e da água, a mistura nunca chega realmente a se consumar, tornando-se lânguida, antes, em estágios primitivos e incômodos como o atrito, o empanado, a cobertura) e que o é, ao contrário, quando o contato físicocom a carne, reduzido ao mínimo, é substituído por um tipo de contato visual, quando sua função é ambiental, decorativa – e a praia trabalha como o fundo belo, mas inerte, contra o qual se recortam as figuras do desejo sexual –, ou eminentemente dramática, e nesse caso participa ativamente da narrativa da cena erótica. E também é erógena – o cúmulo do erógeno – quando fica para trás, quando é esquecida, quando a noite ou o dia de chuva a engolem, quando, por alguma razão, mesmo estando bem próxima, torna-se inacessível e os veranistas levam consigo tudo o que encontraram nela (vitalidade, bronzeado, cansaço, relações, planos) para colocá-lo em circulação nesse mundo à parte, contíguo à praia, mas ao mesmo tempo radicalmente separado dela, que é o povoado ou a cidade de praia.
A praia nunca é tão erótica como quando James Bond, escondido atrás de uma palmeira, vê como a divindade marinha Honey Rider – biquíni branco e faca na cintura – brota da água e avança pela areia segurando os cabelos, mas frustra toda intensidade dessa epifania alguns minutos mais tarde – Bond não gosta de perder tempo –, quando, depois de mandar pelos ares um desses quartéis-generais do Mal que faziam babar os diretores de arte, os mesmos personagens cedem ao desejo e se entrelaçam num modesto bote rebocado pelas forças do Bem. Estamos na ilha de 007 Contra o Satânico Dr. No, um dos Bond originais, com Sean Connery no papel do 007, que pude ver com meu irmão no Cine Atlantic de Villa Gesell num verão de meados dos anos 60 em Buenos Aires, apesar de o filme, como rezavam os cartazes, ter sido classificado como proibido para menores de 14 anos.
Além da permissividade geral dos lugares de veraneio, que se não suspendem as leis ao menos permitem abrandar sua execução, desfrutávamos também, no Cine Atlantic, cujo foyer, ainda que modesto, ostentava nas paredes uma coleção de retratos em branco e preto de atores e atrizes de Hollywood que eu considerava celebridades e dos quais depois, com o tempo, à medida que ia me familiarizando com o cinema, comecei a desconfiar, dado que todos aqueles rostos que me contemplaram durante anos ao entrar no cinema para ver quase que exclusivamente filmes proibidos (a série de Bond, com o inesquecível Moscou Contra 007 na liderança, onde aparecia folheada a ouro a primeira mulher nua que vi em minha vida infantil adulta, mas também Meu Ódio Será Tua Herança, de Sam Peckinpah, com suas degolas em close, ou Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, com seu regozijante massacre final), que o único que ia permanecendo gravado em minha memória era o rosto de Richard Basehart.
Alguém como eu, que ainda não tinha visto A Estrada da Vida, o filme de Fellini em que ele fazia – um pouco inexplicavelmente – o personagem do Louco, mas que em compensação já era um verdadeiro viciado em televisão, só podia associar com o almirante Harriman Nelson, o mais sensato dos marinheiros que se revezavam no comando do timão do Seaview, o herói submarino de Viagem ao Fundo do Mar, uma de minhas séries favoritas, e que, portanto, próximo e doméstico como todo ídolo televisivo, mal podia merecer a categoria inacessível de celebridade – desfrutávamos também, meu irmão e eu, da licença especial que nos concedia a funcionária do cinema. Atracada com meu pai numa espécie de romance de verão cíclico, sempre restrito ao mês de fevereiro, mas misteriosa e pontualmente reatado no ano seguinte quando voltávamos à Villa, ela fazia vista grossa para nossa precocidade a fim de garantir por algumas horas a proximidade de seu apaixonado.

stamos na Jamaica, na ilha onde se entrincheira Dr. No, e o que Bond contempla atônito detrás de sua palmeira, uma barricada não muito diferente da que nos protegia, eu e meu irmão, igualmente atônitos, na escuridão do Atlantic, é uma criatura sobrenatural, metade humana metade marinha – a ponto de, quando Ursula Andress acabava de sair da água, eu não conseguir entender como seu corpo não rematava numa cauda de sereia sinuosa e brilhante, coberta de escamas irisadas –, que parece dar à luz a espécie a que pertence, uma espécie composta de um único gênero, ela mesma, no exato momento em que emerge do oceano. (Eis aqui uma das fatalidades que condenam a praia ao kitsch: provavelmente há poucos momentos tão ridiculamente metafóricos quanto a saída do mar.) Se Bond, impecavelmente vestido, é o intruso, o que vem de fora, o estrangeiro urbano, Honey Rider, que procura caracóis seminua, é a representação aggiornada da nativa, da local, da que ocupava a praia antes da chegada do intruso.
A cena, além de excitante, é menos estúpida do que parece; é erótica porque o que escolhe pôr em cena, em vez de uma consumação sexual, é o nascimento de um objeto de desejo único e mítico – é o mar, aqui, que cria a Mulher, e não Deus, como no filme de Roger Vadim – para dois destinatários simultâneos, Bond, por um lado, e por outro meu irmão, eu e todos os veranistas que naquela noite fazíamos ranger as poltronas mambembes do Atlantic de Villa Gesell, e é política porque explora a praia como cenário vagamente colonial, zona-limite de invasão e de resistência, no exato momento em que a expansão colonial começa a se vestir com a roupa de uma nova, hedonista e francamente bondiana forma de ubiquidade: o turismo. O encontro entre Bond e Honey inverte o antigo estereótipo do desembarque colonial, no qual a praia era o local de encontro (ou de confronto) entre os conquistadores (os que vinham do mar) e as nativas (que saíam da selva para recebê-los). Muitos anos depois, vi numa praia próxima de Havana outra versão, mais crispada, da mesma cena: os canhões enterrados na areia, sobre a costa, apontando para o mar, e as pequenas trincheiras cavadas junto dos canhões.
Eu, um estrangeiro – o mesmo que um pouco antes vira como um casal de turistas que três anos mais tarde já não teriam o direito de se chamar de soviéticos expulsavam aos gritos um grupo de garotos cubanos para estender na areia seu tosco arsenal de acessórios de praia – vi a praia e o mar do ponto de vista dos ameaçados, dos que vivem esperando a invasão, e de repente entendi o quanto viver numa ilha, rodeado de mar aberto, sem obstáculos que interceptem o olhar, pode ser, em vez da experiência da liberdade e da expansão que sempre imaginamos que seria, a sentença que nos condena a uma clausura absolutamente insuportável.

ara dar com a outra potência erógena da praia – aquela na qual a praia só é ativa in absentia, uma vez submetida a certo esquecimento –, é preciso recorrer às ficções estivais de Eric Rohmer, Conto de Verão, Pauline na Praia, O Raio Verde, filmes de praia e filmes eróticos, sim, desde que entendamos a praia como o que deve ficar fora do quadro para tornar-se erótico e o erotismo como a lógica labiríntica, entretecida de mal-entendidos, histeria e cálculos estéreis, em que ressuscitam os desejos acalentados durante o dia, na praia, debaixo do sol. Não é o sul, não é o Mediterrâneo, não são as orlas chiques que aparecem nos filmes de Rohmer (e quando surgem como Biarritz em O Raio Verde, são planas, sem brilho nem sedução), e sim as praias comuns da Normandia ou da Bretanha, tão impessoais, tão carentes de cor local e de glamour quanto uma colônia de férias do sindicato geral de adolescentes. As histórias se passam no verão, mas o tempo nem sempre ajuda: os impávidos céus azul-celeste são a exceção, não a regra, e os veranistas rohmerianos devem se contentar amiúde com o duvidoso encanto das manhãs ventosas, a nebulosidade tenaz e um sol metálico que enfeia cruelmente os corpos e obriga a seduzir ou a ser seduzido entrecerrando os olhos.
No entanto, nunca o cinema de Rohmer parece tocar tanto o coração do desejo como quando se instala nesses balneários de meia-tigela, que preferem a funcionalidade do banal a qualquer forma de beleza natural. Por quê? Porque em Rohmer os turistas são sempre os personagens, não o espectador. Antes de seus atrativos visuais, Rohmer escolhe a praia porque seu sistema, altamente dependenteda meteorologia, ao mesmo tempo regular (estações, ciclos, biorritmos, fases naturais: mais de uma vez o cineasta declarou que o único roteiro que usou em O Raio Verde foram as tábuas de marés) e caprichoso (imprevistos, variáveis difíceis de controlar, acontecimentos excepcionais), parece reproduzir numa escala atmosférica o jogo de mecânica e acaso, maquiavelismo construtivo e aleatoriedade, que ocupa o centro da arte rohmeriana.
A praia, além do mais, é o território das férias, do ócio, da disponibilidade: estados de potência frágeis e ao mesmo tempo promissores que prolongam e preparam os pequenos grandes incidentes (encontros, coincidências, encadeamentos, equívocos) de que são feitas as histórias de Rohmer. Mas principalmente porque a praia – como o mar, como a estepe para os nômades segundo Toynbee – é o espaço hipercondutor por excelência, e, portanto, o tipo de território ideal para que o desejo, força nunca conforme, sempre distraída, desdobre toda sua mobilidade e descreva suas trajetórias mais caprichosas. Segundo o idioma rohmeriano, a praia só é permeável ao erotismo na medida em que impede que o desejo se fixe numa posição sedentária e o condena a não ceder, a seguir sempre adiante, a peregrinar sem descanso.
Assim, reduzida a uma espécie de princípio conceitual, a praia aparece como esvaziada, puro espaço de circulação que a câmera apresenta apenas de longe, quase por cortesia, mas onde, no entanto, nascem os ímpetos eróticos e os marivaudages do coração que depois terão lugar em outra parte. Porque “a praia”, segundo Rohmer, é basicamente essa “outra parte”: não a areia, nem o mar, nem os guarda-sóis, e sim os passeios adjacentes, os bares, os calçadões, as creperias, as discotecas, os quartos de hotel, as casas de veraneio: todos os espaços com os quais a civilização ou a cultura acendem as mechas do desejo que brotou na natureza.
Quando Rohmer a surpreende tomando sol na praia de Dinard, o bronzeadode Margot, a protagonista de Conto de Verão, passa quase despercebido, silenciado de algum modo pelo efeito de verossimilhança do contexto. É só ao vê-la atendendo à mesa de Gaspard na creperia onde trabalha, ou caminhando a seu lado entre árvores, ou empreendendo uma excursão ao refúgio de um velho marinheiro – ou seja: naqueles momentos em que a marca que a praia deixou nela reaparece num contexto heterogêneo –, que notamos a cor que suas faces adquiriram, esse rubor tênue, mas paulatino, que se intensifica à medida que o filme avança (Rohmer costuma filmar suas ficções estivais em ordem cronológica, do princípio ao fim), em que se confundem a influência do sol e a excitação, a natureza e o pudor, e que termina por torná-la desejável. Ao contrário, a praia, contexto forte, introduz tamanho contraste com a vida que as percepções da identidade podem se alterar: no dia seguinte, depois de ter comido na creperia onde Margot o atendeu, Gaspard topa com ela na praia, mas não a reconhece; é ela quem o interpela e o faz lembrar que se conheceram.
Além de postular uma sutil defasagem social – os clientes nunca se lembram dos garçons; os garçons, sempre dos clientes –, a cena descreve bem o efeito de vida dupla que a praia institui: vestidos não somos os mesmos que de maiô, e quem nos vir entrando no mar provavelmente não nos reconhecerá à noite tomando sorvete na calçada ou dançando na discoteca. Entre a areia e a creperia – entre a praia propriamente dita e tudo o que lhe é contíguo –, nenhuma preeminência, nenhuma ordem hierárquica: ambos os espaços estão, de algum modo, numa relação de ficção recíproca.

ssim, ao contrário dos partidários do vitalismo, que pensam que a praia nunca desdobra tanto seu poder erótico como quando o desejo humano, numa espécie de jubiloso robinsonismo sexual, confraterniza intimamente com o sol, a água e a areia e almeja fundir-se à natureza, eu, discípulo de Rohmer, de taras ancestrais ou da sigilosa escola de Leopold von Sacher-Masoch, só sou sensível a seus estímulos quando estes já desapareceram, ou melhor, quando algum emissário da civilização, chame-se parede, teto, cama, banco de carro, chuveiro, roupa, introduz uma divergência e “corta” de algum modo a homogeneidade um pouco despótica da natureza. Quando o atrativo selvagem da praia é corrompido pelas aspas da civilização, até suas piores inclemências se tornam excitantes.
Não suporto a areia como leito sexual, e ninguém ignora, por mais que os hidrólatras esperneiem, que a água, principalmente a do mar, dificulta qualquer tipo de fricção erótica; só um louco se atreveria a fornicar com o sol cravado no meio do céu e só uma vítima do lirismo publicitário dos anos 70 apregoaria as benesses de uma escaramuça amorosa ao entardecer. Todavia, basta que qualquer uma dessas ofertas naturais reapareça fora da praia, enriquecida por alguma pincelada de conforto, algum fator discretamente burguês, para que sua cotação no mercado do prazer dispare até as nuvens.
Se o ardor da pele, resultado de um longo dia de exposição ao sol, é, no contexto da praia, com o calor, o ar que de tão incandescente chega a parecer radioativo, a areia transformada num vasto tapete de brasas e o espetáculo oferecido pela pele avermelhada dos demais, tão patético quanto o que oferece a nossa, mas multiplicado por 100 e encarnado em corpos que sempre julgamos mais repulsivos que o nosso – se assim é um tormento cruel, inenarrável, porque ao sofrimento físico, literal, que nos inflige, soma-se outro, moral, e, portanto, muito mais doloroso, o de sentir que não é o sol desse dia nesse balneário que se encarniçou conosco, mas o verão todo, o verão planetário, o verão como sucessão de meios-dias assassinos, massa ígnea pura e cega da qual para nos proteger, por outro lado, teriam bastado algumas decisões simples e, pensando bem, nada desagradáveis, aceitar a advertência mil vezes formulada e mil vezes desprezada e deixar-nos untar com protetor solar no momento adequado – se assim é uma penúria atroz, isolado na penumbra de um quarto de hotel, contrariado pela suave corrente de ar que se infiltra por uma janela, longe do astro insone que o provocou e de todos os cúmplices que contribuíram para multiplicá-lo, esse mesmo ardor, em compensação, deixa de ser uma condenação e torna-se aquilo que nenhum prazer puro, por mais intenso que seja, jamais poderá ser, uma dor deliciosa, um êxtase, o tipo sublime de prazer que a praia só oferece quando dois corpos abrasados pelo sol se metem numa cama recém-arrumada e se abraçam nesse paraíso limpo, fresco, simples, feito de lençóis de algodão brancos.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-76/questoes-de-verao/na-praia
 

Un flamenco en el olimpo del jazz



15 ENE 2013

El músico Jorge Pardo. / JESÚS PARDO
 
“Para mi, el mayor premio es vivir, y amar, y hacer música”. Jorge Pardo (Madrid, 1955), saxofonista, flautista y compositor, ha recibido esta tarde el premio al Mejor Músico de Jazz Europeo que otorga la Académie du Jazz francesa en solemne ceremonia celebrada en el Théâtre de la Châtelet parisino: “Los premios no me dicen mucho, aunque los recibo con alegría, y éste más, por venir de donde viene y porque, en España, si alguien triunfa fuera, es como que se les abren los ojos a algunos: “mira, si al final este chico va a ser bueno…”.
El madrileño, que ha recibido el galardón de las manos de la actriz Victoria Abril, ha sido el primer músico español en ser reconocido por la institución fundada en el año 1955, entre cuyos presidentes de honor se hallan Jean Cocteau, Georges Auric o Henri Sauget: “Toda mi vida he vivido en el filo de la navaja de la controversia entre si soy un músico de jazz o no. Son muchos los que ven en mi música un atentado a la pureza del género. Por eso me parece tan bonito encontrarme aquí, en París, que es el segundo puerto de jazz en el mundo después de Nueva York. Si algo me ha animado a venir ha sido el atrevimiento de quienes han decidido premiar a un tipo 'impuro' como yo”.
La vida de Pardo es un incesante ir y venir entre el jazz, género que le alumbró en sus primeros años de profesional, y el flamenco, que le abrió sus puertas de par en par tras de que entrara a formar parte del grupo de Paco de Lucía: “Todos saben que comencé tocando jazz y que todavía lo hago, pero la vida me ha llevado por otros caminos y, ahora, una parte de mi sangre está en el flamenco. Este es el tipo de contradicciones que me encantan y un premio como éste lo que hace es ponerlas encima de la mesa y hacerlas oficiales”.
De Paco de Lucía a Chick Corea; el mundo de Jorge Pardo es amplio y abarca los grandes teatros y los pequeños locales de barrio en los que es posible escucharle explayándose a gusto sin importar la hora ni la compañía: “Hay un mundo exterior del artista que son los viajes, los escenarios, las firmas al final del concierto pero, al final, lo que te gusta es estar con tu gente, en tus sitios, tocando en pijama y zapatillas. Me considero una rata callejera, he viajado a lo largo de los cinco continentes, y allá donde voy me encuentro como en casa, me da igual si estoy acompañando a Chick en el Carnegie Hall de Nueva York o tocando la flauta en un chiringuito de playa en Almería”.
De sus primeros pasos junto a Dolores, el grupo que revolucionó el panorama del jazz nacional mediados los años setenta, queda apenas el recuerdo de un par de composiciones que Jorge conserva plenamente activas en su repertorio: “El mundo del jazz no ha variado mucho con el paso del tiempo, sigue existiendo ese sentido lúdico de tocar por tocar, y nos liamos en proyectos que nos apasionan y con los que perdemos dinero y, pese a ello, somos felices”.
Entre los proyectos no necesariamente lucrativos del Mejor Músico de Jazz Europeo se hallan la edición de un nuevo disco, Puerta del sol, fruto de su experiencia telúrica en Perú tocando junto a un conjunto de músicos de aquel país, y la puesta en escena de su anterior Huellas en formato “XL”, este mes de julio en el marco del Festival EtnoSur (Alcalá la Real, Jaén): “Las dificultades económicas no son ninguna novedad. El músico de jazz vive en una crisis permanente. Ayer, mientras venía hacia aquí, pensaba en todos los genios que desembarcaron en París a finales de los cincuenta porque en su país les era muy difícil encontrar trabajo, gente como Bud Powell o Dexter Gordon. Al final, la cosa no ha cambiado demasiado. Nunca hemos dejado de ser artistas marginales”.

http://cultura.elpais.com/cultura/2013/01/15/actualidad/1358275976_965147.html
 

Overdose de feijoada



 ingredientes
  • 1/2 k de feijão preto
  • 250 grs. de carne-seca, 250grs. de lombo de porco salgado
  • 250 grs. de costela de porco salgada, 1 pé de porco
  • 1 orelha de porco salgada, 150 grs. de toucinho defumado, picado
  • 2 colheres (sopa) de azeite, 1 paio em rodelas,1 calabresa em fatias
  • 2 cebolas grandes raladas,5 dentes de alho amassados.
  • 250 grs. de língua de porco salgada
  • 1 rabo.

modo de preparo

De véspera, coloque o feijão e as carnes de molho, separadamente, sempre trocando a água.No dia seguinte.Cozinhe o feijão, com o lombo, a costela, o toucinho, o paio, a calabresa, por 20 minutos.Reserve; escorra a água das carnes ,corte-as em pedaços,cozinhando em outra panela até que fiquem macias.Reserve.À parte, aqueça o azeite,frite a cebola, o alho, misture tudo ao feijão e as carnes,acerte o sal e deixe ferver por 20 minutos, ou até apurar bem. Sirva com os acompanhamentos;( arroz,farofa,couve-manteiga e pedaços de laranja).
 

É impossível fugir dela no verão carioca
 
ALVARO COSTA E SILVA

Quanto maior o calor, mais o carioca come feijoada. Com o verão no auge, fica impossível fugir dela, como se vivêssemos naquela cena do filme "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade: mergulhados em orgia numa piscina cheia de lombo, linguiça, costela, paio, orelha, chispe, focinho, pé, rabo.
As escolas de samba deram a largada, entupindo suas quadras aos sábados, quando são servidas mais de mil unidades do prato (o impressionante preparo, em cozinhas industriais, tem início na quinta-feira). Mas onde quer que você olhe, há opções: restaurantes, botequins, quiosques de praia, hotéis, clubes e até livrarias.
Um livro recém-lançado, "A Vitória da Feijoada" (Editora da UFF, 140 págs., R$ 22), ajuda a contextualizar o fenômeno. Escrito pelo historiador Almir El-Kareh, mostra o cotidiano da alimentação no Rio de Janeiro do século 19 com exemplos extraídos da narrativa de viajantes estrangeiros.
Numa cidade que jantava ao meio-dia, já havia nas ruas a quitandeira que, num improvisado fogão de pedras, cozinhava feijões pretos e pedaços de toucinho. Esse legítimo ancestral da feijoada era, segundo Jean-Baptiste Debret, "bastante suculento e misturado a um bom punhado de farinha de mandioca bem amassada forma um bolo substancial suficiente para alimentação diária de um preto".
Daí, evoluímos para a chamada "negra caldeirada", a qual, com alguma coisa do jeitão de hoje, fazia parte do cardápio de bares e restaurantes, como comprovam anúncios do "Jornal do Commercio" de 1849. Até chegarmos àquela servida na casa de pasto G. Lobo, na extinta rua General Câmara, onde teria nascido a moderna feijoada carioca.
Para não deixar o leitor apenas com água na boca, duas dicas: aos sábados, a Toca do Baiacu (rua do Ouvidor, 41, no centro) serve o prato à maneira tradicional, uma exigência de quem comanda as panelas, o proprietário Marco Antônio Targino. Aos domingos, o Renascença (rua Barão de São Francisco, 54, no Andaraí) recebe para um feijão amigo. O amigo, no caso, é Jorge Ferraz, bombeiro aposentado e malandro em tempo integral. Jorge não tem preconceito: feijão para ele é de todas as cores.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/88319-overdose-de-feijoada.shtml

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Estranho Rapaz - Maria Bethânia


A Alegria na Tristeza


- a universo natural  a a atendimento a mascara esconde

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.
 
Martha Medeiros

domingo, 13 de janeiro de 2013

"A Música Segundo Tom Jobim" - o filme



Saiu o DVD de A música segundo Tom Jobim, que pode ser adquirido nos melhores sites que vendem os disquinhos. Indispensável.

1.) Documentário que foge ao feijão com arroz tradicional das imagens entrecortadas por depoimentos, A música segundo Tom Jobim, do veterano Nelson Pereira dos Santos, é um documentário extraordinário. Primeiro, porque é sobre Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o maior compositor brasileiro de todos os tempos, e, segundo, porque o filme se restringe às músicas e às imagens de arquivo, sugerindo uma obra sinfônica. O realizador do clássico Vidas secas teve a sensibilidade suficiente de colher os registros de um tempo e acioná-los por meio da música do célebre maestro autor (com Vinicius de Morais) de Garota de Ipanema. Veja aqui o trailer oficial do filme em HD:


2.) Tom Jobim é mais conhecido como um compositor da Bossa Nova, o parceiro de Vinicius, Carlos Lyra, Chico Buarque, Newton Mendonça, outros, mas, na verdade, é um compositor que atinge os limites fronteiriços da música clássica, como podem ser observadas suas partituras para discos como Wave, Matita Perê, Passarim, Urubu. Com formação clássica e influências diversas, entre as quais Debussy, Jobim é um fenômeno de talento. Ouvir a sua música e ver as imagens de sua grande época - inclusive na interpretação por outros notáveis - se constitui num espetáculo único. A pesquisa de imagens teve a colaboração da segunda esposa do maestro, Dora Jobim, que cedeu os registros cinematográficos do Instituto Antonio Carlos Jobim. Nelson Pereira dos Santos chegou, por isso, a incluí-la como co-autora de A música segundo Tom Jobim.

3.) Partiturista de filmes nacionais e estrangeiros, entre os que assinou osoundtrack destacam-se: Orfeu negro (aqui chamado Orfeu do Carnaval, 1959)), o polêmico filme do francês Marcel Camus, baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Morais; Porto das caixas, (1962), de Paulo César Saraceni, Garota de Ipanema (1967), o fracassado filme de Leon Hirszman, que pretendeu criticar o mito e mostrou que estava completamente fora de sua praia, pois cineasta enragé; O mundo dos aventureiros (The Adventurers, 1969), de Lewis Gilbert, com Charles Aznavour, Candice Bergen, Ernest Borgnine, Rossano Brazzi, Olivia de Havilland, John Ireland, uma superprodução de quase três horas de duração; A casa assassinada (1974), de Paulo César Saraceni, que se baseou num livro de Lúcio Cardoso. A trilha de Jobim, para este filme, é magnífica; Gabriela Cravo e Canela (1982), de Bruno Barreto, com Sonia Braga e Marcello Mastroianni; entre outros, sem esquecer a música que fez, em parceria com Chico Buarque de Holanda, para a minissérie Anos dourados da rede Globo. Se não fosse uma certa preguiça que o caracterizava, Jobim poderia ter feito partituras para muitos filmes importantes e, como partiturista de cinema, pode ser comparado a alguns maiorais como Lalo Schifrin, John Williams, Jerry Goldsmith.

4.) Sempre admirei muito Tom Jobim e comprei quase toda a sua discografia disponível, que a tenho em vinil, faltando apenas um ou dois discos. Mas com o advento do CD, e a falência de meu toca-discos (difícil de encontrar outro por aqui), não posso mais ouvi-lo em suas extensões mais clássicas. Sempre que vou ao Rio, quando da aterrissagem no aeroporto que tem seu nome, lembro-me, logo, de seu Samba do Avião. Uma vez, no Rio, fui ao Bar Veloso, em Ipanema, lá pelos anos 70, e me sentei para tomar alguns chopes. De repente, duas mesas adiante, vi sentado, sozinho, com um chapéu panamá, o próprio Tom Jobim. Naquela época, um chopp sempre via acompanhado de uma bolacha de papelão pela qual se contava a quantidade bebida. A mesa na qual Jobim se sentara estava com um monte dessas bolachas, sinalizadoras de que tinha entornado muitos e muitos chopes. Pensei em me aproximar do maestro, mas, por tímido, fiquei constrangido. O garçom me disse que ele frequentava todos os dias e, geralmente, saía riscando. O Bar Veloso foi reformado e tomou o nome de Garota de Ipanema, mas não tem mais as mesinhas características com suas cadeiras de vime.

5.) Foi neste bar que Jobim recebeu uma ligação de Frank Sinatra. Conta a lenda que Sinatra, impressionado com o talento de Jobim, quando de sua apresentação nos Estados Unidos, queria gravar um disco com ele. Telefonou para sua casa em Ipanema, e sua primeira esposa, Tereza (sim, a Tereza da Praia) informou que o marido deveria estar bebendo no Veloso e deu o número do bar a Sinatra. Este imediatamente ligou e quem atendeu foi o garçom, que foi avisar na mesa onde Jobim estava tomando chopes com os amigos. Todos ficaram estupefatos. O grande Frank Sinatra a telefonar para Jobim no bar! Jobim foi atender num daqueles telefones pendurados na parede. Sinatra então o convidou para a gravação do disco.

6.) Ruy Castro em A República de Ipanema conta a maravilha que era se morar no bairro nos anos 60 e 70. Era uma verdadeira república como alude o título do livro. Com o passar do tempo, Ipanema se descaracterizou, perdeu alguns de seus bares característicos e seus frequentadores famosos. Ficou apenas a lembrança de um tempo feliz. Castro, talvez num acesso de exagero, chega a comparar Ipanema daquele tempo como o paraíso na terra.

7.) Tijucano, na época em que a Tijuca pertencia ao Rio Zona Norte, Jobim nasceu em 24 de janeiro de 1927, vindo a morrer em 8 de dezembro de 1994, aos 67 anos. Fora a Nova York fazer uma cirurgia de próstata num dos centros de excelência na especialidade. A operação correu bem, mas um coágulo se soltou e invadiu uma artéria coronariana, obstruindo-a. Mas Tom era da Tijuca apenas por nascimento, porque sua família se mudou para Ipanema assim que ele completou um ano de idade. Segundo está escrito na Wikipédia, "a ausência do pai, Jorge de Oliveira Jobim, durante a infância e adolescência lhe impôs um contido ressentimento, desenvolvendo no maestro uma profunda relação com a tristeza e o romantismo melódico, transferido peculiarmente para as construções harmônicas e melódicas. Aprendeu a tocar violão e piano em aulas, entre outros, com o professor alemão Hans-Joachim Koellreutter, introdutor da técnica dodecafônica no Brasil." Vale ressaltar que durante a época de ouro da Universidade Federal da Bahia, anos 50 e 60, Hans Joachim Koellreutter foi convidado pelo reitor Edgard Santos para compor o corpo docente do então inaugurado Seminário de Música.

8.) O diretor de A música segundo Tom Jobim, Nelson Pereira dos Santos, é considerado o grão-duque do cinema brasileiro. Nelson plantou as sementes do Cinema Novo com o seu precursor Rio quarenta graus, que seria seguido por Rio Zona Norte. O seu melhor filme é, também, um dos melhores do cinema nacional em todos os tempos: Vidas secas, adaptação rigorosa do livro homônimo de Graciliano Ramos Na sua filmografia tem uma boa versão de Nelson Rodrigues para as telas: O boca de ouro, com Jece Valadão no papel-título. Se Nelson se dá bem nas adaptações dos livros do Velho Graça (Memórias do cárcere é um grande filme), não consegue, no entanto, ser feliz nas versões realizados dos romances de Jorge Amado: Jubiabá é frustrante para quem leu o livro, e Tenda dos milagres, ainda que bem melhor, não convence.

Para quem gosta de boa música, um filme para ver obrigatoriamente.

Tuna Espinheira também escreveu sobre o filme quando do seu lançamento:

O velho Tuna Espinheira foi ver A música segundo Tom Jobim, de seu amigo Nelson Pereira dos Santos (que produziu um de seus filmes curtos) e saiu deslumbrado com a beleza do documentário. Chegando ao seu apartamento, bateu o comentário que vai abaixo e, na afobação, nem parou no bar vizinho de Seu Hermenegildo para tomar a sua cerveja acompanhada de uma rigorosa Seleta. Abro aspas para evitar desconforto textual:

"Nelson Pereira dos Santos, mestre divisor de águas, da história do cinema brasileiro, faz um gol de placa com o filme: A música segundo Tom Jobim. A opção feliz de contar a saga do compositor tão somente pelas suas próprias criações melódicas foi deveras um grande achado. A edição primorosa trás para as retinas (estas costumeiramente cansadas) dos espectadores, a impressão de estar vendo um filme com um único plano sequencia, (embora com centenas de cortes)

A abertura do filme, nas asas da Panair, em preto e branco, dando uma visão de um Rio antigo, é deslumbrante e, sem gastar saliva, encarna o maestro iluminado na cidade do Rio de Janeiro e vice versa. Se existe o chamado carioca, com seu jeitinho de ser, seu retrato falado coincide com próprio Tom, não se pode separá-lo da Cidade Maravilhosa, assim como não se deve apartar Dorival Caymmi da Bahia.

Mesmo sendo uma mania antiga, esta de contar um filme, não cabe neste caso, é incontável, só vendo, seu enredo é puramente para ver e ouvir. Um impressionante desfile de artistas, ao nível de Ellla Fitzgerald; Frank Sinatra; Sammy Davis Jr; estas e outras e outras feras imortais, em rico material de arquivo de filmes, tocando e cantando as pérolas musicais do bruxo compositor, a quem o Chico Buarque chamou: de “Maestro Soberano”. É um revezamento de cenas antológicas de artistas nacionais e internacionais, um espetáculo de dar água na boca, para uns, e de deixar a alma lavada, para muitos.

Sem querer comparar, mas me lembrou O Baile, de Ettore Scolla. Talvez porque é também a música que conduz o enredo. A realização de um filme mudo, mas não silencioso, como estes dois, enfrenta o suspense do caminhar no fio da navalha. Semelhante a um jogo de armar, cada peça no seu cada qual. É tudo ou nada. É coisa é coisa de mestre.
Nelson fica devendo o filme número 2, agora falado. Tem muito pano prá manga neste outro olhar necessário sobre Jobim, muitas histórias, estórias “causos”, depoimentos, coisas do arco da velha. O Diretor já provou ser um ótimo regente de conversações (vide o documentário sobre Sergio Buarque de Holanda), vai tirar de letra.

Mestre Nelson , na plenitude dos oitenta anos, fez um gol de placa com o filme: A Música Segundo Tom Jobim."
 
 

‘Vamos celebrar o Mané Garrincha’ - Elza Soares


Pedro Motta Gueiros
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Elza Soares com a imagem de Garrincha vestindo a camisa do Botafogo
Foto: Gustavo Stephan / O Globo
Elza Soares com a imagem de Garrincha vestindo a camisa do BotafogoGustavo Stephan / O Globo
 
RIO - Sem receber um centavo de Garrincha, Elza Soares é herdeira de seu bem mais valioso. A uma semana dos 30 anos de sua morte, em 20 de janeiro de 1983, o craque vive na capacidade da ex-mulher de usar a arte para driblar as pancadas da vida. Depois de perder três filhos e seu maior amor, Elza ainda solta a voz com otimismo e bom humor para sustentar um mito de rara grandeza.
Entre o apogeu e a derrocada, qual a imagem que fica do Garrincha?
Do futebol feliz, daquele homem alegre, que entrava em campo e acabava com qualquer tristeza e monotonia. Esquece o outro lado, já tem muita gente por aí fazendo besteira. Se soubesse por que ele foi esquecido já tinha corrido atrás como fiz para evitar que tirassem o nome dele do estádio de Brasília. E ganhei. Fui lá na Câmara e falei: “o que sobrou para ele foi isso”.
O Brasil não gosta de olhar para suas mazelas?
É como dizia o Cazuza: “Brasil, mostra a sua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim...” O espelho às vezes mostra coisas feias. Eu amo o espelho, mas tem gente que não gosta. Sou um ser humano, tive momentos de desespero mas você não pode sair gritando por aí. A dor é minha e me doeu. Melhor celebrar do que sofrer. Vamos celebrar o Mané Garrincha.
Já se passaram 40 anos da Copa de 1962, quando o Garricnha conquistou a madrinha da seleção como seu maior troféu...
Parece que foi tudo agora, ainda sinto o cheiro, o calor dele. Mané era muito limpo, cheiroso e asseado. Foi uma coisa de pele, de encostar, arrepiar. Alquimia total. Muito amor. Depois da Copa, ficamos fechados vários dias na minha casa na Urca. Na época, se deixava o pão e o leite na porta. Acumulou tudo. Eu saía devagarinho, pegava uma garrafa de leite, um pão, e entrava.
Consta que a paquera no início era com o Pelé...
Deus me livre. Não estou desfazendo, mas nunca fui esse tipo de mulher. Se fosse o Mané, seria o Mané e não o Pelé. Tenho respeito, mas para mim o rei é o Mané.
Como pintou o clima?
Negócio de Pelé?
Não, Mané. Pelo que você conta, o Pelé nem chegou perto...
Se alguém chegou, não fui eu. Tinha vinte e poucos anos, sempre tive corpo muito perfeito, mas para conquistar o Mané, o negócio era fazer uma boa comida. Gozado que ele era caçador mas gostava muito de peixe. Eu fazia uma peixada na panea de barro, com pirão, muito coentro, pimenta. Ele chegava em casa e só pelo cheiro já sabia que quem tinha feito era eu. Comia com muito gosto porque depois ele tinha outro peixe para comer. Prefiro falar assim com essa ironia que era dele.
Como vocês se conheceram?
Fui ver um treino da seleção em Friburgo antes da Copa. O Mané pediu para falar comigo, disse que tinha comprado um disco meu e estava espantado com a forma como eu cantava. Também falou que tinha ganhado um disco da cantora cubana Celiz Cruz e do músico J.J Johnson, que era o maior tombonista na época. Fiquei surpresa: “Cara, você conhece J. J. Johnson?”. Ficamos conversando e na hora de ir embora ele me deu um beijo. Eu correspondi, lógico. Receber um beijo e não retribuir seria falta de educação.
E no Chile?
Quem tomava conta dos jogadores era um cara muito bravo, o Paulo Amaral, mas ele gostava de mim e me levou para fazer uma visita à concentração. Foi um auê. Eu era uma menininha, custei muito a virar mulher. Na nossa conversa, eu falei para ele da minha preocupação porque estava faltando um monte de coisa lá no Brasil, arroz, feijão, soja, e sabe o que Mané disse? “Não se importa não, tenho um sítio e quando eu voltar vou abastecer vocês, desde que você faça uma feijoada para mim”. Essa foi nossa conversa, não dá para esquecer.
Em sua primeira aparição pública, no programa de calouros de Ary Barrosso, você disse que vinha do planeta fome, mas em 1962 a escassez que te preocupava era outra?
Estava falando do povo. Eu já tinha filé mignon na geladeira. Não precisava do Garrincha para nada. Na minha casa, só não tinha cerveja porque nunca gostei de bebida. Nem sabia que ele bebia, fui descobrindo aos poucos. Ele começou a chegar bêbado, dizia que tinha vindo de uma festa. Com o tempo, essa festa passou a ser todos os dias. Ele enterrava as garrafas de cachaça na beira da Lagoa, quando a gente morava lá. Saía para pescar e voltava embriagado. É triste demais para quem viu aquele garoto no auge virar aquele cara tão acabado.
E a separação?
Foi muito doída, tinha que fazer se não ele matava o meu filho. Pegava o menino pelos pés na beira da piscina e ficando gritando: “vou soltar”. Quando bebia ficava agressivo. É aquele negócio de o médico e o monstro. Depois, vinha cabisbaxo. Vivemos entre a dor e o desejo até o fim. Mané era um grande amante, um puta amante, só dizendo assim. Essa fama não é à toa. Era habilidoso até demais
Numa crônica, o Hermínio Bello de Carvalho tornou público o mito da virilidade ao revelar seu espanto diante da queda da toalha de Garrincha no vestiário do Botafogo...
Tudo que o povo queria era que o Mané deixasse cair a toalha. Todo mundo queria ver aquele índio criado a Toddy, livre, ao vento. O Mané tinha muito humor. Era uma pessoa linda de se lidar, que tem a cara do Brasil. Sumia para o mato, vivia sem camisa, com aquela sunga, as pernas tortas... Dizia: “Criola, tô indo”. Se enfiava no sítio do Chico Anysio e desaparecia. Trazia só passarinho. Era a paixão dele, conversar com os pássaros. Era gentil, sabia tirar a cadeira para uma mulher sentar, como já não se faz mais hoje. Se fizer, a mulher cai de bunda no chão. Nunca ouvi um palavrão da boca dele.
Em meio às dores, é preciso preservar a delicadeza.
Perdi três filhos, dois foram embora porque não tinham o que comer. Nem por isso, deixei de ser o que sou. Acordo todo dia com esperança de que vai ser melhor. Se está difícil, não briga. Brinca. Usei muita maquiagem, muito curativo para esconder as feridas. Tenho a minha medicina que é a música. Graças a Deus estou com um show maravilhoso, “Deixa a nega gingar”, vou para a Europa e muita gente por lá ainda pergunta por ele. As vezes, é preciso dar uma beliscada. Tudo que acontece hoje no futebol começou com ele. Gosto de passar naquele muro do Botafogo para ver a caricatura dele e apontar: olha lá o cara. Tenho camisas 7 que compro nas Copas do Mundo. É esquisito, você sofre dobrado, suspira fundo porque é muito frágil. Toda alegria do povo é sofrida, são momentos, um bom carnaval, um bom réveillon. Natal não sei se é muito bom, fica todo mundo contando dinheirinho para comprar presente. A gente não controla nada. Ninguém é de ninguém, fica tudo aí.
Para quem veio do planeta fome, a vida lhe ofereceu um rodízio completo de emoções.
As vezes foi pesado, mas teve de tudo. Só quem veio do planeta fome sabe dar valor a um banquete. Tento sair e levar muita gente mas tem quem adore o planeta fome, quem não faça nada para sair dele, é pao e circo mesmo. Não adianta ficar de vítima. A vida dá chance e você tem que aproveitar. Cantando o espírito fica livre, lindo e maravilhoso, mas evito algumas músicas do passado, como “Se acaso você chegasse”, a primeira que gravei, porque me lembram muito dele.
Você sobreviveu literalmente a um tiroteio por ficar ao lado dele, não?
Em 1970, lembro que ele foi me buscar num show e o nosso carro foi cercado por homens armados. Como o trânsito parou e as pessoas começaram a nos reconhecer, eles foram para a porta da nossa casa, no Jardim Botãnico. A gente já tinha subido para o quarto quando os vidros começaram a pipocar. Tinha um piano na sala que foi partido ao meio. O segurança perdeu parte do braço. Nunca soubemos o motivo, apenas que tínhamos que sair do Brasil. Vimos a final da Copa de 1970 num quarto em Roma, com o Mané chorando.
Ficou na sua conta o fim do primeiro casamento e da carreira que o proprio Garrincha não conseguiu conservar...
Peguei ele já em declínio. Eu estava lá em cima e ainda era acusada de me aproveitar. Tinha uma coisa meio absurda, um falso moralismo, porque ninguém falava que eu saía para cantar pelo Brasil em cima de caminhão para dar de comer às meninas deles, porque ele não tinha como pagar a pensão. Quem ganhava dinheiro era eu. Abri minha vida para ele, engravidei para lhe dar um filho. Moramos na Urca, Ilha do Governador, Lagoa, Jardim Botânico e ainda mandei fazer a casa de Jacarepagua para trazer as filhas dele, sete meninas. Queria dar o melhor para ele, tínhamos mordomo, governanta. O Mané se incomodava com a presença do mordomo sempre atrás dele e mandava que fizesse um prato para sentar na mesa e comer com todo mundo.
Você tinha a ilusão de que poderia transformá-lo num homem da sociedade?
Eu achava que um dia ele ia ser isso. Um vez, fiz um jantar incrível para que não se falasse apenas da bebedeira. Consegui botar um blazer no Mané, comprei naquela casa mais chique de Copacabana. Quando desceu a escada, era um lorde, estava lindo. Eu achava que ele iria virar um lorde. Para mim, sempre foi. Depois, teve o bar naquela casa que comprei da família do Nelson Rodrigues em Vila Isabel. Minha intenção era o Mané receber times que viessem jogar no Rio, mas foi pior porque havia muita garrafa nas prateleiras. Quando procurava por ele, estava dormindo atrás dos sacos de feijão, completamente embriagado. Perdi o bar, tinha que perder.
Você também tentou completar a escolaridade dele?
Depois que parou de jogar, contratei um professor particular, o Sebastião Filgueiras, de uma família de advogados fortíssimos. Foi uma decepção logo na pimeira aula. O Mané não deu uma palavra e ainda ficou bravo comigo, que eu o estava chamando de analfabeto. Foi uma lição. Garrincha dificilmente lia um jornal, o negócio dele era caçar, era natureza. Também caçava muito rabo de saia. Sabia caçar muito bem, era macho, tinha essa necessidade. Eu sabia, mas a casa dele estava lá. Ele voltava.
Garrincha fazia planos, tinha ambições?
Não. Mané era hoje. Gostava muito de olhar o céu, as estrelas e se espantava: “Meu Deus, como essa gente é boba, não sabe que vai viver por um tempo tão curto, para que ficar preso a tanta coisa, não vai levar nada..” Tinha uma filosofia de vida que também é a minha.
Espiritualmente, ainda tem alguma conexão com ele?
Tenho não. É muito dificil. Rezo muito, converso com ele, peço ajuda, mas não tenho esse poder. Nós nos separamos.
Você consegue rever o Garrincha no futebol de hoje?
Vejo o Neymar querendo fazer um pouco do Mané. Espero que um dia ele faça, rezo muito por ele, pode ficar tranquilo, como rezei muito para o Romário, para o Ronaldo. Tem que tomar conta do menino. Neymar usa a camisa 11 que o Garrincha usou em 58, tomara que chegue lá. É um menino leve, sem problemas, feliz. Torço para que não se machuque. Também gosto muito do Ronaldo e espero que agora como dirigente ele possa fazer da Copa uma homenagem ao Garrincha. Os jogadores de hoje não sabem quem ele foi. Nem citam. Quero fazer um museu para o Messi e o Cristiano Ronaldo conhecerem o Mané.
Pela sua capacidade de driblar a vida com arte, você é uma herdeira legitima de Garrincha.
A gente improvisa muito, Na vida e na musica também. Estrou sempre dando meu olé para cá e para lá. Mas com toda a brincadeira, levo a vida a sério, é linda demais, exige cuidado. Sou agradecida a tudo, até às criticas. Sem elas talvez não soubesse valorizar o que ganhei e o significado da palavra amor.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/esportes/elza-soares-vamos-celebrar-mane-garrincha-7279909#ixzz2HsjqovzO

As boas coisas da vida


Photo: Painel_Cantagalo


 Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, Rubem Braga, fez esta pequena lista:

- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: go...sto de infância, de tarde na fazenda.

- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos servente de pedreiro.

- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

- Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.

- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.

- Viajar, partir…

- Voltar.

- Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio

- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.

Rubem Braga

sábado, 12 de janeiro de 2013

Despedida



E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.


Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.
Rubem Braga