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sábado, 19 de janeiro de 2013

Persona & Labirinto de Um Homem Indignado




Walmor Chagas (28 August 1931 – 18 January 2013)
 
 
Capítulo I

Persona

& Labirinto de Um Homem Indignado

Sou um ator de teatro eternamente à procura de um personagem cinematográfico
que nunca chegou. E, enquanto Godot não chega, se distrai e ganha a vida com
alguns maravilhosos personagens que o teatro ainda oferece.



(trecho de

Um Homem Indignado)
Um homem ensimesmado, que num meio-tom de olhar parece nos dizer que sabe
tudo, do mundo, de todos.
Walmor Chagas, mesmo sem o cinema, construirá uma

persona que é típica do ator
cinematográfico, de um cinema que tanto buscou, que não lhe foi fiel. Cercado
pelo esplendor da era cinematográfica do século 20, jovem em Porto Alegre, jovem
aspirante a ator em São Paulo, Walmor Chagas sabe-se ator de cinema, estrela de
cinema – isto sem contar que o cinema com que sonha simplesmente jamais existiu
no Brasil.
Desde que surgiu em São Paulo, em 1953, Walmor Chagas consegue forjar sua

persona:
um tipo

cara-intelectivo, capaz de transmitir através do olhar pensativo a sensação
e a idéia de poder. Pode conhecer todo o presente, o passado e o futuro dos
acontecimentos ao seu redor. Trata-se de um penseroso perturbador, capaz de desvendar
a alma do outro e os fatos.
De exprimir o indizível.
Homem belo, num tempo em que isso era ainda uma raridade social e étnica no
Brasil, sabe de imediato localizar e construir a identidade de seu carisma. Inteligente
e culto, encontraria no auge do Teatro Brasileiro de Comédia, o lendário TBC, a
transposição daquele almejado universo cinematográfico do século 20. As encenações
do TBC – e não os filmes da Vera Cruz – correspondiam exatamente ao anseio
de um Brasil cosmopolita, industrializado, sincronizado com a vanguarda cultural
do Ocidente.
Por definição, uma

estrela tem sua própria identidade: uma persona cinematográfica
perfeitamente identificável. Que está intrinsecamente presente durante e para
além de um filme particular em que atua. Por cinco décadas de carreira – para resumir
no mínimo – brilhante, Walmor Chagas pairou sua

filme-persona, estelar, acima
de todos – mesmo sem o cinema...
Walmor Chagas cria uma

persona tão racional quanto angustiada. E, justamente
porque este introspectivo e meditativo

homem-intelecto desvenda o destino – é
destino seu que se afaste do mundo. Compreende todas as fraquezas e subjuga-as
– o que faz com que despreze o

cul-de-sac humano até a náusea.
Persona


cerebral, talentosamente colocada a serviço de encontrar todas as matizes,
jamais obliterando os meio-tons, que possam expressar e revelar os personagens
que encarna, Walmor Chagas só pode parecer pairar em plano de superioridade

Mete medo e exerce fascínio em cena, atraindo para si o repúdio invejoso ou o estado

de veneração hipnótica.

Contendo as emoções, entretanto, transmite a sensação do sofrimento de sua sensibilidade

aguda, da percepção do desastre do mundo, sem deixar-se nunca levar por

auto-indulgência. É no olhar, como nos deuses gregos das esculturas clássicas, que

Walmor Chagas revela-nos o turbilhão da alma, o labirinto.

Ele é contenção e êxtase, beleza irrepreensivelmente clássica. Por isso a

persona,

que escolheu como ator, o coloca num patamar de modernidade só comparável ao

da atriz que lhe foi cúmplice em tudo, em cena e na vida, Cacilda Becker. No Brasil,

como ator, é o símbolo máximo da matriz ocidental – não só do comediante, mas da

cultura que encarna. Daí sua indignação. E perenidade.



Walmor Chagas

Ensaio Aberto para
Um Homem Indignado


Djalma Limongi Batista


Contém o texto integral do espetáculo

Walmor Chagas, Um Homem Indignado
São Paulo, 2008

http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=25228608581732116#editor/target=post;postID=851927098327496447


 

O louco do porão

Há um século nascia em Zurique o compositor e visionário Anton Walter Smetak, guru dos tropicalistas e mestre da música brasileira moderna.

Jotabê Medeiros
 
Cruzava as ruas de Salvador a bordo de uma velha motocicleta BMW preta que ele chamava de "prostituta da Babilônia". Enrolava o próprio cigarro artesanal, vestia roupas amassadas e tinha a fama de um amalucado Professor Pardal. Exilado da barbárie nazista, o compositor, músico, filósofo, poeta, artista plástico, cientista e dramaturgo suíço Walter Smetak (1913-1984) adotou a indeterminação dos trópicos como regra para um experimentalismo sonoro cujo alcance é, ainda hoje, imenso.
Várias gerações de músicos brasileiros foram influenciadas por Smetak - Divulgação
 
Várias gerações de músicos brasileiros foram influenciadas por Smetak

"Falar sobre música é uma besteira, mas executá-la é loucura", dizia o compositor. Este ano, celebra-se um século do seu nascimento em Zurique, em 12 de fevereiro de 1913 (morreria na Salvador que consagrou como moradia em 30 de maio de 1984), filho do músico Anton e da cigana Frederica Smetak. Sua influência se reflete na música brasileira por meio de gerações diferentes, de Tom Zé ao grupo Uakti, chegando até Lucas Santtana.
Trabalhando num porão da faculdade, o que lhe valeu curioso apelido, ele se tornou mestre e baliza dos tropicalistas. Caetano Veloso o menciona de forma elíptica em uma música de 1972, Épico. "Smetak, Smetak & Muzak & Smetak & Muzak & Smetak & Muzak & Razão". Legou dezenas de livros, centenas de composições, três peças teatrais. Nada do que produziu, em música, está disponível comercialmente. Seu primeiro disco, Smetak, foi gravado em 1974. O segundo, Interregno, em 1980. "Sou como a própria natureza, crio em abundância, presenteio os homens e as mulheres, e prefiro não cobrar nada", disse ele.
"Concluí que era preferível me envolver com a desordem e a liberalidade dos trópicos do que submeter-me às misérias europeias semeadas por Adolf Hitler", afirmou ele, sobre a decisão de estabelecer-se no Brasil.
Smetak não era um vanguardista temporão. Estava trabalhando em suas revoluções em momento histórico simultâneo ao de diversos outros expoentes da experimentação pelo mundo afora, como John Cage e Pierre Boulez. No final dos anos 1940, em Paris, Pierre Schaeffer tinha divulgado seus Études de Bruits (Estudos de Barulhos), uma sinfonia eletrônica que consistia em chiados, ruídos e apitos de seis locomotivas que ele tinha gravado na estação de Batignolles.
"A percepção audível do ser humano vai muito mais além do que a ínfima parte que pode ser computada, tanto para os graves como para os agudos", dizia Smetak. "A música deve representar o próprio silêncio, mas não aquele silêncio que existe como ausência do som. Como não é possível suprimir o silêncio, só a música pode substituí-lo", afirmava.
Um de seus mais afetuosos discípulos foi Gilberto Gil, que se lembra de chamá-lo de Tak, Tak. Quando ministro, Gil visitou uma exposição do artista e chegou a tocar um dos seus instrumentos. "Smetak me dava a sensação de um misto de cientista louco e Papai Noel de província; misto de chefe religioso severo e ameaçador, e velho manso conselheiro de farta cabeleira branca e porta sempre aberta aos curiosos do Antique e do Mistério", disse Gil.
"A obra de Smetak explora a curiosidade na arte, quando mostra tanto esboços de novos instrumentos quanto esculturas que apenas sugerem sons", disse em 2008 o músico Arto Lindsay, que foi curador de uma mostra sobre o artista no Museu de Arte Moderna de Salvador.
A ida de Walter Smetak a Salvador deu-se num momento de rara ousadia nas políticas de cultura brasileiras. Instados pelo reitor Edgard Santos, a universidade federal da capital baiana tornou-se, nos anos 1950, polo de vanguarda cultural, abraçando as contribuições do português Agostinho da Silva no Centro de Estudos Afro-Orientais; de Eros Martim Gonçalves na Escola de Teatro; de Hans Joachim Koellreuter, Smetak e Ernest Widmer no Seminário Livre de Música; e de Yanka Rudzka e Rolf Gelewsky, na Escola de Dança.
Além destes, o esforço de avant-garde se consolidaria com nomes como os da arquiteta italiana Lina Bo Bardi, o etnólogo francês Pierre Verger, o artista plástico argentino Carybé, entre outros. "Claro que, ao implantar um programa cultural de caráter tão vanguardista, Edgard Santos ganhou adversários e desafetos a granel. Além da esquerda mais populista, os próprios alunos das escolas ligadas às áreas científicas reclamavam da suposta predileção do reitor por escolas de arte", escreveu Carlos Calado em Tropicália, a História de uma Revolução Musical (Editora 34, 1997).
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-louco-do-porao,986022,0.htm
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Para quem ainda não conhece Platão:

A Alegoria da Caverna é um texto contido na "República", livro VII, onde se narra o diálogo de Sócrates com Glauco e Adimato. É um dos textos mais lidos na história da filosofia. Nele, Platão utilizou linguagem metafórica para ilustrar o quanto estamos presos a preconceitos e superstições. Basicamente, é o relato da vida de homens que nascem e vivem dentro de uma caverna e ficam voltados para o fundo dela. Ali contemplam apenas uma réstia de luz que reflete sombras no fundo da parede. E esse é o seu mundo. Porém, certa dia, um dos habitantes resolve voltar-se para o lado de fora da caverna. Assim que olha, quase fica cego devido à intensidade da luz. Mas, aos poucos, vai vislumbrando um "outro mundo", completamente diferente daquele visto no fundo da caverna. Então, volta-se para dentro para narrar esse maravilhoso fato aos seus amigos, mas estes não acreditam nele e, revoltados com a "mentira", o matam.

Com essa alegoria, Platão pretende dividir o mundo em duas realidades distintas: a sensível, que se percebe pelos sentidos, e a inteligível (o mundo das ideias). A primeira realidade é imperfeita, falsa, enquanto a segunda mostra toda a verdade possível ao homem. Portanto, o ser humano deveria procurar o mundo da verdade para atingir o bem maior para sua vida. Entretanto, a grande maioria dos seres humanos ainda hoje continua olhando para o fundo da caverna, e julgando loucos todos aqueles que olham para fora.




A liberdade é perigosa. A vida livre é arriscada, insegura, incerta, é cheia de surpresas, cheia de perigos e de buscas, mudanças, sobressaltos. A liberdade é muito perigosa... Só quem ama o risco é que pode ser livre. Só quem é dono de si mesmo é que pode ser livre de verdade. Só quem é dono do próprio destino é que arrisca a vida para salvar a própria vida. A liberdade, portanto, não é para qualquer um: os acomodados e os covardes jamais serão livres. Escravos não conseguem ser livres. E a segurança da gaiola seduz.

http://edsonmarquesw.blogspot.com/

Nas livrarias

Capa do livro "Quatro baianos porretas"Capa do livro "Quatro baianos porretas"Capa do livro "Quatro baianos porretas"
 
Título: Quatro baianos porretas
Autor: Silvio Tendler
Número de páginas: 288
Formato: 13,5 x 19 cm
Coeditor: Garamond
Coleção: Ciências Sociais nº 60
 
 
Quatro baianos. E porretas, para o cineasta que os retratou em documentários, Sílvio Tendler. Castro Alves, Glauber Rocha, Carlos Marighella e Milton Santos dividem as páginas de Quatro baianos porretas, livro que publica os roteiros dos documentários de Tendler sobre esses famosos baianos. Além dos textos dos filmes Castro Alves: retrato falado do poeta, Glauber, o filme: labirinto do Brasil, Marighella: retrato falado do guerrilheiro e Encontro com Milton Santos:o mundo global visto do lado de cá, os leitores têm acesso a uma entrevista do crítico de cinema Miguel Pereira com o cineasta, sobre sua obra fílmica.
Na abertura de cada roteiro, o livro, uma parceria Editora PUC-Rio e a Garamond, traz depoimentos de Tendler sobre a relação dele com os retratados. Castro Alves é “o mais seminal dos poetas românticos, que embalou, com imagens de amor, as mocinhas namoradeiras, inspirou candidatos a galãs e abasteceu de verve artistas libertários”. O guerrilheiro Carlos Marighella, “um homem de coragem numa geração de outros tantos homens de coragem”. Em relação ao também cineasta Glauber Rocha, Tendler diz que tinha fascínio por suas provocações e repulsa pela imprevisibilidade de suas atitudes. E o geógrafo Milton Santos era, para ele, “um brasileiro da estatura de Darcy Ribeiro e Josué de Castro”.
O cineasta Orlando Senna escreve a apresentação da obra. Na análise sobre esses trabalhos de Tendler, explica como as histórias desses quatro baianos se encontram: “a unidade que perpassa suas vidas e suas façanhas movidas pelo ideal libertário e pela ação civilizatória é a mola propulsora da quadrilogia iluminada e inquieta de Silvio Tendler sobre as possibilidades de mudar o mundo”.

http://www.editora.vrc.puc-rio.br/4baianosporretas.html

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

10 Contados - Paulinho Moska e Céu -

Papeando

 



Língua

A linguagem é esse lance poderoso. Nos forma ao mesmo tempo em que a utilizamos. Ou ainda, me utiliza ao mesmo tempo em que a (de)formo. Falar, escrever, usar a língua é bem mais do que comunicar, é tornar-me. O conteúdo, claro, mas também a forma. Sei que ando falando muito sobre isso. Mas é que era um ponto pacífico pra mim e, de repente, se tornou tão evidente que não é tão pacífico assim entre e para todas as pessoas e, como sou em relações, tornou-se um turbilhão. Tomou-me no turbilhão.
Dizem que conversando é que a gente se entende. Eu não tenho essa certeza. Acho que é próprio da linguagem criar abismos. Falamos e nos afastamos. As palavras não esclarecem, criam um mundo de possibilidades onde nossos medos e desejos transitam com habilidade. Porque o sentido que há em cada palavra, na forma como montamos as frases, as escolhas que fazemos do que dizer e como dizer, isso tudo é incomunicável. Inexplicável. E lindo.

Por outro lado, devo fazer uma ode às hastags. Tem sido muito mais divertido escrever nas redes sociais depois que me liberei não só para usá-las como para desvirtuá-las loucamente (pra saber o que é hastag clique aqui ou aqui). Uma hastag é usada, normalmente, pra incluir. Parei pra pensar e não é assim que faço, geralmente nem sei quais as tags que estão sendo usadas, crio-as como condensação de um sentimento. Como uma imagem que ilustra. Uma forma mais simples e subjetiva de exprimir. Gosto.
 
 
 
 

Todas as Melodias do Samba

 
 
MARAVILHA!!!!!!
 
 
O Samba na Gamboa reverencia ela, múltipla e versátil, a alma da canção: a melodia. E como cultuadores das mais diversas variações melódicas, Diogo Nogueira e Luiz Melodia falam de suas relações com seus pais, da escolha por não se aterem apenas ao samba, passeando por outros ritmos, e do papel da música na existência.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Discurso de Deus a Eva



Millôr Fernandes


"... Eva, de repente, descobrindo uma bela cascata, resolveu tomar um banho de rio. A criação inteira veio então espiar aquela coisa linda que ninguém conhecia. E quando Eva saiu do banho, toda molhada, naquele mundo inaugural, naquela manhã primeval, estava realmente tão maravilhosa que os anjos, arcanjos e querubins, ao verem a primeira mulher nua sobre a Terra, não se contiveram, começaram a bater palmas e a gritar, entusiasmados: "O AUTOR! O AUTOR! O AUTOR!".

"P.S. - Este discurso do Todo-Poderoso está sendo divulgado pela primeira vez em todos os tempos, aqui neste livro. Nunca foi publicado antes, nem mesmo pelo seu órgão oficial, A BÍBLIA."


"Minha cara,

eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz. Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre. Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora. Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensara que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor! Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.

Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito. Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem e um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.

Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimol Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!"



Texto extraído do livro
"Esta é a verdadeira história do Paraíso", Livraria Francisco Alves Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. s/nº.
 


 

Na praia


 
Não suporto a areia como leito sexual, e ninguém ignora, por mais que os hidrólatras esperneiem, que a água, sobretudo a do mar, dificulta qualquer tipo de fricção erótica.
 
por ALAN PAULS
 
Só uma familiaridade muito precoce com os usos e costumes da praia pode, de fato, embaçar o brilho de uma obviedade que ainda hoje deveria nos deslumbrar: a praia é o único espaço público onde a nudez quase completa não é uma exceção nem uma infração provocadora, e sim um princípio de existência, uma forma de vida, a lei – tácita e unânime, mas não coercitiva – que rege a convivência humana. “Jamais conseguiremos dar a este costume a importância que tem para nossa época”, escreve Camus em 1937. “Pela primeira vez em 2 mil anos desnudou-se o corpo na praia. Há vinte séculos, os homens se obstinam em tornar decentes a insolência e a ingenuidade gregas, tentando minimizar a carne e complicar a roupa. Hoje, ignorando essa história, os jovens se precipitam sobre as praias do Mediterrâneo e evocam os gestos magníficos dos atletas de Delos.”
Pensada por um veranista contemporâneo, filho do século XX e da cultura de massas, é possível que a relação entre a praia e o corpo se deixe resumir nesse prodígio do laconismo têxtil que foi o biquíni, o traje de banho que Jacques Heim e Louis Réard inventaram em 1946, inspirando-se nas tarjas pretas com que a censura ocultava as zonas proibidas do corpo feminino nas imagens risquées da época, e que batizaram com o nome da praia do Pacífico Sul – atol de Bikini – onde poucos dias antes fora detonada a primeira bomba atômica do pós-guerra. Diana Vreeland não poderia definir melhor o impacto que tal invento teria sobre a discrição corporal: “A única coisa que a vestimenta não revelará de uma garota”, disse,“é o sobrenome de solteira de sua mãe.”
Mas o cruzamento entre a areia e a carne é longo e complexo. Quando associa o modo com que os banhistas modernos correm para mergulhar no mar à tradição desportiva grega, Camus cita apenas uma linha histórica, a que faz da praia o cenário privilegiado de uma disciplina e de uma temperança corporais ao mesmo tempo atléticas e guerreiras. Na praia se treinam e se moldam os músculos dos aspirantes a super-homens, dos que cobiçam o pódio das olimpíadas e dos que ardem por desembainhar suas espadas, mas a praia – esse umbral onde têm lugar todos os desembarques, do de Agamenon ao dos aliados na Normandia, passando pelo dos barcos que descarregam imigrantes no sul da Espanha ou pelos balseros cubanos nas costas da Flórida – é o lugar crítico onde as facções inimigas frequentemente se defrontam pela primeira vez, e, portanto, é em si mesmo teatro de violência e campo de batalha. A praia é sempre arena – no sentido mais romano e litigioso da palavra.
Mas há também outro antigo corpo de praia, o corpo sensual, mais voltado para o hedonismo pessoal do que para o duelo, e vem de Roma, da Roma de Justiniano, o primeiro imperador que regulamentou o espetáculo do mar e da areia e que proibiu edificações a menos de 30 metros da costa para proteger as vistas. Segundo o mito, a água da época era fria, e continuaria a ser se Vênus, num de seus arroubos, não tivesse cismado em ver Cupido nadar. Dizem que de sua tocha brotou uma faísca que caiu na baía e ardeu, e que a partir daí quem se banhasse naquelas águas se renderia imediatamente ao amor. O mapa hedônico do Império é fiel ao espírito da fábula. Baiae, antepassado ilustre dos clubes Med, foi durante oito séculos o resort de praia dos romanos excêntricos, e Antium foi a Palm Beach de Calígula, Nero e de outros bons vivants bipolares da Antiguidade.
Quando apregoavam as delícias do otium cum dignitate, Sêneca ou Plínio, o Jovem, já esboçavam, de algum modo, a estética existencial que Foucault reivindicaria no início dos anos 80, mas exaltavam principalmente o prazer de lagartear sem pressa junto ao mar, em vilas, banhos e termas onde o cuidado consigo mesmo era inseparável dos prazeres do corpo e da sociabilidade inteligente, complemento perfeito do hedonismo individual.
Mas esse casamento do corpo e da praia não duraria muito. No ano 476 cai o Império Romano: como 400 anos antes o Vesúvio sepultara o auge do turismo em Nápoles, a cultura judaico-cristã esmaga e desaloja o hedonismo romano e um severo programa repressivo se encarniça, ao mesmo tempo, contra o corpo (é o fim, entre outras coisas, do banho, instituição que de instrumento de prazer e limpeza se transforma em ameaça “porque abre o corpo às influências pestilentas”, a tal ponto que no século vi a higiene já não será uma questão corporal, mas de vestuário) e contra o mar e a praia (que deixam de ser fonte de vitalidade para pôr-se a serviço de forças abismais e devastadoras).
Irregular e confusa, a linha litorânea passa a ser sinônimo de monstruosidade (é o limite que o homem não deve ultrapassar), e o oceano, demonizado pelas mitologias do Dilúvio, torna-se instrumento de caos e destruição. (Um perspicaz casal de “praiógrafos” argumenta sobre um ponto que muitos já devem estar questionando: o de que entre a praia da guerra e a do prazer talvez haja mais afinidades ou empréstimos do que estamos dispostos a reconhecer. Lena Lencek e Gideon Bosker dizem que o desembarque aliado na Normandia – 6 de junho de 1944 – só foi possível graças à tradição turística da praia. Como não havia levantamentos diretos do terreno – só tomadas aéreas oblíquas, mapas velhos, cartas marítimas desatualizadas –, os aliados avaliaram a topografia do desembarque por meio de velhos cartões-postais e das fotografias que celebravam mais de um século de despreocupação hedonista ou de aspirações saudáveis, quando os viajantes acorriam em massa às águas do Canal para combater o tédio ou as penúrias físicas. Com a necessária discrição, a BBC cuidou de solicitar e coletar esse arquivo de estampas frívolas que, lidas pelos olhos apropriados, proporcionaram a informação topográfica que permitiria a invasão.)

xclusiva ou multitudinária, exótica ou tradicional, familiar ou romântica, a praia contemporânea, contudo, ainda conserva muitos dos traços invejáveis que a Antiguidade lhe atribuía, e que frequentemente são os mesmos – só que investidos de um sinal positivo – que o paranoico obscurantismo medieval denunciou durante séculos: liberdade, tolerância, sociabilidade igualitária.
Apesar dos cinco anos cujos verões passo em Cabo Polonio, no Uruguai, apesar da rapidez com que todas as particularidades que no início me desconcertavam ou me irritavam (a falta de água potável e de luz, a obrigação de dedicar horas e esforço físico às operações mais básicas de subsistência, a impossibilidade de reconhecer limites entre casas e terrenos, a informalidade absoluta como lei social, o ensimesmamento insular, a falta de alternativas, a dependência de máquinas e infraestruturas técnicas precárias ou ultrapassadas etc.) e que acabaram por resultar-me não só familiares como imprescindíveis, tanto que já não consigo imaginar um lugar de veraneio que não as inclua, nunca deixa de me surpreender o quanto esse cabo paupérrimo, misto de paraíso hippie, ensaio de comunismo primitivo e vila miserável, funciona como uma sociedade dentro da sociedade, um enclave autônomo, imune a qualquer intervenção exterior, entregue à inércia de uma lógica própria mas inapreensível, sobre a qual seus habitantes mais antigos, postos na obrigação de descrevê-la, a duras penas balbuciam coisas vagas ou simplesmente se calam e sorriem enquanto dão de ombros, e da qual nem mesmo seus visitantes mais precavidos conseguem se esquivar.
Só que essa espécie de liberdade responsável que em Cabo Polonio é amparada por grandes extensões desertas, pela população escassa, pela pobreza da infraestrutura e, sobretudo, pela ausência de um horizonte de crescimento ou de mudança, torna-se realmente milagrosa quando a vemos imperar em praias densas, superpovoadas, onde as vantagens da civilização, juntamente com o conforto que proporcionam, expõem a situação praia a uma quantidade insuspeita de variáveis. Tudo podia fugir do controle e, no entanto... No final do século VXIII, Diderot, em pé em frente à costa holandesa, perguntava-se como era possível que alguém aceitasse viver à vista de semelhante massa de água, sabendo que a qualquer momento o mar poderia sair de seu leito e precipitar-se sobre a terra. Menino, eu me perguntava a mesma coisa quando, de férias em Mar del Plata, em janeiro, atravessava o calçadão da Playa Grande e via a extensão da praia literalmente incrustada de milhares de pequenas cabeças humanas, de tal maneira que ninguém que não tivesse estado ali num dia nublado, com a praia vazia, poderia afirmar com algum fundo de razão que em alguma parte havia algo parecido com areia. Só que o temor que Diderot alimentava em relação ao mar, à possibilidade de que libertasse de repente todas as suas forças reprimidas e as descarregasse sem piedade contra os que o contemplavam extasiados, eu, incrédulo diante desse desfraldar de nudez, temia em relação às pessoas.
Como era possível que essa massa de corpos mal cobertos, lustrosos de cremes, suor ou de água, desmesuradamente escaldados pelo sol (falo da praia dos anos 60, da praia despreocupada ou suicida anterior ao buraco na camada de ozônio), e uma proximidade quase promíscua, intolerável em qualquer outro contexto, não desandasse fatalmente num estouro sexual multitudinário, numa orgia massiva e selvagem, numa explosão de violência letal?

unca subscrevi às mitologias eróticas da praia. Convencido desde muito cedo, não sei se por um déficit pulsional congênito, por alguma experiência nefasta que mantenho fechada à chave ou simplesmente porque é a mais pura e incontroversa verdade, de que o desejo sexual não tem nada a ver com a natureza, nem com a minha, qualquer que seja, nem com a do mundo, e, por outro lado, absolutamente tudo a ver com a cultura, sempre me chamou a atenção aquantidade de aventuras e relatos sexuais com que as pessoas, principalmente os solteiros e os casais jovens, voltavam ao passar suas férias à beira-mar. Todo vitalismo me aflige, é verdade, mas nestes casos sempre havia algo mais: a relação não contingente, mas necessária, e mesmo constitutiva, entre o sexo e as dunas, a cópula e a água salgada, o frenesi e o ambiente marinho. Como se a praia não se limitasse a cumprir, no libreto sexual, um papel de estímulo cenográfico, o mesmo que cumpririam, provavelmente com a mesma eficiência, a selva (no caso de temperamentos mais sensíveis à umidade), os pássaros, a música zumbidora dos insetos, o verde, as estruturas frondosas, e preferisse arrogar-se uma função muito mais decisiva, a de protagonizá-lo, inspirá-lo ou mesmo de roteirizá-lo.
Cada vez que escuto Sea, Sex and Sun, o grito de guerra que Serge Gainsbourg profere no álbum L’Homme à la Tête de Chou, o que ouço é um pequeno milagre de eufonia monossilábica, e talvez, mesmo, o prelúdio de erotismo viperino que refulge nessa sucessão de sibilantes, mas jamais os ingredientes do imbatível coquetel sensual que os outros saboreiam e festejam de antemão. E sempre que topo com o célebre fotograma de A Um Passo da Eternidade – provavelmente o logotipo mais popular que Hollywood já desenhou para promover as benesses do erotismo de costa – e o sargento Warden e Karen Holmes voltam a se beijar deitados numa praia do Havaí enquanto as ondas quebram sobre seus corpos orvalhando-os de espuma, nunca deixo de pensar na desconsideração da areia molhada, dura como uma tábua, provavelmente minada de bivalves invejosos, tão proteica e múltipla que cinco segundos mais tarde, quando o diretor Fred Zinnemann decidir cortar a tomada, já terá se transformado numa legião de cristaizinhos insuportáveis e fará das suas nas virilhas de Burt Lancaster e Deborah Kerr; penso em como diabos pode-se conceber um filme que passa do gênero bélico (uniformes militares, destacamentos, o ataque japonês a Pearl Harbor) ao drama romântico (trajes de banho, clinch íntimo dos amantes, adultério); penso na contribuição do mar, capaz de atrapalhar com sua onda mais tímida o mais entusiasta acasalamento humano; penso no efeito irritante do sal nos olhos; penso no momento em que os atores, depois de repetirem dez vezes a cena, irão descobrir o que o sol fazia com eles enquanto brincavam de eclipsar a Segunda Guerra Mundial com alguns minutos de paixão clandestina.
Esfregar-se com outro corpo na areia, agarrar-se atrás da cortina do vestiário de uma barraca, acabar nus no refluxo das águas: as proezas mais clássicas do erotismo de praia são para mim, além de inverossímeis, exemplos perfeitos de tudo o que não pode ser o prazer: desconforto, aspereza, hostilidade, interferência.

u iria mais longe e diria que a praia nunca é erógena quando se mistura com o corpo (talvez porque, devido à composição molecular da areia e da água, a mistura nunca chega realmente a se consumar, tornando-se lânguida, antes, em estágios primitivos e incômodos como o atrito, o empanado, a cobertura) e que o é, ao contrário, quando o contato físicocom a carne, reduzido ao mínimo, é substituído por um tipo de contato visual, quando sua função é ambiental, decorativa – e a praia trabalha como o fundo belo, mas inerte, contra o qual se recortam as figuras do desejo sexual –, ou eminentemente dramática, e nesse caso participa ativamente da narrativa da cena erótica. E também é erógena – o cúmulo do erógeno – quando fica para trás, quando é esquecida, quando a noite ou o dia de chuva a engolem, quando, por alguma razão, mesmo estando bem próxima, torna-se inacessível e os veranistas levam consigo tudo o que encontraram nela (vitalidade, bronzeado, cansaço, relações, planos) para colocá-lo em circulação nesse mundo à parte, contíguo à praia, mas ao mesmo tempo radicalmente separado dela, que é o povoado ou a cidade de praia.
A praia nunca é tão erótica como quando James Bond, escondido atrás de uma palmeira, vê como a divindade marinha Honey Rider – biquíni branco e faca na cintura – brota da água e avança pela areia segurando os cabelos, mas frustra toda intensidade dessa epifania alguns minutos mais tarde – Bond não gosta de perder tempo –, quando, depois de mandar pelos ares um desses quartéis-generais do Mal que faziam babar os diretores de arte, os mesmos personagens cedem ao desejo e se entrelaçam num modesto bote rebocado pelas forças do Bem. Estamos na ilha de 007 Contra o Satânico Dr. No, um dos Bond originais, com Sean Connery no papel do 007, que pude ver com meu irmão no Cine Atlantic de Villa Gesell num verão de meados dos anos 60 em Buenos Aires, apesar de o filme, como rezavam os cartazes, ter sido classificado como proibido para menores de 14 anos.
Além da permissividade geral dos lugares de veraneio, que se não suspendem as leis ao menos permitem abrandar sua execução, desfrutávamos também, no Cine Atlantic, cujo foyer, ainda que modesto, ostentava nas paredes uma coleção de retratos em branco e preto de atores e atrizes de Hollywood que eu considerava celebridades e dos quais depois, com o tempo, à medida que ia me familiarizando com o cinema, comecei a desconfiar, dado que todos aqueles rostos que me contemplaram durante anos ao entrar no cinema para ver quase que exclusivamente filmes proibidos (a série de Bond, com o inesquecível Moscou Contra 007 na liderança, onde aparecia folheada a ouro a primeira mulher nua que vi em minha vida infantil adulta, mas também Meu Ódio Será Tua Herança, de Sam Peckinpah, com suas degolas em close, ou Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, com seu regozijante massacre final), que o único que ia permanecendo gravado em minha memória era o rosto de Richard Basehart.
Alguém como eu, que ainda não tinha visto A Estrada da Vida, o filme de Fellini em que ele fazia – um pouco inexplicavelmente – o personagem do Louco, mas que em compensação já era um verdadeiro viciado em televisão, só podia associar com o almirante Harriman Nelson, o mais sensato dos marinheiros que se revezavam no comando do timão do Seaview, o herói submarino de Viagem ao Fundo do Mar, uma de minhas séries favoritas, e que, portanto, próximo e doméstico como todo ídolo televisivo, mal podia merecer a categoria inacessível de celebridade – desfrutávamos também, meu irmão e eu, da licença especial que nos concedia a funcionária do cinema. Atracada com meu pai numa espécie de romance de verão cíclico, sempre restrito ao mês de fevereiro, mas misteriosa e pontualmente reatado no ano seguinte quando voltávamos à Villa, ela fazia vista grossa para nossa precocidade a fim de garantir por algumas horas a proximidade de seu apaixonado.

stamos na Jamaica, na ilha onde se entrincheira Dr. No, e o que Bond contempla atônito detrás de sua palmeira, uma barricada não muito diferente da que nos protegia, eu e meu irmão, igualmente atônitos, na escuridão do Atlantic, é uma criatura sobrenatural, metade humana metade marinha – a ponto de, quando Ursula Andress acabava de sair da água, eu não conseguir entender como seu corpo não rematava numa cauda de sereia sinuosa e brilhante, coberta de escamas irisadas –, que parece dar à luz a espécie a que pertence, uma espécie composta de um único gênero, ela mesma, no exato momento em que emerge do oceano. (Eis aqui uma das fatalidades que condenam a praia ao kitsch: provavelmente há poucos momentos tão ridiculamente metafóricos quanto a saída do mar.) Se Bond, impecavelmente vestido, é o intruso, o que vem de fora, o estrangeiro urbano, Honey Rider, que procura caracóis seminua, é a representação aggiornada da nativa, da local, da que ocupava a praia antes da chegada do intruso.
A cena, além de excitante, é menos estúpida do que parece; é erótica porque o que escolhe pôr em cena, em vez de uma consumação sexual, é o nascimento de um objeto de desejo único e mítico – é o mar, aqui, que cria a Mulher, e não Deus, como no filme de Roger Vadim – para dois destinatários simultâneos, Bond, por um lado, e por outro meu irmão, eu e todos os veranistas que naquela noite fazíamos ranger as poltronas mambembes do Atlantic de Villa Gesell, e é política porque explora a praia como cenário vagamente colonial, zona-limite de invasão e de resistência, no exato momento em que a expansão colonial começa a se vestir com a roupa de uma nova, hedonista e francamente bondiana forma de ubiquidade: o turismo. O encontro entre Bond e Honey inverte o antigo estereótipo do desembarque colonial, no qual a praia era o local de encontro (ou de confronto) entre os conquistadores (os que vinham do mar) e as nativas (que saíam da selva para recebê-los). Muitos anos depois, vi numa praia próxima de Havana outra versão, mais crispada, da mesma cena: os canhões enterrados na areia, sobre a costa, apontando para o mar, e as pequenas trincheiras cavadas junto dos canhões.
Eu, um estrangeiro – o mesmo que um pouco antes vira como um casal de turistas que três anos mais tarde já não teriam o direito de se chamar de soviéticos expulsavam aos gritos um grupo de garotos cubanos para estender na areia seu tosco arsenal de acessórios de praia – vi a praia e o mar do ponto de vista dos ameaçados, dos que vivem esperando a invasão, e de repente entendi o quanto viver numa ilha, rodeado de mar aberto, sem obstáculos que interceptem o olhar, pode ser, em vez da experiência da liberdade e da expansão que sempre imaginamos que seria, a sentença que nos condena a uma clausura absolutamente insuportável.

ara dar com a outra potência erógena da praia – aquela na qual a praia só é ativa in absentia, uma vez submetida a certo esquecimento –, é preciso recorrer às ficções estivais de Eric Rohmer, Conto de Verão, Pauline na Praia, O Raio Verde, filmes de praia e filmes eróticos, sim, desde que entendamos a praia como o que deve ficar fora do quadro para tornar-se erótico e o erotismo como a lógica labiríntica, entretecida de mal-entendidos, histeria e cálculos estéreis, em que ressuscitam os desejos acalentados durante o dia, na praia, debaixo do sol. Não é o sul, não é o Mediterrâneo, não são as orlas chiques que aparecem nos filmes de Rohmer (e quando surgem como Biarritz em O Raio Verde, são planas, sem brilho nem sedução), e sim as praias comuns da Normandia ou da Bretanha, tão impessoais, tão carentes de cor local e de glamour quanto uma colônia de férias do sindicato geral de adolescentes. As histórias se passam no verão, mas o tempo nem sempre ajuda: os impávidos céus azul-celeste são a exceção, não a regra, e os veranistas rohmerianos devem se contentar amiúde com o duvidoso encanto das manhãs ventosas, a nebulosidade tenaz e um sol metálico que enfeia cruelmente os corpos e obriga a seduzir ou a ser seduzido entrecerrando os olhos.
No entanto, nunca o cinema de Rohmer parece tocar tanto o coração do desejo como quando se instala nesses balneários de meia-tigela, que preferem a funcionalidade do banal a qualquer forma de beleza natural. Por quê? Porque em Rohmer os turistas são sempre os personagens, não o espectador. Antes de seus atrativos visuais, Rohmer escolhe a praia porque seu sistema, altamente dependenteda meteorologia, ao mesmo tempo regular (estações, ciclos, biorritmos, fases naturais: mais de uma vez o cineasta declarou que o único roteiro que usou em O Raio Verde foram as tábuas de marés) e caprichoso (imprevistos, variáveis difíceis de controlar, acontecimentos excepcionais), parece reproduzir numa escala atmosférica o jogo de mecânica e acaso, maquiavelismo construtivo e aleatoriedade, que ocupa o centro da arte rohmeriana.
A praia, além do mais, é o território das férias, do ócio, da disponibilidade: estados de potência frágeis e ao mesmo tempo promissores que prolongam e preparam os pequenos grandes incidentes (encontros, coincidências, encadeamentos, equívocos) de que são feitas as histórias de Rohmer. Mas principalmente porque a praia – como o mar, como a estepe para os nômades segundo Toynbee – é o espaço hipercondutor por excelência, e, portanto, o tipo de território ideal para que o desejo, força nunca conforme, sempre distraída, desdobre toda sua mobilidade e descreva suas trajetórias mais caprichosas. Segundo o idioma rohmeriano, a praia só é permeável ao erotismo na medida em que impede que o desejo se fixe numa posição sedentária e o condena a não ceder, a seguir sempre adiante, a peregrinar sem descanso.
Assim, reduzida a uma espécie de princípio conceitual, a praia aparece como esvaziada, puro espaço de circulação que a câmera apresenta apenas de longe, quase por cortesia, mas onde, no entanto, nascem os ímpetos eróticos e os marivaudages do coração que depois terão lugar em outra parte. Porque “a praia”, segundo Rohmer, é basicamente essa “outra parte”: não a areia, nem o mar, nem os guarda-sóis, e sim os passeios adjacentes, os bares, os calçadões, as creperias, as discotecas, os quartos de hotel, as casas de veraneio: todos os espaços com os quais a civilização ou a cultura acendem as mechas do desejo que brotou na natureza.
Quando Rohmer a surpreende tomando sol na praia de Dinard, o bronzeadode Margot, a protagonista de Conto de Verão, passa quase despercebido, silenciado de algum modo pelo efeito de verossimilhança do contexto. É só ao vê-la atendendo à mesa de Gaspard na creperia onde trabalha, ou caminhando a seu lado entre árvores, ou empreendendo uma excursão ao refúgio de um velho marinheiro – ou seja: naqueles momentos em que a marca que a praia deixou nela reaparece num contexto heterogêneo –, que notamos a cor que suas faces adquiriram, esse rubor tênue, mas paulatino, que se intensifica à medida que o filme avança (Rohmer costuma filmar suas ficções estivais em ordem cronológica, do princípio ao fim), em que se confundem a influência do sol e a excitação, a natureza e o pudor, e que termina por torná-la desejável. Ao contrário, a praia, contexto forte, introduz tamanho contraste com a vida que as percepções da identidade podem se alterar: no dia seguinte, depois de ter comido na creperia onde Margot o atendeu, Gaspard topa com ela na praia, mas não a reconhece; é ela quem o interpela e o faz lembrar que se conheceram.
Além de postular uma sutil defasagem social – os clientes nunca se lembram dos garçons; os garçons, sempre dos clientes –, a cena descreve bem o efeito de vida dupla que a praia institui: vestidos não somos os mesmos que de maiô, e quem nos vir entrando no mar provavelmente não nos reconhecerá à noite tomando sorvete na calçada ou dançando na discoteca. Entre a areia e a creperia – entre a praia propriamente dita e tudo o que lhe é contíguo –, nenhuma preeminência, nenhuma ordem hierárquica: ambos os espaços estão, de algum modo, numa relação de ficção recíproca.

ssim, ao contrário dos partidários do vitalismo, que pensam que a praia nunca desdobra tanto seu poder erótico como quando o desejo humano, numa espécie de jubiloso robinsonismo sexual, confraterniza intimamente com o sol, a água e a areia e almeja fundir-se à natureza, eu, discípulo de Rohmer, de taras ancestrais ou da sigilosa escola de Leopold von Sacher-Masoch, só sou sensível a seus estímulos quando estes já desapareceram, ou melhor, quando algum emissário da civilização, chame-se parede, teto, cama, banco de carro, chuveiro, roupa, introduz uma divergência e “corta” de algum modo a homogeneidade um pouco despótica da natureza. Quando o atrativo selvagem da praia é corrompido pelas aspas da civilização, até suas piores inclemências se tornam excitantes.
Não suporto a areia como leito sexual, e ninguém ignora, por mais que os hidrólatras esperneiem, que a água, principalmente a do mar, dificulta qualquer tipo de fricção erótica; só um louco se atreveria a fornicar com o sol cravado no meio do céu e só uma vítima do lirismo publicitário dos anos 70 apregoaria as benesses de uma escaramuça amorosa ao entardecer. Todavia, basta que qualquer uma dessas ofertas naturais reapareça fora da praia, enriquecida por alguma pincelada de conforto, algum fator discretamente burguês, para que sua cotação no mercado do prazer dispare até as nuvens.
Se o ardor da pele, resultado de um longo dia de exposição ao sol, é, no contexto da praia, com o calor, o ar que de tão incandescente chega a parecer radioativo, a areia transformada num vasto tapete de brasas e o espetáculo oferecido pela pele avermelhada dos demais, tão patético quanto o que oferece a nossa, mas multiplicado por 100 e encarnado em corpos que sempre julgamos mais repulsivos que o nosso – se assim é um tormento cruel, inenarrável, porque ao sofrimento físico, literal, que nos inflige, soma-se outro, moral, e, portanto, muito mais doloroso, o de sentir que não é o sol desse dia nesse balneário que se encarniçou conosco, mas o verão todo, o verão planetário, o verão como sucessão de meios-dias assassinos, massa ígnea pura e cega da qual para nos proteger, por outro lado, teriam bastado algumas decisões simples e, pensando bem, nada desagradáveis, aceitar a advertência mil vezes formulada e mil vezes desprezada e deixar-nos untar com protetor solar no momento adequado – se assim é uma penúria atroz, isolado na penumbra de um quarto de hotel, contrariado pela suave corrente de ar que se infiltra por uma janela, longe do astro insone que o provocou e de todos os cúmplices que contribuíram para multiplicá-lo, esse mesmo ardor, em compensação, deixa de ser uma condenação e torna-se aquilo que nenhum prazer puro, por mais intenso que seja, jamais poderá ser, uma dor deliciosa, um êxtase, o tipo sublime de prazer que a praia só oferece quando dois corpos abrasados pelo sol se metem numa cama recém-arrumada e se abraçam nesse paraíso limpo, fresco, simples, feito de lençóis de algodão brancos.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-76/questoes-de-verao/na-praia
 

Un flamenco en el olimpo del jazz



15 ENE 2013

El músico Jorge Pardo. / JESÚS PARDO
 
“Para mi, el mayor premio es vivir, y amar, y hacer música”. Jorge Pardo (Madrid, 1955), saxofonista, flautista y compositor, ha recibido esta tarde el premio al Mejor Músico de Jazz Europeo que otorga la Académie du Jazz francesa en solemne ceremonia celebrada en el Théâtre de la Châtelet parisino: “Los premios no me dicen mucho, aunque los recibo con alegría, y éste más, por venir de donde viene y porque, en España, si alguien triunfa fuera, es como que se les abren los ojos a algunos: “mira, si al final este chico va a ser bueno…”.
El madrileño, que ha recibido el galardón de las manos de la actriz Victoria Abril, ha sido el primer músico español en ser reconocido por la institución fundada en el año 1955, entre cuyos presidentes de honor se hallan Jean Cocteau, Georges Auric o Henri Sauget: “Toda mi vida he vivido en el filo de la navaja de la controversia entre si soy un músico de jazz o no. Son muchos los que ven en mi música un atentado a la pureza del género. Por eso me parece tan bonito encontrarme aquí, en París, que es el segundo puerto de jazz en el mundo después de Nueva York. Si algo me ha animado a venir ha sido el atrevimiento de quienes han decidido premiar a un tipo 'impuro' como yo”.
La vida de Pardo es un incesante ir y venir entre el jazz, género que le alumbró en sus primeros años de profesional, y el flamenco, que le abrió sus puertas de par en par tras de que entrara a formar parte del grupo de Paco de Lucía: “Todos saben que comencé tocando jazz y que todavía lo hago, pero la vida me ha llevado por otros caminos y, ahora, una parte de mi sangre está en el flamenco. Este es el tipo de contradicciones que me encantan y un premio como éste lo que hace es ponerlas encima de la mesa y hacerlas oficiales”.
De Paco de Lucía a Chick Corea; el mundo de Jorge Pardo es amplio y abarca los grandes teatros y los pequeños locales de barrio en los que es posible escucharle explayándose a gusto sin importar la hora ni la compañía: “Hay un mundo exterior del artista que son los viajes, los escenarios, las firmas al final del concierto pero, al final, lo que te gusta es estar con tu gente, en tus sitios, tocando en pijama y zapatillas. Me considero una rata callejera, he viajado a lo largo de los cinco continentes, y allá donde voy me encuentro como en casa, me da igual si estoy acompañando a Chick en el Carnegie Hall de Nueva York o tocando la flauta en un chiringuito de playa en Almería”.
De sus primeros pasos junto a Dolores, el grupo que revolucionó el panorama del jazz nacional mediados los años setenta, queda apenas el recuerdo de un par de composiciones que Jorge conserva plenamente activas en su repertorio: “El mundo del jazz no ha variado mucho con el paso del tiempo, sigue existiendo ese sentido lúdico de tocar por tocar, y nos liamos en proyectos que nos apasionan y con los que perdemos dinero y, pese a ello, somos felices”.
Entre los proyectos no necesariamente lucrativos del Mejor Músico de Jazz Europeo se hallan la edición de un nuevo disco, Puerta del sol, fruto de su experiencia telúrica en Perú tocando junto a un conjunto de músicos de aquel país, y la puesta en escena de su anterior Huellas en formato “XL”, este mes de julio en el marco del Festival EtnoSur (Alcalá la Real, Jaén): “Las dificultades económicas no son ninguna novedad. El músico de jazz vive en una crisis permanente. Ayer, mientras venía hacia aquí, pensaba en todos los genios que desembarcaron en París a finales de los cincuenta porque en su país les era muy difícil encontrar trabajo, gente como Bud Powell o Dexter Gordon. Al final, la cosa no ha cambiado demasiado. Nunca hemos dejado de ser artistas marginales”.

http://cultura.elpais.com/cultura/2013/01/15/actualidad/1358275976_965147.html