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sexta-feira, 22 de março de 2013

You're The Top by Cole Porter



You're The Top
 by Cole Porter

 At words poetic, I'm so pathetic
That I always have found it best,
Instead of getting 'em off my chest,
To let 'em rest unexpressed,
I hate parading my serenading
As I'll probably miss a bar,
But if this ditty is not so pretty
At least it'll tell you
How great you are.

You're the top!
You're the Coliseum.
You're the top!
You're the Louvre Museum.
You're a melody from a symphony by Strauss
You're a Bendel bonnet,
A Shakespeare's sonnet,
You're Mickey Mouse.
You're the Nile,
You're the Tower of Pisa,
You're the smile on the Mona Lisa
I'm a worthless check, a total wreck, a flop,
But if, baby, I'm the bottom you're the top!

Your words poetic are not pathetic.
On the other hand, babe, you shine,
And I can feel after every line
A thrill divine
Down my spine.
Now gifted humans like Vincent Youmans
Might think that your song is bad,
But I got a notion
I'll second the motion
And this is what I'm going to add;

You're the top!
You're Mahatma Gandhi.
You're the top!
You're Napoleon Brandy.
You're the purple light
Of a summer night in Spain,
You're the National Gallery
You're Garbo's salary,
You're cellophane.
You're sublime,
You're turkey dinner,
You're the time, the time of a Derby winner
I'm a toy balloon that’s fated soon to pop
But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!

You're the top!
You're an arrow collar
You're the top!
You're a Coolidge dollar,
You're the nimble tread
Of the feet of Fred Astaire,
You're an O'Neill drama,

You're Whistler's mama!

You're camembert.

You're a rose,
You're Inferno's Dante,

You're the nose
On the great Durante.
I'm just in a way,
As the French would say, "de trop".
But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!

You're the top!
You're a dance in Bali.
You're the top!
You're a hot tamale.
You're an angel, you,
Simply too, too, too diveen,
You're a Boticcelli,
You're Keats,
You're Shelly!

You're Ovaltine!
You're a boom,
You're the dam at Boulder,
You're the moon,
Over Mae West's shoulder,
I'm the nominee of the G.O.P.

Or GOP!

But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!

You're the top!
You're a Waldorf salad.
You're the top!
You're a Berlin ballad.
You're the boats that glide
On the sleepy Zuider Zee,
You're an old Dutch master,

You're Lady Astor,
You're broccoli!
You're romance,
You're the steppes of Russia,
You're the pants, on a Roxy usher,
I'm a broken doll, a fol-de-rol, a blop,

But if, baby, I'm the bottom,
You're the top!

Carol Belmondo: as sutis formas da melancolia

 publicado em artes e ideias por

                 
Está na Antologia Rabiscos: “Com uma técnica aparentemente simples (que mistura aquarela, nanquim, caneta esferográfica e lápis) Carol Belmondo apresenta personagens que destilam melancolia, tédio, inércia, desamparo.” E pode-se acrescentar: sutileza e placidez.

                                               
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© Carol Belmondo, da série "Fora de Hora" (nanquim), 2011.

Não é a primeira vez que escrevo sobre o trabalho da artista plástica Carol Belmondo, e, creio, não será a última. Uma vez escrevi que a artista busca, no meu entender, aplicar sua sutileza de traços para que em suas obras (quase todas de figuras humanas) transpareçam não fisionomias e contornos bem definidos, mas sobretudo seus temperamentos. E cabe destacar, além do mais, que o temperamento mais frequente e aprofundado por Carol Belmondo em seus trabalhos é a melancolia. Não creio que seja algo fácil explicitar a melancolia por meios de traços e cores, mas é certo que cada tom, cada forma procurada por Belmondo exprime, a princípio, este temperamento. E, mesmo tendo tão pouca idade, é perceptível a coerência estética que lhe surge de obra em obra, e o quanto há de apuro naquilo que a artista acredita ser o seu núcleo temático.
Na obra de Belmondo, aqui exposta em parte, e integralmente encontrada em seu site, vemos a abundância de personagens solitários, pensativos, vivendo seus dramas de forma silenciosa e interna. Às vezes basta um pequeno detalhe em suas ilustrações, um sutil traço para que estes estados solitários da alma brotem naqueles que se confrontam com seus trabalhos.
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© Carol Belmondo, "Resquícios" (aquarela e caneta esferográfica), 2010.

Carol Belmondo é natural de Feira de Santana, Bahia. Estudou Artes Plásticas na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, onde, aliás, já participou de exposições e mostras coletivas. Teve seu trabalho exposto também em cidades do interior baiano, como Feira de Santana e Serrinha. Teve trabalhos publicados na Antologia Rabiscos, volume organizado por Marcio Junqueira, Marcelo Oliveira e Patricia Martins, que trouxe trabalhos de sete jovens artistas baianos numa publicação que foi contemplada com edital do Fundo Cultural do Estado da Bahia (Funceb).
Carol Belmondo faz parte de uma promissora geração de artistas mulheres da cidade de Feira de Santana, em que se destacam também nomes como Maria Dolores (sobre a qual, aliás, já escrevi: O Cotidiano Colorido de Maria Dolores), Tâmara Lyra, e Patrícia Martins, bem como outros nomes que agora me escapam. Pesquisem, procurem, achem, compartilhem, pois é equivocado dizer, sem conhecer, que na cidade de Feira de Santana, Bahia, só há comércio e fluxo rodoviário. Carol Belmondo prova que não.
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© Carol Belmondo, da série "Elza" (nanquim), 2012.
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© Carol Belmondo, da série "Por trás da Lua", 2012.
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© Carol Belmondo, "Ruínas", (metal e aquarela), 2011.


Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2013/03/comeco_de_algo.html#ixzz2OKfyMZpM

Para que serve a Arte Contemporânea?

Arte Contemporanea Industria Banalidade Povo Democracia Andy Warhol

O título contém já uma falácia. A arte não tem de obrigatoriamente de servir para nada. Ou tem? Partamos do princípio que sim, que tem de ter alguma utilidade, mesmo que seja do universo mais íntimo e pessoal e nunca chegue a ser vista por mais do que meia dúzia ou, no limite, uma pessoa apenas. Este é um post muito pessoal, com uma opinião muito pessoal.

Noutro dia, em conversa ao almoço, ouvi sobre a arte contemporânea uma frase que não ouvia há muito tempo: “até eu fazia aquilo”. Apercebi-me, após três livros escritos com muito suor que é no verbo fazer que está a diferença. A arte não está nos museus e nas galerias, nas livrarias e nas salas de cinema e de concerto, não está nas paredes e nunca, nunca está acabada. A arte é um verbo, como o amor (já lá diziam os Massive Attack), é uma acção, é uma palavra de “fazer” e não de “estar”. Por isso é que nem toda a gente é artista.

Pode ser-se artista por ter talento indizível, por se querer ganhar dinheiro, por se trabalhar sem dormir, por se ser psicologicamente instável, por intuição ou racionalidade puras, por raiva, por amor, por tristeza ou imensa alegria, mas nunca se pode ser artista parado. Um artista é alguém que faz. É alguém que age sobre um motivo, seja ela a beleza ou o nojo, a morte ou uma lata de sopa de tomate. E ao fazer, mesmo que nunca fosse essa a sua intenção, interroga. A si próprio, aos que o rodeiam ou ao passado, a toda a sociedade ou apenas a uma restrita plateia.

É claro que nem toda a arte nasce igual, porque por muito que quiséssemos, nem todos colocamos as mesmas perguntas da mesma maneira, com a mesma acuidade; uns serão recordados para sempre, outros cairão no esquecimento, alguns poderão ser redescobertos passados duzentos anos, a maior parte será apenas mais uma pincelada no espírito do tempo.

Todo este preâmbulo para ter uma opinião. A arte contemporânea está em grande parte mercantilizada e industrializada. No princípio do século passado, Duchamp demonstrou que bastava mudar o urinol de sítio e posição para ele nos interrogar como, digamos, um quadro. Não é por grandes obras serem produzidas por génios desplicentes que acabam a ganhar fortunas que devemos, numa espécie de snobeira invertida, desprezá-los. Apenas os critérios mudaram e a arte deixou de ser, dominantemente, a arte do “belo”.

Hoje, a arte, como grande parte da actividade humana, é a procura de limites, interiores e exteriores, visuais e materiais, de tempo e espaço, usando como plasticina todas as tecnologias ao dispor do artista, do clássico escopro ou pincel a robots no limite da consciência, a instalações vídeo, camas com lençóis sujos ou... quadrados pretos sobre fundo preto.

publicado em artes e ideias por

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2007/11/para_que_serve.html#ixzz2OKd6NtgD

quinta-feira, 21 de março de 2013

Primavera


DJAVAN e OLIVIA BIYNGTON - Primavera 
 
 
Primavera
 
Carlos Lyra E Vinícius De Moraes
 
O meu amor sozinho
é assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste sentir saudade
É que eu gosto tanto dela
Que é capaz dela gostar de mim
E acontece que eu estou mais longe dela
Que a estrela a reluzir na tarde

Estrela, eu lhe diria
Desce a terra, o amor existe
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para não morrer

Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-me todo o teu carinho
Eu queria ter felicidade
É que o meu amor é tanto
Um encanto que não tem mais fim
No entanto ele nem sabe que isso existe
É tanto triste se sentir saudade

Amor eu lhe direi
amor que eu tanto procurei
Ah quem me dera
Eu pudesse ser
A tua primavera
E depois morrer

O casamento é superestimado

 21 de March 2013 por Valek

marriage-cartoon-proposal

Frequentemente me perguntam quando é que eu vou me casar. Estou em um relacionamento há 5 anos e com essa pessoa divido as contas e a cama. Se isso não é estar casada, então não sei o que é.
Para os outros, casamento é outra coisa.
As coisas são o que dizemos que elas são. Se definimos que trabalho é aquilo que fazemos em um escritório, sob a supervisão de um chefe, 8 horas ou mais por dia, 5 dias por semana para ganhar dinheiro até o tão esperado dia da aposentadoria, então teremos pessoas perguntando a escritores, ilustradores, freelancers e músicos: “Tá, mas no que você trabalha de verdade?”
As pessoas nem precisam me perguntar isso. A cara delas quando digo com o quê trabalho já denuncia que elas não acreditam que eu trabalho “de verdade”. E com o casamento é a mesma coisa.
Engana-se quem (eu) acredita que seja a união, reconhecida legalmente, entre pessoas que se amam. O casamento é uma ideia muito maior do que isso, uma narrativa mais repetida em nossa cultura do que a história da Branca de Neve, do descobrimento do Brasil ou de Adão e Eva. E, como uma complexa narrativa, o casamento possui um vasto repertório de personagens, rituais, alegorias e simbologias que precisam ser seguidas para que seja considerado “de verdade”.
alma-gemea
Tudo começa com a ideia da alma gêmea.
Ouvimos desde sempre que não é possível ser feliz sozinho. Nos filmes, nas novelas, nos livros e em tudo quanto é história há um par romântico que sabemos estar predestinado ao ou à protagonista. Um exemplo do lobby do casório: quantas histórias de princesas da Disney NÃO giram em torno de casamento?
Assim como esses personagens, só estaríamos felizes e realizados ao encontrar essa alma gêmea. Logo, é esperado que você se case com aquele alguém que faz você feliz — como se não fosse absurdo depositar no outro a enorme responsabilidade de fazer você feliz.
Bem, e nessa narrativa repetida há mais tempo do que eu possa imaginar, o casamento é uma coisa mágica que une duas pessoas em uma só. Duas pessoas virando UMA SÓ, gente. Está até na Bíblia: “já não serão dois, mas uma só carne”. Eu acho isso pavoroso. Prefiro continuar sendo eu, tendo minha própria identidade, e estar ao lado de alguém que também tenha a sua. Mas vá lá; a sociedade considera casamento a criação de um monstro de duas cabeças.
“Então você não está casada com a sua cara metade?” Não. Nem ele nem eu somos metades. Somos seres humanos inteiros. Por experiência, aprendi que não há cilada maior do que buscar alguém que precise de mim para ser completo e ainda esperar que essa pessoa me faça feliz.
até tu, Mônica?
até tu, Mônica?
“Casamento tem que ser na igreja”
Toda essa história de encontrar alguém que nos faça feliz, uma alma gêmea feita para nos completar, reveste o casamento de uma aura mística que as religiões costumam explorar. Afinal, uma união tão especial tem que ser eterna, e para ser eterna tem que ser celebrada numa igreja, diante de deus, certo?
Ninguém precisa ser religioso para saber cada detalhe de um casamento na igreja. Está nos filmes, nas novelas, nos livros, nas revistas, em todos os lugares. A noiva de branco, entrando na igreja levada pelo pai; a marcha nupcial; os convidados acompanhando emocionados o pai entregar a noiva para o noivo, como se fosse uma posse; a troca de alianças; os votos; o momento em que se tem alguém contra o casamento que fale ou se cale para sempre; o “até que a morte os separe”, o “eu os declaro marido e mulher” e o “pode beijar a noiva”, roteiro decorado como fala de filme que a gente assistiu mais de vinte vezes.
Os problemas quanto a isso são dois, e não tem nada a ver com a cerimônia em si ou com quem ESCOLHE se casar assim. 1) Todos esperarem (e cobrarem) que você faça o mesmo, seguindo o roteirinho de subir no altar para se casar, mesmo que você não queira, mesmo que você não veja o menor sentido nisso. 2) A igreja deter o monopólio sobre o casamento, não aceitando como verdadeira qualquer união que fuja desse roteirinho.
Dispensar a aprovação da igreja nesse aspecto da sua vida não é o suficiente; ela, não satisfeita, tenta interferir nas leis CIVIS para impedir qualquer tipo de casamento que não a agrade.
“Esse negócio de se casar com uma pessoa do mesmo sexo não está no script! Meu deus, vocês estão estragando nossa historinha mágica! Han? O quê? Eles não vão se casar na igreja? Ah, não importa, o casamento é propriedade nossa! E se a gente não foi convidado para a festa, aí é que não vamos permitir que se casem MESMO. Hmpf.”
Será que é tudo pela festa?
Perguntaram para o meu sogro quando é que ele ia tomar vergonha na cara e se casar “de verdade” com a mulher com quem já vive há anos. É claro que a resposta que esperavam era quando seria a festa de casamento. Então ele respondeu: “Mas a gente casou. No cartório, sozinhos.” Achei genial.
Começo a suspeitar que só existe toda essa cobrança para que o casamento seja como manda o figurino porque esse roteiro inclui uma festa. E quase todo mundo adora festa. Então, quando me perguntam quando é que vou me casar, devem estar querendo saber mesmo é “quando você vai pagar para eu me empanturrar de bebida e coxinha de catupiry, dançar até cair, comer bolo e posar para as fotos com o vestido novo que eu não vou poder usar em outra ocasião?”
Então talvez seja por isso que tanta gente fica brava com casamento de pessoas do mesmo sexo: porque sabem que homofóbicos não serão convidados para a festa.
A grande dificuldade, afinal, é aceitar o diferente.
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A vida é um roteiro com cenas bem definidas, em que cada um de nós recebe um papel. Quem transgride esses papeis um tiquinho de nada é rejeitado. Porque olham para a vida do “diferente” e não conseguem entendê-lo. Não conseguem encaixá-lo em rótulos que já conhecem. Aí o cérebro trava.
Porque tudo isso é sobre o furor das pessoas que tentam, a todo custo, enquadrar o outro numa norma própria. Medir o mundo usando a si mesmo como régua.
Quem é que vai dizer que eu sou casada “de verdade”? Uma festa de casamento? O papa? Uma aliança no dedo? Um pedido de noivado? Um status de relacionamento no Facebook? Pelo menos nos meus documentos, o que vai dizer é uma certidão. Mas e na minha vida pessoal? Quem é que tem o direito de determinar isso? Minha família? Você?
E a principal questão: por que isso importa?
Tudo isso é superestimado. Especialmente a diferença que faz para os OUTROS algo que é, ou pelo menos deveria ser, totalmente PESSOAL.

Aline Valek


http://www.alinevalek.com.br/blog/2013/03/o-casamento-e-superestimado/

Um Comunista



Um Comunista

Caetano Veloso

Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta hauçá
Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista
Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!
O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?
Não que os seus inimigos
Estivessem lutando
Contra as nações terror
Que o comunismo urdia
Mas por vãos interesses
De poder e dinheiro
Quase sempre por menos
Quase nunca por mais
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!
O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado:
"eu que tinha morrido"
E que ele estava vivo,
Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
Não entendo que exista
Assim fala um comunista
Porém, a raça humana
Segue trágica, sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha
Ó, mulato baiano
Samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha
Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror
Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
Discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara
O mulato baiano já não obedecia
As ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica
Ela luz e era treva
Venta de maravilha, de tédio e de horror
Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!

 
Caetano Veloso - 06. Um Comunista (Novo CD "Abraçaço" 2012). 
 
 
 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Simultaneidade




- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
( Mario Quintana )

Homenagem a Fernando Sabino

Uma pequena homenagem a Fernando Sabino

 
Depois de algum tempo sem dar as caras por aqui – não foi por falta de vontade, acreditem -, retorno com um texto sobre Fernando Sabino, um de meus mestres (o principal, na verdade). Este texto não é senão uma versão reduzida de uma matéria que escrevi e que foi publicada na revista Conhecimento Prático Literatura nº 27, de dezembro de 2010.

 
Nascido em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923, Sabino começou a carreira literária muito cedo, aos treze anos de idade, quando teve publicado um conto na revista Argus, da polícia de Minas Gerais. No livro “O tabuleiro de damas”, seu “esboço autobiográfico” – como ele mesmo costumava dizer –, Sabino conta que, estimulado por uma irmã, começou a participar do concurso de crônicas de uma revista do Rio de Janeiro, a Carioca. Depois, começou a participar do concurso de contos promovido pela mesma revista, e foi também premiado pelas ficções curtas. Era tão comum ganhar os concursos – que eram semanais – que Sabino passou a “receber o dinheiro adiantado do representante da revista em Belo Horizonte”.
E foi no conto e na crônica que Sabino conquistou mais leitores. Suas crônicas – a maioria delas bem-humoradas e divertidas, mas há também as sérias e críticas – e seus contos inusitados e engraçados – não há como não citar “O homem nu”, adaptado duas vezes para o cinema, e “Macacos me mordam” – têm um alcance um pouco maior que seus romances e novelas. Mas é inegável que, não obstante a qualidade e a popularidade de seus contos, foi com as crônicas engraçadas, com os casos que só ele conseguia contar que o escritor mineiro mais se destacou – até porque foi o gênero que mais praticou durante toda a carreira.
Há quem diga que, melhor cronista que Sabino, só Rubem Braga. Para não causar discussão, o melhor mesmo é fazer como um personagem de uma crônica do próprio Fernando, e dizer que fica resolvido, assim, o impasse de qual dos dois é o maior cronista brasileiro: resolvemos depois.
O primeiro livro publicado de Fernando Sabino foi “Os grilos não cantam mais”, de contos, em 1941, aos dezoito anos de idade. Já o segundo foi uma novela, “A marca”, em 1944, elogiadíssima na época – e ainda hoje. Depois deles vieram “A cidade vazia” (1950, crônicas) e “A vida real” (1952, composto por três novelas). Somente em 1956 é que “O encontro marcado” seria publicado. Daí para a publicação de “O grande mentecapto”, seu segundo romance, se passariam 23 anos. Sendo que o livro teve parte de seu material escrito em 1946. Sabino conta em “O tabuleiro de damas” como tudo aconteceu:
“Num domingo de 1979, mexendo no meu arquivo, encontrei as cinquenta e poucas páginas que havia escrito sobre Viramundo [protagonista do livro], já amareladas pelo tempo. Tomei-me de brios e entrei num transe tão maluco como os de meu personagem. Comecei a escrever dia e noite sem parar, terminei o livro em dezoito dias, em meio a crises de riso e de choro”.
“O menino no espelho”, o terceiro romance, teve mais sorte e não demorou muito para vir à luz, o que aconteceu em 1982, apenas três anos depois do anterior. Em 2004, alguns meses antes da sua morte, foi publicado “Os movimentos simulados”, romance que o autor havia escrito em 1946 – um ano produtivo para o autor, percebe-se – e que foi útil durante a realização de “O encontro marcado”, mas que havia sido deixado de lado, guardado em alguma gaveta. Nos últimos anos de sua vida, ao fazer o inventário de sua obra, Sabino reencontrou o livro “perdido” e decidiu publicá-lo, mantendo a linguagem original, “meio rebarbativa, sem escanhoá-la”, diz o autor na nota introdutória ao livro, que completa, portanto, o quarteto que forma a obra romanesca de Fernando.
Obra essa que foi ofuscada pelas crônicas. Hoje, talvez apenas “O encontro marcado” tenha ainda um grande apelo, que infelizmente parece nem ser mais tão grande assim. Os outros romances, apesar de ainda lidos e comentados, não têm a atenção que merecem. Jorge Amado considerava, por exemplo, “O menino no espelho” como sendo uma obra-prima (em “Navegação de cabotagem”, o escritor baiano revela que é este o livro de Sabino que mais gosta). Nele, Fernando narra sua infância com toques de realismo fantástico, de fábula: ele voa num pedaço de bambu, se torna agente secreto, é campeão mineiro de futebol pelo América – fazendo o gol do título, contra o Atlético –, entre outras façanhas.
Além de romances, crônicas, contos e novelas, Fernando Sabino escreveu uma série de perfis sobre pessoas com as quais conviveu (publicados em “Gente”), reportagens publicadas em vários jornais e revistas, deixou para seus leitores sua correspondência com Clarice Lispector (“Cartas perto do coração”), uma seleta das cartas que enviou para Otto, Hélio e Paulo (“Cartas na mesa”), e vários textos seus que não haviam sido publicados ainda em livro – inclusive revelando uma outra faceta do escritor, a de crítico literário – em “Livro aberto”(2001). Além disso, Sabino foi cineasta (filmou dez documentários sobre dez escritores brasileiros) e era um amante do jazz – tocava bateria, e dizem que era dos bons.
Sabino faleceu em 11 de outubro de 2004, às vésperas de completar 81 anos de idade. Morreu em casa, cercado pelos filhos, como queria que fosse. Ele e sua obra se mantêm vivos, tendo os filhos de Fernando desempenhado um trabalho louvável e incansável para divulgar os livros e a figura do autor. Em 2006, quando “O encontro marcado” completou 50 anos, foi lançada uma edição comemorativa, com um encarte especial produzido pelos filhos do escritor. Há um projeto chamado “Encontro marcado com Fernando Sabino” que já passou por Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo – além de, claro, Belo Horizonte, onde foi inaugurado – que expõe objetos do escritor, painéis que retratam suas obras e sua vida, fotos e muitas outras atrações. Como se pode ver, o homem se foi, mas sua obra permanece, e através dela Fernando Sabino continua vivo, encantando e divertindo milhares de velhos e novos leitores.
 
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Discurso de Pepe Mujica en Río+20

Photo: POR FAVOR, LÉANLO.. ES FANTÁSTICO!


Discurso de Pepe Mujica en Río:
El discurso ya se está considerando histórico,
Mujica habló ante una audiencia de mandatarios que con desgano escucharon las verdades brutales que les decía, recien a días del discurso, la prensa internacional y el mundo comienzan a tener en cuenta que no fue un simple discurso el que dijo el presidente uruguayo.

Autoridades presentes de todas la latitudes y organismos, muchas gracias. Muchas gracias al pueblo de Brasil y a su Sra. presidenta, Dilma Rousseff. Muchas gracias también, a la buena fe que han manifestado todos los oradores que me precedieron. 
Expresamos la íntima voluntad como gobernantes de apoyar todos los acuerdos que, esta, nuestra pobre humanidad pueda suscribir. 

Sin embargo, permítasenos hacer algunas preguntas en voz alta. 

Toda la tarde se ha hablado del desarrollo sustentable. De sacar las inmensas masas de la pobreza. 

¿Qué es lo que aletea en nuestras cabezas? ¿El modelo de desarrollo y de consumo que queremos es el actual de las sociedades ricas? 

Me hago esta pregunta: ¿qué le pasaría a este planeta si los hindúes tuvieran la misma proporción de autos por familia que tienen los alemanes? Cuánto oxígeno nos quedaría para poder respirar? 

Más claro: ¿tiene el mundo los elementos materiales como para hacer posible que 7 mil u 8 mil millones de personas puedan tener el mismo grado de consumo y de despilfarro que tienen las más opulentas sociedades occidentales? ¿Será eso posible?

¿O tendremos que darnos otro tipo de discusión? 

Hemos creado esta civilización en la que hoy estamos: hija del mercado, hija de la competencia y que ha deparado un progreso material portentoso y explosivo. 

Pero la economía de mercado ha creado sociedades de mercado. Y nos ha deparado esta globalización, cuya mirada alcanza a todo el planeta. 

¿Estamos gobernando esta globalización o ella nos gobierna a nosotros? 

¿Es posible hablar de solidaridad y de que “estamos todos juntos” en una economía que basada en la competencia despiadada? ¿Hasta dónde llega nuestra fraternidad? 

No digo nada de esto para negar la importancia de este evento. Por el contrario: el desafío que tenemos por delante es de una magnitud de carácter colosal y la gran crisis que tenemos no es ecológica, es política. 

El hombre no gobierna hoy a las fuerzas que ha desatado, sino que las fuerzas que ha desatado gobiernan al hombre. Y a la vida. 
No venimos al planeta para desarrollarnos solamente, así, en general. Venimos al planeta para ser felices. Porque la vida es corta y se nos va. Y ningún bien vale como la vida. Esto es lo elemental. 

Pero la vida se me va a escapar, trabajando y trabajando para consumir un “plus” y la sociedad de consumo es el motor de esto. Porque, en definitiva, si se paraliza el consumo, se detiene la economía, y si se detiene la economía, aparece el fantasma del estancamiento para cada uno de nosotros. 

Pero ese hiper consumo es el que está "agrediendo" al planeta. 

Y tienen que generar ese hiper consumo, cosa de que las cosas duren poco, porque hay que vender mucho. Y una lamparita eléctrica, entonces, no puede durar más de 1000 horas encendida.
¡Pero hay lamparitas que pueden durar 100 mil horas encendidas!
Pero esas no, no se pueden hacer; porque el problema es el mercado, porque tenemos que trabajar y tenemos que sostener una civilización del “úselo y tírelo”, y así estamos en un círculo vicioso. 

Estos son problemas de carácter político.
Nos están indicando que es hora de empezar a luchar por otra cultura. 

No se trata de plantearnos el volver a la época del hombre de las cavernas, ni de tener un “monumento al atraso”.
Pero no podemos seguir, indefinidamente, gobernados por el mercado,
"sino que tenemos que gobernar al mercado". 

Por ello digo, en mi humilde manera de pensar, que el problema que tenemos es de carácter político.
Los viejos pensadores –Epicúreo, Séneca y también los Aymaras- definían: “pobre no es el que tiene poco sino el que necesita infinitamente mucho”.
Y desea más y más. 

"Esta es una clave de carácter cultural" 

Entonces, voy a saludar el esfuerzo y los acuerdos que se hagan.
Y lo voy acompañar, como gobernante.
Sé que algunas cosas de las que estoy diciendo "rechinan".
Pero tenemos que darnos cuenta de que la crisis del agua y de la agresión al medio ambiente no es la causa.
La causa es el modelo de civilización que hemos montado.
Y lo que tenemos que revisar es nuestra forma de vivir.

Pertenezco a un pequeño país muy bien dotado de recursos naturales para vivir. En mi país hay poco más de 3 millones de habitantes.
Pero hay unos 13 millones de vacas, de las mejores del mundo.
Y unos 8 o 10 millones de estupendas ovejas.
Mi país es exportador de comida, de lácteos, de carne.
Es una penillanura y casi el 90% de su territorio es aprovechable. 

Mis compañeros trabajadores, lucharon mucho por las 8 horas de trabajo. Y ahora están consiguiendo las 6 horas.
Pero el que tiene 6 horas, se consigue dos trabajos; por lo tanto, trabaja más que antes.
¿Por qué?
Porque tiene que pagar una cantidad de cosas: la moto, el auto, cuotas y cuotas y cuando se quiere acordar, es un viejo al que se le fue la vida. 

Y uno se hace esta pregunta: ¿ese es el destino de la vida humana?
¿Solamente consumir?

Estas cosas que digo son muy elementales: el desarrollo no puede ser en contra de la felicidad.
Tiene que ser a favor de la felicidad humana; del amor a la tierra,
del cuidado a los hijos, junto a los amigos. "Y tener, sí, lo elemental" 

Precisamente, porque es el tesoro más importante que tenemos.
Cuando luchamos por el medio ambiente, tenemos que recordar que el primer elemento del medio ambiente se llama "felicidad humana"

El discurso ya se está considerando histórico.

Mujica habló ante una audiencia de mandatarios que con desgano escucharon las verdades brutales que les decía, recien a días... del discurso, la prensa internacional y el mundo comienzan a tener en cuenta que no fue un simple discurso el que dijo el presidente uruguayo.

Autoridades presentes de todas la latitudes y organismos, muchas gracias. Muchas gracias al pueblo de Brasil y a su Sra. presidenta, Dilma Rousseff. Muchas gracias también, a la buena fe que han manifestado todos los oradores que me precedieron.
Expresamos la íntima voluntad como gobernantes de apoyar todos los acuerdos que, esta, nuestra pobre humanidad pueda suscribir.

Sin embargo, permítasenos hacer algunas preguntas en voz alta.

Toda la tarde se ha hablado del desarrollo sustentable. De sacar las inmensas masas de la pobreza.

¿Qué es lo que aletea en nuestras cabezas? ¿El modelo de desarrollo y de consumo que queremos es el actual de las sociedades ricas?

Me hago esta pregunta: ¿qué le pasaría a este planeta si los hindúes tuvieran la misma proporción de autos por familia que tienen los alemanes? Cuánto oxígeno nos quedaría para poder respirar?

Más claro: ¿tiene el mundo los elementos materiales como para hacer posible que 7 mil u 8 mil millones de personas puedan tener el mismo grado de consumo y de despilfarro que tienen las más opulentas sociedades occidentales? ¿Será eso posible?

¿O tendremos que darnos otro tipo de discusión?

Hemos creado esta civilización en la que hoy estamos: hija del mercado, hija de la competencia y que ha deparado un progreso material portentoso y explosivo.

Pero la economía de mercado ha creado sociedades de mercado. Y nos ha deparado esta globalización, cuya mirada alcanza a todo el planeta.

¿Estamos gobernando esta globalización o ella nos gobierna a nosotros?

¿Es posible hablar de solidaridad y de que “estamos todos juntos” en una economía que basada en la competencia despiadada? ¿Hasta dónde llega nuestra fraternidad?

No digo nada de esto para negar la importancia de este evento. Por el contrario: el desafío que tenemos por delante es de una magnitud de carácter colosal y la gran crisis que tenemos no es ecológica, es política.

El hombre no gobierna hoy a las fuerzas que ha desatado, sino que las fuerzas que ha desatado gobiernan al hombre. Y a la vida.
No venimos al planeta para desarrollarnos solamente, así, en general. Venimos al planeta para ser felices. Porque la vida es corta y se nos va. Y ningún bien vale como la vida. Esto es lo elemental.

Pero la vida se me va a escapar, trabajando y trabajando para consumir un “plus” y la sociedad de consumo es el motor de esto. Porque, en definitiva, si se paraliza el consumo, se detiene la economía, y si se detiene la economía, aparece el fantasma del estancamiento para cada uno de nosotros.

Pero ese hiper consumo es el que está "agrediendo" al planeta.

Y tienen que generar ese hiper consumo, cosa de que las cosas duren poco, porque hay que vender mucho. Y una lamparita eléctrica, entonces, no puede durar más de 1000 horas encendida.
¡Pero hay lamparitas que pueden durar 100 mil horas encendidas!
Pero esas no, no se pueden hacer; porque el problema es el mercado, porque tenemos que trabajar y tenemos que sostener una civilización del “úselo y tírelo”, y así estamos en un círculo vicioso.

Estos son problemas de carácter político.
Nos están indicando que es hora de empezar a luchar por otra cultura.

No se trata de plantearnos el volver a la época del hombre de las cavernas, ni de tener un “monumento al atraso”.
Pero no podemos seguir, indefinidamente, gobernados por el mercado,
"sino que tenemos que gobernar al mercado".

Por ello digo, en mi humilde manera de pensar, que el problema que tenemos es de carácter político.
Los viejos pensadores –Epicúreo, Séneca y también los Aymaras- definían: “pobre no es el que tiene poco sino el que necesita infinitamente mucho”.
Y desea más y más.

"Esta es una clave de carácter cultural"

Entonces, voy a saludar el esfuerzo y los acuerdos que se hagan.
Y lo voy acompañar, como gobernante.
Sé que algunas cosas de las que estoy diciendo "rechinan".
Pero tenemos que darnos cuenta de que la crisis del agua y de la agresión al medio ambiente no es la causa.
La causa es el modelo de civilización que hemos montado.
Y lo que tenemos que revisar es nuestra forma de vivir.

Pertenezco a un pequeño país muy bien dotado de recursos naturales para vivir. En mi país hay poco más de 3 millones de habitantes.
Pero hay unos 13 millones de vacas, de las mejores del mundo.
Y unos 8 o 10 millones de estupendas ovejas.
Mi país es exportador de comida, de lácteos, de carne.
Es una penillanura y casi el 90% de su territorio es aprovechable.

Mis compañeros trabajadores, lucharon mucho por las 8 horas de trabajo. Y ahora están consiguiendo las 6 horas.
Pero el que tiene 6 horas, se consigue dos trabajos; por lo tanto, trabaja más que antes.
¿Por qué?
Porque tiene que pagar una cantidad de cosas: la moto, el auto, cuotas y cuotas y cuando se quiere acordar, es un viejo al que se le fue la vida.

Y uno se hace esta pregunta: ¿ese es el destino de la vida humana?
¿Solamente consumir?

Estas cosas que digo son muy elementales: el desarrollo no puede ser en contra de la felicidad.
Tiene que ser a favor de la felicidad humana; del amor a la tierra,
del cuidado a los hijos, junto a los amigos. "Y tener, sí, lo elemental"

Precisamente, porque es el tesoro más importante que tenemos.
Cuando luchamos por el medio ambiente, tenemos que recordar que el primer elemento del medio ambiente se llama "felicidad humana".


*El video de la intervención del Presidente de Uruguay, José Mujica, durante la Conferencia ONU sobre Desarrollo Sostenible Río+20, en la que hizo un llamado a cambiar el modelo económico, se ha difundido rápidamente por las redes sociales.


Published on Jun 22, 2012
José Pepe Mujica Río + 20

terça-feira, 19 de março de 2013

“Não tenho nada resolvido” Caetano Veloso


Aos 70 anos

e com disco

novo na praça,

Caetano

Veloso fala

da influência

dos filhos,

relembra o pai

e confessa certa

melancolia.

Reflete, enfim,

sobre o sentido

último das

coisas e conclui:

“Não tenho

nada resolvido”

REVISTA GOL 97

POR

CLAUDIO LEAL

RETRATOS

MURILLO MEIRELLES

PÁG. 164

BA

LAN


 

MURILLO MEIRELLES

“Foi suave”, afirma o fotógrafo

carioca de 51 anos sobre o ensaio

com Caetano Veloso, feito no

apartamento de Murillo na Lagoa,

no Rio de Janeiro. Colaborador de

revistas no Brasil e no exterior –

entre elas, i-D, Dune, Mag!,

Rolling Stone, Vogue, Trip e

TPM –, ele ingressou no mundo

da fotografia nos anos 90 e, em

1996, realizou sua primeira

exposição individual no Mube,

em São Paulo.

CLAUDIO LEAL

Nascido em Salvador, formado

pela Universidade Federal da

Bahia, o jornalista de 30 anos mora

e trabalha há cinco em São Paulo.

Foi repórter do jornal A Tarde e

da revista digital Terra Magazine.

É dele o texto da matéria de capa

desta edição. “Por ter opiniões

complexas e manter-se a distância

de respostas óbvias, Caetano

Veloso parece vocacionado para

entrevistas. Sabe provocar e

desfazer nós”, diz Claudio.

 

Colado a uma parede branca, olhar rijo,

Caetano Veloso ganha cores mais suaves

com a mudança do disco. Um fado.

Subitamente uma canção alivia seu

rosto e parece dar a partida real para as

fotos – ou para o próprio dia –, às 17h30,

no fim da tarde abafante do Rio de Janeiro.

“Adoro o Zambujo”, avisa o compositor

ao fotógrafo Murillo Meirelles,

que, sem saber, escolheu aquele CD e

reavivou a admiração do retratado pelo

cantor português António Zambujo.

Mal não fez, pois Caetano embarca

no clássico das serenatas, “A deusa da

minha rua”, por ele entoado baixinho,

alheio ao resto, como se palco houvesse

abaixo dos pés. “Essa é linda!”, reforça

para si, e outra vez se abre para o dia. O

figurino foi escolhido em seu guardaroupa,

não há sequer um fiapo que não

seja inteiramente seu. Ora mirando a

câmera, ora desconhecendo-a, Caetano

inicia gestuais fadísticos e outros ao estilo

de Carmen Miranda. Encerra com a

mão no peito.

O lançamento no final do ano passado

de Abraçaço, o terceiro álbum com a

banda Cê, ativa o radar de quem identifi

ca mil inspirações de sua obra recente,

mas o que o tempo vem reforçando

mesmo é a influência dos três filhos. “É

muito grande”, estima Caetano. “Moreno

produz os discos desde que comecei

a tocar com a banda Cê. Zeca e Tom são

as primeiras pessoas a ouvirem todas as

músicas novas que faço. E comentam,

influem. Por exemplo, os nomes dos

lutadores de MMA [em “A Bossa Nova é

 

“SE PUDESSE, ME

RECOLHIA MAIS AINDA.

ACHO UM POUCO CHATO

FICAR CELEBRANDO

DATA REDONDA PORQUE

PARECE QUE FECHA

A GENTE NAQUELA

INFORMAÇÃO”
 

foda”] , o Tom e o Zeca que me ajudaram

a escolher e pôr em ordem”, revela. O

diálogo se desdobra nas trocas musicais.

Numa madrugada, quando o rádio

do carro tocou “Pra que mentir”, de

Noel Rosa e Vadico, na voz de Paulinho

da Viola, se instaurou a cumplicidade

com Zeca, 20 anos. E, sim, adora as gravações

de funk ouvidas por Tom, 15.

Aos 70 anos, ele admite a lembrança

recorrente do pai, José Telles Velloso

– o agente postal seu Zezinho, morto

em 1983 –, e narra que se surpreendeu

depois de finalizar o livro de memórias.

“Em Verdade tropical, falo mais em

meu pai do que em minha mãe... Eu

não sabia, alguém me disse. Aquilo me

tocou porque, sabe, não sei... Eu adoro

meu pai, a memória dele”, declara. “Eu

já tenho três filhos, dois netos. Penso

mais nele, como ele atravessou o nascimento

e o crescimento dos filhos. E

gosto mais ainda dele.”

Em 2012, Caetano evitou as comemorações

em torno dos seus 70 anos e

aceitou apenas um jantar com amigos

e familiares, sem estardalhaço. Sua

mãe, dona Canô, 105 anos, diz que não

transmitiu nenhum conselho especial.

“Os conselhos que eu dei foram desde

pequeno. Dei todo o apoio para que ele

escolhesse o instrumento, se era piano

ou violão”, contou Canô, por telefone.

“Se eu pudesse, me recolhia mais

ainda. Acho um pouco chato ficar

celebrando data redonda porque parece

que fecha a gente naquela informação”,

Caetano explica. “Quem mais agiu bem

em relação a isso foi o Ney Matogrosso,

que é admirável sob tantos aspectos

Adoro ele. Olho para ele como modelo

de entendimento das coisas. Sou muito

orgulhoso de ele ser leonino. Ele fez

70 anos antes de nós e ninguém falou

nisso. O Ney Matogrosso é o Ney Matogrosso.

Não é alguém que tem 70 anos,

não. E é assim que tem que ser.”

Adolescente insone

Sofre de insônia, considera-se um

espírito adolescente e mantém a

ambição de querer ser entendido, mas

se diverte com uma frase da cantora

islandesa Björk: desejar ser entendido

é uma espécie de arrogância. Depois de

uma interrupção, faz anos que voltou

à psicanálise. Mas, afinal, está confortável

com o papel que a história já lhe

confere? “Não estou muito confortável”,

reconhece. Nos anos 70, comentava

com amigos que os artistas americanos

tendem a viver da imagem que foi construída

a respeito deles. Na contramão,

graceja: “Eu sinto mais que a fama é

uma série de mal-entendidos”.

Quando se pressente um trabalho

passadista, Caetano dribla e entrega o

disco de rock , em 2006. Se pensam

que ele se exauriu, compõe e dirige para

Gal Costa um álbum de base eletrônica,

Recanto, de 2011. Agora, com o zagueiro

desnorteado, manda um Abraçaço, no

qual aprofunda o trabalho com Pedro

Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo

Callado. “No eu tinha tudo predeterminado

na minha cabeça. Agora,

não, já deixo o que vier deles. Indico

o caminho e sugiro umas coisas, mas

já vêm as coisas deles. A gente já está

muito integrado”, avalia o compositor,

sem cravar o fim do ciclo: “Quando fiz

o segundo disco, pensei: pelo menos o

terceiro eu vou fazer. Pelo menos. É só

o que eu sei, na verdade”. O guitarrista

Pedro Sá acrescenta que a intimidade

sempre foi grande: “Nos outros dois

discos, ele tinha um conceito mais

fechado: lançou no , fi rmou em Zii e

Zie e em Abraçaço deixou correr mais

espontâneo”. Sobre o fi m, Sá brinca:

“Ele sempre falou que queria fazer uma

trilogia. Mas eu tenho a impressão de

que, se deixar, ele faz outro”.

Para o homem que considerou todas as

suas letras autobiográficas (“até as que

não são, são”), há um quê de confessada

melancolia em seu álbum mais recente.

“Estou triste tão triste/ E o lugar mais

frio do Rio/ É o meu quarto”, canta em

“Estou triste”, que concorre em profundo

desalento com “Mãe”, gravada por
 

PARA O HOMEM QUE CONSIDEROU TODAS AS SUAS LETRAS

AUTOBIOGRÁFICAS (“ATÉ AS QUE NÃO SÃO, SÃO”), HÁ UM QUÊ DE

CONFESSADA MELANCOLIA NO ÁLBUM MAIS RECENTE
 

Gal, em 1978 (“Cidades, mares, povo, rio/

Ninguém me tem amor”). Caetano aceita

o paralelo: “‘Mãe’ era a canção que eu

achava a mais triste entre as canções que

eu tinha feito. Achava até depressiva...

Talvez no show do Abraçaço eu cante.

Já tinha pensado nisso”. Evita detalhar

a origem dos dois estados espirituais e

deixa um só rastro: “Coincide a tristeza”.

Ainda assim, o pensamento da morte

não costuma invadir suas composições.

“Não é um tema de que eu trate muito,

não”, ressalta. O ar é comedido. “Eu tenho

medo. Mas tinha mais medo do que

tenho hoje. Pensava mais nisso do que

penso hoje. Mas penso também.” Com

empolgação, recorda-se de “Não tenho

medo da morte”, de Gilberto Gil, e do

complemento: “mas medo de morrer,

sim”. “Ele canta com essa vírgula

enfatizada, dá muita ênfase à vírgula,

batendo aquele bordão no violão. Isso é

uma das coisas mais lindas que Gil fez

depois de mais velho!”

Sexo, no plural

Em Caetano, uma ideia parece se manifestar,

inicialmente, através de uma

expressão facial. Comprime os olhos,

balançando de leve a cabeça, se o tema

lhe é mais atraente. Sexo, por exemplo.

 

“O SENTIDO ÚLTIMO DAS

COISAS, DOS VALORES,

AO FIM DAS CONTAS

TOTAIS, O QUE QUE É

TUDO? POR QUE QUE

HÁ TUDO QUE HÁ? QUAL

SERÁ O SENTIDO ÚNICO

DESSE GESTO MEU?”


Em suas canções recentes (“Vinco” e

“Quando o galo cantou”), o sexo tem

algo do verso do poeta Manuel Bandeira

“os corpos se entendem, mas as almas

não”. Sorrindo, Caetano não acolhe totalmente

o palpite. “Eu me lembro bem

disso de Bandeira. É bom, entendo o

que ele está dizendo. Sempre entendi. É

uma boa lembrança”, reflete. “Entendo

e há algo disso no que vivencio. Não é

tudo, mas é algo disso.”

O compositor relata que a editora

Companhia das Letras quis publicar

um pedaço de texto inédito, que ficou

fora de Verdade tropical. Exclusivamente

sobre sexo. O essencial, afi rma, foi

resumido e publicado no livro de 1997.

“Umas 70 páginas só sobre esse assunto.

Eu tinha feito um capítulo que se

chamava ‘Sexos’. Sexo no plural. E outro

capítulo que se chamava ‘Droga’. Sexo

no plural e droga no singular”, relembra.

O capítulo sobre drogas teria apenas

uma frase: “Odeio a cocaína”.

A vinculação entre sexo e pecado foi

determinante para que se distanciasse

da igreja. Sem esconder o “temperamento

místico”, o ateu nascido no dia de São

Caetano depurou sua visão da religiosidade.

“O que as religiões oferecem é uma

coisa que é mil por cento indiscutível,

que é uma organização de respostas para

as perguntas que não têm resposta”,

observa. E prossegue: “O sentido último

das coisas, dos valores, ao fi m das contas

totais, o que que é tudo? Por que que há

tudo que há? Qual será o sentido único

desse gesto meu, da minha atitude? A

religião traz uma resposta para isso. Cria

lendas, histórias que respondem a isso.

E isso é um poço sem fundo, porque a

gente não sabe, não vai saber”.

O Brasil é outro poço de perguntas

para Caetano Veloso, seja lá em qual

circunstância, se numa tarde do verão

baiano no Porto da Barra ou nas noites

outonais do Leblon. “Ele não está

fazendo arte pela arte. Sempre se coloca

em questões desafiadoras o tempo todo.

Procura essas situações. Ele discute metafísica,

filosofia, história em qualquer

conversa, mesmo a coloquial”, testemunha

o músico e escritor Jorge Mautner.

A visão esperançosa do país sofre abalos

no cotidiano. “Há muitas coisas no Brasil

que parecem negar, veementemente,

essas esperanças que o próprio Brasil

me obriga a nutrir”, afirma Caetano.

Da sua aldeia brotam razões para o

desânimo. “Tenho 70 anos e nunca vi

um prefeito bom em Santo Amaro. Isso

dá a impressão de que o Brasil não tem

mesmo jeito. Eu me sinto um sujeito

inútil no panorama. Porque sou de Santo

Amaro e, se eu não pude ajudar a dar

jeito, para não virar uma porcaria, então

não sirvo pra nada.”

Como se vê, permanece como principal

contestador de seu próprio sentimento

de plenitude. O irmão, Rodrigo

Velloso, reconta a dúvida do pai quanto

ao destino do filho, mais apaixonado

pelas artes plásticas e pelo cinema no

início dos anos 60. “Quero ver o que

esse menino vai ser”, atiçava Zezinho.

Caetano larga um sorriso ao ser questionado

sobre suas pazes com as antigas

vocações. “Resolvido, nada é. Eu te

digo com sinceridade: nada!”, confessa,

desarmado. “Conheço pessoas que têm

coisas resolvidas e eu fico fascinado

por essas pessoas, mal acredito que elas

existem.” Pausa. “Mas eu não tenho

nada resolvido.” Olhando o relógio, é

hora de Caetano Veloso, poeta insone

do Brasil, retornar ao elevador.