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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Sei Que Não Vou Por Aí





Eu escolho meus amigos do Facebook. Seleciono quem vou seguir no twitter. Só vou – por opção – a ambientes que considero acolhedores. Tenho um grupo de amigos maravilhoso. Sempre fui criteriosa com quem partilho meu riso no trabalho, na rua, na universidade...eu construo meu mundo de várias formas e, uma delas, é estando com pessoas que me fazem bem. Não faço de conta que os problemas não existem, não fecho meus olhos para as tensões sociais, não ignoro as opiniões que considero toscas, inconsistentes ou limitadas. Apenas escolho não ter que lidar com elas mais do que o necessário. Não vou ler Reinaldo Azevedo, por exemplo. Porque? Pra que? Não acrescenta e me ofende. Me faz mal E me faz má. E eu detesto não ser o melhor possível. Eu não sou boa, já disse antes. Mas isso não me faz má, me faz humana. Limitada. Imperfeita. Mas há ambientes, textos, discursos me fazem má, mesmo. E eu detesto. Detesto me sentir mesquinha, intolerante, irascível. Cruel. E é o que sou quando leio certas coisas. 

Por exemplo? Eu vivo em um mundo onde se divide, de forma machista, as mulheres entre vadias e santas. Biscates X mulheres pra casar. Não ignoro isso. Tô na rua, com meu decote grande e minhas ideias barulhentas. Escrevo num blog chamado Biscate Social Club. Mas não vou conversar sobre isso como se fosse um tema passível de dúvida. Não é matéria aceitável na minha mesa de bar. Na minha casa. No meu coração. Não é pauta. Não tem um se. Dividiu o mundo assim, amigo? Tá fora. Pega seu boné. Ou melhor: eu estou fora. Não sei se me explico bem, como cantava a Maysa, é que não dá pra ser feliz, como dizia o guerreiro Gonzaguinha. E os instantes de felicidade são preciosos pra mim. Já tem muita angústia, dor, desassossego sem que eu procure mais. Porque, olha, dói. Não é figura de linguagem, não é drama (e sim, eu sei, sou dramaqueen), não é recurso estilístico: dói. Dói em mim, fisicamente, ver pessoas tão à vontade para pautar o desejo alheio. Tão levres para julgar a vivência alheia. Me dói ver tanta gente com o carimbo na mão, disposta a usá-lo...e rápido. Tanta gente que tem tanta certeza do que é certo não só pra si e sim pra todos. Dói perceber tanta gente indiferente à dor e delícia de cada um de nós ser o que é. Dói, de chorar sabe? De precisar ir pra varanda respirar devagar, devagar, pra não aposentar o sonho. Dói.

Então, eu guardo o brilho no olho com muito carinho. Protejo o riso. Alimento o calor no peito, a vontade de dar as mãos, a fé no homem, fé na vida, fé no que virá...

Então eu prefiro manter os balões e os sonhos coloridos. Escolho a generosidade e a tolerância. Não escolho pros outros, escolho pra mim. Escolho não me ofender e não ofender alguém. Não ser cínica, sarcástica, cruel. Escolho ter palavras boas, abraço bom. 

E aí agora há pouco eu vi um filme divertidíssimo chamado Wedding Fever In Campobello. Em certo momento um dos personagens diz: sabe a diferença entre os alemães e os italianos? É que os alemães procuram problemas e os italianos já tem problemas.E completa: como já temos problemas, não precisamos mais procurar e já podemos ir pra praia. Eu estou nesse time, sabe. Já tenho um montão deles, não estou precisando de mais e vou partindo pra praia. Porque, como cantava a bethania: aqui faz muito calor, no Nordeste faz calor também, mas lá tem brisa. Viver de brisa é melhor, #ficadica.


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...



terça-feira, 30 de abril de 2013

Dos Suspiros ou Meus Sapatinhos Vermelhos


Um Salto Para o Abismo
Passei um tempo, muito tempo, sem pensar na clínica que deixei. E ponho-me a pensar se, afinal, isto não se deu porque, de alguma forma, algo ficou. Aqui, talvez. Interpretar, como escrever, é possibilitar sentidos antes insuspeitos. Manifestas na linguagem, interpretação e escrita caracterizam-se por não serem unívocas, ou seja, não dizem, nunca, exatamente tudo Porque há, sempre, o impossível de dizer (isso não é novo, of course, de Lacan e seus intérpretes à Clarice, um vasto mundo de melhores ditos sobre o tema se destacam em relação e este meu). Escrita e interpretação insistem, emergem nesse terreno: justamente o que não pode ser todo dito, não pode, de todo, deixar de ser dito. É no impasse que escrevo. A escrita tem vezes de tirana, impõe-se. É estéril perguntar para quem escreve? Porque escreve? Para que? Não há resposta para isto senão o ato mesmo de fazê-lo. Uma de minhas mais queridas escritoras, M. Duras, diz (diz? escreve!) que a escrita "permite ao escritor dizer para si mesmo que não é preciso se matar todos os dias, visto que é possível matar-se a qualquer dia" (quanto a isso tem sempre o delicioso texto de Verissimo: O Suicida e o Computador, eu, se fosse você, lia). Assim, vir aqui diariamente é escolher do que não quero morrer hoje. 

Ou, talvez, do que quero. Porque viver é justamente isso: um dia a menos. Eu lembro - ou gosto de pensar que sim - de quando aprendi a suspirar. Você lembra? Suspiros são pequenas morte, menores que os orgasmos, maiores do que nossa impávida e maquinal ação de inspirar/expirar. Suspirar é admitir. Admitir uma falta, uma ausência, um erro, um limite. Suspirar é indicar a medida do impossível. Há toda uma gama de ensaios de suspiros na minha infância, eu imagino: a primeira fome, o primeiro brinquedo guardado, a hora de dormir, o primeiro não. São ensaios, são ensaios. O primeiro suspiro que devo ter dado, eu lembro (lembro? claro que não, mas gosto de reinventar-me assim) foi para Bogart. Ou por ele, melhor dizendo. Em que filme? Em qualquer. O olhar cansado, a capa de chuva - sim, devia ser marlowe; o andar tão firme, as tristezas tão grandes. Meu primeiro suspiro deve ter sido por ele, quero que tenha sido. O Bogart  de uma mágoa que nos obseda, esse é o apelido do meu primeiro anseio. Mas ainda não é Bogart que vem ocupar este post. 

Meu suspiro mais profundo, o que não foi o primeiro mas é paradigma de todos que lhe sucederam e referência pra todos que o antecederam, este suspiro se fez ao ver Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, 1948). Qual Cisne Negro, foi o que tive vontade de exclamar algumas vezes e o faço agora. Porque não há um olhar sobre o palco e a dança como este. Não há um horror infantil mais adulto que este. E não há cores, nem passos, nem impossibilidades e escolhas, ah, não há sapatilhas como estas. Pode haver tema mais atual do que a pergunta: ou isto ou aquilo? O amor ou o trabalho? Uma hora pergunta-se: "porque você quer dançar?" ao que se responde "Porque você quer viver?" [já havia, talvez, neste meu gosto, o motivo deste post: porque você quer escrever? porque você quer viver?].

Sapatinhos Vermelhos é um filme sobre a paixão. Sobre o que ela nos dá. Sobre o que nos cobra. É um filme sobre uma febre. Um filme de dolorosa beleza. O que são aquelas cores, senhor? O vívido vermelho, o denso preto, o azul profundo...cada cor tem algo a dizer. O Techinicolor enriquecido de sentido. Há tudo aqui: a busca da perfeição, o extremo esforço diário, o cansaço dos longos ensaios, a excitação ante o público, o arrebatamento que a arte propicia, o vazio que acompanha todos os "depois" conhecidos. Há momentos expressionistas nas cores, cenários, pequenos efeitos visuais. Um filme de direção forte e sensível, a cena do ballet é primorosa. Não há medo, nenhuma tentativa de agradar, nenhuma infantilização da linguagem. 

Foi aí que aprendi a suspirar. Que aprendi a reconhecer que algo falta, sempre. Que aprendi a viver morrendo e a fazer de cada automático respiro uma tentativa de beleza. Que aprendi que há um compromisso em calçar as vermelhas sapatilhas. Que é uma escolha. Que é uma escolha,  repito, todas as vezes que paro e escrevo. Cada letra, cada dito, uma opção. Um suspiro feito post, feito texto. Um reconhecimento, também, de que não é tudo. E de que se há de prosseguir tentando, mesmo já se sabendo do impossível desta empreitada. Que é o mesmo que viver. Minúscula piada que adotamos a ferro e fogo.

O vermelho voltou-me ainda aos sapatos e suspiros quando O Mágico de Oz aportou nos meus olhos, mas esta estrada de tijolos amarelos eu percorrerei outro dia.


Pela net, achei coisas. O trailler, delicioso. Trechos do filme, hipnóticos. Informações de uma cópia restaurada que preciso ter. E há, claro, a cena do ballet, que trago pra cá, pra habitar entre as Borboletas, hoje, todas elas vermelhas. Como meus sapatos:




http://borboletasnosolhos.blogspot.pt/2011/03/dos-suspiros-ou-meus-sapatinhos.html

all that JAZZ


INTERNATIONAL JAZZ DAY GLOBAL CONCERT WEBCAST

Live from Istanbul, Turkey at live.jazzday.com
9pm (Istanbul) / 7pm (London) / 2pm (New York) / 4am (Sydney - May 1st)






Distâncias



 Não tenho tempo, corre, corre, rápido, vai, ligeiro, não tenho tempo, não dá, não cabe. E, de repente. Todo esse nada diante de mim. Tudo errado, hora, lugar, jeito. Errada, torta, manca, esquerda, todos os planos feito papel am...assado no fundo da bolsa e o tempo, alto, largo e fundo, feito zombaria.

Tempo material, pedra na vidraça, cotoco, careta. Tempo que sobra, que cutuca, que pergunta, que é, impávido, e eu aqui, sem saber, sem fazer, sem dizer. Querendo o “e se”. O mundo paralelo. Aquele dos finais felizes. Das coisas que encaixam. Do universo que conspira.

Passa tempo tic-tac, tic-tac passa a hora, podia aproveitar, útil ou gozo, tempo, tempo, tempo, vou te fazer um pedido, mas só quero o que queria, tento e agora nada me tenta. Vejo a noite se fazer lá fora, se fazer em mim, manta áspera, limite. Noite sem suspiro, sem anseio, sem vontade. Sem soluço, sem tristeza, sem agonia.

Penso nisso amanhã, penso nisso amanhã, scarlett tupiniquim. Mas o que faço com todos esses minutos que insistem em não sair do peito?

http://borboletasnosolhos.blogspot.pt/

domingo, 28 de abril de 2013

Ney Matogrosso fala

de perdas, medos e do desejo de ser lembrado pelas transgressões

  • Aos 71 anos, cantor que traz ao Rio a turnê ‘Atento aos sinais’ revela não ter iPod, Facebook, quase não ouve música e diz que não transa sem carinho



RIO - Não há o que Ney de Souza Pereira — o homem — não tenha dito sobre Ney Matogrosso — a obra. Nas duas milhões de páginas que citam o artista, na internet, habitam um sem-número de entrevistas em que ele relembra ter: namorado Cazuza (“Foram três meses de relacionamento com labaredas de dois metros de altura”); cheirado cocaína (“Odiava. Nunca entendi, achava aquilo uma mentira”); namorado mulheres (“É muito mais difícil as pessoas aceitarem que eu transo com mulheres do que com homens”); ido para a cama com 15 pessoas (“Ninguém trepa! Você deita em cima daquele topo, aí vai caindo lá pra baixo”); perdido amigos para a Aids (“Fiquei sem referência, parecia que tinham quebrado todos os espelhos à minha volta”); ter permanecido imune à doença (“Não me peça explicação porque eu não sei dar. Eu tenho certeza que tive contato com o vírus”).
Na música, Ney Matogrosso também teve carreira tão intensa quanto na vida. Nos anos 70, integrou o Secos & Molhados, grupo performático que, junto com os Mutantes, salpicou rock e transgressão na MPB. Em carreira solo, tocou ao lado do violonista Raphael Rabello, do clarinetista Paulo Moura, do pianista Arthur Moreira Lima. Gravou canções com Caetano Veloso, Chico Buarque e Pedro Luís. Com sua voz aguda e feminina de contratenor, cantou Cartola, Tom Jobim, Villa-Lobos. Aos 71 anos de idade, 40 de carreira, 38 discos gravados, prepara-se para mais uma etapa. “Atento aos sinais”, turnê iniciada em março, em São Paulo, desembarca no Rio a partir de sexta-feira, com três shows no Vivo Rio. Em cena, além de interpretar Itamar Assunção, Criolo e Vitor Ramil, o cantor usa mais de uma dezena de figurinos.
Ney Matogrosso já foi comparado a Josephine Baker pela imprensa francesa, descrito como uma mistura de Carmen Miranda, David Bowie e Jack Nicholson pela americana. Já subiu no palco usando penas de pavão, unhas de tigre, chifres de carneiro, cocares, paetês, pérolas e, claro, pele (a própria, praticamente nua). Rita Lee assim descreveu a primeira vez que o viu em ação, ainda na época do Secos & Molhados: “Um ET elegante vestindo um kabuki mucho louco com uma voz assexuada, cantando uma ciranda portuguesa.” Sobre um palco, como bem definiu o nome de sua turnê em 2008, sempre foi inclassificável.
Mas e fora dele? O que Ney Matogrosso — a obra — tem a dizer sobre Ney de Souza Pereira — o homem? Quanto do artista que atravessou o desregramento sexual da década de 70, a oferta infinita de drogas dos anos 80 e a perda dos amigos nos anos 90 sobrevive no senhor solteiro, sereno, que mora com dois gatos, numa cobertura de três andares no Leblon?
— Se não houvesse o Ney Matogrosso, talvez eu me ressentisse de não atuar artisticamente. Eu não estaria completo — responde ele, durante uma das três conversas com a Revista O GLOBO, na última semana. — No começo, eu era muito agressivo no palco. Se não fosse, seriam comigo. Hoje subo nele de uma maneira amorosa.
Nascido em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, Ney é o segundo de cinco filhos de uma família de classe média. Aos 6 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde morou no bairro de Padre Miguel, até voltar ao seu estado natal — dessa vez morando em Campo Grande — cinco anos depois. Fã de Elvis Presley, chegou a ter topete igual ao do músico na adolescência. Mas seu pai, militar da Aeronáutica, impediu-o, desde cedo, de dar vazão ao lado artístico.
— Eu pintava, fazia retratos. Pedi um curso para o meu pai, que disse que não queria filho artista — lembra. — Fiz teatro escondido. Costumo dizer que eu dei sorte de ter nascido filho de militar, porque isso já me colocou como transgressor. Sempre contestei as decisões dele.
A juventude seguiu conturbada. Aos 17 anos, após a primeira e única troca de socos com o pai, resolveu sair de casa. Alistou-se na própria Aeronáutica (que aceitava recrutas com sua idade) e, uma vez aceito, pediu transferência de Campo Grande para a Base Aérea do Galeão, no Rio. Pelos dois anos seguintes, aprenderia a dar tiro (“Era Colt 45, mas nunca me interessou a arma”) e, sobretudo, a tomar as rédeas de si mesmo:
— Eu era muito duro. Na adolescência, tinha vergonha das minhas mãos. Vivia com elas no bolso. Eu também não tirava a camisa, por vergonha. Até que fui para o quartel, tendo que tomar banho com 20 camaradas ao mesmo tempo. Percebi que ninguém ali via o monstro que eu me achava.
Também no quartel, Ney presenciaria, pela primeira vez, uma troca de beijos entre dois homens. Estavam abraçados, sentados sobre uma mureta, durante uma madrugada quente.
— O único exemplo de homossexual que eu tinha visto era o de um travesti em Campo Grande — diz. — Na Aeronáutica, vi que essas coisas rolavam, e que eu não tinha que me transformar. Gosto de ser homem.
Até então, Ney havia tido relações sexuais e namoros com mulheres (perdera a virgindade aos 13 anos, com uma prima distante, na fazenda de seu avô). Decidiu que tentaria com um homem, mas só quando surgisse uma ocasião especial.
— Eu queria que alguém me motivasse a ponto de realizar — explica.
A ocasião surgiu aos 21 anos, quando trabalhava no Hospital de Base de Brasília, fazendo lâminas de exames. Foi, ao mesmo tempo, um alívio e uma decepção:
— Pensei: “É isso? Esse tempo todo sofrendo, penando num vale de lágrimas, para isso?” Não ficou escrito na minha testa, marcado a ferro. Perdi tanto tempo me debatendo por uma coisa que era simples, normal.
A decepção veio logo depois:
— Fui da libertação ao inferno. Eu achava que relação entre homens era de igual para igual. Aprendi que não faz diferença: é o velho ciúme. Depois, por muito tempo, não quis namorar ninguém.
Aos 25 anos, decidido a ser ator, voltou para o Rio. Trabalhou com artesanato, tomou daime, viveu uma vida religiosamente desregrada. Quatro anos depois, por intermédio de sua amiga Luhli (da dupla Luhli e Luciana), professora de canto e compositora, foi apresentado ao jornalista João Ricardo, que buscava um homem de voz aguda para capitanear sua banda, Secos & Molhados. Até então, Ney havia cantado apenas num coral de 60 pessoas em Brasília (onde o maestro elogiara-lhe a voz) ou em boates, de forma amadora. Ele não sabe ler música.
O encontro ocorreu em 1971, em São Paulo. João Ricardo gostou do que viu (um rapaz de 53 quilos que se movimentava no palco como se fosse um animal indomado) e do que ouviu (uma voz de contratenor sem igual em qualquer outra banda brasileira). Dali a dois anos seria lançado o primeiro disco. O Secos & Molhados se tornaria um sucesso instantâneo, vendendo 700 mil cópias. Para preservar o anonimato — um dos únicos bens conquistados nos 31 anos de vida — Ney de Souza Pereira decidiu subir ao palco com a cara escondida atrás de uma forte maquiagem.
— Ouvia falar que artista não tinha vida privada, não andava na rua. Eu tinha 31 anos, não queria perder minha liberdade. Minha inspiração foi a maquiagem usada pelos atores do teatro kabuki — ressalta.
Havia, ainda, uma segunda razão:
— Percebi que, escondendo o rosto, eu sentia uma coragem e uma liberdade física que jamais supus ter. Quando subia ao palco, pensava em personagens. Eu queria ser um inseto. Eu botava uma peruca de crina de cavalo e e me sentia um ser dos Andes. Depois do gostinho, não voltei atrás.
Nascia, ali, o artista Ney Matogrosso.
Aquela formação do Secos & Molhados teve vida curta. Em 1974, Ney desentendeu-se com João Ricardo, que decidira rever os critérios de divisão do dinheiro. Após gravar o segundo disco, abandonou a banda.
— Ele tem essa coragem de ser ele mesmo, de não se submeter. Teve que pagar uma multa colossal — lembra Luhli.
Lançou-se, então, em carreira solo. Do Secos & Molhados, manteve a postura libidinosa e o figurino onírico — que se tornariam, junto com a voz aguda, sua marca registrada.
— Na época da ditadura, os militares tinham metralhadoras, e eu tinha minha libido como arma. É um prazer enorme poder brincar com a libido, poder trocar de roupa no palco, na frente das pessoas. Mas sempre tive a preocupação de não ser vulgar. Isso foi o limitador — diz.
Manteve a estética extravagante até lançar “Pescador de pérolas”, em 1987. O disco, intimista, foi um divisor de águas em sua carreira. Ney se fez acompanhar dos músicos Raphael Rabello, Paulo Moura e Arthur Moreira Lima, respectivamente os grandes nomes do violão, da clarineta e do piano de então:
— Até esse disco, eu só sabia fazer as coisas escandalosamente. Fui me testar, ver se eu era um cantor de verdade ou apenas o que falavam de mim.
A partir dali, voou em céu de brigadeiro. Como músico, ganhou três discos de ouro e outros três de plantina. Como iluminador, dirigiu a luz de shows de Chico Buarque, Nana Caymmi e Nelson Gonçalves. Como ator, estrelou o curta-metragem “Depois de tudo”, de Rafael Saar, e o longa “Luz nas trevas”, de Helena Ignez e Ícaro Martins. Foi retratado no documentário “Olho nu”, de Joel Pizzini, exibido este ano no Festival de Brasília.
Em paralelo, Ney entrou de cabeça numa campanha em prol dos portadores de hanseníase. O convite surgiu ao acaso, quando recebeu uma ligação por engano, endereçada ao ator Ney Latorraca.
— Volta e meia sou chamado de Latorraca na rua. Aceno de volta — diz, resignado.
Dias antes, Latorraca (o original) havia declarado, numa entrevista, que, quando morresse, deixaria a herança para os portadores de hanseníase. Ao ouvir a história pelo telefone, Latorraca (o Matogrosso) se surpreendeu:
— Perguntei: “Mas ainda existe isso no Brasil?” Comecei a dar trela para o assunto.
Esteve com José Serra, ministro da Saúde do governo Fernando Henrique (“Ele foi indiferente. Fiquei chocado. São mais de 40 mil pessoas infectadas por ano”), e com Lula, que instituiu uma pensão indenizatória para os pacientes que foram internados à força em asilos.
— Essa doença tem que ser banalizada, vulgarizada, para que acabe o preconceito, que é gigantesco — afirma. — Abraço e beijo todos. Para pegar a doença, tem que ter um contato regular.
Idealizador de duas caixas de CDs com a obra de Ney Matogrosso, o produtor Rodrigo Faour diz que, além da qualidade musical, Ney tem uma segunda característica menos lembrada: a integridade.
— Nunca conheci uma pessoa do tamanho dele que atenda ao telefone, que não coloque problema onde não tem. Ele me ensinou que você pode curtir, mas não pode acreditar no sucesso.
Quanto à música, teoriza:
— Ele não gosta de cantar o que já deu certo. Um show dele é como se fosse um espetáculo de teatro, um texto que ele prepara para o público. E o ator não quer fazer sempre o mesmo texto.
Insônia, personal trainer e astrologia
Ney tem, desde sempre, dificuldade para dormir. Quando está em turnê, leva fita crepe na mala, que usa para tapar eventuais entradas de luz nas janelas dos hotéis. Já tomou hipnóticos, que descartou, por demasiado fortes. Hoje faz uso de uma pílula de Frontal antes de se deitar.
— Na semana passada fiz um exame do sono em São Paulo. Passei a noite com eletrodos no peito e na cabeça. Fico achando que é vício, da época do Hospital de Base de Brasília.
No Rio, acorda por volta de nove da manhã. Recebe um personal trainerde segunda a sexta-feira, que o ajuda a treinar num sótão adaptado com aparelhos de ginástica. Almoça e janta em casa, pouco sai à rua. Diz ler muito (seu último livro de cabeceira é “Havia gigantes na Terra — Deuses, semideuses e antepassados humanos: a evidência do DNA alienígena”, de Zecharia Sitchin).
— É a teoria de um camarada da Nasa de que os seres da mitologia existiram — explica. — Leio sobre geologia, biologia, astrologia, astronomia. Não gosto de romance.
A decoração de seu apartamento segue uma lógica mais afetiva que estética. Uma poltrona está arranhada pelas unhas dos gatos Nego e Zula. Outra, coberta por uma bandeira de Pernambuco. Na sala, há uma estante com taças. No escritório, alguns livros velhos de botânica e arte. Três toalhas coloridas, com motivos de flores, repousam sobre uma cadeira perto da piscina; há cristais e pedras por toda parte. A maioria dos quadros nas paredes chegou ali presenteada pelos próprios pintores. Assim foi com três obras de Gilvan Nunes; assim foi com um retrato pintado em 1978 pelo goiano Siron Franco.
Televisão, assiste pouco. Música, só quando liga o rádio do carro. Sua festa de 70 anos, em 2012, foi sem som.
— Ele diz que música é trabalho. Queria que as pessoas conversassem — conta o amigo e diretor Joel Pizzini.
Quando vai para o sítio que tem em Saquarema, gosta de escutar o barulho da noite:
— Acendo uma vela e fico ouvindo a noite se instalar. Vai virando uma sinfonia. Já passei quatro horas com o gravador ligado, na mão, só ouvindo, com a sensação de estar dentro de uma coisa viva.
Não tem iPod. Seu aparelho de rádio é antigo e pequeno, com uma única entrada para CD. Vez por outra revisita seus discos.
— Dia desses, parei para ouvir de novo um que gravei com músicas do Cartola. Gostei. Achei os arranjos chiques — avalia.
Não atrela o que canta ao seu estado de espírito:
— Posso fazer um trabalho sobre o amor sem estar apaixonado. E um trabalho alegríssimo, estando triste.
Nunca entrou no Facebook. Soube que existe um perfil falso seu no Twitter, com quatro mil seguidores.
— Fica esse camarada lá falando o que bem entende — reclama.
Ney teve um relacionamento estável de 1980 a 1993, ano da morte de seu parceiro. Chegaram a morar juntos por sete anos. Desde então, teve alguns namoros, que não revela. Mas não se diz solitário:
— Não gosto de tumulto. Recebo e vou à casa de amigos. Mas gosto de ficar sozinho. Sempre estou fazendo alguma coisa, regando as plantas, costurando.
Seu pai morreu quando já tinham feito as pazes.
— Ele foi a figura mais importante da minha vida. Graças a ele sou a pessoa que sou — costuma dizer. — Depois das brigas tivemos conversas. Ele disse como se arrependia da forma que tinha criado os filhos homens. Fui o único filho que beijou ele a vida inteira. Se existe essa questão de carma, nós queimamos o nosso. O amor que passou a existir nos libertou.
Perdeu também sua gata Rita, dois anos atrás, de um problema súbito no pâncreas:
— A Rita dormia comigo, andava atrás de mim pela casa, que nem cachorro. Era o meu amor. Como eu havia perdido muitos amigos, pensei que fosse uma pessoa preparada para a morte — lembra. — Não era. Fiquei apático, não saía para a rua.
Ney se diz um ser noturno, um “vampiro”. Ao cair da tarde, deixa a casa na penumbra e observa o acender de luzes nos apartamentos do Leblon (seu prédio, de 14 andares, é mais alto que os demais do entorno). Diz que a cidade, nesse momento, lembra um presépio.
Continua magro, com 61 quilos. Aparenta menos que os 72 anos que completará em agosto. No seu último check-up, o médico diagnosticou que seu organismo é como o de uma pessoa de 50 anos.
— Não sei que idade eu tenho. Não me sinto um velho na cabeça e na vida — garante.
Usa roupas básicas: uma camiseta, um jeans, uma bota de couro. Chegou a passar produto contra queda capilar — que logo abandonou, por preguiça. Nunca tomou Viagra.
— Tenho medo de tomar. Você tem que conviver com essa coisa de broxar, faz parte da vida. Antigamente eu era entregue ao sexo, se não trepava, não dormia. Nunca me arrependi disso — lembra. — Hoje não diria que estou apaziguado, mas não tenho mais a ansiedade. Não sinto tesão se não tem carinho.
A primeira entrevista de Ney Matogrosso aconteceu 40 anos atrás, quando do estouro repentino do Secos & Molhados. Ficou aflito, até ouvir a pergunta inicial:
— Entrei em pânico. Mas uma coisa dentro de mim disse: “Fala a verdade.” Acredito que tenho o direito de ser a pessoa que eu sou.
É o que tem feito desde então. Numa cena do filme “Olho nu”, ele declara: “Não busco Deus fora. Busco dentro de mim.”
— Gostaria de ser lembrado como uma pessoa que defendeu a liberdade de expressão, de ser, de existir — complementa. — Como alguém que ousou lutar contra a hipocrisia das coisas.


http://oglobo.globo.com/cultura/ney-matogrosso




 

Maria Bethania dá o recado...


A difícil conquista de Dorival Caymmi

Photo: A DIFÍCIL CONQUISTA DE DORIVAL CAYMMI
Inveja, ciúmes, indiferença... Livro conta como foi a chegada do baiano ao Rio
► http://migre.me/ej3CM


Inveja, ciúmes, indiferença... Livro conta como foi a chegada do baiano ao Rio


27 de abril de 2013 | 10h 47

Julio Maria - O Estado de S.Paulo

Dorival Caymmi deitava na rede com a cabeça quente. Ao contrário da ideia de que tudo lhe chegava pelas mãos do vento, de que sua vida foi uma eterna tarde à sombra de um coqueiro em Itapuã, Caymmi sofreu calado. Sua chegada ao estrelato na voz de Carmen Miranda cantando O Que É Que a Baiana Tem?, em 1938, lançada no filme Banana da Terra, o fez vítima duas vezes: Carmen - não havia como ser o contrário - ofuscou a relevância de Caymmi. Diante do carisma avassalador da ‘pequena notável’, pouca gente queria saber que cabeça estava por trás daquelas canções. E O Que É Que a Baiana Tem? foi só o começo. Menos de um ano depois, em 1939, Carmen embarcou para os Estados Unidos levando mais três composições na bagagem: A Preta do Acarajé, Roda Pião e O Dengo (lançado em 1941). Nos anos em que autor de música mal recebia direito autoral, Caymmi sentia o peso da indiferença ao seu nome no mundo novo que Carmen conquistava.

O cantor e compositor baiano Dorival Caymmi em 1997 - Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE
O cantor e compositor baiano Dorival Caymmi em 1997
 
A classe dos compositores do Rio de Janeiro também não recebeu o baiano com um festival de acarajés. Afinal, como é que um sujeito de fala mansa saía das terras lá de cima cheio de risinhos para ganhar Carmen logo na chegada? Notas em jornais o desqualificavam de tal forma que o periódico O Imparcial, da Bahia, assumiu sua defesa, questionando "de onde poderia sair tamanha resistência?". Caymmi incomodava o mundo sem mover um fio do seu bigode.
O Que É Que a Baiana Tem? pisou também no pé de Ary Barroso. A música para o filme Banana da Terra seria A Baixa do Sapateiro, de Ary, se ele não tivesse pedido um aumento em seu cachê por saber que os direitos da canção passariam a ser do produtor Wallace Downey assim que o filme fosse lançado no exterior. Ary saiu da jogada e Caymmi entrou. Ganhou a gravação de Carmen e a ira de Ary. O jornalista e compositor Antonio Maria quis saber de Ary o que ele achava do baiano. "Ele veio ruim da Bahia, só melhorou no meio do caminho...", disse. E o acusou ainda de ter praticado plágio. Jogou tão baixo que teve de reconhecer depois que foi longe demais. Já nos fins dos anos 90, quando a neta Stella Caymmi o entrevistou para lançar a biografia Dorival Caymmi, O Mar e o Tempo, o compositor disse que se ressentia sobretudo de episódios do início de carreira. "Ele sentia não ter tido sua importância reconhecida."
Stella volta agora às memórias do avô com O Que É Que a Baiana Tem - Dorival Caymmi na Era do Rádio, uma detalhada pesquisa que traça um momento histórico de vitórias e percalços de um dos maiores compositores brasileiros. Caymmi foi atormentado, sofreu pressões de diferentes grupos da sociedade dos anos 40 e 50 e foi atingido por ciúme, inveja e indiferença mesmo depois de cair nas graças de Carmen Miranda.
Seu primeiro contrato com uma gravadora veio logo depois do estouro da Baiana, uma experiência que o deixou traumatizado. A Odeon estipulava simplesmente seis sucessos obrigatórios por ano. Que Caymmi se virasse para fazer outras baianas virarem fenômeno de vendas. O compositor olhou aquilo desconfiado: "Isso não vai dar certo e você vai me mandar embora", disse aos diretores da companhia. A profecia se cumpriu em 1941. Uma história conta que a Odeon o demitiu por sua demora em criar novas músicas. O fato é que, no olho da rua, Dorival Caymmi voltou aos diretores da Odeon apenas para lembrar: "Eu disse que isso não iria dar certo".
Stella tem suas desconfianças sobre as razões que teriam motivado Villa-Lobos a desencorajar Caymmi dos estudos de música. O interessante do trabalho do baiano era seu primitivismo, defendia Villa. Logo, interferências a ele com conceitos acadêmicos poderiam colocar em risco sua autenticidade. Mais tarde, Caymmi contou à neta que seu sonho era estudar música. "E desde quando estudo atrapalha?", questiona Stella.
Em 2014 serão celebrados os 100 anos de nascimento de Dorival, morto em 2008. Dentre os lançamentos, um disco em família (gravado por Nana, mãe de Stella, Danilo e Dori), que também será lançado em DVD, trará uma canção inédita. Cantiga de Cego foi feita em parceria com o poeta Jorge Amado para ser trilha da adaptação teatral de seu livro Terras do Sem Fim. Mais do que suscitar revisionismos, 2014 pode ser a chance para se colocar o pingo certo no único i de Caymmi.

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,a-dificil-conquista-de-dorival-caymmi,1026176,0.htm


sábado, 27 de abril de 2013

Eu Sei


Eu sei
Marisa Monte

Um dia eu vou estar à toa
E você vai estar na mira
Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer
O meu coração
É um músculo involuntário
E ele pulsa por você
Um dia eu vou estar contigo
E você vai estar na minha

Enquanto eu vou andando o mundo gira
E nos espera numa boa
Eu sei, eu sei,
Eu sei

LIXO EXTRAORDINÁRIO


ANIMUS MOVENDI

relativizando o movimento e o referencial

LIXO EXTRAORDINÁRIO

em fotografia por  em 09 de jun de 2012 
Extraordinário – aquele fato imprevisível capaz de produzir uma sensação marcante, fora da ordem... um impactante suspiro de admiração.

Vicente José de Oliveira Muniz é o inconfundível Vik Muniz. Nascido em São Paulo em 1961, estabeleceu sua vida e domicílio na cidade de Nova York, desde 1983. Fotógrafo, desenhista, pintor e escultor - um artista múltiplo.

Seu processo criativo passa pela composição das imagens, utilizando materiais instáveis e perecíveis; a reutilização de conceitos e enfoques; a disposição em uma superfície ou plano para fotografá-las. As séries são apresentadas como edições limitadas e especiais, onde a fotografia assume o papel de produto final do trabalho – a célebre ilustradora do seu cartão de visitas.
Em 1988, produziu uma série de desenhos “The Best of Life”, na qual reproduziu a sua memória, de algumas das famosas fotografias veiculadas pela revista americana Life. O artista fotografou seus desenhos e deu a eles um tratamento de impressão, simulando a realidade. A partir de uma abordagem muito sensível e plástica, provocou o debate sobre questões relacionadas à circulação e contextualização de imagens. “Nesses trabalhos eu tentei encontrar como a fotografia se parece em nossa cabeça quando não estamos olhando para ela. Elas trazem as estruturas das famosas fotos, mas, na verdade, são muito diferentes”, na explicação do artista.
Nas séries seguintes: Imagens de Arame, Imagens de Terra, Imagens de Chocolate, Crianças de Açúcar (que receberam o nome do material utilizado), recriou imagens referentes ao universo da história da arte e do cotidiano.
Suas obras podem ser encontradas em importantes acervos, como da Tate Modern e do Victoria & Albert Museum, ambos em Londres. Muniz foi curador da mostra “Artist’s Choice”, a convite do Museum of Modern Art (MoMA New York).
A série “Pictures of Garbage” inspirou e originou o documentário brasileiro indicado ao Oscar , intitulado Lixo Extraordinário, feito com ajuda do seu próprio tema: catadores de lixo do aterro de Gramacho (RJ), que, após serem fotografados, trabalharam ao lado do artista no processo de montagem das obras, selecionando as imagens. A filmagem recebeu um prêmio no festival de Berlim na categoria Anistia Internacional e no Festival de Sundance.
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Para saber mais sobre o artista brasileiro - Vik Muniz