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quinta-feira, 9 de maio de 2013

VINCENT VAN GOGH: A ARTE EM FORMA HUMANA

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em Pintura por em 11 de out de 2012
 
Vincent van Gogh foi um herói. Um gênio louco, miserável, dotado de sentimentos e verdade.

 
O que dizer de Vincent van Gogh? Eu tenho uma paixão platônica por ele desde os meus sete anos quando tive uma aula de educação artística sobre suas obras e sua vida. Encantei-me e desde então é meu pintor favorito. Tudo que sei sobre arte, todo o meu interesse, toda a minha curiosidade existe por causa dele. É um dos seres mais influentes do mundo e o seu demasiado desejo de ser simplesmente humano vai além de algo comovente.
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Vincent
Vincent van Gogh era epilético, depressivo e colecionava estampas japonesas. É, comecemos assim a falar sobre ele. Nasceu no dia 30 de março de 1853 na Holanda. Era um gênio torturado por sua própria emoção e quando foi diagnosticado como um homem mentalmente afetado viu nisso a oportunidade de converter seus demônios em arte. Foi a partir daí que deixou a Holanda para viver em Londres tendo em mente apenas um objetivo que não era pintar, mas sim pregar a palavra divina, salvar almas, mostrar para os miseráveis que era possível ser feliz se analisassem as coisas mais infames da vida. Esse foi o primeiro fracasso de Vincent. Ninguém se importava com suas palavras. Mesmo sendo um leitor assíduo de Dickens, Shakespeare e Victor Hugo, seus discursos eram fracos. Não bastava sem um grande pensador ou intelectual porque as pessoas ao seu redor não ligavam.
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A Pair of Shoes, 1885
Quando tinha 30 anos resolveu largar a bíblia para pintar. Simples assim. Ele já tinha familiaridade com a arte porque chegou a passar um tempo trabalhando na loja de quadros de seu tio e quando criança, pintava algumas coisas com sua mãe. Vincent tomou essa decisão certo de que através de seus quadros poderia tocar os pobres e mostrar a eles que seria possível sonhar mesmo vivendo de desgraças. Para Vincent, o paraíso estava nas coisas mais simples como as folhas das árvores, o sol, o vento batendo na cara... Vale lembrar que esses pensamentos otimistas não o livravam de seu temperamento grosseiro, irritável. Foi nesse período que conheceu sua grande musa: Sien, uma mãe sozinha e abandonada, igualmente miserável. Vincent considerava a convivência com ela uma influência positiva para sua criatividade. Sua família ao saber das condições de vida que ele levava em Londres o rejeitou, exceto seu irmão Théo que passou a apoia-lo em sua carreira como pintor.
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Sien retratada por Vincent, 1885
Seu primeiro grande quadro é o famoso “Os Comedores de Batata” de 1885. Vincent justificava as cores sujas, os tons escuros e a aparência “amarronzada” do quadro dizendo que queria mostrar que os comedores haviam arrancado as batatas do solo com suas próprias mãos, haviam conquistado aquela refeição através do esforço do trabalho honesto.
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The Potato Eaters, 1885
Logo em seguida, Vincent mudou-se para Paris e sua maneira de pintar também sofreu uma forte influência do espírito otimista parisiense, sendo visível através da presença de mais luz e cores em suas pinturas. Diferenciava-se dos demais impressionistas da época porque retratava a melancolia de Paris, os sentimentos negativos mais intensos como a raiva. Foi nesse período que conheceu Paul Gauguin e então, teve a ideia de unir-se a ele. A união não aconteceu de imediato porque Gauguin retornou para Londres enquanto Vincent permaneceu em Paris.
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Café Terrace at Night, 1888
Em 1888, Vincent partiu para Provença onde teria o ano mais frenético e angustiante de sua vida, tendo ao mesmo tempo a fase mais criativa de sua carreira artística. Foi nesse lugar que ele começou a pintar os campos de trigo e os girassóis, visíveis no quadro “O Semeador”. Vincent costumava definir seus quadros como grandes orgasmos. Curioso ou não, dizia também que transar e pintar muito não combinava, porque tanto uma coisa quanto a outra amolecia o cérebro.
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O Semeador, 1888
Théo resolveu patrocinar Gauguin com a condição de que o mesmo fosse trabalhar junto com Vincent e mesmo receoso por ter que conviver com ele, Gauguin aceitou a proposta.
Vincent não pintava baseando-se em questões estéticas, mas sim na emoção que seria possível passar através das cores selecionadas.
Enquanto Gauguin não chegava, ele ansiava pela convivência dos dois e foi ai que surgiu seu vício por absinto. Conheceu nessas mesmas condições a família Roulin. Era uma família feliz, tranquila, normal e que fazia muito bem a Vincent por distrai-lo e tira-lo do modo de viver autodestrutivo. Chegava a dizer que os amava.
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Retrato do carteiro pai de família, Joseph Roulin, 1888
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Sra. Roulin, 1888
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O jovem Armand Roulin, 1888
Gauguin finalmente começou a viver com Vincent, mas a relação dos dois não ficou nada bem depois de um mês. Tinham filosofias artísticas muito diferentes! Enquanto Gauguin considerava o ato de pintar como algo passageiro, uma inspiração que vem e vai, Vincent jurava que pintar era dar todo o suor e trabalho para concretizar algo real, permanente. Sua alta produção, às vezes com direito a mais de um quadro por dia, começou a irritar Gauguin, despertando nele um sentimento de inveja. Tomado por isso, pintou o quadro “Van Gogh pintando girassóis”, algo chulo, representando Vincent com o rosto desajustado, como um simples pintor sentado analisando um vaso. Reduziu a intensidade dele meramente a isso. Quando viu o quadro, Vincent disse que Gauguin havia o retratado como um louco.
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Van Gogh pintando Girassóis por Paul Gauguin, 1888
Com o relacionamento cada vez pior, Gauguin o abandonou numa certa noite para dormir num hotel e Vincent, por volta da meia noite, foi ao seu bordel favorito e entregou para uma das prostitutas um papelote. Nele estava embrulhado um pedaço de sua orelha. Na parte da manhã quando Gauguin resolveu retornar ao estúdio, encontrou policiais e sangue por toda parte! Esse famoso acontecimento levou Vincent a internar-se num hospício, temendo que nunca mais se recuperasse, tendo espasmos de loucura sem cura que o levavam a comer a tinta de seus próprios tubos.
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Autorretrato com a orelha cortada, 1889
No hospício Vincent começou a aperfeiçoar sua pintura. Em 1889 pintou seu último autorretrato e considerou que tentar suicídio era como recuar da margem de um rio ao ver que a água é fria. Théo decidiu manda-lo para Auvers Sur Oise, lugar um pouco distante de Paris, sob a vigia do Dr. Paul Gachet.
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Dr Paul Gachet, 1890
Foi nessa fase que Vincent começou a revolucionar seu modo de pintar. Sua recuperação chegou a ser cogitada já que era visto vivendo bem, recebendo a visita dos familiares e feliz. Théo acreditava que finalmente seu irmão estava salvo, mas não era isso que realmente acontecia.
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Seu último Autorretrato, 1889
Eis o quadro revolucionário, a grande obra prima de Vincent van Gogh: O Campo de Trigo com Corvos, pintado um pouco antes de sua morte.
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Campo de Trigo com Corvos, 1890
Foi sua primeira obra vendida e reconhecida graças à falta de perspectiva, já que ao observar o quadro não sabemos exatamente para o que estamos olhando, e os corvos que aparentam ora voar para longe, ora voar para perto, além das cores pulsantes. O quadro era um bloco de cor vivo e inaugurou o Modernismo e o Expressionismo.
Vincent estava no ápice de sua carreira, artisticamente lúcido, mas a loucura continuava a destruir seu lado emocional. Não suportava mais os espasmos e acompanhado por isso, surgia a ideia de que sua família havia o abandonado de vez.
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Skull With Cigarette, 1886
Théo o encontrou morto em seu estúdio. Vincent havia dado um tiro no próprio abdômen e já estava completamente inconsciente! Havia cometido suicídio e a tentativa de salva-lo foi em vão...
Vincent morreu com a esperança de que teria seu trabalho reconhecido pela emoção que sempre depositava em cada pincelada. É revoltante saber que poucos anos depois, seus quadros começaram a ser vendidos por milhões. O importante e, talvez, confortante é ter noção de que pelo menos hoje em dia sua obra é reconhecida e emociona milhares de pessoas ao redor de todo mundo.

http://lounge.obviousmag.org/cafe_amargo/2012/10/vincent-van-gogh-a-arte-em-forma-humana.html


quarta-feira, 8 de maio de 2013

La vida cubana de Hemingway


Primeras páginas del pasaporte del escritor. / Heminguay Collection (EFE)
 

La vida cubana de Hemingway llega a Boston

Un acuerdo de cooperación cultural permite la llegada de 2.000 documentos digitalizados procedentes de la casa del escritor en Cuba a EE UU y la restauración de Finca La Vigía

 

Aunque tenía un despacho preparado en la torre suroeste de su casa en el suburbio habanero de San Francisco de Paula, solo trepaba hasta allí cuando los personajes le arrastraban. Ernest Hemingway (1899-1961) prefería escribir ­–de pie con zapatillas de andar por casa, primero a mano y luego a máquina–, en su luminoso cuarto de Finca Vigía; una estancia dividida en dos alcobas que George Plimpton describió con detalle en la entrevista de The Paris Review de 1958. Eso fue cuatro años después de que el autor de París era una fiesta recibiera Premio Nobel de Literatura y tres antes de que se volara los sesos. Aquel cuarto, atestado de papeles, libros, panfletos y notas, y el conjunto de material bibliográfico que quedó en la casa han permanecido fuera del alcance de investigadores y académicos estadounidenses durante más de cinco décadas, algo que cambió este lunes con la llegada de una versión digitalizada de 2.000 documentos a la Biblioteca JFK de Boston.
Detrás de este proyecto se encuentran la fundación estadounidense Finca La Vigía, creada en 2004 tras un viaje a la isla cubana por Jenny Phillips –nieta del editor y gran amigo de Hemingway Maxwell Perkins–, y el congresista de Massachusets, James McGovern, defensor de la normalización de las relaciones entre Cuba y EE UU. Esta es la segunda partida de documentos digitalizados de Hemingway que llega a Boston, después de los 3.000 que se incorporaron a la colección en 2008, entre los que se encontraban, por ejemplo, una versión alternativa del final de la novela “Por quién doblan las campanas”. La iniciativa de la fundación La Vigía incluye la mejora de las condiciones de conservación de los materiales que allí se encuentran, la restauración de la casa, y la construcción de un nuevo edificio con controles de temperatura y humedad. También la formación de personal especializado, en un ambicioso proyecto que ha contado con la ayuda del Departamento de Estado y el Departamento del Tesoro, una acción de cooperación cultural con el gobierno cubano, sin precedentes.
Hemingway estaba en Cuba en noviembre de 1959 cuando Castro llegó a La Habana, pero abandonó el país por última vez en julio del año siguiente. Trasladó a una caja fuerte los manuscritos y papeles que consideró más valiosos. Su finca y cerca de 6.000 volúmenes de su biblioteca fueron nacionalizados por el gobierno cubano tras la fallida invasión de Bahía Cochinos. El aventurero escritor y periodista, cuyo trabajo y estilo marcaron un antes y un después en la literatura estadounidense, se suicidó en julio de 1961. La administración de Kennedy logró entonces negociar un último viaje de Mary, la viuda del escritor, a la isla. Trajo consigo un barco lleno de papeles y libros que quedaron depositados en la biblioteca de Boston, quemó lo que consideró oportuno y dejó detrás miles de documentos más.
Los que este lunes llegaron a la colección de JFK acercan la cara más doméstica y cotidiana del escritor: sus anotaciones sobre las mareas y el clima, las notas que tomó cuando navegaba por la bahía intentando avistar submarinos alemanes en los cuarenta, su pasaporte, una carta a Ingrid Bergman, listas de la compra o recibos de cuentas en bares. Trozos de una vida sobre la que aún se investiga con pasión. Se va completando el puzle con esta nueva parte de aquel barullo que rodeó al escritor de El viejo y el mar en esa bella finca cubana donde escribió ésta y otras muchas novelas, y que, según Plimpton, dejaba “el espacio justo, encima de una estantería desbordada, para una máquina de escribir”.

http://cultura.elpais.com/cultura/2013/05/08/actualidad/1367986888_672689.html


 

Gabriel García Márquez


Inspirado por Kafka, ligado a Fidel, perseguido pela CIA. De uma realidade fantástica a outra e, enfim, a nossa. Porque temos todos um pouco dos Buendías.

em recortes por em 06 de Mar de 2013

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Jornalista, escritor e ativista político, aos 86 anos, Garcia Márquez é um dos mais nobres e influentes nomes da literatura, do jornalismo e da América Latina. Ainda jornalista, criou laços com personalidades como Fidel Castro - por isso foi posto em alerta vermelho pela CIA. Publicou vários ensaios e crônicas políticas, além de livros como "Relatos de um Náufrago", 1960, e "Crônica de uma Morte Anunciada", de 1981, que são referências no Jornalismo Literário.
Como escritor, ganhou o Nobel da Literatura em 1982, pelo conjunto de sua Obra. Publicou mais de 30 livros, entre eles grandes obras como "O Amor nos Tempos de Cólera", 1985, e "Do Amor e Outros Dêmônios", 1994, as quais são algumas das suas estórias que foram readaptadas para o Cinema.
Hoje o escritor sofre de leve demência e perda da memória, o que o forçou a se aposentar, porém, até meados de 2009 ainda escrevia e esteve sempre a contribuir com importantes causas políticas e sociais.
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Inspirado por Franz Kafka na adolescência, ao ler o livro "Metamorfose", Gabo - como é carinhosamente conhecido - nos deu um mundo criativo de impossibilidades. Eu me lembro até hoje de quando li García Márquez pela primeira vez. Foi "Cem Anos de Solidão", 1967, - e os extraordinários causos da família Buendía narrados com tanta propriedade literária que se tornou um dos grandes pilares da Literatura do século 20, sendo uma das obras mais vendidas e traduzidas ao redor do mundo. Todo o realismo fantástico do livro é capaz de inspirar-nos os sentidos, transformando a leitura numa experiência quase sinestésica.
Até os meus sonhos ficaram mais criativos depois que eu li Gabo. O que mais poderia dizer?
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"As pessoas não param de sonhar porque envelhecem, elas envelhecem porque param de sonhar"


Leia mais: http://obviousmag.org/sphere/2013/03/gabriel-garcia-marquez.html#ixzz2SjQqYFzS
 

terça-feira, 7 de maio de 2013

O Silêncio

em Três Poemas (por Drummond)

Folheando o “Discurso de Primavera e Algumas Sombras“, um livro indevidamente pouco recordado no conjunto geral da extraordinária poesia do meu querido Drummond, me deparei “casualmente” com o que chamei pessoalmente de uma Trilogia do Silêncio. Um conjunto de três belos poemas sobre a dialética entre silêncio e palavra com os títulos de: “A Palavra Mágica”; “O Constante Diálogo” e “SOM”. Drummond não era psicanalista e na sua arte não encontraremos o rigor da teoria, mas sua poesia fabulosamente se debruça sobre o mesmo fenômeno do incompleto da existência e das armadilhas da palavra. Cuidadoso que era, sabia que poesia é palavra lapidada sendo antes de mais nada ritmo e forma. Poesia não nasce pronta num instante de comunicação cósmica. A palavra deve ser lapidada, catada, escolhida, escrutinada. O silêncio somente deve ceder de sua condição de possibilidade ante o minuto de ouro da poesia que dorme na sombra e somente encontra o motivo de despertar diante de algo que vibra na vida do poeta.
“A PALAVRA MÁGICA
——————————————– 

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra
O CONSTANTE DIÁLOGO
——————————————–

Há tantos diálogos
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro
Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.
SOM
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Nem soneto nem sonata
vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som
sonotinto de sonalhas
nem sonoro nem sonouro
vou curtir um som
mui sonso, mui insolúvel
som não sonoterápico
bem insondável, som
de raspante derrapante
rouco reco ronco rato
som superenrolado
com se sona hoje-em-noite
vou curtir, vou curtir um som
ausente de qualquer música
e rico de curtição.”

Silêncio e Palavra

Thiago de Mello

Thiago de Mello

I
A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos

Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.

Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.

Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.
II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)

Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.

E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta - humilde e pura - ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.

Fonte: www.fisica.ufpb.br

Tai o que eu queria dizer...

Um Girassol da Cor de Seu Cabelo: Saudades da Esquina e do Clube


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A capa do álbum Nel­son Angelo & Joyce, 1972
Nos anos 70, já havia o Chico Buar­que de “Mulhe­res de Ate­nas”, o Cae­tano Veloso de “Sampa”, o Edu Lobo de “Arras­tão” na indo­má­vel voz de Elis. E isso era bom. Mas nós, na peri­fe­ria da peri­fe­ria do mundo neces­si­tá­va­mos de algo mais. Algo mais cos­mó­po­lis, que nos  sin­te­ti­zasse e sin­to­ni­zasse com o mundo ou ligasse defi­ni­ti­va­mente ao rock sem dei­xar de ser orgu­lho­sa­mente peri­fé­ri­cos – até mesmo den­tro de nosso país. Fal­tava a esses todos uma carga pop, bem sabía­mos. Uma liga­ção com o mundo de uma forma ainda mais espon­tâ­nea e com­plexa que nos eflú­vios dema­si­ado van­guar­dis­tas da Tro­pi­cá­lia ou de Os Mutan­tes. Ou que nas bem lapi­da­das rimas toan­tes de Chico, decal­ca­das de João Cabral de Mello Neto. Nós já éramos, de há muito, o cen­tro de nosso mundo. Mas ainda não sabíamos.
Esse fenô­meno, radi­cal­mente musi­cal, rico na inven­ção harmô­nica, ante­nado ao que ocor­ria lá fora, porém sem per­der a bossa de ser­tões pro­fun­dos, sem pre­dar a ore­lha ser­ta­neja e sem dei­xar de des­cer o Rio São Fran­cisco até desviar-se a Ponta de Areia, no Recôn­cavo Bai­ano, deu-se atra­vés de Mil­ton Nas­ci­mento e seus cola­bo­ra­do­res: Lô Bor­ges, Beto Gue­des, Tavi­nho Moura, Toni­nho Horta, Nel­son Angelo, Joyce, Alaíde Costa, Wag­ner Tiso, Flá­vio Ven­tu­rini, Fer­nando Brant, Ronaldo Bas­tos, O Som Ima­gi­ná­rio, et alli. Era como se o bar­roco das igre­jas de Minas de repente fun­disse com o som dos Bea­tles para pro­du­zir um ter­ceiro que era ainda mais ambi­ci­oso até mesmo que o som do quar­teto de Liver­pool depois do Pep­pers. Chico e Cae­tano eram poe­tas valendo-se de can­ções. Edu Lobo, um com­po­si­tor sofis­ti­cado, embora exces­si­va­mente cau­te­loso. Mil­ton era a can­ção em estado bruto. 
A onda ficou conhe­cido como Clube da Esquina. Um rótulo gené­rico, super­fi­cial, mas sufi­ci­ente. O lema era um pouco o que segue na letra de Fer­nando Brant em “Para Len­non e McCart­ney”, que, aliás presta conta de um misto de fas­ci­na­ção, des­con­solo, emu­la­ção, supe­ra­ção: “Por que vocês não sabem do lixo Ocidental/ Não pre­ci­sam mais temer/ Não pre­ci­sam da solidão/ Todo dia é dia de viver// Por que vocês não verão meu lado Ocidental/ Não pre­cisa medo, não/ Não pre­cisa da timidez/ Todo dia é dia de viver// Eu sou da Amé­rica do Sul/ Eu sei, vocês não vão saber/ Mas agora sou cowboy/ Sou do ouro, eu sou vocês/ Sou o mundo, sou Minas Gerais”. É ao mesmo tempo senso de sentir-se des­pre­zado ou igno­rado, e supe­rar esse estado, esse opró­brio, por inven­ti­vi­dade. Ser radi­cal­mente do mundo care­cia de ter um pé no quin­tal, na pro­vín­cia. Assu­mir ser o lixo, e, nesse movi­mento, por amal­ga­mar aspesc­tos “arcai­cos”, “taca­nhos” e infor­ma­ções moder­nís­si­mas, converter-se no luxo do Oci­dente. Ser o rema­tado luxo da aldeia musi­cal do globo. E esse luxo tam­bém somos, doa em quem doer. (Ante­on­tem, aliás, Paul McCart­ney fez show em Belo Hori­zonte (antigo Cur­ral d’El Rey) e disse em por­tu­guês: “eu vim dizer: uai!”).
Enquanto isso há três álbuns abso­lu­ta­mente vene­ra­dos: o Clube da Esquina; o cha­mado disco do Tênis (de Lô Bor­ges); e o Nel­son Angelo & Joyce. Todos do emble­má­tico ano de 1972. Estra­nha coin­ci­dên­cia. Atra­vés des­ses álbuns – e do ras­ti­lho deles em outros menos memo­rá­veis ou mais epi­só­di­cos, depois mas sobre­tudo antes – nós sabía­mos que não só tínha­mos che­gado ao pata­mar da con­tra­cul­tura inter­na­ci­o­nal, mas a supe­rado com a tran­qui­li­dade e a efi­cá­cia artís­tica e musi­cal daque­les caras. (Lem­bro que em 72, eu tinha ape­nas 9 anos, e ia des­co­brir esse uni­verso, fas­ci­nado, um tanto mais adiante).
Mas então, nós saía­mos do Nor­deste sequi­o­sos por Minas. Minas era nosso suple­mento. Saía­mos lou­cos pelas mon­ta­nhas, velhos ritos, as fer­ro­vias, a mís­tica do Grande Ser­tão, as igre­jas, coros e cida­des colo­ni­ais de Minas – que, de outra forma tam­bém as tínha­mos no Nor­deste (em São Luís, Olinda, Recife, Sal­va­dor, Penedo, São Cris­tó­vão) – onde esses eflú­vios musi­cais tinham medrado. Mas faltava-nos Alei­ja­di­nho, e o sen­tido com­pó­sito, com­plexo de pas­sado e futuro jun­gi­dos, da forma como os minei­ros haviam repro­ces­sado no seu som. Ou uma certa dimen­são cívica, pre­sente em can­ções como “Cora­ção Civil” — que pare­ciam defron­tar a dita­dura mas sem per­der um grama de lirismo. E nem por som­bra seguía­mos ape­nas sedu­zi­dos por um sen­ti­mento orto­do­xa­mente cató­lico – e é claro que havia algo de cató­lico tam­bém naquilo – mas mais era: era uni­ver­sal, no mais lato senso — e não no da Igreja Uni­ver­sal do Reino de Deus. Ou seja, era reas­su­mir a radi­ca­li­dade uni­ver­sal do termo. Era, no mínimo, astu­ci­oso que esse apa­rente des­prezo, o da con­di­ção de “peri­fé­ri­cos”, fosse (re-)convertido em pai­xão e fé.
E até hoje, nos rimos do facto: o que dá certo por aqui – ainda quando ori­gi­na­lís­simo – é lou­vado como con­ti­nu­a­ção de Europa (e, quiet often, não neces­sa­ri­a­mente de Por­tu­gal, mas sobre­tudo de Itá­lia, de Ale­ma­nha, de França, até de Ingla­terra). O que dá errado, bem, o que dá errado é nosso mesmo e pecu­liar (e, fre­quen­te­mente, pro­vem tam­bém de Por­tu­gal). Oremos.
Sem remis­são. 
Isso de san­ção vinda de fora, de repente, dei­xou de nos obce­car. Por­que a música nos imu­ni­zou con­tra essas falá­cias e ara­pu­cas. Nos auto­no­mi­zou. Nos abriu para o mundo sem esque­cer o pas­sado. E, claro, esses minei­ros nos apre­sen­ta­ram pon­tu­al­mente a uma pers­pec­tiva musi­cal mais com­plexa e moderna que a dos Bea­tles. Como se fosse uma melhor rea­tu­a­li­za­ção de 22 e das pers­pi­ca­zes lições dos Andrade: Mário e Oswald. Essa (in-)sanção. Insa­ni­dade, se obses­siva. E, logo, ( por que não?) de novo o “tupi or not tupi” na crista da onda. Ou o Macu­naíma. Ou a Antro­po­fa­gia de Oswald. A devo­ra­ção cani­bal e incor­po­ra­ção da subs­tân­cia por eli­mi­na­ção da borra. E, então, quase qual­quer forma de san­ção vinda de fora, com alguma pre­ten­são de hie­rar­quia, já nos pare­cia um pouco tola. Embora com Mil­ton e o Clube da Esquina tenha­mos che­gado a uma modesta sín­tese e rea­tu­a­li­za­ção disso tudo. Ou seja, a uma solu­ção muito pecu­liar de psi­co­de­lia, con­tra­cul­tura e novas infor­ma­ções musi­cais àquela altura da pan­to­mima. E, como não podia dei­xar de ser, fun­dida a impul­sos polir­rít­mi­cos e meló­di­cos tra­di­ci­o­nais, arcai­cos, afri­ca­nos, índi­ge­nas, ibé­ri­cos: atu­a­lís­si­mos. Às simul­ta­nei­da­des e com­po­si­ti­vi­da­des que tanto nos atraem e nos for­mam. Assim, quando Mes­tre Antô­nio Car­los Jobim gra­vou Lô Bor­ges (“O Trem Azul”), em seu último álbum, no meado dos 90, bem sabia o quanto a home­na­gem prestava-se às estra­nhas inven­ções harmô­ni­cas do home­na­ge­ado ou da turma de Minas.
O resul­tado, antes disso, é que, já em plena década de 80, íamos a Ouro Preto, Mari­ana, Tira­den­tes, São João D’El Rey, Con­go­nhas, Sabará, Dia­man­tina como quem vai a Roma ou San­ti­ago de Com­pos­tela, Can­ter­bury ou Lour­des, ainda por conta dessa onda dos 70. Pedir a ben­ção e a conta dessa musi­ca­li­dade faceira e novi­da­dosa, que fun­dia gui­tar­ras elé­tri­cas a berim­baus, tam­bo­res cri­ou­los, coros de ciran­das, rabe­cas, caxi­xis e vio­las cai­pi­ras. Havia inu­si­ta­das orques­tra­ções. Havia senhas que não pre­ci­sá­va­mos glo­sar. Que enten­día­mos de ime­di­ato, tra­zía­mos de cor, como se tatu­a­das no espí­rito. Havia o giras­sol da cor dos cabe­los dela. A voz encan­ta­tó­ria de Mil­ton, (que depois tornar-se-á exces­siva, pre­ci­o­sista, dema­si­ado melí­flua, afe­tada, meio “étnica” ou rococó, após os radi­cais anos 70. E nos des­gos­tará defi­ni­ti­va­mente). Havia o senso de pau e corda (coi­sas acús­ti­cas + uma densa per­cus­são) des­ses três dis­cos fun­da­men­tais. Tudo isso meio que se per­deu na poeira de estre­las. E quase nin­guém se lem­bra mais daquele você que pare­cia comigo e não se acom­pa­nhava de um senhor. Mas antes disso, o cora­ção bateu sem medo,  e  buscou-se um cami­nho, feito  nuvem cigana, “pelas ruas capis­tra­nas de toda cor”:

I. Um Giras­sol da Cor de Seu Cabelo (com Lô Borges):

Este hino­zi­nho gera­ci­o­nal e intrans­fe­rí­vel em tom menor. Nenhuma como esta para der­re­ter o cora­ção das garo­tas àque­les tempos.

II. Cais (Com Mil­ton e Car­mi­nho, numa ver­são pos­te­rior, ten­dendo ligei­ra­mente ao fado)*
*Este ano, no ani­ver­sá­rio da cidade de For­ta­leza, 13 de Abril pas­sado, um dueto impro­vá­vel nos brin­dou com o show de encer­ra­mento da festa. Des­ta­que para “Cais”, can­ção ori­gi­nal­mente regis­trada no mesmo álbum do “Giras­sol…” acima, o opu­lento Clube da Esquina. Na ver­são abaixo, qua­tro déca­das depois, é ado­rá­vel a parte de Car­mi­nho e a dife­rença dos acen­tos. E é claro que Mil­ton, aos 70, não é mais o mesmo nosso Mil­ton dos anos 70, mas guarda vestígio):


III. Tudo Começa de Novo (com Nel­son Angelo e Joyce):

O fecho de um disco vene­rado pelos “ini­ci­a­dos” no Clube.

IV. Pai­xão e Fé (com Mil­ton Nas­ci­mento e os Cana­ri­nhos de Petrópolis)

De repente, Bach e os vio­lei­ros de Minas reu­ni­dos na mesma praça.

V. Cru­zada (com Beto Guedes):

Sinal de espe­rança e fra­ter­ni­dade na tra­ves­sia de deser­tos, des­ma­ze­los polí­ti­cos e ditadura.


http://www.escreveretriste.com/
 

Mesmo que mude - Bidê ou Balde -


 
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que acabe

QUERO DANÇAR

      
Há quanto tempo não danço? Não lembro. Mas sinto até agora aquele abraço ondulante... fazendo marola!
Aprendi com meu irmão, na sala, no corredor e nas festinhas regadas a cuba libre na casa dos amigos (você que tem menos de 30, 40, pode parar de ler).
Meus pais não gostavam que eu fosse mas eu tinha UM irmão! E as minhas duas amigas vizinhas também tinham IRMÃOS. Então... sempre um par de olhos masculinos era responsável por nós.
Mas o bom mesmo era durante a paquera ou já no namoro mesmo.
Quando ele soltava a mão esquerda pra colocar os dois braços na cintura da gente... era quase um pedido de casamento! E a circunferência dos braços ía diminuindo de acordo com o interesse até os braços se cruzarem nas nossas costas. Sim, porque essa  decisão era dele... nós éramos mulherzinhas e não tomávamos iniciativa alguma... Mas era também o momento de descartar o moço pra sempre - caso vc não estivesse a fim. E essa decisão era nossa... totalmente mocinhas - se é que me entendes.
Era namoro. O corpo todo colado. Rosto. Coxa. Peito. Sentir o coração ressoar com a batida da música. A mão suar. Os olhares, a sincronia de passos, o movimento exato... tudo tão natural e absurdamente sensual.
A gente cresceu um pouquinho e ainda pegou o tempo do "vamos pra outro lugar" dito sussurrado no meio da pista, e também pegou o tempo de dançar junto, e muito, com os amigos.
Quem aqui dançou com Carlinhos Sampaio levanta a mão!
Aliás, tinha uns baianos muito bons nesse negócio de dois pra lá dois prá cá - e olha que não peguei os tempos áureos da Clouse Up...mas dancei bastante. E dançava bem. Era boa de samba quadradinho - onde meu irmão dá show até hoje - o que na maioria das vezes surpreendia os menos avisados.

Bom mesmo seria hoje, no restaurante, antes mesmo da sobremesa, ouvir um "quer dançar?".
E de pé, na hora em que o braço puxasse para o primeiro passo, poder se ajeitar dentro daquele abraço e  me deixar levar.      

domingo, 5 de maio de 2013

Paisagens Voyeuristas


Em Fotografia por em 08 de jan de 2013


"Esse projeto me deu um senso de comunidade. Todos somos voyeurs porque é através do olhar que nos conectamos com estranhos." - Gail Albert Halaban



Out My Window é o livro fotográfico de Gail Albert Halaban.
Tudo começou em 2006 quando Gail teve seu bebê e se levantava diversas vezes no meio da noite. Olhava pela janela e imaginava quem poderia estar lá fora e o que estava fazendo. Encontrou vários observadores. Gail afirma que todas as fotos publicadas têm a permissão de seus observadores.
"Em seis anos fotografando, apenas um disse não."
Algumas pessoas podem até achar que as fotografias de Gail são agressivas ou invasivas por roubarem os momentos das pessoas, mas elas podem também revelar a vida de uma cidade através de suas janelas e seus moradores encapsulados em seus momentos íntimos, de uma forma poética e muitas vezes melancólica.
Algumas figuras aparecem em silêncio, às vezes sozinhas... em uma dinâmica real humana.


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Artigo da autoria de Margarete MS.
Eu tenho um coração um século atrasado..
Saiba como fazer parte da obvious.
 
 

Vale a pena ver de novo?


 

“só existe
uma gioconda
uma estrela
não cai
duas vezes
no mesmo
céu
não se pega
duas vezes
a mesma
onda
no fim
do arco-íris
só há
um pote
de mel
mas quem
sofre
de paixão
interpreta
sempre
o mesmo
papel
procurando
em vão
uma saída
como
se a vida
não fosse
enfim
um filme
de buñuel”
Não Tem Reprise, poema de Paulo César de Carvalho