Pesquisar este blog

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Camille Claudel 1915

Camille Claudel 1915

Juliette Binoche está em quase todas as cenas de Camille Claudel 1915. Um tour-de-force para uma atriz que, às vésperas de completar 50 anos, não tem mais nada a provar, mas que continua entregando interpretações únicas. No filme de Bruno Dumont, a parisiense está avassaladora, enchendo a tela tanto quando a câmera busca as expressões mais íntimas de seu rosto quanto nos momentos em que a observa, afastada, dando corpo à solidão e ao incômodo da personagem. Camille Claudel, a escultora, é apresentada já em seus últimos dias de vida, enclausurada num convento, considerada louca.
Operando neste recorte, Dumont evita as armadilhas e maneirismos de uma cinebiografia tradicional, como a que Bruno Nuytten dirigiu em 1988 e que deu uma indicação ao Oscar para Isabelle Adjani. Sem se obrigar a explicar a história da artista o cineasta faz um retrato árido de uma mulher que vive isolada do mundo e, possivelmente pela primeira vez em sua carreira, entrega boa parte da responsabilidade sobre o filme para uma atriz. Em sua obra anterior até aqui, Dumont sempre se caracterizou com um diretor de atores não profissionais, que colaboravam para que seus temas surgissem tanto da ausência do drama quanto da falta de aproximação.
Aqui, embora Binoche pareça ser dirigida para ter uma interpretação econômica, o talento e a experiência da atriz se sobrepõem ao trabalho do cineasta. Camille Claudel 1915 é tanto um filme de Binoche quanto um filme de Dumont, embora os temas caros a seu cinema estejam presentes. As opções do diretor desafiam a atriz. Sem a presença de Auguste Rodin, com quem a personagem teve um conturbado relacionamento amoroso, aqui resumido a uma citação na conversa entre Camille com o diretor do convento, o filme basicamente se resume a Binoche e sua interação muito mais com o vazio do que com os coadjuvantes. Seu único contraponto entra em cena apenas no terço final do longa. Jean-Luc Vicent faz Paul Claudel, irmão de Camille, que concentra o discurso religioso, sempre presente nos filmes de Dumont.
É justamente quando a religião se faz presente, com sua função expiatória e moralista, dando algum tipo de explicação, resolvendo em algum nível a situação, que o filme perde um pouco de sua força. Enquanto Binoche reina solitária, enquanto sua dor é abstrata, enquanto os portões do convento estão abertos, mas sua personagem não pensa em sair dali, enquanto a hostilidade está mais nas paredes do que nas pessoas que convivem com ela, a desesperança de Camille parece ganhar um retrato muito mais fiel, é ali que está a tradução de uma mulher para a qual a vida se tornou intangível.
entrevista com Bruno Dumont
Por que você decidiu focar o filme nos últimos dias da vida de Camille Claudel?
Esta parte da vida dela é praticamente desconhecida. E eu sempre fico tentado com aventuras.
Como você chegou em Juliette Binoche e o que ela trouxe para o filme?
Me parecia natural que uma artista interpretasse outra artista. É como usar o mar para representar o mar.
Religiosidade é um de seus temas favoritos. Neste filme, o personagem de Paul Claudel concentra boa parte do discurso religioso. Como você o vê?
Ele concentra o que nós, franceses, temos de mais covarde, mas sem deixar de inspirar graça.
Alguns críticos comparam seu trabalho neste filme com a obra de Robert Bresson. Ele foi ou é uma influência?
Robert quem?
O que você acha do Camille Claudel que Bruno Nuytten dirigiu? (com Isabelle Adjani, em 1988)
Não lembro.
Você já tem um novo projeto? 
Sim. P’tit Quinquin (segundo o IMDB, uma série prevista para 2014. O título é o mesmo de uma canção composta por Alexandre Desrrousseaux, em 1853, escrita na língua de Picard, um dialeto próximo ao francês).
Camille Claudel 1915 EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Camille Claudel 1915, Bruno Dumont, 2013]
Filmes do Chico também no Facebook, Twitter e Instagram (@filmesdochico).

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

vai...


"Vai menina, fecha os olhos. Solta os cabelos. Joga a vida. Como quem brinca somente. Vai, esquece do mundo. Molha os pés na poça. Mergulha no que te dá vontade. Que a vida não espera por você. Abraça o que te faz sorrir. Não espere. Promessas, vão e vem. Planos, se desfazem. Regras, você as dita. Palavras, o vento leva. Distância, só existe pra quem quer. Os olhos se fecham um dia, pra sempre. E o que importa você sabe, menina. É o quão isso te faz sorrir. E só."


Caio F. Abreu



Uma Voz: CLARA


OS MIL E UM SONHOS DE YASMINA ALAOUI

por  em 02 de jan de 2013
A série 1001 Dreams de Yasmina Alaoui em parceria com Marco Guerra reflete a beleza clássica em contrapartida às múltiplas facetas culturais contemporâneas. Por trás da estética os temas dialogam com questões multiculturais e com os opostos, como o sagrado e o profano, o clássico e o contemporâneo, a ordem e o caos, a repulsão e a atração. 

Yasmina Alaoui é de descendência francesa e marroquina. Nascida em Nova Iorque em 1977, lá também reside e exibe seus trabalhos internacionalmente. A artista é conhecida por criar efeitos visuais utilizando variadas técnicas de forma autêntica. Em parceria com o fotógrafo chileno Marco Guerra, construiu as séries "Tales of Beauty" e "1001 Dreams", expostos mundo afora desde 2003.


22_Red_3_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg
12_Yasco_34_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg
Na série "1001 Dreams" (1001 Sonhos), fotografias em tamanho real apresentam corpos congelados no tempo, aparentemente cobertos com henna árabe. A ideia é misturar técnicas antigas e novas para criar retratos em tamanho natural do corpo. O espectador é cativado tanto pela qualidade estética quanto pelo realismo em cada imagem. Cada obra começa com uma fotografia de Guerra em preto e branco, filme ou Polaroid, posteriormente desenhada e pintada à mão com pena, tinta e aquarela por Yasmina, que incorpora texturas como pergaminho, folhas, e asas de insetos secos.

18_Gold_Trio_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg4_Golden_Veil_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg
13_Dream_2_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg
O objetivo do projeto é destituir-se da tendência da arte contemporânea que, segundo os autores, muitas vezes tende a ser fria e excessivamente conceitual em detrimento do ofício. Ambos os artistas vêm de culturas que valorizam o afetivo, buscando, então, refletir isso em sua arte, visando a beleza, a harmonia e, sobretudo, remetendo aos mestres da pintura e fotografia, sem deixar o contemporêneo de lado, inserindo uma esfera única e distinta. A magia dos contos das 1001 Noites também inspiraram o aspecto Surrealista à produção da série.
dream 7.jpg
dream 11.jpg
8_Dream_30_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg
14_Yasco_39_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg
O resultado são imagens refinadas, sensuais, elegantes, sedutoras e envolventes em seu aspecto artesanal e complexo. As referênias são variadas, com a inserção de alguns símbolos espirituais encontrados em culturas antigas no mundo. A mensagem e a significação é aberta, deixando por conta do espectador a adição de sua própria interpretaçaão, de acordo com sua vivência e experiência.
27_Odalisque_1_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg23_Blue_mask_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpg29_Pink_2_yasmina_alaoui_marco_guerra_opera_gallery.jpgYasminaAlaouiMarcoGuerra18.jpg
Conheça outros trabalhos da artista em seu site

BOTÂNICA É TAMBÉM DANÇA

em artes e ideias por LuhanaSP em 05 de Aug de 2013

Algumas danças exigem movimentos acentuados dos músculos, outras são alegóricas, mas, é certo dizer que, em algum momento, todos “entramos na dança”.


Dança
É o Ato ou efeito de dançar, uma sequência de movimentos mais ou menos rítmicos, executados habitualmente em resposta a um estímulo particular, causado, em muitos casos, pela música. Até as abelhas dançam, quando passam sobre os favos, logo que regressam com sua carga de pólen ou néctar, sacudindo com vivacidade e lateralmente o abdome.

A companhia de dança MOMIX, no espetáculo Botânica, com uma pontuação eclética, que vai desde o canto dos pássaros a Vivaldi, revela mudanças de imagens da natureza. Um remédio herbal e afrodisíaco natural.

Botânica mostra a energia renovável das excelentes performers Momix, com figurinos, projeções, adereços e marionetes, acrescentando uma dose extra de fantasia para o elixir. Esta é a dança em sua forma mais orgânica e inventiva. As estações do ano nunca mais serão as mesmas.















MOMIX



Leia mais: http://obviousmag.org/sphere/2013/08/botanica-e-tambem-danca.html#ixzz2bOt9lrfi

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Não Existe Pecado Ao Sul Do Equador - Chico Buarque


Só a preguiça melhora o mundo



POR XICOSA






Depois da gula e da luxúria, o sagrado direito à preguiça, meu caro boa-praça Francisco.

Não a preguiça amorosa e sexual do homem-Ossanha, aquele que diz vai e não vai, pula fora, vacila e deixa a dama a chupar o frio chicabom da solidão.

Não a preguiça de outro tipo bem moderno, o MacunaEmo, o cara que tem a leseira do Macunaíma e a choradeira de um jovem roqueiro Emo.

Trato da preguiça bíblica e proveitosa.

A preguiça de uma sesta a dois, la vieja siesta espanhola, na rede ou na cama, com uns gatos ronronando na área.

A preguiça de um dengo debaixo das cobertas.

Uns cafunés também caem bem na avarandada tardinha.

Um preguiçoso e inconclusivo slow sexo de ladinho antes do desmaio no sono.

Palavra alguma, apenas sussurros, gemidos, onomatopeias da pura manha, periquitosos barulhinhos da existência.

Tim Maia como guia espiritual permanente: eu quero é sossego.

Dorival Caymmi como mestre de cerimônia.

O pantagruélico Ascenso Ferreira como Deus pai todo poderoso dos pecadores nos fornece o seu poema “Filosofia” como mandamento único:

“Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”

A preguiça, jovens da rueira rebeldia da hora, ainda é a melhor forma de combater o capital.

A preguiça, amigos da causa verde, ainda é a melhor forma de não poluir o planeta.

Sem se falar no ócio criativo, que só poderia ter sido inventado por alguém com o descansado nome de Domenico De Masi.

Ai que preguiça macunaímica. É o tipo de pecado que não dá trabalho, meu caro papa Francisco.

A preguiça melhora o trânsito e o ar que eu respiro.

A preguiça nos livra dos novos pecados capitais, santo bispo de Roma.

Só a preguiça melhora o homem, porque só um homem preguiçoso é um homem que não faz merda.

Todo preguiçoso é, por essência, um grande sujeito.

O canalha, por exemplo, é um propositivo nato, um homem atento, produtivo, inquieto, ligadaço, sempre a serviço de alguma corporação ou de interesses escusos.

Só a preguiça, meu caro Francisco, é capaz de melhorar o mundo.


http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/

Cantar bem sem olhar a quem



POR XICOSA




Educação sentimental do homem.

Episódio de hoje: a cantada.

Sim, amigos, a cantada é como a revolução de Mao Tse-Tung, tem que ser permanente.

Existem mulheres que a gente canta no jardim da infância para dar o primeiro beijo lá pelos treze, quatorze.

Mas é necessário que a cante sempre, não aquela cantada localizada, neoliberal e objetiva, falo do flerte, do mimo, do regador que faz florescer, como numa canção brega, todos os adjetivos desse mundo.

A cantada de resultado, aquela imediata, é uma chatice, insuportável, se eu fosse mulher reagiria com um tapa de novela mexicana, daqueles que fazem plaft!

A boa cantada é a cantada permanente.

E mais importante ainda depois que rolam as coisas, depois que acontece, aí a cantada vira devoção, oração dos pobres moços a todas elas.

Porque cantar só para uma noitada de sexo é uma pobreza dos diabos, qualquer um animal o faz.

Porque cantar, à vera, é cantar todas e não cantar nenhuma ao mesmo tempo.

Explico: é espalhar pacientemente a devoção a todas as mulheres como quem espalha sementes nos campos de lírios.

Mesmo que elas digam, com aquele riso litografado na covinha do sorriso, que você diz isso para todas.

E claro que para cada uma dizemos uma loa, fazemos uma graça, não repetimos o texto, o lirismo, o floreado.

Porque amamos mesmo as mulheres.

Cantemos indiscriminadamente, e que me perdoe o velho e bom Vinícius de Moraes, mas cantemos sobretudo as ditas feias, esse conceito cruel e abstrato de beleza. Elas merecem, até porque as feias não existem, nunca conheci nenhuma até hoje.

Não por sermos generosos, piedade, ou algo do gênero… É que a dita feia, quando bem cantada, vira a superfêmea, para lembrar a bela pornochanchada com a Vera Fischer.

A cantada permanente e indiscriminada é irresistível, quando você menos espera, acontece o que você tanto sonhava.

Sim, tem que ter o cuidado para não ser simplesmente um chato que baba diante do melhor dos espetáculos, a existência das mulheres.

Ter que cantar sempre a mesma mulher e parecer que está apenas de passagem, que o estribilho é sempre novo, nada de larararás que mais parecem refrões do Sullivan e do Massadas, lembram dessa dupla de músicas chicletosas?

Ah, digamos que você cantou a Sônia Braga ainda naqueles tempos em que Gabriela subiu com aquele vestidinho no telhado –a cena mais quente da teledramaturgia brasileira até hoje- e e continuou cantando, sempre, sutil e sempre, e agora ela, passados tantos calendários, se comove e resolve recompensá-lo!

Vai ser lindo do mesmo jeito, não acha? Na tela do nosso cocoruto vai passar o videotape de todos os desejos antigos e despejados no ralo pela morena cravo & canela.


http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/

Aqueles olhos verdes - Trio Irakitan -