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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

SAUDADE A DOIS


Fabrício Carpinejar






A saudade tem prazo de validade.

Não pode permanecer muito tempo guardada. Não pode permanecer muito tempo não sendo correspondida.

Depois de aberta e fora do convívio, assim como o leite, a saudade azeda. E não há memória refrigerada para conservá-la.

Quando passa da hora, aquela falta ansiosa e comovente é capaz de se tornar ironia e sarcasmo.

O suspiro se transforma em ofensa – nos enxergaremos tolos e burros por confiar cegamente em alguém e esperar à toa. Reclamaremos nossa idiotice por termos feito uma vigília em vão, por termos esquecido de viver.

Já não queremos que o outro volte, já desejamos que ele nunca mais apareça em nossa frente. Violentaremos as lembranças, fecharemos a reza.

A ternura de antes será trocada pela raiva de não ser atendido. Mudaremos a personalidade de nossa conversa, de doce para ácida. Pois o segredo (a saudade é um segredo!) que nos alimentou durante meses não fora respeitado.

Infelizmente, a saudade apodrece.

Quando deixamos de pedir a presença para cobrar a ausência. É sutil o movimento. Toda a atenção dedicada ao longo de um período começa a ser vista como desperdício. Não aconteceu retorno das juras, nem o estorno das expectativas.

Você mandou centenas de mensagens, renunciou saídas com amigos e bares, teve uma vida discreta e fiel, só para honrar uma despedida, e percebeu que, no fim, sempre esteve sozinho na saudade.

Saudade é como o amor. Perece quando não é a dois.

Aliás, quando a saudade não é a dois, deixa de ser saudade para se descobrir solidão.

A saudade é o que guardamos do amor para o futuro. É o que deixamos para amar no futuro.

Nada dói tanto quanto um amor que não vingou após os cuidados do plantio.

Nada dói tanto quanto a saudade que envelhece, uma saudade que definhou pela indiferença, que não foi valorizada pela nossa companhia, que não desembocou em festa.

Nada dói tanto quanto promessas feitas gerando ressentimento.

A saudade não é eterna. Acaba quando percebemos que o amor era da boca para fora, que a urgência era interesse, que a necessidade era falsa.

A saudade é uma esperança de amor. Precisa ser consumida rapidamente, não mais que três meses. Senão, nos consome e nos estraga.


Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 03/12/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17633

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

ART X SMART POR KIM DONG- KYU



PUBLICADO EM RECORTES POR MARGARETE MS



O projeto "Art x Smart", criado pelo ilustrador coreano Kim Dong- Kyu, combina pinturas famosas com alguns aparelhos tecnológicos do século 21. Nos levando a uma realidade utópica, onde tempos antigos e modernos se encontram.




“The Room” - Vincent van Gogh


As obras se transformam em paródias sobre a drástica mudança na interação social de hoje. Os modelos nas pinturas usam os dispositivos para jogar, tirar fotos e ouvir música, como se essas ações fossem de uma segunda natureza para eles, como é para nós.


Além de engraçadas elas chamam a atenção para a nossa relação com as novas tecnologias e sua influência na sociedade moderna. Dá até para experimentar uma sensação de revolta, solidão, alienação e superficialidade ao comparar os originais e seus remakes. Tudo parece tão familiar nos dias de hoje. Mas como seria se tivéssemos essa tecnologia no passado?




“A Sunday Afternoon on the Island of La Grande Jatte” - Georges Seurat




“Alphonsine Fournaise” - Auguste Renoir




“In the Conservatory” - Edouard Manet




“L’absinthe” - Edgar Degas




“L’homme Au Balcon” - Gustave Caillebotte




“Old Man In Sorrow” - Vincent van Gogh




“Over the Town” - Marc Chagall




“Rokeby Venus” - Diego Velázquez




“The Ancient of Days” - William Blake




“Portrait de Marie Therese Walter” - Pablo Picasso




“The Balcony” - Edouard Manet




“The Card Players” - Paul Cézanne




“Girl with a Pearl Earring” - Johannes Vermeer




“The Death Of Marat” - Jacques-Louis David




“The Dream” - Pablo Picasso




“The Luncheon On the Grass” - Edouard Manet




“Wanderer Above the Sea of Fog” - Caspar David Friedrich




“The Scream” - Edvard Munch


http://lounge.obviousmag.org/esconderijo/2013/11/art-x-smart-por-kim-dong--kyu.html

Samba de Roda do Recôncavo da Bahia


domingo, 1 de dezembro de 2013

Sua









Tudo pesa muito e afunda-me, densamente. Tudo me revela e me afasta desta que sou quando não sou contigo. Tudo me aborrece e todo mistério finda à margem – meu peito repartido no rebentar das ondas: minúsculos mares desfeitos; respingados corpos. Tudo enferruja os ossos, a boca, o discurso e afoga, insistentemente, as palavras que esqueci e fui quando fui contigo. Tudo pesa o peso da ausência – presença que assola as memórias sensíveis à pele. Pesa o peso do não expandido-se na sede. Tudo pesa o peso do inexistido que habita o leve – alguma parte sua tão solta desaguando feliz noutra boca. Pesa muito o teu longe sempre indo, nunca vindo, nunca breve.


Priscila Rôde


http://priscilarode.com/

domingo, 24 de novembro de 2013

Mais que a lei da gravidade [Paulinho da Viola & Capinan]




Mais Que a Lei da Gravidade


O grão do desejo quando cresce

É arvoredo, floresce

Não tem serra que derrube

Não tem guerra que desmate

Ele pesa sobre a terra

Mais que a lei da gravidade




E quando faz um amigo

É tão leve como a pluma

Ele nunca põe em risco

A felicidade




Quando chegar dê abrigo

Beijos, abraços, açúcar

Só deseja ser comido

O desejo é uma fruta

E com ele não relute

Pois quem luta

Não conhece a força bruta

Nem todo mal que ele faz




Satisfeito é uma moça

Sorrindo, feliz e solta

Beije o desejo na boca

Que o desejo é bom demais

UM ASSOMBRO REMOTO


Na mitologia poética de Fernando Pessoa, o que caracteriza o discípulo — me lembra George Steiner em um memorável ensaio, Chuva de fogo — é a “capacidade de ser hipnotizado”. Na linhagem de seus célebres heterônimos, tanto Ricardo Reis como Álvaro de Campos se definem como discípulos de Alberto Caeiro. Ao ouvir a primeira lição de Caeiro, recorda Steiner, Campos experimentou “um choque sísmico”. A sentença proferida pelo mestre é, de fato, perturbadora: “Tudo difere de nós e é por isso que existe”.
Quando conversava com Caeiro, retoma ainda o crítico literário, Álvaro de Campos tinha a sensação física de “estar a discutir não com um outro homem, mas com um outro universo”. O paganismo de Caeiro, sua maneira direta e sem filtros de observar o mundo, é, sim, muito particular. Mas, em vez de fugir, Campos — relatava Pessoa — dele se aproximava mais ainda. A partir do contato com Alberto Caeiro, o discípulo chegou a uma conclusão difícil e um tanto repulsiva: “Pessoas inferiores não podem ter um mestre, posto que não têm o que é necessário para terem um mestre”. E o que é necessário? Justamente estar disponível para a experiência da hipnose, para o tal “choque sísmico” que revira o mundo de ponta cabeça e nos leva a ver o que, antes, parecia inexistente. E para isso — o nobre Campos me perdoe — não é preciso ter status social.
Foi o que senti quando, em 1969, me preparando para as provas do vestibular, tive uma conversa decisiva com José Rodrigues, meu professor de literatura francesa no Colégio Santo Inácio — hoje um diplomata em alguma parte do planeta. Desde menino, queria me tornar escritor. Minha idéia inicial era tornar-me poeta. A leitura de Bandeira, Vinicius e Cabral, em particular, feita ainda de calças curtas, me abalara de tal modo que eu não podia imaginar outro caminho a seguir. Meu pai me advertia: “Pare de sonhar e faça engenharia”. Sim: mesmo tendo desistido depois da poesia, eles foram, continuaram a ser e ainda hoje são — mesmo ausentes — meus mestres. Com Bandeira aprendi o amor lírico pelas coisas simples. Com Vinicius, o primado absoluto da paixão, elemento sem o qual nada que realmente preste se faz. Com Cabral, o papel decisivo do corte. Disse-me ele, muito mais tarde, que cortar é ainda mais importante que escrever. Mais ainda: que cortar é a verdadeira maneira de escrever. Você não pode ter piedade da palavra, nem se deixar enganar por sua falsa beleza, me aconselhou. Deve ser rígido, firme, intolerante, e cortar, cortar, cortar, até que o osso (a pedra) da palavra apareça à sua frente.
Mas retorno a meu diálogo decisivo com José Rodrigues, meu professor de literatura. Eu queria me tornar escritor — e por isso me preparava para o vestibular de Letras. Parecia-me o caminho natural. Rodrigues foi duro comigo (e recordo que era um brilhante professor de literatura francesa): “Se você quer ser escritor, faça tudo, menos Letras. Fazendo, sua mente será tomada por teorias, teses, gêneros, classificações, experimentações intelectuais. Tudo aquilo de que um poeta não precisa. Tudo aquilo que barra o caminho da poesia”. Sua apreciação, a princípio, me assustou. Ela arrancava de minhas mãos o fio em que eu me apoiava rumo à escrita. Cambaleei, o chão me fugiu e ainda tonto perguntei: “Mas, então, o que devo fazer?”. Rodrigues parou um pouco para pensar. Ruminou algumas palavras que não chegou a concluir e depois, num ímpeto, me disse: “Faça jornalismo!”. Jornalismo? Meu pai, José Ribamar, foi jornalista profissional. Durante muitos anos foi o setorista de O Globo no Senado Federal, quando o Rio de Janeiro ainda era a capital da República. Talvez “contra o pai”, em busca de minha afirmação individual, jamais pensara em me tornar jornalista. E um professor de literatura me dizia que, para me tornar escritor, tinha que estudar Jornalismo, e não Letras?
Ali, naquele segundo semestre de 1969, depois de freqüentar durante dois anos e meio as aulas de José Rodrigues, tornei-me, enfim, seu discípulo. Ele me hipnotizara. Sempre acreditei que houve nisso um pouco de fraqueza de minha parte; que todo hipnotizado se torna, um pouco, um objeto. Agora, quase meio século depois, releio as palavras de George Steiner em seu ensaio sobre Pessoa: “A capacidade de ser hipnotizado distingue as personalidades fortes. Estas retêm sua individualidade transmutada após terem passado pela intervenção do mestre”. Mas então eu fui forte, e não fraco! Os argumentos de José Rodrigues eram dois e eram simples. Primeiro: o jornalismo me obrigaria a escrever diariamente, não permitiria jamais que eu me afastasse das palavras. Em segundo lugar e, de acordo com Rodrigues, a mais importante: o jornalismo nos empurra drasticamente para a realidade, nos lança sobre ela sem nenhuma delicadeza ou mesura, e esse choque direto com o real, que nos contamina quase que como um veneno, é indispensável para a formação do escritor. Pelo menos para aqueles que não querem ser apenas escritores “de gabinete”.
Não me arrependo de ter seguido as instruções de meu mestre. Muito ao contrário, hoje me orgulho de ser jornalista também. Não cheguei a ser poeta. Faço uma literatura oscilante, que estremece entre os gêneros e os estilos. Sei que, como escritor, tenho uma identidade fluida, que alguns talvez vejam como insuficiente. Nada disso me perturba, eu sigo meu caminho. E a ele cheguei, a verdade é essa, graças ao jornalismo. Poderia aqui repetir as palavras de Álvaro de Campos a respeito de seu encontro com o mestre Caeiro: “E, a partir de então, para melhor ou para pior, eu tenho sido eu”.
NOTA
O texto Um assombro remoto foi publicado no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello no site do jornal O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.


sábado, 23 de novembro de 2013

¿Un affaire es señal de que todo va mal en la pareja?


Por: Anne Cé | 20 de noviembre de 2013


Si todo ha sido puesto en cuestión ya en territorios de amor, orientación sexual, paternidad y poliamor, ¿por qué es tan difícil poner en duda la monogamia?, se pregunta la experta Esther Perel en uno de sus interesantes artículos, que se puede consultar, completo, aquí.

Días atrás, Venus sugería, en este mismo espacio, que "los únicos infieles que realmente se sienten culpables son los que ven sus aventuras como algo malo, pero a la vez sienten una atracción intensa hacia otra persona".



Getty Images.

Y en eso llegó la última de Woody Allen, Blue Jasmine, que se anuncia como el drama de la denuncia de los desfalcos de los chicos de la bolsa neoyorkina, pero que se alza, ante todo, sobre la piedra de la necedad y la locura de celos de una esposa engañada (entre comillas), interpretada por Cate Blanchett. La traición tiene la cara de Alec Baldwin y el cuerpo de un dandy con casa en Los Hamptons, que además de los líos de Manhattan, se permite enamorarse en París.


Es cierto que esta vez Woody Allen cose con puntada gruesa este guión dramático sobre cómo cambian las relaciones, los umbrales de tolerancia y las ganas de mirar hacia otro lado cuando la cuenta bancaria se queda en rojo y los ricos se ponen el uniforme de presidiarios. Sin embargo, la película vale por el retrato de esa mujer (magnífica Blanchett) que creyó haber nacido con 'buenos genes' y merecerse una vida de placeres mundanos y displicencia, hasta que un paso en falso, quizá el suyo propio, tiñe esa existencia con la luz cálida de un vestidito pastel y de un mantel color nácar de 'azul oscuro casi negro' (en este caso, el del Pacífico en la Bahía de San Francisco).


Jasmine/Blanchett y Hal/Baldwin, un matrimonio como los que 'dibuja' Woody Allen

"Hacía el amor como nadie", evoca Jasmine cuando todo se ha derrumbado, frente a una indiferente pasajera del vuelo que la lleva de Park Avenue al sofá de su hermana, en San Francisco. Nadie sabrá nunca si es verdad que esos recuerdos del hombre que la complacía como nadie tienen algo que ver con la realidad o son fruto de su memoria creadora (todas hemos probado con fantasías un poco edulcoradas, alguna vez).

Como sea, la mujer del corrupto habla sola o tiene que entablar diálogos prosaicos con los amigos mecánicos de su hermana (por cierto, una gran disfrutadora de las relaciones eróticas). Apenas le queda a Jasmine la idealización infinita de aquellas sábanas caras pagadas con dinero ajeno... o buscarse un nuevo marido.

Este es Woody Allen, a vueltas con la monogamia.

¿Por qué es intocable la monogamia?, se pregunta Esther Perel, la terapeuta norteamericana que suele dar con la cuestión indicada.

¿Hay respuesta? En su sitio web, Perel plantea cuestiones realmente peliagudas, de esas que nos hacen discutir acaloradamente en una sobremesa con amigos o en la barra del bar. Y todo porque hay temas que nos duelen, que nos sacan la cascarita de alguna herida sentimental y queremos taparla rápido, de nuevo, con argumentos.

Tráiler de 'Blue Jasmine' de Woody Allen, con Cate Blanchett y Alec Baldwin.

Insiste Perel en que hoy todo está puesto en cuestión y todo es aceptado o aceptable: parejas del mismo sexo, transgénero, padres solteros, etcétera, etcétera, pero la monogamia no se toca. Y propone un ejercicio: imaginarnos a una mujer que se ha casado seis veces en su vida, o sea que está divorciada cinco veces. E imaginarnos, a continuación, a otra mujer que ha estado casada durante cincuenta años y tiene un amante cada diez años. ¿Quién será la que se lleve un juicio más severo?

La experta cuestiona la idea de que tener un affaire sea señal de que algo va mal en la pareja. Y sostiene que una aventura no es consecuencia directa de nada, simplemente sucede y no le ofrecemos resistencia. Hay veces en que esas aventurillas dan en el blanco. En ocasiones, nos propulsan "más allá de nuestras fronteras". Es natural, la sed de vida provoca encuentros. El disparador son nuestras ganas de vivir, respirar, tener esperanzas. El empujón que da el deseo erótico, afirma Perel, nos lleva más allá de lo ordinario.

Así, nosotros nos preguntamos, con ella: ¿quién no quiere echar un vistazo un poco más allá alguna vez? La intensidad de los debates que el tema provoca en EE.UU. y en otros países occidentales ilustra "la paradójica tensión entre dos estimables ideales americanos: la libertad y la responsabilidad individual", en palabras de Perel. Tensión que se expresa en una travesía sin salida entre el derecho a la felicidad y el sentido de la obligación y el compromiso.

Acerca del secreto del deseo en una pareja de larga duración habla Esther Perel.

La terapeuta recuerda las discusiones en torno al affaire Clinton y los escritos del sociólogo Robert Bellah, que le permitieron ver claro que, en el marco de nuestra ideología moderna sobre el amor y el matrimonio, un principio fundamental es que se trata de una empresa de libre elección. Aunque las bodas y las ceremonias de compromiso sean eventos públicos, la pareja es un asunto privado y (en la actualidad y en Occidente) una expresión espontánea de libertad interior, profundamente personal y voluntaria.

Esta idea de la responsabilidad individual va unida a la noción de que, entonces, lo que nos toca es ejercer el control sobre nosotros mismos y sobre todo lo que suceda en nuestra vida. Ciertamente, Perel está poniendo en cuestión la gran noción de la responsabilidad, para concluir en que un lío es una señal de debilidad, una muestra de un carácter "con imperfecciones". Dicho esto, claro está, con todas las reservas y la ironía del caso, porque ¿quién tiene o quién quiere una vida sin 'imperfecciones'?.

http://blogs.elpais.com/eros/2013/11/tener-un-affaire.html