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sábado, 26 de abril de 2014

SEM SOSSEGO



Nei Duclós


Moras no mar, único jeito
de equilibrar teu incêndio
vento na saia e nos cabelos
brasas borrifadas pelo sal


Queimei a boca no poema
achei que era fácil escrever
jogas pesado, erro e acerto
vens sem me dar socorro


Não corro, fogo de outono
reservo o fôlego no instante
em que somas tempo louco


Corpo de fora, pele vermelha
desperdício de amor errante
coração no final do sossego




RETORNO - Imagem desta edição: Mônica Vitti.


http://outubro.blogspot.com.br/2014/04/sem-sossego_26.html

Bom dia, Cinderela


Dilma Rousseff, por Tàssies.

Fernando Gabeira* - O Estado de S.Paulo


As pesquisas eleitorais recentes mostram Dilma Rousseff em queda. Quando se está caindo, a gente normalmente diz opa!. Não creio, porém, que Dilma vá dizer opa! e recuperar o equilíbrio. Além dos problemas de seu governo, ela é mal aconselhada por Lula nos dois temas que polarizam a cena política: Petrobrás e Copa do Mundo.

São cada vez mais claras as evidências de que se perdeu muito dinheiro em Pasadena. Lula, no entanto, não acredita nas evidências, mas nas versões. Se o seu conselho é partir para a ofensiva quando se perdem quase US$ 2 bilhões, a agressividade será redobrada quando a perda for de US$ 4 bilhões e, se for de US$ 6 bilhões, o mais sábio será chegar caindo de porrada nos adversários antes que comecem a reclamar.

Partir para a ofensiva na Copa do Mundo? Não é melhor deixar isso para os atacantes Neymar e Fred? Desde o ano passado ficou claro que muitas pessoas não compartilham o otimismo do governo nem consideram acertada a decisão de hospedar a Copa.

O governo acha que sufoca as evidências. O próximo passo desse voluntarismo é controlar as evidências. O papel do IBGE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por exemplo, começa a ser deformado pelo aparelhamento político. Pesquisas que contrariam os números de desemprego são suspensas. E o Ipea foi trabalhar estatísticas para Nicolás Maduro, que acredita ver Hugo Chávez transmutado em passarinho e, com essa tendência ao realismo mágico, deve detestar os números.

Controlar as evidências, determinar as sentenças pela escolha de ministros simpáticos à causa, tudo isso é a expressão de uma vontade autoritária que vê a oposição como vê os números desfavoráveis: algo que deva ser banido do mundo real. A visão de que o País seria melhor sem uma oposição, formada por inimigos da Petrobrás e por gente que torce contra a Copa, empobrece e envenena o debate político.

Desde o mensalão até agora o PT decidiu brigar com os fatos, e isso pode ter tido influência na queda de Dilma nas pesquisas. O partido foi incapaz, embora figuras como Olívio Dutra o tenham feito, de reconhecer seus erros. Está sendo incapaz de admitir os prejuízos que sua política de alianças impôs à Petrobrás ou mesmo que a Copa do Mundo foi pensada num contexto de crescimento e destinava-se a mostrar nossa exuberância econômica e capacidade de organização a todo o planeta. Gilberto Carvalho revelou sua perplexidade: achava que a conquista da Copa seria saudada por todos, mas as pessoas atacaram o governo por causa dela.

Bom dia, Cinderela. O mundo mudou. Dilma e o PT não perceberam, no seu sono, que as condições são outras. Brigar com os fatos num contexto de crescimento econômico deu a Lula a sensação de onipotência, uma crença do tipo "deixa conosco que a gente resolve na conversa". Hoje, em vez de contestar fatos, o PT estigmatiza a oposição como força do atraso. Ele se comporta como se a exclusão dos adversários da cena política e cultural fosse uma bênção para o Brasil. A concepção de aniquilar o outro não é vivida com culpa por certa esquerda, porque ela se move num script histórico que prevê o aniquilamento de uma classe pela outra. O que acabará com os adversários é a inexorável lei da história, eles apenas dão um empurrão.

Sabemos que a verdade é mais nuançada. O governo mantém excelentes relações com o empresariado que financia por meio do BNDES e com os fornecedores de estatais como a Petrobrás. Não se trata de luta de classes, mas de quem está se dando bem com a situação contra quem está ou protestando ou pedindo investigações rigorosas contra a roubalheira, na Petrobrás ou na Copa.

A aliança do governo é aberta a todos os que possam ser controlados, pois o controle é um objetivo permanente. Tudo o que escapa, evidências, vozes dissonantes, estatísticas indesejáveis, tudo é condenado à lata de lixo da História. Felizmente, a História não se faz com líderes que preferem partir para cima a dialogar diante de evidências negativas, tanto na Petrobrás como na Copa ou no mensalão. Nem com partidos incapazes de rever sua tática diante de situações econômicas modificadas.

Dilma, com a queda continuada nas pesquisas, sai da área de conforto e cai no mundo em que os candidatos dependem muito de si próprios e não contam com vitória antecipada pelo peso da máquina. Será a hora de pôr de novo em xeque a onipotente tática de eleger um poste. Nem o poste nem seu inventor hoje conseguem iluminar sequer um pedaço de rua. Estão mergulhados no escuro e comandarão um exército de blogueiros amestrados para nublar as redes sociais. Com a máquina do Estado, o prestígio de Lula, muita grana em propaganda e na própria campanha eleitoral, o governo tem um poderoso aparato para enfrentar a realidade. Mas essa abundância de recursos não basta. Num momento como este no País, será preciso horizonte, olhar um pouco adiante das eleições e estabelecer um debate baseado no respeito às evidências.

Esse é um dos caminhos possíveis para recuperar o interesse pela política. No momento, a resposta ao cinismo é a indiferença com forte tendência ao voto em branco ou nulo. Embora a oposição também seja parte do jogo, a multidão que dá as costas para a escolha de um presidente é uma obra do PT que subiu ao poder, em 2002, prometendo ampliar o interesse nacional pela política, mas conseguiu, na verdade, reduzi-lo dramaticamente. Para quem se importa só com a vitória eleitoral, essa questão da legitimidade não conta. Mas é o tipo de cegueira que nos mantém no atraso político e na ilusão de que adversários são inimigos. O PT comanda um estranho caso de governo cujo discurso nega o próprio slogan: Brasil, um país de todos. De todos os que concordam com a sua política.

Até nas relações exteriores o viés partidário sufocou o nacional, atrelando o País aos vizinhos, alguns com sonhos bolivarianos, e afastando-o dos grandes centros tecnológicos. Contestar esse caminho quase exclusivo é defender interesses americanos; denunciar corrupção na empresa é ser contra a Petrobrás; assim como questionar a Copa é torcer contra o Brasil.

Bom dia, Cinderela, acorde. Em 2014 você pode se afogar nos próprios mitos.

*Fernando Gabeira é jornalista.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bom-dia-cinderela,1158322,0.htm

terça-feira, 22 de abril de 2014

Carybé's photo.

Carybé





'Foram dois namorados felizes entre a multidão, e até chegaram a suspeitar que o amor podia ser um sentimento mais repousado e profundo que a felicidade arrebatada, mas momentânea, das suas noites secretas.'

Cem Anos de Solidão
Gabriel Garcia Marques

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Hay Amores - Shakira -



La cantautora colombiana Shakira se despidió de su amigo y compatriota el escritor Gabriel García Márquez, fallecido hoy a los 87 años en Ciudad de México, y elogió su vida como "un regalo único e irrepetible, y como el más original de los relatos".

La artista lamentó la muerte del Nobel de Literatura de 1982 en su página de internet, en Twitter y en Instagram, donde además colgó una foto en la que aparece abrazada muy sonriente al genio de las letras.

"Querido Gabo, alguna vez dijiste que la vida no es la que uno vivió sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla", parafraseó la cantante barranquillera.

Y prosiguió: "Tu vida querido Gabo la recordaremos como un regalo único e irrepetible, y como el más original de los relatos. ¡Es difícil despedirse de ti, puesto que nos has dado tanto! Te quedarás para siempre conmigo y con todos los que te quisimos y admiramos".

Shakira, quien interpretó la canción "Hay amores" en la banda sonora de la película basada en la novela "El amor en los tiempos del cólera", mantuvo una cercana relación con el escritor, con el que además compartía procedencia en la región Caribe colombiana.


domingo, 20 de abril de 2014

GABRIEL GARCIA MARQUEZ: WHAT I'VE LEARNED


People often ask me: Who have you never been able to interview for the What I’ve Learned column that you’d most like to spend time with?
That man died yesterday. Gabriel Garcia Marquez.
Well, he didn’t really die. Nobody who writes great literature ever dies.
I wish I could re-create the sensation that surged through me when I first opened One Hundred Years of Solitude at the age of 22. It was like looking at stars for the first time from an untouched spot in the middle of The Amazon or The Sahara. You realize in moments like those that the world offers a much deeper and more vivid experience than you could’ve possibly imagined. You’re in God’s mind.
I will never be able to know the combustion of that book and the age of 22 again. That pulsing of cosmic electricity and excitement only visits once. But I did figure out a way to do that What I’ve Learned. I journeyed through sites on the Internet to compile some wisdom originating in Gabo’s books and interviews.
It turned a day that would have been tinged with sadness into hours of soft smiles as each nugget was uncovered. And as the maestro himself advised: “Never stop smiling not even when you're sad, someone might fall in love with your smile.”
So here it is. An interview that couldn’t be more truthful even though it never happened. What I’ve Learned, from Gabriel Garcia Marquez:
No matter what, nobody can take away the dances you’ve already had.
Just as real events are forgotten, some that never were can be in our memories as if they happened.
Sex is the consolation you have when you can't have love.
Fiction was invented the day Jonah arrived home and told his wife that he was three days late because he had been swallowed by a whale.
Then the writing became so fluid that I sometimes felt as if I were writing for the sheer pleasure of telling a story, which may be the human condition that most resembles levitation.
Wisdom comes to us when it can no longer do any good.
The problem in public life is learning to overcome terror; the problem in married life is learning to overcome boredom.
No medicine cures what happiness cannot.
The day shit is worth money, poor people will be born without an asshole.
A person does not belong to a place until there is someone dead under the ground.
The only thing worse than bad health is a bad name.
I don't believe in God, but I'm afraid of Him.
It is not true that people stop pursuing dreams because they grow old, they grow old because they stop pursuing dreams.
Age isn't how old you are but how old you feel.
Inspiration gives no warnings.
Always remember that the most important thing in a good marriage is not happiness, but stability.
The heart's memory eliminates the bad and magnifies the good.
It is like a firstborn son: you spend your life working for him, sacrificing everything for him, and at the moment of truth he does just as he pleases.
Justice limps along, but gets there all the same.
A lie is more comfortable than doubt, more useful than love, more lasting than truth.
Crazy people are not crazy if one accepts their reasoning.
One does not love one’s children just because they are one’s children but because of the friendship formed while raising them.
Shame has a poor memory.
The world must be all fucked up when men travel first class and literature goes as freight.
He who awaits much can expect little.
A falcon who chases a warlike crane can only hope for a life of pain.
One minute of reconciliation is worth more than a whole life of friendship.
Nobody deserves your tears, but whoever deserves them will not make you cry.
I don’t think you can write a book that’s worth anything without extraordinary discipline.
A true friend is the one who holds your hand and touches your heart.
All human beings have three lives: public, private, and secret.
If men gave birth, they'd be less inconsiderate.
How strange women are.
Don't let yourself die without knowing the wonder of fucking with love.
Jealousy knows more than truth does.
I have learned that a man has the right and obligation to look down at another man, only when that man needs help to get up from the ground.
In the end, it is impossible not to become what others believe you are. 
Ceasing to believe caused a permanent scar in the place where one's faith had been, making it impossible to forget. 
One ages more and with more intensity in pictures than in reality. 
With The Thousand and One Nights, I learned and never forgot that we should read only those books that force us to reread them. 
I can't think of any film that improved on a good novel, but I can think of many good films that came from very bad novels.
Literature was the best plaything that had ever been invented to make fun of people.
An early-rising man is a good spouse but a bad husband. 
Everything that goes into my mouth seems to make me fat, everything that comes out of my mouth embarrasses me.
Fame is very agreeable, but the bad thing is that it goes on 24 hours a day.
Fiction has helped my journalism because it has given it literary value. Journalism has helped my fiction because it has kept me in a close relationship with reality.
To all, I would say how mistaken they are when they think that they stop falling in love when they grow old, without knowing that they grow old when they stop falling in love...
There is always something left to love.
Courage did not come from the need to survive, or from a brute indifference inherited from someone else, but from a driving need for love which no obstacle in this world or the next world will break.
The secret of a good old age is simply an honorable pact with solitude.
Nobody teaches life anything. 
The only regret I will have in dying is if it is not for love. 
Be calm. God awaits you at the door.
http://www.esquire.com/blogs/culture/what-ive-learned-gabriel-garcia-marquez?src=spr_TWITTER&spr_id=1456_53821037

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Um Homem Lindo, Gabriel Garcia Marquez







Premio Nobel de la Literatura 1982



He wins the Nobel Prize in Literature

García Márquez

Gabriel García Márquez

García Márquez and Mercedes Barcha


Obituary: Gabriel Garcia Marquez



The Nobel Prize winner was possessed of a vivid imagination

The vivid prose of Gabriel Garcia Marquez described a world as exotic as a Latin American carnival.

His backdrop was the poverty-stricken, and often violent world of his Colombian home where democracy never really found roots.

His stories wove imaginary magical elements into real life and were often set in a fictional village called Macondo.

A left-winger by conviction he was not slow to criticise the Colombian government and spent a great part of his life in exile.

There is not a single line in all my work that does not have a basis in reality”Gabriel Garcia Marquez

Garcia Marquez was born in the town of Aracataca, Colombia on 6 March 1927.

Shortly after he was born, his father became a pharmacist and his parents moved away. The young Marquez was left in the care of his maternal grandparents.Critical acclaim

His grandfather, a veteran of Colombia's Thousand Days' War and a liberal activist, gave him an awareness of politics.
At the Nobel Prize-giving ceremony in 1982

From his grandmother, Garcia Marquez learned of superstitions and folk tales. She spoke to him of dead ancestors, ghosts and spirits dancing round the house, all in a deadpan style that he would later adopt for his greatest novel.

Garcia Marquez went to a Jesuit college and began to study law, but soon broke off his studies to work as a journalist.

In 1954, he was sent to Rome on a newspaper assignment, and since that time, lived mostly abroad, in Paris, Venezuela, and finally Mexico City.

He always continued his work as a journalist, even when his fiction increased in popularity.

From the moment I wrote Leaf Storm I realised I wanted to be a writer and that nobody could stop me”Gabriel Garcia MarquezFacilitator

Heavily influenced by the work of William Faulkner, Garcia Marquez wrote his first novel at the age of 23 although it took seven years to find a publisher.

Published in 1955, Leaf Storm and his three subsequent novels received critical acclaim from the literary establishment but did not reach the wide audience he would win with his later books.

In 1965, the idea for the first chapter of One Hundred Years of Solitude came to him while he was driving to Acapulco.

He turned the car, drove home and locked himself into his room with six packets of cigarettes a day for company.
He enjoyed the friendship of Fidel Castro

He emerged 18 months later to find his family $12,000 in debt. Fortunately, he had thirteen hundred pages of phenomenal best-selling text in his hands.

The novel's first printing in Spanish sold out within a week, and during the next thirty years One Hundred Years of Solitude sold more than twenty million copies and was translated into more than thirty languages.

The New York Times called it the first piece of literature since the Book of Genesis that should be required reading for the entire human race.

A novelist can do anything he wants so long as he makes people believe in it”Gabriel Garcia MarquezReality

Following its publication, Garcia Marquez was asked to act as a facilitator in negotiations between the Colombian government and a number of guerrilla organisations including Farc and ELN.

He also became friends with the Cuban leader Fidel Castro, a relationship that Garcia Marquez insisted was based on books.

"Fidel is a very cultured man," he said in an interview. "When we're together we talk about literature."
Garcia Marquez married Mercedes in 1958

In 1982 Garcia Marquez received the Nobel Prize for Literature. He received praise for the vibrancy of his prose and the rich language he used to convey his overflowing imagination.

Some saw his work as deliberate exaggeration, a supernatural, mythical approach he effected to escape the unrest of his country.

He said himself that "surrealism came from the reality of Latin America," and such works as The General in his Labyrinth and The Autumn of the Patriarch illustrate his growing political opposition to the increasing violence in Colombia.

Garcia Marquez's place in the ranks of literary masters was further assured by the publication of another best-selling work, Love in the Time of Cholera in 1986.

In the story of two couples, the younger based on the love affair between his own parents.

The Mexican novelist, Carlos Macias described Garcia Marquez as perhaps the best writer in Spanish since Cervantes.

"He is one of those rare artists who succeed in chronicling, not only a nation's life, culture and history, but also those of an entire continent."


http://www.bbc.com/news/world-latin-america-26893514

quinta-feira, 17 de abril de 2014

LA POESÍA DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

24 dic 2013



El poeta, narrador y ensayista José Luis Díaz Granados (1946) afirma que García Márquez nunca ha buscado otra cosa en su obra que evocar los espíritus esquivos de la poesía pues su prosa está impregnada de lírica. El siguiente texto desenpolva los inicios de Gabo como poeta lírico. Un texto imperdible.



LA POESÍA DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ


Entre nostalgias de la casa grande de Aracataca, alegrías y timideces multicolores, vividas o soñadas en las nacientes aventuras preadolescentes en Barranquilla y las conventuales y monótonas vigilias en Zipaquirá y Bogotá, nacen y crecen los primeros poemas de amor, reflexión y soledad, salidos de la pluma febril de Gabriel García Márquez.

Recordemos que Leopoldo Mozart, el padre de Amadeus, era un músico que estaba muy lejos de poseer la gracia de los dioses y que don José Ruiz Blasco, el progenitor de Picasso, era un profesor de dibujo que en su vejez, escaso de la vista, encargaba a su precoz hijo que terminara de perfeccionar los ojos de las palomas y otros pequeños detalles de sus pinturas. No cabe duda, sin embargo, que de estos oscuros artistas sin ambiciones brotaron las maravillosas vocaciones de sus geniales hijos.

Por eso cuando nos enteramos que don Gabriel Eligio García, además de ser telegrafista en Aracataca, partero, dentista y farmacéutico en Sucre y violinista inspirado en sentidas y románticas serenatas en Santa Marta y Riohacha, era un poeta de entusiasmos dominicales —que pergueñaba en forma especial las décimas, los romances y los sonetos endecasílabos en celebraciones familiares y aniversarios cívicos—, corroboramos la anterior convicción.


De manera que esta circunstancia, sumada a un especial temperamento de niño observador e imaginativo y a la influyente personalidad de su abuelo el coronel Nicolás Ricardo Márquez y a la prodigiosa agudeza mental, supersticiosa y mística, de Tranquilina Iguarán Cotes, su abuela, determinaron sin lugar a dudas la adhesión espiritual y vitalicia hacia lo que Gabriel García Márquez denominaría más adelante como “los espíritus esquivos de la poesía”.

* * *

En 1940, cuando el futuro autor de Cien años de soledad acababa de cumplir sus 13 años y cursaba el primer año de secundaria en el Colegio San José de Barranquilla, regentado por los padres jesuitas, dio a conocer unas tímidas muestras de su enorme capacidad para versificar, cuando le improvisaba a cada uno de sus condiscípulos lo mismo que a sus profesores, cuartetas festivas y versos satíricos, sin que hubiera en alguno de ellos ningún asomo de gracia lírica.

“El padre Luis Posada —recuerda Gabo en sus memorias—, capturó uno, lo leyó con ceño adusto y me soltó la reprimenda de rigor, pero se lo guardó en el bolsillo. El padre Arturo Mejía me citó entonces en su oficina para proponerme que las sátiras decomisadas se publicaran en la revista Juventud, órgano oficial de los alumnos del colegio. Mi reacción inmediata fue un retortijón de sorpresa, vergüenza y felicidad, que resolví con un rechazo nada convincente: —Son bobadas mías. El padre Mejía tomó nota de la respuesta y publicó los versos con ese título —“Bobadas mías”— y con la firma de Gabito, en el número siguiente de la revista y con la autorización de las víctimas”…

Por ese tiempo, Gabo tenía el vicio de leer todo lo que cayera en sus manos y se aprendió de memoria decenas de romances del repertorio popular y los más hermosos poemas del Siglo de Oro español. También, el súbito aliento embrujador de los Veinte poemas de amor de Pablo Neruda sedujo al joven Gabo hasta el punto de aprenderse de memoria y recitar no pocas veces al día el famoso “Poema veinte”, lo cual ocasionaba la cólera de algún jesuita.


En los años iniciales de la década conoció en Barranquilla a un muchacho algo mayor que él llamado Cesar Augusto del Valle, alto, bohemio y melenudo, quien comandaba un grupo denominado Arena y cielo, en homenaje e imitación al de Piedra y cielo que desde Bogotá integraban Eduardo Carranza, Jorge Rojas, Arturo Camacho Ramírez, Gerardo Valencia, Tomás Vargas Osorio, Darío Samper y Carlos Martín, quienes a su vez estaban asimilando las influencias de César Vallejo, Pablo Neruda y de los poetas españoles contemporáneos. Fueron los años, como lo dice el mismo Gabo, que le dieron la base retórica para soltar sus duendes, ciclo que culminó meses después con la muerte prematura del joven César Augusto.


Una breve muestra de lo que escribía Gabito en esa época es el poema titulado “La muerte de la rosa”:


Murió de mal de aroma

Rosa idéntica, exacta.

Subsistió a su belleza,

Sucumbió a su fragancia.

No tuvo nombre: acaso

La llamarían Rosaura,

O Rosa-fina, o Rosa

Del amor o Rosalía,

O simplemente: Rosa,

Como la nombra el agua.

Más le hubiera valido

Ser siempreviva, Dalia,

Pensamiento con luna

Como un ramo de acacia.

Pero ella será eterna:

Fue rosa y eso basta.

Dios le guarde en su reino

A la diestra del alba.


* * *

Durante su adolescencia, Gabriel García Márquez no mostró interés literario distinto de la poesía. Recitaba de memoria en veladas familiares, sesiones solemnes y eventos escolares el poema “El circo” del maestro Guillermo Valencia, poemas de la barranquillera Meira Delmar —de quien sería después cercano amigo— y el famoso disparate lírico de don José Manuel Marroquín, el cual comenzaba:


Ahora que los ladros perran, ahora que los cantos gallan,

Ahora que albando la toca las altas suenas campanan;

Y que los rebuznos burran y que los gorjeos pájaran

Y que los silbos serenan y que los gruños marranan

Y que aurorada rosa los extensos doran campan,

Perlando líquidas viertas cual yo lágrimo derramas

Y friando de tirito si bien el abraza almada,

Vengo a suspirar mis lanzos ventano de tus debajas.


Un buen día, don Gabriel Eligio decidió que su primogénito se fuera a estudiar al interior del país. Luego de un viaje de 8 días por el Río Magdalena hasta Puerto Salgar y luego en tren hasta la remota y glacial Bogotá, el joven Gabo se enteró que la beca diligenciada por su padre lo conducía hasta un municipio situado a pocas horas de la capital dela República, donde la única catedral de sal del mundo es su símbolo perpetuo. Allí, en el Liceo Nacional de Zipaquirá, padeció largas horas, días y semanas de silencio, frío y llovizna, lo más opuesto a la camaradería, el bullicio y la parranda musical de su tierra costeña.


“Mal educado en los espacios sin ley del Caribe —escribe Gabo sesenta años después— me asaltó el terror de vivir los 4 años decisivos de mi adolescencia en aquel tiempo varado”. Sin embargo, en la natural adaptación al nuevo ambiente, se familiarizó pronto con el ropaje moderno y progresista de la mayoría de sus profesores, casi todos formados en la Escuela Normal Superior, bajo la dirección del psiquiatra y cuentista vallenato José Francisco Socarrás. Y así, entre lecciones nada disimuladas de marxismo, lecturas de Vargas Vila y de José Eustasio Rivera y poemas de Residencia en la Tierra de Neruda, Gabito comenzó a escribir poesía de manera voraz, influido también por los textos de los Piedracielistas que aparecieran en las Lecturas dominicales de El Tiempo que dirigía Eduardo Carranza.

En septiembre de 1943 le llegaron a Zipaquirá los ecos de la controversial visita a Colombia de Pablo Neruda y de la violenta polémica que lo enfrentó el líder conservador Laureano Gómez. Tres décadas más tarde el poeta chileno declararía que la novela estelar de García Márquez era el Quijote de América y pediría para él el Premio Nobel de Literatura. Cuando este deseo se hizo realidad Gabo en su discurso de recepción le rendiría homenaje, llamándolo “Pablo Neruda el grande, el más grande, en cuyos versos destilan su tristeza milenaria, nuestros mejores sueños sin salida”.

De pronto y a manera de recompensa precoz al solitario poeta, fue nombrado rector del Liceo el más joven de los integrantes de Piedra y Cielo, Carlos Martín, quien desde el primer momento descubrió los destellos poéticos del alumno de Aracataca y le tomó una gran simpatía, al punto que un día le prestó La experiencia literaria de Alfonso Reyes, libro que lo deslumbró de principio a fin y le reveló sorpresivas afinidades del corazón, como fueron las letras de los boleros de Agustín Lara.

Ya por entonces Gabito imitaba a Eduardo Carranza en las prosas líricas que, a la manera de Juan Ramón Jiménez en Platero y yo, publicaba Carranza en la revista Sábado. Animado por Martín en la lectura de los famosos cuadernillos dirigidos por Jorge Rojas, Gabo ensayó escribir un texto en cuartetos eneasílabos, titulado “Poema desde un caracol”:


Yo he visto el mar. Pero no era

El mar retórico con mástiles

Y marineros amarrados

A una leyenda de cantares.



Ni el verde mar cosmopolita

—mar de Babel— de las ciudades,

que nunca tuvo unas ventanas

para el lucero de la tarde.



Ni el mar de Ulises que tenía

Siete sirenas musicales

Cual siete islas rodeadas

De música por todas partes.



Ni el mar inútil que regresa

Con una carga de paisajes

Para que siempre sea octubre

En el sueño de los alcatraces.



Ni el mar bohemio con un puerto

Y un marinero delirante

Que perdiera su corazón

En una partida de naipes.



Ni el mar que rompe contra el muelle

Una canción irremediable

Que llega al pecho de los días

Sin emoción, como un tatuaje.



Ni el mar puntual que siempre tiene

Un puerto para cada viaje

Donde el amor se vuelve vida

Como en el vientre de una madre.



Que era mi mar el mar eterno,

Mar de la infancia, inolvidable,

Suspendido de nuestro sueño

Como una paloma en el aire.



Era el mar de la geografía

De los pequeños estudiantes,

Que aprendimos a navegar

En los mapas elementales.



Era el mar de los caracoles,

Mar prisionero, mar distante,

Que llevábamos en el bolsillo

Como un juguete a todas partes.



El mar azul que nos miraba,

Cuando era nuestra edad tan frágil

Que se doblaba bajo el peso

De los castillos en el aire.



Y era el mar del primer amor

En unos ojos otoñales.

Un día quise ver el mar

—mar de la infancia— y ya era tarde.



Gabo no cabía de la dicha a sus 17 años pensando en que sería un poeta y nada más que un poeta. Luego de graduarse de bachiller con honores, pues además de haber sido quien pronunció el discurso de rigor en la sesión solemne, fue uno de los escogidos por Carlos Martín para asistir a la audiencia concedida por el presidente de la república, un escritor de 38 años, Alberto Lleras Camargo, de quien más tarde sería uno de sus más cercanos amigos, para discutir sobre diferentes temas relacionados con la educación nacional.

Al ingresar a la Universidad Nacional meses más tarde, conoció a Pedro Gómez Valderrama, entonces un joven de 23 años, cuyos libros de poemas Norma para lo efímero y Biografía de la campana, habían despertado la admiración del poeta de Aracataca. “Mi sorpresa más grata —recuerda Gabo en Vivir para contarla—, fue encontrar como secretario general de la Facultad de Derecho al escritor Pedro Gómez Valderrama, del cual tenía noticia por sus colaboraciones tempranas en las páginas literarias, y que fue uno de mis amigos grandes hasta su muerte prematura”. No olvidemos que muchos años después, García Márquez sería uno de los más entusiastas lectores y admiradores de La otra raya del tigre, la magistral novela de Gómez Valderrama.

En la Nacional, Gabo continuó escribiendo secreta y públicamente poesía. Dos condiscípulos suyos, egresados del Liceo de Cervantes, Luis Villar-Borda y Camilo Torres Restrepo, eran los redactores en aquel entonces del suplemento literario del diario La Razón, fundado y dirigido por el poeta —cuyos sonetos admiraba y decía Gabo de memoria—, Juan Lozano y Lozano. Con ellos, al igual que con Plinio Apuleyo Mendoza, Gonzalo Mallarino, Álvaro Mutis y Álvaro Castaño Castillo, el joven escritor costeño se reunía en el Café Asturias, —lo mismo que con De Greiff, Jorge y Eduardo Zalamea en los cafés Windsor y El Molino—, y no tardó en colaborarles poéticamente en La Razón y posteriormente enSábado, revista que dirigía el padre de Plinio, un legendario y aguerrido periodista y político liberal.

En La Razón, en una columna bautizada “Poetas Universitarios” apareció firmado por Gabriel García Márquez un poema titulado “Geografía celeste” con el antetítulo de “Elegía a la Marisela”, que dice así:



No ha muerto. Ha iniciado

Un viaje atardecido.

De azul en azul claro

—de cielo en cielo— ha ido

por la senda del sueño

con su arcángel de lino.

A las tres de la tarde

Hallará a San Isidro

Con sus dos bueyes mansos

Arando en cielo límpido

Para sembrar luceros

Y estrellas en racimos.

—Señor, ¿cuál es la senda

para ir al Paraíso?

—Sube por la Vía Láctea,

ruta de leche y lirio,

la menor de las Osas

te enseñará el camino.

Cuando sean las cuatro

La Virgen con el Niño

Saldrán a ver los astros

Que en su infancia de siglos

Juegan la Rueda-Rueda

En un bosque de trinos.

Y a las seis de la tarde

El ángel de servicio

Saldrá a colgar la luna

De un clavo vespertino.

Será tarde. Si acaso

No te han guardado sitio

Dile a Gabriel Arcángel

Que te preste su nido

Que está en el más frondoso

Árbol del Paraíso.

Murió la Marisela.

Pero aún queda un lirio


Era evidente que además de la influencia pegajosa de la poesía de los Piedracielistas, Gabo parecía querer contarnos un cuento en cada poema o versificación. Reiteraba, sin saberlo, que cada buen poema no era otra cosa que el teatro de una acción. Y así, hasta que por propia confesión, se sintió cegado por el rayo de sol de La metamorfosis de Kafka, en un insólito camino hacia el Damasco narrativo, Gabo se convenció a sí mismo que la avenida ancha de su destino literario no estaba en la poesía propiamente dicha como género a cultivar sino en la novela y el cuento (el cuento, por lo pronto), en tanto que aquella era tan sólo un preludio prodigioso y fosforescente, un ejercicio de disciplina impostergable, un riguroso sistema de elaboración de estructuras literarias para obras superiores aún no soñadas.

Sin embargo, con esa sorda y peligrosa terquedad de quien no es nadie pero quiere serlo todo, Gabo continuó escribiendo poemas y sonetos de medidas perfectas y publicándolos en las páginas de sus buenos amigos, unas veces con el seudónimo de “Javier Garcés” y otras con su nombre verdadero.


A medidados de 1945 publicó con seudónimo el soneto “Tercera ausencia del amor”:



Este amor que ha venido de repente

Y sabe la razón de la hermosura.

Este amor, amorosa vestidura

Ceñida al corazón exactamente.



Este amor que es harina en la ternura,

Que es infancia de sueños en la frente,

Que es líquido de música en la fuente

Y es lucero nostálgico en la altura.



Este amor que es el verso y es la rosa,

Y es saber que la vida en cada cosa

Se nos repite cada vez más fuerte.



Tan eterno, este amor tan resistible,

Que comparado al tiempo es imposible

Saber dónde limita con la muerte.



“Es difícil imaginar, escribe Gabo en sus memorias, hasta qué punto se vivía entonces a la sombra de la poesía. Era una pasión frenética, otro modo de ser, una bola de candela que andaba de su cuenta por todas partes. Abríamos el periódico, aún en la sección económica o en la página judicial, o leíamos el asiento del café en el fondo de la taza, y allí estaba esperándonos la poesía para hacerse cargo de nuestros sueños”.

Y como Bogotá no era solamente la capital dela Repúblicay la sede del gobierno, sino sobre todo la ciudad donde vivían los poetas, no sólo creía Gabo en la poesía y se moría por ella, sino que sabía con certeza que, como lo escribió Luis Cardoza y Aragón, “era la única prueba concreta de la existencia del hombre”.

Un soneto bautizado “Sin título” —junto con el “Soneto matinal a una colegiala ingrávida”—, son los últimos poemas que Gabriel García Márquez publicó en los diarios capitalinos y en cualquier otro periódico de la Tierra, antes de que apareciera “La tercera resignación”, su primer texto narrativo, hace exactamente 60 años en el suplemento Fin de semana de El Espectador.


“Sin título” dice así:



Si alguien llama a tu puerta, amiga mía,

Y algo en tu sangre late y no reposa

Y en su tallo de agua temblorosa

El surtidor florece su alegría.



Si alguien llama a tu puerta y todavía

Te queda tiempo para ser hermosa,

Si aún existe la arteria de la rosa

Para tomarle el pulso a la poesía.



Si alguien llama a tu puerta una mañana,

Sonora de palomas y campanas

Y aún crees en el dolor de la alegría;



Si aún la vida es verdad y el beso existe,

Si alguien llama a tu puerta y estás triste

Abre que es el amor, amiga mía.

Hoy, cuando el orbe entero está celebrando los 80 años del nacimiento del genial fabulista de Macondo, el único inmortal vivo de nuestro tiempo, queremos reconocer en su narrativa magistral, el duende inequívoco de la lírica, las deslumbrantes y arrobadoras gotas de luz con que suele constelar su prosa prodigiosa, y corroborar así que la presencia de la poesía en la novela, el cuento y el periodismo de Gabriel García Márquez no es solamente la prueba concreta de la magnificencia de su parábola vital, sino que es la única artífice de una obra que desde siempre nos ha pertenecido a todos y que se cristaliza en la memoria de los tiempos “más allá del aire donde se terminan las cuatro de la tarde hasta donde no pueden alcanzarla ni los más altos pájaros de la memoria”.



http://circulodepoesia.com/2013/12/la-poesia-de-gabriel-garcia-marquez/

Um livro plenamente habitável


Caio Fernando Abreu ‏@caiofcaio 1h

Sempre achei Garcia Márquez uma delícia, antes do Nobel, desde que morei meses dentro de Cem Anos de Solidão




Há um conto de Clarice Lispector, não lembro o nome, em que depois de mil complicações uma menina consegue para ler Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. E lá pelas tantas, deslumbrada com o livro, ela diz: “Era um livro para viver dentro dele”. São raros os livros assim que você possa morar um pouco dentro, como uma outra vida paralela. Conheço poucos. Alguns são obras-primas, outros não, porque um livro-para-viver-dentro-dele não é necessariamente um clássico. John Fante, por exemplo, é supermemorável. Um livro assim tem qualidades meio imperceptíveis, um jeito de puxar você para dentro dele e misturar na sua própria vida. Tenho uma amiga que está morando, há meses, dentro da série Duna, de Frank Herbert. Talvez esses livros ofereçam, pura e simplesmente, aquilo que o velho Roland Barthes chamava de o prazer do texto.


Sempre achei Garcia Márquez uma delícia, antes do Nobel, desde que morei meses dentro de Cem Anos de Solidão. Anos depois, pirei muito com Crônica de Uma Morte Anunciada – li, reli, tresli e até hoje acho que talvez seja seu melhor livro. É simplesmente perfeito, só que não é um-livro-para-se-morar. Já O Amor Nos Tempos do Cólera é plenamente habitável: cheio de cheiros (já começa com um, o de amêndoas amargas, que lembra “amores contrariados”), de cores, de formas. É folhetinesco no melhor sentido: você torce, se envolve, se comove. Um certo toque folhetinesco talvez seja característica dos livros memoráveis (O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, por exemplo, ou Jane Eyre, de Charlotte Bronte): humaniza e alivia as experimentações geladas. Reconforta. Como uma chá.


Pode ser que O Amor não esteja à altura dos dois outros que citei. Mas um-livro-de-se-morar-dentro também tem essa característica: a gente não se importa nem um pouco com ele ser ou não grandioso. Mas no final de cada dia desumanizado, achei um presente poder rebater a dose diária de cinismo e atordoamento com o fiel amor de Florentino Ariza por Fermina Daza. Como quando criança mergulhava nas Mil e Uma Noites, ou naqueles Monteiros Lobatos de que Clarice falava. Para que pedir mais? Quero ser cada vez mais simples. Mais burro até. Só para sentir mais vezes esse gostinho raro: o prazer. Do texto e da vida.

http://caiofcaio.blogspot.com.br/2013/04/um-livro-plenamente-habitavel.html

“Não se alarmem. Quando eu morrer, não vou fa­zer barulho”.

POR  EM 02/10/2012 ÀS 11:03 PM

Gabriel García Márquez: o escritor em seu labirinto

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Ao abordar a decadência da história encarnada num Símon Bolívar em estado terminal, a narrativa primorosa de García Márquez ajuda a resgatar a paternidade perdida na memória
Um trabalho acadêmico sobre Gabriel García Márquez serviu para resgatar memórias pessoais e ao mesmo tempo mergulhar na representação dos mitos do heroísmo sul-americano. García Márquez, mestre em desvendar o imaginário de uma cultura pontuada pelo exagero, nos dá no seu livro “O General em Seu Labirinto” um quadro terrível de Símon Bolívar, o ex-líder que faz uma descida aos infernos ao longo de um rio. Exatamente o contrário da ascensão que sua lenda experimenta hoje, cercada de equívocos por meio de eventos políticos.
Por isso, é bom resgatar a literatura no que ela tem de mais contundente, a capacidade de nos abrir os olhos e o coração para as muitas faces da opressão.
Onde andará meu Quixote? A edição espanhola de bolso, em papel bíblia, cheia de ilustrações, que alguém me deu de presente nos anos 1960, deve andar perdido em algum canto da biblioteca improvisada ao longo do tempo na minha casa. Especialmente as ilustrações desse primoroso exem­plar são a pista fundamental para analisar o livro de García Már­quez. Um quadro representando de Bolívar deitado fez emergir na minha memória os desenhos e pinturas dessa edição comemorativa do romance de Miguel de Cervantes. Nessas imagens, o cavaleiro da triste figura jaz, no fim da vida, enlouquecido e alquebrado pelas lutas contra gigantes imaginários.
O Bolívar de García Márquez é um Quixote que traz dentro de si, enterrada, sua Dulcineia — a esposa Maria Teresa Rodríguez del Toro — que nenhuma mulher, nem mesmo a lendária companheira Manuela Sáenz, poderá substituir. Tem a seu lado, permanentemente, um Sancho Pança — o escudeiro José Palacios — ao mesmo tempo prático e idealista, que tudo provê para seu ídolo sem visar recompensas. Perambula, como um cavaleiro andante ar­dendo em febre, pela América em ruínas. Nos lugares onde pou­sa — como se fossem estalagens de uma Espanha medieval — é recebido como herói, mas tratado como um moribundo, contaminado pela tísica.
O guerreiro decadente, apesar da lucidez, ainda sonha com a segunda chance. Quer enfrentar seus moinhos de vento — os inimigos que usurparam o po­der, gigantes impassíveis de mil braços que, junto com a doença, o reduzem à imobilidade. A humanização de Bolívar, assim, obedece à matriz literária cervantina, como se Quixote en­contrasse na América o palco ideal para sua loucura.
Eu também perseguia minha segunda chance. Meu exemplar do Quixote já tinha sumido uma vez, quando foi emprestado para um colega jornalista. Não houve devolução porque viajei subitamente da cidade onde trabalhava, deixando a relíquia para trás. Só matei a charada quando lancei meu primeiro livro e a apropriação involuntária foi confessada publicamente, numa resenha assinada pelo dono improvisado do presente perdido. Houve prova da boa fé quando recebi, intacta, a encomenda pelo correio.
Aproveitei aquele reencontro para continuar a leitura do livro. Mas não aprendi a lição. Acabei não reservando um lugar especial para o Quixote e por isso, agora, reviro estantes e consulto espaços esquecidos embaixo de pilhas de papéis velhos — poemas inéditos, artigos publicados, memórias de uma vida dedicada ao texto. Pro­curo em vão.
O consolo é ter encontrado o fio desse labirinto e poder, na se­quência, carregar outro caso literário antigo para entender melhor a agonia do herói descrito por Gar­cía Márquez. Enxerguei na­quele Quixote latino-americano o travo amargo de um guerreiro si­tuado mais ao sul, é verdade, mas igualmente crítico e prostrado diante do destino. Falo de Martin Fierro, o herói do escritor argentino José Hernandez, sucesso popular desde 1872. Na análise que faz sobre esse clássico da literatura latino-americana, Jorge Luis Bor­ges confirma essa minha suspeita (li sua análise depois de ter levantado a hipótese do Bolívar quixotesco), traçando alguns paralelos.
Primeiro, identifica duas obras que extrapolam seus objetivos — Cervantes vai além de uma crítica às novelas de cavalaria e Her­nandez, ao denunciar injustiças locais e datadas, consegue enfocar “o mal, o destino e a desventura, que são eternos”. Borges também aponta para a falta de identificação dos dois heróis com o Estado, uma herança espanhola que passa da península ibérica para o pampa. Ao mesmo tempo, destaca o caráter nacional que cada um dos livros adquire — assumindo e definindo o perfil do país onde foi gerado — e a presença do sobrenatural, elemento mágico obrigatório em toda obra eterna. E também encontra um Sancho em Martin Fierro, que é o personagem Vizcacha, um “tipo proverbial por excelência”.
Na página 228 do livro de García Márquez, Bolívar diz textualmente, comentando a diversidade alimentar na cidade do México: “Se comen todo lo que camina”. Trata-se de uma citação literal, não assumida, de “Todo bicho que camina va a parar al asador” (página 125 do livro de Hernandez), verso muito citado por meu pai na minha infância. É possível que a solidão de Bolívar tenha também em Martin Fierro sua matriz. O herói desterrado no tempo, alimentado pela memória, que anda (Quixote), canta (Martin Fierro) ou dita cartas (Bolívar) está dividido: tem a consciência da morte, mas sonha em reencontrar a glória.
Essa tragédia compõe o labirinto expresso na linguagem. García Márquez coloca o personagem diante do próprio mito, consciente de que o corpo frágil, deitado na rede, não encarna mais o herói que as pessoas insistem em invocar. Ele não é mais o libertador, apesar de manter, em alguns momentos, sua autoridade nata. A guerra, agora longe no tempo, perdeu o sentido. Independência, para quê? Talvez tivesse sido travada por uma questão de virilidade, de sedução pessoal ou simplesmente de paixão. São esses, no fundo, os valores apontados por García Márquez que regem a construção precária das nações latino-americanas divididas.
A penosa viagem ao longo do rio Madalena foi propositadamente escolhida por ser a menos do­cumentada e, portanto, a mais a­berta a uma abordagem diversa da mitologia oficial. O texto vai despindo o teatro da guerra, misturando batalhas com boatos, levantando fatos por meio de várias versões, entronando a farsa, compondo cenários de uma história que chega ao osso do herói prostrado e em delírio. O exagero da narrativa engessado num texto magistralmente enxuto — marca registrada do gênio de García Már­quez — força a ideia do “real”, tornando-o expressivo pelo excesso, levando-o à lenda.
Como contraponto, o fio da história é retomado por meio de elementos prosaicos, nos quais cachorros, músicas e amores ligam-se à ideia de lutas, golpes, repúblicas.
Este recorte, feito de leituras e memórias, está atento ao alerta de Hayden White sobre os perigos do texto, onde o historiador/escritor cria as premissas para forçar as conclusões e confundi-las com a verdade. Sorte que, ao perder meu Quixote, encontrei Borges numa vitrina de livraria. Mas não desisto e continuo procurando — onde andará aquela relíquia, perdida na poeira de outros livros, na sala, no escritório, no armário?
Enquanto insisto, escuto passos. Meu pai caminha no quarto. Lembro do seu chapéu de feltro desabado, pistola calibre 32 no bolso do paletó comprado em Buenos Aires, passeando pelas ruas da nossa cidade. Ou mesmo contando histórias ao redor de uma fogueira assombrada pelo céu do pampa. Ex-combatente de 1930 e 1932, gostou quando virou personagem de alguns poemas do meu segundo livro.
No nosso último encontro, me acompanhou até a estação rodoviária. Longamente, como nunca tinha feito, me abraçou. Mais tarde, avisou para os fi­lhos, inumeráveis: “Não se alarmem. Quando eu morrer, não vou fa­zer barulho”. Cum­priu sua promessa, num inverno longínquo. Tinha feito barulho demais. Era um desses guerreiros, que não dão o braço a torcer no momento da última solidão, quando se veem rodeados apenas por palavras.
Sua herança foi aquele abraço, tão presente quanto um livro perdido e insubstituível.

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