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domingo, 3 de agosto de 2014

So Far Away...







Pois é, ainda longe… muito longe do tato, contato, cheiro dessa Bahia que, de certa maneira, nunca me deixou e eu teimo em conservar em mim, um amor louco e apaixonado, às  vezes cego, que me diz que não há distâncias em verdade, pura ilusão...

Hoje, Domingo, aqui no meu isolamento voluntário, sorvo o aroma da manhã úmida e verde que se espalha pelo vale de Napa. Penso que poderia estar em qualquer outro lugar, porque aqui? E me deixo levar pela memória na retrospectiva que percorro de vez enquando, quando perguntada ou só mesmo pra não perder o rumo, pois la atrás, naquele Março de ’73, está a razão ou motivo pra me largar assim pelo mundo sem eira nem beira e somente com os instrumentos que sempre me guiaram, coração e liberdade, estes, minha régua e meu compasso, me levarão à tumba um dia, se eu não puder dar um jeito...

Quem me conhece sabe, e quem não, adivinha, que eu não sigo livros nem mandamentos, vou fazendo a minha vida como der e vier, à meu modo, do meu jeito, com minha sabedoria e experiência, com erros e acertos, muita luta e perseverança, pois sem o sabor do suor a vida fica sem gosto...

Não tinha eu motivos políticos, familiares, sociais, econômicos, nada assim forte demais que me empurrasse para fora de casa, da Bahia e do Brasil, apesar da época ter sido de opressão e dureza, mas, quando nunca foi??? Fui por que me mandava, ou pedia, o coração e a ânsia de levantar vôo, conhecer mundo novo e naqueles anos, na minha juventude, nada melhor do que San Francisco, CA como bússola...

O que eu gosto mesmo é de sentir o coração batendo forte e os olhos brilhando; poder dizer “te amo”, em qualquer língua; olhar pra traz e pra frente com um sorriso nos lábios, porque me acostumei com o poetinha Vinicius sussurrando nos meus ouvidos: “É melhor ser alegre que ser triste...”

Sinto-me grata. Um sentir morno, de colo ou de praia de manhã cedo, deixa disposição na alma.
Obrigada, Obrigada, Obrigada....




RS 08/03/14

terça-feira, 29 de julho de 2014

De tempos e maré cheia.


Maré cheia

Publicado em 29 de julho de 2014 por Silvia Badim




E então eu fiquei vendo aquela bola alaranjada desaparecer no horizonte. O vento zunia forte uma melodia que me desconcertava os ouvidos. Eu estava feliz. Estranha, e intensamente, feliz. As cores do dia coloriam o que eu não sabia. E eu abraçava quente o presente. O que tinha era bom. Bom de doer os olhos, cheios de areia e brisa de mar. O mesmo mar que me corria por dentro, em medos e incógnitas, e em deslumbramento de poder fluir. No mar o chão é lodo, e também é água. Um chão que suporta o improvável e imprevisível dos dias.

Eu voei. Até onde eu não sabia que podia chegar. Até onde eu me dobrei sobre o controle que não tinha. Vento, gota salgada sob o corpo quente. Beleza que me arrancava lágrimas e silêncios de contemplar a morte. Seu corpo, meu corpo, nossas vidas ali, em mistério de existência conjunta. Docemente enlaçadas, em dança de encher o peito. Sim, o momento era cheio, robusto, vivo. E ele morria secretamente, com o dia que caia no mar.

Assim é, um tempo sempre a escapar. Um porvir de reticências. A terra movediça que nunca vira chão de fincar os pés. O susto do amor, a alegria do respiro, a rota incansável do tempo que lambe a areia e reconstrói paisagens. As dunas móveis, as lagoas de chuva e seca, segredos de vida líquida. Arrepio, calafrio, rumba a beira-mar a cantar o incontido. E as ondas, mansas, sem pressa, fugidias, riem de mim: pequena concha na imensidão submersa. A ida. Para onde não há seta. O destino que nos guarda, buraco frouxo, refluxo, renascença, dúvida, maré que nos cobre, cega, vermelho, escuro, fim.


http://biscatesocialclub.com.br/2014/07/mare-cheia/

Hora de ir


Publicado em 5 de outubro de 2013 por repimlins



E aí você disse que era para eu ir embora e eu fui.

Esse é um começo de livro. Um livro bonito, que eu comprei – como tantos – pelo nome, um dia: “L’enfer, son casino, sa plage” (o inferno , seu cassino, sua praia).
Mas nem é do livro que eu queria falar, e sim da frase e de seu contexto: uma mulher que é apaixonada por um sujeito que diz pra ela ir embora.

E ela vai.

Tantas vezes é assim: a gente não quer ir embora – mas é pra ir. Porque a outra pessoa, porque o mundo, porque tanta história. Porque já foi e não é mais. Porque tá escuro, tá cinzento, tá enevoado. Porque tem cheiro de tempestade. Porque algo puxa pra outro caminho, embora. Muito embora. Mas é pra ir e a gente sabe. A gente fecha os olhos apertado, a gente tapa os ouvidos com as mãos, a gente tenta não lembrar, mas no fundo a gente sabe. A gente sabe que sabe. Não quer saber que sabe, talvez: mas sabe.

E tem um dia em que a gente vai.

E, como na história do livro, a gente queria que tudo fosse outro, que o novelo da vida tivesse se desenrolado fazendo outros desenhos e que desse pra ficar. A gente pede, até, baixinho, olhando de lado: “me deixa ficar. só mais um pouquinho, vai.” Só que não. Não adianta, não é aquilo, o lugar onde a gente queria se enrodilhar já não existe mais. É um lugar-memória e pra lá dá pra ir às vezes. Depois. Quando não doer mais tanto.

Agora é hora de ir.

De arrumar a mochila, cuidando pra levar só o estritamente necessário: não tem sentido carregar peso demais, atrasa a caminhada. Atenção para os sapatos: se for possível, escolher dois pares – um que aguente o tranco, que seja companheiro das subidas e descidas dos terrenos desconhecidos, e outro levinho, uma sandália talvez, pra deixar os pés de fora em dias de sol, pra balançar na ponta do dedo, pra descalçar sorrindo.

Não tinha dito isso, e agora pode nem parecer: mas vai ter sorrisos também. Ainda vai ter, como não? Claro que vai. Sorrisos, de leve, à toa, braços abertos, banho de cachoeira, rede na varanda, conversas até de manhã. Gargalhadas, cigarros acendidos um no outro, mais cachaça, só mais esse, olhares de lado, olhares de frente, olhares. Mesas com poemas entalhados, o sol nascendo na praia, violão na Sé de Olinda, um jeito de tocar no cabelo.

Eu sei que não parece, mas vai ter.

Ah, se vai.

(mas isso é depois)

Agora, é hora de ir.


http://biscatesocialclub.com.br/2013/10/hora-de-ir/

sexta-feira, 25 de julho de 2014

dos Poetas...



"O Mundo é um livro imenso, que Deus desdobra aos olhos do Poeta! Pela criação visível, fala o Divino invisível sua Linguagem simbólica. A Poesia, além de ser vocação, é a segunda das sete Artes e é tão sublime quanto suas irmãs gêmeas, a Música e a Pintura! Vem da Divindade a sua essência musical. Mas, meus Senhores, ninguém queira tomar como Poesia qualquer estrofe, pois há muitas Poesias sem estrofes e muitíssimas estrofes sem Poesia... Ser Poeta, não é somente escrever estrofes! Ser Poeta, é ser um “geníaco”, um “filho assinalado das Musas”, um homem capaz de se alçar à umbela de ouro do Sol, de onde Deus fala ao Poeta! Deus fala através das pedras, sim, das pedras que revestem de concreto o trajo particular da Idéia! Mas a Divindade só fala ao Poeta que sabe alçar seus pensamentos, primando pela grandeza, pela bondade, pela glória do Eterno, pelo respeito, pela moral e pelos bons costumes, na sociedade e na família! Existe o Poeta de loas e folhetos, e existe o Cantador de repente. Existe o Poeta de estro, cavalgação e reinaço, que é capaz de escrever os romances de amor e putaria. Existe o Poeta de sangue, que escreve romances cangaceiros e cavalarianos. Existe o Poeta de ciência, que escreve os romances de exemplo. Existe o Poeta de pacto e estrada, que escreve os romances de espertezas e quengadas. Existe o Poeta de memória, que escreve os romances jornaleiros e passadistas. E finalmente, existe o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias, e assombrações."
- João Melchíades (personagem), de Ariano Suassuna, em "Romance d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta". 8ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 239.


http://maristelafarias6.blogspot.com/2014/04/ariano-suassuna-o-decifrador-de.html


Ariano Suassuna, o "decifrador de brasilidades"





Noturno

Ariano Suassuna


Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?




Ariano Vilar Suassuna nasceu em João Pessoa em 1927. A força do arcaico é justamente sua contínua presentificação e, conseqüentemente, sua capacidade de se eternizar. A arte genuinamente popular se baseia nesse pensamento. Para transformar o local em simbólico e universal, Ariano Suassuna, o "decifrador de brasilidades", como já foi chamado, e um dos principais preservadores da cultura do país, alia os valores mais arraigados de sua região a seu imenso arcabouço erudito e teórico. Com uma escrita que junta, a um só tempo, elementos do Simbolismo, do Barroco e da literatura de cordel, esse ficcionista, poeta, dramaturgo e pensador da cultura, transforma o sertão no palco das questões humanas de qualquer lugar do mundo. Ele foi o criador do Movimento Armorial, que tem como projeto a confluência simultânea de todas as artes populares do Nordeste brasileiro, trabalhando a favor da dignidade humana. ‘Romance d’A Pedra do Reino’ é considerado um dos melhores do país, e a peça ‘O Auto da Compadecida’, além de encenada diversas vezes por todo o mundo, já recebeu três adaptações cinematográficas.

Fonte: http://pt.shvoong.com/books/biography/1659153-ariano-suassuna-vida-obra/#ixzz38VNpYqWx



Ariano Suassuna recebia inúmeros convites para realizar "aulas-espetáculos" em várias partes do País onde, com seu estilo próprio e seus "causos" imaginativos, deixava o público encantado.



Ariano Suassuna faleceu aos 87 anos, no Recife, decorrente das complicações de um AVC hemorrágico.


Obras de Ariano Suassuna

Uma Mulher Vestida de Sol, 1947

Cantam as Harpas de Sião (ou o Despertar da Princesa), 1948

Os Homens de Barro, 1949

Auto de João da Cruz, 1950 (Prêmio Martins Pena)

Torturas de um Coração, 1951

O Arco Desolado, 1952

O Castigo da Soberana, 1953

O Rico Avarento, 1954

Ode, 1955 (poesia)

O Auto da Compadecida, 1955

O Casamento Suspeito, 1956

Fernando e Isaura, 1956

O Santo e a Porca, 1958

O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna, 1958

A Pena e a Lei, 1959

A Farsa da Boa Preguiça, 1960

A Caseira e a Catarina, 1962

O Pasto Incendiado, 1970 (poesia)

Romance d'a Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai e Volta, 1971 (partes da trilogia)

Iniciação à Estética, 1975

A Onça Castanha e a Ilha Brasil, 1976 (Tese de Livre Docência)

História d'o Rei Degolado nas Caatigas do Sertão: ao Sol da Onça Caetana, 1976 (parte da trilogia)

Sonetos Com Mote Alheio, 1980 (poesia)

Poemas, 1990 (Antologia)

Almanaque Armorial, 2008

http://www.e-biografias.net/ariano_suassuna/





 “Meu nome é Ariano Suassuna...”

LEMBRA DE MIM?

Há alguns anos, no saguão de um hotel de Minas, eu estava com Adauto Novaes, quando se aproximou a figura bela, vestindo a habitual roupa clara de algodão, e falando com a voz que passa a morar no ouvido de quem a ouve: “Meu nome é Ariano Suassuna...”, apresentou-se ele, que não precisava absolutamente de apresentações e comentando música; não é hora de lembrar o que disse mas sim quem disse. Respondi, respondemos que sabíamos, sim, que de Suassuna se tratava. Foi um diálogo que emocionou por tratar-se dele, é tão bom a decência ter voz e vestir-se de algodão claro!
Ariano foi-se embora do mundo ontem. A memória volta a esse dia em que o conheci, e me lembro das dezenas de gentes que perguntam: “Lembra de mim?”, na rua, em bastidores, em aeroportos, causando aflição a perguntador e a perguntado e estimulando mentiras medrosas, “lembro”, quando em absoluto nos fogem o rosto e o jeito de uma pessoa vista brevemente em alguma cidade e acontecimento há tempo perdidos, incrustados num ego que precisa do arquivo da memória de alguém.

Entre tanta sabedoria feliz que Ariano espalhou no Brasil, ele, a quem honrava nunca ter saído do País, conte mais essa. Justamente a ele, que nunca precisou de um LEMBRA DE MIM?, a modéstia levava a apresentar-se, a despeito de sua forte singularidade.

Em tempo: Ariano e meu pai, os dois, vestiam-se de maneira semelhante: túnica e calça de algodão e estamos conversados.
Beijos, Ariano.

Tom Zé
 — with Deane de Jesus and Tereza Simões.

Photo: LEMBRA DE MIM?

Há alguns anos, no saguão de um hotel de Minas, eu estava com Adauto Novaes, quando se aproximou a figura bela, vestindo a habitual roupa clara de algodão, e falando com a voz que passa a morar no ouvido de quem a ouve: “Meu nome é Ariano Suassuna...”, apresentou-se ele, que não precisava absolutamente de apresentações e comentando música; não é hora de lembrar o que disse mas sim quem disse. Respondi, respondemos que sabíamos, sim, que de Suassuna se tratava. Foi um diálogo que emocionou por tratar-se dele, é tão bom a decência ter voz e vestir-se de algodão claro! 
Ariano foi-se embora do mundo ontem. A memória volta a esse dia em que o conheci, e me lembro das dezenas de gentes que perguntam: “Lembra de mim?”, na rua, em bastidores, em aeroportos, causando aflição a perguntador e a perguntado e estimulando mentiras medrosas, “lembro”, quando em absoluto nos fogem o rosto e o jeito de uma pessoa vista brevemente em alguma cidade e acontecimento há tempo perdidos, incrustados num ego que precisa do arquivo da memória de alguém.

Entre tanta sabedoria feliz que Ariano espalhou no Brasil, ele, a quem honrava nunca ter saído do País, conte mais essa. Justamente a ele, que nunca precisou de um LEMBRA DE MIM?, a modéstia levava a apresentar-se, a despeito de sua forte singularidade.

Em tempo: Ariano e meu pai, os dois, vestiam-se de maneira semelhante: túnica e calça de algodão e estamos conversados. 
Beijos, Ariano.

Tom Zé

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ariano Suassuna - Arte como Missão







Ariano Suassuna (16/06/1927 - 23/07/2014)



LÁPIDE

(Ariano Suassuna)


Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo


nas pedras do meu Pasto incendiado:


fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,


com a Espora de ouro, até matá-lo.


Um dos meus filhos deve cavalgá-lo


numa Sela de couro esverdeado,


que arraste pelo Chão pedroso e pardo


chapas de Cobre, sinos e badalos.


Assim, com o Raio e o cobre percutido,


tropel de cascos, sangue do Castanho,


talvez se finja o som de Ouro fundido


que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —


tentei forjar, no meu Cantar estranho,


à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!




quarta-feira, 23 de julho de 2014

COMO NOSSOS PAIS - BELCHIOR


COMO NOSSOS PAIS: ROMANCE DE UMA GERAÇÃO





Nei Duclós



É como capítulos de um romance: a canção Como os nossos pais, de Belchior, define o perfil de uma geração, a dele, a nossa, dentro da tradição oral que acabou gerando as grandes epopeias. O trovador é um catequista e um profeta, um lúcido arauto do que vê e sente, uma referência para seus contemporâneos. Assume assim a função original da poesia, que era contar uma longa história, épica, ou seja, em que personagens se transformam ao longo da narrativa. Vamos aos capítulos:


CAPÍTULO 1: ANUNCIAÇÃO

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

O trovador diz a que veio. Como um Quixote de formação erudita (os discos aqui como atualização da cultura que era livresca) partiu para a aventura, e ele é o Cervantes que escreve as memórias dessa trajetória. Avisa, adverte que sua história é única, original, pois não está disponível na indústria do espetáculo. Ele e sua memória são os fundamentos dessa história. Assim pretende fisgar o ouvinte/leitor, com a isca de algo inédito e que talvez se identifique com a experiência da plateia.


CAPÍTULO II: O DESPERTAR PARA A HISTÓRIA

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Em vez de imaginar sua literatura, o trovador cria a partir do vivido, que tem mais carisma do que o sonho. A arte é imensa mas não se compara à grandeza da vida real, fonte de toda representação. E essa vida, maior do que a arte, é comum a todos. Não se trata de algo especial no canto do trovador. Ele narra o que existe ao nosso redor e dentro de nós. O que conta não está confinado à sua vivência, à sua alma. Está também em nós.


CAPÍTULO III: DESTINO É ARMADILHA

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Nascemos para o amor, mas somos surpreendidos pela guerra. Desperdiçamos nossa vocação diante da tirania vitoriosa, que impede o crescimento. A geração do amor é vencida pela ditadura.


CAPÍTULO IV: PROFECIA

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

A aventura leva à esperança de superação. O desconhecido é a passagem para um mundo novo, diverso da herança da repressão. O Mal vai passar, graças ao Tempo, à tendência irreversível de mudança e à disposição de abraçar o novo.


CAPITULO V: AMARGO BALANÇO

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Estamos presos ao passado, apesar das promessas de mudança, dos sinais explícitos da superação. Nós somos a âncora desse navio atolado no cais. Cristalizamos hábitos, como fizeram as gerações passadas, apesar de sermos tão imbuídos da nossa ideia de revolução. Em vez de nos transformar, engessamos nossas descobertas e fomos atropelados pelo Tempo. Repetimos o erro das gerações passadas, tão combatidas. Essa é talvez a bofetada mais estridente desta grande canção..


CAPÍTULO VI: A LIÇÃO DO PASSADO

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

O trovador não poupa sua ascendência e adverte a geração com a lição deixada pelo passado: quem achou que mudava acabou sucumbindo. É preciso descobrir essa realidade dura para abrir-se definitivamente para a transformação, abandonando o que nos deixa atrasados para sempre.


http://outubro.blogspot.com.br/2014/07/como-nossos-pais-romance-de-uma-geracao.html

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Vida volátil



Publicado em 11/10/2011

João Ubaldo Ribeiro


Fico escrevendo aqui umas coisas meio paranoicas sobre a evolução tecnológica e aí concluo que me explico mal, porque tem gente que pensa que sou um tecnófobo reacionário, que gostaria de escrever com pena de ganso. Grave injustiça. Fui dos primeiros escritores brasileiros a usar computador para escrever, tripulando um clone nacional (e ordinário) de um Apple II, sem disco rígido e com 148 KB de memória, dos quais o editor de texto comia 120. Com sua tremenda impressora matricial, fazia sucesso e eu recebia visitas turísticas a meu escritório. Sempre gostei de novidades tecnológicas e claro que não sou, nem adianta ser, contra essas novidades.

Meu problema não é com tecnologia, é com certos usos que podem fazer dela. Considerando a geral natureza do ser humano, que, agora mesmo, está se matando ferozmente em várias partes do mundo, esses usos, como alguns que já mencionei aqui, às vezes me metem medo. E, se a tecnologia nos beneficia de incontáveis formas, não devemos esquecer como ela é também usada para o mal e para objetivos odiosos e como pode afetar nossa vida para pior, em termos humanos e sociais.

Além disso, nesta longa estrada cibernética que percorri e continuo a percorrer, tenho tido de me adaptar a mudanças cada vez mais rápidas, que cansam até mesmo alguns viciados em comprar todas as versões do iPad. Nos Estados Unidos, quando computador aqui ainda se chamava “cérebro eletrônico”, cheguei a estudar a linguagem Fortran e trabalhar com um computador que, num ambiente refrigeradíssimo, ocupava todo um andar de um prédio da universidade e era infinitamente menos poderoso que meu notebook de um quilo e pouco.

De lá pra cá, até dá para começar a enumerar as novidades que foram aparecendo, mas hoje ninguém mais pode fazer isso sem recorrer ao Google. A mudança é o tempo todo. E está certo que tudo neste mundo é passageiro, inclusive ele próprio, mas acho que o homem gosta de ter algum senso de permanência, de duração. Antigamente era possível reservar tempo para nos acostumarmos às mudanças, mas hoje esse tempo não existe mais e já é piada conhecida dizer-se que o tempo que economizamos com os novos gadgets é necessário para que possamos aprender a usar os novíssimos.

Lembro-me de um velho porta-retratos na casa de meus pais, com uma foto em preto e branco de meu avô paterno, que ficou lá por mais de cinquenta anos. Havia algo de permanência naquela antiga moldura de madeira e no sorriso do velho, havia um certo sossego, coisas que duravam e eram guardadas “para sempre”. No futuro, acho que não se conhecerá mais essa sensação. Os porta-retratos agora são eletrônicos e programáveis para fazer exibição de slides, mudar a foto periodicamente, tocar música e mais outras coisas. As fotos, que hoje se produzem com uma abundância inadministrável, também não são mais para ficar, nada mais é para ficar.

A maior parte das novidades dura apenas dias e ninguém se lembra delas depois. Aliás, ninguém se lembra de mais nada e a fama às vezes já nem alcança os 15 minutos de Andy Warhol, vai embora literalmente em menos tempo, como acontece com muita gente enfocada em reportagens de televisão. Nossa efemeridade, sempre um pouquinho desagradável de lembrar, não tem mais sua sensação aliviada de quando em vez, ela agora se mostra em toda parte e todo o tempo, nada dura nada e os registros são voláteis. Toda a civilização digitalizada é volátil – e, aliás, governos como o americano conservam seus dados preciosos em papel, método de armazenamento mais confiável que circuitos integrados ou memórias eletrônicas de qualquer natureza.

Todo mundo saberá ler e escrever, num mundo de mensagens instantâneas? Talvez não. Não me refiro a escrever à mão, com lápis ou caneta. Hoje já tem quem escreva uma página digitando com os polegares e não rabisque três linhas com uma caneta. Mas estou pensando em leitura e escrita sem o uso do alfabeto. De vez em quando, sou tentado a crer que as futuras mensagens instantâneas, torpedos e similares, serão grafados mais ou menos com ideogramas simples – imagens como aquelas carinhas Smiley que aparecem em milhares de aplicativos, acrescidas talvez de uma ou outra palavra abreviada em letras. De escrever e ler usando alfabeto e sintaxe, como hoje ainda fazemos, não haverá necessidade para grande parte dos usuários de aplicativos de mensagens. Passaremos mais ou menos para hieróglifos simples, que deverão ser perfeitamente adequados ao vocabulário e ao universo de interesses desses usuários. E talvez os que saibam ler e escrever usando o alfabeto venham a constituir uma categoria especial na sociedade, como eram os escribas da Antiguidade.

Fazer conta, então, nem pensar. Não acredito que na escola ainda se aprenda a tirar raiz cúbica na munheca, como no meu tempo (eu nunca aprendi). Aliás, não acredito na sobrevivência da tabuada – e não me refiro àquelas tipo 7 vezes 8, de que a gente não lembrava na época e até hoje não lembra. Quem, num futuro não muito distante, responder quantas são 6 vezes 9 sem consultar a calculadora será levado para estudos num instituto de neurologia e proporão que se conserve seu cérebro depois da morte. É nesse tipo de coisa que penso, quando falo em tecnologia, não é contra a tecnologia. Será bom para nós não sabermos mais escrever nem fazer contas e deixar fantásticas aptidões naturais, como a memória, irem se perdendo por falta de uso e exercício? Será realmente bom que tudo seja descartável e não dure mais que poucas semanas, nesta vida cada vez mais volátil?


Fonte: O Estado de São Paulo, 09/10/2011