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sábado, 10 de janeiro de 2015

Revolta dos Malês

Revolta dos Malês é revista em textos de escravos e de jornais da época

Motim de islamitas na Bahia completa 180 anos

POR 



Escravos e brancos se misturam na Praça da Piedade, no Centro de Salvador, em gravura do século XIX: lugar foi o palco da Revolta dos Malês, que durou um dia - Reprodução

RIO - Diz-se que, para o muçulmano, Deus se revela pelas letras. É também através de sinais gráficos — unidos em palavras em português, inglês e sinais árabes desenhados com esmero — que estudiosos têm se debruçado recentemente sobre a Revolução dos Malês. O movimento de negros muçulmanos em Salvador, que completa 180 anos no próximo dia 25, pretendia impor a libertação dos escravos e tomar o poder local. Tendo ocorrido na capital baiana, um dos mais importantes centros do país à época, o levante ganhou repercussão em jornais brasileiros e estrangeiros. Liderado por homens que se distinguiam dos demais escravos por motivos religiosos e consequente domínio da escrita e da leitura, ficou registrado também em documentos escritos pelos próprios malês, expressão derivada de imalê, que, na língua iorubá, significa muçulmano. Livros, amuletos e pequenos pedaços de papel que continham palavras escritas em árabe foram apreendidos com os revoltosos.
As palavras escolhidas pelos jornais da época para descrever o levante, analisa Fernando Resende, professor de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), reiteravam estereótipos em torno dos escravos afro-muçulmanos que participaram da rebelião. Resende interpretou o preconceito em relatos de jornais breves, noticiosos e pouco esclarecedores do problema da escravidão. Na verdade, diz, a existência de homens tratados como propriedade de senhores não era sequer tratada como um problema. A preocupação da imprensa, conta ele, era essencialmente comercial. O tema é explorado em sua pesquisa de pós-doutorado recém-concluída na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. Intitulado “Poéticas da alteridade: narrativas midiáticas e o processo de invenção do outro”, o estudo esquadrinhou jornais do século XIX, sobretudo ingleses. Para Resende, a questão tem um viés histórico e ainda ecoa nos dias de hoje.

— Eram notícias muito tomadas por uma perspectiva do Estado. Além de falar uma língua que a colônia não conhecia, eles viviam em um país extremamente católico. O fato de serem muçulmanos aparece com força nesses jornais, com uma abordagem muito parecida com a que vemos hoje. Cai como uma suspeita sobre eles, e (a narrativa) reforça que aquele seria um sujeito indesejado. Faço uma crítica a essa reiteração de uma lógica muito homogeneizadora, que coloca todos num mesmo lugar — avalia o professor.

LEITURA CORÂNICA, REZAS E CONSPIRAÇÃO

Referência no assunto por ter escrito o pioneiro livro “Rebelião escrava no Brasil — A história do levante dos malês em 1835”, o historiador João José Reis detalha o desenrolar do levante que provocaria agitação na cidade por horas. Era madrugada do dia 25 de janeiro de 1835 quando a Revolta dos Malês se concretizou. Organizada sobretudo por muçulmanos, de diferentes etnias, com protagonismo de nagôs e participação de hauçás, o movimento teria sido planejado em reuniões — possibilitadas pela relativa autonomia de que dispunham escravos urbanos — em que exercícios de leitura e escrita corânicas dividiam tempo com rezas e conspirações. E tomou forma ao fim do mês sagrado do Ramadã, com revoltosos munidos de roupas islâmicas, anéis e amuletos protetores produzidos com cópias de rezas, escritos árabes. Mais tarde apreendidos, eles comprovariam o conhecimento da escrita pelos africanos, encarado à época como um sinal de civilização. Cerca de 600 revoltosos participaram do levante, que teve também participação de não muçulmanos. Naquele momento, Salvador tinha cerca de 65 mil habitantes: quatro em cada dez eram escravos, e os brancos não passavam de 20%. O objetivo da revolta seria implantar na Bahia uma nação malê, controlada por muçulmanos.
— Essa revolta é as vezes superdimensionada pela historiografia porque produziu um enorme volume de documentos, e, por isso, pode ser melhor conhecida, ao contrário de outras revoltas e conspirações escravas na Bahia da época, que foram mais de 30. Algumas delas foram bem mais sérias do que a dos malês pelo número maior de africanos envolvidos, pela sua duração, por acontecerem na região dos engenhos, o Recôncavo, pelo estrago material e número de vítimas provocadas pelos rebeldes. A Revolta dos Malês, no entanto, aconteceu no coração de uma grande cidade, onde os brancos se sentiam mais protegidos do que no Recôncavo. A ousadia do ataque, a repercussão local, nacional e até internacional, além de sua dimensão religiosa, tornam esse levante sem dúvida importante — opina Reis.

Para Luciana da Cruz Brito, doutora em história pela Universidade de São Paulo (USP) e autora de estudos sobre povos negros no Brasil, a escrita árabe tem lugar central na interpretação do levante. Ela explica que a religião muçulmana estava em expansão entre africanos na Bahia. Era dever dos novos devotos aprender a ler o Corão.
— Muitos revoltosos falavam e tinham a habilidade de escrever nessa língua, e, embora não seja possível precisar quantos exatamente podiam ler e escrever em árabe, havia um processo de expansão da religião na província da Bahia — conta a historiadora. — Ainda nos autos do processo, muitos acusados afirmaram não conhecer aquela língua numa tentativa de escapar das acusações e posteriores penas aplicadas ao revoltosos. A língua foi um elemento extraordinário do levante, uma vez que as autoridades locais desconheciam o árabe. Portanto, quando obrigados a traduzir para o português alguns desses documentos que continham informações importantes sobre os planos do levante, alguns suspeitos simplesmente afirmaram que não sabiam ler ou não conseguiam fazer a tradução.

Uma rebelião ‘delicada’

“Leitura, encantamento e rebelião — O Islã negro no Brasil”, tese de doutorado defendida por Priscilla Leal Mello na UFF, em 2009, examina o assunto. A historiadora estudou árabe e examinou uma série de documentos, entre eles os autos da devassa do levante e documentos árabes do Arquivo Público do Estado da Bahia, uma coleção de amuletos e orações. Em sua pesquisa ela ressalta a organização para a rebelião, da qual fizeram parte escritos corânicos e estudos em madraçais, as escolas corânicas improvisadas de Salvador e do Recôncavo baiano.

— O estudo da língua árabe surgiu por encantamento, mas também por respeito àqueles malês. Quis percorrer as escolas corânicas, como eles o fizeram. Hoje, depois de anos de estudos, trabalho com o que no momento estou chamado de delicadeza malê. Há uma delicadeza na rebelião, que é todo o preparo espiritual para o levante. O árabe é uma língua muito delicada para aprender. Ao perceber isso, comecei a tecer, muito recentemente, olhares outros sobre a escrita das orações e dos amuletos, em busca dessa delicadeza — afirma a historiadora. — Não conseguiria avaliar a participação dos que escreviam em caracteres árabes em termos numéricos ou percentuais. A documentação é muito entrecortada. Há escritos sem autores. E certamente há autores sem que tenham sobrevivido os escritos. Mas a documentação é clara acerca da relação dos revoltosos com as letras.

De acordo com a historiografia sobre o tema, a Revolta dos Malês foi fortemente reprimida. Das seis centenas de revoltosos, 73 foram mortos em enfrentamento, além de dez oponentes ao levante. Os derrotados foram condenados a penas de açoite, prisão, banimento e até morte. A partir dali, a população africana passou a ser submetida a uma vigilância e repressão abusivas.


— A repressão ao Levante dos Malês foi tão violenta que é difícil afirmar se esta revolta deixou heranças para a Bahia e para o Brasil e que possam ser facilmente percebidas. Os acusados de envolvimento foram punidos com pena capital, açoites e até mesmo deportação, em alguns casos. Portanto, qualquer sinal de envolvimento no levante e suspeita de associação com a religião muçulmana podia implicar retaliações — conta Luciana da Cruz Brito. — Dali por diante, tornou-se ainda mais importante para a população africana que vivia na Bahia se afirmar como praticante da religião católica, uma vez que as religiões vistas como práticas africanas foram duramente perseguidas. Alguns estudos afirmam que existia na época uma ligação entre o culto a Alá e a Oxalá, e que os praticantes de ambas as religiões compartilhavam a prática de se vestir de branco para reverenciar as divindades.

EPISÓDIO É REFERÊNCIA NA LUTA POR LIBERDADE

A historiadora defende a continuidade dos estudos do episódio histórico, inclusive em escolas. De acordo com ela, o levante diz muito sobre o comportamento dos escravos naquele período.

— De forma mais contemporânea, o movimento negro brasileiro vê o Levante dos Malês como referência da autonomia, poder político e luta pela liberdade dos povos africanos no Brasil, e este é um importante legado. Portanto, esta página importante da história do Brasil deveria estar presente em todos os livros do ensino fundamental e médio. Embora derrotado, o Levante dos Malês foi um episódio importante que, a longo prazo, foi enfraquecendo o sistema escravista e a noção de que povos africanos e afro-brasileiros estavam contentes com sua condição. A resistência fazia parte do seu cotidiano, e a liberdade era mais que um sonho, era um projeto, um objetivo a ser alcançado.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/revolta-dos-males-revista-em-textos-de-escravos-de-jornais-da-epoca-15015704#ixzz3ORV8cwRM 
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domingo, 4 de janeiro de 2015

Presságio



Clio Francesca Tricarico



Penso em ti e emudeço
Tenho medo de errar a sílaba, o tom, o gesto
Não respiro
Medo que tua miragem se desfaça ao meu toque
Tua imagem é só um presságio
Fecho os olhos
Teus sussurros me embalam num sonho
No escuro, procuro os teus lábios e beijo o vento
A contragosto, sou expulsa da fantasia
Só não entendo o teu cheiro em minhas mãos...


(in Antologia del XXIX Premio Mondiale di Poesia)

meu sorriso brilhando no olhar...



Só sei que sei... tu

E me dizem "mas você não tem nada!"
"Mal o conhece...", me dizem

Perguntam "o que ele lhe diz?"
E eu respondo "nada de mais"

(troca de sussurros entre expressões de escárnio...)

Incrédulos, insistem: "mas, então, o que ele lhe faz? o que lhe dá?"
E eu sucumbo sem palavras

Só não consigo disfarçar meu sorriso brilhando no olhar...

O beijo




o que sentimos não cabe no "eu te amo" 

por isso, restamos calados 

dizê-lo seria reduzir este êxtase 

(à beira da insensatez) 



então, vivemos assim 

olhares fugidios 

oscilando entre carícias lânguidas e ardentes 

na tensão que é conter esta explosão dentro do peito 

sempre na iminência de... 

(quem sabe um dia) 

transbordar todo este amor num beijo






http://clioft.blogspot.com/

domingo, 7 de dezembro de 2014

Dancing Queen - Abba -


Eu somente iria amar as mulheres.






Mulheres!




Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza. Para viver o mistério profundo que trazem consigo, eu preciso de mais. Eu tenho que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas. Tenho que dar-lhes o amor que ao meu corpo as conduz, e na volta sustenta-me a alma. O amor natural de todos os corpos do mundo. Tenho que dar-lhes a posse imprecisa de mim. Como num espelho de paixões em labareda, quero sentir nos seus olhos o mais raro brilho diamante.

Eu as amo como se lhes devesse a Vida. E as venero com a graça de um cisne nadando num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado. Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, nem quero mudá-las jamais. Imagino o que sonham e entro no sonho delas. Cavalgo em pêlo um cavalo branco para visitar-lhes as razões e as emoções, a loucura e a libido. Como um Deus que se liberta da sua própria mitologia, eu me surpreendo em nome da Criatura. Entro no coração de cada uma como se entrasse no meu. Mergulho nos seus desejos e me espanto com tanta fantasia, com tamanha formosura. Os sentidos, por não serem precisos, não bastam, e preciso mais do que cinco para compreendê-las.

Porque toda mulher é silenciosa por dentro. Sua existência se mani-festa em cada detalhe. Assim na terra como no céu, o amor tem que ser livre. Bendito sou eu entre as mulheres. Fazer amor tem que ser uma experiência religiosa. Por isso eu as amo como fina substância, como deve amar quem ama de verdade: incondicionalmente.

— Sem ciúmes.

Amo as morenas e as loiras, as baixinhas e as altas, as lindas, as quase feias. As virtuosas, as magras e as gordinhas. Diabólicas, tímidas, mentirosas, iluminadas, pecadoras ou santíssimas, virgens, pobres, ricas, loucas, inocentes ou safadinhas — não importa, eu amos todas. As bronzeadas e as branquinhas. As inteligentes e as nem tanto. Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as velhas, as solteiras, as casadas, as noivas, as separadas. As amadas e as abandonadas. As livres, as que lutam por liberdade — e também as indecisas.

E se me dessem o poder, o tempo e a chance, eu a elas daria um or-gasmo sublime — todos os dias. Poeticamente.

Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas. Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos. Tomaríamos vinho branco, comeríamos morangos. E eu lhes faria poemas de amor olhando estrelas.

Puro como um anjo, amaria todas eternamente — uma por vez. Com delicadeza, com doçura, com inocência. Entusiasmado, como se cada fosse única... Como se no mundo não houvesse mais nada. Todas as noites, sem pressa alguma, passaria cremes e encantos no seu corpo, falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir. Ao som de Vangelis, velaria por um tempo o sono delas, e de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, cobriria seu corpo com o resto de luar que ainda houvesse.

— E sairia em silêncio.

Felino, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas, e sorrindo iria embora.

Enfim, se eu fosse Deus, não mais cuidaria do universo, nem dessas coisinhas banais. Não ficaria controlando o destino das pessoas, o tempo, a pressa, a hora de chegar, o átomo, as ondas do mar, o caminho dos planetas, os genes, o cotidiano, a Internet, o infinito, a geografia...

Não!

Eu somente iria amar as mulheres.

Como elas merecem — e como nunca foram amadas.

Só isso, definitivamente.

Nada mais, nada mais.”




Edson Marques


do livro SOLIDÃO A MIL - página 368




http://solidaoamil.blogspot.com/

O machista




O machista. (Conto)

Ricardo Matos


Findando um tedioso dia de trabalho, Rubens, ao checar seus e-mail, encontrou convite para um “happy-hour” no bar que costumeiramente freqüentava. De imediato confirmou presença, desligou o micro e foi ao bar tentando imaginar o que o amigo de infância e cunhado desejava. Ao chegar, por se sentir um freqüentador prestigiado no bar escolhido, solicitou:
— Boa noite, Joel. Tudo bem, Dona Helena? A senhora pode pedir a “Jacaré” para me servir na mesa de sempre?
Dona Helena, prestativa, respondeu e perguntou.
— Claro! Quer que mande servir o carneiro?
Mais tarde. Estou aguardando um amigo. Por enquanto, só quero uma dose do “Velho Oito”. Peça a Jacaré que a leve pura, estilo “cow-boy”.
Rubens caminhou em direção a mesa ao fundo do bar, junto ao sanitário feminino, como fazia costumeiramente nas noites de sexta-feira após concluir o dia de trabalho. Em poucos minutos, com a dose servida, ele observa a chegada de Pedro Ivo. Notou pelo terno que o amigo também viera direto do escritório. Ao entra no bar, Joel, dono do estabelecimento, apontou a Pedro Ivo a mesa onde Rubens se encontrava. Pedro Ivo foi em direção à mesa andando com os braços abertos e falando alto:
— Então... seu sacana! Nem me esperou.
— Acabei de chegar. Respondeu Rubens.
Rubens estava ansioso para saber o porque do convite e antes mesmo que Pedro Ivo se acomodasse foi inquirindo:
— Me diga! O que de tão importante fez você se lembrar de mim? Faz anos que você desapareceu...
— Calma! Deixa-me aprumar. Você está bebendo o quê?
Enquanto Pedro Ivo se sentava, Rubens, bebendo o uísque de um só gole, respondeu e perguntou:
— Uísque... Vai beber o quê? — Sem dar a resposta, Pedro Ivo se voltou em direção ao garçom e a ele pediu:
— Traga-me uma garrafa de Teacher, e cabaço! E me traga também uma balde com gelo, — e completou, — com copos compatíveis. — Voltando-se para Rubens ele disse — É aconchegante o barzinho, você já o conhecia?
— Sim. Ficava próximo a minha casa, mudou-se a pouco para cá. Sou freguês...
— Então é aqui seu campo de caça?
— É... e esta mesa é estratégica.
— Como é mesmo o nome?
— Bar’Tal. Mas não foi por isso que você me convidou. Abra logo o jogo. Tem algo de misterioso em seu convite.
O garçom, equilibrando a bandeja, ofereceu o cardápio e servia o uísque fazendo que os amigos se calassem. Rubens quebrou o silêncio ao se dirigir ao garçom.
— Jacaré, deixe para servir os tira-gostos mais tarde. — Rubens devolveu o cardápio e pediu —Traga-me uma jarra com água de coco.— O garçom retirou-se e eles retomaram o assunto:
— Diga-me, Pedro Ivo, entrou em alguma fria?
— Rubens, — Pedro Ivo corou, sentiu-se constrangido, mas respondeu — É meio chato o que vou dizer... Sei que você gosta muito de sua irmã, mas resolvi me separar e não quero perder nossa velha amizade... Eu não estou agüentando mais... são brigas diárias. Por qualquer motivo nós brigamos. Mesmo pelos motivos banais nós quebramos-o-pau. Sexo!?, sua irmã não quer nem pensar! Acredito termos chegado a extremos. Você que já se separou por três ou quatro vezes, numa boa, pode me dar umas dicas.
— Ufa!Estou aliviado. — disse Rubens com verdade de sentimento — Pensei que você fosse me pedir dinheiro... é que não estou em boa fase. Fernando Henrique e Lula... estes idiotas me ferraram... Sim! Voltando ao assunto, eu não quero minimizar o seu problema. Toda separação é dificílima, envolve meandros emocionais, dinheiro, os filhos, é uma merda. No meu caso foram apenas duas separações e ambas complicadíssimas. Tão complexas que me mantenho solteiro. Relacionamentos só de carteira assinada e sem crias.
— Essa é nova. Como funciona isso?
— É fácil. Primeiro eu fiz vasectomia para evitar o golpe-da-barriga. Segundo: contrato a namorada como secretária, telefonista, empregada doméstica. Qualquer coisa a depender do nível social. Pago o salário em dia e cumpro todos os direitos que manda a C.L.T. Se melar, pago os 40% da multa, libero o F.G.T.S e demito, mando embora. Para evitar um processo de assédio só contrato depois de já ter comido.
— Você é um escroto, Rubens. Continua não tendo o mínimo de escrúpulos quando se trata de mulheres.
— Gato escaldado tem medo da própria urina... Errar uma vez é acaso; duas, é falta de sorte; três, já é burrice. — Mudando de assunto, Rubens se virou na direção do garçom e apressou ao pedido. Jacaré!, Réptil de bosta! Traga logo a água de coco.— Então se voltou para Pedro Ivo e perguntou retoricamente, — Que tipo de mulher você espera encontrar hoje meu querido cunhado. Quer outra Sandra? — e ele mesmo se responde. — Desista!
Pedro Ivo, discordando do cunhado, afirmou com um ar de empáfia:
— Que nada, amigo. O mundo está cheio de mulheres honestas ávidas por amor e carinho. Você deve estar desiludido, Rubens, só isso.
— Não é bem assim, — explicou Rubens de forma cínica, — Até posso acreditar que existam tais mulheres honestas e desejosas dum relacionamento estável. Porém, dentro das condições impostas por elas. Desde que os homens se sujeitem a ser tudo aquilo que elas odeiam nos próprios homens.
Pedro Ivo levando a sério às reflexões de Rubens se sentiu confuso e questionou-o:
— Não entendi o paradoxo... Você pirou?
— Talvez! Ou talvez seja por isso que você esteja se separando. Talvez você tenha desaprendido, como muitos hoje desaprenderam, de como ser homem...
— Assim você está me ofendendo...
Pedro Ivo entornou a dose de uísque e falou como se fosse levantar para ir embora, mas Rubens o segurou colocando a mão sobre o ombro dele e pediu.
Deixe-me concluir, amigo. Não sugeri, apesar de ser moda, que você seja gay, mofino ou coisa parecida. Mas, os homens de agora, de tanto ouvirem e lerem sobre conjeturas psicológicas, de tanto atentarem as teorias dessas feministas de merda. Nós, e eu me incluo nisso com parcialidade, perdemos os princípios básicos que nos diferenciavam das mulheres. — Rubens completa enfático — Perdemos a razão e a autoridade, repito. Autoridade... O poder! Um barco naufraga com dois mestres. Esse poder de igualdade cedido pelos homens as mulheres acabou por naufragar os relacionamentos estáveis e harmônicos das famílias. Não mude de mulher, mude de atitude. Tenha certeza que as fêmeas falam uma coisa, mas gostam indubitavelmente de outras. Quando elas alegam que esperam encontrar um homem sensível, dadivoso, sincero e fiel. Estão, na verdade, descrevendo o próprio corno conformado. E é o que elas odeiam. Aprendi isso às duras penas e não nego. Quando quis ser moderno, terminei por meter os pés pelas mãos. Hoje em dia, depois que reaprendi como tratá-las, não tenho tido mais problemas. Até as minhas ex-mulheres querem reatar comigo. Digo e afirmo com convicção: a maioria das mulheres gosta de homens que exercem poder sobre elas. Manda mais quem se importa menos. Mesmo que Sandrinha brigue, xingue, que faça muxoxo, não ceda. Imponha sempre sua vontade. As mulheres fazem seus discursos, contudo, amam mesmo a nós, os “porcos chauvinistas”. Não perca seu tempo tentando compreendê-las, elas são incoerentes, ilógicas e sadomasoquistas. Se uma mulher lhe disser que adora mimo não acredite. Quando uma mulher encontra um homem que a mime, otário é o adjetivo mais meigo por ela empregado para descrevê-lo. Por isso, amigo, se for dar presentes só o faça em ocasiões especialíssimas. As mulheres são tão loucas que se você der um mimo a elas sem razões específicas, elas imaginam logo que você fez algo de errado e se vingam sem pensar duas vezes. Elas odeiam ganhar presentes fora de hora... E nunca, nunca, meu amigo, seja sincero...
— Você está louco!, Rubens. Quem vai acreditar em uma barbaridade dessa?
— Acredite, cunhado! É a mais pura verdade. Lembro-me de um caso que aconteceu comigo. Eu tinha marcado de passar a virada do ano em um hotel com a namorada. Já transávamos há um tempão...Coisa de meses... ela levou dois dias se aprontando. Comprou um vestido branco cheio de anáguas e babados, disse-me caríssimo. Fez cabelo, maquilou-se e coisa e tal... Na hora que parei o carro em frente à casa da distinta. Ela veio lentamente descendo às escadas passo a passo como que imitando uma atriz de Hollywood. Ai, com aquele ar de ‘pavoa’, me perguntou exigindo sinceridade: “— Como estou, amor?... mas seja sincero, exigiu...” — Ingenuamente eu respondi com toda a sinceridade exigida... Eu disse: “— Está ridícula! Parece uma baiana de acarajé fantasiada de macumbeira...” Ela voltou para casa e eu nunca mais a vi. Perdi uma excelente trepada. Por isso amigo, eu digo e repito: seja o mesmo homem que fez a Sandrinha se apaixonar... Que a fez escolhê-lo para pai dos filhos dela. Seja o Pedro Ivo do nosso tempo de faculdade... Não se lembra de como éramos? Nós fazíamos uma dupla infernal.
— Você se lembra? No “Copos & Copos bar...” Nós...
Ao relembrar fatos passados os olhos de Pedro Ivo brilham, mas ao tentar expô-los foi interrompido por Rubens:
— Não! Foi no “Travessia”! Onde aquela menina cantava. Como é que ela chama... eu... porra, esqueci!
— Lembro, era Daniela Mércury...
— Ela mesma. Você se recorda que eu ofereci um buquê de rosas a ela e ela, finíssima, após o Show, veio me agradecer pessoalmente. Pena que ela já era casada e não me deu a menor bola...
— Como era mesmo que fazíamos ao chegar ao bar? UAUU, UAUU! — Pedro Ivo imitou o uivar do lobo. Rubens o acompanhou no uivar para a lua. Pedro Ivo notou que eles estavam sendo observados pelos outros freqüentadores do bar e, reprimindo-se, tentou refrear Rubens.
— Era ótimo, Rubens. Mas está todo mundo nos olhando.
— Fodam-se! Vim caçar e esse é meu grito de guerra.
— Contenha-se, Rubens. O dono do bar...
— Bobagem, Pedro Ivo. Olhe a lua, está linda, parece pratear a noite. Lembra-me até um poema de Ricardo Matos — Rubens levantou-se e declamou em alto e bom tom:
Esse luar que a lua reluz,
Transmuta do ouro a prata e seduz ao desfilar seu brilho roubado.
Puro luar, que a lua se reflete cheia, linda, nua e se faz minha.
Oh! Primorosa lua!
Estou aluado por amar o teu luar.
O público aplaudiu em salva, alguns de pé, Rubens fez referência, sentou-se, e aconselhou o amigo:
— Deixe seus instintos masculinos suplantarem suas frustrações pós-cabresto feminista. Viva! A morte é certa!, Pedro Ivo... — Jacaré! — Rubens gritou mais uma vez chamando o garçom que passava próximo. — Pode nos servir o carneiro agora, mas por caridade, sem os acompanhamentos supérfluos. Traga-me também a água de coco que você se esqueceu, seu mentecapto! — Já em um tom mais ameno, disse a Pedro Ivo:
— Você vai saborear o melhor rodízio de carneiro de toda a Bahia. Não! Minto! De todo o mundo!
— Espero. Estou faminto. — comentou Pedro Ivo e acrescentou — Peça com sua peculiar sutileza para que o distinto réptil nos sirva outra garrafa de uísque. Esta já secou.
Rubens se espantou. Não notara o quanto bebera e passou a se preocupar com o valor que seria cobrado na hora da conta.
— Porra!? Já acabamos a primeira!? Vou terminar a doze e peço um “velho oito”. Como você já sabe, eu não estou muito bom de grana.
Pedro Ivo vendo que belas jovens se enfileiravam na porta do sanitário quis impressioná-las e para se amostrar pediu o uísque na língua inglesa:
— That bill is mine. Ask if he wants the “White Horse”.
Rubens que, assim como eu, nada sabia da língua inglesa confessou:
— Não entendi porra nenhuma, amigo. Traduza? — A conta é minha, pode pedir até um “Cavalo Branco” se desejar...
— Não! Ficamos no “Teacher” — Rubens solicitou ao garçom que rondava a mesa: — Anfíbio! Não se esqueça da água de coco que até agora você não trouxe. E traga logo outra garrafa de “Professor”... E traga rápido!
— Sim, Rubens. Bons e velhos tempos... pena que passaram. — Pedro Ivo foi acometido por uma dúvida singular e perguntou: — Jacaré é anfíbio?
— Sei lá! — Rubens não queria perder tempo pensando sobre o assunto e continuava verbalizando sua tese — O que importa é que o tempo só passa fisicamente. Não! Meu espírito é o mesmo, é exatamente o mesmo dos outros tempos. Você é que se ‘aputou’ com a idade. Mas voltemos ao tema principal... Quer dizer que você vai largar aquele monumento de mulher. Vai jogar Sandrinha para as hienas.
— Não é bem assim, amigo. Eu ainda a amo. Amo demais meus filhos também. Mas minha vida está um inferno...
Com a aproximação do garçom Pedro Ivo se cala. O garçom, forra a mesa, põe sobre ela o outro litro de uísque, dois pratos, os talheres, a jarra com água de coco e um bilhete escrito num guardanapo de papel enviado por uma das jovens que os observava.
— Jacaré! —Rubens dirigiu-se ao garçom já alterado etilicamente e usando da cacofonia brincou: — vou-me já. Quando eu voltar, quero abrir com uma costelinha bem apetitosa e para meu amado amigo Pedro Ivo sirva o mesmo. Depois... Suma!
Rubens caminhou até o “palácio-de-Baco” se desviando das mesas lotadas. Estava imaginando algum argumento que convencesse ao amigo e cunhado a desistir da decidida separação. Após aliviar a bexiga, levou mãos e rosto e, no retorno à mesa que ocupava, buscou identificar quem enviara o bilhete. Ao chegar à mesa, notou Pedro Ivo ruborizado. As suculentas costeletas de carneiro já haviam sido servidas.
— Rubens, querido amigo, tem caçadoras na área. — Falou Pedro Ivo a Rubens, com um lasco de carne entre os dentes e se mostrando desconcertado com o assédio.
— Ótimo, mas primeiro as costelinhas... Leia-me o bilhete.
— Em voz alta? — Retrucou Pedro Ivo.
— Claro!, — ironizou Rubens, — em voz baixa eu não conseguirei ouvi-lo. Leia logo seu merda.
— É de sacanagem... — Pedro Ivo estava corado.
— Leia porra! Estou com as mãos ocupadas. — Exclamou Rubens já irritado com o constrangimento do cunhado.
— Ok! Lerei. Ainda acabrunhado Pedro Ivo lê: “Gatos, não estamos usando calcinha e vocês estão de costas pra gente”.
— Pedro, é para você se virar e identificar as moças. — Rubens limpou as mãos num dos guardanapos limpo, puxou a cadeira livre e a colocou na posição adequada para localizar as autoras do bilhete. Então ordenou: — Senta aqui e me mostre que você continua sendo homem. Não vá decepcionar seu velho amigo.
— Estou sem ação...— respondeu Pedro Ivo.
— Esse é o seu problema, amigo. Sirva-me um uísque, eu vou até a mesa. Mas já aviso: se tiver uma omoplata, ela é sua.
Rubens tentou se levantar, Pedro Ivo o segurou por alguns segundo e pediu:
— Senta! Vou mudar de lugar. Se valer à pena vou até lá. Mas que porra é omoplata? Traduza!
— Larga, chata e triangular.
Pedro Ivo sentou-se na cadeira previamente ajeitada. Observou duas jovens que aparentavam idade aproximada de 25 anos e concluiu,
— Duas gatas.
— De onde estou não dá pra ver direito. Elas estão realmente sem as calcinhas? —Perguntou Rubens curioso.
— Também não esta dando pra ver. Mas elas estão nos observando. Se eu for lá é separação garantida. Isso se Sandra não me matar primeiro.
— Vamos resolver primeiro a questão de Sandrinha. Aprenda com o mestre. Jacaré! —chamou Rubens o garçom — Traga-me já um catálogo telefônico.
O garçom ocupado ao servir outras mesas se fingiu surdo e continuou o trabalho.
— Rubens. Vou ligar para Sandra e avisar que estou com você. Sei que ela te adora. Ai você confirma que eu estou com você.
— Porra nenhuma. Você vai resolver sua vida hoje. Faço questão de ver você e Sandrinha numa boa. A hora é esta. Não preste satisfação alguma a ela. O que você vai fazer é seguir minhas ordens ao pé da letra. Garanto-lhe que você viverá feliz com sua família. Se não, eu o apresento a meu advogado.
— Olhe lá! Veja bem em que merda você vai me meter.
— Cabeça de gelo, cunhado. — Anfíbio duma figa — Gritou enfático Rubens — Cadê o catálogo? — E voltou suas atenções para Pedro Ivo — O que você vai fazer é pegar o celular, ligar pra floricultura e mandar elaborar dois buquês de rosas. Um buquê com rosas cor-de-rosa pra mesa das meninas, e outro arranjo com rosas vermelhas é pra você levar pra sua casa depois que sairmos do motel com essas duas. Vá lá no balcão. Pegue no catálogo o telefone da Floricultura Estrela Dalva. Peça as flores e mande botar em minha conta. Leve o número do meu C.P.F e diga meu nome e o endereço para entrega. Basta isso.
— Só isso?
— Não. Melhor... Mande escrever num cartão dizendo: “apaixonado por você”. Peça para entregarem as flores vermelhas em sua casa. Não é para assinar o cartão. Lembre-se: para sua casa as rosas vermelhas. E não assine o cartão.
— Você esta bêbado, Rubens. Você não disse pra não dar presentes sem motivo?, e por que isso de não assinar o cartão?
— Bêbado talvez eu esteja e isto não muda nada. As flores são para Sandra saber que você aprontou mesmo... que está disposto a assumir seu trono de volta, mas que ela ainda pode fazer parte de sua vida. É um tipo de válvula de escape para ela poder retroceder sem se humilhar... Daí, se você chegar em casa encontrar o vaso com flores e ela estiver esperando por você cheia de amores. Você salvou seu casamento. Se você chegar e não tiver flores no vaso. Você é corno. De qualquer jeito você resolve sua vida. Separa-se ou salva seu casamento.
— E o buquê com as rosas cor-de-rosa?
— Manda trazer pra cá e ofereça a que sorrir primeiro pra você. A outra eu encaro. Estou necessitado de uma secretária nova. Agora telefone e se mande pra mesa das moças antes que apareça um prego.
— Traduza prego.
— Um besta que encosta e não come ninguém, mas paga a conta e fica até as mulheres irem embora. Outra coisa antes de ir... É importantíssimo! Só pode dar uma. Mesmo que ela implore, só pode dar uma. A outra bibocada você guarda pra Sandrinha. Vá logo...





— Trim...Trim...
— Alô...
— As flores, cunhado! Elas estavam no vaso e a Sandrinha cheia de amores. Obrigado Rubens, tchau.


Ricardo Matos



http://ricardomatoscronica.blogspot.com/

Central Park - NY


Morro de saudades... de Tom a Vinicius


maira-parula:



Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante… Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha… Ipanhonha?


(Tom Jobim, em carta de 1965 a Vinícius de Morais, Los Angeles.)

Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante… Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha… Ipanhonha?
(Tom Jobim, em carta de 1965 a Vinícius de Morais, Los Angeles.)