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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A gestão do samba


A gestão de marcas do samba

Marcelo Chiavone Pontes, professor da ESPM, mostra que as empresas brasileiras contam com um modelo de gestão muito próximo para seguir: o das escolas de samba nos desfiles de Carnaval e sua antiestrutura estruturada.
"Louco não é o povo que pára por quase uma semana para brincar, dançar e pular.
Louco, provavelmente, é o povo que nem pensa em parar.” Mario Sergio Cortella

A gestão do samba

O Carnaval é, sem dúvida, uma das maiores manifestações da cultura brasileira. Sua grandiosidade transformou-o não apenas em um dos mais importantes eventos do País, mas também em responsável por parte significativa da “marca Brasil” no mundo. O “País do Carnaval” é, na verdade, o país de vários carnavais, pois os festejos de Momo são comemorados de maneiras diferentes pelo território nacional –o Carnaval de rua de Olinda e Recife não é exatamente igual aos desfiles de trios elétricos de Salvador e se parece muito pouco com os desfiles das escolas de samba de São Paulo e Rio de Janeiro, que, claramente, são os maiores ícones dessa festa. Descobri que a montagem de um desfile de Carnaval, na verdade, é consequência de um trabalho contínuo, que, entre vários fatores fundamentais, exige: • Planejamento. • Estratégia. • Trabalho em equipe. • Organização. • Criatividade. • Disciplina
Que não se engane quem olha de longe: só com esses elementos as escolas de samba alcançam o resultado esperado –com a qualidade esperada. Então, o Carnaval tem a ver com gestão de empresas ou não? Pode guardar lições para os gestores?
Evolução
logo escola superior de propaganda e marketing
As festas e os ritos de integração social, com pessoas mascaradas e fantasiadas, fazem parte da história humana desde a Grécia antiga, em que brincadeiras aparentemente desordeiras serviam para reafirmar a ordem dos grupos da sociedade. No Egito acontecia a famosa festa de Ísis, deusa invocada para superar as tragédias da vida. Na Roma dos imperadores existiam as saturnais, festas em que se cultuava o deus Saturno e eram marcadas pelos exageros e inversões das regras sociais. São dessa época os primeiros relatos de festas populares associando pessoas mascaradas, fantasias e desfiles em forma de procissão.
A festa carnavalesca como é conhecida atualmente surgiu em Paris, durante a Revolução Francesa, com grandes bailes e exibição de alegorias luxuosas, além do desfile de grupos pelas ruas disputando a atenção das pessoas. Era indiretamente ligada à tradição católica medieval –acontecia sete domingos antes da Páscoa, quando os católicos dão adeus à carne (“carne vale”, em latim) para reencontrá-la quando celebram a ressurreição de Cristo–, mas a burguesia impôs uma nova maneira de festejo, percebendo o alto potencial de lucro e prazer que a ocasião proporcionava.
logo escola de samba imperatriz leopoldinense
Logo da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense
O Carnaval chegou ao Brasil por meio dos colonizadores portugueses, que trouxeram o entrudo, uma festa em que baldes de água, cinzas e líquidos imundos eram atirados sobre quem passasse por perto. Essa diversão foi praticada até a chegada da família real, quando os costumes carnavalescos começaram a ficar mais sofisticados com a realização de festas semelhantes aos bailes franceses e com passeios da elite social pelas ruas da cidade exibindo fantasias de luxo.
Essa nova forma de brincar o Carnaval foi contagiante e, assim, nasceram os primeiros grupos que desfilavam pelas ruas do Rio de Janeiro, dando origem às atuais escolas de samba.
As escolas de samba
Elas surgiram no Rio de Janeiro –a primeira delas foi a Deixa Falar, fundada em 1928. O termo “escola” é fundamental para entendermos a cultura existente nessas agremiações. Seus integrantes se reuniam nos bairros e se intitulavam “escola” porque consideravam que ali o aprendizado era compartilhado. A cultura das comunidades desses bairros está necessariamente presente nas escolas de samba e, mesmo com o passar dos anos, crenças e valores ainda são identificados e têm grande importância –as tradições são mantidas, respeitadas e mostradas durante os desfiles.
logo escola de samba beija flor
Logomarca da Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis
Podemos dizer que a escola de samba é uma grande fábrica, cujos produtos finais são as emoções. Por trás de um desfile existe toda uma estrutura complexa, semelhante a uma linha de produção, cujo objetivo final é entregar um show de emoção, encantamento e alegria para seus diferentes “clientes”. Para isso, é feito um trabalho durante o ano inteiro, gerando empregos, criando processos, desenvolvendo a criatividade, gerenciando verbas e tempo, e administrando uma enorme quantidade de pessoas, com culturas, formações, objetivos e responsabilidades bastante diferentes.
Entre vários aspectos em que uma escola de samba pode ser comparada com uma empresa –e oferecer-lhe lições–, vale destacar alguns que parecem especiais:
a) Satisfação do cliente.
Como qualquer empresa, uma escola de samba também tem diferentes públicos, claramente identificados: seu produto principal, a emoção, deve ser entregue não apenas para o folião que pagou caro para desfilar nas escolas do grupo especial de São Paulo ou Rio –o preço médio de uma fantasia é cerca de um salário mínimo–, mas também para as pessoas que pagaram ingresso no sambódromo, com a expectativa de ver o maior espetáculo teatral da Terra. E, não menos importante, há o público que fica em casa, assistindo pela televisão, gerando audiência e, como consequência, garantindo a verba de transmissão para o próximo ano.
logo escola de samba mangueira
Logomarca da Escola de Samba Mangueira
A satisfação desses clientes parece estar sendo muito benfeita: apenas como exemplo, em 2012, todas as escolas desfilaram praticamente com sua capacidade máxima de foliões, o que significa que todas as fantasias foram vendidas, para turistas do exterior, inclusive. Os sambódromos de São Paulo e Rio estavam lotados, e a transmissão pela TV foi vista, só no Brasil, por mais de 4 milhões de pessoas. Porém o mais interessante é ver que a maioria das pessoas que desfilam, ou seja, um dos “clientes” da escola, sai da avenida satisfeita, recomendando a experiência para os amigos e familiares e, em geral, voltando no ano seguinte. Isso é exemplo claro de manutenção de cliente e de comunicação boca a boca em sua essência.
b) Generosidade.
Um desfile de escola de samba não é formado apenas pelos destaques, celebridades e carros alegóricos cada vez mais deslumbrantes. É sempre bom lembrar que, para que um carro alegórico se movimente na avenida, existem várias pessoas trabalhando dentro dele –pessoas que não veem o desfile nem são vistas pela audiência, cuja função é controlar o movimento e os efeitos visuais, e também ajudar alguns passistas no desenvolvimento das coreografias preparadas para aquele carro. Outro exemplo: poucos sabem que uma das funções existentes durante o desfile é o “apoio de destaque”, ou seja, pessoas que vão para a avenida vestindo apenas calça e camiseta, com o objetivo de dar suporte para que os destaques da escola brilhem. É lugar-comum falar da importância do trabalho em equipe em qualquer organização, e é difícil imaginar um trabalho em equipe com bons resultados sem um mínimo de generosidade entre seus membros.
c) Gestão dos detalhes.
logo escola de samba mocidade independente
Logomarca da Escola de Samba Mocidade Independente
Uma escola de samba do grupo especial desfila com cerca de 4 mil integrantes, ou seja, tem o porte de uma grande empresa. No entanto, existe aqui uma característica única: a escola de samba se prepara o ano inteiro e tem apenas pouco mais de uma hora para apresentar seu trabalho. Para colocar na avenida desfiles maravilhosos, são necessários meses de trabalho para escolher o enredo, definir o samba, ensaiar a bateria, criar fantasias, adereços e carros alegóricos, coreografar passistas etc. Qualquer erro cometido pode ser fatal na hora da apuração, e não existe uma segunda oportunidade. Para aumentar ainda mais o desafio, devemos lembrar que um desfile é o único espetáculo artístico do mundo em que não existe ensaio geral. A disputa entre as escolas é cada vez mais concorrida. Nos últimos anos, tanto no Rio como em São Paulo, a escola campeã tinha uma diferença de pontos em relação à segunda colocada inferior a um ponto. Exatamente por isso é fundamental que tudo seja planejado. Quem observar uma fantasia de perto verá a quantidade enorme de pequenos detalhes que ali estão presentes. Sozinhas, essas particularidades provavelmente passariam despercebidas; no conjunto, porém, são o que faz uma escola ter um desempenho melhor ou pior –não porque esses detalhes fiquem visíveis, mas porque eles deixam claro para toda a escola a importância de se preocupar cuidadosamente com cada ponto do desfile.
d) Senso de propriedade.
Uma das frases que se ouvem com alguma frequência nas empresas é que os funcionários devem “vestir a camisa da organização”. Na escola de samba isso é feito com naturalidade, pois existe um enorme senso de propriedade, e fica claro quando ouvimos algum integrante comentar: “Hoje tem ensaio na minha escola”. Walt Disney dizia que “você pode sonhar, projetar, criar e construir o lugar mais maravilhoso do mundo, mas são necessárias pessoas para tornar o sonho realidade”.
logo escola de samba portela
Logomarca da Escola de Samba Portela
Essa ideia é totalmente pertinente ao universo das escolas de samba: de nada adiantam carros alegóricos com milhares de efeitos especiais e fantasias luxuosas, porque o que efetivamente ganha o Carnaval são as pessoas. Prova disso está nos quesitos de julgamento: harmonia, conjunto, evolução, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, bateria etc. Em suma, todos quesitos que dependem fundamentalmente de pessoas. Daí a importância dos símbolos, histórias, ritos e rituais. Quando vemos integrantes da escola abrindo caminho para a velha guarda, numa atitude de agradecimento a quem ajudou a construir aquilo, quando notamos o respeito dedicado à ala das baianas, que abençoam a escola trazendo seu axé, ou quando assistimos às pessoas reverenciando a bandeira da escola, beijando-a e colocando-a na testa para absorver sua energia positiva, podemos ter a certeza de que ali há pessoas absolutamente comprometidas.
e) Trabalho em equipe.
Se o trabalho em equipe é o aspecto mais óbvio da comparação da gestão de uma escola de samba com a de uma corporação, ele merece uma reflexão mais cuidadosa, pois é o eixo fundamental que faz com que as escolas de samba consigam desenvolver seu trabalho. Em primeiro lugar, há que se fazer uma distinção: grupo não é equipe. Grupo é apenas um monte de pessoas trabalhando juntas. Equipe é muito mais que isso; é um monte de pessoas trabalhando juntas, de forma integrada, comprometida, com o mesmo objetivo.
Em uma escola de samba, todos querem desfilar bem e ganhar o Carnaval. É por isso que, na hora do desfile, ninguém precisa pedir para o outro caprichar e dar o melhor de si, porque isso é o mínimo que se espera. O engajamento com a escola é, por si só, suficiente para que as pessoas façam seu melhor.
Como fazer?
Como fazer para criar uma organização como uma escola de samba, que tenha sucesso em um ambiente complexo –e, por vezes, caótico– como o do Carnaval? Fazendo um paralelo entre a gestão de uma escola de samba e as ideias defendidas pelo consultor Didier Marlier [veja quadro em HSM Management nº 85, página 22], proponho que as organizações empresariais trabalhem com três agendas, como fazem as escolas de samba na prática e intuitivamente: logos, ethos e pathos.
logo escola de samba salgueiro
Logomarca da Escola de Samba Salgueiro
A agenda intelectual (logos) indica que os líderes devem proporcionar oportunidade para que as pessoas contribuam para o desenvolvimento das organizações. Uma escola de samba é um grande exemplo de criatividade, e essa criatividade só se consegue com a participação de todos, pois as boas ideias não são propriedade apenas dos ocupantes de níveis hierárquicos superiores. Exatamente por isso, as escolas não só aceitam, como também incentivam as novas ideias: novos materiais, novos andamentos de bateria, novas coreografias, novos efeitos e novos enredos só se conseguem com a participação ativa de todos.
A agenda comportamental (ethos) mostra que a credibilidade dos líderes é resultado de seu comportamento, que deve ser coerente com seu discurso. As pessoas costumam observar detalhadamente seus líderes antes de segui-los, para ver se eles têm um comportamento compatível com as intenções declaradas. Em palavras mais simples, o exemplo vem de cima. Nas escolas de samba isso também é visível. Cientes de que todos os integrantes da escola precisam cantar o samba, para que não se perca ponto no quesito harmonia, os diretores de uma escola são os primeiros a decorar a letra. Só assim é possível cobrar que, durante os ensaios e especialmente durante o desfile, a escola cante em uníssono.
A agenda emocional (pathos) explica que os líderes devem criar “marcadores emocionais” para começar a mover as pessoas. Isso geralmente é feito com o uso de símbolos, histórias, metáforas, gestos, ou seja, elementos que existem à vontade dentro de uma escola de samba. Daí a importância de iniciar os ensaios com todos cantando o samba de exaltação à escola. Também fica claro porque os símbolos das escolas e suas histórias são conhecidos por grande parte da comunidade, ou porque os líderes sempre iniciam os rituais de, por exemplo, reverenciar o pavilhão.
Antiestrutura estruturada
Essa forma de gestão, que todos os anos nos brinda com um espetáculo maravilhoso, não é obra do acaso. Ao contrário, é fruto do trabalho incansável de inúmeras pessoas que, trabalhando em equipe, conseguem criar um show que conquistou o mundo. Ampliando para o universo de todas as escolas de samba uma ideia desenvolvida pela antropóloga Maria Júlia Goldwasser, ao estudar a Estação Primeira de Mangueira, podemos dizer que as escolas de samba “se configuram como uma solução entre o princípio de estrutura, dada sua ordenação institucional, e o princípio da antiestrutura, dado seu caráter carnavalesco. Ou seja, é sua antiestrutura estruturada que representa sua contradição essencial”.
logo escola de samba unidos da tijuca
Logomarca da Escola de Samba Unidos da Tijuca
Podemos afirmar, portanto, que aquele aparente caos que se verifica nos ensaios e na concentração dos sambódromos na verdade não é um caos, e também não é uma ordem completa. Preferimos pensar naquilo como uma “reordem”, muito mais adequada a um ambiente que, como já mostramos, pode ser complexo, caótico e sempre muito criativo. Um último comentário: muitas pessoas questionam se o Carnaval é uma brincadeira. Minha resposta favorita é: “Sim, o Carnaval é uma enorme brincadeira. Porque não existe nada mais sério do que uma brincadeira”. Afinal, como nos ensina a velha sabedoria, “se você não está se divertindo, é porque não está fazendo direito”. Uma lição inestimável para as empresas.
Saiba mais sobre o negócio do samba
  • O Carnaval brasileiro movimenta cerca de R$ 5,5 bilhões por ano, segundo dados do Ministério do Turismo.
  • A festa consegue impactar 52 setores da economia, entre os quais hotelaria, alimentação, transporte, varejo, indústrias gráfica e editorial, bebidas, instrumentos musicais, indústrias de plástico, ferragens, isopor, tintas e têxtil, audiovisual (televisão, cinema, CD s e DVD s), entretenimento (bailes, espetáculos, shows).
  • O Carnaval também alavanca uma variada gama de atividades informais, que geram empregos para artesãos, marceneiros, eletricistas, aramistas, escultores, pintores, seguranças, modeladores, garçons, enfermeiros, motoristas, músicos, bailarinos, produtores, e até mesmo para profissionais com alta qualificação, como arquitetos, engenheiros, designers de moda, historiadores, entre outros.
  • Apenas a confecção de uma fantasia envolve o trabalho de sete diferentes profissionais: costureira, serralheiro, chapeleiro, aderecista, sapateiro, decorador e moldador de vacuum forming (profissional que faz moldes plásticos).
Essa cadeia produtiva começa nos fornecedores de materiais para a confecção de fantasias e carros alegóricos e termina com a transmissão da televisão para mais de cem países, fazendo com que o evento seja assistido por milhões de pessoas no mundo todo.
A receita, por João Luiz de Figueiredo e Marcelo Guedes
O custo de um desfile do grupo especial de escolas de samba do Rio de Janeiro, que dura cerca de 82 minutos uma vez por ano, gravita em torno dos R$ 10 milhões. O gestor conta com uma receita inicial de aproximadamente R$ 4 milhões, oriundos das cotas de transmissão para a televisão e também do poder público, e a outra parte tem vindo, nos últimos tempos, de um patrocínio associado ao enredo. Será esse um modelo sustentável? Tudo indica que não. Apesar de ter rendido carnavais vitoriosos para escolas como Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense e Vila Isabel, pode limitar a criatividade do carnavalesco e está longe de garantir o sucesso, uma vez que há casos de escolas patrocinadas rebaixadas à divisão de acesso do Carnaval carioca. O rebaixamento é algo muito grave em termos práticos, tanto porque a receita inicial da escola do grupo de acesso A despenca para aproximadamente R$ 450 mil como porque se perde um lugar adequado na produção do Carnaval –só as escolas do grupo especial dispõem de espaços na Cidade do Samba.
logo escola de samba vila isabel
Logomarca da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel
Uma nova solução
Já há casos em curso no Rio de Janeiro nos quais o patrocínio não se associa ao enredo, mas à escola, como acontece com os clubes de futebol. Dessa forma, pode-se construir um vínculo mais sólido entre as partes, transformando o patrocínio em uma grande parceria. Nesse cenário, a função do gestor da escola de samba passa a ser fazer de sua escola e do Carnaval carioca uma grande plataforma de comunicação para uma marca. E, de quebra, o gestor, não mais focado na “luta” anual por patrocinadores, pode atuar em outras frentes capazes de redefinir ainda mais um modelo de receita sustentável para a agremiação, desenvolvendo um portfólio de serviços a ser oferecido em qualquer época do ano, como apresentações da comissão de frente, da bateria, dos passistas, da velha guarda, além de oficinas e cursos destinados às pessoas que desejam estudar as diversas artes envolvidas na produção do Carnaval, como dança, música e artesanato.
Escolas como Unidos da Tijuca e Portela têm mostrado algumas iniciativas nesse sentido. Na exploração da marca e da história de cada escola também é possível incrementar as receitas por meio de uma série de produtos, semelhantes aos que encontramos nas lojas dos grandes clubes de futebol, que remetem aos grandes momentos vividos, aos personagens ilustres, aos carros alegóricos, aos trechos de sambas- -enredo memoráveis, por exemplo. Ao que parece, essa realidade não está muito distante de acontecer e pode servir de inspiração para inúmeros setores em uma época em que o desenho de um modelo de receita sustentável é tão desafiador.
Fontes: Marcelo Chiavone Pontes é doutor em administração pela Universidade de São Paulo, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e diretor da empresa de consultoria Brand Leader. Escreveu este artigo com exclusividade para HSM MANAGEMENT. João Luiz de Figueiredo é coordenador do Núcleo de Economia Criativa e chefe da área de gestão do entretenimento da ESPM-RJ e Marcelo Guedes é diretor dos cursos de graduação em administração e relações internacionais da ESPM-RJ. Artigo publicado na revista HSM Management.

http://www.evef.com.br/a%20gestao%20de%20marcas%20do%20samba.php

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Agradecer e Abraçar - Maria Bethania







Agradecer e Abraçar

Maria Bethânia

(de Vevê Calazans e Gerônimo)

Edição de Imagens: geisamaria




Abraçei o mar na lua cheia

Abraçei o mar

Abraçei o mar na lua cheia

Abraçei o mar

Escolhi melhor os pensamentos, pensei

Abraçei o mar

É festa no céu é lua cheia, sonhei

Abraçei o mar

E na hora marcada

Dona alvorada chegou para se banhar

E nada pediu, cantou pra o mar (e nada pediu)

Conversou com mar (e nada pediu)

E o dia sorriu...

Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema

Presente eu fui levar

E nada pedi, entreguei ao mar (e nada pedi)

Me molhei no mar (e nada pedi) só agradeci


Salve, Salve, Odó Iyá!!!!




Aninha Franco em Oríki para Yemanjá, Dois de Fevereiro,


Ela perdoa tudo menos a ausência, por isso vá e peça proteção à rainha das águas que vem da casa de Olokum, a que usa um vestido de contas no mercado, a que espera orgulhosamente sentada diante do Rei, a que vive nas profundezas das águas, a que anda em volta da cidade, a que quando insatisfeita derruba pontes, a que é proprietária de um fuzil de cobre, a que é nossa mãe de seios chorosos, Odó Iyá.

Se banhe, vista uma roupa branca e leve um oriki para cantar perto das águas, com o olhar límpido, a emoção transparente, uma fantasia nos olhos, nas mãos, um truque para desembaraçar cabelos, no coração, a promessa de exterminar garrafas pet, óleos, manchas e as vilezas que ameaçam a vida. Entregue o presente e depois se separe da lucidez que a vida é isso, passagem rápida para lugar nenhum em que só vale a pena o que não pesa. Se a alma estiver doída, molhe a cabeça nas águas dela que passa. Ela sabe tudo, sabe que o ser humano foi depravado pelo poder, é ambicioso e traiçoeiro, é pequeno, e que as vítimas e algozes se confundem num jogo sem fim e sem finalidades. Mas se a alma estiver em paz, agradeça. E se estiver apaixonado, agradeça muitas vezes, porque a dádiva da paixão não tem dinheiro que pague.

Não peça coisas inúteis. Dinheiro se pede a banco, à Sorte, ao Destino. Os deuses existem para que nós sejamos melhores diante de coisas que não têm solução como a Morte, a Dor, a Impotência, a Inimizade. Peça para enxergar com clareza e ouvir com precisão, peça sabedoria e humildade que ela atende porque tem de sobra no fundo das águas. Peça a persistência das ondas para sobreviver aos desenganos.

Depois ouça os sons que chegam de todos os lugares e pense no dever dolorosíssimo dos deuses de ouvir os pedidos de cada um dos milhares que estarão lá querendo conforto, carinho e proteção como você, como eu, como todos nós cantando, comendo, bebendo, pagãos como nos foi dado ser. Pense nisso e entenda a solidão em que Eles vivem. Ela aceitará.










domingo, 1 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ano de Ogum



Publicado em 8 de janeiro de 2015 por betedavis





To aqui sentando chorando por um monte de coisas misturadas. O bestial atentado ao Charles Hebdo, o inédito editorial conjunto de 6 jornais europeus que acabo de ler e uma amizade, que já era longínqua, mas pela qual eu nutria carinho, que acabou.

É…2015 começou quente, e triste, na vida mundial e pessoal.

De acordo com uma consulta informal biscate aos orixás, OGUM vai dominar o ano de 2015 e ele não liga para a opinião dos outros, gosta de atravessar fronteiras; isso vai fazer muitas pessoas gostarem de viajar e fazer coisas diferentes e o melhor, no sexo é sem preconceitos, gostas de coisas diferentes, de fetiches!!!! (Oba, fetiches! Trabalhamos!)

Mas também tem o lado ruim de Ogum, deus da guerra, e é que este ano junto Marte estará reinando junto com ele. Há previsões de mortes terríveis, guerras a serem declaradas e as pessoas vão ser mais intolerantes com os outros (ainda mais intolerantes? )

Mas a cigana leu o meu destino e eu sonhei que nem tudo está escrito, então façamos amor, não façamos a guerra. SE for pra fazer a guerra a gente faz a guerra biscate de sempre, contra o preconceito, a caretice e os limites. E a favor da risada e do sexo. Sempre. Um ano de Marte, um ano de luta, mas um ano de luta por um mundo melhor e mais justo. Lutemos sempre a boa luta. Axé.



(muito axé para todos os jornalistas, cartunistas, franceses e muçulmanos. Paz E Amor para todos)


domingo, 11 de janeiro de 2015

Com a palavra: Marcos Azambuja

Com a palavra


Marcos Azambuja:

"A França precisa analisar a relação com os imigrantes"

Embaixador do Brasil em Paris De 1997 a 2003, fala sobre a comoção causada pelos ataques iniciados na quarta-feira com o massacre na revista Charlie Hebdo e adjacências
por Luiz Antônio AraujoAtualizada em 11/01/2015 | 08h1810/01/2015 | 15h02


Aos 79 anos, Azambuja dedica-se a inúmeras atividades culturais e acadêmicas. É membro do Instituto Histórico e Geográfico BrasileiroFoto: Rafael Andrade / Folhapress


A experiência ensinou ao embaixador aposentado Marcos Azambuja que os problemas surgem aos finais de semana. E foi às vésperas de mais um, às 21h35min de sexta-feira, que ele se dispôs a atender o telefone de sua residência, no Rio de Janeiro, para discorrer a pedido de ZH sobre uma crise que lhe é familiar: a comoção causada pelos ataques iniciados na quarta-feira com o massacre na redação da revista francesa Charlie Hebdo e adjacências.

De 1997 a 2003, Azambuja foi embaixador do Brasil em Paris e cumpriu expediente na sede da representação, no Huitième Arrondissement (8º Distrito), na margem direita do Rio Sena, não longe de onde o turbilhão se iniciou.

– A França está em choque. A recuperação levará tempo – afirmou.

A seguir, uma síntese da entrevista.

Como o senhor explica os acontecimentos da França de 7 a 9 de janeiro?
A França foi um país que, durante séculos, recebeu muitas correntes migratórias. Mas quase todas tinham a aspiração de se tornar francesas – pela língua, pela cultura, pela adesão às ideias republicanas e laicas que fazem o espírito da sociedade francesa. O problema com a grande imigração islâmica é que não vem acompanhada desse desejo de adesão inteira a esses valores franceses, e sim de se oferecer como uma civilização e uma cultura alternativas.

Qual o impacto desse fenômeno entre os franceses?
A França não tem o temperamento de aceitar com naturalidade essa diversidade de aproximações. A França tende a ser convicta de que o seu modelo é aquele ao qual os outros devem aderir e que estar no país deve implicar a aceitação de seus valores. A Grã-Bretanha é muito mais flexível, assim como os Estados Unidos e também o Brasil, de certa maneira. São lugares em que os outros podem existir sem ter de aderir a um ideário nacional. O grande problema que temos hoje na França é que grande parte desses imigrantes muçulmanos – veja, o problema não é ser árabe, e sim a ideia do Islã como religião, como cultura, como matriz de pensamento – vivem um choque entre a visão republicana e laica e a sua própria visão religiosa.

Leia todas as entrevistas da série Com a Palavra

A polêmica sobre o uso do véu, que ocorreu há alguns anos, é um exemplo disso?
Houve essa polêmica grande sobre o uso do véu nas ruas e de indumentária islâmica nas escolas porque, de um ponto de vista republicano e laico, ninguém deveria esconder seu rosto. Há um choque intrínseco entre a maneira de ser francesa e a visão islâmica. E isso é uma coisa complicadíssima. E eles são mais numerosos como imigrantes e formam bolsões de pobreza. A França não é brilhante na absorção desse tipo de imigrante. Ela não encontra um espaço natural para eles. Outra coisa é que quase todos vêm do Oriente Médio, que é o lugar mais complicado do mundo. Há dias, eu revi a agenda da primeira reunião a que compareci nas Nações Unidas – eu era rapazola, foi em 1960. Todos os assuntos foram resolvidos: a Guerra Fria, o apartheid, o colonialismo acabaram. A única coisa que não se resolveu é o conjunto dos problemas do Oriente Médio, que não apenas não se resolvem como ficam mais complicados. Esses problemas afloram na França agora, com a reivindicação do Islã por um papel maior, o conflito árabe-israelense e outros.


CHEGADA - Embaixador do Brasil na França de 1997 a 2003, diplomata foi recebido pelo presidente Jacques Chirac (Foto: Eric Feferberg, AFP)

Existiram na França, porém, gerações de imigrantes árabes que não apenas se integraram como levaram esses ideais para as colônias e protagonizaram mudanças. Foi o caso dos líderes da Revolução Argelina, por exemplo, que eram laicos e socialistas.
Os argelinos, marroquinos e tunisianos são menos árabes e mais berberes. São o Ocidente do mundo árabe. Sobretudo naquele momento, a questão de Israel não era decisiva. O que era decisivo era a independência, a autonomia, a emancipação política. Esses imigrantes do Magreb foram absorvidos com um relativo sucesso. O problema é que, depois, a questão do Islã como afirmação nacional e o antagonismo Israel-árabes – os terroristas atacaram na sexta-feira uma loja de produtos kosher em Paris – constituiu um novo ingrediente na mistura. Existe uma rejeição à ideia de que a França representa uma ponta de lança no Oriente Médio. Os muçulmanos mais modernos do Irã e da Turquia voltaram atrás e estão se tornando mais conservadores, mais islâmicos. Houve um recrudescimento – não de uma sociedade que vai ficando cada vez mais laica, mas que retornou a uma certa matriz mais severa e mais religiosa. Outro problema foi o fracasso da Primavera Árabe, que gerou expectativas não cumpridas. E, finalmente, a imigração árabe na França não foi capaz de produzir uma absorção nos níveis mais altos da sociedade. Deputados, senadores, acadêmicos que têm origem no mundo islâmico são irrisórios. A França continua privilegiando as elites que vêm de suas grandes escolas. E a maioria dos árabes não se qualifica para jogar no primeiro time. A França não tem flexibilidade de absorver o diferente. A França hierarquiza em torno, se você quiser, dela mesma.

A crise começou com um ataque à revista satírica Charlie Hebdo, caracterizada por um humor que muitas vezes toma como tema questões religiosas, não apenas do Islã, mas também do cristianismo e do judaísmo. Muitos questionam, mesmo na França, o tipo de humor de Charlie Hebdo. Como o senhor analisa o papel particular dessa linha editorial da revista nos acontecimentos?
Na atitude da Charlie Hebdo e de outras publicações francesas, como o Canard Enchainé, há um humor em torno da religião que me parece duvidoso. Não acho muita graça nele. Esse humor recorre inclusive a uma certa estereotipação. Se você observar a maneira como os árabes são mostrados nessas publicações, eles têm as mesmas características das caricaturas raciais feitas antes sobre os judeus: são sujeitos com barbas longas, nariz adunco, turbantes. Continua a haver uma estereotipação com a qual eu não simpatizo. Que os árabes não gostem disso, compreendo inteiramente. O problema foi a perpetração de um ato criminoso que resultou na morte de 12 pessoas.

Como o senhor interpreta esse ato?
Isso tira a questão do campo do debate intelectual para colocá-la no terreno da criminalidade. Se os franceses árabes estivessem indignados com a ironia em relação a Maomé e fizessem uma manifestação, eu entenderia perfeitamente. O problema é que fomos confrontados com um ato de violência inaceitável. Não estou querendo incorrer num hábito muito francês de discutir tudo isso em termos intelectuais. Este é o momento de haver apenas repúdio a um ato de violência. Se não, começamos a ficar desde já muito inteligentes sobre isso. O meu medo, na França, é que a inteligência ande tão depressa que substitua a indignação.

O senhor refere-se aos hábitos intelectuais franceses, e a esse respeito não se pode deixar de notar que pensadores como Éric Zemmour pregam a islamofobia de maneira aberta – o primeiro chega a sugerir deportação em massa.
A ideia de deportação é um espasmo. A França precisa dos imigrantes. O jogo de imigração presta-se a uma duplicidade. É dito que os árabes vão ocupar a terra e se beneficiar, mas eles estão cumprindo funções de trabalho que, na França, ninguém mais quer fazer. E a França tem hoje taxas de natalidade tão baixas que, sem a imigração, começará a murchar demograficamente. Não há viabilidade, nem o mundo de hoje permitiria que você pusesse pessoas num navio e mandasse de volta sabe-se lá para onde, sobretudo nessa conturbação que é o Oriente Médio.


CULTURA - Ao lado da mulher Liliane, embaixador disseminou a cultura brasileira, como nesta exposição no Louvre (Foto: Eduardo Knapp, Folhapress)

O que representa esse discurso?
Isso é mais uma expressão de mau humor, de frustração e de irritação do que um caminho viável. O que é preciso fazer é encontrar uma forma de acomodar a diversidade dentro da laicidade e do republicanismo. Quando se vai à Grã-Bretanha, você pode falar inglês com 200 sotaques: canadense, australiano, neozelandês, sul-africano, nigeriano – tudo é inglês. Mas se você fala francês com algum sotaque, eles acham que você é um primitivo. A França se coloca no topo de uma pirâmide do saber e hierarquiza para baixo. E as pessoas não gostam de ser colocadas nisso.

Existe também exploração política a respeito dos acontecimentos. Na manifestação deste domingo, por exemplo, muitos não desejam a presença da Frente Nacional (FN), partido francamente xenófobo e racista. Como o senhor vê essa dimensão?
Não há como excluir a FN. Como partido, a FN é cada vez mais importante – Marine Le Pen (presidente da FN) é uma das figuras com condições a aspirar o cargo de primeiro-ministro. Você não pode excluir. Será preciso dizer: estamos reunidos nesta manifestação não por estarmos de acordo em tudo.

O que uniria os grupos?
O fato de estarem reunidos para repudiar a violência. Ou seja, você encapsula a solidariedade a um aspecto, sem aderir aos demais. Mas é muito difícil. A França está vivendo um momento muito complicado. Ao erigir seus valores em um corolário universal, ficou presa em uma camisa de força intelectual, ideológica e comportamental. Se você não estiver enquadrado naquele rigor metodológico e linguístico e na própria técnica de apresentação das ideias, você é visto como bárbaro. O francês já foi uma língua de comunicação mundial. Hoje, é uma língua de cultura, estudada por grupos de pessoas. Há uma perda de espaço intelectual e de prestígio com a qual têm dificuldade de se conciliar. Estamos no momento de repudiar a violência dos ataques. Haverá tempo para discutir todas as complexidades. Pessoas foram mortas de uma maneira que você não pode coonestar.

É possível aos outros grupos políticos aceitar a participação da Frente Nacional na manifestação então?
Churchill (Winston Churchill, primeiro-ministro britânico de 1940 a 1945 e 1951 a 1955) tinha horror à União Soviética, e Roosevelt (Franklin Roosevelt, presidente americano de 1933 a 1945) não menos. E todos fizeram causa comum contra o nazismo. Não se estará aderindo ao ideário da Frente Nacional, mas simplesmente repudiando com toda a convicção os assassinatos. Matar aquelas 12 pessoas e depois outras tantas não é aceitável. Se alguém se junta a você nesse repúdio, será, como dizem os ingleses, fellow traveler (companheiro de viagem). As alianças são feitas conjunturalmente e para fins específicos.


TORCEDOR - Azambuja posou para fotos ao lado do técnico Zagallo antes de treino da Seleção para a Copa de 1998 (Foto: Antonio Scorza, AFP)

Se a França se unir no domingo em torno de uma atitude negativa – o repúdio à violência –, qual será a atitude positiva capaz de manter essa união na segunda-feira?
Na segunda-feira, a França estará ainda traumatizada. As ondas de choque do que ocorreu desde quarta-feira vão durar mais tempo. A França terá um período de reavaliação de sua política interna, de seus valores, de sua relação com os imigrantes. Não é só o imigrante islâmico. Há os africanos, com os quais há uma relação menos tensa. Deverá haver um processo muito grande de autocrítica e de revisão de valores. É preciso perguntar: se num mundo tão diverso e cosmopolita, a França pode se manter tão exclusivamente francesa?

A França tem uma visão equivocada sobre seu papel no mundo hoje?
O país tem ainda uma ideia de seu papel no mundo que não corresponde mais à realidade: a ideia de o brilho, o éclan de sua civilização ainda têm efeito. Trata-se hoje de uma potência europeia sem papel maior sobre o mundo e com dificuldade de se acomodar a isso. Na União Europeia, a Alemanha tem hoje um papel militar e político muito maior. A Grã-Bretanha continua sendo um grande ator, por meio de sua relação imperial e atlântica com os Estados Unidos. A França é hoje uma potência média e tem dificuldade de se ajustar a isso em razão de sua ideia datada de grandeza passada.

O país está amarrado ao seu passado?
Na França, o passado ocupa um espaço excessivo. Napoleão, Luís XIV, Foch, De Gaulle – todos têm espaço demais. Há uma presença do passado maior do que seria adequado. No momento, o meu medo é que a reação seja mais simples, que seja de retaliação, de caça às bruxas, de procura de culpados, de insegurança social. Os imigrantes foram varridos para as banlieues, os subúrbios. E não é uma presença estatisticamente insignificante. É uma presença imensa e crescente. Não sei como vão começar o reexame. Tenho a impressão de que François Hollande (atual presidente) não é o homem para isso. Ele pode administrar um país que sai de uma crise. Mas esse reexame exige grandeza, algo encontrável em um tipo de estadista que não creio que Hollande seja. A França está, no momento, despreparada para enfrentar esse tipo de desafio. Eles precisarão de um pouco mais de tempo. Até porque tenho a impressão de que não se esgotou o processo de violência.

Para o senhor, haverá mais atentados?
Sim. Haverá mortes aqui e acolá. Não vejo isso se esgotando completamente, e sim se prolongando um pouco no tempo. Há um outro problema que merece reflexão. A mobilidade das pessoas no mundo global exige um exame multilateral. As organizações internacionais como a ONU, a União Europeia e outras devem se reunir para discutir como administrar esse problema. Não são 2%, 3% da população – são proporções muito grandes que se deslocam. Creio que temos pano para manga. E não acho que esse episódio esteja esgotado. O primeiro round foi vivido, mas creio que teremos ainda repercussões nas próximas semanas.

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sábado, 10 de janeiro de 2015

Revolta dos Malês

Revolta dos Malês é revista em textos de escravos e de jornais da época

Motim de islamitas na Bahia completa 180 anos

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Escravos e brancos se misturam na Praça da Piedade, no Centro de Salvador, em gravura do século XIX: lugar foi o palco da Revolta dos Malês, que durou um dia - Reprodução

RIO - Diz-se que, para o muçulmano, Deus se revela pelas letras. É também através de sinais gráficos — unidos em palavras em português, inglês e sinais árabes desenhados com esmero — que estudiosos têm se debruçado recentemente sobre a Revolução dos Malês. O movimento de negros muçulmanos em Salvador, que completa 180 anos no próximo dia 25, pretendia impor a libertação dos escravos e tomar o poder local. Tendo ocorrido na capital baiana, um dos mais importantes centros do país à época, o levante ganhou repercussão em jornais brasileiros e estrangeiros. Liderado por homens que se distinguiam dos demais escravos por motivos religiosos e consequente domínio da escrita e da leitura, ficou registrado também em documentos escritos pelos próprios malês, expressão derivada de imalê, que, na língua iorubá, significa muçulmano. Livros, amuletos e pequenos pedaços de papel que continham palavras escritas em árabe foram apreendidos com os revoltosos.
As palavras escolhidas pelos jornais da época para descrever o levante, analisa Fernando Resende, professor de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), reiteravam estereótipos em torno dos escravos afro-muçulmanos que participaram da rebelião. Resende interpretou o preconceito em relatos de jornais breves, noticiosos e pouco esclarecedores do problema da escravidão. Na verdade, diz, a existência de homens tratados como propriedade de senhores não era sequer tratada como um problema. A preocupação da imprensa, conta ele, era essencialmente comercial. O tema é explorado em sua pesquisa de pós-doutorado recém-concluída na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. Intitulado “Poéticas da alteridade: narrativas midiáticas e o processo de invenção do outro”, o estudo esquadrinhou jornais do século XIX, sobretudo ingleses. Para Resende, a questão tem um viés histórico e ainda ecoa nos dias de hoje.

— Eram notícias muito tomadas por uma perspectiva do Estado. Além de falar uma língua que a colônia não conhecia, eles viviam em um país extremamente católico. O fato de serem muçulmanos aparece com força nesses jornais, com uma abordagem muito parecida com a que vemos hoje. Cai como uma suspeita sobre eles, e (a narrativa) reforça que aquele seria um sujeito indesejado. Faço uma crítica a essa reiteração de uma lógica muito homogeneizadora, que coloca todos num mesmo lugar — avalia o professor.

LEITURA CORÂNICA, REZAS E CONSPIRAÇÃO

Referência no assunto por ter escrito o pioneiro livro “Rebelião escrava no Brasil — A história do levante dos malês em 1835”, o historiador João José Reis detalha o desenrolar do levante que provocaria agitação na cidade por horas. Era madrugada do dia 25 de janeiro de 1835 quando a Revolta dos Malês se concretizou. Organizada sobretudo por muçulmanos, de diferentes etnias, com protagonismo de nagôs e participação de hauçás, o movimento teria sido planejado em reuniões — possibilitadas pela relativa autonomia de que dispunham escravos urbanos — em que exercícios de leitura e escrita corânicas dividiam tempo com rezas e conspirações. E tomou forma ao fim do mês sagrado do Ramadã, com revoltosos munidos de roupas islâmicas, anéis e amuletos protetores produzidos com cópias de rezas, escritos árabes. Mais tarde apreendidos, eles comprovariam o conhecimento da escrita pelos africanos, encarado à época como um sinal de civilização. Cerca de 600 revoltosos participaram do levante, que teve também participação de não muçulmanos. Naquele momento, Salvador tinha cerca de 65 mil habitantes: quatro em cada dez eram escravos, e os brancos não passavam de 20%. O objetivo da revolta seria implantar na Bahia uma nação malê, controlada por muçulmanos.
— Essa revolta é as vezes superdimensionada pela historiografia porque produziu um enorme volume de documentos, e, por isso, pode ser melhor conhecida, ao contrário de outras revoltas e conspirações escravas na Bahia da época, que foram mais de 30. Algumas delas foram bem mais sérias do que a dos malês pelo número maior de africanos envolvidos, pela sua duração, por acontecerem na região dos engenhos, o Recôncavo, pelo estrago material e número de vítimas provocadas pelos rebeldes. A Revolta dos Malês, no entanto, aconteceu no coração de uma grande cidade, onde os brancos se sentiam mais protegidos do que no Recôncavo. A ousadia do ataque, a repercussão local, nacional e até internacional, além de sua dimensão religiosa, tornam esse levante sem dúvida importante — opina Reis.

Para Luciana da Cruz Brito, doutora em história pela Universidade de São Paulo (USP) e autora de estudos sobre povos negros no Brasil, a escrita árabe tem lugar central na interpretação do levante. Ela explica que a religião muçulmana estava em expansão entre africanos na Bahia. Era dever dos novos devotos aprender a ler o Corão.
— Muitos revoltosos falavam e tinham a habilidade de escrever nessa língua, e, embora não seja possível precisar quantos exatamente podiam ler e escrever em árabe, havia um processo de expansão da religião na província da Bahia — conta a historiadora. — Ainda nos autos do processo, muitos acusados afirmaram não conhecer aquela língua numa tentativa de escapar das acusações e posteriores penas aplicadas ao revoltosos. A língua foi um elemento extraordinário do levante, uma vez que as autoridades locais desconheciam o árabe. Portanto, quando obrigados a traduzir para o português alguns desses documentos que continham informações importantes sobre os planos do levante, alguns suspeitos simplesmente afirmaram que não sabiam ler ou não conseguiam fazer a tradução.

Uma rebelião ‘delicada’

“Leitura, encantamento e rebelião — O Islã negro no Brasil”, tese de doutorado defendida por Priscilla Leal Mello na UFF, em 2009, examina o assunto. A historiadora estudou árabe e examinou uma série de documentos, entre eles os autos da devassa do levante e documentos árabes do Arquivo Público do Estado da Bahia, uma coleção de amuletos e orações. Em sua pesquisa ela ressalta a organização para a rebelião, da qual fizeram parte escritos corânicos e estudos em madraçais, as escolas corânicas improvisadas de Salvador e do Recôncavo baiano.

— O estudo da língua árabe surgiu por encantamento, mas também por respeito àqueles malês. Quis percorrer as escolas corânicas, como eles o fizeram. Hoje, depois de anos de estudos, trabalho com o que no momento estou chamado de delicadeza malê. Há uma delicadeza na rebelião, que é todo o preparo espiritual para o levante. O árabe é uma língua muito delicada para aprender. Ao perceber isso, comecei a tecer, muito recentemente, olhares outros sobre a escrita das orações e dos amuletos, em busca dessa delicadeza — afirma a historiadora. — Não conseguiria avaliar a participação dos que escreviam em caracteres árabes em termos numéricos ou percentuais. A documentação é muito entrecortada. Há escritos sem autores. E certamente há autores sem que tenham sobrevivido os escritos. Mas a documentação é clara acerca da relação dos revoltosos com as letras.

De acordo com a historiografia sobre o tema, a Revolta dos Malês foi fortemente reprimida. Das seis centenas de revoltosos, 73 foram mortos em enfrentamento, além de dez oponentes ao levante. Os derrotados foram condenados a penas de açoite, prisão, banimento e até morte. A partir dali, a população africana passou a ser submetida a uma vigilância e repressão abusivas.


— A repressão ao Levante dos Malês foi tão violenta que é difícil afirmar se esta revolta deixou heranças para a Bahia e para o Brasil e que possam ser facilmente percebidas. Os acusados de envolvimento foram punidos com pena capital, açoites e até mesmo deportação, em alguns casos. Portanto, qualquer sinal de envolvimento no levante e suspeita de associação com a religião muçulmana podia implicar retaliações — conta Luciana da Cruz Brito. — Dali por diante, tornou-se ainda mais importante para a população africana que vivia na Bahia se afirmar como praticante da religião católica, uma vez que as religiões vistas como práticas africanas foram duramente perseguidas. Alguns estudos afirmam que existia na época uma ligação entre o culto a Alá e a Oxalá, e que os praticantes de ambas as religiões compartilhavam a prática de se vestir de branco para reverenciar as divindades.

EPISÓDIO É REFERÊNCIA NA LUTA POR LIBERDADE

A historiadora defende a continuidade dos estudos do episódio histórico, inclusive em escolas. De acordo com ela, o levante diz muito sobre o comportamento dos escravos naquele período.

— De forma mais contemporânea, o movimento negro brasileiro vê o Levante dos Malês como referência da autonomia, poder político e luta pela liberdade dos povos africanos no Brasil, e este é um importante legado. Portanto, esta página importante da história do Brasil deveria estar presente em todos os livros do ensino fundamental e médio. Embora derrotado, o Levante dos Malês foi um episódio importante que, a longo prazo, foi enfraquecendo o sistema escravista e a noção de que povos africanos e afro-brasileiros estavam contentes com sua condição. A resistência fazia parte do seu cotidiano, e a liberdade era mais que um sonho, era um projeto, um objetivo a ser alcançado.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/revolta-dos-males-revista-em-textos-de-escravos-de-jornais-da-epoca-15015704#ixzz3ORV8cwRM 
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domingo, 4 de janeiro de 2015

Presságio



Clio Francesca Tricarico



Penso em ti e emudeço
Tenho medo de errar a sílaba, o tom, o gesto
Não respiro
Medo que tua miragem se desfaça ao meu toque
Tua imagem é só um presságio
Fecho os olhos
Teus sussurros me embalam num sonho
No escuro, procuro os teus lábios e beijo o vento
A contragosto, sou expulsa da fantasia
Só não entendo o teu cheiro em minhas mãos...


(in Antologia del XXIX Premio Mondiale di Poesia)

meu sorriso brilhando no olhar...



Só sei que sei... tu

E me dizem "mas você não tem nada!"
"Mal o conhece...", me dizem

Perguntam "o que ele lhe diz?"
E eu respondo "nada de mais"

(troca de sussurros entre expressões de escárnio...)

Incrédulos, insistem: "mas, então, o que ele lhe faz? o que lhe dá?"
E eu sucumbo sem palavras

Só não consigo disfarçar meu sorriso brilhando no olhar...