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domingo, 22 de novembro de 2015

Foi-se o que era Doce





Foi-se o que era Doce


Ainda bem que olhei o Rio Doce muitas vezes antes de vê-lo em seu caixão de barro


Semana brava, com desastre ambiental no Brasil, atentado em Paris. Ao chegar em casa, com as botas enlameadas, vejo que algumas pessoas me criticam porque não fiz discurso sobre Mariana. Se fizesse, reclamariam por Paris, se fizesse por Paris, reclamariam por Bagdá. Pensei que deixaria as patrulhas no universo analógico. Mas elas sobrevivem no mundo digital. Detalhes.

Na década de 80, esta frase me impressionou em Minas: olhe bem as montanhas. Eu a vi em muitos carros. Na minha interpretação, a frase completa seria essa: olhe bem as montanhas, antes que desapareçam.

Minas Gerais minerais, dizia Drummond, que nasceu em Itabira, na cidade toda de ferro em que as ferraduras batem como sinos.

Nessa viagem por Minas, levava na mochila o livro de Drummond e nele o poema “Canto mineral”:

“Minas exploradas

no duplo, no múltiplo

sem sentido,

minas esgotadas,

a suor e ais”

Vi uma montanha pela metade, em Mariana. A face escura da pedra, seus restos circulando em longos trens de carga era a Minas nos ferindo com “suas pontiagudas lascas de minério, laminados de ironia”. Dessa vez não bastava olhar apenas as montanhas. Os rios estão sumindo, alguns exauridos pela seca, e o Doce afogado pela montanha liquefeita, a lama mineral.

Sei que a hora pede discursos, comunicados, “não vamos mais tolerar” etc. Mas o Rio Doce para mim não é apenas uma palavra de ordem. É uma memória azulada que queria compartilhar com os amigos que moram na cidade onde ele se forma: Rio Doce. É uma cidade de três mil habitantes que não conhece um assassinato há 50 anos. Calma, limpa, 100% saneada, ônibus escolares cruzando suas ruas desertas. Povo e polícia se entendem bem, a cidade se protegeu da violência. O lugar onde o Rio Doce se forma era uma atração turística. Coberto de lama.

A orla do Doce, ponto de lazer da cidade, foi devastada. A mais bonita fazenda da região, a Porto Alegre, coberta de lama. A morte violenta, que os habitantes não viam há meio século, apareceu na forma de nove cadáveres arrastados desde Mariana. Em Rio Doce, pensei também Paris, não para agradar as patrulhas, mas porque Paris para mim também não é apenas uma bandeira, é uma cidade onde passei alguns dos melhores momentos de minha vida. A conclusão a que cheguei na pousada da Cachoeira, quase toda ocupada por bombeiros que vieram de Ubá, é de que não existe uma defesa inexpugnável contra o mundo exterior.

Uma cidade tão limpa invadida pela lama, tão pacífica, recebendo nove corpos, uma cidade luz atacada pelas trevas do extremismo religioso de bandeiras negras. Num momento como esse, de terror, desastre ambiental, corrupção, cinismo, não há como negar o mundo que temos. E encará-lo de frente. Empurrar com a barriga significa mais força para o terrorismo do ISIS, mais desastre ambiental, mais impunidade.

“Ideologia, eu quero uma pra viver.” Esse verso de Cazuza passou muitas vezes pela minha cabeça. Conheci Cazuza em 1986 e o visitei depois em Petrópolis. Por tudo o que sei dele, o termo “ideologia” aqui não significa uma visão de mundo totalizante, que tudo explica, explica, às vezes antes de acontecer, às vezes sem sequer examinar os fatos.

“Ideologia” aqui, creio, significa um sentido na vida, ainda que precário e incompleto. Este sentido está em falta no país: somos um gigante desengonçado, que não discute nem sabe para onde vai. Vivemos uma crise econômica, política, ética e ambiental — um bicho de quatro cabeças. É feio, mas está aí. É absolutamente necessário combatê-lo de forma integrada.

Temos uma oposição que não aponta o caminho, mas não se dispõe a sair perguntando. Um governo cujo sonho de consumo é nos entupir de carros e eletrodomésticos e comprar refinarias enferrujadas, para chamar de “minha Ruivinha”. A única saída é conversar por baixo, discutir intensamente, embora isso seja contraditório com a rotina dura do trabalho.

Olhe bem as montanhas. Ainda bem que olhei o Doce muitas vezes antes de vê-lo em seu caixão de barro. A contemplação apenas me entristece. Preciso fazer mais, sem patrulhas nos calcanhares. Cada um sabe de seus limites, embora, de vez em quando, precise ultrapassá-los. As pessoas da minha geração talvez não vejam mais o Rio Doce. Visitei um dos seus formadores, o Piranga; águas normais, apenas um pouco castigadas pela seca. Na Serra do Caparaó subi pelas cabeceiras do rio José Pedro. Também está raso, mas joga água limpa no Doce, através do Manhuaçu.

Isso é uma esperança para as novas gerações. O Doce pode sair da UTI em alguns anos. Depende de nós, assim como enfrentar o monstro de muitas cabeças.

O país que conhecemos está desaparecendo. É preciso uma aliança com os que podem desfrutá-lo depois de nós, com base numa visão ainda que modesta de nosso futuro comum.

Um rumo, um sentido até que fariam bem nesse vale enlameado.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/foi-se-que-era-doce-18109349#ixzz3sF8syXYy 
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http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/album/2015/11/19/impacto-da-lama-no-rio-doce.htm?imagem=28#fotoNav=29




quarta-feira, 21 de outubro de 2015

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

É PARA TI









É possível amar. Mostras o caminho.

Depois te desesperas numa solidão de espinhos.

Escreves compulsivamente para anjos caídos.

Te quero de volta, viajante noturna.


Ultrapasse o umbral onde te confinaste.

E busque a palavra, sussurro em gotas.

Sou eu feito ninho no alto das copas.

Te digo o que sonhas, amor sem remédio.


Perdeste o rumo, estavas lotada.

Caiste em abismos jamais esquecidos.

Saltaste com tudo, sem nenhum equilíbrio.

Passei como o vento que te enlaça.


É para ti, confidente, estranho compasso.

Tens sorte ao dizer o que as nuvens te sopram.

Sou parte de ti, como arbusto em deserto.

Estou junto a ti, conflito de véspera.






Nei Duclós

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Filha de Yansã, Olga Francisca Régis, Mãe Olga do Alaketu.


Mãe Olga do Alaketu


Em nove de setembro de 1925, nascia em Salvador uma descendente da família real Arô, do antigo reino Ketu (antigo Daomé, atual Benin), para fazer história no candomblé brasileiro: a filha de Yansã, Olga Francisca Régis, Mãe Olga do Alaketu.

Criada de acordo com os costumes africanos, foi iniciada ainda na adolescência, no Ilê Axé Maroiá Láji, em Matatu de Brotas, fundada por Yá Otampé Ojarô, princesa de Arô, no fim do século XVIII. Mãe Olga foi a quarta sacerdotisa a ocupar trono da Casa, liderança que exerceu por quase 60 anos (1948-2005).
Em 1997, Dona Olga recebeu do então presidente Fernando Henrique Cardoso a Ordem do Mérito Cultural, e em 2004, liderou o processo de tombamento do terreiro pelo IPHAN, um ano antes do seu falecimento em 29 de setembro de 2005.

http://correionago.com.br/portal/90-anos-do-nascimento-de-dona-olga-do-alaketu/



domingo, 19 de julho de 2015

DEIXA, Baden Powell & Vinicius de Moraes








FAZER ANÁLISE É FALAR NA PRIMEIRA PESSOA


PUBLICADO EM SOCIEDADE POR MANUELA PÉRGOLA


A análise nos ensina, basicamente, a sermos protagonistas da própria história. A nos responsabilizar pelas nossas mazelas e encantos, paixões e tormentos; sem chicotes, sem asperezas insuportáveis: a análise nos ensina a tomar as rédeas, escutar o próprio desejo, pra depois dizer do próprio desejo, amar e viver, fora da plateia marcada pela impessoalidade e passividade.


Ontem fui pega desprevenida. E o mais incrível: por mim mesma. O inconsciente, este grande matuto que desbanca o eu no quesito "dono da própria casa", teve lá o seu tempinho semanal para aparecer, e em um dado momento, suspirei. Não de alívio, mas porque doía existir: "ser protagonista não é nada fácil".

Sobre isso, duas cenas me marcam. Uma é do filme "the holiday" (vulgo "o amor não tira férias", mas o tradutor sim. há.) Iris Simpkins, uma moça bonita que não sabe que é bonita, presa numa relação tóxica com um barba-azul (quem nunca?), em uma conversa com o personagem Arthur Abbott, escuta dele a seguinte frase: “Eu vejo que você é uma mulher protagonista, mas por algum motivo está agindo como a melhor amiga. Você deve ser a protagonista da sua própria vida!”. Bum. Hoje ficamos por aqui. A outra cena, que não é bem uma cena, mas um poema, é do Mia Couto: "Porque andei sempre sobre os meus pés, e doeu-me às vezes viver". Arthur Abbott sabe. Mia Couto sabe. Uma porção de gente talvez saiba. Eu descobri há pouco. Sempre é tempo!



Impossível desvencilhar a descoberta do processo analítico. Passei o resto do dia pensando nos efeitos de uma análise.

A análise nos ensina, basicamente, a sermos protagonistas da própria história. A nos responsabilizar pelas nossas mazelas e encantos, paixões e tormentos; sem chicotes, sem asperezas insuportáveis: a análise nos ensina a tomar as rédeas, escutar o próprio desejo, pra depois dizer do próprio desejo, amar e viver, fora da plateia marcada pela impessoalidade e passividade. É como se fosse uma auto escola, na medida em que nos ensina a conduzir, a nos conduzir, a andar sobre os nossos pés, mesmo que doa, a gastar a sola dos nossos sapatos e não apenas assistir à vida em uma televisão que sequer é nossa.

Não à toa que a plateia conta com o chamado "animador", que sinaliza quando devemos aplaudir, rir ou permanecer sentados, quietos. O/a protagonista é aquele/aquela que não obedece o "animador", ri, chora, senta ou levanta quando bem entender e incomoda, às vezes. É claro que tudo isso dentro de um respeito mínimo pelas regras sociais. Mas não é disso que estamos falando. Estamos falando de um "sentar e levantar quando bem entender" subjetivo, íntimo. E sentar e levantar quando bem se entende dói. O desejo cansa, li certa vez. E como. Porque é difícil viver com intensidade, ou em sintonia com a própria verdade. A maioria das pessoas só quer a mansidão, molhar os pés na superfície. É de se esperar, uma vez que é difícil, tem muita fala pra decorar, os textos são enormes e a gente nunca consegue burlar um ensaio. A vida é o próprio ensaio.

Começa-se uma análise pelos mais diversos motivos. Para se descobrir, para nascer... talvez pela primeira vez. Para dar voz ao inconsciente: este que não conhecemos, este que é "estranho, porém familiar", escreveu Freud. Este que nos assusta, assombra. Mas, o que assombra mesmo é deixá-lo nas sombras, à mercê de qualquer embarcação, com qualquer comandante ou animador de plateia.

Certa vez escrevi uma poesia sobre a escolha da análise, aqui vai uma parte dela:

"Eu decidi velejar.

dói.

mas esse barco quem toca sou eu.

quase sempre estou só, mas nesse barco quem manda sou eu."



No fim, estaremos gratos - próximos do que chamam de "felizes", talvez? - por poder assinar a própria biografia. Assinatura esta que se faz fazendo, gerundiando, com a tinta da caneta do próprio desespero, que se transforma em sofrimento, que se transforma em dificuldade, que se transforma em questão, que se transforma em "isto é meu". Que se transforma. Sempre. Sigamos, em busca do/da nossa protagonista perdida nos bastidores. Para que esse viver seja marcado, de alguma forma. Para que não seja em vão esse instante que é a vida.

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Ode a Bethânia


08/07/2015 



Quando ela entra no palco/ ela transforma o palco em um altar / e ao mesmo tempo-espaço um terreiro


Quero recomendar o livro “Contradições”, de João Ricardo Moderno, e também “Brasil em movimento”, livro organizado por João Paulo Reys e Maria Borba com reflexões sobre o Brasil de Gilberto Gil, Luiz Carlos Maciel, Maria Lúcia Montes, além de mim e de muitos outros e outras.

Agora quero aproveitar para falar do sublime nesse poema que escrevi para minha e nossa querida Maria Bethânia de todos nós:

O ser humano nasceu na África/ Daí se espalhou para todos os lugares/ E viva o rei Zumbi do Quilombo dos Palmares!!!!

“Aonde foi que Jesus ensinou sua filosofia?/ Foi na Bahia, foi na Bahia!” — Noel Rosa

Miriam em Aramaico é Maria./ Miriam de Migdal, Maria Madalena./ Aqui é Miriam Maria de Bethânia./ Ela vem do mais profundo início do teatro de Ésquilo onde as falas são cantadas./ Mas é mais atrás, é mais agonal/ vem da grande mitologia/ da literatura oral de Homero/ Hesíodo/ dos candomblés/ de Dom Sebastião que morreu em Alcácer Quibir/ de cânticos de luz de axé de flores amores que é/ Jesus de Nazaré e os tambores do Candomblé.

O perfeito equilíbrio simultâneo/ quando ela canta ela irradia/ entre o esplendor de todos os paganismos/ e o esplendor de todos os cristianismos/ humanismos democracia anarquismo socialismo pacifista/ da Amálgama,/ com a qual José Bonifácio nos definiu em 1823 dizendo: “Diferente dos outros povos e culturas, nós somos a Amálgama,/ esta Amálgama tão difícil de ser feita.”

Quando ela entra no palco/ ela transforma o palco em um altar / e ao mesmo tempo-espaço um terreiro./ O altar é de Palas Atena/ e o terreiro é de Iansã./ Sua presença é um incêndio de paixão que ressuscita o tempo todo/ o seu canto Nagô que é Banto e é o amor/ e que em sua voz tão bela e cheia de bem-querer/ é Benguela e Gegê,/ pra irradiar a instantaneidade da vibração da vida/ com todos os entrelaçamentos das dimensões da graça divina/ que começa lá na infância em sua família/ lá em Santo Amaro/ desta Bahia onde o Brasil começou/ e não é à tôa/ que foi seu irmão Caetano/ quem lhe deu o nome/ inspirado na música/ cantada por Nelson Gonçalves.

Ela é poetisa/ filósofa/ pensadora/ ativista social política/ pioneira dos feminismos/ irradiadora de um conhecimento absorvido/ em leituras incessantes/ de Fernando Pessoa/ dos filósofos/ e também não foi à toa/ que foi lançada pelo magnífico Vinicius de Moraes/ que a trouxe para o Rio de Janeiro.

Ela vive perto de Jorge de Lima/ da neurociência/ e o que é mais impressionante para mim/ é um constante mistério/ que ela irradia com seu talento/ que é ao mesmo tempo antiquíssimo/ e reflete todas as emoções e informações dos ancestrais/ e ao mesmo tempo, de novo a simultaneidade,/ traz sempre a novidade/ é o eternamente novo./ Na verdade são cânticos religiosos/ incluindo cânticos das religiões ateias/ mas todas anunciando a mensagem do presente/ que arrasta o passado/ em direção ao futuro/ e se eu fosse resumir/ em todas as miríades/ de interpretações e composições/ de Dorival Caymmi a outros tantos/ gênios da cultura brasileira e internacional/ eu acho que está no Evangelho de São João em que uma voz anuncia:/ “Uma criança nasceu entre nós.”

Ela tem o expressionismo com um afastamento mediúnico,/ ela tem também Villa-Lobos que disse:/ “Aprendam harmonia e contraponto a fundo e depois esqueçam tudo”./ Mas o que ela tem é ela mesma e isso se reflete em tudo/ em mensagem permanente de ressurreição./ Com Fernando Pessoa/ lado a lado com Seu Esteves e a tabacaria/ a presença onipresente dos fados imortais./ E aqui eu pergunto:/ Nasceram os fados no Brasil?

Amália Rodrigues/ a grande fadista portuguesa/ canta De São Paulo de Luanda/ de Capiba:/ “Minha mãe chorava, kalunga,/ e eu cantava, kalunga,/ maracatu! Maracatu!/ Nação do preto nagô”.

Bethânia quando canta/ seus cantos também são acalantos/ de ninar/ de adormecer / a criança que nasceu entre nós/ para ela ser feliz/ e para morar na felicidade.

Dizem que nossa arte é barroca,/ ela é mais do que isso,/ é maneirista/ e o maneirismo já é quântico.

Sua majestade tem tamanha plenitude que se apresenta com a mais extrema humildade./ Sua voz ecoa sempre nos batuques em homenagem ao rei Zumbi do Quilombo dos Palmares./ Ele ecoa em todos os lugares, e este canto/ tem sempre aquela cor azul dos primeiros raios da manhã,/ os quais o pintor Fra Angelico captava em seus quadros./ Claro que a primeira luz do azul de anil assim canta e caminha a rainha/ porta-estandarte e porta-bandeira da bandeira brasileira./ A voz do candomblé que irradia/ o Sermão da Montanha,/ Maria Bethânia.

Eu a conheço há milênios/ e me lembro que assistimos juntos/ à entrada em Jerusalém/ de Jesus de Nazaré montado em seu burrico.

No candomblé existe a árvore Irôko/ que é a árvore do tempo/ mas no tempo antes do tempo/ Orun, o céu e suas estrelas/ ou Olorun, seu Orixá/ habitavam aqui no planeta Terra com nossos ancestrais./ Acontece que de repente/ os nossos ancestrais/ começaram a tratar Orun e Olorun/ com muita falta de respeito./ Alguns usavam a lua como travesseiro/ outros chegavam a cuspir e urinar nas estrelas./ Então Orun e Olorun não se queixaram/ porque os deuses não se queixam/ apenas decidiram/ já que a coisa era assim/ se afastar do Planeta Terra e ir morar lá no alto/ onde estão até agora,/ no entanto/ quando Maria Bethânia canta/ Orun, o céu estrelado e Olorun, seu orixá,/ voltam para ficar em nossa presença/ e se o espectador prestar bem atenção/ perceberá que o sol/ a lua/ as estrelas/ os cometas/ estão ali enquanto ela canta./ Quando ela para de cantar/ Orun e Olorun voltam lá para o alto/ para morar no infinito novamente

COLUNA

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/ode-bethania-16689532#ixzz3fJoHEAH4

domingo, 5 de julho de 2015

Abraçar e Agradecer - Maria Bethânia







Maria Bethânia - “Abraçar e Agradecer” Portugal 2015






Maria Bethania - 26 Premio da Musica Brasileira

                                                           

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Uma onda colorida




Foi bonita a festa, pá. O tapete multicolorido em que se transformou minha TL do feicebuque ontem. Um a um, meus amigos iam ficando cobertos pelo arco-íris. E eu me alegrava, “curtia” até ficar com o dedo doendo, sorria e, ocasionalmente, ficava com os olhos cheios de lágrimas.

Voltava aos meus afazeres e, quando ia lá de novo, mais uma ruma de amigos tinha se transformado e entrado debaixo do arco-íris.

Celebrando. Celebrando o quê? Celebrando o fato de que uma pá de gente no mundo passou a ter seus direitos garantidos, num país pro qual todo mundo olha, que exporta seus jeitos e suas modas pro mundo todo, ou pelo menos pra boa parte do mundo.

Celebrando a solidariedade, o fato de que gente é pra brilhar, celebrando a alegria do outro, a festa do outro, comemorando junto com o outro, junto com a outra.

Dia do Orgulho Alheio, disse a Lena, e eu pego emprestado: orgulho e alegria dos amigos que não precisam ser gays para saber que isso muda a vida, a deles, a nossa que passamos a viver num mundo melhor e mais justo.

Casamento? É besteira, você diz? Intromissão do Estado nas relações privadas? Tinha que acabar, é? Ué, mas quem está discutindo casamento? A gente tá celebrando é a conquista do direito. Pra que os gays, as sapatas também possam dizer que é besteira, que não querem casar. Não querem, mas podem. Ou querem, e também podem.

Well done, tio Zucka. O arco-íris foi bem sacado que só.

E quando a gente celebra e faz festa junto por mais um direito adquirido, que já existia aqui, mas não lá, quando os juízes da Suprema Corte lá garantem o direito porque reconhecem que é um direito constitucional, isso muda coisas. Não é mera burocracia. Não é a mera permissão para os estados de celebrar o casamento gay: é a obrigação, visto que é direito constitucional, e o embasamento é a 14ª emenda, que fala da igualdade de todos os cidadãos diante da lei. Entendeu-se, pois – em votação apertada, 5 a 4 – que isso abrange o direito dos cidadãos de casar. A discussão toda faz diferença, do ponto de vista dos direitos. E vai bem além dos Estados Unidos.

Abraços, risos, lágrimas: foi dia de festa, em meio a tantas dores de todo dia. E meu coração se alegra com os amigos e amigas de cujos sofrimentos sei tão pouco, de que só ouço ecos: o de sair do armário (ou não), o de contar para os pais, para os irmãos, para a família toda, o de ser apontado como “aquele ou aquela que….” . E é tão lindo e tão raro quando a reação é “eu quero que minha filha seja feliz” e ponto. Tantas vezes é dor, é incompreensão, é um “não criei filho meu para…”, é choro e ranger de dentes, apenas porque o desejo da gente é o que é e a gente não tem controle disso. Não sei dessa dor que deve ser você ser motivo de tristeza para seus pais, simplesmente por ser quem é. A dor de escolher não contar, por ser mais fácil, para não confrontar. O dia-a-dia de quem assume, o dia-a-dia de quem disfarça: dores que não conheço, eu, cis e hétero.

Então quando tem um dia assim, em que a linha do tempo do fêice se transforma em tapete multicolorido, meus olhos se enchem de lágrimas e, sem achar que a revolução foi feita, permito-me acreditar que um passo foi dado na direção certa. A da gente juntos. A da gente gente. Em direção ao dia em que isso não será mais questão nem motivo de sofrimento: Ana namora Luciana, Claudio namora Ricardo, Mariana namora Paulo, Fábia namora Stella. Mônica namora Max. Fabi namora Rita. Dodô namora todo mundo, claro. E a gente vai dançar ciranda, todo mundo junto, rodar até perder o fôlego e cair na areia da praia.

http://biscatesocialclub.com.br/2015/06/uma-onda-colorida/

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Qual república vai cair?






Anunciaram e garantiram que a República iria se acabar nesta segunda-feira. Mas que república? Uma grande questão sobre a nossa sociedade e a atual situação de grupos vulneráveis e minorias é, certamente: Que República?

Desde que decidimos, por um golpe militar, implantar uma República no Brasil, fizemos a instituição de um estado estratificado, desigual, patriarcal e patrimonial. O que eu quero dizer com isso? É que fizemos um estado do “meu” e não um estado “de todos”.

A nossa concepção de política, de liberdade, de igualdade e de fraternidade simplesmente se resume a: o quão livre eu posso ser no meu grupo de privilégios; o quanto de igualdade eu posso conceder sem permitir que todos os meus privilégios decaiam; e, como conter os ideais de alteridade pelo simples fomento do ódio.

É isso o resumo do que somos. Somos uma sociedade heteronormativa, que busca manter-se como tal. Que, às vezes, faz concessões por vias de enfrentamento (decisões judiciais, protocolos administrativos, etc) e que, quando estamos muito descontentes, nos ensinam que emitir um mugido de revolta, mandando nosso opositor procurar uma rola (ou coisa melhor, às vezes), é a melhor solução.

Nosso grande “esquecimento” é que a condição de igualdade, formando a base republicana, só se dá quando reconhecemos no outro a nossa própria liberdade. Isso mesmo! A nossa verdadeira liberdade só se realiza na liberdade do outro. Na sua igualdade e no seu reconhecimento.

A noção de “público” na República não é simplesmente algo que seja de todos indistintamente. Mas é algo que todos possam reconhecer o próprio gozo. Sim, GOZO, simbólico e material. Gozo, realizado mediante o entendimento de que gozo proveniente do desejo do outro é tão legítimo quanto o nosso gozo, quanto o nosso desejo.

A república que não temos é justamente a nossa incapacidade de aceitar que a “coisa” mais pública que temos que preservar é a não-intervenção no desejo alheio, na medida em que ele não pratique nenhuma opressão e, como tal, manifeste a integridade de um sujeito.

Quando chegarmos a esse patamar, o de reconhecer a plenitude do outro como um ser que merece gozar, desejar e ser e viver a delícia que é, que teremos uma república… E ela não cairá!




http://biscatesocialclub.com.br/2015/06/qual-republica-vai-cair/