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sábado, 17 de março de 2012
30 anos sem Elis Regina
30 anos sem Elis Regina
No dia em que se completam 30 anos da morte da cantora Elis Regina, ÉPOCA publica uma seleção de fotografias raras da cantora. Elis, que nasceu em Porto Alegre no dia 17 de março de 1945, começou a cantar ainda criança em programas de rádios da capital gaúcha. O sucesso veio com “Arrastão”, em 1965, música defendida por ela no I Festival de MPB. Elis fez discos e shows históricos, como a série "Dois na Bossa", “Elis & Tom”, “Falso Brilhante”, “Saudade do Brasil” e “Trem Azul”. Ao longo da carreira, cantou em diversos países, como Japão, França, Itália, Portugal, Alemanha, Suíça e México. Morreu aos 36 anos, no dia 19 de janeiro de 1982.
No dia em que se completam 30 anos da morte da cantora Elis Regina, ÉPOCA publica uma seleção de fotografias raras da cantora. Elis, que nasceu em Porto Alegre no dia 17 de março de 1945, começou a cantar ainda criança em programas de rádios da capital gaúcha. O sucesso veio com “Arrastão”, em 1965, música defendida por ela no I Festival de MPB. Elis fez discos e shows históricos, como a série "Dois na Bossa", “Elis & Tom”, “Falso Brilhante”, “Saudade do Brasil” e “Trem Azul”. Ao longo da carreira, cantou em diversos países, como Japão, França, Itália, Portugal, Alemanha, Suíça e México. Morreu aos 36 anos, no dia 19 de janeiro de 1982.
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Elis Regina, ainda menina, quando cantava em rádio. Foi nessa época que ela gravou seus primeiros discos
Arquivo /Editora Globo
A bunda de Simone de Beauvoir
17/03/2012
Em outubro do ano passado, durante rápido período de férias na Califórnia, resolvemos, eu e minha companheira de viagem e de vida, conhecer Carmel, cidadezinha do litoral ao sul de São Francisco, famosa por conta de sua arquitetura peculiar, seus frequentadores milionários e do "rancho" do ator e ultimamente grande diretor Clint Eastwood, moradia de verão do artista transformada num charmoso hotel --também para abonados, claro.
De fato, Carmel, sobretudo o centro da cidadezinha, é um encanto, com suas ruas tranquilas, antiquários, galerias, construções multicoloridas de teto baixo, floreiras abundantes, gente hospitaleira. Além de algumas Ferraris percorrendo calmamente as ruas estreitas e as muitas lojas de grife ali instaladas para atender à demanda dos que têm o que gastar e gastam o que tem.
Num passeio de fim de tarde por uma calçada de muitas lojas, chamou nossa atenção a atividade de umas moças que reformulavam a vitrine de uma butique de roupas femininas. Quando passamos em frente à vitrine descendo a rua, elas retiravam as roupas das manequins de gesso, certamente para exibir produtos da nova estação que adentrava. Algum tempo depois, quanto subíamos a mesma via com a noite fechada, as moças tinham ido embora, provavelmente deixando para o dia seguinte o fim da tarefa.
Antes disso, porém, tinham "vestido" cada um dos manequins com papel de seda, escondendo assim as "partes pudendas" daquelas mulheres de gesso e tinta. O papel cor-de-rosa estava enrolado gentilmente em torno das bonecas, preso na cintura, de maneira a cobrir seus seios artificiais e sua genitália inexistente.
Sim, comentou minha namorada entre risos, é preciso proteger as velhinhas ricas de Carmel de cenas tão chocantes, afinal elas são americanas e exageradamente moralistas...
Claro que esta não foi a primeira nem será a última manifestação de pudicícia explícita do americano médio --sim, porque, como sabemos, os fora da média são capazes de loucuras sensacionais, e aí estão seu cinema, sua literatura e suas outras artes para demonstrar isso.
Mas o episódio veio à lembrança por conta da censura aplicada há pouco pelos administradores da rede social Facebook ao fotógrafo carioca Fernando Rabelo: ele teve sua página de perfil retirada do ar por alguns dias como punição ao fato de ter publicado uma foto da escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) nua de costas.
Para quem não sabe, esta foto, de 1952, é famosíssima, foi realizada pelo fotógrafo norte-americano (!) Art Shay, em Chicago, durante uma estadia da libertária escritora na cidade. Uma foto roubada, mas posteriormente autorizada, enquanto a escritora estava ao toucador.
Ao que tudo indica, o surto de defesa da moral e dos bons costumes, que grassou aqui pelo Brasil nos tempos da ditadura, teve um espera-se que fortuito retorno pelas mãos dos gestores do Face, aparentemente um território livre para ideias e estéticas, cujos parâmetros deveriam ser apenas o respeito ao próximo, o bom senso e os limites da lei.
Que obviamente não foram transgredidos pelo belo derrière da companheira de Jean Paul Sartre (1905-1980), uma pioneira dentre as mulheres libertárias, defensora tenaz seu gênero como plenamente capaz de dispor de sua vida, de suas ideias e certamente de seu corpo, como deixou claro nesta frase:
"Nenhuma educação pode impedir a menina de tomar consciência de seu corpo e de sonhar com seu destino; quando muito pode impor-lhe estritos recalques que pesarão mais tarde sobre toda a sua vida sexual".

De fato, Carmel, sobretudo o centro da cidadezinha, é um encanto, com suas ruas tranquilas, antiquários, galerias, construções multicoloridas de teto baixo, floreiras abundantes, gente hospitaleira. Além de algumas Ferraris percorrendo calmamente as ruas estreitas e as muitas lojas de grife ali instaladas para atender à demanda dos que têm o que gastar e gastam o que tem.
Num passeio de fim de tarde por uma calçada de muitas lojas, chamou nossa atenção a atividade de umas moças que reformulavam a vitrine de uma butique de roupas femininas. Quando passamos em frente à vitrine descendo a rua, elas retiravam as roupas das manequins de gesso, certamente para exibir produtos da nova estação que adentrava. Algum tempo depois, quanto subíamos a mesma via com a noite fechada, as moças tinham ido embora, provavelmente deixando para o dia seguinte o fim da tarefa.
Antes disso, porém, tinham "vestido" cada um dos manequins com papel de seda, escondendo assim as "partes pudendas" daquelas mulheres de gesso e tinta. O papel cor-de-rosa estava enrolado gentilmente em torno das bonecas, preso na cintura, de maneira a cobrir seus seios artificiais e sua genitália inexistente.
| Arquivo pessoal | ||
| Manequim em loja de Carmel com suas 'vergonhas" escondidas |
Claro que esta não foi a primeira nem será a última manifestação de pudicícia explícita do americano médio --sim, porque, como sabemos, os fora da média são capazes de loucuras sensacionais, e aí estão seu cinema, sua literatura e suas outras artes para demonstrar isso.
Mas o episódio veio à lembrança por conta da censura aplicada há pouco pelos administradores da rede social Facebook ao fotógrafo carioca Fernando Rabelo: ele teve sua página de perfil retirada do ar por alguns dias como punição ao fato de ter publicado uma foto da escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) nua de costas.
| Art Shay/Divulgação | ||
| Simone de Beauvoir na foto de Art Shay |
Ao que tudo indica, o surto de defesa da moral e dos bons costumes, que grassou aqui pelo Brasil nos tempos da ditadura, teve um espera-se que fortuito retorno pelas mãos dos gestores do Face, aparentemente um território livre para ideias e estéticas, cujos parâmetros deveriam ser apenas o respeito ao próximo, o bom senso e os limites da lei.
Que obviamente não foram transgredidos pelo belo derrière da companheira de Jean Paul Sartre (1905-1980), uma pioneira dentre as mulheres libertárias, defensora tenaz seu gênero como plenamente capaz de dispor de sua vida, de suas ideias e certamente de seu corpo, como deixou claro nesta frase:
"Nenhuma educação pode impedir a menina de tomar consciência de seu corpo e de sonhar com seu destino; quando muito pode impor-lhe estritos recalques que pesarão mais tarde sobre toda a sua vida sexual".
Luiz Caversan é jornalista e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos "Cotidiano", "Ilustrada" e "Dinheiro", entre outras funções. Escreve aos sábados para a Folha.com.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Mil músicas, mil saudades...
por Jeferson Batista em 15 de mar de 2012
Quando a gente fala de saudade, a primeira coisa que me lembro é daquele vazio que sentimos quando não estamos do lado de quem a gente gosta, ou quando estamos muito tempo distante de casa, saudade das nossas coisas, da nossa cama. Saudade é uma angustia. Como traduzir essa saudade de tudo e colocar tudo nos versos de uma música? Fazer um arranjo que contemple essa melancolia e colocar uma voz que nos remeta a este estado lacrimal, no entanto sem lágrimas (no meu caso)?
Conseguiram e não com uma voz, mais com duas. Com vozes suicidamente lamuriantes Chico Buarque e Zizi Possi dividem “Pedaço de Mim”, música que nos faz interromper qualquer sorriso para nos lembrarmos de nossas saudades. É um clamor de socorro que grita por uma saudade irrevogável, aquela que não será suprida com uma presença mesmo que distante, ou ainda um telefonema. É a saudade que é o revés do parto, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.
Na verdade, a saudade é um grito imenso de “Cadê?”. Que não necessariamente é ruim de se sentir, aquele que sente falta de algo é porque aquele algo lhe fez bem. Sabe aquela saudadinha gostosa do amigo que está morando longe, ou daquela paixão que tivemos em nossas férias que nos faz perguntar “Onde anda você?”. Onde Anda Você, é assim que Toquinho e Vinicius traduziram essa paixão de férias. Que num clamor de amor maroto, quase que juvenil pergunta “Onde andam seus olhos que a gente não vê?” Com um arranjo malemolente tanto quanto um boteco nos confins do mundo na companhia do amigo distante ou dos muros escuros onde apoiamos a mulher, algoz dessa paixão veraneia, para emaranharmos seus cabelos em beijos descontrolados. Sabe?
Mas as vezes essa mulher fica, constrói algo e os beijos nos muros continuam, e a vontade de emaranhar seus cabelos se torna necessidade e nos vemos amando aquela que deveria ser apenas uma paixão de feriado. Mas um dia ela se vai, e nos deixa novamente a saudade, mas essa, diferente das outras, nos faz sentir algo que nos faz sangrar, que nos torna desesperados, nos sentimos com a alma deserta, pensamos bobagens, sentimos falta de algo completo, feito de corpo e sensações. Pra mim, essa saudade se traduz em Peito Vazio, interpretada por Cartola, num desespero dócil e quase que estúpido ao confessar a necessidade de embriagar-se para dizer impropérios a esta que se foi e nos roubou a inspiração, a ponto de nos deixar patéticos e sozinhos (e bêbados). A ponto de não conseguirmos fazer nada quando essa saudade nos aperta.
Mas como eu já disse também existe a saudade que nos faz rir do nada no meio de uma tarde de domingo sem graça. Lembra daquela festa estranha, daquele porre que tomou com os amigos, daquela noite toda em claro. Quem não tem histórias assim? Que saudade... canta Tom Zé, em “Augusta, Consolação, Angélica”. Augusta, você era vaidosa e roubava o meu dinheiro. Tantas noites de farra, meu deus! É isso que penso ao ouvir essa música, gingadinha a lá sambinha, a lá alegria de porre com os amigos. Essa saudade é gostosa de sentir, né? Saudade que um show do próprio Tom Zé nos proporciona... Que saudade...
Ainda tem aquela saudade do amigo, do irmão... daquelas conversas, aqueles risos a dois ou três, coisa descompromissada... aquele churrasquinho em casa, ou aquele almoção. Saudade do amigo que só vem nas férias, da namorada que tá viajando, do irmão que não chega logo. Tiê consegue captar isso na lindinha “Pra Alegrar o Meu Dia”, aquela saudadinha apertada, mas que faz a gente se sentir feliz. Aquela saudade descompromissada, que de vez em quando liga, manda um e-mail, mas que quando a presença se concretiza vira uma explosão de amor acumulado. Também, gosto dessa.
Saudade é assim mesmo, tem um montão de tipos, uma nos deixa "deprê", outras nos faz rir sem motivos. Mas o bom mesmo é ter do que sentir saudades, mesmo que doa, só sente saudade aquele que realmente vive.
Agora traz mais uma e me conta você qual música te faz sentir qual saudade...
Leia mais: http://lounge.obviousmag.org/traz_mais_uma/2012/03/mil-musicas-mil-saudades.html#ixzz1pIyikXdO
Para mim é essa:
Ou essa:
E essa:
Xangô, o grande fodão
Biblioteca Latino-Americana: Xangô, o grande fodão [Changó, el gran putas], de Manuel Zapata Olivella
16 de março de 2012
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Como sabe quem tem acompanhado este blogue, a tag Biblioteca Latino-Americana é um cantinho reservado aqui na Fórum para uma coleção de notas introdutórias, breves resenhas que apresentam o leitor brasileiro a obras canônicas do pensamento hispano-americano. Minha ideia até agora era ater-me à tradição ensaística do continente, mas meu contato, nas últimas semanas, com um romance genial e desconhecido no Brasil me fez mudar de ideia, inclusive porque se trata aqui de uma ficção na qual há tanto pensamento como nos ensaios mais ricos. Falo de Xangô, o grande fodão, livre tradução minha para Changó, el gran putas (1983), monumental obra do escritor e antropólogo afro-colombiano Manuel Zapata Olivella, já traduzida ao inglês mas da qual não há sequer notícia em português.
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Manuel Zapata Olivella nasceu em 1920 em Santa Cruz de Lorica, na província de Córdoba, a pouco mais de 20 km da Costa Caribe colombiana. Morreu em Bogotá em 2004. Não seria exagero propor que se trata do escritor e intelectual afrocolombiano mais destacado de todos os tempos. Respeitado e venerado na melhor tradição do preto véio, Zapata Olivella fez, cedo, sua morada em Cartagena de Índias, junto com Barranquilla um dos dois grandes polos urbanos da Colômbia Atlântica. Mas também viajou como poucos. No belíssimo documentário de Maria Adelaida López sobre sua vida e obra, aprendemos que ele queria ser veterinário, mas o pai o enviou à Universidade Nacional, em Bogotá, para estudar “o maior animal de todos” (seu pai, Antonio María Zapata, havia sido o primeiro negro graduado da Universidade de Cartagena). Curiosamente, depois de cursar Medicina, Zapata Olivella comporia uma obra literária em que não resta pedra sobre pedra do antropocentrismo.
Viajando pelas Américas na segunda metade da década de 40, escreve seu primeiro romance, Tierra mojada (1947). Visita as plantações de banana na Costa Rica, topa com as tropas dos EUA no Panamá e se finge de boxeador cubano na Guatemala para sobreviver e juntar o dinheiro necessário para seguir viagem ao México, até comer o pão que o diabo amassou no Harlem, conhecer Langston Hughes e o Harlem Renaissance e consolidar a tendência que caracterizaria as últimas cinco décadas de sua caudalosa obra, a reconstrução, valorização e reflexão sobre a experiência dos povos afro-descendentes nas Américas. Depois de publicar os romances de temática afro La calle 10 (1960), Detrás del rostro (1963), Chambacú, corral de negros (1963) e En Chimá nace un santo (1964), Zapata Olivella se dedicaria às viagens, ao trabalho de antropólogo e folclorista e à promoção da música afro-colombiana (ele foi o responsável pela primeira grande performance de música afro-colombiana ao ar livre em Bogotá, ante uma multidão de compatriotas estupefatos ante a riqueza rítmica desconhecida), até o ponto em que todos imaginaram que ele havia concluído seu ciclo de romancista.
Mas estava em gestação sua obra maior, Changó, el gran putas, finalmente publicada em 1983. Ela realiza na literatura colombiana, grosso modo, o que o romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, só realizaria na literatura brasileira em 2006: contar, de forma ambiciosa, a história dos povos negros sob escravidão na América. A diferença principal é que enquanto Um defeito de cor escolhe um registro realista, que acompanha a longa vida de Kehinde, vendida como escrava no reino do Daomé no começo do século XIX e protagonista de vários eventos da história brasileira ao longo do século, Changó não se atém a um narrador ou a um período histórico. É uma realização literária notável: trata-se de uma única história, encadeada, coerente, não de uma mera sucessão de episódios. É um romance no sentido estrito do termo, mas ele abarca mais de cinco séculos de história, desde a prisão e o exílio de Xangô no Delta do Rio Níger, passando pela fedentina e pelas mortes do navio negreiro, o cativeiro em Cartagena de Índias, a Revolução Haitiana, a Inconfidência Mineira, as Independências Bolivarianas (onde o Almirante negro José Prudencio Padilla derrota os espanhóis na batalha do Lago Maracaibo), a resistência afro-cubana cifrada na santería, a Guerra Civil dos EUA até a luta de Martin Luther King e Malcolm X no século XX.
Para descrever esse caráter monumental de Changó, el gran putas, poderíamos recorrer ao termo saga, se essa palavra não estivesse tão encharcada de uma teleologia épica ocidental. Os cinco séculos de acontecimentos contados por Zapata Olivella não são alinhavados por um narrador em 3ª pessoa, que paire sobre os acontecimentos, mas tampouco há um narrador único em 1ª pessoa, como a Kehinde de Ana Maria Gonçalves. A cada momento, é um personagem diferente que conta a história. As mudanças de narrador vão sendo indicadas por um espaço extra entre os parágrafos, mas você com frequência não sabe quem está narrando o relato até bem avançada a anedota. Em geral, logo que consolida sua identificação com o narrador da vez, você topa com mais um espaço extra separando parágrafos e a história segue com outra voz desconhecida, cuja identidade você terá que compor de novo. Através de todas elas, mesmo a dos negros aos quais se impõe a ignomínia de serem capangas do colonizador, fala o espírito de Ngafúa, filho de Kissi-Kama, que ouviu sob a sombra do baobá a história da maldição de Xangô. Na melhor tradição africana, não é a voz individual que importa, mas o relato dos ancestrais transmitido coletiva e anonimamente. Zapata Olivella, então, não se limita a “contar a história” do povo negro usando um gênero ocidental, o romance. Ele toma esse gênero e o submete a uma africanização radical, que desmonta suas estruturas.
O começo do relato não é, evidentemente, o “descobrimento” da América, mas a prisão e o exílio de Xangô, o filho de Iemanjá que unificara os reinos do Níger. Das cinco grandes partes em que se divide o romance, a primeira, “As Origens”, é narrada em verso e antecipa o degredo em terras longínquas. Eu traduzo a seguir um trecho em que, depois de evocar os catorze orixás paridos por Iemanjá, Ngafúa, dirigindo-se ao Muntu (forma singular de Bantu, ou seja, “os homens”, “o povo”, com a ressalva de que o conceito inclui animais, vegetais, minerais, vivos e mortos), relata a prisão e o exílio de Xangô:
.
Escuta Muntu que te afastas
as passadas, as vivas histórias
os gloriosos tempos de Xangô
e sua trágica maldição.
.
Eléyay, ira de Xangô!
Eléyay, fúria da dor!
Eléyay, maldição das maldições!
Por vingança do rancoroso Loa
condenados fomos ao continente estranho
milhões de teus filhos
cegos manatis em outros rios
buscando as origens perdidas.
.
Por séculos e séculos
Ilé-Ifè a Cidade Sagrada
mansão dos Orixás
nunca esquecerá a inapagável mancha
a sinistra rebelião
contra o glorioso Xangô
terceiro soberano de Oyo
e sua nunca igualada vingança
quando prisioneiro e no exílio
ao Muntu condena a sofrer
seu próprio castigo.
.
Naquela época…
Muntu que esqueceis as passadas, as não mortas histórias
o furibundo e generoso Xangô
odiado por seus súditos
venerado por sua glória
a seus irmãos fez guerra
a Orum, cujo escudo é o sol
a Oxóssi, construtor do arco e da flecha
a Oke, habitante dos montes e dos cumes
a Olokun, enamorado dos machos
e até o doce Oko
o músico, o poeta
que fertiliza a terra com sua graça
as flautas, a kora, as trompetas
para dançar com elas, arrebatou.
.
Xangô, infatigável procriador
entre guerras, cavalgaduras e estribos
no intocado surco de suas irmãs
semeava a semente fértil
cepa das múltiplas tribos.
.
A Obá, espiã de sua formosura
para sempre nas noites
escondida entre as lagunas
entre todas, quis por esposa
e para que não tivesse paz em sua loucura
zelosa Orixá de seus passos
pôs cem olhos em sua cara
cem ouvidos
cem narizes
a pele sensível aos aromas
guardiã eterna de seu falo.
.
Oya, voluptuosa corrente
úmido, cheiroso corpo do Níger
sua preferida concubina
sua outra irmã
com suas mãos, seus braços de água
depois das terríveis batalhas,
as feridas, o sangue, lhe banhava.
.
Mas não era menos consentida
sua irmã menor, Oxum
espírito dos rios e das lagunas
em seus seios de águas retidas
dormia seu sono o Orixá.
O tempo furtado a seus amores
consagrou às armas
à invenção do raio e dos trovões
adestrando cavalos que voaram pelos céus.
A seus mais hábeis gladiadores:
Ao nobre Gbonka!
A Timi, o valente!
Ensinou-lhes o tiro da lança
a caça noturna do leopardo
burlar o nó corrediço da serpente
romper os invisíveis fios da aranha.
.
**
O poema prossegue por vinte páginas até o momento em que Ngafúa entreouve a voz do próprio Xangô legar aos descendentes de Obafulom, que o expulsaram da cidade sagrada de Ilé-Ifè, o desterro em outros mundos, a escravidão e a prometida redenção, na qual os descendentes do orixá libertariam também “a índia mãe de teu filho”, “a violada avó pelo amo” e “o mulato nutrido com teu sangue”.
Daí em diante, pelas próximas 500 páginas, o relato será contado em prosa, a partir da captura de escravos na região do Níger, narrada com detalhes, dos suicídios dos Carabali-Bibi ao colaboracionismo de muitos Diola (subgrupo da grande família Mandé, das terras altas da Costa do Marfim), que participaram do tráfico negreiro como capatazes das “Lobas Brancas” (portugueses e espanhóis, curiosamente referidos no texto com um termo feminino), até o horror do navio negreiro, contado espetacularmente, em duas vozes. Uma fixa, indicada por itálicos, espanhola, relata os cálculos do colonizador. Outra, impessoal e flutuante, assumida por vários africanos ao longo da jornada, narra a luta contra a morte.
Apesar das dezenas de narradores, o relato mantém sua unidade, como dito acima, porque através de todas as vozes fala o espírito de Ngafúa, que ouviu a profecia de Xangô sob a sombra do baobá. Ele se renova num parto acontecido já em Cartagena de Índias, em que Potenciana Biojo dá à luz ao protegido de Exu, que será batizado com o nome cristão de Domingo, mas que todos os negros chamarão de Benkos, pois assim se chamava o tataravô rei semeou sua kulonda, a semente física e espiritual com que, entre os Banto, o ancestral auspicia o nascimento de uma criatura. Benkos é “o menino mas que já era um velho. Doze anos tem e já levantava sua vara de touro” [Nota: esse tipo de construção aparentemente agramatical, em que se misturam os verbos no presente e no imperfeito – “doze anos tem e já levantava...” – é uma das marcas registradas da prosa de Zapata Olivella, e vai criando uma temporalidade de sonho ao longo do romance, na qual os eventos parecem acontecer numa espécie de tempo ao mesmo transcendental e encharcado de História, imemorial mas sempre presente].
Na quarta parte, “Os Sangues Encontrados”, o leitor acompanhará o espírito de Benkos em acontecimentos históricos nos quais a participação negra foi sistematicamente apagada: as independências bolivarianas e a Inconfidência Mineira. Nesta, Ngafúa, mensageiro de Xangô, acompanha o Aleijadinho e narra uma versão da revolta que muito brasileiro lerão estupefatos, tanto com a fina pesquisa histórica de Zapata Olivella como com a rasura sistemática da presença negra na revolta.
Não surpreende, claro, que trinta anos tenham se passado da publicação desse romance monumental, profundamente afro-americano e afro-brasileiro, sem que dele tenhamos tido muita notícia no Brasil. Urge, evidentemente, uma tradução ao português mas, enquanto isso, se você quiser se aventurar pela obra em espanhol, é só clicar aqui e baixar a maravilha em pdf.
Abobó!
http://revistaforum.com.br/idelberavelar/tag/biblioteca-latino-americana/
Como sabe quem tem acompanhado este blogue, a tag Biblioteca Latino-Americana é um cantinho reservado aqui na Fórum para uma coleção de notas introdutórias, breves resenhas que apresentam o leitor brasileiro a obras canônicas do pensamento hispano-americano. Minha ideia até agora era ater-me à tradição ensaística do continente, mas meu contato, nas últimas semanas, com um romance genial e desconhecido no Brasil me fez mudar de ideia, inclusive porque se trata aqui de uma ficção na qual há tanto pensamento como nos ensaios mais ricos. Falo de Xangô, o grande fodão, livre tradução minha para Changó, el gran putas (1983), monumental obra do escritor e antropólogo afro-colombiano Manuel Zapata Olivella, já traduzida ao inglês mas da qual não há sequer notícia em português.
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Manuel Zapata Olivella nasceu em 1920 em Santa Cruz de Lorica, na província de Córdoba, a pouco mais de 20 km da Costa Caribe colombiana. Morreu em Bogotá em 2004. Não seria exagero propor que se trata do escritor e intelectual afrocolombiano mais destacado de todos os tempos. Respeitado e venerado na melhor tradição do preto véio, Zapata Olivella fez, cedo, sua morada em Cartagena de Índias, junto com Barranquilla um dos dois grandes polos urbanos da Colômbia Atlântica. Mas também viajou como poucos. No belíssimo documentário de Maria Adelaida López sobre sua vida e obra, aprendemos que ele queria ser veterinário, mas o pai o enviou à Universidade Nacional, em Bogotá, para estudar “o maior animal de todos” (seu pai, Antonio María Zapata, havia sido o primeiro negro graduado da Universidade de Cartagena). Curiosamente, depois de cursar Medicina, Zapata Olivella comporia uma obra literária em que não resta pedra sobre pedra do antropocentrismo.
Viajando pelas Américas na segunda metade da década de 40, escreve seu primeiro romance, Tierra mojada (1947). Visita as plantações de banana na Costa Rica, topa com as tropas dos EUA no Panamá e se finge de boxeador cubano na Guatemala para sobreviver e juntar o dinheiro necessário para seguir viagem ao México, até comer o pão que o diabo amassou no Harlem, conhecer Langston Hughes e o Harlem Renaissance e consolidar a tendência que caracterizaria as últimas cinco décadas de sua caudalosa obra, a reconstrução, valorização e reflexão sobre a experiência dos povos afro-descendentes nas Américas. Depois de publicar os romances de temática afro La calle 10 (1960), Detrás del rostro (1963), Chambacú, corral de negros (1963) e En Chimá nace un santo (1964), Zapata Olivella se dedicaria às viagens, ao trabalho de antropólogo e folclorista e à promoção da música afro-colombiana (ele foi o responsável pela primeira grande performance de música afro-colombiana ao ar livre em Bogotá, ante uma multidão de compatriotas estupefatos ante a riqueza rítmica desconhecida), até o ponto em que todos imaginaram que ele havia concluído seu ciclo de romancista.
Mas estava em gestação sua obra maior, Changó, el gran putas, finalmente publicada em 1983. Ela realiza na literatura colombiana, grosso modo, o que o romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, só realizaria na literatura brasileira em 2006: contar, de forma ambiciosa, a história dos povos negros sob escravidão na América. A diferença principal é que enquanto Um defeito de cor escolhe um registro realista, que acompanha a longa vida de Kehinde, vendida como escrava no reino do Daomé no começo do século XIX e protagonista de vários eventos da história brasileira ao longo do século, Changó não se atém a um narrador ou a um período histórico. É uma realização literária notável: trata-se de uma única história, encadeada, coerente, não de uma mera sucessão de episódios. É um romance no sentido estrito do termo, mas ele abarca mais de cinco séculos de história, desde a prisão e o exílio de Xangô no Delta do Rio Níger, passando pela fedentina e pelas mortes do navio negreiro, o cativeiro em Cartagena de Índias, a Revolução Haitiana, a Inconfidência Mineira, as Independências Bolivarianas (onde o Almirante negro José Prudencio Padilla derrota os espanhóis na batalha do Lago Maracaibo), a resistência afro-cubana cifrada na santería, a Guerra Civil dos EUA até a luta de Martin Luther King e Malcolm X no século XX.
Para descrever esse caráter monumental de Changó, el gran putas, poderíamos recorrer ao termo saga, se essa palavra não estivesse tão encharcada de uma teleologia épica ocidental. Os cinco séculos de acontecimentos contados por Zapata Olivella não são alinhavados por um narrador em 3ª pessoa, que paire sobre os acontecimentos, mas tampouco há um narrador único em 1ª pessoa, como a Kehinde de Ana Maria Gonçalves. A cada momento, é um personagem diferente que conta a história. As mudanças de narrador vão sendo indicadas por um espaço extra entre os parágrafos, mas você com frequência não sabe quem está narrando o relato até bem avançada a anedota. Em geral, logo que consolida sua identificação com o narrador da vez, você topa com mais um espaço extra separando parágrafos e a história segue com outra voz desconhecida, cuja identidade você terá que compor de novo. Através de todas elas, mesmo a dos negros aos quais se impõe a ignomínia de serem capangas do colonizador, fala o espírito de Ngafúa, filho de Kissi-Kama, que ouviu sob a sombra do baobá a história da maldição de Xangô. Na melhor tradição africana, não é a voz individual que importa, mas o relato dos ancestrais transmitido coletiva e anonimamente. Zapata Olivella, então, não se limita a “contar a história” do povo negro usando um gênero ocidental, o romance. Ele toma esse gênero e o submete a uma africanização radical, que desmonta suas estruturas.
O começo do relato não é, evidentemente, o “descobrimento” da América, mas a prisão e o exílio de Xangô, o filho de Iemanjá que unificara os reinos do Níger. Das cinco grandes partes em que se divide o romance, a primeira, “As Origens”, é narrada em verso e antecipa o degredo em terras longínquas. Eu traduzo a seguir um trecho em que, depois de evocar os catorze orixás paridos por Iemanjá, Ngafúa, dirigindo-se ao Muntu (forma singular de Bantu, ou seja, “os homens”, “o povo”, com a ressalva de que o conceito inclui animais, vegetais, minerais, vivos e mortos), relata a prisão e o exílio de Xangô:
.
Escuta Muntu que te afastas
as passadas, as vivas histórias
os gloriosos tempos de Xangô
e sua trágica maldição.
.
Eléyay, ira de Xangô!
Eléyay, fúria da dor!
Eléyay, maldição das maldições!
Por vingança do rancoroso Loa
condenados fomos ao continente estranho
milhões de teus filhos
cegos manatis em outros rios
buscando as origens perdidas.
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Por séculos e séculos
Ilé-Ifè a Cidade Sagrada
mansão dos Orixás
nunca esquecerá a inapagável mancha
a sinistra rebelião
contra o glorioso Xangô
terceiro soberano de Oyo
e sua nunca igualada vingança
quando prisioneiro e no exílio
ao Muntu condena a sofrer
seu próprio castigo.
.
Naquela época…
Muntu que esqueceis as passadas, as não mortas histórias
o furibundo e generoso Xangô
odiado por seus súditos
venerado por sua glória
a seus irmãos fez guerra
a Orum, cujo escudo é o sol
a Oxóssi, construtor do arco e da flecha
a Oke, habitante dos montes e dos cumes
a Olokun, enamorado dos machos
e até o doce Oko
o músico, o poeta
que fertiliza a terra com sua graça
as flautas, a kora, as trompetas
para dançar com elas, arrebatou.
.
Xangô, infatigável procriador
entre guerras, cavalgaduras e estribos
no intocado surco de suas irmãs
semeava a semente fértil
cepa das múltiplas tribos.
.
A Obá, espiã de sua formosura
para sempre nas noites
escondida entre as lagunas
entre todas, quis por esposa
e para que não tivesse paz em sua loucura
zelosa Orixá de seus passos
pôs cem olhos em sua cara
cem ouvidos
cem narizes
a pele sensível aos aromas
guardiã eterna de seu falo.
.
Oya, voluptuosa corrente
úmido, cheiroso corpo do Níger
sua preferida concubina
sua outra irmã
com suas mãos, seus braços de água
depois das terríveis batalhas,
as feridas, o sangue, lhe banhava.
.
Mas não era menos consentida
sua irmã menor, Oxum
espírito dos rios e das lagunas
em seus seios de águas retidas
dormia seu sono o Orixá.
O tempo furtado a seus amores
consagrou às armas
à invenção do raio e dos trovões
adestrando cavalos que voaram pelos céus.
A seus mais hábeis gladiadores:
Ao nobre Gbonka!
A Timi, o valente!
Ensinou-lhes o tiro da lança
a caça noturna do leopardo
burlar o nó corrediço da serpente
romper os invisíveis fios da aranha.
.
**
O poema prossegue por vinte páginas até o momento em que Ngafúa entreouve a voz do próprio Xangô legar aos descendentes de Obafulom, que o expulsaram da cidade sagrada de Ilé-Ifè, o desterro em outros mundos, a escravidão e a prometida redenção, na qual os descendentes do orixá libertariam também “a índia mãe de teu filho”, “a violada avó pelo amo” e “o mulato nutrido com teu sangue”.
Daí em diante, pelas próximas 500 páginas, o relato será contado em prosa, a partir da captura de escravos na região do Níger, narrada com detalhes, dos suicídios dos Carabali-Bibi ao colaboracionismo de muitos Diola (subgrupo da grande família Mandé, das terras altas da Costa do Marfim), que participaram do tráfico negreiro como capatazes das “Lobas Brancas” (portugueses e espanhóis, curiosamente referidos no texto com um termo feminino), até o horror do navio negreiro, contado espetacularmente, em duas vozes. Uma fixa, indicada por itálicos, espanhola, relata os cálculos do colonizador. Outra, impessoal e flutuante, assumida por vários africanos ao longo da jornada, narra a luta contra a morte.
Apesar das dezenas de narradores, o relato mantém sua unidade, como dito acima, porque através de todas as vozes fala o espírito de Ngafúa, que ouviu a profecia de Xangô sob a sombra do baobá. Ele se renova num parto acontecido já em Cartagena de Índias, em que Potenciana Biojo dá à luz ao protegido de Exu, que será batizado com o nome cristão de Domingo, mas que todos os negros chamarão de Benkos, pois assim se chamava o tataravô rei semeou sua kulonda, a semente física e espiritual com que, entre os Banto, o ancestral auspicia o nascimento de uma criatura. Benkos é “o menino mas que já era um velho. Doze anos tem e já levantava sua vara de touro” [Nota: esse tipo de construção aparentemente agramatical, em que se misturam os verbos no presente e no imperfeito – “doze anos tem e já levantava...” – é uma das marcas registradas da prosa de Zapata Olivella, e vai criando uma temporalidade de sonho ao longo do romance, na qual os eventos parecem acontecer numa espécie de tempo ao mesmo transcendental e encharcado de História, imemorial mas sempre presente].
Na quarta parte, “Os Sangues Encontrados”, o leitor acompanhará o espírito de Benkos em acontecimentos históricos nos quais a participação negra foi sistematicamente apagada: as independências bolivarianas e a Inconfidência Mineira. Nesta, Ngafúa, mensageiro de Xangô, acompanha o Aleijadinho e narra uma versão da revolta que muito brasileiro lerão estupefatos, tanto com a fina pesquisa histórica de Zapata Olivella como com a rasura sistemática da presença negra na revolta.
Não surpreende, claro, que trinta anos tenham se passado da publicação desse romance monumental, profundamente afro-americano e afro-brasileiro, sem que dele tenhamos tido muita notícia no Brasil. Urge, evidentemente, uma tradução ao português mas, enquanto isso, se você quiser se aventurar pela obra em espanhol, é só clicar aqui e baixar a maravilha em pdf.
Abobó!
http://revistaforum.com.br/idelberavelar/tag/biblioteca-latino-americana/
“Hoje sou 100% livre"
Fabio Assunção
Ator é o entrevistado das Páginas Vermelhas deste mês
“Hoje sou 100% livre. Me desprendi da aprovação do outro. Eu não só não julgo, como também não me importo mais com o julgamento dos outros”. Foi com esse tom de espírito renovado que Fábio Assunção recebeu a reportagem da Tpm e concedeu uma longa entrevista para as Páginas Vermelhas da edição que chega às bancas a partir de sexta-feira, dia 9 de março. Foram quase dois anos no olho do furacão vivendo em público um drama bastante particular, sua batalha contra a dependência química, que o tornou alvo de um massacre da patrulha do politicamente correto. Atacado por todos os lados, Fábio passou um tempo longe dos palcos, mas nunca perdeu a vontade de voltar a atuar e exercer o ofício que o tornou famoso.
Atuante nas redes sociais, o ator falou sobre as facilidades e vantagens da comunicação direta com as pessoas. “Tenho meu pensamento impresso ali e descobri que não tem nada melhor do que você se colocar para as pessoas. Porque, com toda essa coisa que aconteceu na minha vida, muita gente escrevia por mim e sobre mim. Mas hoje muitas coisas que tenho vontade de dizer digo no Facebook. Falo sobre os temas que me interessam e me comunico com qualquer pessoa.”, afirmou.
Sobre a televisão, Fabio ponderou sobre os perigos da fama e o reconhecimento repentinos trazidos pelo veículo. "A televisão rapidamente dá uma credibilidade e uma chancela de qualidade sem que você tenha consolidado conquistas mais artesanais. Ninguém se torna um grande ator em dois, três ou cinco anos. O sucesso imediato da televisão pode te trazer um pouco dessa falsa sensação de qualidade aos 20 anos de idade. Um profissional experiente é bem diferente da coisa pop.”
Além do sucesso na TV, o paulistano, que conhece os dois lados da super exposição, falou sobre admiração e a relação com ídolos. “Tem várias pessoas que admiro, respeito e acho que cumprem suas metas. Mas não tenho uma relação de ídolo, como se elas tivessem uma coisa que eu não pudesse ter. As conquistas são possíveis a qualquer pessoa.”
Atualmente em seu segundo casamento com a fotógrafa Karina Tavares, Fábio discorreu sobre a dificuldade de se manter uma relação. “Se você não tiver paciência com as tensões do casamento, ele dança. Tem que saber que passa. É um exercício de sabedoria. Você ficar com alguém é ter que fazer concessões. Acho casamento dificílimo, porque cada um tem seu jeito, suas manias. Ao mesmo tempo, acho possível. Mas tem que ser em nome de querer ficar junto.”, contou.
Sobre velhice, o ator de 40 anos disparou: “Não tenho nenhum medo de envelhecer. Mas também acho que a gente não vive em um dos melhores lugares do mundo para isso. E muita gente de mais idade vai ficando amarga, porque essa sociedade capitalista só quer saber o que você pode consumir. É tudo muito rápido. As pessoas estão mais interessadas na vida da modelo de 17 anos do que em um cara genial de 75.”
Veja acima a galeria de fotos do ator e leia a entrevista completa na Tpm de março, nas bancas e na App Store a partir de sexta, dia 9
http://revistatpm.uol.com.br/revista/118/paginas-vermelhas/fabio-assuncao.html
Atuante nas redes sociais, o ator falou sobre as facilidades e vantagens da comunicação direta com as pessoas. “Tenho meu pensamento impresso ali e descobri que não tem nada melhor do que você se colocar para as pessoas. Porque, com toda essa coisa que aconteceu na minha vida, muita gente escrevia por mim e sobre mim. Mas hoje muitas coisas que tenho vontade de dizer digo no Facebook. Falo sobre os temas que me interessam e me comunico com qualquer pessoa.”, afirmou.
“Hoje sou 100% livre. Me desprendi da aprovação do outro. Eu não só não julgo, como também não me importo mais com o julgamento dos outros
Sobre a televisão, Fabio ponderou sobre os perigos da fama e o reconhecimento repentinos trazidos pelo veículo. "A televisão rapidamente dá uma credibilidade e uma chancela de qualidade sem que você tenha consolidado conquistas mais artesanais. Ninguém se torna um grande ator em dois, três ou cinco anos. O sucesso imediato da televisão pode te trazer um pouco dessa falsa sensação de qualidade aos 20 anos de idade. Um profissional experiente é bem diferente da coisa pop.”
Além do sucesso na TV, o paulistano, que conhece os dois lados da super exposição, falou sobre admiração e a relação com ídolos. “Tem várias pessoas que admiro, respeito e acho que cumprem suas metas. Mas não tenho uma relação de ídolo, como se elas tivessem uma coisa que eu não pudesse ter. As conquistas são possíveis a qualquer pessoa.”
"O sucesso imediato da televisão pode te trazer um pouco dessa falsa sensação de qualidade aos 20 anos de idade"
Atualmente em seu segundo casamento com a fotógrafa Karina Tavares, Fábio discorreu sobre a dificuldade de se manter uma relação. “Se você não tiver paciência com as tensões do casamento, ele dança. Tem que saber que passa. É um exercício de sabedoria. Você ficar com alguém é ter que fazer concessões. Acho casamento dificílimo, porque cada um tem seu jeito, suas manias. Ao mesmo tempo, acho possível. Mas tem que ser em nome de querer ficar junto.”, contou.
Sobre velhice, o ator de 40 anos disparou: “Não tenho nenhum medo de envelhecer. Mas também acho que a gente não vive em um dos melhores lugares do mundo para isso. E muita gente de mais idade vai ficando amarga, porque essa sociedade capitalista só quer saber o que você pode consumir. É tudo muito rápido. As pessoas estão mais interessadas na vida da modelo de 17 anos do que em um cara genial de 75.”
Veja acima a galeria de fotos do ator e leia a entrevista completa na Tpm de março, nas bancas e na App Store a partir de sexta, dia 9
http://revistatpm.uol.com.br/revista/118/paginas-vermelhas/fabio-assuncao.html
Power puff
Photographer Robyn Twomey's shots of women puffing tough come at a crucial time in history
03.13.12 - 5:59 pm | Caitlin Donohue |
Robyn Twomey captured "Ann" with her Persian cat and solo -- but always with her joint in hand.
PHOTO BY ROBYN TWOMEYHERBWISE I remember the first time I saw photographer Robyn Twomey's work — talk about simpatico. It was a huge print of a photo of an elderly woman sitting in front of a piano and a mirror with an immense Persian cat, lighting a joint firmly held between her lips. I'd never seen anything like it — documented in a gallery, that is.
In some version of my future life, I'd like to make a nest inside Twomey's photographer bag and travel the country with her. Not that she'd need my services. Her shots speak loudly, from her descriptive portraits of T.I., Bill Gates, Rosie O'Donnell, to Attorney General Kamala Harris.
Small wonder that the smoke-filled photos of Harborside Health Center's women patients (originally shot for a Fortune Magazine feature) are part of the Mission Cultural Center for Latino Arts' new group exhibition "Solo Esas Mujeres", which opens March 17. The show assembles the work of 14 female artists in an effort to reaffirm feminine power through its documentation.
So of all the females that Twomey's captured throughout her career, why use the shots of these cannabis smokers for this particular exhibition? Perhaps these females — all of whom use the stuff for real serious medical conditions — have the most need of documentation. Easy access to medical marijuana is important, oh federal government of ours. Hey Robyn, any chance of getting Harris out to the Mission for the opening reception? I can help host.
"Solo Esas Mujeres" March 17 through May 5. Opening reception March 21, 6:30 p.m.-9:30 p.m., free. Mission Cultural Center for Latino Arts, 2868 Mission, SF. (415) 643-2785, www.missionculturalcenter.org
Clasicismo es usted, Padrino
Francis Ford Coppola dirige a Marlon Brando el 30 de abril de 1971 en el rodaje de la s
cuencia inicial de 'El Padrino'. / gtres
'El Padrino' habla con lenguaje inoxidable de cosas que han alimentado a las tragedias
Carlos Boyero Madrid
Era octubre del 72 cuando vi por primera vez El Padrino. En su estreno en el cine Palacio de la Música, en aquella Gran Vía que olía a cine, que podías recorrer incansablemente observando los enormes y aromáticos cartelones que anunciaban las películas. Conocí a principios de los años setenta los rincones más exóticos de aquel Madrid inmenso y que desconocía buscando el infatigable atracón de cine a través de los programas dobles en los infinitos cines de barrio. Hice involuntario exhaustivo turismo en función del amor al cine. También hubiera intentado recorrer de punta a punta el Amazonas o la Antártida no para descubrir sus exóticos y maravillosos paisajes, sino porque allí se programara la mejor historia del cine.
Aunque no dispusiera de dinero para frecuentar las salas de estreno, me las ingenié para disfrutar de El Padrino el día de su estreno, y el siguiente y el siguiente.... Y por supuesto, había leído la critica en la sagrada revista Triunfo que la calificaba de película fallida, convencional producto de Hollywood y otras negativas certidumbres que sonaban a manifiesto dadaísta. Cuarenta años más tarde, cuando se empiezan a difuminar en el recuerdo personas y cosas que consideraba imprescindibles, habiendo renunciado por voluntad propia o por necesidad de supervivencia a enganches que parecían eternos, sigo frecuentando con renovada fascinación e inmarchitable amor, cada seis meses más o menos, antes en el cine y progresivamente en vídeo, DVD y Blu-Ray, esta saga de casi diez horas titulada El Padrino. Ese conocimiento tan exhaustivo como obsesivo que te permite reconocer de memoria cada palabra que va a salir de la bocas de protagonistas y secundarios, el tono en el que van a pronunciarlas, sus gestos histriónicos o leves, lo que va a ocurrir en cada secuencia, los momentos que van a estar ambientados con música y las imágenes desnudas, lo que pretende ser realista y lo que se limita a sugerir, el armonioso empleo del flash-back y las elocuentes elipsis, la violencia evidente o subterránea y un intimismo que llega a ser doloroso, la mezcla de espectáculo, lírica y reflexión, la simultánea empatía, comprensión y horror que te hacen sentir esos personajes complejos y sus casi siempre siniestras circunstancias, no priva jamás de su encanto ni de su hipnosis a esta obra perfecta, no te cansa, te sigue removiendo, divirtiendo y emocionando igual que la primera vez, tienes la sensación de que es imposible contar mejor esa historia de múltiples ramificaciones aunque siempre arranque con una celebración y acabe con una tragedia.
Coppola, que nunca ha demostrado demasiado entusiasmo por su criatura más prodigiosa (independientemente de que esta le hiciera el justo favor de convertirle en millonario a perpetuidad), que declara haberse sentido mucho más realizado con otras de sus películas, concebidas con vocación y amor y que no alcanzaron el éxito, consiguió algo que está más allá del elogio, sin la menor relación con eso tan efímero y frívolo de las modas, clásico, vivo, apasionante, intemporal.
El Padrino habla con lenguaje inoxidable y hermoso de cosas que siempre han alimentado a las tragedias más profundas. Habla de la familia como refugio presuntamente invulnerable y de su lacerante quiebra, de las grandezas y miserias del poder, de las barbaridades que hay que cometer para no perderlo, de la fatalidad y el destino obligando a asumir responsabilidades y metas opuestas a lo que habías pretendido que fuera tu vida, de la traición y la venganza, del crimen organizado y sus múltiples tentáculos de corrupción, incluido el soborno de los pilares de la ley, la política, la justicia y el orden, de los inmigrantes forzosos y sus códigos de supervivencia en ese mundo nuevo y hostil, de rituales ancestrales y violentos, de la mentira cotidiana intentando disfrazar la hipocresía y salvar los asideros vitales, de las pérdidas y las rupturas más brutales que impone el mantenimiento de un trono permanentemente amenazado por las conjuras, de la soledad cósmica a la que está destinado el monarca de la jungla.
Todo ello está descrito con una visión profunda que te hace comprender las razones de todos para ser como son y actuar como actúan. La primera parte de El Padrino es modélica, pero lo que narra en la segunda y la forma de hacerlo, incluida la costumbrista y maravillosa reconstrucción de la infancia y juventud de Vito Corleone, posee el aliento, la atmósfera, la intensidad y la lírica de las mejores tragedias de Shakespeare. Y hay un bajón en la tercera, la incómoda sensación en algunos momentos de que Coppola está autoplagiándose y repitiendo una una fórmula infalible, también sobra la empalagosa interpretación de su hija Sofia, pero tiene secuencias grandiosas.
El genial Brando solo aparece durante media hora, pero su aplastante presencia flota durante toda la saga. La interpretación de un contenido y sutil Pacino es una obra de arte. Como la de Duvall y De Niro. Pero hasta el último de los secundarios construye un personaje veraz. Si juntas a diez amantes de El Padrino es probable que difieran los momentos y los personajes que más les impresionan. Pero todos te confesarán que esta saga tan larga les parece muy corta. Que si durara cien horas en vez de diez, su felicidad sería completa.
http://cultura.elpais.com/cultura/2012/03/15/actualidad/1331843906_981234.html
Ukelelê
- Muita gente conhece e muita gente não. Eu gosto tanto e ando tocando. Tenho 6 e tenho ciúmes até de falar sobre ele. Já tinha visto esse "cavaquinho" havaiano nos filmes de Elvis, mas fui presenteado pelo ex-namorado da minha filha, surfista profissional (Yan Cosenza) que chegou do Havaí com o presente pro sogro. Quase mudo as cordas e a estranha afinação G, C, E e A.
Mas comecei a mergulhar na agradável sonoridade e já gravei com a Blitz, no clipe do youtube Eu, Minha Gata E Meu Cachorro, e com minha banda The Fabulous Tab. Aqui vai a dica de um cara feríssima no ukulelê, James Hill, com uma pegada pop sensacional.
Pra checar no youtube:
Imperdível a versão DELE DE:
##James Hill - Billie Jean, com Bakithi Kumalo no ukulele baixo.
##Vale a pena ver a versão dele de Samba de Uma Nota Só. James Hill - One Note Samba.
##James Hill- Feeling Groove - do Paul Simon - Onde ele comanda a plateia no Estilo Simonal.
## James Hill - uke - talk live. Acompanhado de um violoncelo. Também é ótimo o "diálogo" dos instrumentos.
Obedience Blues - que começa com umas "gracinhas" chatas para a plateia mas depois ingrena num "blusão"com um gaitista bem bacana.
E fechando nossa rádio teclada:
A dica é da UKULELE ORCHESTRA OF GREAT Britian. Fazendo uma versão muito bem humorada do tema do filme The Good, The Bad and The Ugly
PS. Quem quiser converir o disco da minha banda
The Fabulous Tab com covers dos anos 60 e 70 (Ray Charles, Otis Redding, Pink Floyd, Hendrix, JJ.Cale, Led Zeppelin, Dylan, Marley, Stones. Na nossa série "COVERS-FLOR". ENTRE NA go2music.com.br e peça o CD NEXT TO THE FIRE.
Keith Richards se desculpa
"Como vocês sobrevivem a uma jornada que já dura 50 anos? Deve ter sido difícil, por vezes, levando em consideração a natureza de seu relacionamento e, especialmente, as histórias sobre as tensões que resultaram na publicação de 'Vida'", perguntou o entrevistador.
Mick Jagger então tomou a palavra. "Olhando para trás, em qualquer carreira, você é obrigado a lembrar dos altos e baixos. Na década de 80, por exemplo, Keith e eu não estávamos nos comunicando muito bem. Fiquei muito envolvido com o lado comercial dos Stones, principalmente por sentir que mais ninguém estava interessado nisso. Agora ficou claro, a partir do livro de Keith, que ele se sentiu excluído, o que é uma pena. Hora de seguir em frente", disse.
O guitarrista, então, deu-lhe razão. "Mick está certo. Eu e eles tivemos conversas no último ano, do tipo que não tivemos por muito tempo e que têm sido muito importantes para mim. Quanto ao livro, é a minha história e é bem crua, como eu queria que fosse, mas sei que alguns trechos e a publicidade que foi feita realmente ofenderam Mick e eu lamento isso", disse Richards. As informações são da revista "Rolling Stone".
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/keith-richards-se-desculpa-por-comentarios-sobre-mick-jagger-4327432#ixzz1pIRCy48y
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