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sábado, 3 de agosto de 2013

CAPOEIRA



Raízes africanas 
A história da capoeira começa no século XVI, na época em que o Brasil era colônia de Portugal. A mão-de-obra escrava africana foi muito utilizada no Brasil, principalmente nos engenhos (fazendas produtoras de açúcar) do nordeste brasileiro. Muitos destes escravos vinham da região de Angola, também colônia portuguesa. Os angolanos, na África, faziam muitas danças ao som de músicas. 
No Brasil 
Ao chegarem ao Brasil, os africanos perceberam a necessidade de desenvolver formas de proteção contra a violência e repressão dos colonizadores brasileiros. Eram constantemente alvos de práticas violentas e castigos dos senhores de engenho. Quando fugiam das fazendas, eram perseguidos pelos capitães-do-mato, que tinham uma maneira de captura muito violenta.

Os senhores de engenho proibiam os escravos de praticar qualquer tipo de luta. Logo, os escravos utilizaram o ritmo e os movimentos de suas danças africanas, adaptando a um tipo de luta. Surgia assim a capoeira, uma arte marcial disfarçada de dança. Foi um instrumento importante da resistência cultural e física dos escravos brasileiros.

A prática da capoeira ocorria em terreiros próximos às senzalas (galpões que serviam de dormitório para os escravos) e tinha como funções principais à manutenção da cultura, o alívio do estresse do trabalho e a manutenção da saúde física. Muitas vezes, as lutas ocorriam em campos com pequenos arbustos, chamados na época de capoeira ou capoeirão. Do nome deste lugar surgiu o nome desta luta.

Até o ano de 1930, a prática da capoeira ficou proibida no Brasil, pois era vista como uma prática violenta e subversiva. A polícia recebia orientações para prender os capoeiristas que praticavam esta luta. Em 1930, um importante capoeirista brasileiro, mestre Bimba, apresentou a luta para o então presidente Getúlio Vargas. O presidente gostou tanto desta arte que a transformou em esporte nacional brasileiro.

Três estilos da capoeira 

A capoeira possui três estilos que se diferenciam nos movimentos e no ritmo musical de acompanhamento. O estilo mais antigo, criado na época da escravidão, é a capoeira angola. As principais características deste estilo são: ritmo musical lento, golpes jogados mais baixos (próximos ao solo) e muita malícia. O estilo regional caracteriza-se pela mistura da malícia da capoeira angola com o jogo rápido de movimentos, ao som do berimbau. Os golpes são rápidos e secos, sendo que as acrobacias não são utilizadas. Já o terceiro tipo de capoeira é o contemporâneo, que une um pouco dos dois primeiros estilos. Este último estilo de capoeira é o mais praticado na atualidade.

'Sensacionalíssimo'


CACO PONTES

Poeta lança o livro 'Sensacionalíssimo', inspirado em manchetes de tabloides
18.07.2013 | Texto: Caroline Mendes
Foto: Divulgação
Capa do livro
Grandes doses de humor ácido e críticas à sociedade e ao jornalismo são as bases do novo trabalho deCaco Pontes, o livro Sensacionalíssimo. Aos 31 anos, o poeta aposta em micronarrativas comuns do cotidiano urbano que acabam nos noticiários e na boca do povo – uma morte por atropelamento que atrapalha o trânsito, personagens da cidade como vigaristas, prostitutas e mendigos – para criar versos que fazem refletir sobre a sociedade contemporânea.
Trip bateu um papo com o poeta e, além de respostas, vieram versos.
Trip: Qual a sua história com a poesia?
Caco: Vejo a poesia como um estado de espírito, manifestação que atravessa e orienta todas as correntes artísticas, par'além da literatura, então, nesse sentido, desde garoto me vi iniciando tal busca, bem provável que tenha sido a partir dos oito anos de idade, primeiramente através da expressão cênica, teatral e, desde sempre interessado por cinema, música, quadrinhos, mas conscientemente me percebi construindo versos, fazendo poemas, por volta dos dezoito, numa fase de pouca perspectiva de vida, especialmente para se dedicar a uma carreira artística - que sempre foi o principal objetivo - e eis que me veio essa vertente como forma de expurgar, superar, encarar as adversidades, num processo solitário e intenso, passando mais tarde a se tornar meu trabalho, dando vazão de forma coletiva.
vivendo a poesia/ como se fosse ofício/ fazendo da notícia, verso/ tentando matar o tempo/ e ele, vice-versa
Que mensagem você queria passar quando produzia Sensacionalíssimo?
O processo começou em 2009, eu havia publicado meu livro anterior em 2008 (O incrível acordo entre o silêncio & o alter ego) e, geralmente, a tendência é partir pro próximo livro a fim de libertar tudo que se carregou até a edição anterior. Daí, fui convidado a participar de uma coleção de livretos artesanais xerocados, intitulada Peri go, que propunha a produção de "literatura descartável", projeto idealizado pelos poetas Giovani Baffô, Heyk Pimenta e Bruno Cordeiro. Me ocorreu criar algo que fosse rápido, impactante, popular e que chegasse a qualquer público, independente da classe social e, numa tacada só, brotaram uns onze poemanchetes sensacionalistas, pra dialogar diretamente co povão e até mesmo co'os intelectos, dando continuidade a minha busca em aliar experimentalismo ao entendimento comum. Sou muito grato às críticas construtivas, mas fico satisfeito com o resultado, ver o alcance que está tendo e percebo que posso me arriscar e não ficar preso às tendências do metier, prestar contas e ter de ser sempre o melhor, corresponder à expectativa de promessa da poesia contemporânea... Prezo pela liberdade, como diz o poeta Zizo no filme A Febre do Rato, do Cláudio Assis:
a poesia racha/ a poesia cresce/ a poesia borra/ a poesia suja... o direito de errar!
São versos que, a meu ver, parecem cutucar o leitor, "jogar umas verdades na cara"... 
A poesia, em sua essência, tem por natureza o espírito provocador, anárquico, selvagem, porém trans-lúcido. De certa forma carrega uma maldição, que no decorrer da sua trajetória, o receptor (poeta), precisa entender e alquimizar para manter certo equilíbrio, pois, a tendência é a insanidade, que acaba refletindo esse aspecto do tapa na cara, na própria inclusive, daí pra lançar ao alheio é um passo, apenas. E, felizmente, ainda é um caminho de aceitação da auto-crítica e deboche por parte do espectador, como no humor, que ganha pelo riso, entretenimento, mas no caso da poesia ainda há uma romantização do segmento - apesar da marginalização inerente à mesma - se alimenta um certo mito em torno do mensageiro, que enquanto entidade mundana abre os portais de comunicação com o plano superior, possui a chave, mas não perde a chance de zombar, subverter, rebelar, o poeta incomoda agradando, agrada incomodando, parece existir aí uma relação bem forte com as polaridades, seja bi, tri ou trans.
Além de dar uma cara de cotidiano, a brincadeira com as manchetes de jornal funciona como uma crítica ao jornalismo, também?Certamente. Acho bem curioso o fato de existirem excelentes jornalistas, que marcaram época, atuando num momento em que não existia faculdade de jornalismo e que após o surgimento de tal formação superior, aliado à necessidade de rapidez e pouco aprofundamento nos conteúdos a serem informados, reflete um emburrecimento no setor, além de manipulação e falta de ética no tratamento com as notícias, por parte dos grandes veículos. Optei por fazer referência ao que já nasce assumidamente absurdo e exagerado, como fez o tablóide Notícias Populares, sem falar na genialidade d'O Pasquim, ou mesmo o Jornalismo Gonzo, de Hunter Thompson. Foi um privilégio ter o apoio de figuras como Glauco Mattoso, Hugo Possolo, Kiko Dinucci, Ademir Assunção e Georgette Fadel, além da orelha do Xico Sá e prefácio do Marcelino Freire, todos devidamente antenados com a proposta lançada na roda, desconstruindo a abordagem para a qual foram requisitados.
Você fez as colagens de jornal à mão? Se sim, usou manchetes de verdade, inventou algumas, como foi?
Sim, rolou uma imersão nos recortes, que apesar da tentativa de ser aleatório, ficou difícil escapar às notícias que poderiam ser reconstituídas, criando novos sentidos, ou a total falta deles, gerando o antagonismo e a oposição. Nesse processo foi sendo criada uma interatividade, hipertexto, chegando num misto orgânico entre o clássico e o contemporâneo. O diagramador do livro, Victor Meira, foi bem parceiro na composição, captou perfeitamente minhas sugestões, fez ótimas proposições, montagens, bem como o ilustrador Romulo Alexis, ambos artistas visuais de mão cheia, e, então chegamos num trabalho de equipe bem entrosado, satisfatório, é um dos livros mais bonitos em termos de projeto gráfico na atualidade. Não sou eu quem fala, é o povo que diz [risos].
Você que pensou e fez a arte do livro?
Toda a concepção editorial foi minha, do formato ao papel. Aprendi a ser editor na guerrilha, com a Poesia Maloqueirista, após anos produzindo meus livretos, a Revista Não Funciona, além de meu livro anterior. A coisa vai amadurecendo com o tempo, ganhando mais autonomia... Achei que seria bacana se aproximar do formato de tabloides. Cada sessão tem um espírito, divididas como nos cadernos de jornal, então optei por criar uma grafia pra cada qual, por exemplo na Páginas Policiáveis, adotei letras recortadas de revistas, como aquelas cartas de sequestrador; em (Des)Classificados, bati à maquina de escrever; e em Perifericults & Analogicools, uma tentativa tosca de letras de pixação... Até pensei em chamar algum "pixador profissional", mas acabei fazendo eu mesmo, claro que alguns camaradas que são mais peritos acharam uma merda, mas tá valendo, é bacana poder desagradar até mesmo os que desagradam...
Cada página do livro traz uma mini narrativa, um pequeno mote que poderia se transformar até em crônica... Seus versos têm um pouco cara de crônica. Você tinha essa intenção?
Eu venho da escola da oralidade, comecei no teatro, levei essa característica pro trabalho na poesia, performance, onde pude fazer a fusão, descobrir a intervenção urbana e tals... Já arrisquei escrever em outros formatos, dramaturgia por exemplo, mas ainda sinto mais confiança no verso, então quando arrisco experienciar outros formatos sempre é uma derivação do poema, neste caso, acabei misturando com a micronarrativa, que chega a flertar diretamente com a crônica. E como o formato dos textos são manchetes, ficou inevitável entrar nesse lugar. Há um tempo cheguei a ler o Stanislau Ponte Preta com as Crônicas da Tia Zulmira, que explora algo bem similar... E este trabalho que desenvolvi me remete também um pouco ao poema-piada, que foi bastante difundido pelos poetas marginais, como os da Geração Mimeógrafo; de alguma forma devem ficar resquícios no inconsciente coletivo, universalmente a história da literatura se confunde com mitos recriados, eu não busquei em nenhuma fonte específica a influência, na real até prefiro me distanciar pra não reproduzir meramente, sem ao menos tentar reinventar, mas considerando que a formação do autor se dá por leituras e absorção de conteúdos variados, muita coisa fica no limiar do pensamento criativo.
Sensacionalíssimo tem humor ácido do começo ao fim. Qual você acha que é o papel do humor na arte e na discussão da realidade?
O humor é como o amor, algo universal, tem abordagem em muitos aspectos e pontos de vista, social, cultural, espiritual. Penso que existem muitas possibilidades por esta via, inclusive a banalização, um tanto de superficialidade, dividindo opiniões, criando patrulhas ideológicas e contraposições entre o que seria ético ou reduzido ao politicamente correto. Tenho aprendido que o mais importante é não se levar tão a sério assim. Parece um caminho ligado a uma espécie de sabedoria. E por aí, vou tentando ir. Não sou humorista, mas tenho senso de humor, ora falta dele, sou humano, afinal.
Róliudi
humoristas
geralmente são mal humorados
para ser um bom ator de cinema
basta fazer cara de Colin Farrel
no Miami Vice
e há quem diga que o seu cachê já está milionário
melhor do que se tornar apresentador de TV
estigmatizado
a legitimidade se deve ao ato
para o alto e avante
parei na contramão
como o Roberto Carlos
mas não sou rei, apenas don
e atualmente tento
um aumento de salário.
Vai lá: Sensacionalíssimo
Autor: Caco Pontes
70 páginas
Preço: R$ 25
Editora: Kazuá
www.cacopontes.net
www.editorakazua.com.br

segunda-feira, 29 de julho de 2013

De cineastas cerebrais e intuitivos




Delphine Seyrig em O ano passado em Marienbad (1962), de Alain Resnais

A linguagem cinematográfica, já se disse aqui em alguma coluna, foi sendo construída durante as seis primeiras décadas do século passado. Se a data da aparição do cinema se dá em 1895, somente quase 20 anos depois, em 1914/1915, é que se estabelece a configuração expressiva da sua narrativa, de sua linguagem, com O nascimento de uma nação (The birth of a nation), de David Wark Griffith, e, logo adiante, em 1916, Intolerância (Intolerance), do mesmo diretor. Durante duas décadas (1895/1915), a linguagem cinematográfica tem seus elementos determinantes descobertos aos poucos e por acaso.

Um cinegrafista de Auguste e Louis Lumière (os inventores oficiais do cinema, embora muitos outros, na mesma ocasião, tentassem, em outros países, a projeção das imagens em movimento), Alexandre Promio, numa gôndola num canal de Veneza, liga o seu cinematografo e, a filmar os casarios com a barca em movimento, descobriu um movimento de câmera, otravelling. Um inglês, em 1901, G.A. Smith, da Escola de Brighton, Inglaterra, enquanto registra uma cena de uma mulher diante de um fogão, que está a ponto de explodir, em plano geral, tem a idéia de cortar e introduzir, neste, um close up do rosto da mulher aflita com o acidente prestes a acontecer. A descoberta da inserção de um close dentro de um plano geral é um grande passo na evolução da linguagem.

Assim como a montagem alternada, quando se vê, simultaneamente, vários espaços que se alternam em ritmo crescente até que se convergem num único espaço. A grosso modo, num filme do princípio do século XX, ainda nos primórdios da invenção, o exemplo da mulher que, amarrada aos trilhos por bandidos inescrupulosos (primeiro espaço), está quase a ser espedaçada pelo trem que vai vindo ao longe (segundo espaço) e que, com o desenvolvimento da narrativa, está cada vez mais perto, enquanto o mocinho, namorado da mocinha, toma conhecimento de que ela está em perigo (terceiro espaço) e vai em disparada salvá-la. No final, os três espaços se unificam no primeiro, com a chegada do mocinho, que consegue desamarrar a namorada dos trilhos, e fazer parar o trem. Outros elementos da linguagem são descobertos neste período, principalmente por Griffith em seu período na Biograph (ler, neste sentido, o fundamental livrinho da coleção Encanto Radical (Brasiliense, 1984) de autoria de Ismail Xavier: D.W. Griffith: O nascimento de um cinema ou, também muito importante, Serguei M. Eisenstein: Geometria do êxtase, da mesma coleção e editora, de Arlindo Machado).

Griffith, nos dois filmes citados, é aquele que consegue sistematizar, com eficiência dramática, as descobertas anteriores dos elementos da linguagem cinematográfica. Mas a linguagem ainda precisa de muitas décadas para se aperfeiçoar e se cristalizar, o que se dá em meados da década de 60. Os inventores de fórmulas (Hitchcock, Eisenstein, Orson Welles...) deixam de existir para dar lugar a um cinema de estilo.

Existem, a rigor, entre os realizadores cinematográficos, dois modos fundamentais de abordar o mundo: o cerebral/conceitual e o sensorial/intuitivo. Classificação formulada por Marcel Martin em A linguagem cinematográfica (pág 245), editado várias vezes por diversas editoras e livro imprescindível para um conhecimento básico da dita cuja. O exemplar que se está em mãos é da Brasiliense de 1990.

Nestes dois modos de abordar o mundo, os realizadores cerebrais/conceituais procuram reconstruir o mundo em função de sua visão pessoal, acentuando a imagem como meio essencial de conceituar o seu universo fílmico. Que outro cineasta mais cerebral e conceitual que Orson Welles. O autor de Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) privilegia mais a imagem do que a chamada realidade e seu filme é, no fundo, como disse o historiador francês Georges Sadoul, "um retrato do artista por ele mesmo". Também se incluem como cerebrais/conceituais realizadores como Eisenstein cujo realismo, se assim se pode chamar, é um realismo conceitual, Carl Theodor Dreyer que, com seus quadraux mouvants (quadros moventes) sempre está a fazer exercícios cerebrais diante do tema exposto, a exemplo de O martírio de Joana D'Arc (La passion de Jeanne D'Arc, 1928), A palavra (Ordet), Vampyr, Gertrud, entre outros. E o esteta Luchino Visconti cuja forma privilegia na composição de sua mise-en-scèneembora o propósito de fazer emergir uma realidade determinada (e Rocco e seus irmãos/Rocco i suoi fratelli, 1960, não seria, então, mais intuitivo?). Robert Bresson é cérebro e conceito, assim como Alain Resnais (cuja simbiose entre forma e conteúdo atinge as raias de um processo inextricável em O ano passado em Marienbad [L'année dernière a Marienbad, 1961], entre outras tantas obras de sua rica filmografia,que se considera uma das mais importantes do cinema em todos os tempos - recentemente Medos privados em lugares públicos [Coeurs], filme recente de um senhor em idade provecta, veio a mostrar diante de um cinema contemporâneo apático a jovialidade, a inventiva, a grandeza desse cineasta francês desbravador de fórmulas que muito acresceu à evolução da linguagem cinematográfica. O filme permanece em cartaz por mais de um ano em uma sala paulista). E mais cérebros: Jean-Luc Godard, que praticamente inventou o filme-ensaio, Tarkosky, entre tantos que o espaço não permite a citação.

Os realizadores cinematográficos sensoriais e intuitivos procuram subtrair-se diante da realidade (como se desaparecessem diante dela), fazendo surgir, da representação da realidade direta o objetiva, a significação que querem obter. Para estes cineastas, o trabalho de elaboração da imagem tem menos importância que a sua função natural de figuração do real. Os sensoriais e intuitivos não almejam confiscar o espectador diante da fascinação da imagem, mas, pelo contrário, respeitam a sua liberdade. Assim, em seus filmes, a característica essencial está menos no caráter insólito de suas imagens do que na intensidade da representação da realidade. Marcel Martin diz textualmente: “E poderíamos acrescentar, ainda esquematicamente, que o período em que a linguagem (imagem, montagem) teve um papel predominante correspondeu ao triunfo dos cerebrais, ao passo que o progressivo abandono da linguagem tradicional assinala a preponderância dos sensoriais e de sua visão plástica não mais obcecada pelo conceitualismo.”

David Wark Griffith talvez seja o maior exemplo do cineasta sensorial e intuitivo, assim como Charles Chaplin, Robert Flaherty, Wilhelm Murnau, Yasujiro Ozu, Jean Renoir, Roberto Rossellini, Vittorio DeSica, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Theo Agelopoulos, Wim Wenders, etc.

Estes cineastas se esforçam para subtrair-se diante da realidade e o que desejam é fazer surgir a produção de sentidos pela sua representação direta e objetiva. Os realizadores cerebrais estão a desaparecer. E o que dizer dos neófitos que pegam em câmeras digitais e filmam a torto e a direito? Nestes, conceitualismo e cerebralismo são bichos de sete cabeças.

http://setarosblog.blogspot.com/2013/07/de-cineastas-cerebrais-e-intuitivos.html?spref=fb


"Cacilda Becker: Uma Mulher de Muita Importância"

29/07/2013 -
Vida pessoal e fotos de Cacilda Becker dominam novo livro


NELSON DE SÁ
DE SÃO PAULO


Maria Thereza Vargas conheceu Cacilda Becker quando tinha de 15 para 16 anos, em 1945. Já havia assistido à atriz nas primeiras peças profissionais, ao lado do ator argentino Raul Roulien, e no teatro estudantil, dirigida por Décio de Almeida Prado.

Começou ali, quando a adolescente foi levar textos seus para a apreciação de Cacilda, que buscava roteiros de radioteatro, uma amizade que se manteve até a morte da atriz, em 1969. Amizade que é expressa agora na biografia que a pesquisadora lança pela Imprensa Oficial.

O livro segue ordem cronológica e põe em primeiro plano a trajetória pessoal.

Com 160 páginas, reproduz mais de cem imagens, grande parte delas inédita e de qualidade superior à das que se conhecia até agora, tiradas por fotógrafos como Boris Kauffmann, amigo de juventude da atriz. A maior parte das fotos é do acervo pessoal da própria autora.
Divulgação

Cacilda Becker em retrato que está em sua nova biografia, que sai pela Imprensa Oficial


"Cacilda Becker: Uma Mulher de Muita Importância" apresenta, segundo Vargas, a "longa caminhada" da emblemática atriz, com "um traçado firme conseguido a golpes rudes", em que não faltou luta "contra a miséria".

"Foi uma vida conquistada dia a dia", acrescenta Vargas em entrevista, observando porém que "Cacilda tinha um temperamento, assim, muito dramático, de quem sofria demais. Ela sempre repetia: 'Eu só sou feliz no palco'".

PAIXÕES

Sua trajetória é pontuada pelos artistas com quem se relacionou -do modernista Flávio de Carvalho, precursor da performance no país, passando por Roulien e pelo diretor Adolfo Celi no Teatro Brasileiro de Comédia, até o ator Walmor Chagas.

"Ela queria se completar com uma figura masculina, era muito apaixonada", diz Vargas. "Nem sempre deu certo." Como as novas fotos indicam, acrescenta, "era muito sensual", com presença que teria se acentuado, no palco, pelo estilo de direção trazido por Celi da Itália.

O diretor José Celso Martinez Corrêa, que estreia em agosto a terceira parte da série de peças "Cacilda", confirma que "ela era muito sensual" e teve "milhares de namorados". Com Celi "ela levantou o TBC, amor e teatro ao mesmo tempo". Além de "muito bonita em cena", também "fotografava bem", lembra ele, destacando a qualidade das imagens do livro.

Mas Cacilda pouco atuou para as câmeras, no cinema e na TV. Como relata o livro, deixou só "vestígios", entre eles o filme "Floradas na Serra", de Luciano Salce, na Companhia Vera Cruz, e a novela "Ciúme", dirigida por Roberto Talma na TV Tupi.

Em tom melancólico, Vargas anota que restam as "imagens fotográficas, formas fixas que agitam a memória dos que a viram representar e que exigem imaginação dos que não a conheceram".

CACILDA BECKER
AUTOR Maria Thereza Vargas
EDITORA Imprensa Oficial
QUANTO R$ 30 (160 págs.)




http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/07/1318198-vida-pessoal-e-fotos-de-cacilda-becker-dominam-novo-livro.shtml

sábado, 27 de julho de 2013

querer não é poder



decididamente querer não é poder (1973), Aninha Franco (Salvador, 1951):

se eu fosse um bicho e você fosse gente
eu me faria animal de estimação
seria um leão manso
deitaria sobre assoalhos
com você sobre meu pelo
te veria dormir e te deixaria dormir
afastando com as patas as baratas e os ratos

se eu fosse gente e você fosse uma coisa
eu me permitiria usar coleiras
você seria o enfeite da minha prisão
e eu desistiria da liberdade dos becos
seria um cão com dono

mas se você fosse um bicho e eu fosse um bicho
eu te comeria.





Memory Motel - Mick Jagger -



Eu não disse que ela sabe das coisas?


LIÇÕES DE SEDUÇÃO
DE MARIA DO CÉU



Maria do Céu Santo – parece nome inventado, não é não? Ou nome de freira. Trata-se, porém, de uma ginecologista e obstetra, nova estrela da televisão portuguesa. Loura bonitona, bem-humorada e bem casada há 30 anos,
virou uma espécie de guru das assinantes do Sic Mulher, onde comanda o programa Amor sem Limites com a desenvoltura e a polêmica sinceridade de uma Oprah Winfrey.

Diz coisas assim: “Uma mulher apaixonada não conquista ninguém. Você só consegue conquistar um homem se não estiver apaixonada por ele”. Para a doutora, paixão não passa de um coquetel de neurotransmissores e processos obsessivos que tem prazo de validade. Se durar muito, nunca é mais do que três anos. Depois, vira amor ou pesadelo.

Não existe paixão até que a morte nos separe. A menos que seja platônica ou alimentada por muita insegurança. Quer dizer, para manter um parceiro fissurado, só não dando o que ele quer ou fazendo o infeliz se sentir eternamentena marca do pênalti.



As feministas não são muito chegadas a certas afirmações bombásticas da nova consultora do mulherio. Arrepiam-se todas quando garante que os problemas e as brigas de um casal podem ser resolvidos com sexo, sim senhora. Pela simples razão de que transar relaxa, faz a gente ver os aborrecimentos com outros olhos e perceber que são menores do que pareciam.

Outro conselho que ela garante ser o melhor que pode dar a esposas estressadas ou de alguma forma entediadas: faça amor mesmo que não esteja muito a fim. Porque depois que você começa, a vontade aparece e costuma ser mais gostoso do que ir dormir chateada.

Adorei a opinião dela sobre essa mania dos sexólogos de garantir que é possível ter orgasmo em qualquer posição – “no chuveiro, por exemplo, dificilmente dá certo”; na melhor das hipóteses, a água quente relaxante é boa para aquecer as preliminares.

Maria do Céu também contesta a verdade pétrea de que mulher é dada a disfunções sexuais. Coisa nenhuma! As realmente problemáticas são a minoria da minoria. O que atrapalha nossa vida sexual é que, ao contrário dos homens, recebemos verdadeiros compêndios sobre como seduzir, mas ninguém nos ensina a transar, e acontece que “fazer amor exige uma técnica que você só aprende na base da tentativa e erro”.



Ela também não concorda que sexo é coisa que se faz na calada da noite. Idéia mais antiquada e fora da realidade! Para quem quiser “treinar”, a melhor hora é de manhã, antes da maratona de trabalho e das mais variadas encheções de saco. Principalmente depois de três anos de vida em comum, que é quando a atividade sexual costuma cair por volta de 30% e muita gente começa a considerar a possibilidade de partir para outra.

Mas não se trata apenas de não deixar a peteca cair; o que realmente importa é prestar atenção no “jogo”. Mulher tem a tendência de só olhar para o próprio umbigo, diz ela. Prova disso são as insatisfeitas que vão procurá-la no consultório, queixando-se de que o marido não faz isso ou não faz aquilo. Quando pergunta “e ele, do que gosta?”, a maioria não sabe responder.

Como boa conselheira, claro que a dra. Maria do Céu também tem o que dizer aos homens. E vai direto ao ponto: se quiser mais sexo, faça de conta que não está nem aí para a parceira. É receita infalível para atiçar o desejo feminino.

Eu não disse que ela sabe das coisas?


(Publicado originalmente na revista Bianchini.)

SONETO “COMPRADO”

26/07/2013


O considerado José Nêumanne Pinto, jornalista, escritor e poeta dos maiores do Brasil, contou a história:


Quando voltei a Bahia para tentar resistir ao naufrágio da barca municipal Gregório de Mattos, fui "freguês" do poeta Ildásio Tavares em intermináveis "facadas".

Fatava pagar a conta do gás ou a conta da luz, o poeta recorria ao "rico" amigo; faltava comprar farinha de mandioca ou a comida para o "totó", tome facada no "rico" amigo.

Dei um basta!

Ildásio se assustou.

Precisava de um dinheiro, segundo ele, para comprar urgentemente um terno de linho para o casamento de um suposto amigo.

E ofereceu-me em troca da última "facada", segundo prometeu-me, um poema inédito.

-- Pode dizer que é seu!!!.

E acabou me "vendendo" esta obra prima:

SONETO DA LUZ

Quando eu nasci, já recebi a cruz,
Plantada no caminho à minha espera
A projetar a sua sombra austera
Onde eu busquei reduto paz e luz.

Quando eu nasci já recebi Jesus
Como anúncio de dor e primavera.
Mas era outra luz; Outra esfera-
Meu caminho, não sei aonde conduz.

Resta-me a cruz e a dura provação
Dos espinhos da vida, triste dança
De enganos, dissabores, ilusão

Que me penetram o peito feito lança
E afastam a luz que a vista não alcança-
Numa só chaga pulsa o coração.

Moacir Japiassu

Sítio Maravalha


DE COMO O JORNALISTA-SITIANTE COMETEU GRAVE INFRAÇÃO CONTRA O MEIO AMBIENTE





Na manhã do domingo ensolarado este Sítio Maravalha recebeu a visita de três soldados da Polícia Florestal. Muito educados, explicaram que o Departamento havia recebido denúncia de que tínhamos derrubado alguns eucaliptos “ilegalmente” e comprovaram o crime. Disse-lhes ignorar a lei que me proibia cortar árvores que eu mesmo plantei há mais de 30 anos e que estavam com as pontas secas e ameaçavam cair.


É lógico que um jornalista com 51 anos de profissão, e ainda em atividade, não pode ignorar a lei que protege o meio ambiente, principalmente quando vive no meio do mato. Concordo. Todavia, se tenho mais de meio século de trabalho, é certo que também amargo 71 anos de idade, e, se li a respeito e vi as reportagens do Globo Rural, o assunto sumiu da memória como somem as lontras quando secam os rios.

Argumentei que nenhum outro sitiante desta região do Alto Paraíba havia cuidado tão bem da paisagem original; toda a vegetação nativa que encontramos neste terreno em 1975 tem sido preservada desde então e ainda pedimos à CESP que aqui plantasse árvores da Mata Atlântica. Da janela do escritório, contemplo uma delas, a mais alta e vigorosa: a paineira de tronco espinhento e belas flores.

Agora me digam: alguém com tal preocupação pode ser acusado de crime ambiental por cortar eucaliptos ameaçados de cair durante os vendavais tão comuns na região?



“O sertanejo é antes de tudo um forte” e doce, como Dominguinhos.




26/07/2013
NÊUMANNE NOTA DEZ


UM PRÍNCIPE

NASCIDO EM

FORMA DE

MATUTO-FLOR

Trecho de Tenho sede, de Dominguinhos e Anastácia: “Traga-me um copo d’água, tenho sede / e essa sede pode me matar. / Minha garganta pede um pouco d’água / e os meus olhos pedem o teu olhar”.

“O sertanejo é antes de tudo um forte”, sapecou Euclides da Cunha em “Os sertões”. Os desavisados reconhecerão na definição o protótipo do cangaceiro, do cabra macho, do matuto destemido que não leva desaforo para casa. Ledo engano. Como o próprio Euclides deixou claro, essa força não reside na coragem, na valentia ou no destemor, mas repousa na improvável força interior contida no termo euclidiano Hércules-Quasímodo.

O sanfoneiro, compositor e cantor Dominguinhos encarnou o lado sensível, belo e pungente dessa força, contrapondo-o à valentia da cabroeira que dormia ao relento e lutava contra as tropas da lei e da ordem. Lampião era o sertanejo-mandacaru. Dominguinhos, o matuto-flor: a flor que brota do cacto com a beleza protegida pela agressividade bélica dos espinhos.

Desde cedo ungido príncipe da música regional nordestina que o Rei Gonzaga fundou e sustentou com o rebuliço mágico dos 180 baixos de sua sanfona, o garoto de Garanhuns, Pernambuco, cruzou as veredas da vida sem trocar de patente nem de coroa: sempre foi menino, sempre foi príncipe.

Consciente da majestade de seu Lua, legitimada pela dimensão universal de sua herança, a grandeza dele, caudatária da simplicidade, o tornou herdeiro perpétuo, impedindo-o de subir ao trono com o desaparecimento físico do criador do forró. Não se confunda, contudo, essa simplicidade com complexo de inferioridade ou desconhecimento do próprio potencial que levou Gonzaga a lhe transferir sanfona, cetro, reinado e gibão.

Nada disso: mantendo-se na infância, ele preservou o segredo da beleza e da variedade da obra que o fundador trouxe das brenhas para transformar no ponto de contato e de solidariedade dos deserdados da seca no bulício das metrópoles.

Em Dominguinhos comungavam a humildade dos mansos de espírito e a altivez dos gênios que reconhecem seu valor ao identificá-lo não nas glórias da fama, mas na consciência da fidelidade a sua grei, que a retribui com um amor mudo, sincero e pleno, que vai além do aplauso fácil.

Este reconhecimento passou, é claro, pela unção real, mas se confirmou em todos os contatos que o artista manteve com seu público, gente com quem partilhava as mesmas origens e com quem se comunicava pela mudez de cúmplices egressos dos mesmos roçados nos quais a necessidade e a escassez tornam a solidariedade gênero de primeira necessidade.

Esse povo aprendeu a linguagem das pausas longas e o reconhecimento da labuta na textura áspera da pele da palma da mão acostumada com a soleira que ofusca e a aridez do solo de pouca água.

Se o Rei do Baião fez de Asa Branca, com a letra do urbano Humberto Teixeira, o hino da diáspora nordestina pelo mundo afora, o príncipe da sanfona compôs em Lamento Sertanejo, com a letra-síntese de Gilberto Gil, negro e interiorano qual Gonzaga, a saga do retirante aculturado. “Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação, / eu te asseguro, não chore não, viu, / eu voltarei, viu, pro meu sertão”: Gonzaga e Teixeira cantaram o mito da volta do homem à terra, bastando que caia a chuva do céu.

“Por ser de lá, / na certa por isso mesmo, / não gosto de cama mole, / não sei comer sem torresmo. / Eu quase não falo, / eu quase não sei de nada. / Sou como rês desgarrada / nessa multidão boiada caminhando a esmo“ - na melodia de Dominguinhos Gil decretou a saga de um Ulisses-Quasímodo que não retorna a Penélope, mas faz do desassossego solitário o jeito de ficar onde estiver, construindo Ítaca em si mesmo.

A Odisseia do cantor do vale do Araripe, nos confins onde Pernambuco acaba no Ceará, foi registrada no percurso do peixe em Riacho do Navio, com letra do parceiro Zé Dantas, partindo do Atlântico na direção do paraíso idílico perdido nas margens do riacho da Brígida, contra a correnteza.

Essa busca do cordão umbilical enterrado na porteira do curral avoengo se expressa na utopia do desterrado: “Pra ver o meu brejinho, / fazer umas caçada, / ver as ‘pegá’ de boi, / andar nas vaquejada, / dormir ao som do chocalho / e acordar com a passarada, / sem rádio e sem notícia / das terra civilizada”.

A Ilíada do sanfoneiro da “Suíça nordestina” mantém o desterrado no desterro, universo transportado de Garanhuns para os guetos nordestinos nas metrópoles - o Brás em São Paulo, o Campo de São Cristóvão no Rio... Nesses lugares, o cavalo de madeira transporta o retirante para os ambientes urbanos, tornando-o uma espécie de extra-terrestre adaptado aos hábitos e à cultura da Troia que desconhecia.

O retirante pede água, busca o amor e vai ficando: a obra de Dominguinhos é a consciência de que todo lugar é sertão e o sertão é aqui mesmo, reconhecido nas manchas de suor tornadas mapas da solidão que virou ritual de encontro. Como cantou em Tenho sede, com letra de Anastácia, sua mulher e parceira de origem: “Traga-me um copo d'água, tenho sede / e essa sede pode me matar. / Minha garganta pede um pouco d'água / e os meus olhos pedem teu olhar”.


por Moacir JapiassuJornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.D03 do Caderno 2 do Estado de S. Paulo de quarta 24 de julho)

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