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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Chato sempre volta sempre

Há uma frase no twitter que circula vitoriosa durante já há algum tempo: “Chato é aquele que fica mais tempo conosco do que nós com ele”.

No entanto, permito-me discordar frontalmente deste pensamento.

Não acho que o chato fique mais tempo conosco do que nós com ele, enquanto ele nos chateia.

Pelo contrário, se um chato nos chateia durante cinco minutos, aquilo para nós parece ser uma meia hora, quando não nos ameaça de se tornar uma eternidade. Pelo lado do chato, parece a ele tão natural nos ficar chateando que ele nem nota o tempo passar, chateia durante meia hora e aquele espaço de tempo lhe parece cinco minutos.

O tempo não existe para o chato, conosco acontece o contrário, ele nos chateia durante um tempo que nos é precioso.

Tanto isso é verdade que flagrei certa vez nesta coluna uma das características marcantes dos chatos: eles nos encontram e nos perguntam: “Tu poderias me dar atenção por uma meia hora?”.

Portanto a afirmação do twitter está completamente errada: o chato não tem prazo, ele está sempre disponível. Nós é que não temos tempo para sua chateação e queremos nos livrar depressa do chato.

Então como é que o twitter dá esta mancada ao afirmar que “o chato fica mais tempo conosco do que nós com ele?”.

O chato chateia sem perceber que está chateando. Chato não tem cronômetro.

Uma das características do chato é justamente não ter noção do tempo.

O chato sai para a rua e aborda as pessoas em qualquer lugar na sua missão telúrica de chatear.

Chato não tem limite de tempo, ele possui o dia inteiro a sua disposição para chatear.

Tanto tem tempo largo para chatear o chato que vocês nunca viram um chato perguntar que horas são.

Chato não dá bola para relógio nem para calendário.

Uma prova que chato não tem noção de tempo nem de ritmo é quando um chato está conversando com a gente: ele interrompe quando bem entende. Ele interrompe até quando a gente, em legítima defesa, o interrompe.

O chato tem larga disponibilidade. Quando a gente, cansado de tanto ser chateado, põe fim enérgico na conversa com o chato, ele ameaça terrivelmente: “Está bem, amanhã eu passo aqui para nós terminarmos a nossa conversa”.

Chato não tem data, com apenas uma diferença: chato adora domingos e feriados, ele imagina que nesses dias nós temos mais tempo para sermos chateados.

Chato, podem reparar, odeia segunda-feira no horário útil. Porque ele supõe que os chateados têm menos tempo nesse período.

E outra coisa: chato adora chatear na praia ou na Serra. Lá ele se realiza pela folga das pessoas.

E se o chato é daqueles que nos pega no trabalho, ele ataca durante o expediente e fica torcendo para que o tempo de trabalho não se extinga.

Não há maior pavor do chato que está chateando durante todo o expediente do que quando toca a sineta de fim de expediente.

É como se ele ficasse sufocado pelo aviso de que só poderá voltar a chatear amanhã.

Mas ele volta amanhã. Chato sempre volta sempre.

PAULO SANT’ANA - Rotundo engano

Lá vem a baiana...



Oba! Próximo sábado e domingo a baianíssima Jussara Silveira em Sampa, no Sesc Bom Retiro. Show de lançamento do novo CD "Ame ou se mande"

 

Nalgum Lugar - Zeca Baleiro



Nalgum Lugar

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

E.E. Cummings
(tradução: Augusto de Campos)

teu riso













Tira-me o pão,
se quiseres, tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite, do dia, da lua,
ri-te das ruas tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro rapaz que te ama,
mas quando abro os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

Art Color Drawing






Creative Stuffs


domingo, 20 de novembro de 2011

Âmbar (tá tudo assim queimando em mim)

Adriana Calcanhoto


TÁ TUDO ACESO EM MIM
TÁ TUDO ASSIM TÃO CLARO
TÁ TUDO BRILHANDO EM MIM
TUDO LIGADO
COMO SE EU FOSSE UM MORRO ILUMINADO
POR UM ÂMBAR ELÉTRICO
QUE VAZASSE NOS PRÉDIOS
E BANHASSE A LAGOA ATÉ SÃO CONRADO
E GANHASSE AS CANOAS

AQUI DO OUTRO LADO
TUDO PLUGADO
TUDO ME ARDENDO
TÁ TUDO ASSIM QUEIMANDO EM MIM
COMO SALVA DE FOGOS
DESDE QUE SIM EU VIM
MORAR NOS SEUS OLHOS

 
Maria Bethânia

Alibi


 Havia mais que um desejo
A força do beijo
Por mais que vadia
Não sacia mais
Meus olhos lacrimejam teu corpo
Exposto à mentira do calor da ira
No afã de um desejo que não contraíra
No amor, a tortura está por um triz
Mas gente atura e até se mostra feliz
Quando se tem o álibi
De ter nascido ávido
E convivido inválido
Mesmo sem ter havido, havido
Havia mais que um desejo.......


Ain't No Sunshine - Bill Withers

A celebração da vida

 

Naquele tempo não havia Internet. Nem as comunicações móveis estavam generalizadas. Nem dialogávamos por sms. A informação global mais instantânea que nos chegava diariamente vinha ainda de um ecrã de televisão, não de um computador: as emissões da CNN, que acompanhávamos com o maior interesse, transmitiam-nos notícias sobre o rescaldo da Guerra do Golfo, o processo de irreversível desagregação da União Soviética ou o precário equilíbrio de poderes na China pós-Tiananmen. Sabíamos de cor os nomes dos repórteres da CNN, tal como decorávamos os nomes de várias personagens de Twin Peaks, a série de David Lynch que pouco antes havia assombrado toda uma geração de telespectadores, ou de X-Files, o grande êxito mundial seguinte.
E que mais? Vasco Rocha Vieira dava os primeiros passos à frente do Executivo de Macau e um tal Bill Clinton, governador do minúsculo estado do Arkansas, anunciava a intenção de concorrer à Casa Branca. Em Portugal, Basílio Horta assumia-se como o candidato presidencial mais à direita de sempre nas eleições de 1991, enfrentando o seu rival Mário Soares com uma questão incómoda: a das supostas irregularidades no processo de concessão do aeroporto de Macau. Vinham ainda muito longe os tempos em que o ex-secretário-geral do CDS se distinguiria como protagonista da bancada do PS nos debates parlamentares em São Bento.
O mundo estava perigoso, alertavam alguns oráculos. Sem imaginarem, há vinte anos, que se vivia então um dos tempos áureos de paz e prosperidade que o planeta em geral -- e o mundo ocidental em particular -- conheceram desde sempre. Ninguém falava então em crise sistémica, em tirania dos mercados, em recessão global. Éramos mais jovens e muito mais felizes, embora sem o saber, como diria Hemingway no final dos anos 50, aludindo aos dias solares que viveu em Paris, na década de 20. Também uma década de transição. Uma década de bonança antes da tempestade.
Alguns de nós podemos hoje orgulhar-nos de ter feito jornalismo numa época que mais tarde será recordada como tempo de pioneiros. Nós, os membros dessa vasta tribo do jornalismo pré-digital. Em que o acesso às fontes era mais difícil, a confirmação de factos não podia concretizar-se com um simples clique num rato, os modems e os telefones de satélite ainda tinham uma aura de ficção científica e o papel impresso parecia quase tão eterno como na geração de Guttenberg. Eram tempos agitados -- mas, paradoxalmente, mais calmos do que os de hoje, em que a tecnologia que devia facilitar-nos o quotidiano acaba por constituir uma nova espécie de escravatura. Tempos em que havia mais vagar para o convívio, para o ócio que estimula a criatividade, para a conversa de circunstância que permitia cimentar amizades que nunca acabam.
Orgulho-me de ter feito parte desta geração de pioneiros. E dessa época em que, fechada a edição do Ponto Final já de madrugada, no 17º andar do edifício Si Toi, contemplávamos as luzes e as águas plácidas do Porto Interior antes de rumarmos noite fora em celebração da vida.
E o que é o jornalismo senão isto -- a celebração da vida?

por Pedro Correia
Publicado no jornal Ponto Final, de Macau -- fundado há 20 anos. Imagem: a península de Macau em 1991 (foto do blogue Macau Antigo)

Leituras

Democracia
Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»

(Nuno Júdice, Democracia, in A Matéria do Poema, Dom Quixote)