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terça-feira, 6 de março de 2012

Desencontro - Chico Buarque


Desencontro

Composição: Chico Buarque


A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis

Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu

O mesmo amor duas vezes

http://paradiseduluoz.blogspot.com/

 



Outro dia, conversando com um grande amigo numa noite de domingo, em um barzinho de frente para o mar, ele me falou da impossibilidade de reviver um amor perdido e reencontrado. Havia desalento e alguma resignação em seu rosto, e ao ouvi-lo remoer as cinzas do passado e degustar o sabor amargo do presente, eu me lembrei de Scott Fitzgerald. Ou melhor: dos amores impossíveis dos contos de Scott Fitzgerald. Scott é sob qualquer aspecto um de meus escritores favoritos, e nem sei se gosto mais dos seus contos ou de seus romances. Ele canta a dissipação das grandes paixões, o hedonismo da era do jazz substituído pela melancolia da crise de 29, o desencanto de uma geração que teve – e perdeu – tudo.

No início do ano, eu retirei da estante o livro 24 Contos de Scott Fitzgerald, lançado há alguns anos pela Companhia das Letras com tradução de Ruy Castro (aqui tem uma resenha que escrevi à época do lançamento). Senti um prazer dolorido ao reler aquelas histórias de beleza cadente, fadadas inevitavelmente ao malogro, seja pelo poder destrutivo dos vícios (Scott legou o próprio alcoolismo à maioria dos seus personagens masculinos) ou pela incapacidade que temos de assumir um amor avassalador com toda a plenitude que ele exige.

Há, em um dos contos, uma frase que talvez tenha provocado em mim a lembrança do livro enquanto conversava com meu amigo: “Há todas as espécies de amor neste mundo, exceto o mesmo amor duas vezes”. Para Scott, é inútil reviver aquilo que fomos um dia, até porque as pessoas mudam, as cidades mudam, os sentimentos mudam. Meu amigo deve ter plena consciência de que, no homem que ele é agora, há muito pouco do que ele foi há 20 anos. São, um e outro, estranhos que não se conectam nem se comunicam, separados por compartimentos estanques de memória e esquecimento.

O fato é que qualquer amor que resgatamos de um tempo até então enterrado e posteriormente exumado não é o mesmo amor de antes, embora também não seja um amor diferente. É como um morto-vivo, um zumbi de aparência ambígua, que nos sorri com uma face e nos amedronta com a outra. Cabe a nós escolher qual delas será revivida em nosso presente. E, se revivido, como ele pode conviver com aquilo que nós e o outro nos tornamos, incluindo aí casamentos, filhos, emprego, pressão social e certa letargia de ter que largar tudo isso para encarar uma aventura de êxito incerto.

Bem, em tempos de sexo casual e casamentos mais casuais ainda, talvez eu esteja me portando como um romântico tolo, falando de um sentimento em extinção. O mesmo sentimento que em outros tempos fez o jovem Werther de Goethe abandonar a vida, inspirando na vida real muitos outros suicídios na Alemanha do século 18. Mas, naquela noite de domingo, eu percebi uma centelha, uma tempestade por trás da calmaria, como o silêncio que precede o ataque de um cachalote. Ali estava, à minha frente, uma manifestação inequívoca de amor em estado bruto. Desgastado pelo avanço do tempo, esmaecido por décadas de hibernação, mas nem por isso menos amor.

Yo pisaré las calles nuevamente - Pablo Milanes


O declínio das paixões

http://paradiseduluoz.blogspot.com/

 




Depois de muitos anos, voltei a ouvir Yo Pisaré las Calles Nuevamente, do compositor cubano Pablo Milanés, uma canção de que gosto muito. Uma amiga tinha compartilhado várias músicas dele no Facebook e sugeri essa, que para mim pertence a um tempo em que as utopias ainda não tinham sido substituídas pelo cinismo – de parte a parte. “Yo Pisaré...” fala abertamente do golpe militar no Chile, que depôs o governo legítimo de Salvador Allende para implantar aquela que foi provavelmente a ditadura mais sangrenta da história da América do Sul. Durante muito tempo, Allende representou o elo perdido de um socialismo de face mais humana ao sul do Equador. Intelectual, íntegro e bem-intencionado, foi talvez o último sonho genuíno que os socialistas tiveram de se mostrar como uma alternativa viável pelas bandas de cá, apesar dos sérios problemas de gestão no seu governo.

Hoje, se não estou redondamente enganado (e posso estar, obviamente), não há mais espaço para utopias como a de Allende, muito menos para outras forjadas no decorrer do século 20. O socialismo ruiu com a queda do Muro de Berlim, em 1989, mas o fato é que já estava podre por dentro, como uma árvore consumida por cupins. A Revolução Cubana, a mais vistosa das utopias socialistas, agoniza em praça pública, e na Coréia do Norte não há sequer socialismo, mas sim totalitarismo hereditário. Um totalitarismo trágico e sanguinário muito semelhante ao que indivíduos como Stálin, Ceausescu, Hoxha, Mao e Pol Pot, entre outros, proporcionaram aos seus respectivos povos. Quanto à direita, ela teve a sua utopia sepultada com a derrocada do nazi-fascismo (que de vez em quando ensaia uma ressurreição) e acabou optando pelo pragmatismo neoliberal de Thatcher e Reagan nas últimas décadas do século passado.

Paixões costumam ser perigosas, mas sinto falta delas nas discussões políticas. Na última eleição presidencial aqui no Brasil, o que tivemos não foi paixão, mas sim uma defesa ferrenha de interesses que beirou o ridículo dos dois lados. Falo de paixões mesmo, da maneira mais ingênua possível, como um namoro entre adolescentes. Do acreditar que é possível um mundo menos desigual. Paixões capazes de criar uma canção como Yo Pisaré las Calles Nuevamente. Capazes de mover não só artistas e intelectuais, mas o povo também – ao menos uma parte dele. Mas não, não há ambiente propício à proliferação de quimeras, mesmo que alguns enxerguem uma delas na Primavera Árabe. Bem, talvez seja melhor assim. É mais fácil mudar de idéia, por considerá-la equivocada ou obsoleta, do que deixar de lado uma velha paixão de juventude. Estamos menos emotivos e mais racionais. Mas, por que ficamos assim? As escolhas foram infundadas? Nossos ícones nos decepcionaram?

De minha parte, gostaria apenas que olhassem com mais carinho e atenção para a experiência política que mais deu certo no mundo: os estados de bem-estar social, ou welfare states, surgidos após o fim da Segunda Guerra e defendidos por historiadores como Eric Hobsbawm e Tony Judt. Seus princípios – que as medidas para conter a crise econômica na Europa estão tentando solapar – são muito claros: Estado forte e provedor, mas não autoritário, capaz de controlar as instabilidades do livre mercado; e investimento maciço em políticas sociais, com ênfase em educação e assistência médica gratuitas, auxílio-desemprego e renda mínima.

Os resultados são inequívocos. Basta ver a vida que se leva em países como Noruega, Dinamarca, Canadá e Finlândia, ou em outros que adotaram em parte as premissas do welfare state: França, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. São nações que em maior ou menor medida unem a liberdade e o empreendedorismo, comuns ao capitalismo, com a implementação de políticas sociais fundamentais, que Marx lá atrás já defendia e pelas quais milhares de pessoas ao redor do mundo caíram de paixão, gritando palavras de ordem e levantando bandeiras por uma utopia que infelizmente nunca deixou de ser utopia.

Quero ficar com você - Renato Braz


Música y letra: Caetano Veloso

Quero ficar com você
E é tão fundo
... Que eu posso dizer
Que o fim do mundo
Não vai chegar mais

Quero ficar com você
E é a glória do saber querer
Com longa história
Pra frente e pra trás

Não quero que o nosso amor
Seja um buraco no não
Mas sinal da trajetória
Da vida e da canção
Marca de queda e vitória
Na palma da mão
Sombra, memória e porvir do coração

Não deixe que o nosso amor
Seja um corisco no caos
Mas passos da liberdade
Pisando seus degraus
Feito de momentos bons
E de momentos maus
De descobertas, de ventos, velas, naus.

DELICIA!!!!!

Sotero: pela casquinha de siri e pelos miniacarajés

 
O Sotero abriu há oito meses em uma casa de Santa Cecília, ao lado do Cosí, com a proposta de servir comida baiana _mais alguns outros pratos típicos do Norte e Nordeste do Brasil _ aos paulistanos. Tempo depois começou a ser elogiado por seus acarajés e pela casquinha de siri. Depois de passar algumas vezes de bicicleta na sua frente e ser quase levada pelo cheirinho de dendê, domingo fui lá experimentar.

Esses aqui são os tais miniacarajés: bolinhos fritos devidamente acompanhados de camarão seco e vatapá, além de uma boa pimenta caseira. E são de verdade, como diz uma amiga baiana que mora em São Paulo. Ela tem a teoria de que muitos dos acarajés servidos por aqui são só “de mentirinha” ou, no máximo, uma “tentativa de imitação do verdadeiro”. Os do Sotero fogem à regra e são igualzinhos ao que você prova lá em Salvador. A porção com 6 miniacarajés sai por R$ 12. Tem também o abará, com o bolinho cozido em vez de frito.

E essa aqui é a casquinha de siri, que já foi considerada a melhor de São Paulo. O segredo é essa farinha amarela que vai por cima do siri, deixa mais crocante e muito mais saboroso.
Partimos então para uma “degustação” dos pratos mais queridos da casa, segundo do chef baiano Rafael Sessenta. Sem vergonha de compartilhar. Em 3 pessoas, pedimos um prato mais uma moqueca. E a ideia é mesmo ir experimentando (o quanto você aguentar porque os pratos são grandes e pesados).

Primeiro o arroz de hauçá (R$ 30): o arroz é feito com leite de coco e servido com camarões em um molho puxado no azeite de dendê e carne seca desfiada e refogada com cebola.

Depois, uma moqueca mista de peixe e camarões.

E servida com arroz, vatapá, caruru e farinha amarela. A moqueca custa R$ 90.
Os dois pratos estavam muito bons, bem tradicionais, como feitos na Bahia. Com muito dendê. Confesso que pedir os dois foi meio exagero, são fortes, pesados. Mas nada que uma boa caipirinha feita com cachaça artesanal e bebida bem lentamente não pudesse resolver. Porque antes de ir embora…

… tivemos que provar o pudim de tapioca servido com baba de moça (R$ 15).

Sotero: Rua Barão de Tatuí, 282, Santa Cecília, São Paulo. Tel.: 11 3666-3066

http://colunistas.ig.com.br/comidinhas/2012/03/06/sotero-pelos-miniacarajes-e-casquinha-de-siri/

Singing in the rain


Verona, Novembro 2002
Somos uma pequena amostra de mundo. Pelas salas da nossa discreta business school Milanesa, no meio da molhada estudantesca, pode-se encontrar um pouco de tudo. Um arquitecto Chileno, uma editora de moda de Madrid e um par de brokers londrinos. Dois engenheiros alemães da BMW, um economista Peruano, um Russo vendedor de Smirnoff e uma Dinamarquesa especialista em energy bonds. Temos também um italiano desenhador de motores de formula 1, um espanhol de Alicante importador de mármores, uma contabilista de Kiev, um marketeer de Lyon, um outro de Atenas e ainda uma outra de Nova Iorque. E também uma catrefada de Italianos oriundos das muitas províncias desta terra. Depois há também uns meninos e meninas do papá vindos das Américas e do Sudeste Asiático que aqui vieram para encontrar vocação ou talvez só para gastar o dinheiro do mesmo, quem sabe. Ah! E há um português claro. Como é que me podia ter esquecido? Há sempre um português.
Durante meses, enturmamo-nos e guerreamo-nos em confrontos simulados, em apresentações fictícias, em debates ilusórios. Vivemos de Excel e Powerpoint. Desenhamos negócios, aprendemos as artes e os vícios da alta finança. Calculamos terríveis Futures e ainda mais sombrias Derivatives. Pensamos um mundo todo virtual. Todinho. Feito de e-commerce e de produtos invisíveis, que ajuntem máximo valor, custem o mínimo possível e se possam vender por muito dinheiro. Dinheiro. Aprendemos a fazer dinheiro. Aos montes. Para nós e para o outro, esse ilustre e anónimo vulto que entrou nas nossas vidas e que se chama shareholder e que aprendemos a amar e de quem tentamos perceber e adivinhar apetites e caprichos.
Mas os tempos são duros. Na maioria, despedimo-nos de bons empregos para poder aqui estar. Alguns endividaram-se com isso. Quase ninguém tem uma perspectiva de emprego. Manhattan explodiu o ano passado, a bolha das Dotcom também e estamos em guerra. Agora parece que vem aí mais uma. Vai ficar tão lindo o Médio Oriente a ferro e fogo. Londres não contrata. Milão fechou as portas. A Alemanha está parada. Trabalhar nos Estados Unidos para um não residente é uma impossibilidade. A Job Fair que aqui organizaram na escola foi um desastre. Apareceram meia dúzia de empresas Italianas de segunda a distribuir brochuras e pouco mais. Faltam duas semanas para a graduation e a coisa está a ficar feia para a maior parte de nós. Os ambicionados montes de fat green paper que todos esperavam que viessem, tardam a chegar.
Mas esta noite ninguém pensa nisso. Num comboio para Verona mandamos à fava a Finança, o comportamento das organizações, o e-marketing e a gestão de operações. Viemos quase todos numa espécie de catarse colectiva para limpar o espírito e aligeirar a alma. A bordo, no bar do comboio somos uns 30. Preparam-se Martinis a rodos e os mais prosaicos dão cabo do stock de cerveja a um desesperado barman das Ferrovie dello Stato. Bebe-se e dança-se. A real party on wheels! Só a Dinamarquesa dos energy bonds é que olha pela janela do comboio em movimento. Nos olhos alguma preocupação. Será que pensa no seu futuro? No futuro da economia mundial? Nos milhares de desempregados e nas suas famílias? No fim de um ciclo económico. Volta a olhar para dentro. — Looks like it´s gonna rain guys.….

Jamiroquai — Corner of the World - Live in Verona - 11/11/02

para os jovens de idade ou de cabeça
Dedicado ao amigo Marco, que, da Bahia - Brasil, envia um sussurro de vez enquanto e aquece meu coração.
OBRIGADA!

"Cem Anos de Solidão" em versão digital

García Márquez celebra 85 anos com versão digital de livro clássico
06 de março de 2012 10h04 atualizado às 12h27

 
'Cem Anos de Solidão' ganha versão digital. Foto: Getty Images
'Cem Anos de Solidão' ganha versão digital

Foto: Getty Images
O escritor Gabriel García Márquez, o nobel colombiano que hipnotizou o mundo com suas ricas histórias, celebra seus 85 anos nesta terça-feira (6) com o relançamento digital de seu livro mais emblemático, Cem Anos de Solidão.
Além dos 85 anos de vida do celebre escritor, o lançamento digital do livro também comemora os 45 anos da publicação original, considerada uma das obras mais importantes da literatura Latino-Americana de todos os tempos. A obra, que nasceu em Macondo, um território fictício criado em torno da saga dos Buendía, é ambientada em um Caribe cheio de superstições, fantasmas, angústias e alucinações.
Cem Anos de Solidão, que já foi traduzida para quase todos os idiomas do mundo, será lançado na internet pela editora digital Leer (leer.es) em colaboração com a Ramdom House Mondadori, editora que possui os direitos autorais do título em papel.
Segundo fontes citadas pela editora, dirigida por Ignacio Latasa, essa parceria foi firmada graças ao convênio firmado entre a Leer e a agente literária Carmen Balcells, que também viabilizou a publicação digital da coleção Insultos, de Isabel Allende, lançada na última semana.
A capa da versão digital de Cem Anos de Solidão aparece como uma espécie de fetiche para os seguidores do escritor, já que esta recupera a mesma imagem da primeira edição em papel, que destacava um barco no meio de uma floresta.
Nascido em 1927, em Aracataca, litoral caribenho da Colômbia, Gabriel García Marquez, também conhecido como Gabito, vive no México há muitos anos e, depois de ter enfrentado uma grave doença, já não escreve mais suas obras.
No entanto, do lançamento de seu primeiro livro , O Enterro do Diabo: A Revoada, publicado em 1955, até seu último e breve romance, Memórias de Minhas Putas Tristes (2004), García Márquez conseguiu fazer o povo mais feliz e, principalmente, brincar com suas palavras no meio de um mundo hostil e cinza.
Com Ninguém Escreve ao Coronel, Os funerais de Mamãe Grande, A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e Sua Avó Desalmada, O Outono do Patriarca, Crônica de uma Morte Anunciada, Do Amor e Outros Demônios, Notícia de um Sequestro e o primeiro volume de suas memórias, Viver para Contar, García Márquez conseguia hipnotizar seus leitores desde a primeira página e, por isso, era conhecido como um "mago" da literatura.
A cultura popular, as mulheres e as histórias de seus avôs alimentaram o coração deste poeta da prosa, que sempre fez questão de ressaltar que escreve para aqueles queiram um pouquinho mais, algo que verdadeiramente conseguiu realizar ao traspassar todas as fronteiras com seu verbo torrencial.
Influenciado diretamente pelos sabores, pela música e pelo declarado compromisso político e social, Gabito sempre foi um grande mediador, embora alguns não conseguem perdoar (entre eles Mario Vargas Llosa) sua relação de amizade com Fidel Castro.
Como se explica na biografia de García Márquez, escrita pelo britânico Gerald Martín e autorizada pelo próprio escritor, Gabito está longe de ser considerado um lacaio de políticos, porém, a amizade para ele é sagrada, assim como a lealdade e a coerência.
A celebração do aniversário de García Márquez não terminará nesta terça-feira, já que até o fim do ano estão previstos inúmeros atos para homenagear esse celebre escritor. Além de seu aniversário e dos 45 anos do lançamento do livro Cem Anos de Solidão, Gabito também comemora os 30 anos de seu Prêmio Nobel, cedido pela Academia sueca em 1982.

http://diversao.terra.com.br/arteecultura/noticias/0,,OI5649326-EI3615,00-Garcia+Marquez+celebra+anos+com+versao+digital+de+livro+classico.html

Marilyn Monroe "Adorável Pecadora"

Terça, 6 de março de 2012, 07h42

Marilyn Monroe

 
Os 50 anos da morte da atriz serão lembrados no próximo Festival de Cannes
Os 50 anos da morte da atriz serão lembrados no próximo Festival de Cannes
André Setaro
De Salvador (BA)

O próximo Festival de Cannes, em maio do ano em curso, vai fazer uma homenagem especial a Marilyn Monroe pela passagem dos 50 anos de sua morte, ocorrida em 5 de agosto de 1962. Custa crer que já estamos meio século sem a diva que encantou a todos os amantes do cinema e se tornou um mito sexual. Muito já se falou sobre ela e não pretendo aqui fazer uma abordagem nem biográfica nem filmográfica (apenas, em alguns casos, a latere).
Acompanhei a trajetória de Marilyn em parte, porque, nascido em 1950, os seus primeiros filmes, vi-os depois nas constantes reprises do mercado exibidor. O primeiro filme que assisti com Marilyn Monroe, aos 10 anos de idade, Adorável pecadora (Let's make love, 1960), de George Cukor, na majestade do cinemascope do cinema Guarany em Salvador, constituiu-se num choque para o adolescente que era. Um choque de sensualidade, um choque de desejo, pois diante de uma autêntica boneca de carne a solicitar daqueles que a viam uma ação - seja ela qual fosse. Saí da sala de exibição avexado, mas isso outra história. Em Adorável pecadora, Marilyn é uma artista de um cabaré que está num número em que satiriza e ridiculariza um bilionário americano interpretado por Yves Montand. Este, ciente da sátira, resolve se apresentar na boite para trabalhar no número, mas não contava que iria se apaixonar por Monroe. Números musicais extraordinários, principalmente aquele, de Cole Porter, onde a diva desce de uma barra de ferro e começa a circular entre os seus pares. George Cukor sempre teve tino para a comédia, um grande diretor, principalmente de mulher. Yves Montand, ator charmant, apesar de filiado ao Partido Comunista francês e há muitos anos fiel à sua esposa Simone Signoret, não resistiu aos encantos de Monroe e teve um affair com ela, evidentemente a affair to remember, mas Signoret compreendeu e o perdoou.
Em 1962, quando Marilyn Monroe morreu, a televisão tinha sido implantada em Salvador há dois anos e os aparelhos eram muito caros. Vim a ter um apenas no ano seguinte, 1963. Assim, na condição de televizinho, encontrava-me na casa de um amigo com toda a sua família reunida em volta do aparelho televisivo. com as luzes todas apagadas. Uma tia, que ouvira a notícia no rádio, tinha enviado um bilhete para mim comunicando a morte da diva, e o tinha entregado ao amigo, que me passou durante esta audiência televisiva. Saí da sala para ler o bilhete no corredor e tomei um susto.
A sensualidade no cinema era vigiada pelo Código Hayes e nunca se viu uma explosão como a provocada por Marilyn Monroe. A feminilidade em pessoa, bastando, para se sentir o apelo sexual, a sua tonalidade de voz ao falar. É verdade que em 1956 já havia aparecido o furacão Brigitte Bardot. É verdade que Rita Hayworth já tinha causado muita confusão em Gilda. Ou Jennifer Jones de quatro, mas vestida, na cozinha da casa grande em Duelo ao sol, de King Vidor. A mulher como fêmea, como instinto puro da sexualidade. Sobre serem mulheres bonitas, as atrizes de Hollywood, no entanto, eram muito compostas, vestidas dos pés aos pescoços. Interessante observar, ainda que não tenha a ver com Monroe, que no apogeu do cinema americano, aquele regido pelo Código Hayes, nem os homens nem as mulheres iam o banheiro. Era feio se ir ao toalete, segundo os produtores da Velha Hollywood. O tabu, entretanto, já foi quebrado há muito tempo, principalmente nos primeiros filmes de Pedro Almodóvar, os quais, invariavelmente, apresentavam uma das atrizes, sempre sentada, num determinado momento do filme, a fazer o que se chama comumente de xixi.
O segundo filme que vi com Monroe, Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959), do grande Billy Wilder, visto numa reprise três ou quatro anos depois do seu lançamento - e, a partir daí, sempre visto na tv, VHS e no DVD, uma das melhores comédias do cinema americano de todos os tempos. Monroe trabalha ao lado de Jack Lemmon e Tony Curtis, que, para fugir de gangsteres, se travestem como mulheres e acompanham, à Flórida, um conjunto musical no qual Monroe é a crooner. Não estava no programa, porém, que Curtis iria se apaixonar por ela.
Em 1955, cansado de ser simplesmente um objeto de desejo, Monroe pretende provar que também é uma boa atriz e se matricula, em Nova York, no célebre Actor's Studio, de Lee Strasberg, Stella Adler, Elia Kazan... Divorciando do jogador Joe DiMaggio, casou-se, em 1956, com o dramaturgo (muito mais velho do que ela) Arthur Miller (A morte do caixeiro viajante), um homem respeitado intelectualmente em quase todo o mundo. Monroe foi convidada por Laurence Olivier para estrelar O príncipe encantado (The Prince and the Showgirl, 1957), filmado na Inglaterra e dirigido pelo próprio Olivier. Acompanhada do marido, na chegada, Monroe estava ansiosa para mostrar ter também um papo inteligente. No restaurante, todos reunidos, Marilyn disse a Olivier: "Como adoro Beethoven!". Olivier, rápido, perguntou-lhe: "Precisamente quais movimentos, Miss Monroe?" Miller, envergonhado, quis escapar por debaixo da mesa.
Um assessor de Marilyn na época das filmagens de O príncipe encantado, cujo nome não me lembro agora, lançou, tantas décadas depois, um relato de suas experiências como profissional ao lado da atriz e revela que ela teve um caso não somente com ele, mas, também, com Laurence Olivier. A diva, segundo outros relatos que li, era quase uma ninfomaníaca. Miller se aborrecia. Mas, que fazer?
Marilyn trabalhou em mais de 30 filmes a partir da segunda metade dos anos 40 (a princípio fazendo pontas). Seus filmes mais memoráveis são Quanto mais quente melhor, O pecado mora ao lado (The seven year itch, 1955), de Billy Wilder, no qual tem aquela cena famosa do metrô quando o vento faz subir a sua saia rodada - que ficou para as antologias, Nunca fui santa (Bus stop, 1956), de Joshua Logan (o mesmo diretor do inesquecível Férias de amor/Picnic), Os homens preferem as louras (Gentlemen prefer blondes, 1953), de Howard Hawks, Torrentes de paixão (Niágara, 1953), de Henry Hathaway, Almas desesperadas (Don't Bother to Knock, 1952), de Roy Ward Baker, entre outros. Sua aparição derradeira: Something's Got to Give (1962), de George Cukor, que ficou inacabado com o seu falecimento. Antes deste, fez, em 1961, Os desajustados (The misfits), com Clark Gable, Montgomery Clift. Marilyn tinha fixação em homens mais velhos, com os quais via a figura do pai e se apaixonou pelo velho Gable, que pouco depois morreria de violento ataque cardíaco.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5648452-EI11347,00-Marilyn+Monroe.html