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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Babá Alapalá - Rita Ribeiro -


É junho


No Tempo Certo

Olha pro céu, meu amor
veja como ele está lindo...




É junho. Já sinto o cheiro de mugunzá. De pamonha. Canjica. Já os pés mais leves de quadrilhas lembradas e esperadas. Já cores e promessas de risos a mais. Um último réquiem para maio: começaste muito pior do que terminaste. Em algum momento me trouxeram de volta o riso. Trouxeram-me a espera e a inquietação. Não faz mal, melhor o tanto querer que me agita que a apatia e desesperança.


É junho e há tantas cores a mais. E vestidos. Bandeirinhas e balões. Há mais música, sanfonas choradeiras a me convidar o corpo. Há anseios por salas de reboco. Há inesperadas coreografias ou ensaiados passos. Há chuva, mas de bala. Há santos que casam e tantas simpatias. Acho lindo esse nome: simpatia. É lúdico e escorre da língua. Dá vontade de sorrir.


É junho e há um certo cansaço de fim de semestre, mas é morosidade de fim de tarde e rede na varanda chupando rolos de cana. É doce. O corpo se lembra de se saber carne. Gosto dos momentos finais do semestre, o assombro de alguns, a tranquila certeza de uns poucos, a agitação de muitos. Gosto de olhar acertos e equívocos e já saborear a expectativa do novo, do outro, do próximo.


É junho e há chegadas. Há amiga que cruza o oceano. Traz, nos olhos, no colo e no riso, um saber novo. Eu a espero com um querer bem que se faz abraço e histórias e silêncio, muito silêncio de simplesmente se olhar e saber que uma e outra se são em amor. Há amigas que vem do Sudeste. Ali, de um frio sem espelho aqui. Vêm em encanto, em conversa, em aprendizado. Vêm em entrega. Em revelações. São bárbaras. Desbravam meus caminhos e me dão a conhecer. Eu as espero com varandas, livros e cervejas. Eu as espero com solar afeto. Com risos e danças e juninas belezas.


É junho e as meninas só pensam em namorar. E usam saia que termina muito cedo porque facilita. É junho e eu não preciso chorar porque a sanfoninha chora chora a minha dor. É junho de terreiro iluminado, de fogueiras saltadas, tempo em que eu me amoreno em cheiro de fulô. Junho de cabo a rabo tempo de sentir o sertão latejando no pulso.


É junho, não mais maio, não ainda julho. É junho. Junho. Junho em amarelos. Em sol. Calor de praia. Convite. É junho para os sentidos. Para ver o que há pra se desejar. Cobiça. É junho pra ouvir. Vezes e vezes a voz se fazendo música. Junho para tocar, a pele se fazendo seda. Para provar. Deixar-se ser sabor. Junho para oferecer. E torcer. Junho para despir a tristeza de maio, a angústia de maio, o vazio de maio. Nua de maios, estou pronta. É junho.


Por Luciana Nepomuceno
http://borboletasnosolhos.blogspot.pt/2011/06/no-tempo-certo.html


Maria Bethânia põe os pés na terra em ‘Meus quintais’

Novo álbum da cantora une memórias da Bahia, Dona Canô

o Brasil caboclo de Iaras e luas cheias


POR 

Disco tem compositores como Chico Cesar, Adriana Calcanhotto, Roque Ferreira, Tom Jobim, Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro
Foto: Camilla Maia / Agência O Globo
Disco tem compositores como Chico Cesar, Adriana Calcanhotto,
Roque Ferreira, Tom Jobim, Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

 - Camilla Maia / Agência O Globo




RIO - Num cantinho da casa de Maria Bethânia, entre plantas de Maria Bethânia, um pequeno candeeiro feito por Maria Bethânia sustenta uma chama. A capa de “Meus quintais” (Biscoito Fino), novo álbum da cantora, anuncia o espírito que atravessa suas 13 faixas, dos versos aos arranjos — a amplidão da natureza, do divino e do humano tratados numa esfera de intimidade profunda. Como se fosse um “Brasileirinho” para dentro.

—Eu fui criada em cidade do interior, em casa — começa Bethânia, ao falar do quintal real, vivo em sua memória, que serve de espinha dorsal ao disco. — O quintal ficava lá atrás, era terra, árvore, uma coisa assim meio de onça, bicho do mato. Tive a felicidade de ter um irmão da qualidade de Caetano no galho de outra árvore. Eu ficava num, ele no outro. Aquilo era um brinquedo muito saboroso. O quintal é um lugar livre, onde você aprende a se concentrar, a namorar, sua cabeça viaja. E ao mesmo tempo você vê a casa, faz parte de um lugar muito bem alicerçado. O quintal pra mim sempre teve um significado muito grande. Tão grande que, sem prestar atenção a isso, quando foi feita a reforma da casa, quando meu pai ainda era vivo, pedi que meu quarto ficasse no quintal, não no hall. Porque foi onde eu vivi. Ali que tudo formou em mim.

VEJA TAMBÉM
Crítica: 'Meus quintais', de Maria Bethânia

Aquele quintal de Santo Amaro aparece no disco claramente na figura de Dona Canô, que paira sobre o álbum e está numa foto do encarte, recostada no ombro de Bethânia, numa foto tirada em seu aniversário de 100 anos — ao lado da imagem, versos de “Dindi” (“O vento que fala nas folhas/ Contando as histórias que são de ninguém/ Mas que são minhas e de você também”). Primeiro álbum de estúdio da cantora feito após a morte da mãe, no fim de 2012, “Meus quintais” é marcado por essa ausência. “Mãe Maria” (de Custódio Mesquita e Davi Nasser) é a maior evidência disso.

— É a única regravação. Gravei há muitos anos. É óbvio que naquela época Mãe Maria era minha mãe, minha mãe de santo, Nossa Senhora da Purificação, minhas senhoras todas... Hoje Mãe Maria sou eu. Eu mesma me contando as lendas da “Moda da onça”, da Iara. Eu mesma me dando algum conforto já que essas mães... Quando perdi minha mãe tive um pouco que assumir eu mesma. Eu que tenho que cuidar de mim — diz Bethânia, reforçando a fala ao notar que são delas os cabelos brancos da foto do encarte sob a letra de “Mãe Maria”.

As lendas da “Moda da onça” e da Iara que a cantora cita são referências às faixas “Moda da onça”, folclore recolhido por Paulo Vanzolini (“É uma característica do Brasil extraordinária: um cientista, trabalhando no Butantã, faz a moda da onça daquela maneira, o mesmo que escreve ‘Ronda’...”) e “Uma Iara/ Uma perigosa Yara”, junção de música inédita de Adriana Calcanhotto e texto de Clarice Lispector, editado por Fauzi Arap e Bethânia, na última parceria da dupla, pouco tempo antes de o diretor morrer, em dezembro passado.

As duas faixas estão dentro do universo caboclo, roça, índio de “Meus quintais” — uma ampliação dos galhos da árvore dos fundos da velha casa:

— O disco é árvore, pé no chão, estou descalça. Todo mundo conta que os Veloso têm uma ancestralidade dos pataxós. Tenho uma atração muito grande por essa coisa do índio. E o caboclo foi a primeira expressão religiosa africana que vi. Santo Amaro tinha candomblé de caboclo, que são os espíritos índios. Eu adorava, era muito alegre. Adorava ouvir as cantigas, era perto da minha casa. Essa lembrança me veio muito forte, tive essa intuição.

A intuição de que aquele podia ser um caminho para algo indefinido — Bethânia não tinha a intenção de lançar nada neste ano, ia deixar para 2015, quando completa 50 anos de carreira — levou a cantora a convocar Chico César para compor para ela. Ele atendeu ao pedido e assina duas do disco, “Xavante” e “Arco da velha índia”, que fez pensando na cantora (“O arco da velha índia/ É corda vocal insubmissa”):

— Foi um modo de ele me ver. Estou velha, de cabelo branco... Fiquei fascinada por aquilo — conta Bethânia. — Ele dedicou a mim, mas eu disse que queria dedicar a Rita Lee. Porque Rita sempre fala que quer ser a velha índia sábia. Eu brincava, cheguei a falar para ela cantar “Uma Iara” comigo, mas depois pensei: “Deixa a Rita quieta”.

Ao saber que o paraibano estava compondo para Bethânia, Calcanhotto mandou uma mensagem: “Ciúme de Chico César”. A cantora pediu então que ela fizesse algo para Iara. Saiu “Uma Iara”, no qual a compositora chega ao mito amazônico pela Grécia (“Iara, a que canta, a citéria”).

“Sou senhora e sou meninota”


“Meus quintais” inclui ainda o samba-enredo indígena “Povos do Brasil” (de Leandro Fregonesi), quatro faixas de Roque Ferreira (só ou em parceria com Paulo Dafilim ou Paulo César Pinheiro) e as antigas “Dindi” (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira) e “Lua bonita” (Zé Martins e Zé do Norte), esta encharcada de memórias (“Quando falo de meus quintais tem uma melancolia também, porque eu moro desde os 17 anos longe disso”).

— Em casa ouvíamos tudo. O samba de roda, um rei que chegava (“Folia de reis” é dedicada a seu irmão Rodrigo, que recuperou a tradição do festejo em Santo Amaro), uma cantiga da bossa nova, minha mãe assoviando uma canção... “Lua bonita” entra por aí — diz, antes de se calar, emocionada.

Alguns minutos depois, ela volta à canção:

— Os baianos gostam de “Lua bonita”. Caetano gravou no “Pedrinha de Aruanda” (de Andrucha Waddington) com minha mãe. E Raul Seixas tem uma gravação que é um show. Foi onde estudei.

A melancolia se une a uma alegria infantil no álbum, explica Bethânia.

— Ao mesmo tempo em que sou eu senhora, sou eu meninota. Tanto que botei criança cantando. No CD, eu faço eu, eu conto eu, viajo em mim, passo para o caboclo, viro Iara, saio, viro tapuia.

A ideia do quintal, de liberdade, brincadeira, pé na terra, também se faz presente na exuberância seca, de poucos elementos, dos arranjos (a direção geral do CD é assinada por ela e Jorge Helder).

— Tem uma singeleza, uma naturalidade de cada um dos músicos. Eles iam realizando muito livremente, sem nenhuma pretensão de “ah, esse acorde”. Não tinha aquela festa do acorde, não.

Com essa simplicidade natural, a faixa de abertura, “Alguma voz” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro), toca nos temas centrais de “Meus quintais”, entre eles o canto, que aparece no disco associado ao vento, ao mar, à terra e à voz humana:

— Ainda está muito longe de eu desvendar o mistério do canto. Acho lindo uma pessoa emitir. Um dessa maneira, outro daquela, essa individualidade que Deus determina. A voz traduz isso. E é o ar, sem o qual você não vive, que é o elemento do meu orixá. Fica uma casa boa para mim. Meu quintal.



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