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domingo, 6 de agosto de 2017

Tenho de ir....




  • January 7, 1951/ August 4, 2017
    Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Nota Oficial:

É com profundo pesar que a Assessoria Digital | Wallace Fernandes comunica o falecimento do Cantor e Compositor Luiz Melodia, ocorrido nessa Sexta-feira(04/08).

O velório acontecerá hoje (Sexta-feira 04/08) às 17:00 horas na quadra da escola de samba Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

O sepultamento acontecerá amanhã (Sábado 05/08) às 10:00 horas no cemitério do Catumbi, no Rio de Janeiro.


A música brasileira, hoje acordou de luto!




Do Poeta
Nei Duclós


Transcrevo abaixo o texto que fiz sobre show e obra do grande artista há quase 40 anos. Ilustrada, da FSP, de 12 de maio de 1979.


LUIZ MELODIA: SURPRESAS DE UM INVENTOR TRANQUILO


É um privilégio para o Brasil a existência de um artista como Luiz Melodia. Porque, além de sintetizar todos os caminhos importantes da música popular moderna – como João Gilberto, rock, Tropicalismo, Jovem Guarda e blues elétrico – ele acrescenta novas informações, que,manipuladas por sua voz cortante e originalíssima, o colocam num lugar privilegiado entre os grandes criadores da MPB deste final de século. A consciência de Melodia da sua importância, depois de tanto vento contrário à sua presença num mercado cheio de preconceitos – tanto do show-biz quanto das obsessões ideológicas, transforma seu show no Teatro Pixinguinha (infelizmente só ate amanhã) num momento decisivo da música brasileira em 79.


A segurança de Melodia na estrutura do show se reflete na sua postura física, na escolha do repertório e no domínio total do recado que ele passa para o público. Em vez de fazer concessões inúteis – como exagerar no som “pop” que a maioria da plateia esperava num artista tão radicalmente novo ou de cantar seus sucessos – ele procurou contar a sua história. E não poderia começar melhor: só acompanhado pelo violão de Ricardo Augusto – seu companheiro de composições, como é o caso de “O morro não me engana” – ele cantou o antigo sucesso de Erasmo Carlos, “Caderninho”: “E em casa então/ você me abriria/ e se espantaria/ com meu rosto teolhando, dizendo, baixinho, benzinho eu não posso viver longe de você.”


A Jovem Guarda teve um impacto na emoção de Luiz Melodia. É, para bem dizer, a sua raiz musical. A partir dela Melô se sentiu livre para escolher seu próprio caminho. . E como o próprio Roberto Carlos confessa que sofreu influência marcante de João Gilberto, é óbvio que João é a estrela-guia da primeira parte do show, onde Me3lô junto com Ricardo e a excelente cantora Wilma Nascimento (parenta de Milton e que participou no coro do show Refavela, de Gilberto Gil), cria um clima raro de introspecção, inclusive transformando músicas exuberantes como “Mulato Tropical”, do seu amigo baiano Pepe Kid, num exercício tranquilo, quase confessional.


Melô, entretanto, não pretende “enterrar” a eletricidade da sua música numa proposta tão singela e significativa. Ele apenas mostra o seu coração, avisando que ele surgiu assim, compondo quieto no seu barraco do morro de São Carlos, no Rio, com o rádio e a cabeça ligdos diretamente no violão: “Eu sou magrinho, toco pinho, não sou tinta mas um dia posso pintar”. E aproveita para dizer, na entrelinha, que não admite ser manipulado, nem pela imagem que o público faz dele nem pelas exigências do mercado, que quis transformá-lo em mais um compositor de sucesso.


Por isso, quando entra em cena sua maravilhosa banda, a plateia já está completamente dominada pela força que ele impôs no show. Está atenta para a sua interpretação física, pela liberdade com que dispõe do palco,pela dança que desenvolve – agora, acompanhado por bateria, guitarra, flauta e baixo –com emoção e originalidade. Abrindo os olhos, espichando os lábios, passeando do agudo ao grave com facilidade, ele desperta a criatividade do público, que usa recursos incomuns para acompanhá-lo em suas músicas, em vez das palmas tradicionais como em “Presente Cotidiano”, “O morro não engana”, “Bata com a cabeça”, “Falando em Pobreza”.

Quem acusa Melodia de excessivamente hermético, principalmente nas letras, acusadas também de bobas e alienadas – não pode deixar de ver esse show par aentender melhor o que ele quer dizer, pois tudo fica excessivamente límpido. Melô sabe interpretar suas músicas, sabe passar o seu recado, de forma espontânea, sem esquemas, sem gestos ensaiados. É a sua essência que está no palco, a sua verdade.


E sua verdade é essa: “Na esquina onde o sol bate e se firma, estou lá, bem paralá do que para cá”. Ou: “Quem tem tem, quem não tem não se conforma”. Ou ainda: “Falando de tristeza sem ser pobre, falando de pobreza sem ser triste. Todo artista verdadeira costuma virar a linguagem tradicional de pernas para o ar. É a sua especialidade. Com imagens aparentemente intrincadas, (“Puro conteúdo é consideração”) ele apenas resolve o cotidiano urbano e veloz dos dias de hoje, nos trazendo as riquezas acumuladas depois de tantos anos de telefone, rádio, televisão, avião a jato, assaltos escolas de samba, amores divididos, emoções desvinculadas do passado romântico e linear do Brasil. Ele caminha “sem juízo na cidade”, com “frases elegantes sobre mim” e faz críticcas profundas: “”Teatro, boate, cinema, qualquer prazer não satisfaz. Mas tudo isso não representa nada/ tá na cara que o jovem tem seu automóvel .


A negritude brasileira de Melodia é também outro grande impacto do show. É uma negritude liberta, que chama sua raízes através da dança (que se torna um espetáculo à parte, principalmente quando grita: “Eu quero é mel”) e que se solta através de imagens desvinculadas da imagem de “negro sofrido”. Como ele mesmo diz: “Subi no morro, subi cansado, pobre de mim, pobre de nada”. Sem se punir, sem raivas inúteis, mas completamente à vontade nas linguagens que soube assimilar e recriar. Luiz Melodia é uma grande contribuição cultural para um Brasil moderno, um país que neste momento procura se reunir em torno do marco Zero para conhecer sua individualidade.


Por isso, é necessário que a temporada de Melodia se estenda, pelo menos até a próxima semana, pois precisamos despoluir a cabeça e reencontrar nossa criatividade.


NEI DUCLÓS


Legenda: Melô: intimismo e eletricidade.


Texto publicado em 12 de maio de 1979 na Ilustrada da Folha de S. Paulo. Há tempos não relia essa minha análise do show e da obra de Luiz Melodia. Gostei porque parece um texto escrito hoje de manhã de tão atual. Marcamos o tempo com nossos sentidos atentos, exercendo a liberdade jornalística numa época dura.


















LUIZ MELODIA



SAUDADES!!!!




domingo, 30 de abril de 2017

BELCHIOR






"Deixemos de coisas, cuidemos da vida,


senão chega a morte ou coisa parecida, 


e nos arrasta moço sem ter visto a vida 


ou coisa parecida aparecida "






Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes 

(1946-2017) 







Belchior - Hora do Almoço




No centro da sala,


diante da mesa,


no fundo do prato,


comida e tristeza.


A gente se olha,


se toca e se cala


E se desentende


no instante em que fala.



Cada um guarda mais o seu segredo,


sua mão fechada


sua boca aberta


seu peito deserto,


sua mão parada,


lacrada,


selada,


molhada de medo.



Pai na cabeceira: É hora do almoço.


Minha mãe me chama: É hora do almoço.


Minha irmã mais nova, negra cabeleira...


Minha avó me chama: É hora do almoço.



... E eu inda sou bem moço


pra tanta tristeza.


Deixemos de coisas,


cuidemos da vida,


senão chega a morte


ou coisa parecida,


e nos arrasta moço


sem ter visto a vida


ou coisa parecida aparecida




http://pt.wikipedia.org/wiki/Belchior

domingo, 29 de janeiro de 2017

La La Land

Elio Gaspari em 'La La Land' cura qualquer mau humor

Por mais algumas semanas funcionarão pelo mundo afora salas de distribuição de bom humor. Seja qual for a aporrinhação que azara a vida do sujeito, ele poderá entrar num cinema e o filme "La La Land" o ajudará a ficar de bem com a vida. (O juiz Moro deveria fazer sessões terapêuticas para os seus hóspedes de Curitiba.)

"La La Land" tem romance, poesia e a mágica da máquina de moer gente de Hollywood. Tudo isso e mais dois grandes atores: Ryan Gosling (um músico à procura de um cantinho para seu talento) e Emma Stone (uma jovem atriz sem futuro). Isso e mais os olhos dela, capazes de cantar.

Passarão os anos para que se saiba o nome dos diretores de elenco que humilharam Ryan e Emma. (A cena do diretor que encerrou o teste para combinar um almoço aconteceu com ele, não com ela.)

Quase tudo ali é fantasia e verdade. Ela não trabalhava numa lanchonete, mas numa loja de petiscos para cachorros. A Emma da vida real é muito mais obstinada. Quando tinha 14 anos montou para os pais uma apresentação de PowerPoint intitulada "Projeto Hollywood". Meses depois, a mãe mudou-se com ela para Los Angeles. O resto é o sonho americano no cenário de Hollywood.

Desde 1951, quando o diretor Vittorio De Sica botou os favelados de Milão montados em vassouras e voando felizes sobre a praça do Duomo, essa mágica dá sorte aos filmes. Em 1982, Steven Spielberg botou o E.T. para voar na caçamba da bicicleta do garoto. Emma e Ryan voam dançando.




http://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2017/01/1853945-la-la-land-cura-qualquer-mau-humor.shtml


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O tempo traz a poda





A poda é necessária para a planta se fortalecer e equilibrar _ o luto ensina e amadurece.

Ensina que existe tempo para tudo, e que alguns ramos irão se soltar durante a vida, modificando o vigor da espécie;

Ensina que os mais fortes são aqueles que se adaptam_ justamente como dizia Darwin;

Ensina que alguns galhos são supérfluos, ainda que não haja compreensão no momento;

Ensina a modificarmos nossa tendência de produzir mais folhagem que frutos_ a buscarmos novas alternativas, ter coragem, humildade.

Enquanto tivermos sorte, permanecermos jovens, belos e bem nascidos o acaso nos protegerá, mas permaneceremos mais selvagens_ folhagem e vegetação.

E não descobriremos quem realmente somos.

O tempo traz a poda. E a cada tesourada descobrimos que algumas feridas nunca se curam e você terá que se ajustar a uma forma de vida completamente nova.

Mesmo que seu coração tenha sido quebrado em mil pedaços, uma hora você perceberá que é capaz de amar de novo e, se tiver sorte, amará melhor.

Já perdi amigos, me separei de pessoas insubstituíveis, sofri decepções absurdas, descobri que ninguém é perfeito. Fui feliz, me atirei de cabeça, confiei demais, me frustrei na mesma proporção, tive dúvidas, morri de arrependimento.

Fui podada pela vida, aparada em minhas arestas, corrigida em minhas estruturas. Descobri novos arranjos, me equilibrei com as perdas e decepções, formulei novos caminhos. Aprendi que continuamente sofremos um processo de renovação natural _ como as plantas. Faz parte da vida, do processo de nos tornarmos melhores com o tempo, extraindo os ramos ruins e mantendo os bons…

Aprendendo a perdoar, a pedir perdão; a entender que o tempo leva pessoas especiais e deixa algumas nem tão perfeitas assim; que o coração é capaz de amar de novo, mas antes deve permitir-se chorar e enterrar o amor antigo bem fundo para que ele não ressuscite de tempos em tempos; aprendendo a valorizar o presente, a entender que tudo é passageiro_os bons e maus momentos; aprendendo que algumas pessoas simplesmente não percebem o mundo como você, e que isso não as torna mais cruéis. Aprendendo a ter compaixão, a separar seus medos antigos dos atuais.

O tempo molda as pessoas de formas diferentes, e alguns endurecerão ainda mais com o passar dos anos. Nem todo mundo aprende, não importa quantos tombos leve. E você não pode basear sua vida por essas pessoas.

A vida é muito curta e o roteiro só depende de você. É assim que você se mantém vivo. Decidindo ser melhor a cada dia, se permitindo chorar, se autorizando ter raiva, se justificando por estar sem forças. Mas ainda assim acreditando que uma hora, de alguma maneira que seria impossível, você não se sentirá assim. Não vai doer tanto…






http://www.asomadetodosafetos.com/2012/08/o-tempo-traz-a-poda.html

domingo, 8 de janeiro de 2017

VIDA

Não podemos fugir de nossa história.
 Daquilo que é colocado à nossa frente e precisamos atravessar...

__ Fabíola Simões

sábado, 7 de janeiro de 2017

Visita à Bahia




Olha aí minha gente, Yemanjá tá me chamando e eu sou boa ouvinte e obediente filha, estarei na minha amada e saudosa BAHIA no próximo mês de Fevereiro, de 1 a 15, para matar esta saudade que me atormenta e receber as bençãos e abraços dos meus amigos/as, todinhos, quero ver todos!!!!

Estarei hospedada no hotel Golden Tulip Salvador  http://www.goldentulipsalvador.com/pt-br/quartos…

Aí me encontrarão, no Rio Vermelho, bem juntinho da minha deusa!!! ODOYÁ





Vamos ali tomar um banho no mar da BAHIA?




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

15 Poemas de Ferreira Gullar

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo. 1930-2016.








Poema: Não há vagas – Ferreira Gullar

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.



Poema: Traduzir-se – Ferreira Gullar

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?



Poema: No corpo – Ferreira Gullar

No corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.



Poema: Poemas Neoconcretos I – Ferreira Gullar

Poemas Neoconcretos I

mar azul

mar azul marco azul

mar azul marco azul barco azul

mar azul marco azul barco azul arco azul

mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul



Poema: Aprendizado – Ferreira Gullar

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.



Poema: Um Instante – Ferreira Gullar

Aqui me tenho/ Como não me conheço/ nem me quis/ sem começo/ nem fim/ aqui me tenho/ sem mim/ nada lembro/ nem sei/ à luz presente/ sou apenas um bicho/ transparente. Um instante, poema de Ferreira Gullar.



Poema: Subversiva – Ferreira Gullar

Subversiva

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.

Poema: Os mortos – Ferreira Gullar

Os mortos

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça



Poema: Cantiga para não morrer – Ferreira Gullar

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.



Poema: Prometi-me Possuí-la – Ferreira Gullar

Prometi-me Possuí-la

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo — deuses frágeis —
eu colho a ausência que me queima as mãos.

[Poemas Portugueses]



Poema: Extravio – Ferreira Gullar

Extravio

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.



Poema: Madrugada – Ferreira Gullar

Madrugada

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes.



Poema: Neste Leito de Ausência – Ferreira Gullar

Neste Leito de Ausência

Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

[Poemas Portugueses]



Poema: Meu povo, meu poema – Ferreira Gullar

Meu povo, meu poema

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta



Poema: MINHA MEDIDA – Ferreira Gullar

MINHA MEDIDA

Meu espaço é o dia
de braços abertos
tocando a fímbria de uma e outra noite
o dia
que gira
colado ao planeta
e que sustenta numa das mãos a aurora
e na outra
um crepúsculo de Buenos Aires

Meu espaço, cara,
é o dia terrestre
quer o conduzam os pássaros do mar
ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil
o dia
medido mais pelo pulso
do que
pelo meu relógio de pulso

Meu espaço — desmedido —
é o nosso pessoal aí, é nossa
gente,
de braços abertos tocando a fímbria
de uma e outra fome,
o povo, cara,
que numa das mãos sustenta a festa
e na outra
uma bomba de tempo.

A poesia de Ferreira Gullar sempre destacou-se pelo engajamento político. Por meio da palavra, Gullar fez da poesia um importante instrumento de denúncia social, especialmente na produção dos anos de 1950, 1960 e 1990, haja vista que, posteriormente, o poeta tenha reconsiderado antigos posicionamentos. Sua poética engajada ganhou força a partir dos anos de 1960 quando, ao romper com a poesia de vanguarda, aderiu ao Centro Popular de Cultura (CPC), grupo de intelectuais de esquerda criado em 1961, no Rio de Janeiro, cujo objetivo era defender o caráter coletivo e didático da obra de arte, bem como o engajamento político do artista.

Perseguido pela ditadura militar, Ferreira Gullar exilou-se na Argentina durante os anos de repressão, exílio provocado pelas fortes tensões psíquicas e ideológicas encontradas em sua obra. A importância do poeta foi reconhecida tardiamente, na década de 1990, quando finalmente Gullar foi agraciado com os mais importantes prêmios literários de nosso país. Em 2014, aos 84 anos, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira de número 37, que pertencera ao escritor Ivan Junqueira, morto nesse mesmo ano.

http://escolaeducacao.com.br/melhores-poemas-de-ferreira-gullar/



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

'Pedra Filosofal'


Jorge de Sena




"Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.
Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.
Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.
Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.





photo byTayfun Eker