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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

No caminho do meu ofício

No caminho do meu ofício

(Ana Maria Lopes)



No caminho do meu ofício
cruzei com um homem sem sono
Carregava sonhos nos bolsos de seus jeans
e a camisa aberta no peito
desafiava outros caminhantes
que não lhe entendiam o olhar manso
manso de lago
Seus cabelos ventavam ilusões
que eram espalhadas nos quatro cantos
Ia o homem e seu sonho
por aquela estrada
que ele dividia e partilhava com o mundo
Suas pegadas faziam crescer as flores
e seu suor pingente criava o arco-íris
Era um homem imenso
sobrava no mundo, ele sim
Seus braços como um polvo
abraçava multidões
Seu sorriso escancarava
a vitrine de sua forma interna
Só nos cruzamos
e, olhos nos olhos,
lampejamos risos da alma
Senti que vinha para ficar
não para parar em caixas de morar
para ficar, isso sim
dentro de mim.
Mostrou-me as coisas da vida
fez-me sentir que haviam feridas
que nunca iriam cicatrizar
Cantou lindas cantigas
umas novas, outras antigas
batucou alguns acordes
e fez muita desordem
dentro de meu corpo solitário
Depois de mostrado o mundo
o homem e seu sonho
continuou o rastreio
em busca do que queria
Atônita, embevecida,
vi o homem e seu sonho passar
de forma estranha, sensata, discreta.
E só algum tempo depois,
muito depois,
soube que havia amado um poeta.

luiz alfredo motta fontana

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