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quarta-feira, 14 de março de 2012

Para Celebrar o Dia Nacional da Poesia e 165 anos de nascimento do poeta Castro Alves







Castro Alves é inquestionavelmente um dos maiores poetas da língua portuguesa.


Nesse sentido, sugere-se a leitura da obra “O Amor do Soldado”.

Nela o leitor poderá encontrar o envolvente relato da vida, dos amores e
da incansável luta pela liberdade, protagonizada pela sedutora figura daquele que
ficou conhecido como o Poeta dos Escravos; contada como só um outro baiano,
também imortal e saudoso, saberia contar – Jorge Amado.

Antônio de Castro Alves nasceu na Bahia, no ano de 1847, na fazenda de
Cabaceiras, então comarca de Cachoeira.
Pela família e pelos amigos era conhecido apenas pelo simples Cecéu. Entretanto,
para as autoridades de seu tempo, era o rebelde e subversivo estudante; e para a história
da literatura brasileira, ficaria conhecido para sempre como o Poeta dos Escravos.
Embora a inquestionável excelência de seus versos, o poeta teve um único livro
editado ainda em vida - “Espumas Flutuantes”. Nele, Castro Alves retoma o tema do
amor em sua sensualidade e em sua realização.
Transformando o sentimento amoroso em pleno sentido de prazer e sofrimento,
em “Espumas Flutuantes” descreve cenas oportunas da paixão humana. Em poemas tais
como "O adeus de Teresa", por exemplo, percebemos a plenitude do lirismo de seu
lirismo:


A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus’...

E amamos juntos... E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: “adeus”.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus...

Era eu... Era a pálida Teresa !

“Adeus” lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus !”

Passaram tempos...séc’los de delírio...

Prazeres divinais... gozos do Empíreo...

... Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei !... descansa!...”

Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei... era o palácio em festa!...

E a voz d”Ela e de um homem lá na orquestra

Preenchida de amor o azul dos céus.

Entrei!... Ela me olhou branca....surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa !...

E ela arquejando murmurou-me: “adeus”


O poeta do povo, o defensor dos escravos, como foi e continua sendo chamado
Castro Alves é revelado em sua intensidade de amar, no sentido mais pleno do amor.
Amou a vida. Amou seus amigos. Amou os negros escravos. Amou a volúpia de suas
amantes. Amou os versos. E amou, amou muito, amou perdidamente a mais irresistível
de todas as suas amadas – a Liberdade. Porque não era só com o corpo que o Poeta
amava, era sobretudo com as palavras e com os ideais libertários que ele tremia de
prazer.
Dividido entre os compromissos políticos inerentes a uma época de grandes
revoluções ideológicas e o amor de sua querida Eugênia Câmara, Castro Alves
abandona tudo em nome do amor à causa libertária.

Jorge Amado reverenciou Castro Alves, em “O Amor do
Soldado”:

“Não é fácil prender nos limites de um palco a vida de Castro Alves que se
processou sempre na praça pública à frente da multidão. Ele não agiu como
a maioria dos poetas que se tranca nos gabinetes de trabalho à espera de
inspiração. Não foi apenas liberdade, foi também um militante da liberdade.
Seu lugar era à frente do povo. Sua arte, ele colocou a serviço da Pátria e da
humanidade.”
Sobre liberdade e escravidão Castro Alves não poupou palavras para exprimir
toda sua indignação diante do flagelo por que passou a humanidade até quase o final do
século XIX, em que o homem escravizava o próprio homem, a pretexto de pretensa
superioridade racial que, na verdade, sabia nunca ter existido.

Centrado mais uma vez no tema de exaltação à liberdade, temos, entre outras, “Os
Escravos”, coleção de poesias que foram publicadas doze anos após a morte do poeta,
constituindo-se na forma mais pura da chamada poesia social. Apesar de uma certa
idealização, podemos dizer que os versos lírico-amorosos de Castro Alves conseguiram
ser menos idealizados que os de seus contemporâneos, impregnando da dura realidade
dos negros escravos cada estrofe que escrevia. Falando sempre do negro escravo, cativo
e maltratado pelos senhores, marcou sua incansável luta pela liberdade, como podemos
encontrar na parte IV do “Navio Negreiro”:

Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros...estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... moças nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali !

Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri !

No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros !
Fazei-os mais dançar !...”

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da rocha fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam !...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam !
E ri-se Satanás !...

Jorge Amado afirmou ter sido para ele difícil escrever sobre Castro Alves,
"
é impossível prender nos limites de um texto a vida de um poeta que colocou sua obra a
serviço da liberdade" (AMADO, 1943).

165 anos de uma literatura brasileira que levanta a bandeira do respeito à dignidade humana.

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