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domingo, 7 de dezembro de 2014

Eu somente iria amar as mulheres.






Mulheres!




Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza. Para viver o mistério profundo que trazem consigo, eu preciso de mais. Eu tenho que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas. Tenho que dar-lhes o amor que ao meu corpo as conduz, e na volta sustenta-me a alma. O amor natural de todos os corpos do mundo. Tenho que dar-lhes a posse imprecisa de mim. Como num espelho de paixões em labareda, quero sentir nos seus olhos o mais raro brilho diamante.

Eu as amo como se lhes devesse a Vida. E as venero com a graça de um cisne nadando num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado. Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, nem quero mudá-las jamais. Imagino o que sonham e entro no sonho delas. Cavalgo em pêlo um cavalo branco para visitar-lhes as razões e as emoções, a loucura e a libido. Como um Deus que se liberta da sua própria mitologia, eu me surpreendo em nome da Criatura. Entro no coração de cada uma como se entrasse no meu. Mergulho nos seus desejos e me espanto com tanta fantasia, com tamanha formosura. Os sentidos, por não serem precisos, não bastam, e preciso mais do que cinco para compreendê-las.

Porque toda mulher é silenciosa por dentro. Sua existência se mani-festa em cada detalhe. Assim na terra como no céu, o amor tem que ser livre. Bendito sou eu entre as mulheres. Fazer amor tem que ser uma experiência religiosa. Por isso eu as amo como fina substância, como deve amar quem ama de verdade: incondicionalmente.

— Sem ciúmes.

Amo as morenas e as loiras, as baixinhas e as altas, as lindas, as quase feias. As virtuosas, as magras e as gordinhas. Diabólicas, tímidas, mentirosas, iluminadas, pecadoras ou santíssimas, virgens, pobres, ricas, loucas, inocentes ou safadinhas — não importa, eu amos todas. As bronzeadas e as branquinhas. As inteligentes e as nem tanto. Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as velhas, as solteiras, as casadas, as noivas, as separadas. As amadas e as abandonadas. As livres, as que lutam por liberdade — e também as indecisas.

E se me dessem o poder, o tempo e a chance, eu a elas daria um or-gasmo sublime — todos os dias. Poeticamente.

Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas. Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos. Tomaríamos vinho branco, comeríamos morangos. E eu lhes faria poemas de amor olhando estrelas.

Puro como um anjo, amaria todas eternamente — uma por vez. Com delicadeza, com doçura, com inocência. Entusiasmado, como se cada fosse única... Como se no mundo não houvesse mais nada. Todas as noites, sem pressa alguma, passaria cremes e encantos no seu corpo, falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir. Ao som de Vangelis, velaria por um tempo o sono delas, e de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, cobriria seu corpo com o resto de luar que ainda houvesse.

— E sairia em silêncio.

Felino, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas, e sorrindo iria embora.

Enfim, se eu fosse Deus, não mais cuidaria do universo, nem dessas coisinhas banais. Não ficaria controlando o destino das pessoas, o tempo, a pressa, a hora de chegar, o átomo, as ondas do mar, o caminho dos planetas, os genes, o cotidiano, a Internet, o infinito, a geografia...

Não!

Eu somente iria amar as mulheres.

Como elas merecem — e como nunca foram amadas.

Só isso, definitivamente.

Nada mais, nada mais.”




Edson Marques


do livro SOLIDÃO A MIL - página 368




http://solidaoamil.blogspot.com/

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