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sábado, 15 de janeiro de 2022

Igreja do Bomfim

 O VERDADEIRO NOME DA IGREJA DO BOMFIM

Quando este blog foi criado, afirmamos que as informações nele contidas seriam fruto de pesquisas em diversas fontes e conhecimento do lugar. Moramos muitos anos na Cidade Baixa, entre infância no Canta Galo e juventude em Itapagipe.

Não fosse a experiência advinda dessa vivência, seria impossível ou pouca produtiva a ação da própria pesquisa. Ou levaríamos anos para realizá-la ou a faríamos de forma pouco convincente.

O fato a seguir é um exemplo do que estamos afirmando acima. Em nossas “andanças” por Itapagipe descobrimos diversas placas indicativas de trânsito com o nome Bomfim com “m”.


Bomfim com "M"

Um evidente erro de gramática. “Antes de F não se põe M”. Mas aí está a placa da Prefeitura. Bem no Largo de Roma. Têm outras por toda Itapagipe, indicando o caminho do Bonfim. Tem uma na Praia do Bugari. Têm mais duas bem próximas da Colina: uma no final da Avenida Dendezeiros do Bonfim e outra no final da Rua da Imperatriz, quase esquina com a Baixa do Bonfim. Todas indicam Bomfim com “m”.


Resultado: malho na Prefeitura. Como se faz uma coisa desta? Inclusive ela própria se contradiz, quando na placa indicativa do nome da Avenida Dendezeiros está lá escrito Bonfim com “n”. Avenida Dendezeiros do Bonfim.


Mas será que está errado mesmo? Será que o nome do Santo é com M e não com N. Foram feitas pesquisas de todos os lados, consulta e surpresa, o verdadeiro nome do Santo é Senhor Bom Jesus do Bomfim. A imagem foi trazida de Portugal pelo militar Teodósio Rodrigues de Farias. Ela é de Setubal naquele País e lá o santo chama-se Bom Jesus do Bomfim de Setubal.


Como surgiu o nome Bomfim lá em Portugal. Diz-se que a imagem foi encontrada próxima a Setubal (sempre a imagem foi “encontrada” e não “feita”). A partir do seu descobrimento procurou-se dar a mesma um “bom fim”. Ficou sendo Senhor Bom Jesus do Bomfim. Pode ser também o bom fim de todas as coisas, o bom fim da vida ou o bom fim da morte. Que tudo tenha um bom fim, este é o nosso desejo, poderíamos dizer para alguém que persegue um objetivo ou tenta a solução de um problema. (REF: CARVALHO FILHO – 1932).


http://salvadorhistoriacidadebaixa.blogspot.com/2009/10/o-verdadeiro-nome-da-igreja-do-bomfim.html?m=1






Para os que Virão




Para os que Virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente - 
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello

domingo, 13 de setembro de 2020

California - Fire and Ashes - Fogo e Cinzas

Um dia laranja/fogo

Escuro
Sombrio
Triste
Vermelho/Laranja
Dia sem fim
De dor, calor sufocante
Cheira a queimado
Califórnia em chamas


One day orange / fire

Dark
Dingy
Sad
Red / Orange
Endless day
In pain, suffocating heat
Smells like burnt
California on fire

Regina Soares
9/11/20




Cinzas

Na manhã triste e cinza
Cabe à nós levantar o pó
Pode ser o fim do fogo
Ou o começo, indesejado, de outro...
As cinzas são a certeza de que algo acabou
O sacrifício de vidas, alerta, lição!!!
As cinzas enganam, atenção, há sempre outro carnaval depois da quarta feira...


Ashes

In the sad and gray morning
It's up to us to pick up the dust
It could be the end of the fire
Or the unwanted beginning of another ...
Ashes are sure that something is over
The sacrifice of lives, alert, lesson !!!
The ashes are deceiving, attention, there is always another carnival after Wednesday...

Regina Soares
9/13/20

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Hey Jude


 

Caetano Veloso, "o agente desvirilizante e subversivo"

Caetano Veloso diz ainda ser o agente desvirilizante e subversivo preso na ditadura

Tropicalista estrela filme 'Narciso em Férias', em que narra meses vividos no cárcere pelas mãos do regime militar.


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https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/09/caetano-veloso-diz-ainda-ser-o-agente-desvirilizante-e-subversivo-preso-na-ditadura.shtm

'Narciso em Férias' é um mergulho intimista numa experiência de horror

Há um momento muito especial de Narciso em Férias. Dá-se quando o entrevistador passa a Caetano Veloso um exemplar da revista Manchete estampando fotos da Terra, tiradas pela primeira missão lunar. O músico pega a revista, tomado pela emoção, e reconhece a foto: "É essa mesmo...", balbucia, lembrando-se de tê-la visto durante sua prisão, em 1969. Não é o único momento de emoção deste longo depoimento intitulado Narciso em Férias, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil (os mesmos diretores de Uma Noite em 67). O filme foi apresentado no Festival de Veneza e pode ser visto na Globoplay.

O depoimento todo é muito comovente e refere-se à experiência de prisão de Caetano Veloso durante a ditadura militar. O título é o mesmo do capítulo do livro de Caetano, Verdade Tropical, no qual relata essa passagem de sua vida.

A prisão reveste-se de uma tonalidade kafkiana, sem que o autor checo de O Processo e Metamorfose seja citado. Caetano conta que os policiais chegaram pela manhã ao seu apartamento, na Avenida São Luis, no centro de São Paulo. Puseram, ele e Gilberto Gil, num camburão e levaram-nos para o Rio, onde foram jogados em celas solitárias.

O aspecto marcante dessa história, digna de Kafka, é os prisioneiros não saberem sequer do que eram acusados, assim como Joseph K., em O Processo. Faz parte da punição o prisioneiro ignorar qual é seu suposto "crime" e não saber quando será interrogado e julgado.

Pela narrativa de Caetano, acompanhamos todo um processo de dissolução de personalidade ocasionado pela prisão. Na solitária, ele começa a imaginar a vida sendo apenas aquilo ali e tudo o mais, a sua existência anterior, a música, os shows, os amigos, os amores, como partes de um sonho. "La vida es sueño", dizia Calderón de la Barca. Mas pode ser um pesadelo também.

Outro momento, mais terrível, é evocado quando já liberto, na Bahia, Caetano vê sua imagem no espelho e não a reconhece. Narciso, privado de espelhos durante o tempo de prisão, leva um susto ao mirar aquela imagem. Não é nem que não se reconheça. O espanto é ainda pior: o que é essa "coisa" aí refletida? Ver-se como objeto, um ser estranho: é quando o processo de dessubjetivação chega ao clímax. Apenas interrompido pela voz do pai, que chega da rua e interpela o filho, com uma exclamação do tipo "o que fizeram com você?" A voz indignada do pai restabelece um eixo mínimo de equilíbrio e a subjetividade renasce. Prato cheio para um psicanalista.

Caetano faz a narrativa de momentos objetivamente muito tensos, como aquele em que, durante uma saída da cela, julgava que ia ser fuzilado. Na verdade, estava sendo conduzido ao barbeiro, para seu alívio. Tanto que "comemora" ser despojado de sua vasta cabeleira da época, apenas pelo fato de continuar vivo. Em outra passagem, conta não ter o que ler em sua cela. Para se distrair, lia um jornal velho deixado no chão. Até que lhe chegam dois livros, O Bebê de Rosemary, de Ira Levin, e O Estrangeiro, de Albert Camus. Ambos de conteúdo bastante inadequado para um prisioneiro. Mesmo assim, eram leituras, um presente do editor Ênio Silveira, detido no mesmo quartel.

Há momentos ternos como quando Caetano evoca um sargento bondoso, que deixava a então mulher do músico, Dedé, entrar na cela e ficava vigiando no corredor para ver se não chegava alguém. Ou os momentos de música, quando Caetano evoca a canção dos Beatles Hey Jude como aquela que sinalizava que algo de bom ia acontecer, até mesmo sua libertação. Irene, feita em homenagem à sua irmã mais nova, dona de um sorriso maravilhoso. E Terra, inspirada na fotografia de Manchete, composta apenas dez anos depois da sua libertação.

No mais, o filme usa um despojamento franciscano para extrair o máximo da potência narrativa do artista. Caetano fala, contra um fundo neutro, para uma câmera ora próxima ora mais distante. As variações de enquadramento são mínimas. Há pouca música. A fala é eloquente em sua naturalidade. E os silêncios dizem muito, nos momentos em que a emoção trava a palavra. Essa simplicidade de cenário lembra, em alguma coisa, o dispositivo enxuto criado por Eduardo Coutinho, o maravilhoso cineasta de Edifício Máster e Jogo de Cena. Dispositivo minimalista, uma cadeira, um cenário neutro, um interlocutor, para que a subjetividade de quem fala possa emergir em concentração máxima. E atingir o espectador no centro de sua sensibilidade.

Narciso em Férias é um mergulho intimista numa experiência de horror vivida meio século antes. O horror marca. "Uma vez que você foi preso, você fica para sempre preso", lhe disse um amigo, o multiartista baiano Rogério Duarte. Evoca não apenas esse mergulho do seu personagem no horror, mas é testemunho político de um tempo em que era possível buscar uma pessoa em sua casa pela manhã, levá-la para qualquer lugar, sem justificativa, sem qualquer garantia, e fazer dela o que bem se quisesse, sem acesso a um advogado ou direito a um habeas corpus. Sem que ela soubesse sequer do que era acusada. Milhares de outros brasileiros foram expostos a essa condição. Muitos não sobreviveram para contar o que passaram.

No fim, Caetano fica sabendo o motivo pífio da detenção. Havia sido acusado, pelo apresentador da TV Record Randal Juliano, de, num show, haver parodiado de forma desrespeitosa o Hino Nacional Brasileiro. A denúncia, além de ridícula, era infundada. Mas o que isso importava no Brasil do Ato Institucional nº 5, pelo qual as garantias individuais haviam sido abolidas?

São apenas velhas e lamentáveis lembranças? Infelizmente não. O filme chega ao público em momento tristemente propício. Em seu discurso de 7 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro voltou a elogiar o golpe militar de 1964, que instaurou uma ditadura de 21 anos no País. A democracia vê-se de novo atacada e corroída por dentro. Grupos radicais pedem a volta da ditadura, e mesmo a edição de um novo Ato nº5. O País está doente e parece esquecido das lições do seu trágico passado. Em chave de emoção e lucidez, Narciso em Férias é uma forte advertência para não repetirmos como farsa o que já vivemos como tragédia nacional.

https://www.blogger.com/blog/post/edit/25228608581732116/4109222125670690947

 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

segunda-feira, 25 de maio de 2020

10 Albums that influenced my LIFE



Gabriela Vallejos-Permenter wants me to post 10 influential Albums in my life, 10 albums, 1 a day, that I have Loved through my Lifetime.



My Album #1 is Songs in the Key of Life by Stevie Wonder



My Album #2 is Chico Buarque de Hollanda the first album by Brazilian musician Chico Buarque, it was released in 1966.



My Album #3 is My Album #3. Caetano Veloso: 1968.


My Album #4. Chega de Saudade released in 1959 is the debut album by Brazilian musician João Gilberto and is often credited as the first bossa nova album. Also Brasil and Amoroso (impossible to choose one, here are three as an example)




My Album #5. Gilberto Gil (Frevo Rasgado)(Philips LP, 1968) and, as a bonus, Acústico MTV - Gilberto Gil DVD,






My Album #6: HAIR - Original Soundtrack Recording and the movie HAIR, an American Tribal Love-Rock Musical



My Album #7 is a double tribute to Elvis Presley & Billie Holiday - two iconic stars, each on their own “Bigger than Life” stardom!!






My Album #8 is Abbey Road by The Beatles


My Album #9 is Let It Bleed by The Rolling Stones



My Album #10 (another double tribute to 2 great singers from Brazil)
Gal tropical by Gal Costa
Álibi and Mel by Maria Bethânia





GRATITUDE GRATIDÃO

Gabriela Vallejos-Permenter

Thank You, Gabee, for the invitation and opportunity to express through music my gratitude for life!!!
MUSIC has been the light that illuminates my path as I walk, day by day, in this enigmatic roller coaster called LIFE. I came from a Family and a Country where music is valorized as one of our highest assets culturally and I have instilled in You and your Brother the love for it!!!
Now, You’d ask, how did my choices of these 10+ albums have influenced my life?

1. Songs in the Key of Life: discovering USA in its most expressive beauty!

2. Chico Buarque de Hollanda:

end of childhood and beginning of adolescence with loving guidance!

3. Caetano Veloso: Revolutionary happiness , Alegria Alegria Tropicalista!!


4. Chega de Saudade, Brasil and Amoroso: longing for my Country, Brasil, with loving understanding that it was with me no matter where I was!!


5. Gilberto Gil: My Master, socially, culturally, politically!!


6. HAIR: living in peace and harmony with the planet and my fellow companions without armed war!! No Violence!!

7. ELVIS & BILLIE HOLIDAY - all the best love can give you, to live passionately!!

8. Abbey Road: more then a street, a World of Music!!

9. The Roling Stones: REBELLION

10. Gal & Bethânia: Women Power with Grace!!

Thank You, my dearest, child, woman, partner in crime!!!

I LOVE YOU


GRATIDÃO GRATIDÃO

Gabriela Vallejos-Permenter

Obrigado, Gabee, pelo convite e pela oportunidade de expressar através da música minha gratidão pela vida !!!
MÚSICA tem sido a luz que ilumina meu caminho enquanto ando, dia a dia, nesta montanha-russa enigmática chamada VIDA. Eu vim de uma Família e um País onde a música é valorizada como um dos nossos maiores bens culturais e instalei em Você e seu Irmão o amor por ela !!!

Agora, você pergunta: como minhas escolhas desses 10 ou mais álbuns influenciaram minha vida?

1. Canções da Chave da Vida: descobrindo os EUA em sua beleza mais expressiva!

2. Chico Buarque de Hollanda:
fim da infância e início da adolescência com orientação amorosa!

3. Caetano Veloso: Felicidade Revolucionária, Alegria Alegria Tropicalista !!

4. Chega de Saudade, Brasil e Amoroso: saudade do meu país, Brasil, com amoroso entendimento de que ele estava comigo, não importa onde eu estivesse !!


5. Gilberto Gil: Meu mestre, social, culturalmente, politicamente !!

6. HAIR: vivendo em paz e harmonia com o planeta e meus companheiros sem guerra armada!! Sem violencia!!

7. ELVIS & BILLIE HOLIDAY - todo o melhor que o amor pode nos dar para viver apaixonadamente!!

8. Abbey Road: mais do que uma rua, um mundo da música !!

9. Os Roling Stones: REBELIÃO

10. Gal & Bethânia: poder das mulheres com graça!!

Obrigado, minha querida, criança, mulher, parceira no crime!!!

EU TE AMO









segunda-feira, 4 de maio de 2020

Aldir Blanc



 Descanse em Paz 
seu corpo cansado de guerra, mas, suas músicas, suas palavras, ecoarão para sempre












quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Tem muita “religião” no meu samba?!



Apesar de ter tido uma formação religiosa de berço cristã, Católica, frequentado colégio católico até o ensino médio, de mãe devota e pai ateu, eu me separei da religião, como instituição, há muito tempo e cada vez mais!!!

Totalmente a favor do Estado laico, a manutenção de um equilíbrio entre liberdade de crença e imparcialidade do Estado em relação à religião. Um Estado que respeita a diversidade de crença existente dentro da população sem permitir a interferência de correntes religiosas em matérias sociopolíticas e culturais.
Assim sendo, cresci com a mente aberta para diferentes manifestações religiosas, mais pelo aspecto cultural e social que “divino” ou litúrgico e me apaixonei pelos cultos afros/brasileiros que se tornaram o retrato lúdico e espiritual da Bahia onde cresci...
Acho tudo lindo nessa manifestação de uma fé ligada às raizes da terra, culto dirigido a forças da natureza personificadas na forma ancestrais divinizados: Orixás...
Tudo isso para dizer o que senti ontem assistindo o desfile das escolas de samba especias do Rio de Janeiro que vieram carregadas de sentimentos religiosos e suas interpretações deles.
Sei que o momento que vive o Brasil é de total desrespeito ao laicismo e de abusos de todas as normas que regulam um Estado de direito, provocando, da comunidade, um grito de BASTA à descriminação e ao racismo a que está submetida grande parte da população, e daí essa explosão e vontade de explicar ou reinterpretar crenças religiosas, adequando o dogma aos conflitos que realmente vivem!!!
Na Escola de Samba da Mangueira, com o enredo A Verdade Vos Fará Livre, o carnavalesco Leandro Vieira imagina como seria se Jesus Cristo retornasse nos dias de hoje, vindo do morro da Mangueira. No samba-enredo, os compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo lembram a origem humilde de Jesus e protestam contra o extermínio de pessoas nas comunidades...


Assim começa o texto de apresentação do samba-enredo da Mangueira em 2020, escrito por Leandro Vieira, que dá aos jurados e ao público uma ideia do que esperar do desfile da agremiação:


“Nasceu pobre e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular. Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância.”


(Entenda a letra do samba-enredo de 2020 da Mangueira

Por Renata Arruda)


https://www.google.com/…/amp.l…/blog/samba-enredo-mangueira/


Acredito em todas as formas de manifestação artística para interpretar um momento histórico!!!

Viva a MANGUEIRA , VIRADOURO, GRANDE RIO, que trouxeram sua religião para o meu samba!!!



















segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A HORA DO PORTO DA BARRA

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Anos 70 Bahia – Episódio 1

“ Como diz a fotógrafa Eva Cristina, a Evinha, o Porto da Barra era o start, onde tudo começava, todos se encontravam e sabiam o que ia rolar na cidade. A resenha era feita olhando aquela enseada cheia de barcos de pesca, com uma água de um azul transparente, boa para nadar, mergulhar ou simplesmente ficar de bobeira. Dali, arrancadas para Pituaçu, Praia dos Artistas, Stella Maris e Arembepe. O tempo era grande e dava para fazer muitas coisas. No Porto da “barra limpa” se sabia das notícias.

Foi na areia da praia que Charles Mocó, dono do bar e restaurante Berro d’Água, ficou sabendo que sua foto estava estampada numa revista famosa, junto com Robert De Niro. O ator tinha passado seu aniversário no Berro, anônimo, levado por Heitor Reis. Bom RP que era, Charles ia sempre de mesa em mesa e pousou na de Heitor. Um fotógrafo que estava no local identificou De Niro e, na surdina, clicou a foto, mandando o grande flagrante para a revista.

Paulo Andrade: foto na balaustrada do Porto da Barra em 1976

O escritor e curador Diógenes Moura, na apresentação da obra de um fotógrafo que fez um ensaio sobre o Porto da Barra, escreveu com sutileza, poesia e precisão sobre esse espaço tão vital para a geração setenta. Eis um trecho, intitulado “A lenda do barato total”:

“Na época do lindo sonho delirante, o Porto da Barra, em Salvador, na Bahia, era a casa de todos nós. Uma pequena enseada em forma de lua crescente onde tudo era possível, nos fazia os mais felizes dos mortais, ali, onde alguém poderia sair nu do mar e aquele corpo ao sol era a mais poética das mensagens da natureza. Paz e amor para todos. O último baseado do dia sempre era a preparação para que pudéssemos aplaudir o pôr-do-sol. Foram tantos os personagens inesquecíveis, presentes e imaginários. De Jack Kerouac a Baudelaire. De Jimmy Hendrix a Gibran Khalil Gibran. De Marquinhos Rebu a Raimunda Nonata do Sacramento, a moça pobre do bairro do Curuzu que descia a rampa com seu porte de ébano em direção às areias e de lá voou para as passarelas de Milão e Paris, e voltou Luana de Noailles, a condessa. Os amigos dos amigos eram os nossos amigos e nada fazíamos a não ser viver, viver e viver naquele Porto da Barra. Apenas isso sempre foi muito. Tomávamos mandrix com água de coco para beijarmos a boca vermelha da psicologia no barato total que eram nossos dias. Assim passamos os anos 70 e o início de 1980. Indo e vindo do Porto da Barra, um lugar tão histórico quanto uma um acarajé ou como a mão estendida do poeta Castro Alves, na praça que leva seu nome, à beira da Baía de Todos os Santos...”

Porto anos 70 - foto A Tarde, reproduzida no blog Antiguinho, de Jorge Sartori - com Keit Veloso e Oto

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

FELIZ 2020




Xangô – Orixá da Justiça


Xangô será o orixá regente de 2020, com influência de Iansã e Oxóssi e sob a condução de Oxalá, que, de acordo com o Candomblé, é o pai de todos eles.

Considerado o "Rei da justiça", Xangô é detentor dos trovões, das tempestades e do fogo. Suas cores são o vermelho e o branco. O dia dele é a quarta-feira.

Iansã é a rainha das tempestades, ventanias, raios e morte. Suas cores são o marrom, o vermelho e o rosa. Seu dia é a quarta-feira.

Oxóssi é o Deus caçador. Ele domina a caça, a agricultura, a alimentação e a fartura. A cor dele é o azul turquesa. Seu dia é a quinta-feira.


Xangô, Iansã e Oxóssi recebem o comando do ano de Ogum, que regeu 2019, também sob condução de Oxalá.

O novo ano deve ser marcado por muita justiça, tempestades, revelações e mortes, prevê pai William de Oxalá.


(A informação foi divulgada ao G1 pelo Babalorixá William de Oxalá, líder do terreiro Ilê Axé Opô Babá Lufan Demy, localizado no bairro de São Cristóvão, em Salvador, pela Ialorixá Jaciara Ribeiro, do Terreiro Axé Abassá de Ogum, que fica em Itapuã, e pela Ialorixá Judiara Freitas, do Terreiro Ilê Axé Iyami, em Dias D'ávila.)

"O ano vai ter muita justiça. Tanto para o bem quanto para o mal. Vai ter também muita tempestade, raio. Muita perda".



Astros


Na astrologia, o regente de 2020 será o sol. Para os adeptos, tecnicamente o ano só começa entre os dias 21 e 22 de março, que é quando se materializa. No entanto, a virada do dia 31 para 1º já conta para entrar em harmonia com o astro.

Como elemento de fogo, o sol deve trazer um ano intenso, com muitas batalhas e também transformações, incluindo na política, prevê a taróloga.

"É um ano de organização. As pessoas têm que se organizar, rever valores, tirar do armário o que não presta. Um ano para você traçar e lutar pelo que você quer"


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Minha Vida Resumida


As regras do jogo ou política, literatura e outras coisas que me afetam






Uma tristeza grande que eu tenho é que eu devo me aposentar mal, mas um tanto de gente que eu gosto, nem isso.
Vivemos em um país que fez uma opção clara pela crueldade, o descompromisso com a vida humana, que escolheu a mediocridade, a violência e a exclusão. Eu tenho dificuldade até de respirar.
Não é só quem elegeram pra presidente – já seria vergonha o bastante – mas todo um projeto sustentado por legislativo, judiciário, governadores e tudo. Driblo a angústia com cerveja, mar e amores, mas tá difícil manter a ginga e o preparo físico que isto demanda.
Ninguém me demove da idéia de que enquanto estivermos atrelados à pauta corrupssaum só perdemos e recuamos. O debate, penso eu, deveria ser sobre projeto de país, de mundo, de futuro, sobre políticas públicas, sobre o papel do Estado, sobre controle social, sobre organização popular. Não estou defendendo o "rouba mas faz" ou achando que se deve ignorar processos ilícitos, mas entender que é para além do punitivismo moralista que estão as questões que transformam estruturas.
Tem aquele best seller do Jeffrey Archer, A Filha Pródiga. É a história filha de um imigrante polonês rico, Florentyna, que decide entrar para a vida pública e vai de congressista até, bom, quem quiser, lê o livro. Tem algumas coisas que me emocionam, que nem quando vejo West Wing ou escuto a Erundina falando. O serviço público, que coisa comovente.
Uma casa é um sumidouro. Agora há torneiras pingando.
É legal ter uma planilha, desde que comecei a usar passei a equilibrar melhor as contas. Facilita porque tenho salário fixo, não posso fazer coisas extras pois dedicação exclusiva. Não vai ter mais, é isso, se vira. Faço a lista das despesas fixas, a projeção daqueles meio variáveis no valor mas constantes na existência e bola pra frente. A desvantagem: é dia 05 e eu sei exatamente pra onde vai cada moeda que ainda tem no banco até a entrada do próximo salário. Não posso nem pedir uma pizza, daqui até fechar a próxima fatura do cartão, o que só acontece dia 05 do mês que vem. Neste ínterim, se não posso pedir pizza que dirá ir a Fortaleza ou me preparar direitinho pra receber família no Carnaval.
Gostaria de ser mais sofisticada mas estou ansiosa pelo retorno dos episódios de Station 19.
Foi uma viagem maravilhosa, meu Tour Sudeste. Rendeu abraços, um delicioso licor, um anjinho de cabeça quebrada, muitas risadas, promessas de reencontro, belezas até onde a vista alcançava - e além. Mas nos 45 do segundo tempo perdi meu kindle. Deixei naquele bolso na frente da poltrona do avião (quem mandou ficar lendo ao invés de dormir e babar, como em toda viagem). Sinto saudades da sensação de ter uns trezentos livros à mão.
Status laboral: abraçando o mundo com as pernas, um passo maior que as pernas, pernas pra que te quero.



Por Luciana Nepomuceno
https://borboletasnosolhos.blogspot.com/

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Prezado amigo Afonsinho


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Se o futebol teve um herói de esquerda, esse cara foi o Afonsinho. Personagem carismático, destemido, engajado, por vezes quase quixotesco, o rebelde meia do Botafogo ocupou um lugar muito especial no imaginário coletivo do Brasil dos anos 70, um país ansioso por transformações sociais e em busca da tão sonhada abertura política. Ele foi o primeiro líder profissional das estrelas dos gramados a lutar pelo seus direitos, uma luta pela qual pagou um preço caro, mas que, como ele mesmo não se cansa da dizer, valeu a pena.
Afonsinho dentro de campo era um gênio, no toque de bola e no drible, fora dela o gênio foi cassado, por suas escolhas não serem do agrado dos generais e dos cartolas de então.
Infelizmente o meio campista nunca foi convocado para a seleção Brasileira, o que se justifica pelo fato de suas posturas serem de confronto ao regime militar e a estrutura do futebol nas décadas de 70 e 80 do século XX.
Afonso Celso Garcia Reis, jogador, médico, musicista, boêmio, viveu até sua adolescência em Jaú, cidade do interior de São Paulo. No início da década de 60 ingressou nas divisões de base do XV de Jaú e em seguida, foi jogar no Botafogo Carioca.
O Botafogo, que ele tanto amou, não foi capaz de retribuir tal sentimento. Nos anos 70, nem mesmo o futebol escapou da ditadura militar. Eram os tempos dos campeonatos inchados para atender aos interesses de ''integração nacional''. Torneios que, no final daquela década, chegaram a ter quase cem clubes. Aonde a Arena vai mal, põe um time no campeonato nacional. Aonde a Arena vai bem, põe um também, era o lema da CBD. Por alguma razão insondável, os militares não gostam de barba e cabelo comprido. Afonsinho sabia disso, claro. Mas, como não jogava para um regimento e sim para um time de futebol, achou que poderia cultivar tranqüilamente seus longos cabelos e uma barba de fazer inveja a qualquer companheiro da época. Ledo engano.
Barrado no Botafogo em 1971, até de treinar, por se recusar a obedecer as ordens dos dirigentes do clube que o obrigavam a cortar o cabelo e a barba, impondo através desta medida, a cultura autoritária e repressora dos ditadores. No Brasil, cabelos e barba comprida, em meado da década de 70, era layout irreverente. Usuários eram confundidos como subversivos ou fora da lei.
Os conservadores dirigentes do clube acreditavam que ficariam mal com o governo se mantivessem no time aquele ameaçador barba ruiva, por maior que fosse o seu talento. Além disso, crime dos crimes, Afonsinho era letrado. Pior ainda, politizado, diferentemente da maioria dos jogadores monossilábicos, era líder, inteligente, combativo e suas entrevistas eram marcadas por posições firmes. Cursando medicina na faculdade, o articulado barbudo fez amizades com músicos, artistas e intelectuais e passou a liderar movimentos estudantis no campus. Não por acaso, o craque foi eternizado numa canção de Gilberto Gil, "meio-de-campo" cantada pela saudosa Elis Regina ("Prezado amigo Afonsinho; eu continuo aqui mesmo; aperfeiçoando o imperfeito; dando tempo, dando jeito") e virou filme pelas mãos de Osvaldo Caldeira. O documentário Passe Livre foi considerado importantíssimo na consolidação dos circuitos alternativos de cinema no Brasil.
A atitude engajada e as ''más companhias'' acabaram barrando Afonsinho no Botafogo. Para piorar, além de não aproveitar o jogador (sem o jogador, o Botafogo perdia muito da inteligência de seu meio-de-campo. Afonsinho antevia a jogada, mal recebia o passe já acionava rapidamente um companheiro de ataque, diferente de vários meias que tocavam a bola de ladinho, jogava em profundidade e tinha uma belo arremate de meia distância), os cartolas se recusavam a negociá-lo. Foi quando ele decidiu recorrer à Justiça, algo que os jogadores da época não conheciam nem de nome. Numa decisão surpreendente, o TJD concedeu passe livre a Afonsinho, transformando-o no primeiro jogador alforriado do futebol brasileiro. Durante a luta judicial, jogou pelo Olaria, depois de um ano de luta na justiça, recebeu o direito ao passe livre para jogar onde quisesse. A vitória de Afonsinho na Justiça Desportiva nos Anos 70, foi a vitória pelo direito ao trabalho e por liberdade de expressão e de organização.
Esta opção, fez com que a ditadura o perseguisse, sendo fichado no SNI (Serviço Nacional de Informações), como subversivo e comunista. E mais que isto, em um período de terror e do cala boca, questionar o sistema futebolístico de então, era bater de frente com os militares. No entanto nada o impediu de continuar lutando por justiça e democracia.
As pressões do governo militar impediram que ele obtivesse um bom contrato. Ainda assim, ele que havia jogado com Garrincha no Botafogo foi jogar no Santos de Pelé antes de perambular por vários clubes como: Vasco, Flamengo, Atlético Mineiro, voltou ao XV de Jaú e encerrou a carreira em 1982, aos 35 anos de idade, no clube que por pouco não o lançou, o Fluminense.
Como os bons lutadores são aqueles que continuam até o fim, Afonsinho jamais deixou de se empenhar pelas causas sociais. Hoje exerce a profissão para a qual se formou. Depois de ver e ouvir tanta sandice no futebol, foi trabalhar como médico-psiquiatra do Instituto Pinel, onde realiza um trabalho de esporte, recreação e lazer como complemento do tratamento psiquiátrico, visando a combater a estigmatização dos deficientes mentais. Quem conviveu com tantos cartolas deve tirar isso de letra...
Além disso, o ainda barbudo, mas agora com cabelos ralos e grisalhos, comanda um projeto que promove a assistência a crianças carentes através do futebol. A escolinha do Afonsinho fica atualmente na escola Tia Ciata, entre o Terreirão do Samba e o edifício Balança Mas Não Cai. Ao seu lado no projeto, sugestivamente batizado de Ex-Cola, estão os antigos companheiros de Botafogo Nei Conceição e Orlando Vovô.
Muita gente esteve envolvida com a Ditadura, muita gente foi vítima da Ditadura, mas só um brasileiro venceu a Ditadura e este homem foi, Afonsinho.
Como o Navegante Negro do Aldir Blanc, aquele que tinha por monumento as pedras pisadas do cais, Afonsinho não colheu todas as glórias que um craque como ele poderia colher. Mas obteve uma glória que poucos jogadores obtiveram na carreira: o respeito como cidadão e líder. Em meio a tantos jogadores que se calaram, Afonsinho teve a coragem de lutar, ainda mais... naquela época.

fonte: arquivos do Jornal do Brasil


Plínio Sgarbi
Enviado por Plínio Sgarbi em 26/10/2005
Código do texto: T63946 
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Meio de Campo

Composição de Gilberto Gil

Prezado amigo afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé nem nada
Se muito for, eu sou tostão
Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

COMEÇO PARA UMA HISTÓRIA SEM FIM



Como uma foto, um porteiro e um livro de registros complicaram ainda mais a investigação do caso Marielle


ALLAN DE ABREU, MALU GASPAR, THAIS BILENKY E FERNANDA DA ESCÓSSIA
06nov2019



ILUSTRAÇÃO DE PAULA CARDOSO


Em 22 de janeiro de 2019, o celular do ex-policial militar Ronnie Lessa piscou: surgiu na tela uma foto do livro de visitas ao condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, no Rio, onde ele morava. Lessa estava em liberdade, mas já era suspeito de matar a vereadora carioca Marielle Franco, em 14 de março do ano anterior. A foto no celular, enviada pela mulher de Lessa, Elaine, mostra um registro manuscrito de que, na tarde do fatídico 14 de março, Élcio de Queiroz, também acusado pelo assassinato de Marielle, estivera no condomínio e pedira na portaria para ir à casa 58, onde morava o então deputado federal Jair Bolsonaro. A imagem poderia ser importante para a defesa da dupla Lessa/Queiroz, pois contradiz os termos da acusação do Ministério Público, segundo a qual quem recebeu a visita de Queiroz naquela tarde foi Ronnie Lessa. Ou seja, os promotores sustentam que o visitante foi à casa 65/66, a casa de Lessa. De lá, segundo a denúncia, os dois saíram para matar Marielle. O conteúdo da mensagem enviada por Elaine ao marido tumultuaria a já tumultuada investigação do caso Marielle.
Nesse meio tempo, porém, a foto com as informações do livro de visitas do condomínio ficou esquecida no telefone de Lessa – até os primeiros dias de outubro, quando as promotoras responsáveis pela investigação do assassinato tomaram conhecimento dela. Lessa e Queiroz sempre haviam negado ter se encontrado no condomínio no dia do crime. A foto reforçava essa versão: segundo a imagem do livro, Queiroz fora visitar Bolsonaro, não o comparsa.

Lessa e Queiroz foram presos em março deste ano, acusados pelas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes. Por que demorou tanto tempo para as promotoras tomarem conhecimento da foto? Porque os peritos da Polícia Civil levaram sete meses – entre março de 2019, quando o telefone foi apreendido, e outubro – para conseguirem quebrar a senha do celular de Lessa. No dia 1º de outubro, a TV Globo teve acesso ao livro de registro de entradas e saídas do condomínio Vivendas da Barra, dando início a uma investigação feita pelos repórteres da emissora, segundo nota do diretor-geral de jornalismo da Globo, Ali Kamel, divulgada esta semana. Ao ser levada ao ar pela emissora, 28 dias depois, a investigação dos repórteres sobre quem Élcio Queiroz fora visitar naquele 14 de março traria ainda mais dúvidas sobre um inquérito policial que já colecionava mais perguntas do que respostas.

No dia 4 de outubro, Lessa e Queiroz mudaram suas versões pela primeira vez desde que foram presos e acusados pelo crime, em março de 2019. Admitiram, em audiência judicial, que estiveram juntos no dia do assassinato de Marielle, no Vivendas da Barra, e que, de lá, saíram para assistir pela tevê ao jogo do Flamengo contra o Emelec do Equador, num bar próximo. Continuaram a negar, porém, a autoria do crime. A reportagem da piauí assistiu aos depoimentos de Lessa e Queiroz, concedidos por videoconferência do presídio federal de Porto Velho, ao juiz Gustavo Gomes Kalil. Mais magros, eles demonstraram segurança nas respostas ao juiz. Ao final, Lessa mandou um beijo para a advogada, que assistia ao depoimento no Rio.

Estimulado pela foto do livro de visitas do condomínio encontrada no telefone de Lessa, o Ministério Público obteve autorização judicial e apreendeu o livro original da portaria do Vivendas da Barra no dia 5 de outubro. Dois dias mais tarde, o síndico do condomínio entregou voluntariamente à polícia, em um CD-ROM, as gravações das conversas mantidas entre a portaria e as casas dos moradores entre janeiro e março de 2018. Naquele mesmo 7 de outubro, o porteiro responsável pela anotação do dia 14 de março de 2018 foi ouvido pela primeira vez pela Polícia Civil e repetiu o que anotou: Queiroz procurou por “seu Jair” na casa 58, e o “seu Jair” atendeu. Indagado novamente no dia 9, o porteiro reiterou o depoimento anterior. Naquele mesmo dia, o governador do Rio, Wilson Witzel, encontrou-se com Bolsonaro durante uma festa de aniversário em Brasília e, segundo o presidente, disse a ele que seu nome fora citado nas investigações do caso Marielle. Witzel nega.

No dia seguinte, 10, o procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussem, e a promotora do caso, Simone Sibilio do Nascimento, levaram o caso ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, onde tramitaria eventual investigação contra o presidente da República. Segundo nota encaminhada à piauí pela assessoria do Ministério Público, isso foi feito porque, “a partir do momento em que foi citada uma autoridade com foro de prerrogativa de função, nenhuma diligência que tangencie o depoimento do porteiro pode ser adotada até a manifestação do STF”.

A versão de que um porteiro do condomínio citara Bolsonaro, levando o caso ao Supremo, começou a se espalhar pelas redações. Segundo Kamel, no meio da apuração, “uma fonte absolutamente próxima da família do presidente Jair Bolsonaro procurou a emissora para dizer que ia estourar uma grande bomba”, porque a investigação esbarrara num personagem com foro privilegiado. “Por que uma fonte tão próxima ao presidente nos contava algo que era prejudicial ao presidente? Dias depois, a mesma fonte perguntava: A matéria não vai sair?”, questiona Kamel na nota.

Em 29 de outubro, o Jornal Nacional, da Rede Globo, tornou público o conteúdo do depoimento de um dos porteiros do condomínio à Polícia Civil e ao Ministério Público. A reportagem destacou que, naquele 14 de março, dia do assassinato de Marielle, Bolsonaro não estava no Rio, mas em Brasília.

Em 30 de outubro, Bolsonaro atingiu seu recorde diário de menções no Twitter durante o mandato presidencial, 1,6 milhão. Naquela manhã, como reação à reportagem do JN, o vereador Carlos Bolsonaro divulgou dois vídeos, o primeiro às 6h42 e o segundo às 9h26, ambos exibindo a tela do computador da administração do condomínio, com a relação de ligações telefônicas feitas da portaria do Vivendas da Barra. No primeiro vídeo, o áudio exibido confere com a duração em segundos que consta no nome do arquivo, conforme conclui perito aposentado da Polícia Civil do Distrito Federal ouvido pela piauí. Nele, Carlos toca o áudio da chamada entre a portaria e a casa de Ronnie Lessa, autorizando a entrada de Queiroz no dia 14 de março (https://twitter.com/CarlosBolsonaro/status/1189537947881746442).

Já o segundo vídeo, com áudios feitos naquela mesma tarde da portaria para a casa 58 (de Jair Bolsonaro) e a 36 (de Carlos), é inconclusivo, porque Carlos editou o trecho inicial dos áudios, que não conferem com a duração que consta no nome dos arquivos (https://twitter.com/CarlosBolsonaro/status/1189579300116279296).

O áudio com a chamada para a casa 58 tem 11 segundos, quando a planilha informa que demorou 29; e o áudio da ligação para a casa 36 tem 12 segundos, quando, segundo a planilha, deveria ter 27. Para o perito aposentado, há “incongruência” no vídeo. Mas ele ressalta que uma análise definitiva só é possível a partir da perícia do computador da portaria.

Procurado pela piauí, o Ministério Público não se pronunciou sobre os vídeos de Carlos Bolsonaro. Em nota, a assessoria do órgão informou apenas que “qualquer questão envolvendo o processo […] pode ser sanada em consulta aos autos junto ao Tribunal de Justiça”. O gerente do condomínio não foi localizado.

Os vídeos de Carlos Bolsonaro, o depoimento do porteiro, a demora em analisar os áudios das ligações da portaria e por que a foto do livro de visitas do condomínio foi parar no celular de Ronnie Lessa são alguns dos pontos obscuros que, nos últimos dias, complicaram a investigação sobre a morte de Marielle Franco e colocaram na berlinda a atuação do Ministério Público.

Somente depois que a Rede Globo divulgou o caso, no dia 29, é que o Ministério Público do Rio pediu perícia nas gravações que constam do CD-ROM entregues à polícia pelo condomínio – mas não no computador do Vivendas da Barra, onde constam as gravações originais. Com base no parecer da perícia, as promotoras do caso, Carmen Eliza Bastos de Carvalho, Simone Sibilio do Nascimento e Letícia Emile Alqueres Petriz, em entrevista coletiva, desqualificaram o depoimento do porteiro, dizendo que ele mentiu ao afirmar que Queiroz procurou por Jair Bolsonaro na portaria – segundo os peritos, os áudios mostram que foi Lessa quem atendeu à chamada do porteiro naquele dia.

No entanto, ao deixar de analisar os arquivos do computador do condomínio, a perícia do Ministério Público ignorou a hipótese de algum arquivo ter sido apagado ou renomeado antes de ser entregue à polícia. O presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, tumultuou ainda mais o caso ao anunciar no sábado, 2 de novembro, que pegou os áudios da portaria antes que os arquivos fossem “adulterados”.

Para tornar o caso ainda mais complexo, o porteiro que anunciou a presença de Élcio Queiroz para Ronnie Lessa naquele 14 de março de 2018 não é o mesmo que deu depoimento implicando Bolsonaro. Revelada pelo jornalista Lauro Jardim em O Globo, a informação coincide com a dinâmica de funcionamento da portaria, segundo moradores: a cada turno de trabalho, o chefe do serviço é o encarregado de anotar as visitas no livro, enquanto um auxiliar interfona para as casas. Esse segundo porteiro deve ser ouvido pelo Ministério Público nos próximos dias.

Não está claro por que o chefe da portaria – que está de férias e mora na Zona Oeste do Rio, área de atuação da milícia – anotou no livro de visitas que Queiroz ia para a casa 58, se o visitante foi para outra residência. Várias hipóteses são consideradas: 1) o porteiro realmente ouviu isso de Queiroz, e portanto não mentiu; 2) o porteiro se atrapalhou no dia da visita e, para não admitir o erro, citou Bolsonaro no depoimento; 3) o porteiro foi pressionado por pessoas ligadas à milícia a citar Bolsonaro no livro e no depoimento com o objetivo de levar o caso ao Supremo Tribunal Federal, onde a tramitação é mais lenta do que na primeira instância.

Se o porteiro mentiu, ainda não se sabe o motivo. Mas há uma convergência de fatos nos primeiros dias de outubro, quando a foto do livro de visitas, guardada no celular de Lessa, caiu nas mãos da perícia. Foi aí que Lessa e Queiroz mudaram sua versão e admitiram ter se encontrado no Vivendas da Barra no dia do crime. É possível que já soubessem que a foto do livro do condomínio, mesmo com uma anotação questionável, indicaria o contrário e tumultuaria a investigação.

Para as promotoras, o porteiro mentiu. A atuação delas também tem sido criticada e foi contestada internamente no Supremo, já que o foro competente do inquérito que investiga a morte de Marielle é o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, e não o órgão máximo de Justiça do país. Toffoli alertou os membros do Ministério Público sobre isso. A promotoria cometeu ainda um segundo erro ao não informar o procurador-geral da República, Augusto Aras, do caso.

Essa interpretação foi confirmada pelo especialista em direito administrativo Adilson Dallari, professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Elas [promotoras] extravasaram a competência delas, agiram de maneira que não é permitida pelas leis que disciplinam a atuação do Ministério Público”, afirmou Dallari. Por ser, em seu entendimento, uma conduta funcional irregular, o Conselho Superior do Ministério Público poderá abrir um processo administrativo contra os integrantes envolvidos, o que poderia levar a absolvição, advertência, suspensão ou mesmo perda do cargo, a depender da gravidade atribuída aos servidores.

Para o professor, contudo, o mais grave é o vazamento de parte do inquérito sigiloso, que também deveria ser investigado, e os responsáveis, penalizados. Aras arquivou o caso quando este chegou à PGR e desmereceu o depoimento do porteiro que citava Bolsonaro. Nos bastidores do STF, porém, há cautela na interpretação de que o porteiro simplesmente mentiu.

O fato de Carmen Carvalho, uma das promotoras do caso, ter publicado fotos em apoio a Bolsonaro nas redes sociais, durante a última campanha eleitoral, conforme revelou o site The Intercept, trouxe ainda mais dúvidas sobre a conduta do Ministério Público. Carvalho acabou afastada do caso na sexta-feira, 1º de novembro. Para o professor Adilson Dallari, o afastamento “foi prudente, até para tirar o foco, e é medida cautelar recomendável nessas situações”.


https://piaui.folha.uol.com.br/comeco-para-uma-historia-sem-fim/

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Por entre as vírgulas de André Setaro


Cinco anos sem o mestre





Para escrever e contar suas histórias, André Setaro não economizava nas vírgulas e, entre elas, transpareciam detalhes de suas ideias e o seu jeito de ser. Desde que se entendeu por gente, o filho de Dona Luisa passava horas e horas dentro das salas dos cinemas de rua, flanando a pé de um a outro pelos caminhos da Bahia de seus tempos.

Jovem a partir dos anos 60, em plena efervescência cultural e existencial do período que ele gostava de comparar ao Século de Péricles, o menino André foi tomado por um turbilhão de paixões que tumultuavam suas emoções.

Mas naqueles anos dourados e rebeldes, enfurnado numa sala de cinema, André Setaro conseguiu viver realmente o espírito daquele tempo?

Era o auge da beatlemania, que enlouquecia de primeira a quem batia os ouvidos naquela sonoridade que parecia ter vindo de outro planeta. Enquanto isso, o ginasial André ouvia orquestrações de trilha sonora dentro de uma sala escura.

É um boko-moko mesmo.

Durante a época de ouro do nosso futebol, com craques em todas as equipes, resultando na formação dos escretes que fizeram o Brasil vencer três das quatro Copas do Mundo que disputou no período, o sedentário Setaro não trocava a poltrona do Cine Guarani pela arquibancada da velha Fonte Nova.

Eis um chato de galocha.

No epicentro do terremoto político que convulsionou o país, levando à luta desesperada jovens que se doaram de maneira alucinadamente corajosa, ele nem sequer atendeu aos convites que recebeu para frequentar aparelhos?

Só pode ser alienado!

Mas é preciso calma para falar de André Setaro. A mesma que ele teria para detonar essas provocações. Ele não trocou uma paixão pelas outras. Ao contrário, entre as suas vírgulas, estavam lá todas elas.

Não foi grudado numa jukebox, mas dentro da sala escura com uma tela brilhante, que a febre da beatlemania esquentou sua adolescência. Assistindo A Hard Day’s Night no meio de uma plateia ensandecida pelos reis do iê, iê, iê, o adolescente André vibrou até com o barulho do público, que reagia em total sinergia com o que via na tela.

Era na poltrona do cinema, e não na geral, arquibancada, cadeira ou no xaréu que o orgulhoso levantador de copos André Setaro conhecia o que de melhor havia nos gramados tupiniquins. O obrigatório cinejornal Canal 100 foi palco majestoso para o futebol brasileiro desfilar em ângulos e closes que deram um tom renascentista aos lances dos nossos maiores craques, sempre ao som marcante de Na cadência do Samba. Por conta disso, e só dessa vez, sabia os nomes dos jogadores que foram a campo na Copa e pôde assistir com sua turma o tri de 70, sonhando em transformar a Jules Rimet numa tulipa de chopp na hora da comemoração.

E quanto à política dos rebeldes anos de chumbo? Época de filmes como A Batalha de Argel, Soy Cuba, Terra em Transe, A Chinesa, ou ainda os vários de Costa-Gavras. Ah, já sei, ele assistiu a todos esses no cinema. Sim, assistiu, mas não é só isso.

Em 1971, estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, André e seus colegas fizeram um enorme esforço para conseguir trazer a Salvador, por avião, as latas com uma cópia de Cidadão Kane, seu filme preferido.

Para exibi-lo na faculdade, precisariam que a obra estivesse liberada pela censura federal e, ainda assim, que recebesse o aval da direção da unidade. Um simples não do diretor, ou a falta do certificado de censura, jogaria por terra o trabalho que fizeram por meio do diretório acadêmico para arrecadar o dinheiro e concretizar a aventura.

Então, para não serem derrotados pela burocracia autoritária, exibiram o filme em sessão para os alunos, sem consulta à direção. O problema é que nessa época as universidades brasileiras eram um campo minado de arapongas infiltrados, disfarçados de alunos. A ditadura identificava os estudantes como potenciais adversários do regime, drenando agentes e recursos públicos para persegui-los.

Não se sabe ao certo, mas foi provavelmente algum destes arapongas que acionou a Polícia Federal. O camburão da PF entrou no campus do Canela e os agentes foram logo perguntando quem era o responsável por aquela sessão. Setaro não era o único, mas se acusou sozinho, sendo levado imediatamente para dar um divertido rolé com os simpáticos defensores da segurança nacional.

Por conta da prisão, o imberbe André Setaro foi obrigado a dar sua primeira aula de cinema, explicando o tão necessário específico fílmico ao delegado, que não estava interessado no tema.

— Você é comunista?

O cinéfilo subversivo negou.

— Estudante é tudo comunista!

O chefe da PF bradou. Injuriado com o caso, acusou a tudo e a todos de estarem a serviço de Moscou, incluindo o diretor do filme, que era também o ator principal.

— Delegado, o senhor sabe quem é Orson Welles?

O temido federal não sabia e se enfureceu com a pergunta. O jovem André encarou a repressão a seu modo, evidenciando a ignorância enciclopédica dos criminosos de estado.

Um homem e suas circunstâncias

Em Setaro, não eram só as vírgulas que tinham função essencial: o silêncio também. Sua fala era pausada e suas pausas valiam como falas. Seu timing era desconcertante. Os gestos lentos, quase coreografados, compunham a mise-en-scène. O indefectível avatar formado por óculos escuros, barba branca e calça jeans realçava seu carisma. Mas a marca de sua personalidade idiossincrática pode ser melhor definida pelo jeito sarcástico e afável, uma combinação raríssima.

O cigarro foi seu enfumaçado melhor amigo. Amizade que cabia no bolso da camisa, mas que ele já teve que esconder na meia para que o estoque não fosse comprometido pelos mais diversos pedidos. A cerveja, selo de qualidade de sua boemia, era bebida sempre aos montes de garrafas, estivesse ou não acompanhado.

“Sem beber a vida não vale a pena”, dizia.

A paixão eterna por Brigitte Bardot foi maior até do que o tesão por Kim Novak, Catherine Deneuve e Helena Ignez. Crítico feroz do casamento, casou-se três vezes e ainda pediu a mão de outras tantas moças.

Mas o nó górdio de André Setaro estava em seu caprichoso temperamento, sempre contraditório. Se tinha azul, ele queria verde. Se tinha verde, ele queria azul. Nadava contra a corrente em grandes temas e também em questões corriqueiras. Costumava chegar aos seus compromissos com uma antecedência que nem os britânicos recomendam, o que lhe fazia esperar sozinho, por um bom tempo, pelos atrasados de sempre.

Jamais se enganou com ouro de tolo. Formado em Direito, trabalhou na área jurídica de uma grande empreiteira e pegava carona com o próprio dono, mas aquilo não era pra ele. Para o horror de alguns familiares, não viraria o engravatado que planejavam. Persistiu em seu propósito, mesmo sem saber bem qual era exatamente, enquanto ia se tornando demasiadamente André Setaro.

A grandeza de sua extrema simplicidade não fez distinções entre capitães de areia e doutores. Por conta de seu jeito agregador, amizades foram feitas entre os que estavam ao seu redor, e que possivelmente não teriam jamais outro elo que não ele. A ironia e o bom humor foram sua reação natural ao mundo. Ria e fazia os outros rirem dele mesmo. Tragicômico, brincava com a própria sorte.

“Sou uma bomba-relógio”, divertia-se, sem mudar os hábitos.

Quando esteve internado, depois de um enfarte, seu quarto era tão frequentado que parecia o de Glauber Rocha. Foi um entra e sai de amigos que extrapolava a privacidade do paciente naquele cativeiro. Mas ele não reclamava e, mesmo preso à cama, fazia sala para harmonizar visitantes tão diferentes que sentiam-se deslocados no pequeno espaço do quarto.

Superou as mais catastróficas previsões a seu respeito, dançando na corda bamba sem dar a mínima para a morte. Mas, nos últimos tempos, já não se incomodava que ela o beijasse. André Setaro fazia bem ao mundo, mas o mundo não lhe fazia mais tão bem. Era adorado por muitos, mas isso não era o bastante.

“Não é a mesma coisa”, dizia ele, comparando o calor de seus afetos.

Por mais que tivesse os de hoje, era os de outrora que queria. O bonde que ele desejava e sonhava já havia passado. Para nós, ao contrário, ele era o bonde que não podíamos deixar passar.

O Cinema, quem diria, já lhe aborrecia. Se estivesse começando a carreira agora, dizia que não se dedicaria à sétima arte. Se fosse jovem neste século XXI, colocaria uma mochila nas costas e sairia por aí.

Como em seu filme preferido, Cidadão Kane, ele tinha o seu Rosebud, mas não materializado em um objeto, e sim pairando em sua nostalgia permanente.

O bar Avalanche, na João das Botas, o mais marcante dos seus tempos de estudante de Direito. O cheiro de ar condicionado do Cine Guarani, a casa de chá da loja Duas Américas, o medo que sentia do Edifício Sulacap, o pé de jambo que gostava de assaltar, a banca de Seu Paranhos, as revistas em quadrinhos trocadas na porta do cinema Casa de Santo Antônio.

Ou a imperícia automobilística que lhe custou um carro. A namorada que levou um fora porque não soube apreciar Cidadão Kane. As 48 horas seguidas que passou bebendo com um amigo, em uma competição etílica que terminou empatada. O armazém da esquina, a que ia sozinho mesmo ainda menino de calça curta. A morte do pai, que o fez se mudar para Salvador. As idas com a mãe à central telefônica pra ligar para o Rio. A casa em Nazaré, a amendoeira do bairro. A farra no cordão de carnaval Os Filhos da Puta, os espetáculos nas Escolas de Teatro e de Dança, no Vila Velha e no Teatro Castro Alves. A porta da livraria Civilização Brasileira. Os tempos de coroinha do Padre Lemos, que lhe fizeram decorar termos em latim. O velho vendedor de fotogramas que admirava.

As aulas de sábado no Colégio Central, filadas para ir ao Guarani, com o Bar Cacique ao lado. E o Tabaris, que nunca conseguiu entrar. A rua sem carros que virava campo para a meninada jogar bola, seus frágeis dedos de criança controlando a pipa colorida e tão bonita de ver no céu, os babas batidos no terreno baldio, os bondes vermelhos em que pongou. Andar, andar e andar conversando com os camaradas e espiando as meninas do Convento do Sagrado Coração de Jesus.

A chuva que pegou no Rio, e se transformou em febre, só para ver um filme, na mesma época em que não deixou o bonde da história passar e participou da belíssima Passeata dos 100 mil. O pedido de demissão da repartição pública depois de assistir um filme de Antonioni. O encontro com James Stewart no Rio de Janeiro, com Roman Polansky e Jack Nicholson no Hotel da Bahia, com Werner Herzog no ICBA e a cantoria com Catherine Deneuve, quando fizeram um breve dueto do tema de Os Guarda-Chuvas do Amor. As aulas e o Clube de Cinema do mestre Walter da Silveira, o assombro com as imagens dentro da sala escura, o deslumbramento com a vida quando ela lhe era permanente novidade.

São muitas histórias! As que vivemos com ele, as que ele contou, as que inventou, as que nem desconfiamos que existiram e as que ainda queríamos que acontecessem.

Ele se foi, mas não é preciso se despedir. Quem teve a sorte de ser amigo de André Setaro sabe que vamos nos lembrar e falar dele por toda a vida.

*Lucas Fróes foi aluno e amigo de André Setaro.
https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=25228608581732116#editor/target=post;postID=4026380998853047406