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sexta-feira, 4 de novembro de 2011




Em teus
pés:
uma vogal acentuada em desejo
e duas consoantes
oscilam
entre o possível sim
e a melancolia do não
RonaldoFranco > Do livro "Eu te amo"

Um poeta da Bahia

Ildásio Tavares

Anos 1968, a Bahia se esgueirava da sombra da ditadura e uma “jeunesse dorée” buscava abrigo e refrigério sob o manto da arte, como alternativa para uma realidade que rejeitava, Uns dedicavam-se às artes plásticas; outros ao cinema, à música popular, à poesia, ao teatro.

Foi nessa época que me aproximei mais de Antonio Lins, o Toninho, unidos pela poesia e pelos festivais de música popular. Temperamento recatado percebi logo que este jovem não era do tipo de fazer estardalhaço, nem de ser o marqueteiro de sua própria obra – desde então, Toninho Lins era mais de guardar as pérolas que recolhia de seu cotidiano de pessoa sensível – quase nada me mostrava de seus poemas ou do que viria a ser letras de sua inúmeras músicas de sucesso.

Nossa aproximação se firmou na casa de seu pai, romancista e presidente da Assembléia Legislativa, Wilson Lins, magnífica figura de ser humano que vivia praticamente numa fazenda no alto do Rio Vermelho, ornamentada de araras, rodeado de amigos, poetas, escritores, cineastas, compositores e o mundo político da Bahia.

Quando a coisa apertou, começou o êxodo. Eu fugi para os Estados Unidos e Toninho Lins foi para São Paulo, pelas mãos de Glauber Rocha e Orlando Senna, em busca de horizontes mais arejados, levando em sua bagagem sua sensibilidade aguçada para confrontar com a dura realidade da paulicéia desvairada.

Toninho Lins guardou seus poemas, do último livro, por muito tempo. Neste último que ora releio “Amores Partidos- Poemas e Canções de Amor”, segunda edição, seu oitavo livro publicado, há poemas que dormitaram durante algum tempo na gaveta, mas que ao saírem para o papel se dispuseram de uma forma depurada e densa.

O poeta sente o tempo todo. Sente o dia a dia. Sente a conjuntura política e social. Sente a realidade urbana. E reage com o compasso sensível do verso que transmigra a realidade existencial para o papel.

Ele voltou à Bahia, assumiu a presidência da Fundação Gregório de Mattos, sacou que cultura não é prioridade de governo algum, se desentendeu com o prefeito João Henrique, mandou todos às favas e retornou a paulicéia, onde é candidatíssimo a uma vaga na Academia de letras, além de ter recebido, da Assembléia Legislativa, o título de cidadão paulista.

Este é meu amigo Toninho Lins, personagem de Jorge Amado, em Tenda dos Milagres, nome de Rua em São Paulo, no Butantã, bairro de classe média, concedido pelo então prefeito Altino Lima, nos anos de 1980.

Toninho Lins não é um espectador complacente das agruras do seu tempo. Ele esta envolvido nele; ele se maquiniza: “Deixa o coração sair pela boca/partir/Deixa o coração parir outros corações/E se abrir feito lata”... Antonio Lins não é destes líricos do intelecto que celebram seus poemas no mais recôndito de seus gabinetes como mero ato masturbatório.

Ele produz poesia como sumo da vida, numa constante extração de som e sentido de momentos vividos em que, como uma lâmpada, ele ilumina estes momentos, traduzindo-os na poesia mais autêntica porque ela é mais que uma poesia escrita Ela é uma poesia vivida. Uma poesia vivida que não despreza o pensamento porque, acima de tudo, pensa a vida.


Antonio Lins

60 anos de trio elétrico

O Carnaval da Bahia é o espelho onde a cidade toda se reflete, se olha, se projeta ao mundo inteiro, se reconhece e se estranha, ano a ano. Herdeiro de muitas ancestralidades, de outros tantos festejos, equilíbrio precário e milagroso entre acordos e tensões, estados de espírito sensorialmente democráticos e espaços de exclusão e exclusividade; afro-latino, afro-barroco, uma possessão que toma conta e devora a cidade.
O Trio Elétrico é a versão eletrificada do carro de Dionísio, a levar em seu rastro a coorte de entusiasmados sátiros, faunos e bacantes, corpos semi-desnudados por abadás e pinturas neo-tribais. Rola hoje, necessariamente, sobre azeitadas estruturas apolíneas, cuidadosamente planejadas, e movimenta poderosas forças econômicas e sociais.
Extraordinário engenho tecno-estético em cima do qual literalmente vêm se configurando os rumos do carnaval baiano, com ecos por micaretas e carnavais de outras cidades, estados, países. Dos anos oitentas para cá, foliões entusiasmados caem no transe de sua magia, mundo afora.
Ao final dos anos quarentas, numa Bahia ainda modorrenta e auto-referente, o radiotécnico Adolfo Antônio Nascimento – o Dodô - violonista nas horas vagas, e o engenheiro Osmar Álvares de Macêdo – o Osmar, exímio tocador de cavaquinho, se encantaram ao ouvir o violão elétrico de Benedito Chaves nos palcos do Tabaris.
Em 1950 o governador Octávio Mangabeira promoveu um pré-momo no trajeto Campo-Grande — Praça da Sé, ao som da orquestra de frevo pernambucana “Os Vassourinhas”, levando a população ao delírio. Estavam lançadas as sólidas bases do duo marketing político e Carnaval.
Uma coisa leva a outra,”tudo se transforma”: Dodô e Osmar amalgamam, então, o frevo, a guitarra elétrica, tudo isso e o céu também. A partir da idéia dos carros de corso, a “dupla elétrica” restaurou um velho Ford Bigode-29 e saiu às ruas, no carnaval do mesmo ano com seus “paus elétricos” ligados aos alto-falantes, com imenso sucesso.
Convidaram Temístocles Aragão , já instalados numa picape Chrysler com duas placas laterais que anunciavam : “O trio elétrico”, patrocinado pela saudosa Fratelli Vita. Tocavam um frevo baiano instrumental.
Com a chegada de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Moraes Moreira, a música do trio passa também a ser cantada, com letras de grande qualidade literária, como as de Antonio Risério, inesquecíveis, sem perder com isso uma gota de popularidade ou animação.
Na tradição antropofágica, o trio segue, fiel ao seu início, na devoração sincrética de novos elementos, acompanhando a evolução do próprio carnaval e as transformações da sociedade baiana. A “cultura afro”, o orgulho em ser negro, movimento que cresceu geometricamente entre a juventude baiana dos anos setentas, foi incorporado tanto do ponto de vista sonoro, com o casamento do frevo com os ijexás, quanto do ponto de vista das artes visuais, em figurinos e decorações. Num corte para os anos oitentas, o Olodum , com seu “Faraó”, encorpa a epítome da música afro de tendência antropológica. Também a partir dos oitentas, com a chegada dos ritmos caribenhos e da lambada, Luiz Caldas e Gerônimo apontam novas direções.
O trio estava definitivamente consolidado como a grande plataforma da música baiana. Ponto de encontro de todas as vertentes e possibilidades estéticas, o palco ambulante de maior poder conclamatório da cidade do Salvador. Dele, tudo é possível dizer. A coisa é como dizer.
Com a capacidade de renovação artística de Carlinhos Brown; a qualidade da antenada Daniela Mercury; a beleza da voz e da própria Ivete, bela e generosa mulher, que lança tantos talentos; Margareth Menezes e seus Mascarados, o borbulhar de Cláudia Leite, a alegria azul do Araketu, o arrastão de entusiasmo do Chiclete, a teatralidade cômica de Lélis, entre tantos outros talentos que fazem o Carnaval da Bahia.
Da fubica ao Chrysler, daí aos pequenos caminhões, a trajetória vertiginosa chega às máquinas futuristas com capacidade para gerar iluminação a uma cidade de 50 mil habitantes. A arte do trio é indissociável de sua técnica. Seu desenvolvimento técnico, indissociável da sua transformação em uma bilionária maquinaria de geração de negócios com cruciais repercussões sociais, éticas e estéticas.
O entusiasmo em excesso, sabemos, é limítrofe à violência. A presença física dos carros e seu poder ilimitado de amplificação sonora, claro, ensejam cuidados urgentes. O mesmo podemos dizer quanto a seu modelo estético e econômico. Há que se preservar manifestações artísticas e culturais de uma trioeletrização compulsória e macaqueada, de baixa qualidade e nenhum significado artístico ou social. Todo grande poder e privilégio gera, ou deveria gerar, grandes responsabilidades, para as quais a sociedade civil, os poderes executivos e legislativos, os artistas, toda sociedade , enfim, e os próprios dirigentes de trios devem estar muito atentos.

Antonio Lins é poeta e jornalista

How old is old, really?

As she celebrates her 60th birthday, Rona Maynard talks about the reality of "old."

By: Rona Maynard       
When I was a hesitant 29, faking poise with a sale-rack suit and a new briefcase, I used to wonder, How old is grown up? I hoped to cross that threshold at 30, but my birthday flew by in a barrage of projects. I noticed one change: a longer to-do list. I still hadn't claimed that era's trophies of success - a secretary and a Dictaphone. I still lived in a house with no living room furniture. So why all the hype about turning 30?
For the better part of three decades, I've been shrugging off milestone birthdays. Forty: eclipsed by my mother's death two weeks earlier. Fifty: an excuse to squeeze a girlfriends' lunch between my morning and afternoon meetings. Then, last October, I turned 60. I marked the day with my first birthday bash since primary school, but I hated to leave my fifties. Oh, what a glorious decade - like the forties, with more confidence and savvy. Let me tell you, there's nothing familiar about 60.

Age: Just a number - or more?

"Age is just a number," people say. I've probably said it myself. But, at 60, I am now twice 30 - the age at which, in the parlance of my flower-power youth, a person can no longer be trusted. At 60, I wonder if I can trust myself to navigate the years ahead with the same emotional tool kit that had seen me through my rapidly dwindling middle age. I face a perplexing, even shocking new question: "How old is old?" Emotionally speaking, this latest birthday has flipped me upside down, swung me by the feet in a stiff wind and deposited me back on terra firma unsure just where I'm bound.
At least I'm in glamorous company: Meryl Streep and Twiggy, also 60, and Helen Mirren, at 64, are putting the sex appeal in sexagenarian. Looking at their life-burnished faces, I'm tempted to believe the rah-rah slogan (more than 400 million Google citations), "60 is the new 40!" But I know better. My bum knee and complaining shoulder won't allow me to forget. Sixty is the boundary between thinking I have forever to do my growing up, and accepting the fact that I don't.
You might think I'd be a full-fledged adult at this advanced age, but I haven't quite lost the goofiness of girlhood. I still reach for the wrong fork at the occasional candlelit table, still replay awkward conversations and realize too late what I should have said. I still walk down busy streets smiling at my own private jokes, while passersby wonder what's got into me. My days belong to me, but won't last forever. Without even trying, I've recaptured a young person's sense of doors about to swing open on discoveries that could change my life. But it's not the same anticipation. In my youth, the adventure was about finding someone: a partner to love me or a mentor to groom me for promotion. Now it's all about finding the newly unencumbered me.
I no longer have a son to raise, a mortgage to pay or a boss to impress. This has been so ever since I quit my job at 55, but there's something about being 60 that compels me to reflect on my life as if it were a treasure I could hold in my hand and examine from every angle. The first thing I see is this: My days belong to me. And they won't stretch on forever, like childhood summer vacations. I've acquired an elder's sense of time, in which decades speed up as if on fast-forward.
Forty seems, if not quite yesterday, then no more than a few birthdays ago. I still remember every detail of the home we sold when I was 40. I can feel the warmth of the polished oak banister under my hand. But here I am at the midpoint between 40 and - can it be? - 80. No question, 80 is old. Old enough to worry that your next "home" might have a logo and a brochure that delicately promises "care when you need it."

Dressing your age - or not

On a good day, seen from afar, I don't look all that different from the 40-year-old me. I can still wear tight jeans and sleeveless tops. I take offence at fashion stories on "dressing for your age" (ever notice how the sixtysomething gets the least appealing outfits?). Not so long ago, a younger man addressed me as "babe." I wasn't 60 then, or even 59, but I've hardly changed, honest. I've been eating broccoli and fish, sweating up a storm in Pilates class, wearing full-strength sunscreen even on the darkest winter days...doing everything I can, short of surgery, to keep the spring in my step and the wrinkles off my face.
In short, I've thought of aging as a manageable process, the cruise control of my later decades - as if, with the right preventive measures, I could coast along the highway of life, smooth-cheeked and taut-bellied, never reaching the dreaded end point, old.
I look at photos of my grandmother at my age or younger and am struck by how ancient she seemed in her prim shawl-collared dresses and orthopaedic shoes. Every night she put her teeth in a glass and gave her face a rubdown with Noxzema from an economy-size jar. How she'd scoff at what I've spent on skincare products sold only by white-coated estheticians, when I could be saving up for my grandkid's education. I feel blessed to have the means and the self-assurance to put myself first from time to time, as Grandma never could.
Yet her generation faced a truth we've willed ourselves to deny: No matter how buff you look at 60, you're headed for one of two fates: You'll either die too soon or you'll grow old. I'm not ready for this.
Perhaps I ought to feel grateful for reaching this age. Five of my friends, all stricken with cancer, didn't live to be 60. The first died in her mid-forties - a shocking fluke, it seemed at the time. Women our age were supposed to be hiking in the Rockies, going back to school, landing our dream jobs and generally becoming our most fulfilled, accomplished selves.
Now scarcely a month goes by when I don't hear of a contemporary stricken with a life-threatening illness, or felled by one. Such news never fails to unnerve me, no matter how slightly I knew the former colleague whose death notice I've just read. The shocker isn't that I could be next, but that time is already dismantling and rebuilding the world as I have known it.

Old women in a youth-obsessed culture

I'm not ready for this. I don't want to be unsexed and unnoticed, as old women are in a culture obsessed with youth. I take it personally when unemployed peers can't even land an interview, much less a job, because they have "too much experience." I cringe at predictions that addled, tottering boomers will soon bankrupt the healthcare system. Hey, pundits! You're talking about me and my friends! Yesterday, we defined the promise of the future. And now you've recast us as the problem?
Way back around my 30th birthday, I drew strength from stories of women achievers, a little older and a lot bolder than I as they forged careers in a man's world. At 60, I look for a different brand of female boldness - the courage to be fully oneself. My current heroine, British memoirist Diana Athill, released her latest memoir at 91. "When you are young a great deal of what you are is created by how you are seen by others, and this often continues to be true even into middle age," she writes. "But once you are old you are beyond all that...."
Athill is wonderfully frank about the diminutions of old age - sore feet, for example. Speaking about one of her last lovers, she observes that sharing painful feet "was almost as important as liking sex, because when you start feeling your age it is comforting to be with someone in the same condition." She has since lost all interest in sex, which perhaps is just as well since she's tethered to a cranky, bedridden partner whose demands never end. But that's my judgment, not hers.
What inspires me about Athill is the pure delight she finds in new pleasures and accomplishments (her dog, her drawing class and, above all, her writing) that continue to expand the boundaries of her life. On top of all this, she has answered the question on my mind: How old is old? Seventy-one, says Athill, with an elder's penchant for emphatic declarations. If she's right, I have 11 more years "within hailing distance of middle age, not safe on its shores, perhaps, but navigating its coastal waters."
Oh well. I've decided I don't give a damn how old is old. You can call my stage of life whatever you want; I'll call it the wisdom years. I've earned the right. Maybe somewhere along the way I will finally grow up.

A internet faz mal ao cérebro?



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

"Essa Pequena" e "Sou eu" - Chico (Bastidores)


Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro

http://www.jardimdasfolhassagradas.com.br/


Estreia nesta sexta-feira, 04, em Salvador, e em mais sete cidades brasileiras, o filme “Jardim das Folhas Sagradas”, primeiro longa-metragem da carreira do baiano Pola Ribeiro. A produção conta a história do bancário Bonfim (Antônio Godi), um homem negro, bem-sucedido e casado com uma mulher branca e evangélica, mas que mantém uma relação homossexual. (continuar lendo:)




Um filme sobre o meio ambiente, preconceito racial e conflitos religiosos



Um filme sobre a espiritualidade, ecologia e conflitos do cotidiano urbano. Jardim das Folhas Sagradas oferece o debate sobre bissexualidade, intolerância religiosa e preconceitos étnicos, ao mesmo tempo em que expõe a intimidade do Candomblé e discute a degradação das áreas verdes nas cidades vitimadas pela especulação imobiliária.

É o resultado de um amplo projeto de pesquisa a respeito da religião afro-brasileira, um olhar revelador da sua intimidade. Parte de um conceito analítico, até crítico, sobre o Candomblé, e revela detalhes de uma crença pouco conhecida além dos círculos da sua existência. É nítida a espiritualidade dos personagens enquanto vivem dramas cotidianos. Aborda, com originalidade, assuntos expostos em O Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres (ambos de Nelson Pereira dos Santos) até Barravento, de Glauber Rocha.

Segundo Pola Ribeiro, uma das metas do filme é trabalhar acerca do mistério que envolve a cidade de Salvador e o Recôncavo baiano, falar da cultura da sua gente negra que, infelizmente, sempre foi vista e tratada com superficialidade. “Cada gesto, cada som, cada traje, comida, conceito e religião. A convivência com um mundo que se protegia nos seus fundamentos e que era ao mesmo tempo tratado como invisível pela mídia e pela sociedade, aguçava os meus sentidos”, afirma o cineasta.

Jardim das Folhas Sagradas traz no elenco excelentes atores baianos, desde nomes conhecidos como João Miguel (Estômago (2007) e Melhor Ator no Festival do Rio 2005 por Cinema, Aspirinas e Urubus  (2005)), aos estreantes no cinema nacional, mas de longa carreira no teatro baiano, a exemplo de Érico Brás (atualmente no quadro fixo do programa Tapas&Beijos, da TV Globo), Harildo Deda e Antônio Godi –  que encarna o protagonista da trama. Temos ainda Evelin Buccheger, Sérgio Guedes e experientes atores do Bando de Teatro Olodum. A surpresa fica por conta das participações especiais das cantoras Mariene de Castro, debutando enquanto atriz, e Virgínia Rodrigues, tida pelo The New York Times como “uma das mais impressionantes cantoras que surgiu no Brasil nos últimos anos”, numa cena particularmente marcante dentro do filme.  

Contradições e conflitos Além de ter um ator negro enquanto protagonista, Jardim das Folhas Sagradas surpreende ao mostrá-lo como um profissional bem sucedido. O ator Antônio Godi vive o bancário Bonfim, casado com Ângela (Evelin Buchegger) –  uma mulher branca e de crença evangélica. Bonfim conserva uma relação homossexual com Castro (João Miguel), mas depois de um acontecimento trágico, bombardeado por sonhos místicos e com a vida de cabeça pra baixo, resolve cumprir uma missão recebida no Candomblé: fundar o terreiro Ilê Axé Opô Ewê (Casa das Folhas Sagradas).

O local é afastado da cidade e apesar de estar em área bastante degradada preserva o contato entre natureza e religião. Porém, a segmentação ecológica enfrenta resistência de setores do próprio Candomblé, já que, segundo a tradição, a maioria das sessões é realizada com o sacrifício de animais – aspecto determinante para que o terreiro permaneça protegido pelos orixás –  e a desobediência a isto traz consequências funestas. Mas é esta a tradição que o moderno terreiro de Bonfim pretende confrontar.

Por meio de diversos conflitos, Bonfim experimentará o sabor do amor e do desprezo, da amizade e da traição, compartilhando o aprendizado da força e sabedoria ancestrais do Candomblé para a superação dos obstáculos, numa Salvador marcada pela expansão e especulação imobiliárias.
 

O Diretor

Jardim das Folhas Sagradas é o primeiro longa-metragem da carreira de Pola Ribeiro, baiano que há muito atua com artes visuais. Segundo o diretor de cinema Bernard Attal, “A discussão social abordada no filme é comum ao negro de Nova York ao de Paris”. O filme teve première nacional no Festival do Rio 2010, com ótima recepção da classe artística e cinematográfica.

Após a exibição no Festival do Rio, diretor e equipe de Jardim das Folhas Sagradas atenderam ao convite da Fundação Palmares e o longa foi exibido na grade de atrações do seminário Qual a Parte Negra da Mídia?, em 4 de novembro de 2010, em Brasília.

Depois, em fevereiro/2011, participou da Seleção Oficial do Festival Panafricano (FESPACO), em Burkina Faso, país sediado na África e que organiza o maior festival sobre cinema negro no

mundo. Em abril deste ano foi exibido no Festival de Filmes Brasileiros de Los Angeles (EUA), de onde saiu laureado com o Prêmio de Melhor Fotografia (do diretor Antônio Luiz Mendes).

Jardim das Folhas Sagradas conta com o patrocínio da ANCINE, Ministério da Cultura- Governo Federal, Petrobrás, Eletrobrás, BNDS, Chesf, Infraero, Banco do Nordeste e do Governo do Estado da Bahia.






Estreias:


A estreia comercial nos cinemas será nas seguintes etapas:


4/ novembro: Salvador, Feira de Santana (BA), Petrolina (PE), Aracajú (SE),

Fortaleza (CE), João Pessoa (PB) Brasília (DF) e Taguantiga (GO).


15/ novembro: Recife (PE).


25/ novembro: Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS) e Vitória (ES), São Paulo e

Guarulhos (SP), e no Rio de Janeiro (RJ). 



http://www.jardimdasfolhassagradas.com/2011/diretor.html

Yes, Nos Temos Banana - Caetano Veloso

huummmmmmmmmm, bolo de banana quentinho do forno!!!!

Bolo de Banana da Marina

- 100 gramas de manteiga sem sal

- 1 xícara de açúcar (um pouquinho menos para não ficar muito doce)

- 3 gotas de essência de baunilha

- 3 ovos

- 2 xícaras de farinha de trigo

- 1 colher e meia (de chá) de fermento em pó

- 1 colher e meia (de chá) de bicarbonato de sódio

- 2 xicaras de chá bem cheias de banana madura amassada (de 6 a 8 bananas, depende do tamanho; o exagero é bem vindo)

- 1 lata de creme de leite sem soro (misturar 3 gotas de suco de limão ao creme)

- canela para espirrar sobre o bolo pronto



1: MISTURA A

- Bater na batedeira a manteiga fria cortada em pedaços com o açúcar até obter um creme esbranquiçado. Acrescentar a essência de baunilha e bater um pouco mais.

- Acrescentar os ovos inteiros, um a um, batendo muito bem depois de acrescentar cada um deles. Mantenha na vasilha da batedeira e reserve.



2: MISTURA B

Peneire os ingredientes secos (farinha, bicarbonato e fermento) em uma tigela e reserve.



3 - MISTURA C

Amasse as bananas com o garfo e misture o creme de leite sem soro. Reserve.



Junte as misturas B e C com o creme que ficou na vasilha da batedeira (mistura A). Comece com os ingredientes secos e vá alternando, com o cuidado de terminar com os ingredientes secos. Misture com uma colher de pau, delicadamente, sem bater. A massa fica consistente.

Leve ao forno médio em uma forma com furo central untada. Quando começar a exalar perfume e o palito sair limpo, o bolo está pronto! (Dica: entre 25 e 30 minutos, comece a ficar de olho no forno). Polvilhe com canela e sirva.


ESPERIMENTE FAZER.... EU FIZ!!!!!

When poetry goes wild

When poetry goes wild

 
So what do you get a poet for his 109th birthday?

If that poet is Carlos Drummond de Andrade, then you throw him birthday parties in five simultaneous cities with film screenings, round tables, poetry readings, and popcorn. And a-duh I was there to take in the festivities – it was liberating to be wearing normal clothes on a Halloween night, for once. The grand finale at the Instituto Moreira Salles was a reading of 5 of Drummond’s major poems, the ones that aren’t done as frequently in public because they’re prohibitively long. Does it sound like fun yet? Just wait. — Leia o post completo.

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-estrangeiras

Lembranças tropicais


As diferenças e semelhanças de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa na literatura e na política até publicarem seus livros de memória.
por Perry Anderson


Como formas de escrever sobre o passado, memórias e autobiografias são empreitadas diferentes, apesar de na prática não se sobreporem. No limite, um livro de memórias pode recriar um mundo ricamente povoado por pessoas, sem contudo falar muito sobre o próprio autor. Uma autobiografia, em compensação, pode assumir a forma de um retrato puro de si, no qual o mundo e os outros aparecem apenas como uma mise-en-scène para a aventura íntima do narrador. Ao recontar sua vida, romancistas já produziram atos de bravura em ambos os gêneros.

Entre as obras modernas, To Keep the Ball Rolling [Para Manter a Bola Rolando], de Anthony Powell – quatro volumes agradáveis, embora lacônicos –, é uma obra-prima do primeiro gênero. O breve As Palavras, de Sartre, é talvez o maior exemplo do segundo. Viver para Contar, de Gabriel García Márquez, é classificado como livro de memórias por seus editores, mas há certa dúvida de que, no conjunto, se enquadre nessa categoria. Márquez é, obviamente, um lendário contador de histórias. Além disso, possui uma aguda inteligência autorreflexiva, como podemos observar em Cheiro de Goiaba, em que reproduz suas conversas biográficas com Plinio Apuleyo Mendoza.

Em Viver para Contar, Márquez exerce com comedimento esse outro lado de seus dons. Por opção artística, construiu um livro de memórias mais próximo, na forma, de um romance do que jamais se tenha escrito. Começa com a chegada de sua mãe a Barranquilla, a fim de levar o filho – então com 22 anos – para vender a casa da família em Aracataca, viagem que fez com que se tornasse o escritor que é hoje; e termina com o ultimato escrito por ele durante um voo para Genebra, cinco anos depois, e que transformou uma paixão esquiva de adolescência em sua futura esposa. Entre esses dois coups de théâtre paralelos, o autor rememora sua vida até o momento em que deixou a Colômbia, em 1955, numa narrativa que obedece não aos padrões desordenados da experiência ou da memória, com toda a sua irregularidade, mas às regras de uma composição perfeitamente simétrica. O livro é dividido em oito capítulos de tamanhos praticamente idênticos – um arranjo que corresponde menos ainda à maneira como qualquer vida poderia ser de fato vivida, como que para sublinhar o fato de estarmos diante de outro artifício supremo.



esde o início de sua carreira, Márquez vem praticando dois estilos de escrita relativamente distintos: a prosa figurativamente carregada, já visível de maneira brilhante em seu primeiro livro de ficção, A Revoada: O Enterro do Diabo, que teve sua publicação rejeitada na época, com a concessão de que era “poética”; e a concisão objetiva de histórias como Ninguém Escreve ao Coronel ou reportagens como Notícia de um Sequestro. Se, tecnicamente, o registro de Viver para Contar fica entre os dois, o tom e o efeito do conjunto – e isso decorre da concepção das memórias – têm a grandeza viva e suntuosa de seus grandes romances. Estamos ali no mundo de Cem Anos de Solidão ou de O General em seu Labirinto, com sua densidade metafórica e seus diálogos típicos: sentenças curtas e sublimes, que funcionam quase como epigramas, de pungência inimitável e ironia bem-humorada.

O que o livro conta é a história da juventude de Márquez na Colômbia. Retratos vívidos de seus pais e avós criam um ambiente familiar dos mais estranhos. Então é mostrada sua infância, até os 8 anos, com o avô na zona bananeira da costa do Caribe; os primeiros dias de escola e a pobreza em Barranquilla, as férias num interior paradisíaco; a subida do rio Magdalena até um liceu nos Andes; o ingresso na universidade em Bogotá; uma descrição em primeira mão dos tumultos apocalípticos na capital após o assassinato do principal político populista do país, Jorge Eliécer Gaitán; o retorno à costa para fugir dos distúrbios; os primeiros anos como jornalista em Cartagena; o entusiasmo literário e a dissipação boêmia em Barranquilla; e, por fim, o trabalho regular como repórter em Bogotá e a ida ao exterior para cobrir a conferência de Genebra, em 1955. Tudo isso com uma grande variedade de incidentes impressionantes, detalhes intrigantes e uma sorte extravagante que poucas obras de ficção seriam capazes de igualar.

No entanto, o resultado não é um Bildungsroman [romance de formação] do autor, cuja personalidade raramente está em foco, mas a recriação de um universo assombroso, a costa caribenha da Colômbia na primeira metade do século XX. Quem acha que a contraparte factual da ficção de Márquez é, na melhor das hipóteses, uma pálida cópia dela pode ficar tranquilo. Uma cena impressionante atrás da outra, um personagem inesquecível atrás do outro, cascatas de gestos que vão além da lógica e coincidências que vão alémda razão fazem de Viver para Contar um primo dos grandes romances. Esse primeiro volume é um grande e bem planejado edifício de imaginação literária. É tentador, assim, lê-lo apenas como uma obra de arte, independentemente de seu status de documento biográfico.



sso, contudo, seria diminuir seu interesse. Para entender o porquê, pode-se compará-lo com as memórias do escritor latino-americano ao qual é mais comumente associado, e que perde somente para ele em fama. Peixe na Água, de Mario Vargas Llosa, publicado há mais de uma década, tem uma estrutura menos convencional. Escrito após a derrota de sua candidatura à Presidência do Peru, em 1990, alterna capítulos sobre a sua infância e a adolescência, e a campanha para liderar o país quando tinha mais de 50 anos – um recurso de contraponto que ele usou mais de uma vez em seus livros de ficção, de Tia Julia e o Escrevinhador até O Paraíso na Outra Esquina. Nesse formato, os três anos de campanha presidencial ocupam mais espaço do que os 22 anos até a idade adulta. Só isso já faz desse um livro de memórias muito diferente do de Márquez. Ainda mais impressionantes, então, são as semelhanças entre suas primeiras experiências, misteriosamente próximas em muitos aspectos.

Ambos os escritores passaram os primeiros anos cruciais da meninice sob o teto de um avô que os adorava, o patriarca da família – um deles um veterano da guerra civil na Colômbia, o outro um fazendeiro e prefeito na Bolívia e no Peru. Os pais, que tinham empregos semelhantes (um era operador de telégrafo, o outro era operador de rádio) e fizeram casamentos semelhantes (contra a vontade da família da noiva, de classe social superior), eram ausentes: um vazio na estrutura emocional da infância, em que mesmo as mães desempenhavam papel secundário. A iniciação sexual veio cedo, em bordéis sobre os quais escrevem com afeição maliciosa. Mais tarde, casaram-se ambos com moças de sua cidade natal. Quando adolescentes, foram enviados contra a vontade para colégios internos pelos pais. Formaram-se com alegria nas províncias e experimentaram a chegada à capital como um infortúnio.



a universidade, mergulharam numa vida paralela de jornalismo e farras noturnas. Os dois mostraram habilidade para novelas de rádio, inspirados pelo mesmo dramalhão – El Derecho de Nacer,[1] de Félix B. Caignet (sem conotações anacrônicas antiaborto). Em ambos os casos, a grande descoberta literária da juventude foiFaulkner, cujos romances eles dizem que os marcaram mais fundo do que qualquer outro. Cada um encerra suas memórias no mesmo ponto decisivo, quando o escritor – logo depois de descobrir alguma coisa sobre o interior desconhecido de sua terra (El Chocó e Amazonas) – deixa o país natal em direção à Europa, para nunca mais voltar a fixar residência ali.

Uma série de paralelos desse tipo é um convite para algum futuro Plutarco das letras latino-americanas. Mas o que eles evidenciam, afinal, são os contrastes dos dois romancistas e de suas memórias. Apesar de todas as semelhanças entre as constelações familiares, Vargas Llosa tem – pelo lado materno – uma herança social mais privilegiada, um clã da elite de Arequipa que produziu o primeiro presidente peruano do pós-guerra, Bustamante y Rivero. Classe e cor o situavam mais alto na escala social, naquela que era uma sociedade rigidamente racista, do que um menino mestiço da Colômbia poderia chegar. A educação formal também os separou. Márquez explica quão desafeiçoado era dos estudos na universidade, onde seu pai insistira que cursasse direito e a qual acabou por abandonar. Vargas Llosa, ao contrário, teve um brilhante cursus estudantil e tornou-se assistente do maior historiador de Lima antes mesmo de se formar. A universidade foi uma experiência central para ele, enquanto para Márquez não significou nada. Essa diferença explica por que ele foi para a Europa muito mais cedo, com uma bolsa de estudos em Madri. E também por que, uma vez na Europa, nunca mais a deixou, tendo vivido essencialmente em Paris, Londres e Madri, viajando a passeio para Lima. Márquez, ao contrário, logo retornou à América Latina, terminando por se estabelecer no México.



s trajetórias divergentes têm seus correlatos atmosféricos no trabalho de cada um. Na vida dos autores, a história de seu país – medida em termos de matança, repressão, frustração, corrupção – dificilmente poderia ser mais sinistra, e isso, é claro, encontra expressão em seus romances. Mas os retratos que Márquez faz de sua terra natal, mesmo em seus piores momentos, são repletos de um afeto lírico, um amor imutável, que não têm equivalentes no mundo de Vargas Llosa, no qual a relação do escritor com sua terra de origem é sempre tensa e ambígua.

A razão dessa diferença pode ser encontrada em parte em suas situações individuais. Se, por um lado, a configuração das famílias de origem era de uma similaridade impressionante, a voltagem emocional era oposta. A mãe de Márquez, retratada de forma adorável por ele, era claramente uma mulher de grande força de caráter, capaz de administrar um marido determinado, ainda que inconstante, e onze crianças, tanto na prosperidade como na penúria. O pai de Vargas Llosa, que sem uma palavra abandonou a esposa no quinto mês de gestação e, dez anos depois, apareceu inesperadamente para retomá-la e cooptá-lo, foi, em contraste, um pesadelo traumático: temido pela esposa e odiado pelo filho. Sem nenhum apego por sua terra natal, acabou por emigrar para os Estados Unidos e morreu como faxineiro em Pasadena.

Mesmo o melodrama da primeira experiência sexual dos dois escritores, com roteiros conhecidos de honra e ultraje latinos, reflete esse contraste. Quando Vargas Llosa se casou com a tia – naquela família semidesenraizada, não por coincidência uma boliviana –, seu pai sacou um revólver, denunciou-o à polícia em Lima e ameaçou matá-lo com cinco tiros, como um cão raivoso. García Márquez, apanhado in flagrante com a esposa negra de um policial do interior, também teve de encarar uma pistola, assim como as palavras: “Traição na cama se resolve na bala.” Mas o sargento que sofreu a afronta deixou o menino apavorado escapar com a humilhação – em gratidão a um serviço médico prestado pelo pai de Márquez, e quando vistos pela última vez, bebiam juntos.

As duas cenas, composições de um machismo teatral, ilustram duas sociedades diferentes. A poesia e a humanidade do episódio colombiano capturam o espírito geral de Viver para Contar, assim como os laços de seu autor com a comunidade em que cresceu. Já o título de Peixe na Água inverte a história que na verdade conta. Isso é expresso de maneira mais precisa na primeira edição, intitulada Um Peixe Fora d’Água – uma inversão que não é a menos importante das estranhezas das memórias de Vargas Llosa como um todo. Embora escrito num momento de aguda decepção política, e inevitavelmente um tanto descolorido por ela, o livro é atravessado pelo horror a boa parte da vida peruana – social e cultural, bem como política –, que expressa de modo claro sentimentos havia muito existentes.

As consequências literárias dessa diferença não são as que se esperam. O rótulo de “realismo fantástico” – hoje desgastado pelo uso – é habitualmente atribuído aos romances de Márquez. Nunca se ajustou bem a Vargas Llosa, que não reconhece o adjetivo. “Tenho uma fraqueza invencível pelo assim chamado realismo”, observa ele em Peixe na Água. Um dos contrastes mais significativos da ficção de ambos decorre dessas opções distintas – ou talvez as dite. O grosso do trabalho de Vargas Llosa situa-se no presente peruano, contemporâneo à sua própria experiência. A principal exceção são os deslocamentos, não apenas no tempo, como também no espaço – o Brasil de A Guerra do Fim do Mundo ou a França e os mares do sul de O Paraíso na Outra Esquina.

Em compensação, nenhum dos grandes romances de García Márquez representa a época em que ele próprio se tornou escritor. Macondo desaparece na Grande Depressão. O patriarca pertence ao mundo rústico de Juan Vicente Gómez. Os tempos do cólera são vitorianos. O general expira com o fim da Restauração. A modernidade é alérgica à mágica. Os poderes de Márquez sempre necessitaram de uma volta ao passado para serem exercidos com plena liberdade.



claro que, na mente do público, o que provavelmente distingue os dois escritores é a imagem convencional de suas posições políticas – García Márquez como amigo de Fidel Castro, Vargas Llosa como devoto de Margaret Thatcher, figuras respectivamente da esquerda ecumênica e da direita liberal. Tal polaridade existe, é claro. Mas, ao olhar para a escrita em vez de para as filiações, percebemos um contraste mais impressionante. Vargas Llosa foi desde cedo, e assim permanece, um animal político. Como estudante em Lima durante a ditadura de Odría, foi um ativo militante comunista, levado para o partido por Héctor Béjar, que mais tarde, nos anos 60, comandaria a primeira guerrilha peruana; ao chegar à Europa, mergulhou na teoria marxista na qualidade de entusiasta da Revolução Cubana. No começo dos anos 70, quando rompeu com a esquerda por causa de Cuba, não se recolheu à literatura simplesmente, como outros, mas tornou-se um admirador apaixonado de Hayek e Friedman, e um dos principais defensores do capitalismo de livre mercado na América Latina. Sua candidatura à Presidência do Peru, com o apoio da direita tradicional, não foi um capricho repentino, mas consequência de uma década de atividade pública consistente. Logicamente, sua ficção – desde o primeiro retrato da academia militar em A Cidade e os Cachorros, passando pelas conspirações revolucionárias em Conversa na Catedral e História de Mayta, até A Festa do Bode usa os conflitos políticos contemporâneos diretamente como tema organizador.

Esse nunca foi o caso de García Márquez, e Viver para Contar ajuda a explicar o porquê, apesar de permanecer algum mistério. Ele retrata um jovem, vindo da costa para o altiplano durante a adolescência, tão absorvido pelos temas literários – primeiro e acima de tudo pela poesia – a ponto de não ter praticamente nenhum interesse pelos assuntos públicos. A Colômbia já se encontrava num estado de grande tensão política em seus últimos anos de escola e, assim que chegou à universidade, o país sucumbiu à guerra civil. Em seu capítulo mais poderoso, Viver para Contar pinta um panoramaao estilo de Goya do terremoto social que engolfou Bogotá quando Gaitán, seu político mais popular, foi assassinado, em 1948. De sua pensión a três quarteirões de distância, García Márquez correu para a cena, chegando a tempo de presenciar o linchamento do assassino e a irrupção de uma maré de tumultos e saques que varreu a cidade. Mas sua reação, tal como se recorda, foi simplesmente voltar à pensão para terminar o almoço. Encontrando-o na rua, um parente mais velho – o qual se tornou um dos líderes da junta revolucionária que tentou direcionar os tumultos para um levante contra o governo conservador – instigou-o a participar dos protestos estudantis contra o assassinato. Em vão. Aterrorizado com a destruição e as mortes em massa nos dias seguintes, quando o Exército entrou na cidade para restaurar a ordem, seu único desejo era fugir.

A violênciaque devastou a Colômbia na década seguinte, opondo os liberais aos conservadores que se mantinham no poder, ceifou 300 mil vidas – uma catástrofe pior do que qualquer outra que o Peru tenha sofrido. Esse foi o pano de fundo histórico do início da carreira de Márquez como jornalista e escritor. Mas ele parece ter continuado misteriosamente intacto. Apesar de ser colunista regular de um diário de Cartagena, escreve que “no meu ofuscamento político da época, eu nem sabia que a lei marcial havia sido imposta de novo no país”. Em Barranquilla, pouco depois, “a verdade de minha alma era que o drama da Colômbia me atingia como um eco remoto, e me comoveu apenas quando transbordou em rios de sangue”. Essa confissão nos desarma, mas a distinção não se sustenta: o drama da Colômbia era o derramamento de sangue. Parece que a realidade foi que o jovem literato, inteiramente envolvido em descobertas e experimentos da imaginação, de fato ignorava o destino de seu país naqueles anos.



ra mais fácil agir assim nas cidades costeiras, já que o litoral do Caribe, embora não estivesse imune às chacinas sectárias, foi poupado do pior da violência que grassava nas fronteiras cafeeiras das terras altas. A identificação de Márquez com sua região – “o único lugar em que realmente me sinto em casa” – conferiu à sua escrita uma intensidade luminosa, mas parece também tê-lo protegido, ou cegado, dos padrões e forças mais amplos da nação. “A Colômbia sempre foi um país com uma identidade caribenha que se abria para o mundo pelo cordão umbilical do Panamá”, escreve. “Sua amputação forçada nos condenou ao que somos hoje: uma nação com uma mentalidade andina, cujas circunstâncias favorecem que o canal entre os dois oceanos pertença não a nós, mas aos Estados Unidos.”

O lamento é palpável e significativo. Não é exagero dizer que as terras elevadas dos Andes, que formam o cerne da sociedade colombiana, permanecem uma espécie de livro fechado para Márquez. Não há dúvida de que vem daí, em parte, o silêncio em Viver para Contar a respeito da guerra civil durante a qual se passa boa parte da história.



única aventura de Márquez na história contemporânea, Notícia de um Sequestro, humana e cativante como relato do episódio final da carreira de Pablo Escobar, confirma certo mal de altitude intelectual. Falta-lhe a compreensão do contexto social da guerra da droga na Colômbia ou mesmo uma visão crítica da oligarquia que a comandava. Lendo o livro, ficamos tentados a achar que, no fundo, Márquez permanece tão apolítico quanto era no início.

Isso é um erro, como mostra a sequência de Viver para Contar. Mas tanto suas memórias quanto sua ficção sugerem uma mente com uma maravilhosa sensibilidade intuitiva para o temperamento, as cores e os detalhes do mundo em que cresceu, sem muita consideração pela definição de suas relações ou estruturas. Por esse relato, é difícil situar com precisão a família de Márquez na escala social. Seu avô, apesar de ser representado como um patriarca com alguma substância, parece não ter sido originalmente mais do que um artesão, ainda que ourives; a base econômica da lendária casa de Aracataca – o pai é descrito como alguém que pediu a mão de uma “filha de família rica” – é obscura. Os altos e baixos das venturas do pai, da extrema pobreza ao conforto modesto – aparentemente sem relação com a proliferação dos onze filhos –, são apenas um pouco menos incompreensíveis. Com o passar do tempo, as conexões entre o clã se revelam: um tio na polícia de Cartagena, capaz de arranjar empregos; um professor em Bogotá, dono de uma grande livraria. Cabe a nós tentar adivinhar como se encaixava o jovem Gabito nessa hierarquia complicada de classe e cor.

O que dizer, finalmente, do autorretrato que emerge dessas memórias? Ele é curiosamente oblíquo. Márquez oferece um relato abrangente do desenvolvimento de sua vocação literária, do tempo de escola até mais ou menos seus 20 anos, e muitos incidentes cativantes ou encontros arrebatadores em sua jornada rumo à maturidade. Mas não está tão claro como ele era enquanto menino ou jovem. A autoconfiança que seu avô lhe deu na infância parece nunca tê-lo abandonado, salvo nas brevíssimas turbulências da adolescência. Mas há poucos sinais de ambição deliberada. Ele se fecha em sua timidez, mas obviamente era companhia animada, já que nunca lhe faltaram amigos. Mas não revela o quanto se empenhou em procurá-los ou até que ponto era visto apenas como um boêmio inconsequente.

Nas transações com o sexo oposto, as iniciativas de sedução partem na maioria das vezes das mulheres. Apesar de dizer que quando voltou a Barranquilla “tinha a timidez de uma codorna, que eu tentei contrabalançar com arrogância insuportável e franqueza brutal”, ele parece ter se dado bem em geral com parentes mais velhos e amigos, em todos os lugares por que passou. Com exceção de um conflito com o pai sobre a escolha de sua carreira, nenhuma grande discussão marca esse progresso. Ele cita apenas ocasionalmente os lados mais vulcânicos de sua personalidade – “acessos de raiva sem nenhum motivo”, “birras pueris” –, mas não oferece mais detalhes.



m vez de fazer uma autoanálise detida, Márquez oferece um espelho generoso aos seus contemporâneos. Viver para Contar contém uma abundante galeria de parentes, amantes, colegas, mentores e aliados, capturados num parágrafo ou em uma ou duas páginas. Isso basta para deixar impacientes os leitores anglo-saxões, mas é uma lealdade atraente, que distingue suas memórias das de Vargas Llosa. Um Peixe na Água, pensado desde o início para um público internacional, é mais tênue nesse sentido. As memórias de Márquez são destinadas aos leitores colombianos antes de tudo.

Elas anunciam seu princípio de construção no início, num manifesto gravado como epígrafe na abertura do livro: “A vida não é o que se viveu, mas o que se lembra, e como isso é lembrado para ser contado.” Tomado literalmente, é um convite à memória seletiva, com todas as facilidades de uma amnésia conveniente. Não há motivo para supor que Márquez tenha abusado de sua máxima. Mas é sempre legítimo perguntar em que medida as memórias correspondem aos fatos. Independentemente de quanta licença concedamos a um artista em sua reconstrução do passado, não valorizaríamos do mesmo modo o resultado se tudo se revelasse imaginário.

Nesse caso, a narrativa dá ensejo a alguns pontos de interrogação na margem. Sexo, política, literatura: cada um deixa uma penumbra de incerteza em seu entorno. Comentando “os modos de caçador furtivo” de seu pai, Márquez diz que houve um período em que ficou tentado a imitá-lo, mas logo descobriu que se tratava da “mais árida forma de solidão”. Nada em seu relato corresponde a essa breve afirmação. Em Cheiro de Goiaba, ele diz que, quando estava na universidade, pertenceu a uma célula do Partido Comunista Colombiano. Não há vestígio disso em Viver para Contar.

Entre os autores que o formaram, ele enfatiza Faulkner. Mas a afirmação de que “cada sentença deve ser responsável pela estrutura toda” e o uso celestial do adjetivo (ele diz ter aversão a advérbios), que é a marca de sua prosa, derivam de Borges, que ele pouco menciona. A saída do grupo de Barranquilla que produzia a revista literária Crónica, cadinho de seu primeiro florescimento como escritor, é apresentada como uma partida amigável, sem dificuldades ou ressentimentos. No entanto, entrega que renunciou ao cargo de editor num acesso de raiva algum tempo antes, por razões não especificadas. A ruptura pode ter sido mais dolorosa do que ele sugere.

Tais discrepâncias têm importância? A epígrafe as absolve. Mas uma vida e uma história nunca são a mesma coisa, e os interstícios entre elas – mais largos ou mais estreitos – são inevitavelmente parte do interesse de cada uma. Na luz resplandecente dessas memórias, há um brilho tênue à distância, próprio da latitude.