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terça-feira, 10 de abril de 2012

A marvada pinga e a diplomacia brasileira

09/04/12

POR xicosa




E não é que a Dilma Rousseff, num lobby pela cachaça brasileira, me leva para o Obama justo uma garrafa de Velho Barreiro!
Tudo bem, a garrafa é especial, cravejada de brilhantes, e vale a bagatela de R$ 212 mil, como nos relata a colunista Mônica Bergamo.
Nesse nobre capítulo o Lula, envelhecido em barris de bálsamo, não erraria jamais.
Presentearia o Obamis –lembra da camiseta que circulou com o presidente americano no papel do chegado Mussum?!- no mínimo com uma Maria da Cruz, a aguardente mineira produzida pelo seu vice José Alencar.
Estimado Velho Barreiro, quem sou eu, envernizado bebedor de Kariri com K, Xanduzinha e Jurubeba Leão do Norte, para tecer queixas à sua qualidade. Não se trata disso.
É que temos a excelência da cachaça mineira de Salinas e região. Vai o Obama resolve tomar um aperitivo antes do almoço? A chance de embriagar até o índice Dow Jones é fácil fácil.
O mimo da Dilma, meu caro amigo de balcão, não é a apenas uma gracinha diplomática.
Como já tratamos aqui neste blog interessado nas grandes questões da humanidade, os fabricantes do famoso mé do Mussum tentam emplacar a cachaça como um genuíno e exclusivo produto brasileiro.
Nossa marvada pinga ainda chega lá com a denominação “Brazilian Rum”. Covardia concorrer, por exemplo, com o rum do Caribe.
Na contrapartida diplomática, o Brasil reconheceria os uísques da linha Bourbon e Tenessee como preciosos líquidos norte-americanos.
Aqui na maloca, este cronista e a sua bela índia praguaya, não temos o menor problema de rótulos e legitimidade no comércio exterior.
A queda não tem pátria. Depois dos 40, entonce, a ressaca é uma espécie de dengue sartreana. Principalmente em uma segunda-feira.

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/

'Love is a Losing Game'



FINITY X INFINITY

As mentiras convencionais de nossa educação

Todo mundo apresenta ideias para a escola, mas a maioria delas está ancorada em alguma de muitas mentiras.





No final do século XIX o escritor Max Nordau publicou uma obra chamada As mentiras convencionais de nossa civilização. Uma adaptação deste título tão feliz pode ser feita para a educação brasileira a partir de duas notícias salvacionistas para a escola.

Primeira notícia: o Governo do Estado de São Paulo vai investir em lousas digitais. Dessa forma, afirmam os especialistas, o aluno terá mais interesse nas aulas. De acordo com as pesquisas sobre uso de tecnologia na educação (Folha de São Paulo, 5 de abril de 2012), a modernização tecnológica não melhora o aprendizado.

Segunda notícia: o governo paulista não está só. O MEC prometeu distribuir 600 mil tablets para professores. Trata-se de uma prancheta eletrônica que permite acesso à internet, entre outras coisas (como desenhos, jogos e entretenimentos). É possível que a maioria dos professores sequer saiba o que é isto e talvez fosse mais fácil o governo ter usado o termo português “tablete”. Outra ideia do ministro da Educação (Veja, 19 de março de 2012) é alfabetizar as crianças mais cedo e aplicar uma prova aos oito anos de idade para observar seu grau de alfabetização.

Bem, escolhi duas notícias ao acaso já que todo mundo apresenta ideias para a escola. Mas a maioria delas está ancorada numa das mentiras convencionais desmentidas abaixo:

1. Não é verdade que alfabetização até os oito anos seja indispensável. Várias pesquisas (mas a história também) mostram que alfabetizar mais cedo pode até ser prejudicial e que é preferível brincar a estudar antes daquela idade. Cada criança tem um ritmo próprio de aprendizado e a escola deveria respeitar isso.

2. Não é verdade que tecnologia facilite o aprendizado por torná-lo mais atraente. Ninguém deseja que a escola volte aos padrões rígidos de um século atrás. Mas jogar pedra na casa do vizinho ou fazer sexo sempre será mais atraente do que fazer análise sintática ou resolver equações de segundo grau. A escola tem uma dimensão disciplinar inescapável e sem ela não podemos aprender.

3. Não é verdade que a escola pública era boa porque era para poucos e hoje é ruim porque atende a todos. Ela se tornou ruim porque o Estado preferiu investir somente na sua expansão física e passou a gastar proporcionalmente menos com professores e equipamentos tradicionais (livros, laboratórios, bibliotecas, piscinas e anfiteatros). Massificação com ampliação de recursos não seria problema algum. E de onde viriam os recursos? Bem, o Estado optou por construir Brasília, sustentar a corrupção da Ditadura Militar e gastar com pagamento de juros.

4. Não é verdade que a redução da idade de ingresso na escola atendeu critérios pedagógicos. Como as creches se tornaram um direito reivindicado pelas mães e custa mais barato abrir um turno na escola fundamental, os governos reduziram a demanda por creches fazendo as crianças saírem mais cedo delas.

5. Não é verdade que aumento salarial substancial não melhora a educação. O problema é que um professor carece de salário e status. A relação pedagógica é baseada principalmente na autoridade conferida ao docente pela avaliação, idade, conhecimento e respeito social. Como vivemos numa sociedade capitalista, é claro que a maior parte desses atributos depende da renda. Ou seja: do salário!

6. Não é verdade que o investimento dos governos em tecnologia educacional tenha por escopo melhorar a educação. Na verdade este tipo de investimento é adotado porque é mais barato e aparece mais.

7. Não é verdade que determinar novos conteúdos para o currículo escolar melhore a cidadania. Mas é verdade que pode piorar o estudo de conteúdos já tradicionais como Matemática, História ou Língua Portuguesa. O problema do trânsito, a religião, atividade sexual, prevenção de doenças, ecologia, direitos humanos, criminalidade, drogas etc., são sempre problemas que os políticos deixam para a escola resolver. Basta um congressista ter uma ideia e já temos uma nova obrigação para os professores. Perguntar se uma lei é exequível em função do orçamento é algo comum, mas ninguém se pergunta se os novos conteúdos obrigatórios “cabem” no currículo e no tempo de aula. É que todos esquecem que a educação não se dá apenas na escola. Só uma parte da educação juvenil é escolarizada porque na maior parte do tempo o aluno está submetido a outros educadores: amigos, família, polícia, deputados, más ou boas companhias, namorados etc. Por isso, pouco adianta ensinar ética se o Congresso Nacional perdoa seus parlamentares corrompidos.

É preciso dizer que a instituição escolar está em crise (como a família, as Forças Armadas, a Igreja e os partidos). As relações entre jovens e velhos, filhos e pais, chefes e subordinados mudaram. Impotentes, todos esperam que a escola seja a única a resolver uma crise civilizacional. É possível que a escola não exista mais num futuro longínquo. Afinal, a escolarização em massa é muito recente na história.

Mas por enquanto precisaremos dela. Quando um ministro diz que os alunos estão no século XXI e a escola no século XIX, esquece que em alguns lugares (como o Brasil) nós passamos diretamente de um país ágrafo para outro que assiste televisão e manipula ícones no computador. Não tivemos (como no Velho Mundo) a fase do livro e da leitura. Ainda precisamos um pouco de século XIX: professores respeitados, giz, quadro negro, alunos na sala de aula e livros à mão cheia.

http://www.amalgama.blog.br/04/2012/as-mentiras-convencionais-de-nossa-educacao/

Aqui e agora - Gilberto Gil


BOM DIA, GOOD MORNING, BON GIORNO, BUENOS DIAS, BONJOUR

Quando Uma Biscate Sofre…Maysa

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E a vida de biscate é só de risos e prazer e se dar bem com seu corpo? E nunca o vazio, uma lágrima, um querer que não cabe em si? Uma biscate sofre. E quando se dói, é coisa bonita de se ver. Ou de ouvir. Uma biscate se entrega, se mostra, se rasga. Uma biscate pulsa. Canta. A biscate de hoje é puro encanto em uma voz que ainda lateja em mim. Em dores de um amor que nunca é. Polêmica. Bonita. Bêbada. Solitária. Desejada. Talentosa. Desnuda. Emocional. Atrevida. Dionisíaca. Avançada. Forte. Agressiva. Indescritível. Incontornável. Insaciável. Uma biscate com olhos de abismo. Maysa cantou o que é, na minha opinião, a maior música-tema da biscatagem, Resposta:


Ninguém pode calar dentro em mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar
Eu não posso explicar quando foi
E nem quando ela veio
E só digo o que penso, só faço o que gosto
E aquilo que creio
Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou
Ou vai falar de mim
“Tenho medo apenas do que não depende de mim: amar e não ser amada, por exemplo.”
Eu cresci sabendo Maysa. Lembro do brilho no olho do meu pai quando ele falava dela. Ele era um apaixonado. Ele é. Não sozinho, claro. Manuel Bandeira escreveu: “Os olhos de Maysa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos”. São muitos os fãs de Maysa, sempre foram. Em 1958, por exemplo, não houve um só dia do ano em que pelo menos um órgão de imprensa do Rio de Janeiro ou São Paulo não trouxessem uma notícia sobre ela e, quando a televisão quase nem era ainda, ela comandava 2 programas semanais: um no Rio, outro em São Paulo (e não sou eu que digo, mas Lira Neto na espetacular biografia “Maysa – só numa multidão de amores”).
“Eu era uma assanhadinha dessas que não tem explicação”
Mas amor e devoção não era tudo que Maysa provocava. Porque ela não era bem comportada. Na verdade, sequer comportada, quanto mais bem. Menina, organizava e apostava em corridas de porcos, segundo ela, os únicos que não precisavam ser bem-comportados no internato religioso que frequentava – e do qual logo pediu aos pais pra ser retirada. Jogava futebol na rua com os meninos, neles batia e deles apanhava. Muito jovem, insistia pra aprender violão quando o instrumento ainda era relacionado com marginalidade, vagabundagem. Fumava e usava calças, sem pudor, desde a adolescência, em uma época que até mulheres adultas temiam o severo julgamento social sobre este assunto. Nas férias escolares viajava pra casa dos tios em Vitória. Pelo seu comportamento considerado ousado- tocar violão nas festas, tomar banho de mar sozinha e namorar todos e qualquer um que lhe interessasse – era considerada “má companhia” e sua prima era proibida de sair com ela. Fora de todos os tipos de padrão, com 14 anos media 1,60 e pesava 66 quilos. Era considerada gorda – ou “cheinha”, como diziam os mais delicados – mas isso não a impedia de conquistar quem lhe interessava. Casou-se com um homem acintosamente mais velho e, quando quis, desquitou-se (sim, não era divórcio e sim desquite nessa época). Divorciou-se do cara “bom partido” pra dedicar-se ao que gostava de fazer: cantar. E ganhar dinheiro com isso. Rompeu com os padrões e foi mal vista, mal interpretada, mal falada em uma rica sociedade que só acolhe transgressões fora das vistas do público. Trepava. Muito e com quem lhe apetecia. Colecionava frases ferinas. No meio do show de Eliseth Cardoso, sua amiga e namorada de um dos homens com quem Maysa se relacionou também (e, dizem, concomitantemente), Maysa levanta e diz: “meu maior desejo era ser homem, negro, pianista e bêbado. Como vocês sabem, não consegui ser homem nem negro nem pianista. Agora pretendo ser a Eliseth Cardoso”.
“Não gosto de nada pela metade, nada que é pouco me satisfaz.”
Esse comportamento próximo ao seu desejo, a honestidade de reconhecer-se frágil, aberta, perdida, rendeu comentários desfavoráveis e manchetes escandalosas. Investia intuitivamente contra os preconceitos: tomava banho nua em cachoeiras, brigava na rua com os homens com que se relacionava (as disputas com Bôscoli são famosas), bebia. Era depreciada pelos cabelos despenteados. Forte, ignorava displicentemente as críticas e continuava linda com seus cabelos contestadores já que na época as mulheres gastavam muito com perucas e laquês que limitavam suas atuações. Maysa era absolutamente contra as amarras. Maysa arriscava-se, entregava-se, intensamente fazia suas escolhas para a seguir repudiá-las.
“Nasci com essa marca. De não ser convencional. De quebrar as regras. De não seguir as leis”
Eu cresci sabendo Maysa. Sabendo que era possível ser forte e admirável mesmo quando se é incompleta. Cresci sabendo Maysa, sabendo sua falta. Sabendo seus misteriosos e doloridos olhos. Sabendo que ela amara demais e que morrera na pressa de se alcançar. Sabendo sua melancolia, seu timbre particular, sua vida peculiar. Cresci hipnotizada pelo risco. Pela velocidade que quase nos deixa na esquina de nossa própria vida. Cresci sabendo Maysa: sabendo que somos responsáveis pelas escolhas e que elas nos determinam tanto quanto nós a elas. Sabendo a coragem. A ousadia. Cresci sabendo que se podia deixar os cabelos despenteados e viver sem prestar contas aos padrões alheios. Cresci sabendo que dizer: “é porque meu amor por você é enorme demais” não impede de seguir adiante. Cresci sabendo que é preciso fazer o que se gosta e que mesmo isso não é o suficiente. Cresci sabendo Maysa: sua beleza, sua voz, suas músicas, mas, principalmente, sua liberdade. E sua dor. Porque não é fácil ser.
Eu cresci sabendo Maysa e, embora desconhecesse o termo, cresci sabendo-a biscate. Biscate! Dizia o jornal ao divulgar sua intensa vida amorosa. Biscate! Sussurravam quando deixou o filho aos cuidados do ex-marido. Biscate! Alardeavam noticiando com ênfase as bebedeiras, situações extremas e problemas pessoais. Biscate! Debochando do cabelo. Biscate, biscate, biscate por amar quem queria, por ficar sozinha, por beber muito em público, por dirigir sua própria carreira. Brilhantemente Biscate, digo eu, lendo sua auto-entrevista na Revista Manchete(1961):
“Mas você não bebe somente antes de entrar em cena, não é? Por que você bebe de modo geral?”
“Primeiro porque quero. Depois porque trabalho para pagar o que eu bebo. Finalmente, porque tenho senso de autocrítica. Muitas vezes reconheço-me insuportável e eu só suporto os insuportáveis bebendo.”
Uma Biscate sabe onde guarda sua dor…

http://biscatesocialclub.wordpress.com/2012/01/19/quando-uma-biscate-sofre-maysa/

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Canção do Sal - Elis Regina e Milton Nascimento

ELIS, AMOR DA MINHA VIDA - Milton Nascimento

08/04/2012
às 14:04 \ Tema Livre

Comovente depoimento de Milton Nascimento: “Elis Regina foi o amor da minha vida”

"Eu tinha um amor dentro de mim por aquela baixinha" (Foto: Cláudio Edinger)
"Eu tinha um amor dentro de mim por aquela baixinha" (Foto: Claudio Edinger)


ELIS, AMOR DA MINHA VIDA
A partir do momento em que a conheci, todas as minhas músicas foram feitas para ela. Nunca foi diferente. Nossa relação é uma coisa que me arrebata até hoje
(Depoimento de Milton Nascimento à revista Lola, da Editora Abril, edição de março)
Minha relação de amizade com Elis foi uma das coisas mais fortes que já aconteceram na minha vida. E eu me lembro até hoje de cada detalhe e também de tudo que a gente viveu juntos. Tudo começou por volta de 1963, quando Wagner Tiso e eu estávamos no Rio de Janeiro para gravar um disco a convite do compositor Pacífico Mascarenhas.
Depois de uma viagem de carro que durou quase o dia inteiro entre Belo Horizonte e o Rio, fomos direto para o estúdio Musidisc.
Quando a gente chegou lá, uma cantora chamada Luiza estava gravando a última faixa de seu primeiro disco. Naquele dia, o famoso maestro Moacir Santos estava fazendo os arranjos e precisava de um coro, então, o Pacífico colocou a gente para gravar ali mesmo, na hora.
Depois da gravação, teve uma festa na casa da Luiza.
“Para mim ela já era a rainha”
Eu conhecia Elis pelo nome, porque seus primeiros discos já eram conhecidos desde a época em que eu tinha um programa de rádio em Três Pontas (MG). E Elis também estava na casa da Luiza, onde havia vários músicos conhecidos da bossa nova. Então resolvi falar com ela, fiz uma brincadeira e cantei um rock que ela tinha gravado. Ela respondeu:
- Cala a boca! Esquece isso! – foi a primeira coisa que ela me disse na vida. Fiquei fascinado por ela. E nós ficamos andando pelas ruas de Ipanema até de manhã.
Em 1965, fui classificado com uma música de Baden Powell para o 2o Festival Nacional da Música Popular, e Elis estava escalada para fazer o show do último dia – pois havia levado o primeiro lugar na edição anterior com Arrastão.
E, no fim de um ensaio, eu a encontrei num corredor quando ela estava chegando. Eu, muito tímido, abaixei a cabeça, porque para mim ela já era a rainha. Ela passou, bateu o tamanco no chão e disparou:
- Escuta aqui! Mineiro não tem educação não? As pessoas educadas costuman cumprimentar as outras. Quando é de manhã, falam “bom dia”, quando é de tarde, falam “boa tarde”, quando é de noite, falam “boa noite”.
Eu parei, pedi desculpas e disse que eu não queria incomodar, porque eu estava vendo o tanto de gente que queria falar com ela. Conversamos mais um pouco e ela me convidou para ir à sua casa.
- Eu quero que você toque aquela música que você cantou naquela festa na casa da Luiza – disse Elis, e começou a cantar a música, certinha.

"Quando eu estava doente, sonhava toda noite com a Elis. Pedia para ela cantar e ela não cantava" (Foto: Divulgação)
"Quando eu estava doente, sonhava toda noite com a Elis. Pedia para ela cantar e ela não cantava" (Foto: Divulgação)
Naquela noite, na casa da Luiza, quando a gente se encontrou pela primeira vez, Wagner e eu tocamos uma música nossa: Aconteceu. Uma música que a gente havia feito ainda nos tempos de garoto, em Três Pontas.
E, enquanto Elis cantava nossa música, eu olhava, pasmo. Como assim? Anos depois e ela ainda lembrava a letra e a melodia de uma música que tinha ouvido apenas uma vez! Ao observar minha cara de espanto, Elis soltou mais uma antes de sair:
- Memória, meu caro! Memória…
“Toquei todas as minhas músicas, com os dois em silêncio”
Em 1966, Elis já era uma das artistas mais famosas do Brasil, tinha acabado de se mudar para um apartamento na Avenida Rio Branco, no centro de São Paulo.
E, alguns dias depois de ter reencontrado Elis, fui até a casa dela para mostrar minhas músicas. Gilberto Gil, também começando, estava lá ajudando-a a escolher repertório para o próximo disco. Toquei todas as minhas músicas, com os dois em silêncio. Até que ela me perguntou se não havia mais nenhuma. Por fim, meio desanimado, apresentei Canção do Sal e ela decidiu gravar.
Mais ou menos nessa época, eu ia em praticamente a todas as gravações do programa O Fino da Bossa. Eu já tinha um amor dentro de mim por aquela baixinha. Até que, teve um dia, eu estava saindo da TV Record e a encontrei:
- Onde vai passar o Natal? – perguntou ela.
Quando eu disse que ia passar com minha família, em Três Pontas, ela retrucou:
- De jeito nenhum! Você vai passar com a minha família no Rio.
Fomos todos de avião, de São Paulo para o Rio. Na noite da ceia – onde conheci também o irmão dela, Rogério – eu estava sentado numa cadeira quando a Elis veio e sentou bem na minha frente. Isso foi logo após a entrega de presentes. Durante a conversa, ela chorou bastante, me contou várias coisas da vida. Foi então que percebi que ali estava nascendo uma grande e magnífica amizade.
Naquele tempo, a coisa estava muito difícil em São Paulo. Havia uma competição muito forte. A Elis Regina era uma das únicas pessoas que me davam atenção. E eu também não gostava de forçar a barra. Até que apareceu também o [falecido cantor] Agostinho dos Santos.
“Três músicas minhas aceitas no festival sem eu saber”
Eu estava substituindo um músico num bar quando chegou uma pessoa e perguntou quem eu era. Era o Agostinho. Depois de me apresentar para várias pessoas, me levar a todos os lugares, ele contou sobre um festival que ia acontecer no Rio. Mas eu respondi:
– Agostinho, de jeito nenhum!
Disse a ele que eu não gostava daquele clima de competição em festivais, onde parecia que um queria matar o outro etc. Mas ele continuou insistindo por muito tempo, então parou. Ficou uns tempos sem aparecer e um dia, quando eu estava na pensão onde morava, ele me procurou:
– Bicho, arrumei um produtor e vou gravar um disco! Preciso que você grave três músicas para ele escolher.
Sem desconfiar de nada, fui à casa de um amigo dele e gravei três músicas: Maria Minha Fé, Travessia e Morro Velho. Entreguei a fita ao Agostinho e ele desapareceu novamente. Passou mais um tempo e eu fui assistir ao programa da Elis, O Fino da Bossa. Gente que nunca tinha falado comigo começou a me abraçar e tal. De repente, saiu a Elis, que deu um pulo dizendo:
- Eu sabia! Eu sabia!
- Sabia o quê, Elis? – eu perguntei.
Daí ela falou:
- Você classificou três músicas no Festival do Rio de Janeiro!
Mas eu não tinha inscrito nenhuma música no festival, argumentei. Então, Elis respondeu:
- Ah, então tem outro Milton Nascimento!
Fiquei completamente desesperado com essa possibilidade. E, quando eu estava saindo do teatro, escutei a risada do Agostinho, daí entendi tudo. Ele tinha inscrito as músicas sem eu saber.
- Agora não tem jeito! – disse Agostinho, rindo.
"Um dia, uma criança disse ter visto dois anjos no palco comigo. Lembrei que no meu sonho a Elis também estava com dois anjos" (Foto: Divulgação)
"Um dia, uma criança disse ter visto dois anjos no palco comigo. Lembrei que no meu sonho a Elis também estava com dois anjos" (Foto: Divulgação)

“Sempre que vou fazer alguma coisa, penso nela cantando”
A partir desse festival, minha vida mudou completamente. Gravei meu primeiro disco no Brasil, e logo depois fui para os Estados Unidos gravar outro. Ao longo disso tudo, Elis e eu estávamos cada vez mais próximos. E, enquanto ela estava aqui com a gente, eu pude estar ao seu lado em praticamente todos os discos que gravou, assim como ela estava presente nos meus.
Todas as músicas que fiz a partir do momento em que conheci Elis foram feitas para ela. Sempre que eu vou fazer alguma coisa, penso logo nela cantando, nunca foi diferente.
Tem uma história que eu tenho contado bastante desde que gravei meu último disco, E a Gente Sonhando. É sobre uma música que está neste disco, chamada Amor do Céu, Amor do Mar.
Como todas as músicas que eu faço, eu retrato minha vida, o que eu estou vivendo, o momento, as pessoas e tudo mais. E teve uma época em que eu estava com um problema de saúde e todas as noites sonhava com a Elis Regina. Ela vinha, e tinha sempre um jantar na casa dela, mas ela não cantava. Eu ficava pedindo para ela cantar e ela não cantava.
Dois anjos da guarda, e não só um
Mais tarde, quando a gente estava fazendo os Tambores de Minas, uma criança falou que tinha visto dois anjos no palco comigo. E eu senti que nesses sonhos a Elis também estava com dois anjos. Foi uma história muito louca, porque alguém (que tem o dom de reconhecer as coisas) falou para mim que eu era muito forte porque tinha dois anjos da guarda.
Eu não entendi por quê, pelo que eu saiba, cada um tem um anjo da guarda. Até que, um dia, minha sobrinha Dadaia chegou e me deu um cartão com meu anjo, o Jeliel, e, quando eu olhei, eram dois anjos. Então, Amor do Céu, Amor do Mar tem tudo isso, mas também tem outra coisa. Eu adoro água, mar, e essa coisa de mergulhar me ajudou muito na minha vontade de viver. Janaína é o amor do mar, assim como Elis Regina é amor do céu.
“Nossa relação é uma coisa que me arrebata até hoje”
A amizade entre a gente era tão grande que, em todos os shows da Elis que fui assistir depois que o João Marcelo e o Pedro nasceram, era eu quem ficava com eles enquanto ela cantava. Teve um show da turnê Transversal do Tempo, em que eu estava com o João sentado à minha direita, e o Pedro à esquerda. E tinha uma música em que a Elis subia o tom a cada frase. E, assim que ela começava a subir, o Pedro também ia subindo junto. Quanto mais ela subia, mais ele subia também. E o Pedro seguia acompanhando a mãe até a última nota.
Elis e eu vivemos muitas coisas juntos, um sempre cuidava do outro. Eu nunca fui somente um compositor, um colega de trabalho. Para ela, eu fui muito mais que isso. Nossa relação é uma coisa que me arrebata até hoje. E eu nunca me esqueço de uma coisa que o Rogério, irmão da Elis, me falou depois de um show em Paris:
– Minha irmã foi o grande amor da sua vida, Milton.

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tema-livre/comovente-depoimento-de-milton-nascimento-elis-regina-foi-o-amor-da-minha-vida/

Valsa do Maracanã - Aldir Blanc



Valsa do Maracanã


(Paulo Emílio e Aldir Blanc)

Quando eu ficar assim
morrendo após o porre
Maracanã, meu rio,
ai! corre e me socorre
Injeta em minhas veias
teu soro poluído
de pilha e folha morta,
de aborto criminoso
de caco de garrafa
de prego enferrujado
dos versos do poeta
pneu de bicicleta
Ai, rio do meu Rio,
Ai, lixo da cidade
de lâmpada queimada
de carretel de linha
chapinha premiada
e lata de sardinha
o castigo e o perdão
o modess e a camisinha
o castigo e o perdão
o modess e a camisinha
Ai, só dói quando eu rio,
Maracanã, meu rio
Maracanã, meu rio
Ai, só dói quando eu rio

Dinner with Barack Obama

What Brazil wants from White House visit: dinner

Brazil's President Dilma Rousseff participates in a ceremony of announcement for new measures of the Plan ''Brasil Maior'' and the installation of Sector Councils for competitiveness in Brazil April 3, 2012. REUTERS/Ueslei Marcelino

WASHINGTON | Fri Apr 6, 2012 4:36pm EDT

WASHINGTON (Reuters) - Brazilian President Dilma Rousseff will have a long wish list when she visits the White House on Monday, but there's one goal that stands above the rest:

Dinner with Barack Obama.

It's not likely to happen. The U.S. president's decision not to fully roll out the red carpet for Rousseff in Washington symbolizes the relationship between two giant democracies that by most accounts want to become better allies, but have yet to find the common cause - or magic personal moment between leaders - that brings them closer together.

More weighty topics such as Syria, U.S. monetary policy, multi-billion-dollar defense deals, and Brazil's offshore oil boom will also be on the agenda for the bilateral meeting.

But the real buzz has centered on what Brazilian officials perceive as a snub of protocol, which they say represents Washington's failure to fully recognize their country's recent economic rise and growing clout in global affairs.

Rousseff's schedule on Monday - which consists of a White House meeting with Obama, a working lunch and a conference with business leaders - contrasts with the reception given to British Prime Minister David Cameron last month.

Cameron was treated to a formal, black-tie state dinner, although his trip was not a full state visit. Obama also flew Cameron to a college basketball game in Ohio where the two leaders were photographed smiling, eating hot dogs and chatting with fans.

Brazilian officials, speaking on condition of anonymity to frankly discuss diplomatic issues, say they realize their country does not enjoy the "special relationship" long afforded to Britain. But they pointed out that Brazil did officially surpass Britain last year to become the world's sixth-biggest economy, neatly capturing why their country should be treated as just as important a partner in years to come.

"There's a feeling that most people in Washington don't appreciate what's happening in Brazil," said one official close to Rousseff. "It didn't have to be a state visit, but Obama could have taken her to dinner, or to the Kennedy Center."

Rousseff is scheduled to have a formal dinner at the Brazilian embassy in Washington on Monday night.

Asked about Monday's agenda, White House spokeswoman Erin Pelton said the meeting will be Obama's third bilateral encounter with Rousseff since she took office in January 2011. The meeting "will deepen a partnership that has never been stronger," Pelton said.

State visits are generally not given during presidential election years, another U.S. official said. Leaders from other key U.S. allies such as Japan, Canada, Australia, Turkey and South Korea have also visited Washington in recent years without receiving a full state visit.

A COUNTRY ON THE RISE

Still, recognition is particularly important to Brazil because of the relatively recent nature of its rise.

Just a decade ago, its economy was barely average by Latin American standards, tainted by years of hyperinflation and political instability. Today, it accounts for more than 40 percent of the region's gross domestic product, it is a member of the increasingly influential BRICS group of large emerging markets, and it is actively seeking a commensurate role in global bodies such as the United Nations and World Bank.

The transformation in Brazil's profile has come at a time when the United States is concerned with its own economic problems and with conflicts in the Middle East, feeding Brazilians' fears that Washington is simply too distracted to notice.

Meanwhile, Brazil's rise has generated some skepticism, especially among Republicans, because of its independent and sometimes obstructionist stance on hot-button foreign policy issues. Rousseff's predecessor, Luiz Inacio Lula da Silva, tried to mediate talks over Iran's nuclear program in 2010, irking the West. Brazil has more recently been a critic of sanctions against Syria and Iran.

Rousseff and Lula both hail from a leftist party that has traditionally distrusted the United States, and has focused on building so-called "South-South" ties among poorer nations. But Rousseff has surprised some observers by distancing herself somewhat from Iran since taking office while placing greater emphasis on human rights.

Indeed, senior officials from both Brazil and the United States told Reuters they believe they have much more in common, and that they are actively looking for ways to work together more closely on issues such as trade, energy and investment.

Moises Naim, a senior associate at the Carnegie Endowment for International Peace, said Brazil is in an early stage of its development in which the United States should be working overtime to ensure that it solidifies a strategic relationship for the next 20 to 30 years, instead of allowing Brazil to drift closer to China and other members of the BRICS.

That group, which met last week in New Delhi, also includes Russia, India and South Africa.

"There should have been a dinner for Brazil," Naim said. "Symbols and gestures in interactions among heads of state matter just as much as what's actually on the agenda."

VISAS AND OIL

The United States does plan to make at least one gesture that will please Brazil. Washington will announce new steps that will make it easier for Brazilians to obtain visas to visit the United States, a second U.S. official told Reuters, without providing details.

The issue has been high on Rousseff's agenda because of the symbolic value, and also because it will further facilitate growing tourism and trade between the two countries.

The rest of the agenda will be more complicated, with areas of possible cooperation stymied by recent events.

For example, Obama administration officials are eager to discuss how the United States can play a greater role in extracting oil off Brazil's coast. But the issue has been tainted by Chevron's recent oil spills off Brazil's coast, which have resulted in lawsuits worth a potential $22 billion and criminal charges against the company and its executives.

Brazil, meanwhile, wants to deepen its military and strategic ties with the United States but was frustrated by the U.S. Air Force's decision in February to cancel a major contract with Brazilian aircraft maker Embraer. The Air Force said an error in the contract's paperwork was to blame and has launched an investigation.

Rousseff is also likely to lodge a complaint over the United States' expansionary monetary policy, which she blames for creating a glut of global liquidity that has made Brazil's exports less competitive abroad.

Dealing with such thorny issues in private may increase the need for a symbolic gesture when it's all over, Naim said.

"They're not really going to accomplish anything," he said. "That would have a more formal reception even more effective ... as a message that the United States really gets Brazil."

(Additional reporting by Laura MacInnis; Editing by Todd Benson and Frances Kerry)
http://www.reuters.com/article/2012/04/06/us-usa-brazil-idUSBRE8350FQ20120406