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quinta-feira, 22 de março de 2012

Você é sanguíneo, fleumático, colérico ou melancólico?

http://epimenta.wordpress.com/

23mar

Detalhe da maior escultura da mostra O sentimento da Arquitetura - Giorgio de Chirico, em cartaz no MASP até 20 de maio de 2012
Giorgio de Chirico é um melancólico.
No outono de 1906, o jovem pintor se matriculou na Academia de Belas Artes de Munique. Com uma doença intestinal, acamado, ele leu — e amou para sempre – a filosofia de Nietzsche, Schopenhauer e Heráclito.
E, a partir de então, elegeu a pintura para exprimir sua melancolia. Dá uma passada lá no MASP para ver.
Mas o que é mesmo a melancolia?
A teoria dos quatro humores foi a principal explicação racional da saúde e da doença entre o século 4 a.C. e o século 17.
Segundo a teoria humoral, como também é conhecida, a vida seria mantida pelo equilíbrio entre quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, procedentes, respectivamente, do coração, sistema respiratório, fígado e baço.
Cada um destes humores teria diferentes qualidades: o sangue seria quente e úmido; a fleuma, fria e úmida; a bílis amarela, quente e seca; e a bílis negra, fria e seca.
Segundo o predomínio natural de um destes humores na constituição dos indivíduos, teríamos os diferentes tipos fisiológicos: o sanguíneo, o fleumático, o bilioso ou colérico e o melancólico.
O melancólico é analítico, abnegado e perfeccionista, o que o faz admirar as belas artes. É introvertido por natureza. Mas as vezes é levado por seu ânimo a ser extrovertido. Outras vezes enclausura-se como caramujo, chegando a ser hostil. É amigo fiel, mas não faz amigo facilmente, por ser desconfiado.
O fleumático, geralmente é calmo, frio, equilibrado e por isso a vida para ele é feliz e descompromissada; raramente explode em risos ou em raiva, conseguem fazer os outros rirem, mas ele mesmo não solta um sorriso sequer. É habilidoso para promover paz e conciliação.
O colério é ardente, vivaz, ativo, prático e voluntarioso. Por ser decidido e teimoso, torna-se auto-suficiente e muito independente. Por ser ativo, estimula os que estão ao seu redor, não cede sobre pressões. Possui uma firmeza no que faz, o que o faz frequentemente obter sucesso.
O sanguíneo é eufórico, vigoroso, vive o presente, esquece facilmente o passado e não pensa muito no futuro. Traz em si otimismo e acredita nas coisas, mesmo em meio às adversidades.

Em qual das categorias você se encaixa? Faça o teste de temperamento

Salve, Jorge!





Escolhas...

Já pulou o muro?

POR EM 16/03/2012

publicado em
Faço das crônicas que redijo um meu Muro das Lamentações, mas está difícil lamentar. Ao lerem-nas, os amigos declaram certa perplexidade, reclamam que ando muito amargo, assim, de secar roseiras. Alguns reclamam do humor negro, da ironia excedente, do palavrório chulo e de suposto mau gosto.
Outros suspeitam estaria eu padecendo de algum tipo de transtorno do humor, quem sabe, depressão, síndrome do pânico, histeria, frescura, pití... Então me indicam médicos, psicólogos, benzedeiras, uísques, chás, hinos, livros de autoajuda, templos, gurus, casas da luz vermelha e até masturbação. Cada qual tem o Muro das Lamentações que merece.
Muros. Quero então falar dos muros. Causou a maior excitação no seio daquela família o fato de Benzinho (codinome do bancário Alcebíades) ter traído a esposa. “Mas logo o Benzinho?!” era o que mais se ouvia nos comentários a respeito da flagrante escapulida. “Eu bem que desconfiava dele”, alguém alfinetou. “Acreditem, estes homens sonsos são os piores”, diagnosticaram as mulheres já calejadas no assunto.
Um dia me perguntaram se eu já tinha pulado o muro e eu disse “sim, sim, várias vezes”. Mal supunha que a expressão “pular o muro” não se referia às minhas peraltices da infância, quando invadia o quintal da casa da Dona Elza para furtar mangas ou resgatar a bola de cobertão desastrosamente chutada às alturas. Carecia fugir em tempo do cão doberman e de Dona Elza.
Em cidades interioranas, vocês sabem, as estórias maledicentes correm a vários giga-baites. Antes do advento da televisão e da internet, tecnologia que concebeu os amiguinhos virtuais e engendrou orgasmos via escaipe, a velocidade das fofocas era bem maior. Era uma época em que as pessoas arrastavam bancos e cadeiras para as calçadas a fim de se sentarem em roda, apreciarem a movimentação dos transeuntes (povo em transe?), das bicicletas e dos pouquíssimos carros, além de comentarem sobre a vida alheia, episódios que certamente não lhe diziam respeito, mas garantia conversas acaloradas até altas horas.
Será que poderíamos deduzir: “bons tempos aqueles, quando vizinhos se visitavam e a criançada brincava no meio da rua”? Na boa, caro leitor: quando foi a última vez que você foi tomar café na casa do seu vizinho? Nem precisa responder. Eu já sei. Você sequer imagina o nome dele, não é mesmo? Sabe que é um advogado, que a esposa dele tem lúpus, e que o filho mais velho é homossexual (aliás, “bicha”, como você prefere dizer, para acentuar o preconceito e a ignorância).
Em Pau Grande, por exemplo, (Não debochem! Pau Grande existe sim, não fica localizado entreascoxas, mas, no Estado do Rio de Janeiro), dizem as más línguas que, se uma mulher está “dando mais do que chuchu no muro”, é porque está copulando além da média (quem concebe este tipo de estatística?), certamente com vários parceiros diferentes, não necessariamente ao mesmo tempo.
Quando uma pessoa está indecisa ou prefere não manifestar seu ponto de vista, diz-se que ele está em cima do muro. O relativismo dos fatos mais uma vez nos surpreende, pois tudo é uma questão de ótica. O que será pior: ficar em cima do muro (indecisão), na frente dele (paredão de fuzilamento) ou atrás (manicômio judicial)?
No início dos anos 80, o filme “The Wall” (O Muro), ópera-roque dirigida por Alan Parker e baseada no disco homônimo da banda inglesa Pink Floyd, fez estrondoso sucesso. Na trama, um muro virtual construído pelo protagonista Pink retratava, mais do que a dureza do tijolo e do concreto (ingredientes básicos para se edificar um muro), os percalços da vida, a educação infantil repressora e a selvageria da guerra. As cenas de crianças sem rosto marchando robotizadas até caírem dentro de um enorme moedor de carne são instigantes.
Na história há muros vergonhosos de todos os naipes. Como aqueles que mantinham os judeus aprisionados em guetos durante o delírio hitleriano da Segunda Guerra. Ou o Muro de Berlim que partia ao meio a Alemanha, transformado em entulho ao final dos anos 80. E agora mesmo, enquanto escrevo este texto, placas monumentais de concreto são levantadas por Israel para repelir os palestinos na Cisjordânia. De que vale tanta história se não aprendemos com ela?
E há também os muros com grife, muros milenares famosos, como a Muralha da China, edificada para coibir o acesso dos invasores. Prefiro muito mais os muros ordinários, como aquele da casa da Dona Elza, a vizinha nervosa que rasgava com canivete nossas desgastadas bolas de cobertão, e no qual, certa feita, alguém pichou “Valéria é puta”.
Da janela do quarto, escondido como sói ocorre aos covardes, eu assistia impassível a Valéria, em prantos, tentando retirar com escovão e detergente os infames dizeres pichados por um desafeto. Ela não conseguiu apagar a pichação e eu jamais apaguei da memória aquela cena tão doída. Valéria não era puta, mas uma adolescente de 13 anos aprendendo a sofrer de (des)amor com os homens.
Nota-se que muros são obstáculos sólidos com múltiplas serventias: cercar, proteger, organizar, esconder, aprisionar, difamar pessoas, derrubar governos, grafitar obras de arte e até escrever poesia. Sobre os mesmos os homens instalam pregos, cacos de garrafa, concertinas e cabos elétricos para ferir invasores, proteger patrimônios. E qual muro nos protegerá de calhordas como aquele que fez Valéria chorar de vergonha?
Recentemente, a prisão de um suposto bandido do colarinho branco dentro de um condomínio de luxo da cidade agitou a sociedade. Não entendi tanta euforia. Por ventura alguém supunha fossem os abonados que residem intra-muros baluartes da honestidade e da decência?
Sabe-se que estes nichos de luxo jamais ficam imunes aos abusos e às transgressões, porquanto habitados por gente. Da mesma forma, ali dentro violam-se as leis de trânsito, executam-se pequenos delitos, maridos surram suas mulheres com certa privacidade e os desordeiros deseducados importunam a vizinhança com os altíssimos decibéis de música ruim.
Quando eu me mudei para um destes condomínios (sim, eu também imaginei que pudesse fugir da violência urbana refugiando-me numa redoma), uma das primeiras e mais estarrecedoras cenas que presenciei foi um garoto de 12 anos dirigindo um automóvel. Com cuidado, persegui o veículo até que ele fosse abandonado numa esquina e o moleque batesse em disparada para casa.
Na portentosa mansão rolava uma festa. Visivelmente inebriada, a mãe do aprendiz da delinquência pediu a mim mil desculpas, implorou que o fato não fosse denunciado às esferas legais e garantiu que aquela era “a primeira vez na vida” que o seu filho dirigia um automóvel. “Crianças fazem traquinagens, o senhor sabe... Um momento de vacilo da gente e pronto: eles aprontam...”.
Então percebi que os muros não eram tão relevantes quanto eu supunha, ao ponto de recear pulá-los. Por onde andará Valéria?


A visita de um passarinho






Sem filosofia não se faz ciência. Sem filosofia não se faz história. Sem filosofia não se escrevem poemas de amor, nem se conhecem as estrelas. Sem filosofia não se fotografa um beija-flor voando. Sem filosofia não se descobrem propulsões alternativas para viagens interplanetárias. Sem filosofia não se explica o mundo. Sem filosofia não se tem orgasmo. Sem filosofia não se vive a vida. Sem filosofia não se encontra Deus.

***

Tem hora de parar — e tem hora de partir. Tem hora de permanecer quieto e calado num canto, e tem hora de cantar e de voar. E agora não é hora de dobrar as asas, nem de catar gravetos para fazer o ninho. Não é hora de buscar consolo, nem de caiar o túmulo. Portanto, não envenene com teu medo a minha dança. Seja só uma testemunha desta vertigem. Porque agora, agora é hora de voar. É hora de abrir-me a todas as possibilidades. E saltar num voo livre e sem destino para dentro de mim mesmo.
 
 
 
***


Meu coração pulsa sempre em nome da alegria.
Tenho noventa mil quilômetros
de vasos sanguíneos,
todos repletos
de flores, estrelas.
Sou movido a emoções.
Eu vivo saltando profundo...
Toda hora, todo primeiro, todo segundo.


EdsonMarques.com

quarta-feira, 21 de março de 2012

Aqui - Da Menina - Tulipa Ruiz


“Dancers among us”

“Dancers among us” ou a celebração da vida, por Jordan Matter

publicado em fotografia por
 
Quantos de nós já sentiram uma vontade urgente e irreprimível de dançar em locais e momentos inapropriados? E quantos de nós efetivamente o fazem? Por que razão, à medida que vamos envelhecendo, reprimimos tantas vezes a nossa euforia e entusiasmo, quando estamos em público? Em que momento perdemos a magia do mundo de fantasia que criámos em criança? Estas questões foram o mote para que o fotógrafo americano Jordan Matters criasse o projeto “Dancers Among Us”, uma representação da vida como ela realmente deveria ser vivida.
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© Jordan Matter, "Dancer Among Us" - in San Francisco (Sharon Gallagher).

Inspirado nas brincadeiras do seu filho de três anos, Jordan Matter quis criar fotografias que mostrassem o mundo como se ele fosse visto pelos olhos fantásticos de uma criança. Ao assistir a uma performance da Companhia de Dança Paul Taylor, soube imediatamente que tinha encontrado os parceiros perfeitos para esta “brincadeira”. Na sua cabeça, tudo fez sentido: os dançarinos são contadores de histórias; são treinados para encarnar momentos apaixonantes e os seus corpos são uma impressionante combinação atlética e artística.
O projeto começou na Primavera de 2009, sem trampolins ou qualquer outro apoio: apenas vontade e muitas horas de treino e, com ele, Jordan e os dançarinos criaram um mundo de fantasia, oferecendo-nos um olhar mais demorado sobre cenários e situações quotidianas que nos são familiares.
De forma contagiante, deram vida ao que sentimos mas que, tantas vezes, não temos capacidade ou coragem para expressar fisicamente. Sorrindo, voando bem alto ou deitando-se no chão, celebraram o que a maior parte das pessoas parece ignorar, trazendo luz e dando vida a momentos do quotidiano.

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© Jordan Matter, "Dancer Among Us" - in Columbus Circle (Michelle Fleet).

Neste mundo de fantasia, nada é demasiado pequeno ou insignificante: comer, fazer compras, dormir, trabalhar, brincar, limpar, namorar – seja qual for a atividade, é recheada de paixão, intensidade e humor. O resultado: imagens impregnadas de alegria, energia e humor que contagiam quem vê com uma indelével sensação de bem-estar. O antídoto inesperado para a crescente ansiedade que caracteriza a vida atual.
Jordan confessa que criou estas imagens para os seus filhos. Porque são o seu bem mais precioso. Estas fotografias representam, segundo ele, os sonhos que tem para eles, com maior realismo e verdade do que alguma palavra alguma vez o poderia fazer: “apreciem os momentos – importantes ou insignificantes -, apreciem a beleza que vos rodeia e vivam!”.
Ao vermos o trabalho de Jordan, vêm-nos à memória, inevitavelmente, as palavras de Ana Maria Schall: “A vida é curta, quebre regras, perdoe rapidamente, beije demoradamente, ame verdadeiramente, ria incontrolavelmente, e nunca deixe de sorrir, por mais estranho que seja o motivo. A vida pode não ser a festa que esperávamos mas, enquanto estamos aqui, devemos dançar.
E podemos dizer, como José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

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© Jordan Matter, "Dancer Among Us" - in Central Station (Jake Szczypek).
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© Jordan Matter, "Dancer Among Us" - in Sarasota (Danielle Brown).
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© Jordan Matter, "Dancer Among Us" - in Times Square (Jeffrey Smith).
Site Jordan Matter


Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2012

My Girl - The Temptations



Estímulos precoces ajudam criança Down

 


Pais precisam atentar para problemas de audição, visão e músculos, que atrapalham tanto quanto os mentais

Combinação complexa e pouco compreendida de fatores genéticos e ambientais leva à variação entre pacientes


O judoca Breno Viola, com a mãe, Suely
O judoca Breno Viola, com a mãe, Suely

MARIANA VERSOLATO
SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO


O diagnóstico de síndrome de Down deixou, há tempos, de ser uma sentença que determina o potencial de alguém. Com expectativa de vida cada vez maior e mais qualidade de vida, portadores e suas famílias têm muito a comemorar hoje, Dia Mundial da Síndrome de Down.

Mas o que faz com que as crianças com a síndrome consigam se desenvolver ao máximo ainda é tema de discussão enquanto elas vão à universidade e estão cada vez mais incluídas socialmente.
"O tratamento e acompanhamento das patologias associadas faz uma grande diferença", diz Fabíola Pelissoni Vicente, médica geneticista da Apae de São Paulo.

Isso porque pessoas com Down têm mais chance de ter doenças como problemas cardíacos, hipotireoidismo, doença celíaca e leucemia.

Os males cardíacos podem atingir cerca de 50% das crianças com Down. Se não receberem tratamento, podem afetar o desenvolvimento da criança como um todo e ter repercussão em outros sistemas, como o nervoso.

VISÃO E AUDIÇÃO

Problemas de visão, audição e tônus muscular também são obstáculos ao desenvolvimento e à aprendizagem, independentemente do atraso intelectual.

É por isso que o acompanhamento médico deve ser feito desde o começo e ser constante, explica Vicente.
A estimulação deve ser iniciada o quanto antes, diz Patricia Tempski, médica e coordenadora do ambulatório de cuidado à saúde da pessoa com síndrome de Down do Instituto de Medicina Física e Reabilitação, ligado à USP.

A equipe deve ter fisioterapeuta, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional para aprimorar a dicção, a força muscular e outras habilidades.

"O maior ganho para crianças com ou sem síndrome de Down acontece nos primeiros anos de vida, quando se desenvolve a capacidade de os neurônios formarem novas conexões", diz Vicente.

Quantificar ou prever esse ganho, porém, não é uma tarefa possível, diz Tempski.

"Todo investimento é colhido, mas o quanto cada criança vai se desenvolver depende de um conjunto de fatores, como o acompanhamento médico, a estimulação pela família e doenças associadas, como o autismo."

Há diferentes apresentações do padrão genético da síndrome. No tipo mosaico, uma porcentagem pequena de células afetadas pela alteração genética pode levar a um desenvolvimento maior, quase idêntico ao de uma pessoa sem a síndrome.

Tempski diz ainda que o enfoque dos pais e da equipe deve ser na autonomia da pessoa com Down.
A dificuldade de encontrar informações sobre a síndrome que afeta a filha Beatriz, de um ano e 9 meses, fez com que a advogada Maria Antônia Goulart fizesse um site por conta própria.

O portal "Movimento Down" (movimentodown.org.br), patrocinado pela Amil, que será lançado hoje em Brasília, vai aglutinar informações dispersas sobre Down de maneira acessível.

A ideia é escrever para os portadores e não portadores da doença. O site terá colaboradores com Down.
Para Goulart, a falta de informações "dá uma angústia porque você não entende a situação que está vivendo".
 
http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/03/estimulos-precoces-ajudam-crianca-down.html

Burrocracia

 

MARTHA MEDEIROS - 



Recebi convite para participar de um evento literário em João Pessoa. Já quase não viajo a trabalho, preciso ficar mais tempo no meu escritório, mas respondi que, dependendo da data, talvez conseguisse ir. Foi então que me chegou uma lista de documentos que eu deveria providenciar para viabilizar minha participação.

Não acreditei. Nem para um ex-presidiário acusado de desfalque do Banco Central exigiriam tamanha quantidade de certificados de idoneidade moral e financeira. Eu teria que passar uma semana percorrendo cartórios e contratar um ou dois advogados. Muito grata, mas fica pra próxima.

Nunca vi um país se entravar tanto. Nada avança em ritmo razoável. As incensadas obras prometidas para a Copa do Mundo são apenas um exemplo. Afora maledicências, pilantragens e disputas de poder, ainda temos a questão da papelada: é 1 milhão de pareceres, assinaturas, carimbos e rubricas que impedem o andar da carruagem. Pois é, ainda estamos nos tempos da carruagem, trotando.

Durante a enxurrada que desabou sobre Porto Alegre, semana passada, tivemos mais do mesmo: ruas alagadas nos pontos de sempre. Ok, o asfalto não absorve a água, o lixo é jogado em locais impróprios e choveu o esperado para o mês inteiro. Mas não há pessoas dentro das secretarias de governo sendo pagas para resolver os problemas da cidade?

Vai chover de novo, e forte. E os carros ficarão boiando, poucos conseguirão chegar ao trabalho, o comércio terá que fechar, moradores perderão seus móveis, grávidas terão que ser retiradas de barco de dentro de suas casas. É um déjà vu recorrente.

Como não imagino que haja almas satânicas por trás da nossa administração, só posso pensar que a burocracia tem algo a ver com isso. Quantos estudos, laudos, aprovações, orçamentos, prazos remarcados, projetos refeitos serão necessários para resolver nossas pendências? É o país da novela, de fato.

Fizemos progresso na emissão de documentos pessoais – hoje se pode tirar uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade sem trâmites e demoras, mas ainda falta, como falta, para a gente ser uma nação que flui. A expressão “é pra ontem”, que configura a pressa, passou a ser literal. Não conseguimos sair do ontem e entrar no amanhã.

Os reféns da burocracia se defendem dizendo que não é culpa deles, exige-se o cumprimento da lei, e estão certos, senão vira bagunça. Mas alguém lá em cima, com a caneta na mão, tem o dever de promover mais agilidade nesse Brasil que só é rápido na informalidade. Há que se encontrar um meio de trabalhar de forma legal e ao mesmo tempo atender as demandas em prazo de país desenvolvido, que é o que almejamos ser.

O que é preciso para promover a desburocratização? Claro, uns 3.479 estudos de viabilidade. Pocotó, pocotó.
 
 
http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/03/martha-medeiros-burrocracia.html