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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Nelson Rodrigues por ele mesmo

Leia algumas frases do dramaturgo



"Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar."

  

"Nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais."

"O ginecologista é o adultério da mulher fiel."

 
"Qualquer indivíduo é mais importante do que a Via Láctea."
 

"Só os profetas enxergam o óbvio."

 
"Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor."
 

"O dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro."

 
"O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade."
 

"Sem alma não se chupa nem um chicabon."

 
"O amigo nunca é fiel. Só o inimigo não trai nunca. O inimigo vai cuspir na cova da gente."
 

"A fidelidade devia ser facultativa."

 
"O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca."

 "Amar é ser fiel a quem nos trai"

Relembre obras adaptadas para o cinema e a TV






Foto 25 de 45 - Cartaz do filme "Álbum de Família", de Braz Chediak (1981) Divulgação

Personagens nos enredos de Nelson Rodrigues

No centenário de Nelson Rodrigues, relembre os personagens mais marcantes de sua obra

James Cimino
Do UOL, em São Paulo
  • Cena do filme "O Beijo no Asfalto", de Bruno Barreto, com Tarcísio Meira e Ney Latorraca  (1980)Cena do filme "O Beijo no Asfalto", de Bruno Barreto, com Tarcísio Meira e Ney Latorraca (1980)
Nunca um dramaturgo retratou com tanta ironia, sofisticação e propriedade a hipocrisia e as perversões da sociedade brasileira quanto Nelson Rodrigues. Jornalista policial e esportivo desde a adolescência, o autor encontrou em sua experiência profissional e em suas tragédias pessoais a inspiração para suas 17 peças, nove romances e inúmeros contos da série “A Vida Como Ela É”, que estreou em 1950 no jornal “Última Hora”.

Frequentemente chamado de gênio, machista, misógino, reacionário e conservador, Nelson criou uma galeria de personagens ímpares. Em comemoração ao centenário de seu nascimento em 23 de agosto de 1912, o UOL listou dez tipos inesquecíveis criados pelo autor.

O corno

Presente em diversas de suas peças, esse tipo ganhou uma representação em “A Viúva Alegre”, parte da série “A Vida Como Ela É”. Representada na TV com Tony Ramos e Maitê Proença no elenco, a crônica narra a história de “seu” Neves. Chefe de uma repartição pública, casado por interesse com uma mulher que só o humilha, a história começa no dia da morte de um de seus funcionários. Neves vai ao velório oferecer sua solidariedade à bela viúva, mas acaba descobrindo que o funcionário morto era, na verdade, amante de sua mulher. Como vingança, acaba ficando com a viúva.

A adúltera

Uma das mais famosas adúlteras da literatura brasileira foi interpretada no cinema por um dos maiores símbolos sexuais do Brasil dos anos 1970. Sonia Braga deu vida à “Dama do Lotação”, uma mulher casada que, após ser estuprada pelo marido na noite núpcias, passa a rejeitá-lo. Para satisfazer seus desejos, no entanto, ela seduz homens desconhecidos dentro de ônibus urbanos (os chamados lotações).

O gay enrustido

Já na década de 1960, Nelson Rodrigues discutia com maestria um tema tabu ainda hoje na sociedade brasileira: a homossexualidade. “O Beijo no Asfalto” conta a história de Arandir, um homem casado que ao presenciar o atropelamento de um desconhecido beija-lhe a boca como último pedido. Um jornalista presencia o fato e dá ares de sensacionalismo à história ao insinuar que o protagonista e o morto eram amantes. Arandir acaba morto pelo próprio sogro, que era apaixonado pelo genro e se sentiu traído ao presenciar a insólita cena.

O jornalista

Ainda em “O Beijo no Asfalto”, Nelson Rodrigues discute com propriedade a questão da manipulação da notícia na imprensa. Profundo conhecedor do assunto, cria nessa peça a figura de Amado Ribeiro, um repórter sem escrúpulos que não hesita em forjar provas e arrancar à força testemunhos para condenar Arandir por um crime que ele nunca cometera.

O bicheiro

Esta figura típica da sociedade carioca foi retratada pelo escritor na peça “O Boca de Ouro”. Ela narra a história do personagem homônimo, uma figura popular, carismática e ao mesmo tempo temida pelo poder e influência que exerce em sua vizinhança. Nascido em uma pia de gafieira, o Boca tem uma obsessão com ouro e riqueza, por isso manda arrancar todos os dentes da boca e os substitui por próteses feitas do valioso metal.

A ninfeta

Outro personagem bastante presente às peças de Nelson Rodrigues é a adolescente sexy que se utiliza da sensualidade premeditadamente. Em “Diabólica”, o dramaturgo cria a figura de Dagmar, uma jovem que seduz o noivo da própria irmã. Enlouquecido, o ex-futuro cunhado acaba matando a menina.

A recalcada

Dentre as diversas representações exacerbadas dos defeitos e virtudes femininos, destaca-se na obra do autor a figura da mulher recalcada. Em geral ela tem inveja da beleza de suas amigas ou de sua felicidade conjugal. Em uma de suas crônicas, chamada “Marido Fiel”, Nelson retrata uma vizinha fofoqueira que planta na cabeça de sua “amiga” a dúvida quanto à fidelidade do marido, que ia todos os domingos “ver jogo do Flamengo no Maracanã”. Satisfeita ao constatar que as idas ao estádio eram uma mentira e ao ver a infelicidade da vizinha, Rosinha, a dedo-duro, acaba sendo atropelada por um lotação. O conto termina com a mulher traída agarrada ao corpo da moribunda gritando: “Bem feito! Quem mandou me abrir os olhos?!”

O “mártir”

Dono de um humor bastante peculiar, Nelson Rodrigues criou a figura do mártir, que é nada além do homem que se divide entre duas ou mais mulheres. “Mártir em Casa e na Rua” é uma de suas crônicas que mostra o personagem Durval, na TV interpretado por Antonio Calloni, tendo que atender aos caprichos da mulher e da amante. Como ambas exigiam que ele jantasse com elas, Durval passa a ter de comer duas vezes. Um dia, as duas preparam vatapá. Quando chega à casa da mulher e dá de cara com o prato, vai ao banheiro e se mata com um tiro no estômago. Antes, escreve no espelho a seguinte frase: “Morro porque não quero mais jantar duas vezes.”

A virtuosa

A pecha de machista adquirida pelo autor ao longo de sua vida se deve a personagens como Engraçadinha, do romance homônimo. Extremamente religiosa e guardiã feroz da virtude de sua filha, a protagonista da peça esconde um passado tenebroso, em que se apaixonara e engravidara, sem saber, do próprio irmão.

A família perfeita

Obcecado pela hipocrisia em torno das famílias cariocas de classe média dos anos 1950 e 1960, o autor criou uma de suas peças mais polêmicas. Com fortes tinturas psicológicas, “Álbum de Família” retrata um grupo familiar em que o incesto impera. O pai ama a filha, que ama o irmão, que ama a mãe, que ama outro filho, que por sua vez enlouquecera por ter transado com a própria mãe.


http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2012/08/23/no-centenario-de-nelson-rodrigues-relembre-os-personagens-mais-marcantes-de-sua-obra.htm

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Casa no Campo - Elis Regina


O que vai e o que fica

 
 
Ao encaixotar minha vida mais uma vez, minhas certezas viraram muitas perguntas.
A cada 10 anos me dá um desassossego, tenho que sacudir a poeira, dá um rolê, mudar...
Estou prestes a mudar de endereço, ocupar minha casa que tanto desejei ter, só minha, para meus discos e meus livros, minha familia, amigos do peito e essa paz que ando atrás já faz muito tempo...
Hora de enfiar minha vida em caixas, o que guardar, o que jogar fora, o que doar, o que trás sorrisos e o que nem as lágrimas merecem... Não sou uma pessoa desapegada, gosto de conforto e me cercar de coisas que para mim são gostosas e me trás prazer, não me desgrudo dos meus discos, cds & dvds, por nada neste mundo, ainda que já me pese muito carrega-los, meus livros, alguns quadros pintados por amigos e a mim regalados e meus retratos, o resto pode até ir ou vir que não causa tanta dor.
É sempre surpreendente avaliar o que realmente é importante na sua vida e o quanto dela você quer guardar, ou não...


RS 08/22/12
 

" Fonte " Maria Bethânia



Meu boa noite vai com essa bela musica !!!

domingo, 19 de agosto de 2012

‘Porventura’ - Antonio Cicero

Em ‘Porventura’, Antonio Cicero rima (e não rima) poesia com filosofia


seg, 13/08/12
por Luciano Trigo |
 

Autor do consagrado ‘Guardar’ (1997) e ‘A cidade e os livros’ (2002), o filósofo Antonio Cicero lança hoje o seu terceiro livro de poemas, Porventura (Record, 80 pgs. R$24,90), na Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio de Janeiro. Nos 35 poemas que o volume reúne, Cicero dialoga com elementos da cultura clássica, em referências e alusões nem sempre óbvias, mas ao mesmo tempo envolve o leitor pela leveza coloquial no tratamento de temas sérios como a morte. Nesta entrevista, ele fala sobre seu processo de criação, compara as atividades de poeta e de letrista e explica por que demorou tanto para publicar poesia.

Antonio Cicero

- Seu livro de estreia na poesia, ‘Guardar’, foi relativamente tardio. Por que não publicou antes?
ANTONIO CICERO: No princípio, em parte, por timidez. E não era fácil publicar um livro de poesia. Mais tarde, na faixa dos 20 aos 30 anos, quando eu deveria ter pensado em publicar, experimentei um conflito intenso entre meu intelecto e minha sensibilidade. É que, nessa época, as reflexões mais inteligentes sobre poesia eram feitas, no Brasil, pelos poetas concretistas. Como intelectuais, eles me pareciam exemplares: eram modernos, cosmopolitas, inovadores, ousados. Eles tiveram a coragem de repensar a própria história da poesia. Ao mesmo tempo, eram abertos para fenômenos normalmente desprezados pelos intelectuais de alto coturno. Em ‘Balanço da bossa’, por exemplo, Augusto de Campos trata, com grande sensibilidade, inteligência e erudição, de fenômenos como o iê-iê-iê e o tropicalismo.
Entretanto, os concretistas foram atacados com tal virulência que, no calor da polêmica, preferiram, como é natural, acirrar a abrandar as suas posições. O fato é que eles acabaram afirmando, por exemplo, que o ciclo do verso na poesia havia chegado ao fim. Pois bem, por um lado, as ideias deles, inclusive essa, eram extremamente atraentes e estimulantes, do ponto de vista intelectual. Por outro lado, enquanto poeta, o que eu mais gostava – e mais gosto – de ler e de fazer é poesiaem verso. Issome levou a um impasse. O resultado foi que, nessa época, eu me dediquei muito mais à filosofia, que também adoro, do que à poesia.
A bem da verdade, o impasse com a poesia só começou a se desfazer quando comecei a fazer letra de música, já na faixa dos 30 anos. Isso se tornou concebível para mim a partir do momento em que minha irmã, Marina, pôs música num poema meu. Mas duas coisas também contam: o convívio com Caetano Veloso e Gilberto Gil, em Londres, onde eu estudava, e a leitura do já citado ‘Balanço da bossa’, de Augusto de Campos. Depois, por minhas próprias reflexões, compreendi que, independentemente do discurso vanguardista, o verdadeiro sentido histórico das vanguardas havia sido o de abrir portas, e não o de fechá-las. Assim, independentemente do que os concretistas afirmavam naquela época, o concretismo abriu a possibilidade da poesia fora do verso, mas não fechou – nem poderia tê-lo feito – a possibilidade da poesia no verso.
Mas o que acabo de relatar foi apenas uma das razões circunstanciais da minha demora em publicar livros de poemas. Há outra, mais fundamental, que continua em vigor: é que demoro muito a fazer os meus poemas. Eles solicitam muito de mim. Justamente hoje, quando há mais pessoas escrevendo do que lendo poesia, para mim é difícil escrever poesia.
- Que relação você estabelece entre ’Guardar’, ‘A cidade e os livros’ e ‘Porventura’? O que cada livro tem de diferente em relação aos outros?
CICERO: Não é fácil para mim pensar sobre meus livros com a distância necessária para explicar bem suas diferenças. Em certo sentido, creio que ‘Porventura’ se aproxima mais de ‘Guardar’, pela relativamente grande variedade formal dos poemas.
- Muitos poemas seus parecem nascer de uma ideia, de um conceito a partir do qual você constrói o poema, que ilustra a ideia, como uma demonstração. É isso mesmo?
CICERO: Às vezes eu começo com uma ideia, mas frequentemente a coisa toda muda, no caminho. Por exemplo, o poema que abre o livro, ‘Balanço’, foi provocado pela melancolia resultante da morte de um grande amigo. Era sobre isso que eu tencionava escrever. No entanto, disso ficaram apenas as palavras “é a morte alheia / que me abate”. O poema se transformou, digamos, por conta própria, num “balanço” da vida, coisa que eu não havia previsto.
O poema ‘Amazônia’ surgiu a partir de uma encomenda de Silviano Santiago, que organizava uma publicação sobre a Amazônia. Aliás, como o nome dele, “Silviano”, significa “pertencente à selva”, eu o incluí no corpo do poema. Entretanto, ao falar da Amazônia, ocorreu-me a história de Orelhana; através dela, lembrei-me da lenda grega das Amazonas; a partir daí, da mitologia e dos primeiros poetas gregos…
Outro exemplo: O poema ‘Valeu’ foi provocado pela própria palavra “valeu”, que funciona popularmente como uma espécie de agradecimento e despedida, ou como uma despedida agradecida. Esse sentido me lembrou do fato de que, em latim, “vale” significa “adeus”. E me lembrei do belo poema que Catulo compôs ao fazer uma longa viagem até o local em que seu irmão havia morrido, longe de Roma, que termina com o verso: “atque in perpetuum, frater, ave atque vale” (“e para sempre, irmão, salve e adeus”).
capa- Que relação existe entre a sua poesia e a sua filosofia?
CICERO: São muito diferentes. Na poesia, eu me deleito com o relativo e o particular. Na filosofia, busco a verdade absoluta e universal. Um poema consiste numa síntese concreta de múltiplas determinações; um texto filosófico é abstrato. Por outro lado, penso que a filosofia intrinsecamente afirma a razão e a liberdade, e isso significa também defender o espaço da poesia no mundo. E, como qualquer coisa pode, enquanto parte de suas múltiplas determinações, entrar num poema, pode nele entrar a emoção, a sensibilidade, a cultura, e o conhecimento: inclusive o que sei de literatura, de sociologia, de economia e… de filosofia.
- E qual é a relação entre a sua poesia e o seu trabalho como letrista?
CICERO: Quando faço um poema, penso apenas nele. Um poema já é – ou pretende ser – uma obra de arte. Trata-se de um objeto autotélico. Quando faço uma letra, penso na melodia para a qual o estou fazendo (quase sempre faço uma letra para uma peça musical dada), penso no compositor (ou compositora) para o (ou a) qual a estou fazendo e penso no cantor (ou na cantora) que vai interpretar a canção. A letra não é ainda necessariamente uma obra de arte. Ela fará parte da obra de arte que será a canção pronta. Essas diferenças são consideráveis. É claro que é possível – porém não é necessário – que uma letra seja um bom poema para ser lido, independentemente da canção. Entretanto, ela pode ser uma grande letra mesmo quando isso não se dá, desde que contribua para fazer uma grande canção. E um poema não é necessariamente melhor do que uma canção. Cada obra de arte tem que ser julgada individualmente, e não como membro de uma espécie.
- Fale um pouco sobre o seu processo de criação: o que te inspira, e o que você busca quando se senta para escrever diante da página (da tela?) em branco?
CICERO: Qualquer coisa pode ser o estopim. Pode ser, por exemplo, uma frase que eu tenha ouvido no metrô; uma palavra que eu tenha lido num livro; a lembrança de uma pessoa ou de um lugar etc. A partir disso, esboço uma ideia. Ou então tento, como você diz, desenvolver uma ideia. Em algum ponto, decido a estrutura global do poema: se será longo ou curto, se será dividido em estrofes; se os versos serão livres ou metrificados; se serão rimados ou brancos etc. Às vezes, uma primeira decisão parece impor todas as demais, que vêm como que natural e impensadamente; às vezes, ela se dá como uma crise que aguarda uma solução; às vezes, é preciso refazer tudo. Revejo tudo frequentemente, retiro tudo o que penso ser supérfluo, modifico o que não me parece bem, adiciono o que falta, reduzo o poema ao que deve ser, até que ele resplandeça. O que resplandece é o que vale por si: o que merece existir. Isso tudo pode acontecer rapidamente (digamos, numa tarde), ou pode demorar dias. E o poema pode nunca ficar pronto.
- Alguns poemas, como aqueles que evocam a infância, sugerem uma investigação autobiográfica. A poesia funciona também como uma forma de auto-análise?
CICERO: Para mim, não é que a poesia funcione como auto-análise, mas que algumas memórias – do mesmo modo que algumas ideias ou sensações – funcionam como elementos a partir dos quais eu construo o poema.
- Você pensa no leitor quando escreve um poema? Em que leitor você pensa?
CICERO: Penso num leitor ideal, que aprecie e conheça poesia, e que reconheça todas as alusões explícitas e implícitas nos poemas.
- Como avalia a situação da poesia brasileira hoje? Com que poetas em atividade você dialoga?
CICERO: É difícil julgar a época em que nos encontramos, mas tenho a impressão de que se trata de uma época bastante fecunda. Vou citar – em ordem alfabética – alguns dos poetas da minha geração ou mais jovens cujos livros – publicados – são importantes para mim. É claro que, provavelmente, vou esquecer um ou outro dos mais importantes, mas que fazer? Peço-lhes desculpas pelo lapso. Cito, então, Adriano Espínola, Alberto Pucheu, Alex Varella, Antonio Carlos Secchin, Armando Freitas Filho, Arnaldo Antunes, Cláudia Roquette Pinto, Eucanaã Ferraz, Francisco Alvim, Marco Lucchesi, Nelson Ascher, Omar Salomão, Paulo Henriques Britto, Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Salgado Maranhão.

DOIS POEMAS DE ‘PORVENTURA’

Palavras aladas
Os juramentos que nos juramos
entrelaçados naquela cama
seriam traídos se lembrados
hoje. Eram palavras aladas
e faladas não para ficar
mas, encantadas, voar. Faziam
parte das carícias que por lá
sopramos: brisas afrodisíacas
ao pé do ouvido, jamais contratos.
Esqueçamo-las, pois, dentre os atos
da língua, houve outros mais convincentes
e ardentes sobre os lençóis. Que esses,
em futuras noites, em vislumbres
de lembranças, sempre nos deslumbrem.
Balanço
A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.


http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2012/08/13/em-porventura-antonio-cicero-rima-poesia-com-filosofia/

sábado, 18 de agosto de 2012

Moonlight Serenade - Frank Sinatra


Feche os olhos... escute... eu mandei Frank Sinatra fazer uma serenata pra você...
Close your eyes... listen... I've send Frank Sinatra to serenade you...

Uma canção para um filme de Godard

NOUVELLE VAGUE

Perdido no YouTube, descobri (redescobri?) uma canção francesa que não merecia o esquecimento. Ela apareceu numa cena cheia de charme de "O demônio das onze horas" ("Pierrot le fou"), interpretada por Anna Karina. Do filme de Godard, ela se transferiu para um LP de Jeanne Moreau _ "Chante 12 nouvelles chansons de Cyrus Bassiak". E ressurge agora qui no blog. Aí em cima, está a cena do filme; aqui embaixo, a faixa do disco da Moreau. É "Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujours". Cyrus Bassiak foi o pseudônimo que o pintor iraniano Serge Rezvani usou nos anos 60 para creditar suas composições musicais.



“Amigo da Onça”

O amigo da onça original

Personagem do cartunista Péricles ganha animações 3D inspiradas nas charges de O Cruzeiro
  • Foto: Divulgação/JAL
  • Foto: Estúdio Saci
  • Foto: Reprodução/O Cruzeiro
  • Foto: Reprodução/O Cruzeiro
  • Foto: Reprodução/O Cruzeiro
Foto: Divulgação/JAL
Foto: Divulgação/JAL
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Ciador e criatura: o cartunista Péricles e seu mais famoso personagem
 
 
O adjetivo todo mundo já ouviu. Ele invadiu o léxico brasileiro em uma piada e ganhou corpo na redação da revista O Cruzeiro. Foi ali que o cartunista Péricles criou um homem sem pescoço e com cara de fuinha que eternizou a expressão “Amigo da Onça”, ao mesmo tempo que concebeu o embrião genealógico do humor negro dos Fradinhos de Henfil e dos Skrotinhos de Angeli.
Em 2010, o Estúdio Saci começou a produzir curtas inspirados nas charges de Péricles. "Tudo começou comigo e o Jal. Depois, tocamos os trabalhos em parceria com o Núcleo de Animação 3D do Senac", contou Fernando Carvall, cartunista e diretor do estúdio. O Jal em questão é José Alberto Lovetro, criador do Trofeu HQ Mix e detentor dos direitos sobre o Amigo da Onça.
"O personagem tem uma relação imagética com o público. Todos esperavam ansiosos a nova charge do Onça", relembra Jal. "Nos anos 90 fiz um acordo com a dona Angélica, viúva de Péricles, para começarmos a produzir novas tiras". Assim as portas se abriram para a produção da animação, em busca de um público novo para o Amigo da Onça.
"Pouca gente liga a expressão ao personagem. As adaptações 3D colocam o pessoal mais jovem em contato com o Onça", explicou Carvall, fazendo coro com o parceiro de roteiros. "Basta você fazer uma coisa que não seja legal para seu amigo que você será para sempre conhecido como amigo da onça", encerra Jal.


A piada que originou a expressão Amigo da Onça:
Dois caçadores conversam:
- O que você faria se uma onça aparecesse?
- Ora, dava um tiro nela.
- Mas se não tivesse nenhuma arma?
- Então eu usava meu facão.
- E se estivesse sem facão?
- Subiria na árvore mais próxima!
- E se não tivesse nenhuma árvore?
- Sairia correndo.
- E se você estivesse paralisado?
Então o outro retruca:
- Mas você é meu amigo ou amigo da onça?


Um pouco mais sobre o criador do Amigo da Onça
Péricles De Andrade Maranhão nasceu em Recife (PE) em 14 de agosto de 1924. Aos 19 foi escolhido para desenhar o Amigo da Onça, criando mais de duas mil charges do personagem em 17 anos. Cometeu suicídio no reveillon 1961, asfixiado por gás de cozinha. Fez sua última piada deixando um bilhete na porta de casa pedindo: “por favor, não risquem fósforos”


http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/o-amigo-da-onca-original.html

Botecos





Luis Fernando Veríssimo


Tinha uma mania: colecionava botecos. Não os frequentava, apenas Era um estudioso. Gostava de descobrir botecos e recomendar para os amigos. Ultimamente, vinha se especializando — um refinamento da sua paixão — no que chamava de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar.
Seu rosto se iluminava na frente de um boteco asqueroso recém-descoberto. Não resistia e entrava. Depois contava para os amigos.
— Uma glória. Sabe ovo boiando em garrafão com água?
— Repelente, não é?
— As galinhas não os receberiam de volta. A própria mãe! Descrevia o boteco com carinhoso entusiasmo.
— E que moscas. Mas que moscas!
Só não tinha paciência com o falso sórdido. Alguns botecos assumiam suas privações como uma declaração de falta de princípios. Ele preferia o sórdido inconsciente, o sórdido autêntico. Principalmente, o sórdido pretensioso. Uma vez contara, extasiado, uma cena. Terminara de comer uma inominável almôndega, pedira um palito para o dono do boteco e desencadeara uma busca barulhenta e mal-humorada, com o dono procurando por toda parte e gritando para a mulher:
— Cadê o palito?
Finalmente o dono encontrara o palito atrás da orelha e o oferecera. Ele se emocionava só de contar.
Os amigos, sabendo da sua paixão, mantinham-se atentos para botecos sórdidos que pudessem interessá-lo. Muitos ele já conhecia.
— Um que tem uma Virgem Maria pintada num espelho com uma barata esmigalhada de tapa-olho? Vou seguido lá. A cachaça é tão braba que tem bula com contra- indicação.
Outro dia lhe trouxeram a notícia do pior dos botecos. Não era um boteco de quinta categoria. Era um boteco de última categoria. Ficava no limite entre a vida inteligente e a vida orgânica. Ele precisava ir lá verificar. Foi no mesmo dia. Ficou estudando o boteco de longe, antes de se aproximar. Tinha um garoto na porta do boteco. A função do garoto era atacar cachorros sarnentos. Quando passava um cachorro sarnento o garoto o enxotava — para dentro do boteco!
Ele atravessou a rua na direção do boteco com aquele brilho no olhar que tem o pesquisador no limiar da grande revelação, ou o santo antes do doce martírio.
E tem a história do Nascimento, que um dia quase brigou com o garçom porque chegou na mesa, cumprimentou a turma, sentou, pediu um chope e depois disse:

_ E trás aí uns piriris.

_ O que? – disse o garçom.

_ Uns piriris.

_ Não tem.

_ Como, não tem?

_ “Piriris” que o senhor diz é...

_ Por amor de Deus. O nome está dizendo. Piriris.

_ Você quer dizer – sugeriu alguém, para acabar com o impasse – uns queijinhos, uns salaminhos...

_ Coisas pra beliscar – completou o outro, mais científico.

Mas o Nascimento, emburrado não disse mais nada. O garçom que entendesse como quisesse. O garçom, também emburrado, foi e voltou trazendo o chope e três pires. Com queijinhos, salaminhos e azeitonas. Durante alguns segundos, Nascimento e o garçom se olharam nos olhos. Finalmente o Nascimento deu um tapa na mesa e gritou:

_ Você chama isso de piriris?

E o garçom, no mesmo tom:

_ Não. Você chama isso de piriris!

Tiveram que acalmar os ânimos dos dois, a gerência trocou o garçom de mesa e o Nascimento ficou lamentando a incapacidade das pessoas de compreender as palavras mais claras. Por exemplo, “flunfa”. Não estava claro o que era flunfa? Todos na mesa se entreolharam. Não, não estava claro o que era flunfa.

_ A palavra está dizendo – impacientou-se Nascimento. – Flunfa. Aquela sujeirinha que fica no umbigo. Pelo amor de Deus!

http://www.advivo.com.br/sites/default/files/audios/luis_fernando_veriss...


* E como hoje é sábado...