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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Esse 13 de dezembro inesquecível

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Helio Fernandes relembra o AI-5, que passou à História apenas como sigla. Foi tão selvagem, cruel e ditatorial, que não precisava mais nada.


O comentarista Jose Guilherme Schossland oportunamente nos envia essa pérola, um artigo de Helio Fernandes publicado no ano passado sobre o aniversário do AI-5, que completa hoje 43 anos.
***
Helio Fernandes
Esse 13 de dezembro é inesquecível. Não apenas para os atingidos, cassados, presos e desaparecidos, mas também para todo o país. Não começou nesse dia 13, vinha de antes, muito antes, na vontade de alguns, e na execução de alguns outros. E a palavra execução define e desarvora tudo.
Acho, não tenho certeza, que é a primeira vez que escrevo sobre esse “documento único” na História do Brasil, Monarquia ou República. Vou me prender, que palavra, apenas a fatos, nenhuma divagação, análise anterior, suposição ou seja o que for. Aqui, o que aconteceu a partir da divulgação desse Ato Institucional número 5, que como todos sabemos, se transformou histórica e ditatorialmente apenas numa sigla.
Retrocesso no tempo, apenas de uma semana, com duas participações de Djalma Marinho, extraordinária figura. No dia 5 de dezembro de 1968, eleição para presidente da Câmara, Djalma contra Nelson Marchesan, do Rio Grande do Sul, apoiado pela ditadura.
Eu era tão amigo de Djalma que não pude deixar de ir a Brasília. Assisti pessoalmente o massacre do deputado do Rio Grande do Norte. Ele era presidente da Comissão de Constituição e Justiça, que uma semana depois julgaria a licença para processar o jornalista-deputado do MDB, Marcio Moreira Alves.
Trocaram todos os oposicionistas da Comissão, ofereceram a Djalma Marinho não só a vitória para presidente da Câmara, mas o que ele quisesse. Os homens como Djalma jamais querem alguma coisa, resistência é o único objetivo, a recompensa. A obrigação do dever cumprido, sem lamento, ressentimento, aborrecimento, mas também sem dar a impressão de heroísmo.
No dia seguinte vim para o Rio. Tudo o que atingiria a muitos (cassação, prisão, censura, mais perseguição) já acontecera ao repórter há muito tempo. Também não podia fazer nada, a censura era brutal e de corpo presente, existiam quase tantos censores (policiais) quanto repórteres, um clima apavorante.
No dia 12 foi votada a licença para processar o jornalista, apenas um pretexto para ENDURECER o mais possível. Posso dizer com total segurança, não se esperava a derrota do governo ditatorial, a mobilização foi espantosa. Até o senador Daniel Krieger, um homem de sensibilidade, teve que trabalhar pela CASSAÇÃO do deputado. Embora senador e a votação fosse na Câmara, foi requisitadíssimo, principalmente pelo carrasco-mor, o Ministro da Justiça, Gama e Silva.
Queriam terminar tudo no dia 12 mesmo, Costa e Silva estava no Rio, no Laranjeiras, deu ordens ao Chefe da Casa Militar, Jayme Portela, D-U-R-Í-S-S-I-M-O: “Não quero ver ninguém, nem atender telefone”. (Ainda não havia celular, claro).
Costa e Silva ficou no segundo andar, com dois amigos civis, sem cargos no governo. Viu filmes (bangue-bangue, que adorava) até por volta de 3 da manhã. Não dormiu, lógico, quem dormiria com quase todos os oficiais das três Armas contra ele?
Só atendia o general Portela, que lhe dizia invariavelmente: “Gama e Silva precisa falar com o senhor, com urgência”. O presidente desligava, ou dizia: “Amanhã, amanhã resolveremos”. O Ministério da Justiça, ponta de lança dos militares mais ansiosos ou exaltados, não parava de agir, se considerava o mentor de tudo.
No dia seguinte, 13 de dezembro, Costa e Silva determinou ao Chefe da Casa Militar, que convocasse reunião ministerial no próprio Laranjeiras, às 13 horas. Discutiram pouco, não houve debate, todos estavam A FAVOR, mesmo alguns que no passado combateram ditaduras ostensivas ou não.
Costa e Silva, surpreendentemente ou para se vingar, já que sabia que estava praticamente deposto pelo Alto Comando, dizia o nome do Ministro e perguntava: “Como vota o senhor Ministro?”. Só o coronel Passarinho, narcisista e exibicionista, fingiu que pensava, demorou um pouco, e explodiu: “Presidente, VOTO A FAVOR do Ato Institucional, ÀS FAVAS COMO OS ESCRÚPULOS”.
O documento já estava redigido, Costa e Silva assinou tudo, o que fazer? Às 20,30, em cadeia da Agência Nacional, o AI-5 foi lido pelo locutor Alberto Cury, irmão de Jorge Cury e do cantor Ivon Cury. Era o fim de um período, a imposição de um regime que sacrificou a todos, incluindo o próprio presidente. Que não sobreviveu, morreria menos de um ano depois, já fora considerado INCAPACITADO.
Eu estava em casa, naquela época existiam jornais MATUTINOS e VESPERTINOS. Os matutinos saíam entre meia-noite e 1 da madrugada, os vespertinos (Tribuna, Globo, Correio da Noite) começavam a circular ao meio-dia. Trabalhávamos até as 6 da tarde, voltávamos às 6 da manhã, fechávamos, rodávamos e circulávamos, por volta de meio dia.
Ouvi a leitura do documento, comecei a me vestir. Rosinha me perguntou: “Você acabou de chegar, vai sair?”. Abraçando-a carinhosamente (o que até hoje é redundância ou pleonasmo), respondi: “Serei preso imediatamente, prefiro ser preso no jornal. Além do mais, tenho que tomar várias providências.
Já ia saindo, o telefone tocou, Rosinha atendeu, disse: “Helio, é o Carlos Lacerda”. Peguei o telefone, disse: “Você talvez seja a única pessoa que eu atenderia, estou indo para o jornal, no Rio devo ser o primeiro a ser preso, a Tribuna fica a 100 metros da Polícia Central”. O ex-governador, simplesmente: “E eu?”.
Respondi sem qualquer dúvida: “Carlos, você será preso e cassado”. Aí, do outro lado, um rugido e a resposta: “Não vou ser preso nem cassado, você está acostumado a adivinhar e acertar, mas essa você vai errar completamente”. Desliguei, o que fazer?
Cheguei ao jornal por volta das 10 horas da noite. Às 11 horas e quase 45 minutos, fui preso. Levado para a Polícia Central, quando entrava naquele edifício tétrico e assustador, o relógio macabro marcava exatamente meia noite, os dois ponteiros se divertiam. O repórter não demonstrava, mas como em outras oportunidades, assustadíssimo e com medo, mas não deixando ninguém perceber.
Me levaram para o Regimento Caetano de Farias, fiquei satisfeitíssimo: eu não fora o primeiro a ser preso, entrei num matagal sujíssimo (mas enorme, o que era ótimo), de lá do fundo surgiu a figura de Osvaldo Peralva. Grande jornalista, Redator-Chefe (como se chamava na época) do “Correio da Manhã”, intimíssimo amigo, ficamos conversando, não havia onde dormir. Até a manhã do dia seguinte, já 14, não apareceu mais ninguém.
Às 8 horas da manhã, quem chegava, evidentemente preso? Carlos Lacerda. Me abraçou como se não tivéssemos falado na véspera, garantiu: “Está bem, Helio, você acertou pela metade, estou preso mas NÃO SEREI CASSADO.
Respondi sem hostilidade, mas sem mascarar a realidade: “Está certo, trouxeram você para cá, apenas por diversão”.
Fomos todos levados para uma estrebaria (o quartel era um centro hípico), dormíamos no chão, não era o mais importante. Chegaram dois advogados que não conhecíamos. Às duas da tarde, uma festa: a entrada de Mario Lago, que foi preso no Teatro Princesa Isabel. Estava de saiote (fazia um personagem da Escócia), foi logo dizendo: “Aqui só quem me conhece é o Helio e o Carlos Lacerda, estou vestido assim, mas não sou viado”. (Na época era dito assim mesmo).
Eu e Lacerda tivemos momentos ótimos, de recordações, e péssimos, de crítica minha a ele. Lacerda só ficou do dia 14 até 22, eu, Peralva e Mário Lago ficamos até o dia 6 de janeiro, “Dia de Reis”. Os ditadores, geralmente, entre uma tortura e outra, são muito católicos.
Carlos Lacerda mandou um filho falar com o Cardeal (amigo dele), outro conversar com o general Sizeno Sarmento (que fora Secretário de Segurança dele governador), e o terceiro foi a São Paulo ver o que Abreu Sodré, grande amigo dele (e “governador”) podia fazer.
***
PS – Um dia disse a ele, que não gostou: “Carlos, preso não pede nem concede nada. Resiste e pronto”. Passamos Natal e Ano Novo lá, Lacerda não.
PS2 – No dia 30, soubemos, Lacerda foi cassado, nenhuma surpresa, só para ele. No dia 2 de janeiro de 1969, viajou para a Europa, ficaria lá mais ou menos 3 ou 4 anos. Teve a generosidade de ir se despedir de mim e de Mario Lago.
PS3 – Nunca mais participou de nada, voltou em 1973, se enclausurou na Nova Fronteira, editora que adorava. Nunca mais nos vimos. Morreu em 1977, de forma estranhíssima, da mesma morte sem explicação válida que atingiu Juscelino e Jango.
PS4 – Tinha 63 anos. Na prisão, num momento de calma, confessou: “Vou viajar, só volto à política para ser presidente”. Morreu dois anos antes da ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA.
PS5 – O país paga até hoje, nunca se reabilitou. Apesar de muitos acreditarem que tudo vai bem, “e que Dona Dilma será a salvação da lavoura”, como se dizia antigamente.”

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