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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Auto-cura


Disease.
Dis-ease.
Diz easy,
e vai...
 
 


Disease.
Dis-ease.
Say easy,
and go...


POR DENTRO DO CÉREBRO


Chegar à casa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, no alto da Gávea, no Rio de Janeiro, é uma emoção.
A começar pela vista deslumbrante da cidade, passando pelos macacos que passeiam pelos galhos até avistar as orquídeas que caem em pencas das árvores, colorindo todo o jardim.

Cada uma dessas flores foi presente de um paciente do médico, que sua mulher, Isabel, replantou na parte externa da casa.

Entrevista Paulo Niemeyer Filho - Neurocirurgião


O neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho conta os avanços nos tratamentos de doenças como o mal de Parkinson e como evitar aneurisma e perda de memória.
E projeta, ainda, o futuro próximo, quando boa parte do sistema neurológico estará sob controle do homem.
Filho do lendário neurocirurgião Paulo Niemeyer, pioneiro da microneurocirurgia no Brasil, e sobrinho do arquiteto Oscar Niemeyer, Paulo escolheu a medicina ainda adolescente.

Por suas mãos já passaram o músico Herbert Vianna - de quem cuidou em 2001, depois do acidente de ultraleve em Mangaratiba, litoral do Rio -, o ator e diretor Paulo José, a atriz Malu Mader e, mais recentemente, o diretor de televisão Estevão Ciavatta - marido da atriz Regina Casé que, depois de um tombo do cavalo, recupera-se plenamente -, além de centenas de outros pacientes, muitos deles representados pelas belas flores que enchem de vida o seu jardim.

PODER: Seu pai trabalhou até os 90 anos. A idade não é um complicador para um neurocirurgião? Ela não tira a destreza das mãos, numa área em que isso é crucial?

PN: A neurocirurgia é muito mais estratégia do que habilidade manual. Cada caso tem um planejamento específico e isso já é a metade do resultado. Você tem de ser um estrategista..

PODER: O que é essa inovação tecnológica que as pessoas estão chamando de marcapasso do cérebro?

PN: Tem uma área nova na neurocirurgia chamada neuromodulação, o que popularmente se chama de marcapasso, mas que nós chamamos de estimulação cerebral profunda. O estimulador fica embaixo da pele e são colocados eletrodos no cérebro, para estimular ou inibir o funcionamento de alguma área. Isso começou a ser utilizado para os pacientes de Parkinson. Quando a pessoa tem um tremor que não controla, você bota um eletrodo no ponto que o está provocando, inibe essa área e o tremor pára. Esse procedimento está sendo ampliado para outras doenças. Daqui a um ou dois anos, distúrbios alimentares como obesidade mórbida e anorexia nervosa vão ser tratados com um estimulador cerebral.Porque não são doenças do estômago, e sim da cabeça.

PODER: O que se conhece do cérebro humano?

PN: Hoje você tem os exames de ressonância magnética, em que consegue ver a ativação das áreas cerebrais, e cada vez mais o cérebro vem sendo desvendado.

Ainda há muito o que descobrir, mas com essas técnicas de estimulação você vai entendendo cada vez mais o funcionamento dessas áreas. O que ainda é um mistério é o psiquismo, que é muito mais complexo. Por que um clone jamais será igual ao original?

Geneticamente será a mesma coisa, mas o comportamento depende muito da influência do meio e de outras causas que a gente nunca vai desvendar totalmente.

PODER: Existe uma discussão entre psicanalistas e psiquiatras, na qual os primeiros apostam na melhora por meio da investigação da subjetividade, e os últimos acreditam que boa parte dos problemas psíquicos se resolve com remédios.. Qual é sua opinião?

PN: Há casos de depressão que são causados por tumores cerebrais: você opera e o doente fica bem. Há casos de depressão que são causados por deficiência química: você repõe a química que está faltando e a pessoa fica bem. Numa época em que se fazia psicocirurgia existiam doentes que ficavam trancados num quarto escuro e quando faziam a cirurgia se livravam da depressão e nunca mais tomavam remédio. E há os casos que são puramente psíquicos,emocionais, que não têm nenhuma indicação de tomar remédio.

PODER: Já existe alguma evolução na neurologia por causa das células-tronco?

PN: Muito pouco. O que acontece com as células-tronco é que você não sabe ainda como controlar. Por exemplo: o paciente tem um déficit motor, uma paralisia, então você injeta lá uma célula-tronco, mas não consegue ter certeza de que ela vai se transformar numa célula que faz o movimento. Ela pode se transformar em outra coisa, você não tem o controle, ainda.

PODER: Existe alguma coisa que se possa fazer para o cérebro funcionar melhor?

PN: Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, com a autoestima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter motivação. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a autoestima no ponto.

PODER: Cabeça tem a ver com alma?

PN: Eu acho que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma... Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo.

PODER: O que se pode fazer para se prevenir de doenças neurológicas?

PN: Todo adulto deve incluir no check-up uma investigação cerebral. Vou dar um exemplo: os aneurismas cerebrais têm uma mortalidade de 50% quando rompem, não importa o tratamento. Dos 50% que não morrem, 30% vão ter uma sequela grave: ficar sem falar ou ter uma paralisia. Só 20% ficam bem. Agora, se você encontra o aneurisma num checkup, antes dele sangrar, tem o risco do tratamento, que é de 2%, 3%. É uma doença muito grave, que pode ser prevenida com um check-up.

PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?

PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.

PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro?

PN: O exagero. Na bebida, nas drogas, na comida. O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra. É muito difícil um cérebro muito bem num corpo muito maltratado, e vice-versa.

PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?

PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.

PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?

PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem de saúde, de aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha, não é?

PODER: Você não vê contraindicações na manipulação dos processos naturais da vida?

PN: O que é perigoso nesse progresso todo é que, assim como vai criar novas soluções, ele também trará novos problemas. Com a genética, por exemplo, você vai fazer um exame de sangue e o resultado vai dizer que você tem 70% de chance de ter um câncer de mama. Mas 70% não querem dizer que você vai ter, até porque aquilo é uma tendência. Desenvolver depende do meio em que você vive, se fuma, de muitos outros fatores que interferem. Isso vai criar um certo pânico. E, além do mais, pode criar problemas, como a companhia de seguros exigir um exame genético para saber as suas tendências. Nós vamos ter problemas daqui para frente que serão éticos, morais, comportamentais, relacionados a esse conhecimento que vem por aí, e eu acho que vai ser um período muito rico de debates.

PODER: Você acredita que na hora em que as pessoas puderem decidir geneticamente a sua hereditariedade e todo mundo tiver filhos fortes e lindos, os valores da sociedade vão se inverter e, em vez do belo, as qualidades serão se a pessoa é inteligente, se é culta, o que pensa?

PN: Mas aí você vai poder escolher isso também. Esse vai ser o problema: todo mundo vai ser inteligente. Isso vai tirar um pouco do romantismo e da graça da vida. Pelo menos diante do que a gente está acostumado. Acho que a vida vai ficar um pouco dura demais, sob certos aspectos. Mas, por outro lado, vai trazer curas e conforto.

PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?

PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.

PODER: Já aconteceu de você recomendar um procedimento e a pessoa não querer fazer?

PN: A gente recomenda, mas nunca pode forçar. Uma coisa é a ciência, e outra é a medicina. A pessoa, para se sentir viva, tem de ter um mínimo de qualidade. Estar vivo não é só estar respirando. A vida é um conjunto. Há doentes que preferem abreviar a vida em função de ter uma qualidade melhor. De que adianta ficar ali, só para dizer que está vivo, se o sujeito perde todas as suas referências, suas riquezas emocionais, psíquicas. É muito difícil, a gente tem de respeitar muito.
 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Killing Me Softly ( 1973 ) - Roberta Flack

Isso é amor, não outra coisa

por Carol Bataier

Você liga, ela atende, avisa que está na academia e desliga. Mal conversam: ela tem mais o que fazer. A noite, você sabe, ela vai te procurar, dizer que ama e que já está cheia de saudades. Ela está longe, mas vive tão bem, a danada, sem você. Ainda assim, você sabe que ela faz o que pode para passar um fim de tarde ao seu lado.
Se você cansar e pedir um tempo ela não vai parar de comer, não vai ameaçar suicídio, não vai escrever cartas e cartas, tampouco precisará de antidepressivos. Ela vai chorar, mas vai sobreviver. Bem, muito bem, ao lado de amigos, família, novos conhecidos. Vai sentir sua falta quando ler um poema, quando for ao cinema e acompanhar na tela a história de um amor sem fim. Mas vai continuar vivendo e continuará sendo feliz.
Ela não precisa de você na vida dela. Ela almoça sozinha, faz compras sozinhas, faz sexo e planos sozinha. Sem você na vida dela, ela pode viajar mais, pode dormir na casa de uns amigos distantes que você, ao lado dela, jamais permitiria, pode ler mais, pode conhecer outras pessoas, pode ir a mil festas, pode voltar a conversar com aquele ex, pode usar saias curtas, pode estudar mais, pode pintar o cabelo de preto. Sem você ela pode tanta coisa!
E ainda assim, ela quer você na vida dela.
Ela sabe dos seus planos, conhece seus gestos e seus olhares, sabe das suas paixões e seus ódios, sabe das suas músicas preferidas e conhece o cheiro das suas camisas, conhece a cara que você faz quando assiste filme de terror, comédia ou quando faz sexo, sabe como você age quando está nervoso e quando tem um pesadelo, sabe seu modo de pedir desculpas e sua maneira de mostrar que ama, viu fotos de quando você era criança, sabe do seu passado e sabe o seu jeito preferido de arrumar o cabelo. Ela te conhece.
E ainda assim, ela te quer.
É por isso mesmo que ela te quer. Quando o caminho se divide em dois, ela sabe soltar a sua mão e, ainda assim, continuar caminhando ao seu lado.
Amor é isso: não precisar.

http://www.revistawave.com/blog/index.php/2010/03/04/isso-e-amor-nao-outra-coisa/

“Like Smoke”

Faixa “Like Smoke” foi gravada com o rapper Nas, em uma parceria inédita
por Luciana Carvalho
 

A música “Like Smoke”, que faz parte do disco póstumo de Amy Winehouse, foi divulgada nesta quarta-feira pelo site Miss Info. A voz de Amy foi gravada em 2008 e a faixa tem a participação do rapper Nas, amigo próximo da cantora.
A música foi produzida por Salaam Remi, o mesmo produtor que, na semana seguinte à morte de Amy Winehouse, em julho deste ano, divulgou versões inéditas das músicas “Roun’ Midnite” e "Some Unholy War", como uma homenagem à cantora e amiga. O álbum póstumo, chamado “Lioness: Hidden Treasures”, também tem produção de Mark Ronson e deve ser lançado em 5 de dezembro.
O disco traz trabalhos inéditos, versões de músicas dela já conhecidas e cover de outros artistas. Um deles é “Garota de Ipanema”, a primeira música cantada por Amy quando chegou a Miami para gravar com Salaam Remi, aos 18 anos. O álbum também traz uma música sobre seu casamento difícil com Blake Fielder-Civil e outra que teria sido gravada enquanto ela estava sob os efeitos da heroína.
De acordo com os produtores, uma libra de cada exemplar vendido será revertida para a ajuda a crianças necessitadas, por meio da Amy Winehouse Foundation, ONG criada pela família da cantora.

Confira a lista das músicas do novo álbum:
1 - Our Day Will Come (versão reggae): gravada em maio de 2002
2 - Between The Cheats: gravada em maio de 2008
3 - Tears Dry: versão original da faixa do álbum Back To Black, gravada em 2005
4 - Wake Up Alone: gravada em 2006 para o disco Back To Black, mas não foi incluída
5 - Will You Still Love Me Tomorrow: cover de Carole King, gravado em 2004, com participação de Dap Kings
6 - Valerie: versão mais lenta da música de Back To Black, gravada em 2006.
7 - Like Smoke: gravada em maio de 2008, com participação do rapper Nas
8 - The Girl from Ipanema: versão gravada em 2002
9 - Halftime: gravada em agosto de 2002
10 - Best Friends: gravada em fevereiro 2003
11 - Body And Soul: última música gravada por Amy, em março de 2011, feita em parceria com Tony Bennett
12 - A Song for You: cover de Donny Hathaway, gravado em 2009





Ultima Forma - Paulo César Pinheiro/Baden Powell

Samba na Gamboa com Roberta Sá




Prezado amigo Afonsinho (minha primeira paixão)


Meio De Campo
Elis Regina
Composição: Gilberto Gil

Prezado amigo Afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé, nem nada
Se muito for eu sou um Tostão
Fazer um gol nesta partida não é fácil, meu irmão
Entrou de bola, e tudo!



Rebelde e pioneiro

Ele nunca foi convocado para a seleção, mas conseguiu uma das maiores conquistas do futebol brasileiro. Nascido em São Paulo, Afonsinho se profissionalizou pelo Botafogo, onde jogou com Garrincha e Gérson. Do clube em que levantou a Taça Brasil de 68 saiu de forma conturbada. Afastado pela decisão de manter barba e longos cabelos, que simbolizavam rebeldia em tempos de ditadura, garantiu na Justiça o inédito direito ao passe livre. O meia-direita foi para o Olaria e depois atuou por Flamengo, Santos, Vasco, Atlético-MG e Fluminense. Politizado e boêmio, o médico aposentado foi homenageado na canção "Meio de campo", de Gilberto Gil, chegou a ser fichado pelo Serviço Nacional de Informação e foi personagem de um documentário, 'Passe Livre'.



http://oglobo.globo.com/esportes/mat/2011/11/07/memoria-do-futebol-afonsinho-925753181.asp

E olhe que falei de flores

 

Jolivaldo Freitas

Quase esqueço que a Primavera chegou. A culpa do meu esquecimento é da própria Mãe Natureza que já não avisa, como avisava em priscas eras. Ela, como a maioria das mães, está muito mudada. A Mãe Natureza anda meio relapsa, talvez cansada de guerra ou apanhar tanto sem ter uma Lei Maria da Penha para punir os seus agressores. Tanto que ela deixa a data quase que passar a data em branco. Quando a Primavera chegava era uma alegria. Seus sinais eram claros. Nas escolas participávamos de peças com roteiro que contemplava as flores, o sol e o arco-iris. Lembro até de um trecho de uma musiquinha que me fizeram cantar, ainda menino, no Colégio Luiz Tarquínio. Era mais ou menos assim: "Somos as flores/Mais perfumadas...Do jardim da infância". Nem lembro do início, nem do meio e só do final. E lá estava eu vestido como pé de planta. Tudo valia em homenagem à chegada da Primavera. Eram feirinhas, peças, festivais, gincanas e o abraço de Marana, uma coleguinh a somente acessível nas festinhas. Até hoje a Primavera me remete aos seus braços. Será que ela lembra de mim? Que nada. Já não sabia mesmo quem eu era naqueles tempos. Ainda mais depois de tantas Primaveras. Tínhamos apenas meia dúzia. A Primavera dava seus ares com as plantas em pleno cio, fazendo surgir as mais lindas e coloridas flores: lírios, flor-do-campo, dálias, Sorriso-de-Maria, rosas, rosas meninas, cravos-de-defunto, boninas, girassóis, margaridas, amarillis, antúrios, boca-de-leão, copos-de-leite, gardênias, jacintos, tulipas e sem falar nas graxeiras de todas as cores, tons e semitons. Era a natureza esperando a cópula das abelhas, colibris e corrupixeis. Os pássaros pareciam terem se multiplicado e seus trinos mais altos e alegres. O verde exuberante da copa das árvores contrastando já com o azul do céu de poucas nuvens e quase chuva nenhuma. Algumas árvores frutíferas, como o jambeiro ou uma teimosa mangueira que dominavam o pomar de uma mansão à beira-mar na Boa Viagem, decidiam sempre sair na frente e já apresentavam seus frutos devezes que nossa avidez de criança comia assim mesmo e amargava dores na barriga no meio da noite para tirar o sono dos avós e dos pais. Estamos quase uma semana em plena Primavera e ainda não vi a profusão de flores, embora olhe todos os cantos, jardins e avenidas. Embora os jornais tenham anunciado. Mesmo na minha varanda as flores estão tímidas, escondidas. Frô Maria e Craudio, o casal de gaviões que todas as manhãs sobrevoava o mar e vinha pousar na antena de TV no prédio defronte, fazendo revoada de bem-te-vis e canários-da-terra tiveram dois filhotes antes da Primavera. Eles – Anita e Duda – aprenderam a bater asas e todos desapareceram. Por sorte vieram para alegrar a Primavera um Sabiá e uma Garrincha estridente que se aproveitam do mamão e da água colocadas na varanda. A Primavera está muito estranha, sem cor. A Mãe Natureza deve estar aborrecida co m tanto gás na atmosfera, desmatamentos, degelo, queimadas e agressões que deixam marca. Devia ter mesmo uma lei que punisse quem maltrata a Mãe Natureza. Mãe é mãe e merece respeito. Se bem que a Primavera ainda está começando e o tempo não obedece relógios análogos nem digitais. Ainda espero o brotar das flores. Todas as manhã e na lua quarto crescente. Ou, quem sabe, o abraço de Marana, a flor mais bela da minha infância

PORTO DA BARRA, PESCADORES E ARGONAUTAS

texto de JOLIVALDO FREITAS*
(especial para o Jeito Baiano)


"a melhor praia do mundo"


O Porto da Barra, já não é de hoje, não pertence mais aos nativos. Você pode até chegar por lá e ver um ou outro pescador renitente dando uma demão de tinta em seus pequenos saveiros ou catraias.
Dá até a impressão que tem pescador a rodo, uma vez que todos aqueles que moram nas imediações; ou por vagabundagem, por amor à paisagem, pelo papo descontraído com os conhecidos ou mesmo por falta de emprego, ficam perambulando pela areia, na balaustrada; tomando umas e outras nos raros barzinhos cacetes armados que ainda resistem bravamente.
Pode-se até dizer que parece ter mais pescadores que peixes, vez que raramente – tirantes as pititingas e os peixes de pedra – tem alguém puxando uma arraia, um vermelho, uma guaricema. Mas, quem para, observa a faina vagarosa. Raramente, também, vê-se um barco ser lançado ao mar aberto. São pescadores de olhar o tempo, jogar dominó, falar da vida dos outros e rir escancaradamente. E olhar as vãs sereias.
Se alguma traineira chega ao final da manhã, vinda da Ilha ou do pesqueiro onde passou a noite, tem sempre uma sobra. Um ganha uma cavalinha. Outro fica com a pescada ou peixes de segunda por ser de gosto duvidoso ou faltar tamanho. Sempre aparece um tacho, um botijão, carvão e um isqueiro. Alguém sabe, sempre, onde conseguir azeite de dendê ou azeite doce. Os temperos surgem do nada. Se não der para fazer o ensopado ou a moqueca o jeito é fritar. Pimenta nunca faltou nem vai faltar.
E enquanto o sol fica a pino e o vento faz a viração, com os navios ao longe mostrando sua proa, numa prova que a maré está de vazante, se degusta à mão livre as postas cheirosas com a farinha copioba. Se der, vai uma cochilada embaixo da amendoeira. Se não der, um bom mergulho na água tépida que se renova a cada movimento da Terra tira o sono e a vida continua.
São pescadores diferentes, que não vão à pesca e que se misturam aos novos habitantes; argonautas vindos de países frios e que se instalaram em todos os pontos do Porto. Os nativos já não pertencem ao Porto da Barra.