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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Extravanca




Extravanca (os Dites 34 e João Frade) com o coreógrafo António Tavares e a bailarina Inês Melo Campos, 3 de Setembro de 2011, Praça da República, Tavira, Portugal.

Delicatto

[Imagem de coreografia de Pina Bausch]


é sublime
alegria refletida
em momentos de amor

é mistério
o destino repentino
de se dar e sentir dor

é criança
borboleta de um planeta
tão distante, sem calor

é poesia
palavras que se abraçam
alegria, destino, borboleta
e o sabor"

Ivan Petrovitch



Música John Surman - Edges Of Illusion


Nota: se puderem, ouçam até ao fim. Lendo o poema e olhando para a imagem, fica ainda melhor. Não há nada mais sublime que a mistura de música, poesia e movimento. Um post todo ele dedicado ao bailarino e coreógrafo Tó Tavares, uma das almas mais generosas que já conheci na vida.

Descobrir Belém foi o lucky break de Alex Atala

alex e priprioca by Ale Forbes ed


Muitos chefs — e o Alex Atala é o mais conhecido deles – andam fazendo uma cozinha contemporânea que valoriza a culinária regional brasileira, sobretudo a amazônica, que agora é oferecida aos gourmets em forma de mimosas criações gastronômicas encimadas por rococós de inspiração europeia.
É uma velha moda, que vai e volta. Se prestar atenção, verá que desde 1665 nossa comida satisfaz olhos e estômagos dos mais urbanos. Padre Antônio Vieira atestou, horrorizado, que a mesa belenense da época era puramente indígena, um festim permanente de peixes moqueados, caças e frutas da estação; os colonizadores portugueses, saciados, deitavam nus em suas redes.
Belém é um interessante caldeirão de misturas étnicas e gastronômicas. À base da comida indígena paraense – única verdadeiramente brasileira, segundo o filósofo José Arthur Gianotti – juntaram-se sabores africanos, portugueses, alemães, japoneses, libaneses, sírios, judeus, ingleses, barbadianos, espanhóis, franceses e italianos.
Não dá para endossar o exagero do escritor Márcio Souza, autor do inesquecível “Galvez, Imperador do Acre”, quando diz que a culinária amazônica é “uma prova da superioridade das civilizações indígenas”. Mas é claro que os povos que chegaram a Belém encantaram-se com a cozinha nativa e, aos poucos, foram incorporando os ingredientes locais às receitas de além-mar. Senão, vejamos.
Os judeus marroquinos ficaram maravilhados com a quantidade de peixes com escamas do rio Guamá. Por certo, riscaram do cardápio o filé de filhote (peixe de couro, popularíssimo na região) por causa das restrições alimentares, mas em Santarém celebravam a Páscoa com macaxeira frita ou cozida, cuscuz, tapioquinha, bolo de tapioca e pupunhas com doce de cupuaçu.
Libaneses e sírios são até hoje uma importante colônia em Belém e, pouco depois de surgirem rio adentro, no fim do século 19, como verdadeiros mascates fluviais – como se nas páginas dum romance de Milton Hatoum estivessem –, trocaram o pistache e as tâmaras pela castanha do Pará na receita de seus famosos doces folheados.
Africanos remanescentes dos quilombos popularizaram o gergelim nos doces e as múltiplas pimentas (murupi, camapu, olho-de-peixe, cajurana). A maniçoba que me foi servida pelas cuidadosas mãos do Alcides no melhor restaurante da cidade, o Lá em Casa, é um exemplo definitivo do casamento perfeito entre as raízes das cozinhas índigena e africana.
Os índios, óbvio, são mestres ancestrais no preparo da mandioca, caldeiradas, peixes (piranha, pirarucu, surubim, tucunaré, tambaqui), folhas (maniva, chicória, alfavaca) e frutas (bacuri, ingá, guaraná, açaí, ginja, biriba – dão deliciosos sorvetes).
Os ingleses chegaram durante o próspero ciclo da borracha, trazendo construções pré-fabricadas que viraram cartão-postal, como o mercado Ver-o-peso. Sua vocação culinária, sabemos, nunca foi uma brastemp mas, em compensação, os caribenhos de Barbados por eles empregados na construção civil legaram um interessante churrasco de peixe, o “peixe avoado”.
Por falar nisso, a cidade tem a segunda maior colônia nipônica do país e o sashimi, servido em bons restaurantes na cidade, é preparado com os peixes da região.
São comuns nas docerias de Belém as tortas de cupuaçu com queijo do Reino e os pastéis de Santa Clara com recheio da mesma fruta, duas adaptações saborosas das clássicas sobremesas portuguesas.
É uma velha moda, que vai e volta.
O professor Aldrin Moura de Figueiredo, do departamento de história da Universidade Federal do Pará, lembra que, no final do século 19, os belenenses endinheirados ofereciam a políticos e autoridades banquetes comandados por chefs franceses. Peixes, caças e frutas da estação com cobertura de mimosidades européias.
Até parece uma certa cozinha contemporânea chique que adaptou a culinária amazônica para o proveito dos comensais urbanos.

Leia mais:
Culinária Amazônica – O sabor da natureza, prefácio de Márcio de Souza (Editora Senac)

Soy loco por tí, America

 

Cuba já foi assunto sobre o qual todos tinham de ter uma opinião

O fascínio dos intelectuais brasileiros pela ausência de projeto político dos guerrilheiros que derrubaram Fulgêncio Baptista em 1959 é compreensível porque havia grande expectativa de que ali, pela primeira vez, pudesse surgir um socialismo equalitarista e não alinhado à URSS.
Eles partilhavam da simpatia expressa por figurões como Herbert Marcuse, Waldo Frank, Allen Ginsberg, Octavio Paz, Gabriel García Márquez e Julio Cortázar, entre outros. Mas a partir de 1965, com a fundação do PC cubano e a gradual institucionalização do modelo soviético na ilha, Fidel passou a mostrar sua vocação totalitária e muitos pensadores passaram de apoiadores a críticos do regime. Sartre foi um deles.
Já no final de da década de 60, quando o mundo intelectual só tinha olhos para a Revolução Cultural chinesa, o interesse dos brasileiros pela Ilha de Fidel continuou a crescer.
Em 1967, nos bastidores do 3º Festival da MPB da Record, o compositor José Carlos Capinam escreveu um poema em homenagem a Che Guevara, morto naquele ano, e pediu a Gilberto Gil que dele fizesse uma canção. Nascia — no auge da censura instituída pelo governo militar — a famosa declaração de amor à revolução cubana, Soy loco por tí, America.
As relações diplomáticas com Cuba estavam rompidas desde 1964 e os passaportes brasileiros traziam a advertência impressa “Não é válido para Cuba”. A lua-de-mel entre brasileiros e cubanos ficou interrompida durante anos.
Só a partir da segunda metade da década de 70, já no período de distensão política, voltou a crescer o interesse de artistas, escritores e jornalistas brasileiros pela ilha de Fidel, num momento em que parte da esquerda mundial repudiava o regime.
Surge então um número razoável de obras publicadas sobre aquele país, com enfoques e tons variados, alguns excessivamente laudatórios e outros com a acuidade científica das boas reportagens. Cuba, para o bem e para o mal, passou ser um assunto sobre o qual todos tinham de ter uma opinião.

Leia sobre Edward Pimenta aqui
http://epimenta.wordpress.com/about/


domingo, 22 de janeiro de 2012


buonanotte a voi tutti... e sogni d'oro.....♥

buika y chucho valdes





Chucho Valdés y Concha Buika encienden el Carnegie Hall

Un momento del concierto de Chucho Valdés y Concha Buika en el Carnegie Hall de Nueva York. / JACK VARTOOGIAN
Hace 34 años el Carnegie Hall se convirtió en el escenario de un reencuentro tan emotivo como espectacular: el pianista Bebo Valdés, huido de Cuba en los años sesenta, se reencontraba con su hijo, el también pianista Chucho Valdés. La legendaria banda de este último, Irakere, debutaba en Nueva York, pero para los Valdés aquel reencuentro iba más allá de la música: buscaba cerrar heridas con las que aún hoy, muchas otras familias de cubanos podrían identificarse.
En Nueva York y en la vecina Nueva Jersey viven muchas de esas familias rotas, y cuando se anuncia la llegada de un músico cubano a la ciudad, de alguna manera la metáfora del reencuentro se repite y la entrega es absoluta. El pasado sábado, Chucho Valdés, que no pisaba el Carnegie Hall desde aquel concierto histórico, aparecía sobre su escenario con un elegante traje de terciopelo azul, sus manos prodigiosas y una inmensa sonrisa. Entró solo, provocando una larga ovación en un auditorio abarrotado de cubanos pero también de amantes del latin jazz, atraídos además, como se demostraría después, por la presencia de Concha Buika, en su debut en el Carnegie Hall como artista invitada y por la nueva banda del pianista, The Afro-cuban Messengers.
Valdés, de 70 años, abría el concierto experimentando con la música de uno de sus ídolos, Duke Ellington, cuyos clásicos sazonó con un toque afrolatino que calentó motores para lo que vendría después. Su banda, con la que el pasado año ganó el Grammy al mejor disco de Jazz Latino por Chucho step’s, entró en el escenario poco después, inundando el aire con el ritmo frenético de sus dos percusionistas, el mago Yaroldi Abreu y el alquimista Dreiser Durruthy, por no hablar del batería-hechicero Juan Carlos Rojas Castro, o el bajista-prestidigitador, Lazaro Rivero, que juntos hacen latir el corazón rítmico de la banda como si se tratara del de dos adolescentes enamorados, pero sabios.
El talento de la trompeta (Reinaldo Melian) y el saxofón (Carlos Manuel Miyares) también se unieron en temas como Begin to be good o el Mambo de Zawinul, de su último disco, para después dar paso a Concha Buika, esa mujer-vendaval de energía contagiosa y voz de seda quebrada a la que los neoyorquinos se entregaron con el mismo entusiasmo que ante Chucho Valdés. Es más, tras irrumpir en el escenario descalza y arrebatar con dos canciones, su retirada, impuesta por el guion del concierto —ella era solo la invitada— no fue bien recibida y el público hizo mucho ruido para que regresara. Un sorprendido Chucho tuvo que intervenir —“No se preocupen que volverá”— y como para dejar constancia de que aquel era, sobre todo, su concierto, se lanzó a tocar en solitario un blues desnudo, sin adornos, la escala pentatónica, un puñado de acordes y sus virtuosos dedos. Pero por algo se trata de uno de los mejores pianistas del mundo: el público olvidaba de inmediato a Buika para rendirse ante un maestro que es capaz de transformar el blues más elemental en una obra de arte.
La cantante española regresó para cantar en los bises El andariego, y una vez más el público quiso que se quedara. No hubo forma, el concierto lo cerró otro solo de Valdés, esta vez un recorrido atrevido y colorista a través de la obra de Gershwin combinada con clásicos cubanos. Y naturalmente, espectacular.
Al finalizar el concierto, en los camerinos, decenas de personas se acercaban al maestro para darle las gracias o la enhorabuena, y él, con su impresionante estatura, y un vaso de champán en la mano, recibía los halagos y el cariño de otros músicos de la ciudad con la satisfacción en el rostro del trabajo bien hecho. "Hace 34 años que no tocaba aquí. Supongo que soy la misma persona que entonces, pero con más experiencia, más trabajo a mis espaldas y espero, mejor músico", comentaba a EL PAÍS. Buika, siempre con su generosa sonrisa dibujada en la cara, se declaraba "feliz" de haber actuado por primera vez en el Carnegie Hall, ese lugar que Valdés definió como "un templo único". La cantante, en una de esas frases tan suyas que desarman, apuntilló:

"Todo lugar en el que haya gente escuchando es un templo. Da igual cómo se llame y da igual donde esté".

http://cultura.elpais.com/cultura/2012/01/22/actualidad/1327255516_050858.html

You Do Something To Me - Laura Fygi

NEM EU - JAMELÃO

Do Desejo

“Não é todos os dias que se encontra o que é feito para lhe dar a imagem exata do seu desejo” (Lacan, Seminário, I, 163)

eros.jpg

Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo.
Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo? E nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é meu desejo, tanto que único: “É isso! É exatamente isso (que amo)!”

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, pp.31-2 (Francisco Alves)