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sábado, 5 de novembro de 2011

Os Estatutos do Homem



(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony


Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

"A Few Minutes With Andy Rooney"


'60 Minutes' commentator Andy Rooney dies at 92

Andy Rooney so dreaded the day he had to end his signature "60 Minutes" commentaries about life's large and small absurdities that he kept going until he was 92 years old.
Even then, he said he wasn't retiring. Writers never retire. But his life after the end of "A Few Minutes With Andy Rooney" was short: He died Friday night, according to CBS, only a month after delivering his 1,097th and final televised commentary.


Story: Each Sunday, Rooney looked at the everyday

"Andy always said he wanted to work until the day he died, and he managed to do it, save the last few weeks in the hospital," said his "60 Minutes" colleague, correspondent Steve Kroft.
Rooney talked on "60 Minutes" about what was in the news, and his opinions occasionally got him in trouble. But he was just as likely to discuss the old clothes in his closet, why air travel had become unpleasant and why banks needed to have important sounding names.
He won one of his four Emmy Awards for a piece on whether there was a real Mrs. Smith who made Mrs. Smith's Pies. As it turned out, there was no Mrs. Smith.
"I obviously have a knack for getting on paper what a lot of people have thought and didn't realize they thought," Rooney once said. "And they say, 'Hey, yeah!' And they like that."





OH BOY, I'LL MISS HIM!!!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011



Abraçados
(- não falamos ! -)

mas que importa?
Os nossos corações não param de conversar
(Ronaldo Franco)


Eles pensam e dizem...

Frank Sinatra

Frank Sinatra
"Quando você atinge minha idade (63), ergue um muro ao seu redor.E você não se magoa como antes." * Em vez de cantar só dois ou quatro compassos de cada vez - como a maioria dos cantores - eu conseguia cantar seis, às vezes oito compassos, sem tomar ar." * Não sei o que outros cantores sentem quanto cantam...Mas, sendo um maníaco-depressivo de 18 quilates e tendo uma vida de violenta contradição emocional, tenho uma capacidade superdesenvolvida tanto para a tristeza como para euforia." * "Foram 3 décadas fecundas, movimentadas, divertidas, às vezes tempestuosas, ocasionalmente tristes, mas sempre excitantes...Quero tempo para ler, refletir...Talvez eu vá começar a viver." * My way: desgostos, tive alguns. Mas, novamente, muitos poucos para contar...

Tarso de Castro

Tarso de Castro
"Viver é fácil. A dor é apenas o intervalo para fumar."* É preciso ter amigos, mas poucos." *

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes
"A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer." * Nada melhor para a saúde que um amor correspondido." * Nada mais lindo que as feiruinhas da mulher amada."

Tom Jobim

Tom Jobim
"O Brasil não gosta do Brasil." * "Ah, eu sou um mestiço de popular com erudito. Sou um eruditinho." * "Estou cansado de dar entrevistas. Não sou mais homem ou compositor, sou entrevistado." * "A inteligência é o mais pobre dos atributos do homem." * "Passei minha vida inteira sem tempo de ter saudade." * "Nós somos um país riquíssimo com vocação para a pobreza."

Pecados

Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em outubro de 2011
Foi com certo alívio que eu li, há muito tempo, uma declaração de Carlos Heitor Cony. Dizia ele que nada melhor para curar uma dor de corno do que uma boa música brega.

Meu alívio não se deu por conta de estar na fossa, mas (dos males, o menor) por atenuar meu pecado de ser grosseiramente sentimental. Cony é escritor sério, de alta reputação e graves temas. Inteligência refinada, dada aos sutis meandros do pensamento. De certo saberá versos camonianos de cor e salteado, terá preferências na música erudita, conhecerá vinhos e já entrevistou o Papa. Ainda assim, tem sua quedinha pelo brega — mesmo que em restrita circunstância. Se ele, que é Cony, é assim, que dirá eu.

Muito já me censurei ao notar um gostinho para lá de duvidoso ombreando espaço com minhas predileções mais sofisticadas. Uns pensamentinhos vagabundos que me ocorrem em momentos de saudade, embrulhados no açúcar rude do mau gosto. Eles me assaltam quando passo por uma rua triste, ou vejo a sala vazia onde até ontem dormiram meus pais em visita às netas. Ou quando escrevo cartas melosas às minhas filhas, para que leiam no futuro. Ou quando lembro da canção Pai Herói, de Fábio Júnior.

Pai Herói não é grave como alguns versos que já cantei na juventude: “Vieram me contar e até jurar / que é de outro que tu gostas / Confesso, meu amor, não acreditei / mas quase caí de costas”. O atenuante é que eu cantava esses por gozação, nos preparos para uma festa brega com amigos da faculdade. Mas para minhas veleidades literárias, para meus versos de João Cabral e ensaios do Davi Arigucci, Fábio Júnior é falta gravíssima.

Gostar de Caetano Veloso (que eu venero) ou de Chico Buarque (que eu cobiço) dá raiva e inveja. Eles despertam a ambição lunática de ser gênio. E achatam a parte sã da mente, que passa a só respirar o ar contrabandeado pela fronteira descabida dos sonhos de fama e talento. Depois, cansado da minha própria pequenez, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Mas isso é ousado, e inatingível. Então desisto e chamo o garçom: para matar a tristeza só mesa de bar. Quero tomar todas, e me embriagar. Se eu pegar no sono, me deitem no chão.
 
 
 

Seres do sexo masculino, anotem:

web


O cara não disse nada.

1-) Tá viajando
2-) Perdeu o celular
3-) Arrumou outra
4-) Tá me amando de longe (será??)
5-) Me odeia e não pode me ver nem lambuzada de nutella
6-) Tá me preparando uma surpresa linda (quer enganar quem, gata?)
7-) Foi internado no hospital
9-) Voltou com a ex
10-) Tá ocupado com o trabalho (vai cagar!)
11-) Tá em depressão pós-derrota do time
12-) Não sabe como me pedir em namoro
13-) Tá sem coragem de ligar. Só.
14-) Esqueceu que eu existo (ui!)
15-) Morreu!
17-) Não me merece
18-) Nenhuma das anteriores
19-) Todas as anteriores
20-) Volte ao topo dessa lista

O silêncio de um homem pode matar uma mulher. Definitivamente!

"Me Deixas Louca" e "Retrato em Branco e Preto" - Elis Regina




NO BANCO DO BUZU


texto de zédejesusbarreto*
(especial para o Jeito Baiano)
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Aula de cidadania
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Um ‘rolê’ de buzu, de Vida Nova (bairro de Santo Amaro de Ipitanga) até a Estação da Lapa, em Salvador – via Itinga, São Cristóvão, orla –, de olhos e mente abertos, em horário de tráfego maneiro para que se possa bem apreciar as coisas, é uma aula.
A primeira lição é sobre a relatividade do tempo. O tempo, no volante de um carro, voa. Já dentro de um buzu os minutos se arrastam. São duas horas nesse roteiro, quando se pega um fluxo bom de tráfego. Dá para ler jornal, tirar soneca, trocar prosa, conhecer gente e até meditar… sem agonia.
De olho na janela, a diversidade de paisagens impressiona. Ali, resto de mata, lá roçados que parecem o interior sertanejo, acolá casebres, adiante lixões e invasões que lembram os ‘musseques’ de Luanda (Angola). Rodando mais, passamos por bairros superpovoados e moradas de laje batida e tijolo aparente, vielas espremidas e ruas esburacadas. Há tabuleiros e traquitanas de comércio informal por tudo que é canto. E meninos vagando, vagabundos, desocupados, cães atarantados e muita pobreza.
Movimento! Vida se mexendo de todas as formas. São variadas, múltiplas realidades, cidades dentro da Grande Cidade. Quando se destampa o mar, adiante, hora passada, em Itapuã, parece outra urbe, um outro mundo. Respiram-se novos ares, maresia, mesmo com os passeios esburacados, carências conhecidas.
Uma constatação importante clama: Somos um povo absolutamente mestiço, uma gente mulata, cabocla, mistura de cores e traços. Variados matizes. Nossa população não é em p & b, como querem alguns. Os branquelos são raros e os negões puros, bem poucos. Isso me faz pensar no mestre Cid Teixeira que sempre repete, sem pejo: ‘Somos mulataria!’
Retinto é o motô (motorista), paciente, impassível, atento… a enfrentar muitos buracos no percurso, lama, quebra-molas a rodo, aquele barulhaço aterrador às aceleradas, caminhões parados fechando passagem, carro particular ignorando o fluxo, parado na faixa, mal estacionado, manobrando errado e matracando o ritmo, falta de respeito e de educação geral sobre rodas.
E mais pedestres desastrados, ciclistas (até crianças) e motoqueiros imprudentes, dá até arrepios… Mas, juro, nada perturbou o motô, nem mesmo a quantidade absurda de idoso e ‘carteirante’ que entra pela dianteira; fora os pedintes, os deficientes, os ‘crentes’ pregando a bíblia e vendendo doces, os ex-drogados relatando dramas e arrecadando trocados para a salvação pela fé… Uma festa dentro do buzu que roda e ronca. O papo rola, a vida vai, o tempo corre.
O cobrêro (cobrador) puxa conversa passando o troco, de bem com a vida, pra se distrair, repetindo, no seu jeito baiano de se mostrar gentil: ‘Valeu, broder, obrigado’.
A brisa atlântica varre o bafo humano que vai se impregnando no interior do buzu e o vaivém das ondas atrai os olhares, descansa as vistas. E a vida segue aos trancos e arrancos, parando e seguindo, entrando e saindo, na baralhada do barulho de vozes, ranger de freios, roncar de motores e destinos. Fruição humana.
Nossos governantes deviam, vez ou outra, feito gente, andar de buzu. Faz bem.
Tornar-se-iam mais humanos.
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*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (maio/2010)

Um jeito baiano de viver...

O CORREDOR DA VITÓRIA SEGUNDO JOLIVALDO

27/05/2010
Foto de CLÁUDIO NIEDERAUER
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O REINO DE SHANGRILÁ
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texto de JOLIVALDO FREITAS*
(especial para o Jeito Baiano)
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Mais de 99 por cento da Bahia não sabe que existe uma praia chamada Shangrilá, em Salvador, e que nem está no mapa, nem no roteiro turístico e nem em nada. A não ser na cabeça dos maconheiros e dos pescadores que a frequentaram nos anos 60 e 70.
Todo mundo sabe da praia da Ribeira, Porto da Barra, Itapuã e até as do Litoral Norte, que já nem pertencem à capital, mas ignoram a lúdica e única praia da cidade que está localizada numa falésia.
Para quem não sabe e nem tem mesmo a obrigação de saber, justamente por não ser tão importante assim ou algo que vá impedir a hora do Harmagedon, a praia fica no logradouro com o metro mais caro da cidade. Está abaixo do Corredor da Vitória, onde hoje estão os mais caros apartamentos e os mais altos edifícios da moderna metrópole.
O Corredor da Vitória foi para onde, no período colonial e principalmente no limiar do século XX, os grandes fazendeiros de cana-de-açúcar, que não queriam passar a vida eternamente de forma bucólica, decidiram montar seus casarões. No final do século vieram os comerciantes franceses, italianos, ingleses e outros alienígenas e montaram casarões coloniais, fugindo das ruas irregulares do centro da cidade.
Ainda restam alguns casarões de importância histórica, mas a maioria absoluta, mesmo se tratando de um importante acervo, um patrimônio histórico, foi destruída pela sanha dos construtores.
Um exemplo recente é o do casarão neocolonial, parecendo daqueles americanos do filme E o Vento Levou, que pertencia ao reputado jornalista Jorge Calmon, que, segundo dizem as más-línguas, foi vendido para uma construtora com a garantia de que a casa seria preservada e o prédio construído na parte de trás. Ainda, segundo dizem por aí, a construtora derrubou o casarão nas madrugadas de um final de semana, decidindo pagar a multa pela nefasta ação, coisa que seria pouco em relação ao faturamento com o projeto. Foi-se a memória, ficaram os granitos da fachada do arranha-céu.
O Corredor da Vitória, que ganhou seu nome de batismo durante o período da guerra da Independência da Bahia – por onde as forças nativas marcharam quando da vitória contra o Exército Português de Madeira de Mello –, sempre foi o sonho de consumo da classe mais abastada da cidade, por sua posição privilegiada.
Fácil acesso às praias da área sul da cidade e próximo ao Centro Histórico. Também com uma paisagem privilegiada, debruçado sobre a Baía de Todos os Santos e com vista para a Ilha de Itaparica, Ilha de Maré, Madre de Deus e subúrbio ferroviário. Uma dádiva.
Abaixo, um imenso paredão de pedras de fogo e vegetação rasteira, com águas límpidas que dá até para ver os cardumes passando. Hoje o acesso para as praias abaixo das escarpas é fácil. Os prédios milionários fizeram piers e montaram chariots que descem sobre trilhos.
Antigamente ninguém tinha coragem de descer. Para chegar lá era preciso vir de barco, saindo do Solar do Unhão, na zona do Comércio ou do Porto da Barra.
Nos anos 60, quando a repressão aos hippies era imensa e fumar maconha dava com a polícia batendo de cassetete de borracha ou “fanta” (cassetete de madeira de lei) no lombo, os chincheiros encontraram o lugar perfeito e foram para lá se juntar a grupos de artistas que já frequentavam o lugar pela sensação de estar fora do burburinho da cidade.
A lenda urbana reza que quem batizou a área de Shangrilá foi o compositor baiano Caetano Veloso.
Carlito Mau Mau, Zé Diabo e Arquimedes Maluco frequentavam a área, descendo pela rua e se arranhando todo nas pedras e nos feixes de tiriricas. Naquele dia Mau Mau levava em sua bolsa de couro curtida e pintada com o símbolo de Paz e Amor um novo tipo de cogumelo que um argentino mais doido ainda tinha dado de presente no Porto da Barra, para fazer chá. Fizeram e provaram. Tirando umas luzes piscantes, uma sensação de dormência na língua e uma comichão que não parava nas pernas, nada demais aconteceu.
Os três moravam no Edifício Apolo XXVIII (o nome em homenagem aos foguetes norte-americanos), na época o maior da cidade com 28 andares, cheio de problemas como elevador que não funcionava e o cara tinha de subir a pé até o último andar para chegar em casa; faltando água, luz cortada e limpeza zero. Saíram do Sahngrilá e decidiram subir a montanha de escadas para apreciar a paisagem do telhado do Apolo.
Talvez pelo esforço, foram chegando e recebendo a rebordosa. O chá começava a fazer seu efeito. O sol, na ótica de Mau Mau, estava parecendo se dissolver como tinta a óleo: escorrendo no horizonte após a Ilha.
Zé Diabo viu passar uma revoada de araras e Arquimedes Maluco decidiu voar atrás. Jogou-se. Deu sorte de cair sobre uma plataforma poucos metros abaixo e ficou lá com o braço quebrado. Pelo susto o efeito passou em todos. Os moradores chamaram os Bombeiros.
Os soldados subiram todos os andares, cheios de equipamentos, retiraram o maluco do local de risco e foram descendo com os três. Os moradores tinham se alinhado nas escadas. Cada degrau um morador.
Os três drogados descendo e levando cascudos, piparotes, piabas, telefone sem fio, cusparadas, chutes, beliscões, ofensas e dedadas no toba, e os bombeiros fazendo de conta que não estavam vendo. Chegaram roxos até o andar onde moravam.
Por coincidência, depois disso nunca mais o Shangrilá voltou a ser frequentado. A loucura deles chamara a atenção da imprensa e a polícia passou a dar batidas e colocar para correr qualquer um que não fosse morador da área.
Hoje, os três, pessoas bem situadas na sociedade baiana, garantem que não lembram da história. Juram por Senhor do Bonfim que não foi com eles.
E ninguém, no edifício, se lembra do caso. A praia de Shangrilá não é mais a mesma. Está cercada de edifícios cujos apartamentos valem milhões de dólares.
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*Jolivaldo Freitas – Jornalista e escritor

MEMÓRIA

 

Quando foi aquele tempo
em que eu me olhava, sonhando,
nas águas desta bacia
e via o rosto da moça
que, do fundo, me sorria?

Onde foi parar o sonho?
Pra onde foi a magia?
Pra onde o rosto da moça
que, do fundo, me sorria?

Em que águas refletida
sorri agora, tardia,
a face que me sorria
lá no fundo da bacia?


De A Face na Água (1990)

Maria Thereza Noronha