É curioso como, com o avançar dos anos e o aproximar da morte, vão os homens fechando portas atrás de si, numa espécie de pudor de que o vejam enfrentar a velhice que se aproxima. Pelo menos entre nós, latinos da América, e sobretudo, do Brasil. E talvez seja melhor assim; pois se esse sentimento nos subtrai em vida, no sentido de seu aproveitamento no tempo, evita-nos incorrer em desfrutes de que não está isenta, por exemplo, a ancianidade entre alguns povos europeus e de alhures.
Não estou querendo dizer com isso que todos os nossos velhinhos sejam nenhuma flor que se cheire. Temo-los tão pilantras como não importa onde, e com a agravante de praticarem seus malfeitos com menos ingenuidade. Mas, como coletividade, não há dúvida que os velhinhos brasileiros têm mais compostura que a maioria da velhorra internacional (tirante, é claro, a China), embora entreguem mais depressa a rapadura.
Talvez nem seja compostura; talvez seja esse pudor de que falávamos acima, de se mostrarem em sua decadência, misturado ao muito freqüente sentimento de não terem aproveitado os verdes anos como deveriam. Seja como for, aqui no Brasil os velhos se retraem daqueles seus semelhantes que, como se poderia dizer, têm a faca e o queijo nas mãos. Em reuniões e lugares públicos não têm sido poucas as vezes em que já surpreendi olhares de velhos para moços que se poderiam traduzir mais ou menos assim: "Desgraçado! Aproveita enquanto é tempo porque não demora muito vais ficar assim como eu, um velho, e nenhuma dessas boas olhará mais sequer para o teu lado..."
Isso, aqui no Brasil, é fácil sentir nas boates, com exceção de São Paulo, onde alguns cocorocas ainda arriscam seu pezinho na pista, de cara cheia e sem ligar ao enfarte. No Rio é bem menos comum, e no geral, em mesa de velho não senta broto, pois, conforme reza a máxima popular, quem gosta de velho é reumatismo. O que me parece, de certo modo, cruel. Mas, o que se vai fazer? Assim é a mocidade- ínscia, cruel e gulosa em seus apetites. Como aliás, muito bem diz também a sabedoria do povo: homem velho e mulher nova, ou chifre ou cova.
Na Europa, felizmente para a classe, a cantiga soa diferente. Aliás, nos Estados Unidos dá-se, de certo modo, o mesmo. É verdade que no caso dos Estados Unidos a felicidade dos velhos é conseguida um pouco à base da vigarista; mas na Europa não. Na Europa vêem-se meninas lindas nas boates dançando cheek to cheek com verdadeiros macróbios, e de olhinho fechado e tudo. Enquanto que nos Estados Unidos eu creio que seja mais... cheek to cheek. Lembro-me que em Paris, no Club St. Florentin, onde eu ia bastante, havia na pista um velhinho sempre com meninas diferentes. O "matusa" enfrentava qualquer parada, do rock ao chá-chá-chá e dançava o fino, com todos os extravagantes passinhos com que os gauleses enfeitam as danças do Caribe, sem falar no nosso samba. Um dia, um rapazinho folgado veio convidar a menina do velhinho para dançar e sabem o que ela disse? - isso mesmo que vocês estão pensando e mais toda essa coisa. E enquanto isso, o velhinho de pé, o peito inchado, pronto para sair na física.
Eu achei a cena uma graça só, mas não sei se teria sentido o mesmo aqui no Brasil, se ela se tivesse passado no Sacha's com algum parente meu. Porque, no fundo, nós queremos os nossos velhinhos em casa, em sua cadeira de balanço, lendo Michel Zevaco ou pensando na morte próxima, como fazia meu avô. Velhinho saliente é muito bom, muito bom, mas de avô dos outros. Nosso, não.
Acabei agorinha mesmo de ler um livro que me fez lamber os beiços, salivar e talvez até babar um pouquinho. O título é The Science ofKissing: What Our Lips Are Telling Us (A Ciência do Beijo: O Que Nossos Lábios Contam), de Sheryl Kirshenbaum. Tá aqui, ó.
De uma perspectiva estritamente reprodutiva, os beijos não são indispensáveis. E isso é uma das coisas bacanas na condição humana: a astúcia de unir o útil ao agradável. Como observou o historiador holandês Huizinga, somos não apenas homo sapiens, mas também homo ludens. Isto é, criaturas não só de necessidades, porém de desejos. Convém lembrar, ainda, que o homem é a única criatura que copula com os parceiros de frente um para o outro, olho no olho. Não menosprezando outras simpáticas acrobacias, esse aspecto da nossa condição me parece a quintessência da subjetividade – a primazia do individual sobre a natureza. A identidade do parceiro conta. Como realçam os versos tocantes de Dorothy Parker: Lips that taste of tears, they say/ Are the best for kissing (Lábios com gosto de lágrimas/São os melhores para beijar.)
Como o beijo não é imperioso para a perpetuação da espécie, diversas culturas floresceram sem um único selinho. Tadinhas: engoliam em seco e chupavam o dedo, não sabendo o que perdiam. O ato de beijar é apenas em parte instintivo, sujeito a uma enorme influência cultural.
O testemunho literário mais antigo de uma bicota remonta a 1500 A.C., engastado nos textos védicos em sânscrito dos alicerces do Hinduísmo. Não há uma menção específica a palavra “beijo”, mas encontramos suculentas alusões a “lamber” e “sorver o orvalho dos lábios” . No século III AC, o Vatsyayana Kamasutra (conhecido na intimidade como Kamasutra) já incluía um capítulo inteiro com suntuosas descrições de técnicas para uns boca-a-bocas capazes de ressuscitar Tutankamon com fogo no rabo.
Seguramente, os indianos passaram milhares de anos se beijando – mas não foram os únicos espertinhos. Mesmo no Antigo Testamento (compilado durante os 12 séculos que precederam o nascimento de Cristo) proliferam beijaços. Um dos mais arrepiantes é o referido no Cântico dos Cânticos, atribuído ao rei Salomão (que, segundo reza a história, não podia ver uns lábios úmidos e carnudos sem, bem, fazer uma boquinha). “Que ele me beije com todos os seus beijos, pois seu amor é melhor que o vinho.”
Na Grécia clássica, localizamos beijos nos épicos de Homero, transmitido pela tradição oral (com trocadilho). Até o rei Príamo, de Troia, beija a mão de Aquiles, para lhe suplicar a entrega do cadáver de seu filho Heitor. Aquiles dá uma limpadinha discreta na mão lambuzada e aquiesce (não sabemos como reagiria se o beijo tivesse sido no seu calcanhar). De acordo com Heródoto, os egípcios/as se recusavam a beijar gregos/as, porque estes consumiam a carne do seu animal sagrado, a vaca. (MARLENE DIETRICH BEIJA PIAF)
Já os Romanos, inventores da honorável tradição da bacanal romana, beijavam mais que a Paris Hilton com a macaca. E semearam a prática nos rincões que foram conquistando (talvez o mais louvável ato civilizacional de todos os tempos). Quando o Cristianismo se tornou a religião do império, a Igreja ficou com a pulga atrás da orelha por causa intemperança beijoqueira. O remédio era institucional e um mal menor: como diz São Paulo, “é melhor casar do que abrasar.” O arguto apóstolo discordaria daquilo que a despeitada letra de As Time Goes By proclamará século mais tarde: “A kiss is just a kiss.” (Um beijo é só um beijo) Que nada: um beijo é um rastilho de pólvora.
Na Idade Média, muita gente não sabia ler nem escrever (igualzinho agora) e assim o beijo era usado como um meio legal de selar contratos. Rabiscavam um X na linha pontilhada e tascavam uma beijoca no alvo. Quanto ao galante beijo na mão de uma dama, brotou durante a Revolução Industrial, na Inglaterra. Aventureiros e comerciantes espraiaram o beijo pelo mundo afora. Em 1872, Darwin comentou que, dada a popularidade e a diversidade universais do beijo, os seres humanos deveriam transportar um anseio inato para unirem os lábios. Bidu! (VAI UM BEIJO PARA COMEÇAR BEM O DIA? Ô! E EMBRULHA MAIS DOIS PRA VIAGEM)
Claro que os costumes e as normas culturais também moldaram o gesto. Ainda hoje na Rússia os homens se saúdam com um beijo na boca. Sei lá, mas acho que eu não beijava Stalin nem que fosse para evitar o Gulag. A propósito de beijos totalitários, Tony Curtis, depois de filmar Quanto Mais Quente Melhor, fungou que “beijar Marilyn Monroe foi como beijar Hitler.” Ai, ai, Deus dá nozes a quem não tem dentes. Ei, Todo-Poderoso, dá próxima vez reserve esse tipo de noz para os Nogueiras, falou? Não costumamos cuspir no prato que comemos.
Como um selinho de despedida (nas leitoras; nos leitores, um aperto de mão chega perfeitamente), eis algumas imagens icônicas de bocas em intersecção. Le Baiser de l’hôtel de ville, foto – Em 1950, Robert Doisneau clicou para a revista Life um casal se beijando nas ruas fervilhantes de Paris. A foto se tornou um símbolo imediato do l’amour parisiense: charmoso, elegante, passional. A identidade do casal permaneceu um mistério até 1992. Acontece que Jean e Denise Lavergne equivocadamente pensaram que eram eles aquele par ímpar, e nos anos 80 se encontraram com o fotógrafo para um jantar. Doisneau, gente fina, não quis despedaçar as ilusões dos pombinhos já idosos, e portanto calou o bico. Eles retribuíram processando o fotógrafo por “apropriação indevida da imagem”. O processo forçou Doisneau a revelar que ele montara a foto, usando Françoise Delbard e Jacques Carteaud, namorados que tinham acabado de se beijar sob as barbas dele. Durante o beijo, o fotógrafo não quis ser um pentelho e interromper a alquimia – mas depois pediu que repetissem o gesto. Claro que eles não se importaram. Doisneau ganhou a causa. Der Kuss, tela – Quando o artista austríaco Gustav Klimt pintou o seu Beijo, tinha 45 anos e ainda vivia com a mãe e duas irmãs. Apesar dessa fachada careta, tinha um apetite sexual priápico – foi pai de pelo menos três filhos ilegítimos. O quadro, uma obra-prima da Art Noveau, está no museu Belvedere, em Viena. Encerra múltiplos significados, mas o que mais seduz é a fusão quase arbórea do casal – lembrando o mito platônico do Eros primordial e perfeito, que suscitou o ciúme dos deuses, os quais reagiram separando-o em dois e condenando as duas partes a buscar eternamente sua outra metade.
Primeiro Beijo na História do Cinema – Filmado pelo inventor americano Thomas Alva Edison, em 1896, no seu estúdio em New Jersey. Dura 23 segundos e introduz a atriz May Irwin. Foi também a primeira banana que a sétima arte deu para a sociedade vitoriana. Mas o que acho mais comovente é a tese implícita de que os brutos também amam e o amor é cego.
A Um Passo da Eternidade, filme de Fred Zinnemann – A Deborah Kerr não que o Gregory Peck, mas que
Burt Lancaster caia de boca. Um filme célebre por muitas razões (entre elas, o Oscar redentor de Frank Sinatra). Mas é este beijaço que dá água na boca.
E O Vento Levou, de Victor Fleming – Beijos roubados também podem ser sublimes – desde que você tenha o panache arrebatador de um Rhett Buttler (e não a boçalidade de um Big Brother sob um edredon). Observem como o sorrisinho maroto da Scarlett, na manhã seguinte, me cobre (epa!) de razão.
MEMORÁVEIS BEIJOS HOLLYWOODIANOS - Esqueçam as baboseiras que a mocinha tontinha gorgoleja. E admitam que um beijo pode ser só um beijo, mas dá e sobra.
Dedicado não apenas à análise de assuntos eclesiásticos mas também a questões como o amor, a morte e a justiça, o padre Antônio Vieira ganha nova edição de seus sermões
Antônio Vieira (1608-1697), o padre português, foi um prestidigitador do Verbo, um teórico pragmático, um conservador revolucionário: tudo acatava e tudo subvertia. Torcia os versículos da Bíblia à medida dos seus desejos e construía com palavras o império perfeito que a vida lhe recusava. Se vivesse hoje escreveria, em jornais ou blogs, textos incendiários sobre o estado do mundo. As suas opiniões pró-israelitas o impediriam de ganhar o Nobel da Literatura, que merecia. E os críticos o desdenhariam, pelo excesso barroco da sua escrita ou pela vertigem acrobática das suas ideias – bem como pelo furor da sua intervenção pública, que o tornaria, talvez não um padre, mas um político autêntico, pregador e profeta.
Deixou-se fascinar pelas crenças milenaristas em voga no século 17 porque o empurravam para o futuro, salvando-o do nevoeiro resignado da época. Era um homem de ação, com uma vontade indômita de transformar o mundo e de restituir a Portugal a glória perdida. Dos 33 aos 44 anos, correu as cortes da Europa, como embaixador informal de dom João IV, tentando vender aos amigos da Espanha a ideia de Portugal independente. Não foi muito feliz nessas peregrinações diplomáticas. Em certo momento, chegou a aconselhar o rei a que subornasse os altos funcionários holandeses para comprar Pernambuco da Holanda (com o dinheiro dos judeus, que sempre se esforçou por fazer regressar a Portugal) ou, finalmente, que entregasse definitivamente Pernambuco a troco da paz e da independência do resto da colônia – o que fez com que o apelidassem de “o Judas do Brasil”. Mas o seu talento de orador impressionava, e os ensinamentos e contatos que foi fazendo pela Europa se revelariam extremamente úteis.
Na sua formação ideológica avultaram as conversas tidas em Amsterdã com o rabino Menasse Ben Israel, que o levaram a acreditar numa segunda vinda do Messias, para reconduzir à Palestina as Dez Tribos da Dispersão, que estariam nas Américas, e proceder assim à salvação temporal do mundo. Essas teorias atearam o espírito desesperadamente otimista de Vieira, lançando nele o projeto de um Quinto Império português. A ideia alimentaria os seus dois magnos e heterodoxos projetos de escrita (ambos inconclusos): a História do Futuro e a Clavis Prophetarum (Chave dos Profetas). Pouco antes de morrer, definiria os seus sermões como meras “choupanas”, por contraste com os “palácios altíssimos” que sonhava edificar com a sua Clavis Prophetarum. Na magnífica introdução à nova edição dos Sermões de Vieira, escreve o crítico Alfredo Bosi, organizador do volume: “Que a sublimação de tantas decepções fosse alentada pelo desejo de um povo que viu sepultas nas areias de Alcácer Quibir as últimas esperanças de manter a glória de mais de um século de navegações, descobertas e conquistas, parece hipótese plausível”. Mas os tais “palácios” celestes foram o pretexto utilizado por aqueles que o invejavam para o perseguirem e descredibilizarem.
Ainda hoje há quem procure diminuir ideologicamente a grandeza do seu legado literário e filosófico. Mas os delírios proféticos de Vieira ajudaram-no a pensar livremente em temas então impensáveis, como o da essencial igualdade de todos os seres humanos. Consciente de que o sucesso econômico do Brasil da época dependia da escravatura, não chegou a ser antiescravagista, mas tentou convencer os senhores a deixarem de usar a tortura e escandalizou-os ao pregar aos escravos, na Bahia, comparando o martírio deles ao Calvário de Cristo: “Em um Engenho sois imitadores de Cristo crucificado”. Não hesitou sequer em xingar o próprio Deus, num sermão de valente beleza (Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda, na Bahia, em 1640), por abandonar os portugueses e dar a vitória aos “hereges” holandeses, arrasando assim os seus créditos divinos: “Quero eu, Senhor, converter-vos a vós”. Pugnou arduamente pela liberdade dos índios do Brasil (que queria catequizar, mas não destruir nem escravizar), entre os quais viveu, por longos períodos. Escreveu um catecismo elementar em seis idiomas tribais. Os índios tratavam-no por Paiaçu, isto é, “Pai Grande”.
Consciente de que, como escreveu, “só se governa pelos sentidos”, empregou os bons dinheiros que granjeara durante o seu período de agente publicitário de Portugal em “muitos sinos, muitas imagens de Cristo e de Nossa Senhora e de vários santos (…) e até máscaras e cascavéis para as danças das mesmas procissões, para mostrar aos gentios que a lei dos cristãos não é triste”. As desilusões e ataques que sofreu tornaram-no muitas vezes furioso, mas nunca o vergaram à tristeza. Nessa determinação para a alegria, Vieira foi, de fato, muito mais brasileiro do que português – e não será por acaso que o Brasil o lê e estuda muito mais do que Portugal.
RELÂMPAGO MENTAL
Além da “política do céu” (na expressão certeira do crítico Alcir Pécora), ocupou-se Vieira em analisar todos os assuntos eternos da humanidade: o amor e a morte, a ambição e a inveja, o poder e a justiça. Refletiu também, com inultrapassável clareza e brilho, sobre a própria escrita: “O melhor retrato de cada um é aquilo que escreve. O Corpo retrata-se com o Pincel, a Alma com a Pena” (Sermão de Santo Inácio, 1669). O Sermão da Sexagésima, de 1655, mais do que uma análise crítica da pregação e dos pregadores, é um tratado sobre a arte de bem escrever.
O reconhecimento que teve em vida, conquistou-o Antônio Vieira graças ao seu talento oratório – tão inquietante que acabou por ser proibido de o praticar, depois de julgado pela Inquisição. A sua única vitória política foi a criação da Companhia de Comércio para o Brasil, em 1649, que se manifestaria de grande utilidade para a reconquista de Pernambuco, em 1654. Conseguiu autorização do rei para que os cristãos-novos investissem nessa companhia os seus capitais – o que a Inquisição não lhe perdoou. Anos mais tarde, depois da morte de dom João IV (em 1656), uma carta em que profetizava a ressurreição do rei forneceria aos atentos e vingativos senhores do Santo Ofício o pretexto para a sua prisão e julgamento. Exilou-se em Roma, onde foi acarinhado pela convertida rainha Cristina da Suécia, que o convidou para permanecer como seu confessor particular. Vieira declinou os convites e as mordomias para regressar a Portugal, munido de um documento papal que o libertava de qualquer jurisdição da Inquisição portuguesa.
Em 1681, com 73 anos, Antônio Vieira embarcou pela sétima e derradeira vez para a Bahia, para se entregar novamente ao trabalho missionário. Aí morreria, 16 anos depois, desgostoso, roído por intrigas que, de novo, lhe haviam retirado o direito a pregar. Seria ilibado dessas últimas acusações – mas a notícia chegou já depois da sua morte. Desaparecia assim, no desassossego solitário que escolheu como modo de vida, o menino que aportara a São Salvador da Bahia aos 6 anos de idade e que se deixara seduzir pelo espírito empreendedor e ávido de conhecimento dos jesuítas, a ponto de fugir de casa aos 15 anos para se juntar a eles – segundo reza a lenda, depois de um “estalo”, um relâmpago mental que terá sentido diante da imagem da Senhora das Maravilhas. Foi um lúcido alucinado. “Definir-se e arder, isso é amar”, escreveu. Afogou todas as decepções no mar sem fundo da língua portuguesa, que transfigurou: ainda hoje as suas palavras caminham diante de nós como trovões de uma verdade maior do que o tempo.
Inês Pedrosa é jornalista e escritora portuguesa, autora do romance Fazes-me Falta, entre outros.
Eu ria do meu amigo Manoel. Avarento que só vendo. Sua tática era carregar uma nota de cem reais como desculpa para não pagar nada pela frente.
Não é que ele não tivesse dinheiro, o coitadinho não contava na hora com notas menores.
Diante do estacionamento, ele me dizia: “Paga para mim que não tenho troco”. Na banca de revistas, “paga para mim que não tenho troco”. Depois de uma cerveja, “paga para mim que não tenho troco”.
A garoupa salvava seu zoológico. Eu gastava tudo.
Salafrário! Sua companhia me multava como um Ibama. Sua companhia me convertia num traficante de animais. Meu Pantanal financeiro morria a seu lado, à míngua de água. Dos meus bolsos, ouvia os últimos suspiros da tartaruga-de-pente, da garça, da arara, do mico-leão-dourado e da onça-pintada. Não restava uma pena, uma escama, para reconstituir a história de minha generosidade.
Ele terminava o dia sem gastar um vintém. Lustrava o porquinho comigo, preservava a poupança. E ainda dissimulava a mesquinhez com simpatia filantrópica. Em sua concepção, facilitava a vida dos comerciantes ao não tirar o dinheiro miúdo da caixa registradora. Apelidei Manoel ironicamente de Lei do Troco, aquela do ônibus.
Apesar da minha raiva justificada, havia uma verdade sutil por detrás de sua atitude.
Manoel compreendeu a maldição da nota de cem reais. O fardo da nota de cem reais.
Todas as vezes em que levo a mais alta efígie da República, não posso usar.
É trocar a nota que a grana se vai num minuto. Some. Desaparece. Escorre para o ralo.
É magia negra. Algo inexplicável. Mais demorado gastar uma nota de R$ 20 do que uma de R$ 100. Os filhos farejam quando acabamos de desmembrar a quantia, as dívidas são informadas, as contas nos acham na rua.
Existem gnomos credores dentro da carteira, que devoram o cardume filhote da garoupa, deve ser isso.
Como um valor pode desaparecer momentaneamente? Vejo-me como vítima de um truque de prestidigitação, de um golpe de ilusionismo do Banco Central.
Você evita torrar os cem reais, faz solenidade, economiza a folhinha durante sete dias.
É comprar com ela uma cartela de aspirina que perde o controle da situação. Sobram R$ 98, quase a mesma coisa, quase. Mas o montante evapora em menos de duas horas.
Há uma imunidade parlamentar na cédula azul, que permite que ela resista mais. Quando vira outro bicho, desaparece.
Tanto que Eike Batista se recusa a carregar notas de cem reais. O homem mais rico do Brasil não é bobo de arriscar sua fortuna numa superstição.
Nada impediu que o show "Opinião" se tornasse sucesso de público, a ponto de lotar com antecedência
Thereza Aragão e eu, com nossos três filhos, morávamos num apartamento da rua Visconde de Pirajá, 630, no trecho de Ipanema chamado Bar Vinte.
Nesse apartamento fui preso pela primeira vez, no dia em que os militares impuseram ao país o famigerado AI-5, mas, quatro anos antes, em meados de 1964, pouco depois do golpe, houve uma reunião, convocada por Vianninha (Oduvaldo Vianna Filho), que daria origem ao Grupo Opinião.
Ninguém naquela noite falou nisso, porém. O objetivo do encontro não era fundar um novo grupo teatral, mas, antes de mais nada, voltar à ativa após a liquidação do CPC da UNE pela repressão militar.
Além dos donos da casa e de Vianninha, participaram da reunião Armando Costa, João das Neves, Pichín Plá e Paulo Pontes, todos ex-integrantes da CPC, e mais Nelson Xavier, ligado ao Teatro de Arena de São Paulo.
O propósito do encontro era montar um show inspirado num disco que Nara Leão acabara de lançar (com capa de Jânio de Freitas) intitulado "Opinião".
Vianninha propôs fazermos um espetáculo musical que reunisse Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale -uma moça de classe média, um malandro do morro e um sertanejo nordestino. Até aí, tudo bem.
O problema é que, como tínhamos integrado o CPC, contra o qual os militares moviam um processo por subversão, não podíamos aparecer como produtores do espetáculo. A polícia o proibiria de imediato. Que fazer então?
Foi aí que alguém sugeriu pormos, como produtor do espetáculo, o Teatro de Arena. A sugestão foi aprovada, mas teria de ser aceita pelos companheiros do Arena. Feito o contato no dia seguinte, a proposta foi acolhida e, então, Vianninha, Paulo Pontes e Armando Costa começaram a inventar o show, que se tornaria a primeira manifestação pública contra o regime de 1964.
Certamente, isso não estava explícito no espetáculo, mas, entre canções e tiradas engraçadas, defendia-se a democracia e condenavam-se o latifúndio e a desigualdade social.
Tomada a decisão de escrevê-lo, surgiu a questão de onde montá-lo. Prevaleceu a sugestão de Vianninha: montá-lo no mesmo local onde o Teatro de Arena se apresentara no Rio em 1959, isto é, numa arena improvisada no shopping center da rua Siqueira Campos.
Fez-se contato com seu proprietário, o senador Arnon de Mello, e acertamos montar ali um pequeno teatro de arena na área originalmente destinada à instalação de uma boate.
Com uma grana que sobrara do CPC, mandamos fazer um estrado de madeira que serviria de palco. A plateia foi constituída pelas cadeiras do cinema de um tio de Vianninha que falira e nos chegaram cobertas de lama seca, pois haviam ficado meses ao ar livre, acumulando poeira, debaixo de sol e chuva.
Nós mesmos as lavamos e, com a ajuda de dois operários, as parafusamos e montamos. Por isso é que, durante os espetáculos, se alguém se mexia na cadeira, ela rangia, mas isso não impediu que o show "Opinião" se tornasse sucesso de público, a ponto de ter casas lotadas com um mês de antecedência.
Àquela altura, os milicos já se haviam dado conta de que aquilo era coisa de comunista, mas não se atreveram a tirar de cartaz um espetáculo com tal aprovação do público.
Em compensação, passaram a cortar e proibir quase tudo o que a classe teatral tentava montar. Depois de "Liberdade Liberdade", chegou a vez de montarmos outra peça nossa, que foi "Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come", escrita com o propósito deliberado de criar uma obra que, por sua qualidade estética, ganhasse os censores.
E os ganhamos: a peça foi montada sem cortes e mereceu todos os prêmios do teatro brasileiro naquele ano de 1966. Lembro-me de tudo isso com saudade, não daquela época de repressão e medo, saudade dos amigos, dos companheiros e companheiras, do nosso e dos outros grupos teatrais.
Lembro-me também de um fato engraçado. Ambrósio Fregolente, que fazia o papel de um coronel em "Se Correr o Bicho Pega", passou a trocar a fala "Comi a mulher de Brás das Flores" por "Comi o Brás das Flores", o que comprometia o herói da peça. Fui encarregado de falar com ele sobre isso, mas sua reação foi inusitada. Começou a gritar: "Kremlin, Kremlin, os comunistas estão querendo me censurar!". É que dera para tomar umas e outras antes de entrar em cena.
Mais perto. É isso. Mais perto do meu medo. Mais perto do meu desejo. É que, em certas noites, o coração brinca de ser fogueira e acende o riso. Tudo é luz em histórias de um dia outro que já sinto hoje. Eu adivinho abraços, podia usar no meu cartão de visitas. Em silêncios, antecipo sua mão, onde vou caber inteira. Sei miudezas, coleciono pequenos acertos: o próximo carro é azul! É que, em certas noites, essa pequena brasa insiste em bater em meu peito. Um exagero! leques acelerados e uma certa recriminação no tom. Não há comportas para o meu sentir. Extravaso. Escapo, agora. Sou maior. E mais só. Ainda brilho, mas só no escuro. E me espanto, às vezes, como quem vive. Apontam. Sou eu? Sou. Nem ligo. A tal brasa, acesa, morna, no centro do peito. Tem querer bem de todo jeito. O meu é feito noite de São João. Tem fogueira e festa, na rua, no céu, no corpo. Mas me antecipo. Não preciso dizer tudo. Ou não agora. Não preciso, repito, como se fosse uma certeza e não uma inquietação. Eu vou muito rápido. Epa! E já pus os pés pelas mãos e, ele, um pé atrás. Eu só queria dizer que não aprendi a fazer nós. Mas me calo, não me interessa quem não põe a mão no fogo do peito. Estou cansada. Cansada de me perder nas esquinas de um corpo que ainda não visitei. Trocamos memórias como se fossem segredos. Colecionamos o outro. Insistimos em mensagens que não se complementam. Não há encaixe, não há felicidade. Sim, preciso de mapa. Se te percorrer, me acho – e no momento que escrevo sei que é mais uma das fantasias que usamos pra não latejar tanto. Tento me convencer, armando castelos de cartas, bilhetes, telegramas, mails e sinais de fumaça: um, dois, três...era uma vez: eu. Toda vez. Outra vez. A distância. Gosto das distâncias. De diminuí-las. De transformá-las. Gosto das distâncias, de sabê-las, de encontrá-las para, a seguir, perder-me em encontros. Gosto de encurtar as distâncias, modificar geografias. Gosto de pensar: aqui. Mais, gosto de pensar-te: aqui. Eu queria colocar em um bilhete curto todas as saudades que eu ainda vou sentir, todo o querer que ainda vai pulsar, todo adeus que eu ainda vou chorar. Como já não consigo, suspeito felicidades e aprendo a soletrar desejo com as letras do seu nome.
Happy Eve of Chinese New Year of the Water dragon!! 2012
Image credit: Caseman via Wikimedia Commons.
At midnight on January 23, 2012, Chinese people around the world will welcome the new year, ushering in the Year of the Dragon.
Gong Xi Fa Ca! That’s the traditional Chinese New Year greeting that means “wishing you prosperity” in Mandarin. The first day of the Chinese New Year – which begins at midnight on January 23, 2012 – is the most important of Chinese holidays, celebrated by over 1.3 billion people in China and by millions of ethnic Chinese around the world. It’s a celebration that lasts for 15 days, culminating with the Lantern Festival. Each year is associated with one of twelve animals in the Chinese zodiac. For 2012, it’s the Year of the Dragon. Current local time in Bejing
2009 Chinese New Year Parade in San Francisco featuring the traditional Chinese New Year dragon. Image credit: David Yu via Wikimedia Commons.
There are several variations on the mythology behind Chinese New Year celebrations. Most are based on a ugly bloodthirsty monster named Nian that would emerge on the last night of each year to destroy villages and eat people. A wise elder advised villagers to scare the monster away with loud noises. That night, they set fire to bamboo, lit fireworks, and banged their drums. The monster, afraid of the loud noises and lights, ran away to hide in its cave. In another version of the myth, an old man persuaded Nian to turn its wrath on other monsters, not the villagers. Before he was seen riding away on Nian, the old man, actually a god, advised the people to hang red paper decorations in their homes and set off firecrackers on the last night of the year to keep Nian away. On the first day of the new year, the villagers celebrated, greeting each other with the words “Guo Nian” which means “survive the Nian”, a tradition that has continued to this day to mean “celebrate the new year.”
In China, the familiar Gregorian calendar is used for day-to-day life. But Chinese calendar dates continue to be used to mark traditional holidays such as the new year and the fall moon festival. It’s also used astrologically to select favorable dates for weddings and other special events.
Traditional Chinese New Year Decoration. Image credit: Fanghong via Wikimedia Commons.
The Chinese calendar is a lunisolar calendar, in other words, a combination of solar and lunar calendars. It has a long history spanning several Chinese dynastic rules from as far back as the Shang Dynasty around fourteenth century B.C.. There are several different symbolic cycles within the calendar, used in Chinese astrology, that make it an intricate and complex measure of time.
A month in the Chinese calendar spans a single lunar cycle. The first day of the month begins during the new moon, when no sunlight falls on the lunar hemisphere that faces the Earth. A lunar cycle, on average, lasts 29.5 days, so a lunar month can last 29 or 30 days. Usually, there are 12 lunar months in a Chinese calendar year. In order to catch up with the solar calendar, which averages 365.25 days in a year, an extra month is added to the Chinese calendar every two or three years. As a result, Chinese New Year falls on different dates each year (in the Gregorian calendar) between January 21 and February 21.
Each year of the Chinese lunar calendar is represented by one of twelve animal symbols of the Chinese zodiac: Rat, Ox, Tiger, Rabbit, Dragon, Snake, Horse, Sheep, Monkey, Rooster, Dog, and Boar. For 2012, it’s the dragon’s turn. According to Chinese astrology, people born on the year of the dragon are said to be strong, self-assured, eccentric, intellectual, and passionate, among other things.
Traditional Chinese Dragon used in the dragon dance. Image credit: Caseman via Wikimedia Commons.
Chinese New Year celebrations traditionally lasts 15 days, from the first day (during a new moon) to the 15th day (a full moon). Each day holds a special significance that varies according to local traditions. But first, before the arrival of the new year, homes are thoroughly cleaned to sweep away ill fortune, and to welcome good luck. On new year’s eve, there are family gatherings to celebrate and enjoy sumptuous traditional feasts, and to greet the new year with fireworks at midnight.
Chinese New Year fireworks in Hong Kong. Image credit: Kroot via Wikimedia Commons.
In the days that follow, festive dance parades are held featuring colorful dragons or lions, ceremonies are held to pay homage to deities and ancestors, children receive money in red envelopes, gifts are exchanged, extended family members visit each other, and there’s more traditional feasting.
Chinese New Year red envelopes, used for giving money to children, at Dihua Market, Taipei, Taiwan. Image credit: BCody80 via Wikimedia Commons.
The celebration culminates on the 15th day with the Lantern festival; on this night of the full moon, families mingle in the streets carrying lighted lanterns, often creating a beautiful light display.
Lantern Festival night in front of the Chiang Kai-shek Memorial Hall in Taipei, Taiwan. Image credit: Philo Vivero via Wikimedia Commons.
Bottom line: The Chinese New Year for 2012 will be celebrated on 23 January. It’s the most important of Chinese holidays, celebrated by billions of people across the world. Festivities traditionally last for 15 days to culminate with the Lantern Festival. This calendar is based on a complex lunisolar calendar system that uses both lunar and solar cycles to mark time. As a result, Chinese New Year falls on different dates each year, between January 21 and February 21 of the conventional Gregorian calendar. Each Chinese lunar year is associated with one of twelve animals in the Chinese zodiac. For 2012, it’s the Year of the Dragon.
Extravanca (os Dites 34 e João Frade) com o coreógrafo António Tavares e a bailarina Inês Melo Campos, 3 de Setembro de 2011, Praça da República, Tavira, Portugal.